Eles querem salvar o Brasil do comunismo

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Observações acidentais na praça do Derby, 13 de março

O Hino Nacional Brasileiro atravessou o calor da praça do Derby pouco depois das 15h. Trinta e duas pessoas, incluindo na conta o mestre de cerimônias. Para minha surpresa só um rapaz magrinho usava camisa azul pedindo Bolsonaro Presidente. Um senhor ao seu lado ostentava uma camiseta branca clamando S.O.S FFAA, abreviatura carinhosa para Forças Armadas, outro uma camisa pirata do Sport. Mais da metade segurava bandeiras brasileiras. Ninguém usava camisa da CBF, apesar do prestígio de Tite.

Ninguém estava ali com boas intenções: quem vai às ruas pedir que os militares salvem o Brasil como fizeram em 1964 quer amputar direitos, liberdades, dedos, pernas e braços.

Nenhuma daquelas 32 pessoas eram cômicas ou engraçadas. Nenhum deles é maluco. Todos são ameaçadores. Nem todos, tiremos da conta o rubro-negro, esse não tinha nada a ver com aquilo, era pedinte e me abordou pedindo uma moeda. Dei R$ 0,50. Nunca senti tanto carinho por alguém com camisa vermelha e preta. Feita a recontagem, foram 31 os participantes da manifestação que pedia uma nova ditadura militar.

Parei para assistir sem qualquer simpatia pelo que diziam e sem a intenção de “ouvir as partes” do bê-á-bá do jornalismo. Só interrompi minha caminhada para casa para poder narrar o que vi, ouvi e senti.

Os cartazes e faixas davam a sensação que, depois do golpe sobre uma presidenta eleita e na sequência de ações contra direitos sociais, a direita antidemocrática entrou em uma nova etapa em sua escalada: além do sombrio Saudades de 1964, banners pediam a extinção do Legislativo, do Judiciário e do Executivo. Outras faixas clamavam pelo fim da atividade política. A do carro de som informava por uma intervenção constitucional, único sinal de respeito ao Estado Democrático, mas que soou como uma concessão retórica no momento de escolher a palavra de ordem.

“Melhores” Momentos

Dos 31 presentes, apenas três usaram o microfone no intervalo de uma hora que suportei escutar.

Pelo que pude deduzir, o orador principal e mestre de cerimônias, chamava-se Rafael. Não pensei em ir lá perguntar. Não tenho qualquer inclinação a servir de escada para um jovem que está querendo encontrar um rentável meio de vida à custa dos meus direitos.

O rapaz de camisa branca de botões e calça bege lembra outros jovens que vi em 1989, se filiando ao PRN de Fernando Collor para fazer seu nome e abiscoitar um mandato parlamentar ou cargo em alguma autarquia. Exibia um sorriso fácil no rosto simpático que emoldurava o otimismo das suas palavras: Ele estava “feliz por estarem começando a luta pela intervenção militar”. O gerúndio “começando” me preocupou.

FFAA7

Dos três oradores, só o tal mestre de cerimônias demonstrou alguma preocupação em atrair mais seguidores na cruzada contra o comunismo que, segundo ele, está em todo canto. “Não queremos a volta da ditadura. Queremos que os militares entrem em ação para deixar o Brasil limpado (sic), para zerar tudo e resolver tudo de uma vez, como já fizeram em 1964 quando os comunistas tentaram tomar conta de nossa pátria”. Aliás, as palavras comunistas e comunismo pareciam doce na boca daquela turma. Para eles, tudo é coisa de comunista, principalmente o Congresso.

Ele também demonstrou muita preocupação com a pureza do povo brasileiro, em nome de quem os militares interviriam e para quem devolveriam o Brasil. Ele não se preocupou, porém, em explicar como seria essa complexa operação. O povo é puro. O Brasil é puro. São puros os 31 da praça do Derby.

O mestre de cerimônias passou a palavra para um sujeito alto, de meia idade, chamado Milton Costa, cujas desventuras com o boneco gigante de Bolsonaro que mandou fazer circularam pelo Facebook nos dias que seguiram ao carnaval. Alguns falsos direitistas se apropriaram do seu boneco e o usaram para fins libidinosos.

O final do parágrafo anterior ficou dúbio e pode lançar suspeitas infundadas sobre as preferências sexuais do Bolsonaro gigante de Olinda. Explico melhor: o boneco ficou numa casa, servindo de isca para atrair mulher. Isso o revoltou.

Vamos à fala de Milton. Aqui, vale uma advertência, pois posso me confundir por conta da incoerência do seu discurso e o do orador seguinte, um tal de Carlos. Para não chamar a atenção sobre minha vulnerável pessoa, acompanhei tudo sem anotar nada. Já bastaram os olhares inquiridores que notei quando saquei o celular para fazer as fotos que ilustram este texto.

Milton está convicto que o Superior Tribunal Federal é a obra-prima do comunismo no Brasil. Isso mesmo, o STF é fruto da inspiração direta de Marx, Engels, Lênin, Stálin, Prestes, Luciana Santos et caterva. Por quê? Ora, porque garantiu pena mínima para os corruptos investigados pela sacrossanta Lava Jato.

Aliás, para ele – para todos os oradores, sejamos justos – nunca jamais em momento algum houve corrupção durante a ditadura. Em matéria de garantia de idoneidade moral, a farda verde-oliva só é comparável ao marrom da túnica de São Francisco, o santo, porque o papa é comunista perigosíssimo.

Não contam para eles: o desvio de armas dos arsenais do Exército para o narcotráfico, a proteção do delegado Fleury a traficantes, o caso Luftalla de Paulo Maluf no governo Geisel, o contrabando de pedras preciosas do ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, o desvio de dinheiro da Capemi pelo general Newton Cruz, o caso Coroa-Brastel ou o caso Delfin, no governo Figueiredo. Também não conta a censura que impedia o noticiário desfavorável.

Então veio o terceiro orador. Depois de Carlos falar por meia hora, havia apenas oito participantes diante do coreto da praça. Hora de ir, afinal se nem eles aguentavam, porque eu teria de ficar até o final para acompanhar o prometido momento em que seriam deliberadas as próximas ações.

Desconfio que Carlos seja um comunista infiltrado. Além de dispersar os combatentes do retrocesso, ele falou algumas coisas sensatas (seguidas de conclusões grotescas, óbvio).

Carlos começou a conversa conclamando seus pares a se informarem por outros meios de comunicação que não estão sob o domínio da Rede Globo. Para meu alívio, não citou a Marco Zero. E justificou: a Globo está ajudando o comunismo no Brasil com suas novelas anticristãs. Seriam os filhos de Roberto Marinho uns incompreendidos?

Depois, vociferou contra a reforma da Previdência com uma clareza de da inveja à moçada de camisa vermelha. Para ele, o comunista Michel Temer está planejando acabar com o INSS e com o povo trabalhador do Brasil para entregar tudo de mão beijada às empresas de Cuba (sic), Venezuela e da China. Só não explicou como os venezuelanos vão ter dinheiro para isso se, como ele mesmo repetiu umas cinco vezes, já estão comendo cachorro por causa da miséria.

Talvez tenha sido seu ímpeto contra a reforma da Previdência que afastou os manifestantes (enquanto me mandava, vi dois ou três grupinhos deles, na sombra, longe das vistas de Carlos, que prosseguia falando alguns decibéis acima o tom, tal qual faria um comunista disposto a jogar água na cerveja dos lambe-botas dos militares.

FFAA1

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Sobre o autor

Formado em Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, aprendeu mesmo o ofício como repórter de polícia do Diário Popular (SP) . Depois disso, foi parar na sucursal paulista de 'O Globo' e no 'Diário de Pernambuco'. Ganhou os prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, Cristina Tavares, Ayrton Senna de Jornalismo e menção honrosa no Ibero-Americano de Jornalismo pelos Direitos da infância. Também é Jornalista Amigo da Criança. Saiu dos jornais no final de 2000 para ser secretário de Comunicação de Olinda. Em seguida, foi oficial e consultor de comunicação do UNICEF, atividade que ainda exerce. Publicou uma trilogia de crônicas de futebol com Samarone Lima e dois livros de entrevistas e memória com a cineasta Tuca Siqueira. É casado com uma mulher que ama desde a adolescência e tem três filhos.

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