De onde vieram os votos que elegeram os 49 parlamentares da Assembleia de Pernambuco

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Laércio Portela e Carol Monteiro

Nesta sexta-feira, 49 deputados(as) estaduais tomaram posse na Assembleia de Pernambuco, 22 foram reeleitos, três retornam depois de alguns anos de ausência e 24 são estreantes no Legislativo do estado. Isso porque dois dos deputados reeleitos (Aluísio Lessa/PSB e Rodrigo Novaes/PSD), convocados a compor o primeiro escalão do governador Paulo Câmara (PSB), abriram vagas para os novatos Sivaldo Albino (ex-vereador de Garanhuns) e o professor Paulo Dutra, ambos do PSB.

Na verdade, são 28 os novos parlamentares porque pela primeira vez uma candidatura coletiva – as Juntas, composta por cinco mulheres – conquistou uma das vagas.

Ao todo os deputados e deputadas eleitos em 2018 somaram 2.501.577 votos num universo de mais de 3,7 milhões de votos válidos. Apesar da renovação, a Assembleia continua sendo majoritariamente formada por homens brancos de classe média ou ricos – são apenas 10 os assentos ocupados por mulheres – representantes das famílias tradicionais da política, líderes religiosos evangélicos, ex-policiais, empresários e profissionais liberais.

De onde vieram os votos que elegeram esses políticos? Para entender qual a relação entre representação e território, a Marco Zero Conteúdo fez o levantamento da votação por município de cada um dos deputados e deputadas eleitos (publicado na íntegra no final do texto). Vinte e dois deles conquistaram majoritariamente apoio eleitoral na Região Metropolitana do Recife, seis na Zona da Mata, 11 no Agreste e 10 no Sertão.

Os votos da capital

Das 49 candidaturas vencedoras, 17 obtiveram sua maior votação no Recife. Os campeões de votos na capital foram a delegada Gleide Ângelo (PSB) com 157,1 mil, seguida pelo Pastor Cleiton Collins (PP) com 28,7 mil, Francismar Pontes (PSB) 26,8 mil, Priscila Krause (DEM) 26,4 mil e Juntas (Psol) 20,6 mil.

Para cinco candidaturas, a votação na capital representou mais da metade dos votos conquistados: Wanderson Florêncio/PSC (59,68%), Eriberto Medeiros/PP (58,66%), João Paulo/PCdoB (58,43%), Juntas/Psol (52,77%) e Francismar Pontes/PSB (53%).

Voto evangélico forte na RMR

Pelo menos sete dos parlamentares que devem compor a nova bancada evangélica da Alepe conquistaram a maior parte dos seus eleitores na Região Metropolitana do Recife: o pastor Cleiton Collins, da Assembleia de Deus, que vai para o seu quinto mandato consecutivo; o presbítero da Assembleia de Deus Manoel Ferreira (PSC), que havia exercido seis mandatos consecutivos de 1986 a 2010, estava fora da Alepe desde 2011; William Brígido (PRB), integrante da Igreja Universal, eleito para o seu primeiro mandato na Alepe; Clarissa Tércio (PSC), filha do pastor Francisco Tércio, da Assembleia de Deus, também estreante; Adalto Santos (PSB) eleito para o terceiro mandato; Joel da Harpa (PP), ex-policial militar líder da greve de 2014 e que vai para o segundo mandato; e Romero Sales Filho (PTB), filho de Romero Sales e Célia Sales, ex-vereador e atual prefeita de Ipojuca.

Família Ferreira

A família Ferreira: o vereador Fred Ferreira, o deputado estadual eleito Manoel Ferreira, o deputado federal André Ferreira e o prefeito de Jaboatão Anderson Ferreira

Herdeiros de sangue e território

Não são poucos os casos em que os deputados estaduais tiveram maior votação no município em que suas famílias controlam ou disputam a hegemonia local há décadas. O jovem Aglaílson Victor (PSB), de apenas 23 anos, obteve sua maior votação em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata Sul. Seu pai, Aglaílson Júnior, é o atual prefeito da cidade, já foi vereador e quatro vezes deputado estadual. O avô, o bisavô e o tataravô de Aglaílson Victor também já comandaram a prefeitura da cidade.

Essa é uma história parecida com a de Gustavo Fuchs Campos Gouveia (DEM), líder de votos na base eleitoral da família, Paudalho, Zona da Mata Norte do estado. O atual prefeito da cidade é irmão de Gustavo, Marcello Gouveia, de quem Gustavo foi secretario de Obras até o início de 2018. Para substitui-lo, Marcello nomeou o pai Eufrásico Gouveia Campos Filho – ex-prefeito de Paudalho entre 1993 e 1997. Antes dele, já havia adminstrado o município o pai de Eufrásio Filho e avô de Gustavo e Marcello, Eufrásio Gouveia Campos, entre 1966 e 1969.

Aglaílson Victor e o pai

Aglaílson Júnior com o filho e herdeiro político Aglaílson Victor

Álvaro Porto, reeleito para o segundo mandato de deputado estadual, é ex-prefeito de Canhotinho (2005-2012), no Agreste Meridional, onde conquistou boa parte de sua votação. Ele seguiu os passos do pai Lourival Mendonça de Barros, também prefeito de Canhotinho por duas vezes.

A história se repete com Clodoaldo Magalhães (PSB) – filho do atual prefeito de Xexéu e ex-deputado estadual Eudo Magalhães (PSB), que também governou Água Preta e Joaquim Nabuco, três municípios vizinhos da Mata Sul. E também com Claudiano Martins Filho (PP) que vai para o terceiro mandato – filho de um ex-prefeito de Itaíba (Agreste), sobrinho de ex-prefeitos de Águas Belas (Agreste) e Manari (Sertão do Moxotó), primo de ex-prefeito de Inajá e primo dos atuais prefeitos de Quipapá (Mata Sul) e Manari.

Roberta Arraes (PP), eleita para o segundo mandato, tendo alcançado sua maior votação em Araripina (Sertão do Araripe), é esposa de Alexandre Arraes, ex-prefeito do município entre 2013 e 2016. Rogério Leão (PR) também eleito para o segundo mandato, e que conquistou maior votação em São José do Belmonte (Sertão Central), é filho de Pedro Leão Leal, ex-prefeito da cidade.

Os filhos e filhas de ex-deputados

Clodoaldo Magalhães (PSB) e Claudiano Martins Filho (PP) são filhos de ex-deputados estaduais. Mas como eles há pelos menos outros seis casos.

Com 38 anos, Diogo Moraes, filho do ex-deputado Oséas Moraes, já é um veterano de terceiro mandato. Sua base eleitoral é em Santa Cruz do Capibaribe (Agreste), onde foi vereador. Outro veterano é Rodrigo Novaes, da mesma idade de Diogo, e filho do ex-deputado Vital Novaes, ele também foi eleito para o seu terceiro mandato na Alepe, tendo sido vice-prefeito de Floresta (Sertão do São Francisco), sua base política. Rodrigo vai se licenciar da Assembleia. Convidado pelo governador Paulo Câmara (PSB), assumiu no começo de janeiro a Secretaria Estadual de Turismo e Lazer.

Lucas Ramos (PSB), 32 anos, vai ocupar uma vaga na Alepe pelo segundo mandato consecutivo. Com base eleitoral no Sertão do São Francisco, ele é filho do ex-deputado Ranilson Ramos, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

Quem vai estrear na Assembleia é o filho daquele que foi o parlamentar mais poderoso do Legislativo Estadual desde que o ex-governador Eduardo Campos tomou posse no Governo de Pernambuco em 2006: Guilherme Uchôa.

Com o terceira maior votação do estado (71.898), Guilherme Uchôa Júnior (PSC) herdou os votos do pai em diversos municípios da RMR, Zona da Mata e Agreste. O pai foi deputado estadual por sete mandatos consecutivos. E por seis vezes consecutivas comandou a Mesa Diretora da Alepe, até sua morte em julho de 2018.

Estreante também é a deputada eleita Fabíola Cabral (PP), filha do prefeito afastado do Cabo e ex-deputado estadual Lula Cabral (PSB).

Henrique Queiroz Filho (PR), 37 anos, ficou com os votos e a vaga do pai Henrique Queiroz, que abriu o caminho para o filho depois de 10 mandatos consecutivos na Alepe.

Com 53 anos, Clóvis Paiva (PP) conquistou o primeiro mandato com 7 mil dos seus 37.407 votos vindos de Ribeirão (Mata Sul), onde foi prefeito por duas vezes e sua filha Carla Paiva (PP), 28 anos, é a atual vice-prefeita.

O voto concentrado em uma cidade

Além das cinco candidaturas que tiveram mais de 50% de seus votos concentrados no Recife, outros sete candidatos chegaram à Alepe graças a votações muito expressivas nas suas cidades de origem. Caruaru e Petrolina, as maiores cidades do Agreste e do Sertão, elegeram juntas cinco candidatos nesta situação.

Em Caruaru, foi o caso dos ex-prefeitos Tony Gel (MDB) e Zé Queiroz (PDT). Tony Gel (duas vezes prefeito e três vezes deputado federal) vai para o terceiro mandato consecutivo de deputado estadual, tendo recebido 61,99% dos seus 49.133 votos em Caruaru. Zé Queiroz (quatro vezes prefeito) volta à Assembleia, depois de oito anos, para o seu quinto mandato com 32.740 votos, 73,36% obtidos na maior cidade do Agreste.

Zé queiroz e tony gel 2

Zé Queiroz e Tony Gel disputam há décadas os votos dos eleitores de Caruaru

Mas foi o Delegado Lessa quem, proporcionalmente, mais contou com os votos de Caruaru para se eleger deputado pela primeira vez. Foi lá que ele obteve 78,76% dos seus 29.128 votos.

Em Petrolina, o filho mais novo do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), Antônio Coelho (DEM), 23 anos, foi eleito deputado com 44.277 votos, sendo 68,81% deles na cidade administrada pelo irmão Miguel Coelho (PSB). O apoio do ex-prefeito e ex-deputado Odacy Amorim (PT) se mostrou decisivo para que sua esposa Dulcicleide Amorim (PT) se elegesse deputada pela primeira vez com 22.359 votos, 65,55% em Petrolina.

O mesmo fenômeno se repetiu no Cabo de Santo Agostinho (RMR) e em Ouricuri (Sertão do Araripe). A filha do prefeito afastado do Cabo, Lula Cabral (PSB), Fabíola Cabral (PP), chegou à Alepe com 41.857 votos, 47,26% obtidos no município. Em Ouricuri, Antônio Fernando (PSC) conseguiu 66,19% dos seus 27.605 votos.

O poder da polícia

Chama atenção o número de policiais e ex-policiais eleitos e o quanto o seu eleitorado está relacionado com sua atuação territorial.

A deputada recordista de votos na história da Assembleia, a delegada Gleide Ângelo (PSB), concentrou 90% dos seus 432.466 votos na Região Metropolitana do Recife. Com muita exposição na mídia, ela se notabilizou nos últimos anos por comandar investigações de crimes de ampla repercussão pública. Antes de ser eleita, chefiava o Departamento de Polícia da Mulher.

O Delegado Lessa, de Caruaru, contabilizou 78,76% dos seus votos na cidade onde iniciou sua carreira de delegado em 2008, na 1a Delegacia da cidade, sendo designado depois delegado Regional de Caruaru e, na sequência, diretor de Polícia Civil do Agreste e Zona da Mata pernambucanas.

Eriberto Medeiros (PP) também foi policial civil, com atuação no Grande Recife. Eleito vereador da capital por duas vezes, vai para o quarto mandato na Alepe.

Outro ex-delegado, diretor da Polícia Civil e ex-secretário de Segurança Pública de Pernambuco e também veterano na Assembleia é Antônio Moraes (PP). Sua base eleitoral está na Zona da Mata Sul, especificamente na sua cidade natal, Macaparana.

Três ex-PM completam o grupo de policiais com assento na Assembleia. Joel da Harpa (PP), Alberto Feitosa (SD) – eleito para o quarto mandato – e Fabrízio Ferraz (PSL), ex-tenente-coronel, da tradicional família Ferraz de Floresta, seu reduto eleitoral.

Novidade no campo progressista

No campo progressista, três novidades. A maior delas, a eleição da candidatura coletiva das Juntas, formada pela ambulante Jô Cavalcanti, a advogada trans Robeyoncé Lima, a jornalista e produtora audiovisual Carol Vergolino, a professora Kátia Cunha e a estudante Joelma Carla. Todas filiadas ao Psol.

Quem retorna à Alepe é o ex-prefeito do Recife e ex-deputado estadual e federal, João Paulo. Ele deixou o PT para se filiar ao PCdoB e garantiu uma vaga para o partido comunista na Assembleia.

Representante do movimento sindical rural, chega também à Alepe, para o seu primeiro mandato, o ex-presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais de Pernambuco, Doriel Barros (PT). Natural de Águas Belas, no Sertão, de onde veio sua mais expressiva votação, Doriel integrou o sindicato rural da sua cidade e por 16 anos foi diretor da Fetape, tendo dirigido a instituição por dois mandatos.

A professora e ex-presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), Teresa Leitão, saiu mais uma vez vitoriosa das urnas e segue para o seu quinto mandato consecutivo.

A dança dos partidos

Três partidos que não tinham representação na Assembleia na legislatura passada garantiram uma vaga para o período 2019-2022: Avante (Silvio Costa Filho), PCdoB (João Paulo Lima) e o PRTB (Marco Aurélio Meu Amigo). Outro partido sem representante nos últimos quatro anos na Alepe era o PSC, que agora elegeu cinco parlamentares (Manoel Ferreira, Clarissa Tércio, Antônio Fernando, Guilherme Uchôa Júnior e Wanderson Florêncio).

PRP e PROS, que possuiam um deputado cada um no quadriênio 2015/2018, agora não conseguiram eleger ninguém. O PSL também tinha um e perdeu. Mas voltou a conquistar uma cadeira com a mudança de legenda de Fabrízio Ferraz, eleito pelo PHS e recém-filiado ao PSL, de Luciano Bivar e Jair Bolsonaro.

O que não mudou foi o apoio majoritário ao governo Paulo Câmara. Os dois maiores partidos da Assembleia dão sustentação ao governador. O PSB com 12 parlamentares e o PP com 10. O ano começa com 38 parlamentares na base do governo, 1 independente (Juntas) e 10 na oposição.

A dança dos partidos começou cedo, considerando que em outubro eram 17 os deputados e deputadas eleitos em palanques de oposição.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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