Bolsonaro e a trapaça como arma eleitoral

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Por Maria Carolina Santos e Raissa Ebrahim

Um homem está na biblioteca de Londrina, no Paraná. Ele pega um livro da estante e, escondido, tira fotos das páginas, já desgastadas pelo uso. É uma denúncia gravíssima: ali, em fotos ruins de celular, a “prova” de que Fernando Haddad, candidato à presidência pelo PT, escreveu um livro defendendo o incesto e a pedofilia. Em segundos, a mensagem, e as fotos, se espalham pelo WhatsApp.

De muito pouco adianta o fato de que a mentira havia sido plantada um dia antes pelo “filósofo” Olavo de Carvalho no Facebook. De nada adianta os desmentidos posteriores – inclusive do próprio Olavo. O estrago estava feito.

Quem trabalha com campanha política diz que não é debate, não é Facebook, não é Whatsapp, não é a Imprensa que ganha uma eleição. O que ganha é política.

Nesta eleição, a máxima pode ter prevalecido. Porém, mais do que as alianças políticas, é o uso heterodoxo de técnicas de propaganda que domina o debate público neste segundo turno. O WhatsApp e as fake news são os protagonistas.

WhatsApp: denúncia contra Bolsonaro evidencia crise de mediação

A campanha do presidenciável Jair Bolsonaro usa o que o professor de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Fernando Fontanella chama de “estratégia da trapaça” – uma fuga da propaganda tradicional. “Você tem o uso de dinheiro obscuro para espalhar fake news ou usando algoritmos. É uma estratégia super sofisticada de distribuição de informação que pega de surpresa quem joga pelas regras tradicionais (legais ou não)”, diz o professor da Unicap.

“O caso do livro na biblioteca de Londrina é uma propaganda tosca. Mas a encenação dá autenticidade, parece feita por um cidadão preocupado. Porém, quem fez sabe muito bem o que está fazendo. Por trás de algo que parece tão amador, há um planejamento muito profissional, um gênio diabólico”, explica Fernando Fontanella, que recebeu as imagens pelo WhatsApp.

Pesquisa do grupo “Eleições sem fake”, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que Bolsonaro monopoliza os debates na maior parte dos grupos públicos de WhatsApp. “Monitoramos 272 grupos que debatem política, 37 deles só de Bolsonaro. Somos um sistema enviesado porque há mais grupos de apoiadores dele do que de outros candidatos”, disse Fabrício Benevenuto, professor do departamento de Ciência da Computação da UFMG e criador do projeto, em entrevista ao El País.

Outro estudo, do Instituto para Internet de Oxford, mostrou que os bolsonaristas produziram entre 18 e 29 de agosto 5,9 milhões de postagens com apenas 50 mil autores, o que indica o uso de “robôs” no Twitter.

Definindo como “selvagem” a tática de campanha de Bolsonaro, Fontanella acha que nem a equipe de Bolsonaro tinha tanta certeza de que tal estratégia iria funcionar. “É algo que também foge ao controle do núcleo, porque os próprios apoiadores começam a criar conteúdos e divulgá-los”.

A campanha de Bolsonaro ganhou fôlego não só com os disparos em massa – realizados, segundo reportagem publicada na semana passada pela Folha de S. Paulo, nos dias anteriores ao primeiro turno – mas principalmente com uma estratégia de comunicação que passou mais de um ano testando conteúdos e formatos e identificando pessoas que passariam essas mensagens para frente.

Assim, os estrategistas sabiam da força que conteúdos como o “kit gay” – uma mentira alimentada e moldada por anos – teria na campanha. “Eles chegaram na campanha sabendo o que funciona mais com cada público. E sabendo com quem contar para espalhar essa mensagem de forma rápida”, diz Fontanella.

 

O que aconteceu até agora depois da denúncia da Folha de São Paulo:

TSE abre investigação sobre Bolsonaro e compra de pacotes de disparo de mensagens contra o PT no WhatsApp.

PGR pede à Polícia Federal abertura de inquérito para apurar suposto esquema ilegal tanto na campanha de Bolsonaro quanto na de Haddad.

WhatsApp notifica extrajudicialmente e bloqueia contas ligadas às empresas Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market, suspeitas de venderem esse tipo de serviço.

WhatsApp diz, em entrevista à BBC News Brasil, que não pretende fazer novas alterações ligadas a mensagens encaminhadas ou à criação e participação em grupos na reta final das eleições brasileiras.

WhatsApp anuncia que baniu 100 mil usuários por uso irregular do aplicativo na última semana

Facebook remove 68 páginas e 43 contas que replicavam postagens favoráveis a Bolsonaro que violam a política de uso da rede social

O publicitário baiano André Torretta foi sócio, durante alguns meses, entre o final de 2017 e o início de 2018, da Cambridge Analytica, a empresa que foi à falência após a descoberta de que usou informações dos perfis de mais de 50 milhões de norte-americanos para moldar notícias falsas e influenciar a eleição de Donald Trump.

Torretta avalia que houve uma adaptação para o modelo brasileiro, com o WhatsApp na linha de frente. “Uma rede (WhatsApp) tem 160 milhões de usuários, a outra (Facebook) tem 100 milhões. Só os idiotas não apostaram no WhatsApp”, dispara. “O Brasil é um país pobre. Depois do dia 15, muita gente fica sem internet no celular. Vão pegar wi-fi na farmácia e não têm tempo para entrar em sites. Ficam no WhatsApp”.

O problema que ele vê, para quem trabalha nas campanhas, é certa dificuldade em aferir a recepção da mensagem. “No WhatsApp não há regras. Você lança a mensagem e não sabe se funcionou ou não. Você atira e reza. Como toda comunicação, dá resultado, mas não é algo tão preciso de se aferir como no Facebook”, diz.

Para Torretta, o que ficou da experiência da breve sociedade com a Cambridge Analytica foi a divisão do eleitorado por perfis psicológicos. “O Brasil tem bons bancos de dados, como o do IBGE. Mas nunca tinha trabalhado com a divisão baseada em personalidade, dentro de uma rede social. Isso foi um aprendizado”.

Sobre os disparos, Torretta afirma que podem ser encontrados em “toda esquina, é só digitar no Google”. Ele não acha que as informações falsas vão diminuir nas próximas eleições. Pelo contrário, acredita que deverão ficar mais sofisticadas. Mas minimiza o impacto que elas possam ter. “Não é uma invenção de agora. Antes você tinha as fofocas, as revistas impressas. Fake news sempre existiu. Mesma lógica para os disparos por WhatsApp: antes tínhamos as listas telefônicas”.

“Crise é por desinteresse em política”

O professor de Publicidade e Propaganda Fernando Fontanella afirma que é importante marcar que a eleição mudou por causa da tecnologia, mas que a tecnologia é um produto da sociedade, e não uma causa. “Não é que a tecnologia veio do nada e mudou como as pessoas lidam com o processo. Na verdade, é um processo gradual”, diz

“Um pouco do ambiente político que a gente vê agora nas mídias sociais já é resultado do Facebook se moldando ao modo das pessoas conversarem. Estamos há anos com um problema de saturação de informação, o público está de saco cheio. Então você precisa de ferramentas que fazem curadoria de conteúdo, você precisa de mediadores que vão simplificar as coisas. O Facebook há sete anos já limita com os algoritmos o que chega no nosso feed. Ele vai fazendo uma curadoria automatizada. E agora está todo mundo nas suas bolhas. Mas nós buscamos essas bolhas. O Facebook só está dando certo porque a gente quis a bolha: estávamos muito sobrecarregados”, diz Fontanella.

Com os eleitores saturados de informações e com uma visão negativa da política, as redes sociais se tornaram um refúgio seguro. “A gente tem que lembrar que a maioria dos eleitores não gosta de eleições: a direção que fazem em direção ao Facebook e ao WhatsApp vem de valorizar uma versão mais simplificada da vida mesmo. De alguém que faça essa curadoria, que dê esse raciocínio mastigadinho”.

“A política não é o centro da vida das pessoas. Neste ambiente eleitoral, a gente é levado a pensar isso, mas na verdade a gente busca conforto: a gente mergulha na bolha e ela reforça nossa visão de mundo. A crise parece ser causada pelas redes sociais, mas a crise não é causada pelas redes sociais, mas pelo desinteresse que as pessoas têm em política”, completa.

Fontanella lembra que havia a expectativa em como se daria esta eleição no Brasil, após as polêmicas campanhas de Donald Trump, no Estados Unidos, e o Brexit, no Reino Unido. “Eleitoralmente o Brasil estava atrasado, a política tradicional e os políticos tradicionais têm dificuldade em lidar com estratégias mais atuais de comunicação. Eles não entendiam e não investiam nisso. Sempre se confiou muito no horário eleitoral e na militância de rua. Essa eleição veio para consolidar a mudança de foco. A surpresa foi o quanto mudou”, diz.

Rede social oferece proximidade com eleitores

Um empresário pernambucano de 35 anos – que preferiu não se identificar para não atrapalhar seu negócio – contou à Marco Zero Conteúdo que entrou em um grupo de apoio a Bolsonaro no WhatsApp e terminou recebendo mensagens privadas do administrador do grupo, que dizia ser Flávio Bolsonaro, um dos filhos do candidato à presidência, deputado estadual do Rio de Janeiro pelo PSL e o senador mais votado desta eleição.

Flávio teve a conta banida pelo WhatsApp por causa de spam, comportamento que fere as regras de uso do aplicativo. A empresa, que pertence ao Facebook, afirmou que a conduta não teve a ver com a denúncia publicada pela Folha de São Paulo na última quinta (18). Segundo nota enviada à imprensa, o WhatsApp disse que o número de Flávio Bolsonaro foi bloqueado no dia 11. O desbloqueio foi feito no dia 14 após pedido de análise.

“Me mandaram um link e eu entrei no grupo para discordar de um ponto, o 13º do Bolsa Família, que Bolsonaro disse que ia acontecer. O grupo era bem tranquilo, não tinha nada agressivo, extremista”, relata o empresário, que enfatiza não ser militante e prezar pelo sigilo do voto.

O que chamou a atenção dele é que, quando ele lançou a crítica no grupo, foi respondido diretamente pelo suposto Flávio no privado, que se encarregou de explicar com mais detalhes a proposta e dizer que a ideia ainda precisaria de uma aprovação. “Ele foi simples e pragmático na resposta. Acredito que a pessoa podia ser um militante ou alguém da campanha de Bolsonaro. Não acho que Flávio teria tempo para isso, ainda mais de responder um nordestino”, avalia o empresário.

Sendo ou não Flávio Bolsonaro, a história é mais uma mostra de como age a campanha em prol do candidato de extrema-direita, que lidera as pesquisas desde o 1º turno.

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