Ednardo: como um artista é feliz longe da mídia

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Depois de quase uma década sem cantar no Recife – a última vez havia sido uma apresentação para um pequeno público na extinta Sala de Reboco -, Ednardo volta a fazer um show na capital de Pernambuco. Motivo mais do que o suficiente para a Marco Zero Conteúdo tentar saber o que se passa pela cabeça de um artista que vive há tanto tempo sem espaço nas rádios e TVs.

Antes mesmo da entrevista, não foi difícil perceber que o cearense se reinventou com a interatividade da internet. Um dos pioneiros do fenômeno que a mídia da época, sempre ávida para rotular o que não compreendia, convencionou chamar de “Pessoal do Ceará”, Ednardo é atuante nas mídias sociais, dispõe de um site em que disponibiliza fotos em alta resolução e toda a sua discografia para ser escutada livremente (www.ednardo.com.br).

O primeiro contato foi por meio de seu perfil em uma rede social. Ele próprio respondeu sem demora e sem intermediação de assessoria de Imprensa. Foi combinado que as perguntas seriam enviadas por e-mail e, respondidas, exatamente no dia seguinte à morte do seu parceiro Belchior.

Tentamos então incluir uma pergunta sobre isso, mas, polidamente, ele recusou, disse que não responderia, como também não respondeu aos jornais dos veículos tradicionais que, desde a véspera, lhe bombardeavam.  Acrescentou, porém, que “no show do Recife farei uma homenagem a ele”.

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 Marco Zero – O público “médio”, acostumado a acompanhar as atividades do mundo artístico apenas pela mídia tradicional, tem a impressão que cantores ou músicos que não estão na pauta dos programas de auditório, dos mega shows, das rádios comerciais ou da trilha das novelas, simplesmente deixaram de trabalhar, não cantam mais, passaram a viver de outra coisa. Há muito tempo, você está distante desses espaços de visibilidade. Fale-me um pouco da sua arte e da sua criação distante da sociedade de espetáculo?

Ednardo – É bom que o público de forma geral se acostume desde já a procurar informações, não só nestes meios tradicionais que você cita. A Internet, através de plataformas que disponibilizam vídeos, programas, músicas, está além das pautas de auditórios, dos playlists, da prática excludente dos jabás que reduzem a pluralidade da música brasileira, que tem saúde criativa bem maior. A meu ver, a visibilidade depende também daqueles que procuram ver e conhecer bem mais do que aquilo que lhes oferecem.

Esse distanciamento foi imposto pela indústria cultural e midiática ou foi você quem buscou esse outro caminho?

Não me distanciei, os que acompanham meus trabalhos em discos, trilhas de cinema e teatro, que estão registrados até hoje, sabem que mantenho uma relação próxima ao público que vai além das imposições da indústria cultural e midiática.  Vai além dos escaninhos e gavetas em que tentam compartimentar e reduzir os caminhos.

Quais  meios você usa para se relacionar com seu público?

Todos que estiverem ao alcance de minha produção e trabalhos, shows, gravações ao vivo, DVDs, livros, jornais, TVs, rádios, etc. E, se faltar, ainda podemos inventar outros.

As transformações e a crise na indústria fonográfica provocadas pelas novas plataformas para consumo de música, tipo iTunes, Spotify lhe impactaram de alguma maneira? Como você percebe esse cenário?

Isto já se desenhava faz tempo quando músicas e discos começaram a ser veiculados na internet. Raramente as transformações e migrações para novas plataformas resultam em algo palpável, pois tudo é volátil e impreciso, desde as informações às remunerações autorais. Note que as gravadoras participam ativamente como “sócias”, resguardam os fonogramas, mas nada dizem dos direitos dos compositores autores, intérpretes. E o cenário onde estas informações ficam retidas é todo no exterior, não podemos acessar. É complicado.

Como você identifica ou percebe qual é seu público atual? Ou melhor, para quem você canta hoje?

Canto para grande quantidade de público em todo Brasil, diversas faixas etárias, classes sociais abrangentes. Em todos os shows que realizo atualmente esta afirmação é fato comprovado pelas gravações de imagens do público, evidenciado por vários vídeos disponibilizados no YouTube e outras plataformas.

Para quem já teve a casa invadida e a esposa ameaçada por policiais na ditadura, como você enxerga esses momentos que vivemos no Brasil e seus desdobramentos para a criação artística?

Com preocupação, é claro. Qualquer pessoa que vivenciou aqueles tempos sabe do que estou falando. Sabe das dificuldades enfrentadas, dos cerceamentos, daquilo que era escancarado com a repressão policial-militar, mas que pode se tornar “sutil” e praticado de formas “sofisticadas ao extremo” como censura econômica ao artista e/ou o fechamento de seus espaços na mídia tradicional.

Depois de 40 e tantos anos de carreira, ainda dá pra dizer que cantar parece com não morrer?

Cantar é dom divino à disposição humana, a música extrapola seu criador de todas as formas, depois de emitida passa a fazer parte do depositário a quem se destina. Daí ganha outra força, no coletivo das vozes. Cantar parece com muitas formas de vidas e cores de luzes, testemunhando a existência. “Arrepare não” é uma história imensa, bem curtinha, fácil de contar, que a vida é que tem razão.

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Sobre o autor

Formado em Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, aprendeu mesmo o ofício como repórter de polícia do Diário Popular (SP) . Depois disso, foi parar na sucursal paulista de 'O Globo' e no 'Diário de Pernambuco'. Ganhou os prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, Cristina Tavares, Ayrton Senna de Jornalismo e menção honrosa no Ibero-Americano de Jornalismo pelos Direitos da infância. Também é Jornalista Amigo da Criança. Saiu dos jornais no final de 2000 para ser secretário de Comunicação de Olinda. Em seguida, foi oficial e consultor de comunicação do UNICEF, atividade que ainda exerce. Publicou uma trilogia de crônicas de futebol com Samarone Lima e dois livros de entrevistas e memória com a cineasta Tuca Siqueira. É casado com uma mulher que ama desde a adolescência e tem três filhos.

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