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ASA faz encontro em ambiente pessimista

Inácio França / 21/11/2016

Jamais, em 15 anos de existência, as mais de três mil entidades que compõem a Articulação do Semiárido (ASA) realizaram seu Encontro Nacional em meio a um clima tão tenso quanto a nona edição, que começa nesta terça-feira (21), em Mossoró, no sertão do Rio Grande do Norte. O release distribuído pela entidade informa logo em suas primeiras linhas que o desafio das organizações será dar visibilidade à “convivência com o Semiárido, ao armazenamento de sementes crioulas e à agroecologia como o modelo de produção”. O IX EnconASA vai até o próximo dia 25.

O tema do encontro – “Povos e Territórios: resistindo e transformando o semiárido” – porém, antecipa que as discussões serão menos técnicas e mais políticas. Resistir parece ser a palavra-chave num momento em que as políticas públicas para a região e para a agricultura familiar estão sob a mira das forças que assumiram o poder no País.

O coordenador-executivo da ASA no Rio Grande do Norte, estado anfitrião do evento, Yure Paiva, diz que o Encontro irá “acontecer em meio a essa grande crise política. Com isso, está em jogo também a continuidade das nossas ações; está em jogo as políticas públicas de convivência, as cisternas para beber, produzir e educar, o crédito, o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, iniciativas que ajudam o homem e a mulher do Semiárido a viver com dignidade”.

Ele acredita que o resultado das eleições municipais vai agravar o quadro. “A eleição desses prefeitos e vereadores ajudou no fortalecimento da direita conservadora, homofóbica, perseguidora. Que quer tirar do povo brasileiro os direitos conquistados à custa de muito suor, sangue e de vidas. E essas PECs (Projetos de Emenda à Constituição) são de fato uma afronta a tudo isso que conquistamos até hoje”, desabafa Paiva.

Os mais de 400 participantes do EnconASA vão discutir as consequências do fim do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da redução de investimentos em programas como o Bolsa Família e em tecnologias de convivência com o Semiárido, num momento em que a região enfrenta seu quinto ano consecutivo de seca.

 Yure Paiva: "O modelo da agricultura familiar e da convivência que está sendo confrontado com o modelo do agronegócio”

Yure Paiva: “O modelo da agricultura familiar e da convivência está sendo confrontado com o modelo do agronegócio”

Não é a toa que o Encontro acontecerá numa região em que são comuns os conflitos gerados pelos dois modelos antagônicos de produção, o da exploração do agronegócio e o da convivência com o Semiárido, com suas ações de segurança e soberania alimentar e nutricional, economia solidária, educação contextualizada, direitos das mulheres, biodiversidade e direito à comunicação. Algumas dessas iniciativas poderão ser conhecidas durante o encontro, pois durante o evento, estão previstos espaços para a socialização de experiências bem sucedidas do território Vale do Açu, que engloba Mossoró.

“O IX EnconASA visa fortalecer as ações de convivência com o Semiárido partindo das trajetórias e lutas dos diversos territórios de resistência da região. Além disso, entendemos que é importante fazer o debate acerca dos modelos de desenvolvimento em disputa: o modelo da agricultura familiar e da convivência que está sendo confrontado com o modelo do agronegócio”, pontua Yure Paiva.

O papel da mulher

Outro tema desafiador para a Articulação é a valorização e reconhecimento do papel das mulheres no campo. “Podemos dizer que avançamos em alguns aspectos, mas ainda é muito forte a questão cultural, que delimita o papel da mulher na família, na comunidade e na sociedade. Esse desafio não está posto apenas para as famílias camponesas, ele se encontra também no seio das nossas organizações e da nossa rede. Desse modo, a cultura machista e todas as suas dimensões é um grande desafio não só para ASA, mas para todos os movimentos”, afirma a coordenadora-executiva da ASA em Minas Gerais, Valquíria Lima.

Segundo Valquíria, no Semiárido são as mulheres camponesas que dão conta da maior parte das atividades domésticas e produtivas dos quintais. A elas cabe, na maioria das vezes, a responsabilidade de cuidar dos filhos, da casa, alimentar as aves, regar os pomares e hortas e beneficiar os produtos. Mesmo com essa sobrecarga de trabalho, muitas são vistas apenas como “a pessoa que ajuda” e na hora de decidir sobre como será usada a renda familiar é o homem quem decide onde será gasto o dinheiro.

No Semiárido são as mulheres camponesas que dão conta da maior parte das atividades domésticas e produtivas dos quintais.

No Semiárido são as mulheres camponesas que dão conta da maior parte das atividades domésticas e produtivas dos quintais

AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. É o diretor de Conteúdo da MZ.