A judicialização do jornalismo: quando a mídia só fala nos autos

0

Muito se tem falado nos últimos anos sobre a judicialização da política. Mas o que estamos vivendo de fato é a judicialização do jornalismo. Diante do mais grave cenário político da história recente do País e de uma das mais profundas investigações sobre as relações entre o Poder Público e o Poder Privado, é de espantar que a grande mídia não esteja fazendo o seu trabalho. Um fato gravíssimo neste momento de turbulência.

Boa parte dos jornalistas simplesmente abdicou da prerrogativa de investigar os fatos por seus próprios meios. Quem faz o trabalho por eles são policiais, promotores e juízes. Não há nenhum registro de entrevista realizada pelos meios de comunicação com qualquer um dos investigados ou suspeitos na Operação Lava-Jato. Não ha registro de qualquer investigação jornalística relevante promovida sobre o assunto neste período. A imprensa agora só se manifesta levando em conta os autos dos processos e os despachos judiciais, como supostamente fazem (ou deveriam fazer) os juízes. Não há mais apuração. Zero.

Jornalistas e veículos de comunicação também abriram mão de editar as notícias. Essa “edição” é feita em ambientes judiciais e policiais por meio de vazamentos seletivos que chegam a conta-gotas nas redações da grande mídia. Há muitos meses os conteúdos das manchetes dos jornais e as escaladas do noticiário das TVs são construídos fora das redações, alheios aos critérios jornalísticos.

O pilar da técnica jornalística para identificar e explicar a notícia respondendo “quem, como, quando, onde e por que” não faz sentido já que ele não se altera. Já está pré-definido. Quem? O governo e o PT, ora. Como? Metendo a mão no dinheiro público, ora. Quando? Agora e sempre, ora. Onde? No Palácio, nos ministérios, no sítio, no tríplex, em todo o lugar. Por quê? Porque são corruptos e querem destruir o Brasil.

Já há algum tempo, e cada vez mais, os jornalistas estão se dedicando muito mais ao comentário dos fatos do que propriamente à sua apuração. A análise dos acontecimentos e suas consequências constituía-se em elemento comumente produzido por especialistas de fora das redações. Agora, para não sair do controle, esta análise é produzida dentro do ambiente do pensamento único dos jornais, TVs e rádios. Nunca os jornalistas opinaram tanto e apuraram tão pouco.

Moldada e veiculada a sentença, ou melhor, a notícia, os jornalistas entram em cena para enfatizá-la, reiterá-la, enquadrá-la antes que o leitor/telespectador tenha tempo de pensar por seus próprios meios. As análises funcionam menos para explicar a realidade, contextualizar os fatos, ponderar as possíveis soluções. Elas cumprem o papel de incendiar o mundo político, convulsionar as ruas. Feito isso, a mídia pode “colher os depoimentos” de políticos e autoridades jurídicas para corroborar suas teses.

Da bancada dos telejornais vemos âncoras que mais parecem juízes. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal autorizou a prisão de réus condenados em segunda instância. Mas, no tribunal da grande mídia, a condenação definitiva chega mesmo em primeira instância. Em manchetes arrasadoras. Sem apelação.

Compartilhe:

Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

Deixe um comentário