A esperança dorme ao lado

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Desde o ano 2002, o 29 de setembro é uma data inesquecível para este que vos escreve. Foi neste dia que Júlia nasceu.

A única mulher da minha prole. A única que herdou minha miopia parecia, porém, desinteressada por política, sempre exigindo o máximo de seu próprio rendimento escolar e ocupada com superestrelas do rock-pop-country, a começar por Taylor Swift (uma cantora que já gravou o CD ‘Red’ e cujo número de sorte é o 13).

Até que chegamos a 2018. E Júlia percebeu que tinha de fazer alguma coisa contra as ameaças de quem promete lançar seus cães contra as mulheres que ousam ignorar os limites impostos há séculos.

-       Vou tirar o título de eleitor. Tenho de votar, tenho de fazer alguma coisa.

Como completou 16 anos ontem, ela exercerá esse direito.

Quando ela anunciou sua decisão, contudo, fiquei na minha. Nem tentei saber em quem pretendia votar ou “oferecer” uma chapa. Júlia recusaria e, provavelmente, seguiria o caminho oposto. Votar contra o candidato que defende a tortura era o que bastava.

Minhas esperanças nasceram naquele dia de abril em que Júlia me avisou que era uma eleitora: entendi que, se há aqueles que estão dispostos a ir para as esquinas intimidar e espancar, existem meninas como minha filha, que escuta, pesquisa, reflete e reage.

Chegou setembro. E, ao telefone, a jovem eleitora me pede: “Pai, me indica uns candidatos de esquerda e centro-esquerda. Não conheço ninguém da política daqui”. Júlia mudou para São Paulo com a mãe em 2017.

Só ali me senti à vontade. Liguei para amigos do PT, PCdoB e PSOL. Montei um rol de candidatas, todas mulheres jovens e feministas que incluía a ex-presidente da UNE Carina Vitral, a vereadora paulistana Sâmia Bonfim, Iza Penna, por exemplo. E não esqueci da necessidade de eleger Suplicy para o senado.

Aos poucos, recebia o resultado de suas reflexões:

-       Vou votar no Suplicy. Mas governador tá complicado.

O que eu não sabia é que a reflexão era coletiva: as colegas do colégio que decidiram tirar o título pelo mesmo motivo se juntaram para discutir o destino dos seus votos:

-       O melhor é o Haddad, mas ele tá atrás nas pesquisas e perde do coiso. Ciro tá forte, mas a vice dele é horrível. A Marina até dava pra votar, mas ela é um nada, né.

Isso foi dois dias antes da confirmação da candidatura de Haddad. Hoje, elas e as colegas estão convictas do voto.

A partir daí, as surpresas atingiram outro patamar e Júlia passou a comover o coração do pai:

-       Pra deputado federal vou votar no PSOL.

Entendi que ela estava se referindo a Sâmia Bonfim. Eu estava errado.

-       Vou com a Luiza Erundina.

-       Erundina? Sério? Eu também votaria nela se morasse aí. Pensei que você quisesse votar numa jovem e feminista.

-       A Erundina é jovem, pai.

Calei.

Leci e Julia em São Caetano

Leci e Julia em São Caetano

A surpresa seguinte deu nó na garganta, uma aguinha nos olhos e orgulho no peito:

-       Pra estadual vou votar na Leci.

-       Que Leci?

-       Leci Brandão, pai! – o tom aqui foi de censura e espanto por eu não saber algo tão óbvio.

-       Mas a Leci é do Rio de Janeiro, Júlia…

-       É não, ela já é deputada em São Paulo. E pelo PCdoB.

Eu errado em política, minha filha de 16 anos certa. De novo.

-       E porque você vai votar nela?

-       Porque ela é negra, lésbica, faz cultura popular e já tem muito trabalho com as mulheres negras da periferia.

Assim falou a minha filha branca, adolescente, aluna ce-dê-efe de colégio particular caríssimo da conservadora e rica São Caetano do Sul.

Com ajuda de meus amigos do PCdoB, eu havia descoberto que a agenda da Leci incluía uma reunião com feministas e o pessoal do hip hop do ABC paulista lá em São Caetano. Melhor: o google maps me informa que o endereço da reunião era a 200 metros do prédio onde Júlia mora.

Como eu já teria de ir a São Paulo por conta de seu aniversário e para dar conta de outras demandas fundamentais para um pai, levei Júlia para conhecer Leci.

No meio da reunião, pedi a palavra e expliquei o que pai e filha, tão estranhos àquele ninho, estávamos fazendo ali. A cara e a reação da sambista e deputada, na reta final de uma campanha cansativa, são difíceis de descrever.

E aqui estou em São Paulo, horas depois de acompanhá-la no primeira manifestação de rua de sua vida, no largo da Batata. Lá comemoramos seu aniversário de 16 anos no mais inesquecível dos seus 29 de setembro.

Júlia dorme ao lado. O mundo tem jeito.

 

 

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Sobre o autor

Formado em Jornalismo na Unicap, aprendeu mesmo o ofício como repórter de polícia do Diário Popular (SP) . Passou pela sucursal paulista de 'O Globo' e 'Diário de Pernambuco'. Ganhou os prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, Cristina Tavares, Ayrton Senna de Jornalismo e menção honrosa no Ibero-Americano de Jornalismo pelos Direitos da infância. Saiu das redações para ser secretário de Comunicação de Olinda. Em seguida, foi oficial e consultor de comunicação do UNICEF, assessor de imprensa pouco inspirado na secretaria de Ciência e Tecnologia de PE. Também viu de perto os intestinos do futebol como diretor de Comunicação do Santa Cruz F.C. Publicou a novela 'Terezas' (2017), uma trilogia de crônicas de futebol com Samarone Lima (2013-2014) e dois livros de entrevistas e memória com a cineasta Tuca Siqueira (2009 e 2014). É casado com uma mulher que ama desde a adolescência e tem três filhos.

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