Entre o peito e a mamadeira

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Amamentação é considerada a melhor vacina para uma criança, mas por que é tão difícil para as mães? E o que podemos fazer para melhorar?

Por Beatriz Braga e Mariana Barros, especial para a Marco Zero

Para cada mãe no mundo, há sempre um cartaz de incentivo à amamentação: a mulher com um sorriso calmo carrega no colo o seu filho que, tranquilamente, se alimenta no peito. Na imagem não tem sangue, mastite, choro infinito, não tem a cara de dor ou a mãe fatigada com a sensação de falha na primeira missão depois de gerar uma vida: alimentar seu bebê.

O cartaz passa a ideia de que essa é uma escolha da mãe. “Você vai dar o peito ou não vai?”, perguntam os amigos. No entanto, a propaganda tamb ém não mostra as leis precárias de licença maternidade ou a probabilidade de demissão após retornarem ao trabalho; a solidão dos espaços reservados para lactação ou a falta deles em ambientes corporativos; os olhares atravessados aos seios descobertos ou a falta de suporte em vários níveis para que o tempo de amamentação indicado pela Organização Mundial de Saúde seja uma possibilidade. Por trás dos seis meses de amamentação exclusiva e dois anos de aleitamento parciais, como indicado, existem mães também exclusivas que não se reconhecem naqueles cartazes.

Amamentação não é uma escolha. É um desafio diante de um mundo que não foi desenhado para mulheres serem ativas socialmente. “O bebê é o doce e a mãe é apenas o embrulho. A sociedade não liga se a mãe está com dores ou sofrendo”, lamenta a consultora de amamentação californiana Katie Howser.

E por que isso é importante? Porque “ se a amamentação não existisse, alguém que a inventasse hoje mereceria um duplo prêmio Nobel de medicina e economia ”, diz Keith Hansen do World Bank no The Lancet .

Amamentação é um privilégio. O mundo ainda tem um longo caminho pela frente quando se trata de maternidade e isso inclui você, leitor(a), os Estados Unidos, a indústria de comidas infantis, um projeto bem sucedido no Brasil e estatísticas surpreendentes ao redor do planeta.

Estados Unidos e o paraíso das fórmulas infantis

Fazia sol em Gene bra, em maio de 2018, e os ânimos da Assembleia Mundial de Saúde pegavam fogo por outros motivos. O encontro reúne representantes do mundo inteiro para discutir assuntos relacionados à saúde global. Naquele ano, a comitiva do Equador propôs uma resolução para o incentivo ao aleitamento materno, algo aparentemente inofensivo e aceito por quase todos os países. A não ser pela delegação norte-americana, que se posicionou incisivamente contra. “Foi um escândalo”, afirmou Patti Rundall da organização inglesa Baby Milk Action. Uma das repórteres dessa matéria, Mariana Barros, também estava presente e viu o burburinho acontecer quando, por medo de retaliação da maior potência mundial, algumas nações começaram a recuar.

 A jornalista Mariana Barros no salão das Nações Unidas na cobertura da Assembleia Mundial de Saúde de 2018, em Genebra

A jornalista Mariana Barros no salão das Nações Unidas na cobertura da Assembleia Mundial de Saúde de 2018, em Genebra

A razão para a recusa teria respaldo nas boas relações do governo americano com a indústria de fórmulas infantis, uma vez que o tratado visava impor restrições às ações de marketing dessas empresas sob justificativa de “garantir às mulheres e suas famílias uma escolha livre de influência publicitária”. A delegação norte-americana teria visto uma ameaça e imposto sanções
(como a retirada de ajuda militar no Equador) a quem acordasse. A questão só se resolveu quando a comitiva da Rússia assumiu as rédeas da discussão e o acordo foi assinado.

O caso foi retratado por uma matéria do New York Times, bastante criticada por Trump, presidente no país, que disse em seu twitter: “ Os EUA apoiam fortemente a amamentação, mas não acreditamos que deva ser negado às mulheres o acesso à fórmula. Muitas mulheres precisam dessa opção devido à desnutrição e à pobreza”.

A discussão, no entanto, não gira em torno da proibição do acesso à fórmula, mas da regulamentação das ações de marketing de empresas como Nestlé, Danone, Mead Johnson e Abbott que comercializam esses produtos. “ As fórmulas infantis salvam vidas diariamente, pois, na impossibilidade de amamentação, é a elas que precisamos recorrer. O problema está na publicidade, na abordagem, nas prescrições desnecessárias. Na crença das pessoas mais vulneráveis de que aquele alimento é melhor ou mais forte para seu filho”, explica a pediatra brasileira Luísa Meneses.

Quando as delegações pró-aleitamento falam de marketing abusivo, são várias as táticas usadas pelas empresas. Nos Estados Unidos, há registros de abordagens nos hospitais, consultórios médicos e na porta de casa. É difícil encontrar uma mãe americana que nunca se deparou com uma encomenda não requisitada recebida pelo correio. Basta assinar uma newsletter em um site sobre bebês ou fazer um compra sugestiva em uma loja de departamento, como teste de gravidez.

Apesar de aparentemente inofensiva, ter a fórmula em casa pode complicar as tentativas de amamentação. “ Uma vez que você usa a fórmula, o processo de lactação – que diminui com a amamentação menos frequente – começa a regredir. Quando as amostras grátis são usadas e o bebê está mamando menos, existe uma necessidade real de comprar mais fórmula. Não é por acaso que grandes corporações se interessam pelo que comemos no primeiro dia de vida”, diz a jornalista Kimberly Allers no livro “The Big Letdown”.

A enfermeira estadunidense Virginia Scheiderer conta que quando estava grávida recebeu as caixas com substitutos de leite materno pelo correio. “Achei estranho quando me mudei porque não havia me inscrito em nada novo, mas as fórmulas não paravam de chegar, de alguma forma eles descobriram meu novo endereço”, relembra. “O marketing que acompanha as fórmulas são do tipo ‘seu bebê não está recebendo leite suficiente’ ou ‘seu bebê agora tem seis meses e precisa desses itens extras’ e isso reflete em muitas mulheres”.

A doula americana Meagan Heaton também recebeu fórmulas pelo correio. “Esse marketing abusivo atrapalha de várias maneiras. Amamentação pode ser muito duro e cansativo. Quando temos a fórmula vindo ‘para eventualidades’ é muito tentador pensar ‘vou fazer só hoje’. Isso não quer dizer que a fórmula é algo ruim, mas a amamentação é difícil e quando temos todas essas encomendas sendo entregues de graça na porta de casa, fica ainda mais difícil. Além de não termos ideia de que tipo de substituto está chegando, pode ser algo que nossos bebês sejam sensíveis e não seja apropriado, mas estamos cansadas e caímos na tentação”, diz.

Também não é incomum mulheres saírem do hospital com uma sacola de fórmulas grátis. A consultora de lactação californiana, Sarah Quigley, também atende muitas mães que receberam fórmula grátis de pediatras, enfermeiras e hospitais só para “eventualidades”.

“Muitos bebês recebem fórmula e não precisam. Sei de uma mãe que estava indo muito bem com amamentação, produzindo muito leite, mas recebeu uma amostra da enfermeira. Ela agradeceu e disse que não queria, ao que a mulher lhe respondeu: ‘mas eu me sentirei melhor se lhe der”, conta.

O setor de fórmula infantil é o maior segmento do mercado de alimentos para crianças. Em 2014, as vendas globais de todas as fórmulas de leite para bebês foram de US$ 44,8 bilhões e o estimado para 2019 são de US $ 70,6 bilhões.

Desde 1991 que a iniciativa “Hospital Amigo da Criança” foi lançada pelo UNICEF e a OMS com a intenção de transformar instituições de saúde em centros de apoio à amamentação. Para ter o selo, o hospital deve seguir alguns acordos, como não oferecer sacolas de fórmula às mães, eliminar as enfermarias (os quartos onde os bebês são colocados depois do parto) para que mãe e cria fiquem juntos desde o primeiro momento; apoiar mães a reconhecerem os sinais naturais de fome da criança e aconselhar às famílias sobre os riscos de substitutos de leite materno.

A organização inglesa Baby Milk Action faz parte da IBFAN ( International Baby Food Action Network) , uma rede de organizações que acompanha a atuação dos governos e das empresas quanto à efetivação da política de proteção do aleitamento materno . Ela se baseia no Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, criado em 1981, que apresenta uma série de boas práticas para empresas de alimentos para bebês.

Patti Rundall (Baby Milk Action) deixa claro que o código não bane a fórmula. “Não colocamos nenhuma obrigação às mulheres, mas queremos que seja uma obrigação dos países remover os obstáculos para elas. Mães precisam ter acesso às informações precisas. Quando se dizem idênticos ao leite humano, é mentira e manipulação”, explica.

Patti Rundall acredita que a publicidade de fórmulas é um obstáculo para amamentação

Patti Rundall acredita que a publicidade de fórmulas é mais um obstáculo para amamentação

“Na época da criação, houve três abstenções, mas os Estados Unidos foram o único país que votou contra o código. Por não ter um consenso, o código se tornou uma recomendação e não uma obrigação – porque é assim que a Organização Mundial de Saúde funciona”, explica Patti Rundall. “Nós vimos, nesse novo governo americano, quase imediatamente as coisas ficarem mais difíceis. Os Estados Unidos simplesmente não acreditam em regulamentações”, acrescenta, se referindo ao imbróglio em Genebra de 2018.

O Brasil foi um dos primeiros países a aceitar o tratado na época de sua criação, que comemora 30 anos em 2019. O precursor desse feito foi o professor e médico Fernando Figueiras, que fundou o IMIP (o primeiro hospital Amigo da Criança do Brasil). “Em 1974, Figueiras, então secretário de saúde, se encantou com o livro The Baby Killer (que falava do perigo das fórmulas infantis). Influenciado por todas as causas da mortalidade infantil no estado, ele publicou a primeira portaria oficial no mundo inteiro proibindo a distribuição de latas de leite, bicos, chupetas e mamadeiras em todas as maternidades públicas de Pernambuco. Isso tudo muito antes do primeiro código internacional de ética de substitutos do leite humano, que veio para dar base à norma de regulamentação de alimentos infantis no Brasil”, lembra a coordenadora do Banco de Leite do IMIP, Vilneide Braga.

Vilneide Braga coordenadora do Banco de Leite do Imip

Vilneide Braga coordenadora do Banco de Leite do Imip

“Nós temos o maior orgulho de um brasileiro ter feito essa ação incrível. É uma história que reflete no funcionamento dos nossos bancos de leite que tem hoje como principal objetivo dar assistência às mães lactentes com problemas na amamentação e promover com segurança e eficiência o armazenamento e distribuição do leite humano”, completa.

Um caso de referência no mundo. O país tem a maior e mais complexa rede de Bancos de Leite Humano do planeta, contando com mais de 220 postos de assistência e coleta, e maior número de doadoras. Entre janeiro e 15 de junho deste ano, já foram mais de 70 mil mulheres que doaram mais 65 mil litros de leite distribuídos para mais de 80 mil recém-nascidos.

A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (RBLH-BR) foi estabelecida em 1998 por iniciativa do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz. Em 2001, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a RBLH-BR como uma das ações que mais contribuíram para redução da mortalidade infantil no mundo na década de 1990. De 1990 a 2012, a taxa de mortalidade infantil no Brasil reduziu 70,5%.

“Foi uma conquista do SUS em 1985, uma tecnologia brasileira, de baixo custo na coleta e distribuição do leite materno, e reconhecida pela Organização Mundial de Saúde pela sua segurança e eficiência em todo processo”, conta o coordenador da Rede Global de Bancos de Leite Humano e Secretário Executivo do Programa Ibero-americano de Bancos de Leite Humano, João Aprígio Guerra de Almeida.

“A amamentação é algo que tem sido socioculturalmente condicionada ao mamífero humano. Ou seja, se sobrepõe aos fatores biológicos. Por isso devemos ter cuidado para não nos tornarmos um mamífero facultativo, onde acontece a troca das leis biológicas pelas leis do mercado. A amamentação não deve ser apenas tratada como uma preocupação exclusiva do setor da saúde, mas sim, como cidadania”, ressalta.

A melhor vacina do mundo

Em 2014, a Organização Mundial da Saúde desafiou a comunidade global a aumentar, até 2025, o número de bebês exclusivamente amamentados durante os primeiros seis meses para 50%. Calcula-se que, ao apoiar às mães a praticar o aleitamento materno adequado, aproximadamente metade dos episódios de diarreia e um terço das infecções respiratórias seriam evitadas, segundo dados do UNICEF.

A lista de ganhos é grande para bebê, mãe e sociedade (veja quadro abaixo)

Gráfico 1 (1)

 

“Se a criança está com algum problema, a saliva do bebê muda e avisa ao corpo que tipo específico de leite produzir. Dessa forma, o leite volta com os antibióticos necessários”, explica a especialista em lactação Katie Howser. “Além de que não é apenas o ato de amamentar em si. Há uma série de vantagens, inclusive no jeito que o pescoço e a cabeça se movimentam enquanto mamam, tudo isso é importante”, completa.

A pediatra Luísa Menezes relembra a frase do médico espanhol Carlos Gonzalez: “se existisse uma vacina com todos os benefícios da amamentação, os pais pagariam qualquer preço para garantirem aos seus filhos”.

Nos Estados Unidos, cerca de 84% dos bebês são iniciados à amamentação, mas apenas 25% são alimentados com leite materno até os seis meses. No Brasil, 38,6% dos bebês brasileiros se alimentam só com o leite da mãe nos primeiros 5 meses de vida, considerado abaixo do ideal, mas regular em relação ao mundo.

O problema sem nome

Os problemas na amamentação estão diretamente ligados ao suporte recebido pela mãe e bebê antes, durante e após o nascimento.

A comunidade em prol do aleitamento inclui parteiras, consultoras de lactação e doulas (profissionais que dão suporte às mães na hora do parto). Nos Estados Unidos, uma opção para famílias que procuram por ambientes mais humanizados são os Centros de Nascimento, comandados por parteiras e que oferecem suporte especializado com um clima de casa.

Jessie Flo e seu filho Bob, que mama em livre demanda

Jessie Flo e seu filho Bob, que mama em livre demanda

A produtora de eventos americana Jessie Flo sentiu a diferença de ter o apoio de uma parteira ao seu lado enquanto amamentava. “Eu tinha muito leite e não sabia o que fazer, estava sendo bem doloroso porque tinha pedras no peito. Então fui a uma consulta com a médica em uma clínica, amamentei na frente dela e ela me deu um bico de silicone, mas não adiantou. Ela disse que eu estava indo bem, que era normal. Ainda bem que tínhamos uma consulta com nossa parteira quatro horas depois. Ela finalmente nos orientou direito e depois de três dias estava tudo ótimo. Vi as duas profissionais na mesma situação e tive minha comparação direta. Eu sinto que se não tivesse me encontrado com a parteira, provavelmente teria tido mastite”, relembra.

Para a consultora de lactação Katie Howser, a amamentação é tratada como um assunto pessoal da mãe e pouco levado em conta nos exames de rotina da gravidez. “Nos Estados Unidos, os obstetras querem saber se a mãe está saudável, se a gravidez está tudo certo, mas depois disso, ela está por ela mesma. Pediatras têm zero momentos de amamentação na universidade, zero minutos, essa é uma das razões que nossa taxa de amamentação é muito pobre”, conta.

Katie Howser acredita que os problemas da amamentação começam na formação dos médicos

Katie Howser acredita que os problemas da amamentação começam na formação dos médicos

Se a relação do corpo médico com amamentação parece insuficiente, existe um espaço que foi tomado pelas indústrias de fórmula infantil. “Pesquisadores de nutrição infantil que, como grupo, têm sido fortemente financiados por empresas de fórmulas infantis, aceitaram a alimentação com fórmula como a norma para seus estudos. Os médicos, que historicamente mantinham relações financeiras com empresas de fórmulas infantis, confiavam nos pesquisadores para obter informações
sobre como os bebês amamentavam. E as instituições responsáveis por estabelecer diretrizes para garantir a saúde dos bebês em todo o mundo confiaram, por sua v ez, nessas duas entidades para dados e recomendações”, escreve Kimberly Allers.

Virgínia Scheiderer é enfermeira do setor de crianças com problemas no coração em São Francisco (CA) e, quando se tornou mãe, viu que a orientação passada dentro do ambiente médico não corresponde à realidade em casa. “Seja para mulheres saudáveis com bebês saudáveis ou com condição especial, em geral, não existe o suporte necessário. A mulher tem que criar uma rede de relacionamentos se quiserem amamentar: parteiras, consultoras de lactação, doulas pós parto. Isso tudo simplesmente não vem naturalmente”, conta.

“Meu maior problema foi o medo que me fizeram”

A brasileira Vanessa Amorim*, que mora na Flórida, nos Estados Unidos, sabia que faria de tudo para amamentar. O seu bebê nasceu prematuro e precisou ficar na UTI por vinte dias, onde Vanessa dava de mamar o tempo todo ou deixava o leite armazenado. Em certo momento, o médico responsável orientou o uso da fórmula e o recém-nascido acabou vomitando.

“Eu fui reclamar, eles suspenderam e ficamos apenas no aleitamento. Quando saímos do hospital, foi recomendado pelo médico, prescrito, o uso da fórmula três vezes por dia”. A orientação, segundo Vanessa – que também saiu do hospital com amostras de suplementos grátis – era de que, com o uso da fórmula, seria mais fácil analisar o ganho de peso da criança, mas a brasileira foi resistente.

“Não segui a orientação, assim como também não segui a recomendação de mamar de três em três horas, optei pela livre demanda”, relembra. A decisão da mãe foi respaldada na consulta ao pediatra três dias depois, quando foi constatado que a criança estava saudável e ganhando peso.

O bebê de Vanessa ficou vinte dias no hospital, nasceu prematuro com 2,300kg e, hoje, com quatro meses e sete quilos, segue exclusivo no leite e no peito. “Quando estava na UTI, havia outros oito bebês, mas ele era único que amamentava e também o único que não tinha infecções – lá me diziam que ele estaria assim provavelmente por conta do leite materno”, diz.

Para seguir seu plano, Vanessa precisou confiar nas informações que havia colhido previamente, mas sua experiência no hospital a deixou insegura e pressionada a dar fórmula. “Minha amamentação é tranquila, não tive dor, ferimento. O que me deixou mais preocupada foi o tanto de medo que me fizeram no hospital (sobre a amamentação não ser satisfatória)”.

Entre as queixas de mulheres que não conseguem amamentar, uma das mais comuns é não ter “leite suficiente”. A consultora de lactação americana Sarah Quigley alerta que muitas vezes o pouco leite não tem a ver com aspectos fisiológicos e sim com o que ela chama de “Problema de Gerenciamento de Amamentação”.

“Por exemplo: o bebê nasceu no hospital e disseram para a mãe que ela deveria dormir e pegam o bebê e o colocam na enfermaria ou em uma incubadora. Ou seja, a mãe e o filho não estão juntos nos primeiros momentos. Ou orientam que o bebê tenha um horário super rígido, como: ‘não alimente mais do que três horas’, ‘não dê lanchinhos’. No final das contas, mulheres não têm leite suficiente porque tiveram orientações muito rígidas ou elas não pegaram o bebê suficiente”, explica.

Sarah elenca três pilares que garantem uma amamentação bem sucedida: alimentar o bebê, manter o fluxo de leite contínuo e garantir que mãe e filho aprendam um com o outro. Para o “leite descer” em quantidade adequada são necessários estímulos que provoquem isso no corpo da mãe “A livre demanda, ou seja, a amamentação sempre que solicitada pelo bebê, ajuda e favorece a produção lactifera”, explica Alessandra Boaviagem, fisioterapeuta em saúde da mulher e doula.

A mãe também precisa produzir dois hormônios específicos, a prolactina e ocitocina, e para que isso ocorra é necessário muito mais que a sucção na mama. É necessário também que os níveis de adrenalina e cortisol sejam diminuídos. “Por isso é tão importante as mulheres que estão amamentando descansarem. Quem está amamentando precisa de uma rede de apoio. Quanto mais estressadas as mães ficam, mais será prejudicada a produção de leite”, alerta.

Fabiane com Valentina no colo em seu aniversário de 1 ano. Devido as dificuldades no primeiro momento da amamentação Valentina mamou até os cinco meses

Fabiane com Valentina no colo em seu aniversário de 1 ano. Devido as dificuldades no primeiro momento da amamentação Valentina mamou até os cinco meses

Para Fabiane Assunção, que mora no Recife, em Pernambuco, o estresse começou no primeiro dia após o parto, quando a enfermeira indicou fórmula desde o primeiro momento, apesar da sua disposição em seguir tentando dar de mamar. “Foi horrível e sofrido. Não ter sido bem orientada já no hospital fez eu e minha filha começarmos do jeito errado. Meu peito feriu, sangrou, saí com os dois bicos em carne viva no dia que tive alta da maternidade. Eu perdi os primeiros dias. Perdi o que poderia ter sido o começo tranquilo de uma jornada mais longa de amamentação”, desabafa.

 O caso das cesáreas no Brasil

O Brasil é o segundo país com a maior taxa de cesáreas no mundo. O estudo publicado na revista The Lancet diz que 54,4% das mulheres com gravidez de baixo risco que fizeram cesáreas são de nível educacional elevado, já 19,4% são de nível mais baixo.

A razão da epidemia se deve a um fator cultural de que o médico que faz o pré-natal é também o mesmo que faz o parto, segundo o ginecologista e obstetra Olímpio Moraes, presidente da comissão de pré-natal da FEBRASCO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e membro da comissão de direitos reprodutivos da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia).

“Aquele profissional, que tem inúmeras pacientes, não pode ficar disponível 24h para fazer o parto. Nas maternidades públicas, as mulheres têm os seus bebês com as equipes de plantão nos hospitais, o que deveria acontecer na rede privada, mas a maioria das mulheres optam por ter um parto com o seu ginecologista, implicando, assim, num agendamento do parto. É preciso criar mais campanhas e conscientização sobre parto seguro com equipes de plantão”.

O alto número de cesáreas aumenta o número de mães com dificuldades para amamentar. Isso acontece pela série de protocolos hospitalares, como anestesia geral, muitas vezes as mulheres tem os punhos presos para evitar reflexos indesejados e um processo de pós-operatório que deixa o puerpério ainda mais difícil.

No parto agendado, o corpo não estava preparado para o parto e, assim, a produção do leite também demora mais a acontecer. Principalmente quando o bebê é separado da mãe nos primeiros momentos e não se aproveita a chamada golden hour (hora dourada), a primeira hora de vida da criança, onde o contato entre mãe e filho são muito importantes.

“O que precisa acontecer é que alguns hospitais tem que mudar a conduta de tirar os bebês de perto das mães, de não permitir a amamentação no primeiro momento. Tudo seria mais fácil para se isso fosse respeitado. Partos em hospitais também tem sua importância, tem salvado vidas. Há cem anos era comum que mulheres viessem a óbito após parir, a taxa de mortalidade materna era altíssima. Hoje com as maternidades isso mudou, mas é preciso ter um equilíbrio do que a mulher deseja, do que é melhor para o bebê e até onde o hospital pode interferir nisso” diz Dr. Olímpio.

Parto em casa

Segundo a parteira estadunidense Sue Baelen, a beleza do parto feito em casa tem a ver com resgatar a observação calma e orgânica dos primeiros momentos de vida de uma criança, com o mínimo de intervenções possíveis. “Muitas vezes no hospital se encoraja enrolar o recém-nascido em um lençol bem justinho e segurar perto do corpo. É uma ótima ferramenta para fazer o bebê ficar quieto, mas quando você deixa o bebê muito confortável, você perde de entender seus anseios iniciais”, diz. Por isso, as parteiras sempre encorajam o contato pele com pele desde o primeiro momento e a observação paciente dos primeiros movimentos da criança enquanto a fome ainda está pequena.

“Se você mascara os sinais deixando o bebê muito confortável no começo, você não pode ver esses movimentos e ele vai chorar muito porque está faminto. É tão mais difícil colocar um bebê irritado no peito do que um bebê que está naturalmente procurando pelo leite. Dessa maneira, você está dificultando a amamentação para mãe”, relata, deixando claro que para ter todo esse cuidado e atenção é necessário suporte. “Nenhuma mãe conseguirá sozinha”.

Em partos em casa e centros de nascimento, tudo gira em torno da golden hour , seguindo a crença de que muito do que acontece nesse momento pode beneficiar as vidas da mãe e do filho a partir dali, inclusive a longo prazo.

Quando bebês são super-heróis

O recém-nascido ainda meio roxo, meio vermelho é colocado no colo da mãe que acabou de parir. Sem ainda entender muita coisa, o pequeno ser estreante no mundo, sozinho, acha seu caminho até o bico do peito. Chama-se o “breast crawl” (algo como “rastejamento do peito”), no qual o bebê é instintivamente guiado pelo cheiro de leite e vai se arrastando até a aréola, onde faz sua primeira e feliz mamada. Ao redor dele, adultos babões se emocionam ao entender que aquela figura é um pequeno super-herói ou heroína.

Essa técnica faz parte das campanhas de nutrição infantil oferecidas pelo Unicef e, segundo o site da instituição, tem benefícios como as maiores chances da continuidade da amamentação depois dela. Além disso, o colostro (primeiro leite) tem antibióticos naturais essenciais para a criança sobreviver, estimula a conexão entre mãe e bebê, ajuda na contração uterina, na expulsão da placenta, reduz o sangramento uterino, previne anemia e ajuda os bebês a se desenvolverem neurologicamente.

O Baby Crawl pode durar até 60 minutos e é um dos métodos amplamente defendidos pela comunidade do parto natural. “Algumas parteiras já estão fazendo isso há tanto tempo que percebem quando o bebês nascem e instintivamente procuram os olhos da mãe, depois que acham, os olhos caem procurando pelos bicos dos seios. Eles sabem exatamente para onde estão indo”, explica a parteira Melissa Hale, com um sorriso de ponta a ponta.

Após a primeira hora, nem tudo está perdido e cada caso tem suas peculiaridades, mas, para Melissa, a amamentação inevitavelmente fica mais difícil quanto mais distante da golden hour. “Se eles não fazem isso logo de cara tem uma janela de tempo que é perdida e aí oferecemos açúcar, fluidos, os dias vão passando e se o bebê não amamentou no começo, há grandes chances de ele não conseguir mais”.

“Todo mamífero pode achar seu caminho até o peito, nós apenas não damos oportunidade aos bebês de fazê-lo. É realmente incrível. E isso fortalece as famílias. Se você tem a oportunidade de ver que seu bebê é tão mágico e poderoso, você ganha a confiança de que pode fazer qualquer coisa”, explica Sue Baelen.

Amamentação só é de graça se o tempo da mãe não vale nada

O fato do bebê não precisar pagar para conseguir um pouquinho do “leite precioso” não torna a amamentação algo gratuito. Por outro lado, o fato da sociedade não valorizar o trabalho materno nos leva a essa redução simplória do leite humano: “o melhor é que é de graça”.

Amamentação não é gratuita porque, em primeiro lugar, é preciso se considerar o tempo que a mãe gasta nesse trabalho. Para atender à recomendação da OMS, calcula-se que a mulher gastará em média 8 mil horas de vida, entre mamadas e bombeamento. Um trabalho exclusivo que não pode ser dividido com um parceiro ou qualquer outra pessoa bem intencionada.

Segundo, porque amamentar pode custar dinheiro para a família. Se você não tem ajuda, terá que pagar por suporte para ser bem sucedida e pelas ferramentas de que talvez precise.

Terceiro, amamentação é um dos melhores investimentos em saúde que um país pode fazer. Calcula-se que cada US$ 1 investido em amamentação gera US $ 35 em retornos econômicos (veja quadro abaixo)

Gráfico 2 (1)

“É comprovado cientificamente que uma criança que amamenta exclusivamente nos primeiros seis meses de vida desenvolve um coeficiente de inteligência maior do que as alimentadas por fórmulas. Ou seja, quando falamos da amamentação, estamos falando da construção de uma nação, da importância de se investir na infância. Receber leite materno para ser mais inteligente já é um bom motivo para se investir”, alerta o Dr. João Aprígio de Almeida.

Imagine uma mãe com tudo a seu favor: branca, com plano de saúde e conseguiu pagar por consultora de lactação, doula, parteira. Ela está liderando, na linha da frente, mas para atingir as pressões sobre amamentação que lhe tornarão a mãe dedicada e exclusiva que o mundo quer ver, ainda precisa de uma licença de maternidade adequada, um ambiente de trabalho onde seja possível bombear com tranquilidade e uma rede de apoio que a ajude no transporte do leite bombeado, nas horas de cansaço, no choro sofrido da criança que por algum motivo não quer mamar, para dizer o básico.

Agora, visualize a mulher que saiu na traseira. Ela é negra, não teve acesso à suporte extra, foi pressionada a ter uma cesariana que jamais saberá se foi realmente necessária e trabalha como vendedora no centro da cidade, onde é a única mulher da equipe. De noite, cansada, o bebê chora, ela está sozinha, o parceiro a abandonou e ela não sabe o que fazer. Poderia tentar bombear no trabalho, no banheiro sujo, mas suas ausências seriam notadas. Ela decide usar as amostras de fórmula que ganhou, mas sabe que é caro. Para fazer durar o suplemento, mistura com água e deixa pronto na mamadeira. Mas seu bairro não tem saneamento básico e ninguém avisou que a união de água suja com fórmula pode ser fatal para criança.

Amamentação é privilégio, enquanto deveria ser um direito. O cerne da questão não é apenas a dor ou a liberdade da mulher que não quer ser tornar “apenas um peito”. A amamentação começa nas leis que darão oportunidade à mãe de não ter que escolher entre trabalhar e alimentar sua criança com o leite mais indicado para que ela prospere.

“Como mãe, eu enxerguei os desafios da amamentação na pele, através do cansaço físico, das dores locais, da sede insaciável, da privação do sono, da insegurança se iria dar conta diante da exaustão. Como mulher, eu vi esses desafios através dos julgamentos, dos palpites, dos olhares, do machismo que envolve os peitos femininos. Como pediatra, enxergo os desafios da falta de grupos de apoio, de rede, de informação confiável, de acesso à assistência médica diante dos primeiros sinais de complicações e da licença maternidade, incompatível com a amamentação”, observa Luísa Menezes.

No Brasil, a licença maternidade é de 120 dias remunerados no setor privado e 6 meses no público. Apesar do país estar acima da média indicada pela Organização Internacional de Trabalho, metade das brasileiras fica desempregada um ano após ter filho, segundo pesquisa da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE).

Os Estados Unidos não têm uma lei federal que garanta saída remunerada para as mães, fica a cargo dos estados e das empresas. É a maior economia do planeta mandando a mensagem de que mulheres não devem ser obrigatoriamente recompensadas pelo trabalho de mãe.

“ Ainda temos muita misoginia nos Estados Unidos. Não conseguimos eleger uma mulher presidente, temos leis reprodutivas muito ruins e muita violência contra mulher”, comenta a parteira Sue Baelen sobre o longo caminho pela frente de um país que se encontra na lanterna do ranking de licenças maternidades das nações desenvolvidas.

A parteira Sue Baelen com uma de suas clientes. Ela acredita que os partos em casa facilitam o processo de amamentação e ajudam na interação familiar

A parteira Sue Baelen com uma de suas clientes. Ela acredita que os partos em casa facilitam o processo de amamentação e ajudam na interação familiar

Algumas empresas tomam as rédeas da situação, como a Netflix, que passou a garantir um ano de licença remunerada sem distinção de gênero, o que beneficia casais do mesmo sexo e também corrobora com a ideia de que os homens são essenciais na criação do bebê. Empresas como Uber, Facebook e Google custeiam as visitas de consultoras de lactação para suas funcionárias. Dessa forma, elas não beneficiam apenas as famílias, mas também melhoram as taxas de abstenção das mães ao trabalho.

Em São Francisco, na Califórnia, desde 2018, as empresas precisam oferecer áreas de bombeamento de leite para suas funcionárias, com requisitos fundamentais como: estar perto do local de trabalho, ter pia e refrigerador, estrutura para uso de desmamadeira e ser prioritariamente designada a esse propósito. “É um avanço, mas não muda o problema fundamental da licença maternidade. Para muitas mães, antes de ter o bebê, elas já estão pensando em como vão alimentá-los depois que voltarem ao trabalho e isso cria muita ansiedade – e ansiedade dificulta o trabalho de amamentar”, diz a consultora Sarah Quigley.

 Aquele que Rachel amamentou

Na série americana Friends, um dos programas de TV mais famosos do mundo, tem um episódio no qual a personagem Rachel está tentando amamentar e seu amigo Joey arranca risadas da plateia ao não conseguir lidar com a situação. Ele tenta falar um assunto sério com a amiga, mas não se concentra ao se deparar com os seios expostos da mulher e a dificuldade da bebê de “fazer a pega” no peito. “Ela só pode ser louca”, diz o personagem se referindo à criança que não quer mamar. A obsessão de Hollywood e da sociedade por peitos é mais uma complicação adicionada à lista de obstáculos à amamentação.

De um lado, porque torna o aleitamento em público algo complicado (mulheres com vergonha, estabelecimentos constrangidos, homens que não contém os olhares ou desconforto). “Quando estou em público, amamento com a coberta, não porque ache errado, mas porque não quero atrair a atenção errada na rua”, diz a mãe americana Jessie Flo.

Por outro, essa obsessão cultural ensina às meninas, desde cedo, que seus corpos devem servir a um padrão que agrade aos olhos masculinos (Brasil e Estados Unidos lideram o ranking de cirurgias plásticas no planeta, segundo o International Society of Aesthetic Plastic Surgeons).

As mulheres se veem, logo, divididas entre os cartazes de amamentação e as propagandas que trazem corpos inatingíveis promovendo um modelo ideal. “Vivemos num mundo no qual ter grandes outdoors com mulheres vestindo roupas de banho cobrindo muito pouco é ok, mas não podemos ter uma mulher alimentando seu filho. Se alguém fica excitado com isso, provavelmente precisa de ajuda”, diz a parteira Sue Baelen.

Encurraladas entre servir ao filho ou ao homem adulto, as mulheres aprendem a agir como se seus corpos não lhes pertencessem.

Ano passado, os estados norte-americanos de Idaho e Utah aprovaram as leis que garantem proteção às mulheres que amamentam em público. Sendo os últimos estados do país a fazê-lo, a prática legal em toda nação.

O projeto garantia a amamentação sem a necessidade da coberta do seio, mas causou polêmica e resistência entre os políticos de Utah, conhecido por ser o reduto dos mórmons no país. O resultado foi que a informação sobre a coberta da mama foi retirada da lei e, hoje, se lê apenas que o ato de amamentar em público é protegido pelo governo.

“Ela é mais mãe que você”

Quando Fabiani Assunção levou a filha para o teste do pezinho e do olhinho, uma senhora desconhecida puxou assunto sobre amamentação na sala de espera. “Eu, que já estava triste e fragilizada, disse, com pesar, que ela tinha entrado no complemento, que meu peito tinha ferido, etc. Ela, impiedosamente, lançou: ‘minha filha também feriu os seios. Mas ela é muito mãe. Conseguiu a mamentar mesmo com os bicos sangrando. Uma guerreira’, relembra a pernambucana. “Aquilo me destruiu”, desabafa.

Se amamentam pouco, não são mães suficientes. Se amamentam em público, são indecentes. Se amamentam muito, são estranhas que não conseguirão manter o marido satisfeito. O mundo age como se houvesse um cardápio de possibilidades para cada mãe escolher seu “estilo”, mas a realidade é muito distante disso.

Em 2000, a modelo Gisele Bündchen causou polêmica ao afirmar para à revista Harper’s Bazaar que “deveria existir uma lei obrigando as mães a amamentarem seus filhos até os seis meses”. Gisele é uma das modelos mais bem pagas do mundo. Ela tem acesso à informação, conforto, suporte extra, teve o parto em casa, na água e foi incrível. Mas nem todas mães têm essa possibilidade. Sua fala foi amplamente criticada nas redes sociais porque quando a modelo coloca a obrigação na mãe, ela ignora todas as dificuldades que tornam a amamentação – muitas vezes – impossível.

As chamadas “condições extenuantes” são os outros fatores externos à amamentação propriamente dita que servem de obstáculos às mães: estresse, solidão, falta de suporte, dores físicas, informações imprecisas, condições de trabalho não dignas, falta de tempo, espaço digno para bombear e segue a lista.

Gisele foi privilegiada. Hoje, as chances estão contra a amamentação. Em 2019, a função social das mulheres ainda é “servir” e suas demandas são tratadas de maneira superficial, ainda mais quando as variáveis de classe e raça são cruzadas.

“E se os homens pudessem fazer o que fazemos?”

O que fazer então para tornar o aleitamento algo menos complicado? O consenso entre os profissionais pró-aleitamento é de que é preciso normalizar a amamentação. Ensinar à sociedade que o ato de amamentar é maior que o ato de nutrir e que é “definitivamente um investimento para a sociedade inteira”, diz a parteira Sue Baelen.

“Se homens pudessem fazer o que mulheres podem, todas essas questões seriam revistas. Não consigo deixar de pensar que os homens têm medo desse poder, porque não dá para entender porque ainda não mudou”, lamenta.

Para Luísa Menezes, é preciso entender que uma criança não é apenas tarefa da mãe. “Como diz um famoso ditado africano: é preciso uma aldeia inteira para se criar uma única criança. Para amamentar, precisamos mais do que o peito, precisamos de braços e abraços, apoio e amparo. Só assim é possível. E faz valer cada segundo, cada gota de leite e de suor”, diz.

O caminho de repensar um novo cenário para a maternidade começa em práticas citadas pelos profissionais e mães que contribuíram para essa reportagem.

Do governo, são necessárias leis que garantam licença familiar (incluindo o pai), espaços de lactação em ambientes de trabalho e proteção às mulheres lactantes em locais públicos.

No âmbito privado, é preciso que as empresas não vejam o útero como um prejuízo e aprendam que cuidar das funcionárias mães é também um investimento lucrativo.

Na esfera científica, melhores soluções, como ferramentas de bombeamento mais confortáveis, mais estudos com mulheres e grávidas. E, sobretudo, mais mulheres na ciência. A medicina tem que estar preparada para a mudança e, principalmente, a esfera médica não pode depender da indústria de alimentos para sobreviver.

Sobre as organizações pró-aleitamento, a jornalista Kimberly Allers sugere rasgar os cartazes atuais e substituí-los por uma mensagem emponderadora, sem negar o que é difícil e tentar vender o fácil. “Algo como a Nike nos faz sentir que nós podemos fazer o impossível. Abrace a dificuldade. Mostre à mulher o orgulho e o senso de realização que vem com a amamentação, como correr uma maratona ou escalar uma montanha. Eu nunca corri uma maratona e provavelmente nunca irei, mas aqueles comerciais me fazem crer que eu posso”, escreve.

A cada um, individualmente, a ideia é começar pelo básico: oferecer apoio e empatia às mães ao redor, livrá-las do julgamento e da solidão. Ensinar às crianças, desde cedo, que a mulher não deve levar uma família nas costas. E aprender que a maternidade vai muito além dos nove meses de gravidez, começa quando somos pequenos e entendemos qual nosso papel no mundo.

“Esse é nosso trabalho. Reimaginar o mundo e depois fazer acontecer. Já fizemos antes e podemos fazer de novo”, alerta Kimberly.

*nome fictício

Esta reportagem foi financiada pelo International Center for Journalists, organização sem fins lucrativos que tem como objetivo incentivar o trabalho de jornalistas no mundo todo.
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