“Bátima” contra a destruição de patrimônio modernista no Recife

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Neste sábado (3), quem estiver no Recife poderá participar do evento “Casas Modernistas – Encontro com Bátima Bernardes“, na Avenida Conselheiro Rosa e Silva, na Zona Norte do Recife, caminho para muitos bairros mais abastados e também trajeto de ônibus que levam para os morros e periferias da região. O evento começa às 9h, terá troça de carnaval e banho de sol, mas tem como objetivo denunciar a destruição de mais um patrimônio da cidade.

Depois da divulgação do evento nas redes sociais ter chamado atenção para a degradação dos imóveis, as casas foram cobertas por tapumes nesta sexta-feira (2). A intervenção, cuja autoria ainda não foi esclarecida, contudo, não deve interferir no “protesto-folia”. Os organizadores já publicaram que a programação está confirmada.

Quem passa pelo local do evento já deve ter reparado nas duas casas irmãs de arquitetura modernista, próximo à esquina com a Rua Amélia, projetadas em 1958 pelo arquiteto Augusto Reynaldo. Nos últimos meses, no entanto, quem aproveitou o característico trânsito lento, quase parando, para olhar as casas pôde acompanhar a degradação da fachada, a retirada de portas, janelas, paredes e o estacionamento informal que agora funciona nos jardins das propriedades.

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Estado de depredação das casas em 30 de janeiro de 2018. Foto: Fabiana Moraes/reprodução facebook.

O “escárnio”, como classifica a jornalista recifense Fabiana Moraes, está no fato de que as casas são Imóveis Especiais de Preservação (IEP), fato ignorado por grande parte dos recifenses. Ela é uma das pessoas que vem denunciando nas redes sociais que utiliza a depredação gradual das casas modernistas e participa da movimentação. “A ideia é levar uma discussão política para chamar mais atenção ainda para esse escárnio, para esse tiração de onda”, explica.

“Tem as casas modernistas, mas tem outros imóveis que vão acontecer a mesma coisa”, diz Nadja Granja, integrante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), chamando a atenção para importância de debater sobre o Plano Diretor  – que será revisto em 2018 e, segundo ela, teria instrumentos para garantir a preservação dos imóveis. Ainda haveria condições de reconstruir e recuperar a estrutura, se houvesse interesse.

Tapumes começaram a ser colocados nesta sexta-feira. Foto: Fabiana Moraes

Tapumes começaram a ser colocados nesta sexta-feira. Foto: Fabiana Moraes

Protesto em ritmo de carnaval

Com debates sobre o direito à cidade, à memória afetiva que existe para muitas pessoas, a manifestação é organizada por integrantes do grupo Direitos Urbanos Recife e pessoas que participaram de ocupações, como a do Estelita. “A gente se juntou muito por conta do escárnio que é essa derrubada. Você tem uma ordem judicial, você tem duas casas que são imóveis especiais de preservação que tão sendo desmontadas em praça pública todo dia, na frente da gente, com direito à caçamba. Tem nada de novo, ao mesmo tempo eu acho que pelo menos tem que ficar sublinhado que está sendo visto, está sendo documentado”, diz sobre a intenção do protesto.

A programação terá café da manhã, rodas de conversa sobre história das casas e movimento modernista na cidade, do Plano Diretor do Recife, oficinas e cineclubes com temática de direito à cidade e resistências urbanas.

O nome do evento é uma brincadeira, explica a jornalista, com a mais nova personagem pernambucana, Fátima Bernardes – que se fantasiou de mulher gato e rendeu várias linhas nos jornais pernambucanos. “Já é uma personagem recifense, e porque está tendo tanta visibilidade, para ver se chama atenção”, justifica.

Acima da lei e da justiça

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Imagem das casas antes da depredação.

Em setembro de 2017, uma ação movida pela Procuradoria do Município do Recife foi acatada pela justiça e determinou que o dono dos imóveis recuperasse as edificações, resgatasse as características originais das construções e tomasse providências para impedir novas depredações. O juiz Haroldo Carneiro Leão, da 8ª Vara da Fazenda Pública da Capital, institui multa diária de R$ 2 mil por não cumprimento. O proprietário deveria aos cofres públicos, hoje, aproximadamente R$ 246.000.

É recorrente em posts do grupo Direitos Urbanos – no facebook – a ausência da Prefeitura do Recife que, apesar de mover a ação contra a depredação, não tem fiscalizado o patrimônio protegido pela própria legislação. Nas postagens e debates, ativistas e cidadãs/ãos questionam a ausência da Dircon, por exemplo, que em outros momentos foi destacada para impedir saída de blocos de carnaval. “Sabe quando a prefeitura vai lá e toma o barraco? Ela poderia fazer o mesmo. Mas ela só tem força com o barraco”, diz Nadja.

Para Fabiana, é difícil acreditar na casualidade do que vem acontecendo: o casarão centenário – um dos mais antigos do bairro das Graças – que existia no terreno de esquina, ao lado das casas, virou, no último ano, mais uma farmácia. “PORQUE LUXO É CONSTRUÇÃO DE FARMÁCIA! OBRIGADA, GEJU!”, como descreve o evento no Facebook, em tom de ironia, aproveitando para questionar o prefeito Geraldo Julio.

A pergunta que fica, segundo Fabiana, antes e depois que as casas sejam completamente destruídas: quem ganha mais com isso? Fica no ar, ainda, se alguém será responsabilizado.

 

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Sobre o autor

Débora Britto trabalhou como jornalista no Centro de Cultura Luiz Freire - organização não governamental de defesa dos direitos humanos - é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na defesa do direito à comunicação como fundamento para a garantia de outros direitos. Também tem passagem como jornalista pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, entidade voltada para ações de fortalecimento da agricultura familiar agroecológica.

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