Blocos desfilam pelas ruas de Olinda em apoio a Haddad

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Passados dois dias do primeiro turno, com a ampla vantagem de votos para Jair Bolsonaro (PSL), Rudá Rocha, 35, do Boi da Macuca, ligou para Guilherme Calheiros, 39, do Eu Acho é Pouco, para trocar angústias e preparar a mobilização para a reta final das eleições. O resultado dessa conversa estava nas ruas de Olinda neste domingo (21), quando os estandartes de 86 agremiações carnavalescas desfilaram em apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT) e arrastaram uma multidão pelas ladeiras da cidade histórica.

O desfile saiu do Largo do Guadalupe, desceu até o Amparo, e seguiu pelo Largo do Bonsucesso. Agremiações tradicionais do Carnaval de Olinda estiveram presentes, como Vassourinhas, Ceroula e o Menino da Tarde. Também estavam lá os tambores do Afoxé Alafin Oyó, o lirismo do Corda e Retalhos e a irreverência de blocos como Os Barba e Enquanto Isso na Sala de Justiça.

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Rudá, do Boi da Macuca, fez contato com Guilherme, do eu Acho é Pouco, para organizar o #Amorembloco

“Depois do primeiro turno, a preocupação de perder as eleições para um fascista cresceu e logo na terça-feira nos posicionamos em favor da candidatura de Haddad, para além do #EleNão. Liguei para Guila porque o Eu Acho é Pouco tem tradição de se manifestar. Eu disse que a Macuca também ia pra rua e estávamos juntos”, conta Rudá.

O que ele não imaginava, quando decidiu fazer contato com agremiações tradicionais como Vassourinhas, era o tamanho da adesão ao convite. Sabia que a maior parte dos diretores dessas agremiações votaram em Haddad, mas não tinha certeza se iriam para a rua defender o candidato. “Eu entendo que esse é um encaminhamento de voto importante porque as agremiações têm bases sociais sólidas”, explica.

Virar voto

O apelo ao engajamento fez sair às ruas o boneco da troça carnavalesca John Travolta pela primeira vez numa manifestação política desde a sua fundação em 1979 – ano da anistia aos exilados políticos da ditadura militar. “É a primeira vez que participamos. Muitos da diretoria são ligados ao PT e tomamos a decisão de vir para a rua. Acreditamos que a presença de tantas agremiações juntas pode, sim, ajudar a virar voto e fazer a diferença”, defende Eraldo José Gomes, 51, presidente da troça.

À frente da multidão que tomou as ruas de Olinda seguia o dragão do Eu Acho é Pouco. Esse, sim, acostumado a puxar o cordão de foliões em defesa da democracia. Fundado em 1976 por profissionais liberais que se opunham à ditadura, estava nas ruas no segundo-turno das eleições de 2014 em apoio a Dilma Rousseff (PT) e contra Aécio Neves (PSDB), como estava também nas ruas em 2016 denunciando o golpe contra a presidenta eleita.

“O Eu Acho é Pouco sempre se envolveu na cena política do país. Seja para criticar quem está no governo, seja para apoiar aqueles que têm uma visão mais humana e governam para todos. Sempre há um engajamento forte nosso no segundo turno, quando o bloco progressista se une por um único candidato”, revela Guila.

Para ele, a mobilização das agremiações dá um novo fôlego na reta final do segundo-turno. “Um ato como esse serve para energizar as pessoas. Nos fazer acreditar que é possível, sim, virar o jogo. Energiza as pessoas para irem virar votos com diálogo, argumentos, expondo as propostas de Haddad. Mostrando, especialmente a aqueles que estão indecisos, o impacto político e social gigantesco que seria para o Brasil eleger um candidato como Bolsonaro”, argumenta.

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Manipulador de bonecos há 20 anos, Washington acha que mobilização de blocos pode influenciar voto dos indecisos

A poucos metros atrás do dragão do Eu Acho é Pouco seguem mais de dez bonecos gigantes de Olinda, entre eles Charlie Chaplin. Conduzindo aquele que foi a maior estrela do cinema mudo vai Washington Ferreira da Silva, 37, manipulador de bonecos há 20 anos pelas ladeiras de Olinda. Garante que a sua família inteirinha vota em Haddad para presidente e concorda com Eraldo e Guila quando o assunto é virar voto. “Tem muita gente indecisa que gosta muito de Carnaval e, quando vê tanto bloco passando na rua em apoio a Haddad, pode decidir votar nele”, diz, lembrando que já manipulou por oito anos o boneco do Menino da Tarde e também de Oséas.

E é o maestro Oséas quem comanda a maior orquestra de todo o desfile. O pagamento ao maestro e aos seus músicos foi rateado entre os blocos que aderiram à manifestação. Entre os apoiadores está a troça Minha Cobra, fundada em 2005 por torcedores do Santa Cruz. “Estamos aqui pelo direito de ter direitos. O Carnaval é do povo, como o futebol também é do povo. Estamos unidos em defesa da democracia”, diz Esequias Pierre, um dos fundadores e que levava o estandarte da troça pelo desfile.

Extrema-direita

Acompanhando tudo de perto, o francês Christophe De La Fuente, 41, lamentava não poder votar no 13, no próximo final de semana, por não ter cidadania brasileira. Ele mora há 12 anos no Brasil. Chegou ao Recife para estudar, quando o país era governado pelo ex-presidente Lula, e foi ficando… “O Brasil estava indo tão bem, mas tudo mudou. Estou muito triste agora”.

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O francês Christophe De La Fuente lamenta não poder votar em Haddad: “O Brasil ia tão bem, mas tudo mudou. Estou muito triste”

Christophe, que trabalha no ramo de informática, compara a eleição deste ano com a política na França, lembrando que a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Nacional, foi para o segundo turno na eleição presidencial francesa de 2017, quando perdeu para o centrista Emmanuel Macron. Le Pen declarou recentemente que Bolsonaro fala coisas que seriam “desagradáveis e intransponíveis” na França.

“Lá, no primeiro turno, para mostrar que você discorda do que está acontecendo, você vota em qualquer um, mas no segundo-turno as pessoas não têm problema em votar num partido que não gostam para tirar as possibilidades de vitória do que representa o mal, da extrema-direita. Espero que isso aconteça aqui no Brasil. Mas está difícil porque a raiva contra o PT parece superar tudo. É uma coisa acima da lógica”, analisa Christophe, para quem qualquer candidato que falasse o que Bolsonaro fala sobre apoiar a tortura e as agressões às mulheres ficaria imediatamente “queimado” com os eleitores franceses.

Pela democracia

Se tem uma troça que sabe exatamente o significado político do ataque à democracia e ao direito de ter direitos, essa troça é a Empatando a Tua Vista, criada em 2014 para criticar a especulação imobiliária e defender o direito à cidade. Em 2017, os integrantes da troça tiveram suas fantasias e adereços apreendidos pela Polícia Militar de Pernambuco sem qualquer justificativa ou mandado, no sábado de Carnaval, quando se preparavam para ir ao Galo da Madrugada fazer uma manifestação contra o prefeito Geraldo Julio (PSB).

Na parada do desfile no Largo do Bonsucesso, Ana Cláudia Oliveira, 32, explicou que a democracia colocada em xeque agora com a candidatura de Jair Bolsonaro é um valor que está presente desde a fundação da troça. “O Empatando surge com a proposta de ver a cidade de forma democrática, como a cidade pode ser ocupada respeitando o direito de todo mundo. Lutamos pelo sentido mais amplo de democracia, por isso estamos aqui, como também estivemos na rua em 2016”.

Ana explica que o Empatando não é ligado a nenhum partido específico, mas ao campo progressista, de esquerda. “Nós somamos muitas lutas, o direito à cidade, os direitos das mulheres, da população LGBT e, quando vemos um político com a proposta de destruir esses direitos e políticas públicas importantes, vamos para a rua. No primeiro turno não tínhamos um candidato específico, mas agora temos”, diz Ana.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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