Derrota nas urnas é chamado à resistência

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Mariama Correia e Débora Britto

No princípio era a expectativa, a tensão. As horas que antecederam a apuração das urnas foram de nervosismo para os eleitores de Fernando Haddad (PT), que se reuniram no bairro de Santo Antônio, no Recife, na noite deste domingo (28). Sobre os rostos voltados para as telas dos celulares e os dedos nervosos que trocavam mensagens pairava a dúvida: será que o movimento de virada que ganhou volume nas últimas semanas nas redes sociais, inclusive com a adesão de várias figuras públicas que, na reta final, declararam voto ao PT, se confirmaria nos números?

Na Avenida Martins de Barros, no chamado Ponto 13, os eleitores acompanharam a apuração vestidos de vermelho, com bandeiras hasteadas, cantando músicas da campanha e gritando palavras de ordem. Ali também estavam políticos e dirigentes do PT e de partidos de esquerda como o PSOL, além de representantes do Movimento Sem Terra (MST), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do coletivo de mulheres lésbicas e bissexuais de Pernambuco (Colesbi-PE), dos índios Xucurus de Pesqueira (PE), que fizeram uma apresentação de seus cantos tradicionais e de cocos de roda, entre outras entidades.

Uma hora antes da primeira parcial ser divulgada, a ansiedade era grande. “Dá um aperto no coração”, comentou a atriz Bruna Marques. “É um misto de expectativa e esperança”, disse a professora Vivian Silva. Por volta das 19h, foram divulgados os primeiros números, que já consolidavam a vitória de Jair Bolsonaro do PSL, com 55% dos votos quando 88% das urnas estavam apuradas – embora, em Pernambuco, Haddad tenha vencido com 66%.

O ar de perplexidade das pessoas diante da vitória de Bolsonaro logo se transformou em  choro desenfreado. Entre lágrimas, a contadora Eduarda Melo contou que sempre sofreu discriminação por conta de sua orientação sexual. Agora, o sentimento de insegurança é maior. “Estava planejando ter um filho com a minha esposa no próximo ano, mas diante da eleição de Bolsonaro podemos ter que abrir mão desse sonho”, comentou. A esposa dela, Maria Cireno, que é empresária, também partilha do mesmo sentimento de medo. “Senti o ódio das pessoas durante essas eleições. Um ódio simplesmente por sermos quem somos”, disse visivelmente abalada.

Da coordenação estadual do MST, Paulo Masan considera que o resultado das eleições também põe em risco a segurança de movimentos populares. “Abre possibilidade para a intolerância se tornar violenta”, afirma, citando exemplos de acampamentos do MST que sofreram atentados na reta final da disputa eleitoral. Felipe Cavalcanti, da coordenação estadual MTST, reforçou que o cenário político a partir de 2019 será obscuro. “Vamos nos organizar para a resistência do que pode vir”.

Resistência

De um palanque improvisado, Jaime Amorim, da coordenação estadual e liderança nacional do MST em Pernambuco, disse que é preciso organizar o “Congresso do Povo, uma iniciativa popular que pretende construir com a população novas propostas para o país, no campo da esquerda.”

Presidente do PT em Pernambuco, Bruno Ribeiro classificou a vitória de Bolsonaro como um retrocesso. “É o fascismo institucionalizado. É um resultado adverso à democracia”, comentou. Para o dirigente, o resultado das urnas lança um novo desafio para a esquerda brasileira e para o PT. “Nós temos que garantir que todos os direitos conquistados pelo povo sejam mantidos. O tamanho das nossas ações de oposição será determinado pelas ações do governo de Bolsonaro. Se ele for desenvolver as suas promessas selvagens, encontrará um povo que vai impor limites. Nossa luta é mostrar que a Constituição o limita, que as conquistas do povo o limitam. Bolsonaro será um presidente limitado pela vontade popular”, declarou.

Priscila Gadelha, presidente do Conselho Estadual de Políticas de Drogas, é uma das pessoas que acreditava na virada de Haddad e vislumbra nessa mobilização o começo do que pode ser um caminho de resistência. “Minha sensação é de que conseguimos repactuar com o povo. Mas a gente precisa muito de cada pessoa, pois vem aí uma revolução cultural. É preciso se envolver de verdade e abrir caminho para o diálogo aberto. Precisamos falar mais sobre mídia, cultura, educação”, disse.

Ante à derrota nas urnas, os eleitores que ainda permaneciam no Ponto 13 encontraram apoio entre abraços dos amigos e familiares. No fim, seu desalento se tornou um chamado à resistência. “O Brasil vai passar por um processo difícil nos próximos anos, é preciso resistir”, ponderou o músico Márcio Oliveira. “Agora precisamos lutar para reduzir os danos”, acrescentou o servidor público Henrique Lima. Ao microfone, a estudante Rosa Amorim gritava que não é possível deixar que o medo prevaleça. “Somos nós que vamos estar na linha de frente. É preciso não ter medo, é preciso ter coragem de lutar pela democracia”.

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