Da busca por um sorriso nasce a luta pelo direito à cidade

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2774980_CreateAgifConheça o duro cotidiano dos artistas de rua do Recife, marcado por dificuldades que vão desde a degradação e a privatização do espaço público até a inexistência de políticas públicas para o setor e a consequente falta de recursos para que possam exercer a profissão com dignidade

Por Sandro Barros*

Todos os dias eles acordam cedo para conseguir sobreviver de seu ofício. Mesmo diante das muitas adversidades, perseveram na luta por uma cidade mais democrática, que garanta espaços de promoção para uma arte pública de rua. Sim, os artistas de rua existem e estão nas vias públicas do Recife em busca de respeito e dignidade.  É difícil precisar o número exato desses artistas na capital pernambucana, mas cerca de dez grupos participam do Movimento de Teatro Popular de Pernambuco. Isso sem contar aqueles que atuam individualmente.

Além do amor irrestrito pelo que fazem e da busca incessante por um sorriso do público, cada um destes artistas populares compartilha um cotidiano marcado pela superação de barreiras para se expressarem. Dificuldades que passam pelo direito ao espaço público onde possam exibir seus trabalhos, pela captação de recursos para as produções e, principalmente, pela quase total inexistência de políticas públicas voltadas para o setor. Um drama que será contado aqui na voz dos próprios personagens.

Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros

Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros

Primeiro ato: O direito à cidade

O raciocínio é simples e lógico: o artista de rua precisa do espaço público para se expressar. Poucos como eles se relacionam, conhecem e sofrem com os problemas da cidade. Esse é o caso da historiadora, mãe de dois filhos, mestra em teatro, atriz, palhaça e integrante do Movimento de Teatro Popular de Pernambuco (MTP-PE), Raquel Almeida. Como artista de rua, ela fala com propriedade do sucateamento das praças e do excesso de estímulos que a população recebe para não habitar os espaços públicos:

 “Existe uma ação em curso, gradualmente, enquanto pensamento e políticas públicas, na tentativa de privatização e negação dos espaços públicos, que são vendidos, cerceados, abandonados. Então, para nós fazedores da arte pública, estar nos diferentes espaços urbanos significa possibilitar um grito simbólico de chamamento ao governo para que instaure efetivamente nas cidades o amplo uso e circulação de ideias, pensamento e afetividades nas ruas, praças, viadutos, ruelas, assentamentos. Existem comunidades que nem praça têm, suas ruas são puro esgoto e lixo, muitas das praças são abandonadas, escuras, as pessoas têm medo de usá-las em determinado horário. E não se enganem, pois a rua vazia, desabitada, as pessoas trancafiadas em suas casas, conectadas à televisão, só serve para a desmobilização e alienação. Para distanciar as pessoas umas das outras e fecundar o medo”.

Em tempos onde a sociedade contemporânea reivindica novas ordens, como os direitos urbanos, direitos culturais e diante de uma crescente onda tradicionalista, com o fortalecimento das políticas conservadoras, os artistas populares temem um aumento da coerção social da população e da privatização dos espaços públicos. Nesse aspecto o produtor cultural, ator integrante do MTP e do Grupo de Teatro de Rua Cafuringa, Alexandre Menezes, exemplifica claramente o momento atual:

 “Cada vez mais, estão sendo privatizados os espaços públicos. Os teatros por exemplo ainda atendem uma determinada classe social que certamente não são os que estão na periferia. Na comunidade as pessoas não precisam pegar um ônibus, nem colocar a melhor roupa, basta chegar na roda. Às vezes abrem sua porta ou janela e estão diante de uma peça teatral. Ao se depararem com a arte pública em espaços abertos, se emocionam e se reconhecem ali”.

Apresentação da Trupe Circuluz durante o 6º Festival de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim – Cupira – PE. Foto: Sandro Barros

Trupe Circuluz  aproveita festivais, como o de Cultura Negra do Quilombo Sambaquim, para levar sua arte ao Interior do Estado. Foto: Sandro Barros

Segundo ato: a eterna ausência de políticas públicas

Esse segundo raciocínio também é óbvio: uma expressão artística que se situa à margem da chamada indústria cultural, como é o caso do teatro de rua, só pode existir se estiver inserido em um conjunto de políticas públicas articuladas, democráticas, transparentes e eficientes. Dentro deste contexto, Raquel Almeida avalia as políticas públicas estaduais pensadas especificamente para arte pública de rua:

 “Eu levo em conta uma dimensão que compreende o incentivo com recursos, com um edital que compreenda a especificidade do nosso fazer. Na prática, temos um edital em nível estadual que não prevê essas singularidades e ainda por cima coloca valores menores de incentivo em relação às outras linhas de teatro. Além disso, temos festivais estaduais e municipais com formatos de produção e organização que não pensam e refletem acerca do fazer cênico para os espaços públicos, com programações voltadas muito mais para palcos e espaços fechados. Esses dados geram uma lacuna na produção e fruição do teatro de rua em Pernambuco, tanto como montagem, quanto como pesquisa, circulação e intercâmbio”.

Muitas são as críticas de quem faz teatro de rua no Recife. Essas críticas também são referendadas por outras expressões artísticas ligadas à cultura popular no estado. Os artistas que dialogam com estéticas alinhadas com a indústria cultural, mercadológica, acabam se destacando, pois seus padrões estéticos estão inseridos em contextos globais (mainstream). Essa estética começa no figurino, passa pelos instrumentos, padrões vocais, entre outros. Quando observamos a estética voltada para a cultura popular, o seu diálogo é com as culturas tradicionais. Essa identidade cultural é pouco vivenciada pela maior parte da população no Estado, com exceção das festas ligadas ao calendário oficial, como Carnaval e São João, por exemplo.

Nesse momento observa-se que as políticas culturais sub fomentam brincadeiras que despertem a valorização das identidades locais, e quando olhamos mais atentamente, o teatro de rua acaba tendo uma visão bastante deturpada da sua concepção primária, que é de informar, educar e promover arte pública em territórios onde pouco se fomenta arte. Alexandre Menezes fala abertamente sobre as políticas culturais pensadas para uma arte pública de rua:

“Digo com total clareza que não existe uma Política Cultural nesta cidade e sim uma politicagem cultural estabelecida pelas gestões que estão no poder. Já participei de diversos fóruns temáticos, consultas públicas, setoriais e nenhuma proposta ou instrumento foi levado em consideração. As conferências municipais e estaduais não são respeitadas e nem colocadas em prática. Então não existe uma fomentação, principalmente para as manifestações artísticas feitas para espaços abertos”.

Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na praça da Paz, Cidade Tabajara, Olinda - PE. Foto: Sandro Barros

Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na praça da Paz, Cidade Tabajara, Olinda – PE. Foto: Sandro Barros

Terceiro ato: o dinheiro sumiu

Teatro, mesmo o popular, não se faz só com amor. Para colocar um espetáculo na rua, claro, precisa-se de dinheiro. Dinheiro que, por conta da inexistência de uma política pública voltada para o setor, praticamente não existe. Para ilustrar os valores destinados à produção do teatro de rua, a última vez que a Prefeitura do Recife ofertou uma seleção pública nesta área foi em 2010. Na ocasião, o edital previa o pagamento de R$ 20 mil e, ainda assim, que só foram liberados com um ano e meio de atraso.

No âmbito estadual, a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambucano (SECULT-PE) se apoia no Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). Na chamada pública de 2015/2016 foram destinados R$ 1.210.000,00 para propostas em artes cênicas. Esse montante é dividido em dezesseis linhas de ações. Das ações existentes, apenas uma linha de ação, a linha 02, está voltada exclusivamente para teatro de rua, destinando o valor máximo de R$ 64 mil para montagem de espetáculo específicos dessa modalidade, conforme Resolução da Comissão Deliberativa do Funcultura Nº 02/2014.

O Coordenador de Artes Cênicas da SECULT-PE, Jorge Clésio, que também é ator, reconhece a discrepância nos valores das linhas de ações ofertadas atualmente no Funcultura e fala que a secretária atualmente trabalha na revisão dos valores:

 “As discrepâncias entre os valores das produções de Teatro estão sendo revistas. Assim como todo edital do Funcultura, essa discussão aconteceria a partir de setembro desse ano, mas diante dos acontecimentos políticos, e principalmente pela extinção do Ministério da Cultura (MINC), a Secult revolveu adiantar esse processo, o que já está ocorrendo nesse momento”.

Jorge fala sobre a perseverança dos artistas de rua do Estado, suas lutas para promover uma arte sem muros e mais próxima do cidadão, e também das contribuições desses artistas para a construção da cidade que queremos:

 “Destaco a perseverança dos atores de rua na afirmação da sua arte e sua contribuição na discussão sobre a cidade que queremos. Há uma lacuna entre a sociedade civil e o poder público neste aspecto. Cultura não está associada a nossa cidade”. 

Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da  Cidade, Ipojuca - PE. Foto: Sandro Barros

Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da Cidade, Ipojuca – PE. Foto: Sandro Barros

Quarto ato: a resistência

 O Movimento de Teatro Popular de Pernambuco, com sede no bairro dos Coelhos, Recife, composto por grupos e artistas individuais, reúne-se semanalmente para discutir caminhos, estratégias, e ações em prol do teatro popular no estado. Fazem parte deste movimento os grupos Cafuringa, Ifá-Rhadha de art’Negra, Teamu e Cia, Arteiros, Grupo de Teatro Drão, Loucos e Oprimidos da Maciel, Trupe Circuluz, Cia Máscaras de Teatro, Luci da Poesia, POESIS – Grupo Cultural do Alto José do Pinho, entre outros artistas.

O MTP-PE atua como mediador dos grupos junto às instituições públicas e órgãos públicos responsáveis pela fomentação cultural nas três esferas do governo. As pautas surgem a partir de decisões coletivas, fruto das reuniões semanais, assim como decisões para realizações de intervenções públicas e ações como o Festival de Teatro de Rua do Recife. Em dezembro de 2013 ocorreu sua 10º edição, e já com uma latência de três anos, tendo em vista que a 11ª edição do festival não ocorrerá este ano, por falta de apoio financeiro nacesfera governamental.

Para a produtora Cultural, palhaça, mãe de dois filhos e  integrante do movimento, Marília Vilas Boas, o MTP tem a função de agrupar e fortalecer politicamente os grupos que estão a ele vinculado, instigando sua jornada através de suas ações e empoderamento sociocultural, buscando sempre aprimorar os conhecimentos dos artistas:

 “O movimento tem uma grande importância para os brincantes de teatro de rua, atualmente nós artistas de rua não temos muitas oportunidades na questão de verba pública e na discussão sobre arte pública por parte do governo, só conseguimos ser remunerados com nossa arte através da compreensão dos espectadores ao rodarmos o chapéu, ou através de editais que acabam tornando-se um meio falho para remuneração da nossa arte”.

A palhaça aponta como são tomadas as decisões e as ações culturais fomentadas pelo movimento:

 “Tudo é definido no coletivo, onde cada grupo tem um ou mais representantes que são incumbidos de levarem para seus grupos as decisões com o objetivo de manter uma coerência coletiva. No MTP-PE já temos três ações sistemáticas que são o Festival de Teatro de Rua do Recife, o Março de Teatro e o Teatro no Centro. No início do ano, mês de janeiro, acontece o planejamento anual, onde são deliberadas as demandas do Movimento baseando-se nas ações sistemáticas.

Quando falamos sobre pautas e discussões que trazem à tona a fomentação de uma arte pública, que ocupe espaços abertos, que permita o contato direto do artista com seu público, Raquel Almeida diz:

 “Já em relação à discussão sobre arte pública e mesmo o teatro de rua, existiram diferentes tentativas. O Movimento de Teatro Popular de Pernambuco tenta impulsionar esse fazer, nas ações que promove. Contudo, ainda é algo muitas vezes pontual, não existindo um cronograma permanente de debates e mesmo de ações em torno desse tema, o que seria importante de acontecer. Mesmo assim, os grupos se lançam para a prática, efetivamente eles estão fazendo a arte pública. Os artistas estão nos espaços públicos, nos semáforos, praças, bares, avenidas, descampados, escolas etc. Pernambuco tem uma história de pertencimento à arte pública, que se materializa em sua sambadas de maracatu e coco, nos seus brincantes de frevo, no seu carnaval de rua, na sua capoeiragem, nos seus poetas marginais”.

Alexandre diz ainda que, mesmo com a organização alavancada pelo MTP-PE, os grupos de teatro de rua ainda realizam ações de maneira isolada, o que dificulta o fortalecimento da expressão artística no âmbito local.

 “Hoje em Recife existem pelo menos seis grupos de teatro de rua atuantes, mas que ainda realizam suas ações de forma isolada e o conceito de arte pública, que é algo tão antigo e tão novo, está sendo discutido em todo Brasil através justamente dos grupos de teatro de rua. Digo isso porque conheço bem esses grupos do Recife e por mais que sejam relevantes seus trabalhos, por mais que participemos dos encontros enquanto Movimento de Teatro Popular de Pernambuco (MTP-PE), as ações ainda são pontuais e não avançamos nessa discussão. Temos que ter a clareza de saber o porquê, pra quê e pra quem fazemos teatro de rua”.

Perguntado sobre como os artistas de rua conseguem garantir acessibilidade cultural não massificada à população de baixa renda, Alexandre traz à tona o teatro instrumento de transformação social, e resistência cultural diante da indústria cultural massificante e alienante:

 “Existem os que fazem teatro da arte pela arte, dos que fazem para comercializar suas produções e os que fazem com um cunho social e político. Eu prefiro a terceira opção. Foi o que escolhi. Com nossos espetáculos não garantimos somente o entretenimento, mas também damos olhos e principalmente ouvidos à população. Nossos espetáculos nascem das questões que afligem a nós e ao povo, dos direitos que foram e são negados até hoje. Na rua ou na praça estamos em roda, ombro a ombro, diante do trabalhador. Trocando e nos encontrando com o público e com nós mesmos”.

Apresentação do Espetáculo Valentin, em Jardim Atlântico, Olinda - PE. Foto: Sandro Barros

Apresentação do Espetáculo Valentin, em Jardim Atlântico, Olinda – PE. Foto: Sandro Barros

Epílogo: A busca pelo Sorriso ;)

Nessa busca incessante por um sorriso, por querer dar voz aos oprimidos, por acreditar que a arte é fundamental – assim como o pão de cada dia – milhares de artistas espalhados pelo mundo à fora vibram e choram de alegria quando conseguem despertar, por um segundo que seja, a atenção de quem há muito tempo sofre com as desigualdades nascidas desde o ventre.

Por tantos Severinos espalhados pelas periferias do mundo. Por tantas Macabéas parideiras de tantos Severinos. São para eles que os artistas de rua se motivam para levantar cedo todos os dias. Os artistas são as pessoas que provaram o néctar da vida, quando derramaram seu espírito criativo e tocaram no coração do próximo. No prazer de buscar no sorrido do outro a alegria do dia a dia e se alimentar de suas próprias lágrimas, os artistas de rua do Recife vão transcendendo suas próprias limitações.

Circulação do Grupo Cafuringa, apresentação na Academia da  Cidade, Ipojuca - PE. Foto: Sandro Barros

“Os artistas estão dispostos a dar a sua vida por um momento – para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto agite a alma do público”. Foto: Sandro Barros

 OS ARTISTAS

“Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho. Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançar os marcos previsíveis da vida normal – o carro, a família, a casa, o pé-de-meia. Por quê? Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento – para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto agite a alma do público. Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro. Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas ”

David Ackert

 

2016-07-27-PHOTO-00000048* Sandro Barros é estudante de jornalismo da UFPE, produtor e comunicador cultural, fotógrafo, músico, arte educador, assessor de imprensa e social media. Nasceu em Jaboatão dos Guararapes, mas foi em Olinda que descobriu o amor pela cultura popular e comunicação. Hoje atua no campo da comunicação comunitária, audiovisual e produção cultural. Acredita na comunicação e no jornalismo como instrumentos de transformação social através da fomentação e valorização da cultura popular. Compartilha do pensamento que à apropriação da cultura tradicional é vital para libertação do povo contra as instituições sociais opressoras e reguladoras.

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