Entre palavrões e bate-bocas, o que pensa Ciro Gomes

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Ciro Gomes foi mais Ciro Gomes do que nunca em sua curta passagem pelo Recife na última segunda-feira (27). Em pouco mais de sete horas participou de dois debates públicos. As plateias reagiram de forma completamente opostas à sua metralhadora giratória. À tarde, em evento do PDT, cercado de correligionários e simpatizantes, foi ovacionado a cada palavra dura e sarcástica desferida contra os adversários. À noite, falando para um público majoritariamente ligado ao PT e ao PSOL, bateu boca e quase vai às vias de fato com um policial do movimento antifascista.

Deputado estadual aos 25 anos, prefeito de Fortaleza aos 28 e governador do Ceará aos 30, Ciro Gomes, hoje aos 61 anos, foi duas vezes ministro, primeiro de Itamar e depois de Lula, e três vezes candidato a presidente da República (1994, 1998 e 2018). Também passou pela Câmara dos Deputados. A força da sua retórica, cheia de dados, argumentos embasados e também xingamentos é bem conhecida dos brasileiros. Já se tornou pensamento corrente entre analistas políticos, jornalistas e o público em geral que suas intervenções, comumente acima do tom, assustam as elites e parte expressiva do eleitorado colocando um teto à sua carreira política e pretensões palacianas.

No Recife, ele não fugiu ao figurino do político experiente, mas que joga no ataque contra adversários e também aliados históricos.

Antes de subir ao palco do auditório G2 da Universidade Católica de Pernambuco conversou por cerca de 10 minutos com a imprensa. Pediu um olhar respeitoso e humilde da oposição na análise das manifestações pró-Bolsonaro do domingo (26), mas criticou os bolsonaristas que foram às ruas atacar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Também criticou os cortes na educação básica e admitiu o funcionamento de um certo “parlamentarismo branco”, com o Congresso trabalhando para reduzir os danos causados pelo Executivo. Num aceno para seu principal aliado local, defendeu a candidatura do deputado federal Túlio Gadelha (PDT) à Prefeitura do Recife.

O único palavrão da coletiva veio quando questionado sobre a união das esquerdas contra o governo Bolsonaro. Acusou de “canalhice” o fato de os parlamentares do PT não terem participado da solenidade de posse de Bolsonaro no Congresso Nacional. As feridas ainda não cicatrizadas da campanha de 2018 vieram à tona ao ser perguntado por que não visitou o presidente Lula na prisão em Curitiba. “Mágoa?”, questionou o jornalista. “Que mágoa, amigo, eu faço política. Eu pedi pra visitar e ele não respondeu. Ele que pediu ao Lupi (Carlos Lupi, presidente nacional do PDT) para ir lá, não pediu para eu ir. Embora se pedisse hoje, eu não iria mais”.

No tablado do auditório da Unicap – ladeado por Túlio Gadelha, a ex-nadadora Joana Maranhão, a presidente da Juventude Socialista de Caruaru, Joana Greco, a coordenadora da ONG Mirim Brasil, Sylvia Siqueira Campos, e a ativista da diversidade Maria do Céu -, Ciro se soltou. Chamou Bolsonaro de “vagabundo” e “filho da puta”, os generais que compõe o primeiro escalão do governo federal de “desavergonhados e traidores da pátria” e argumentou que o está por trás da política de combustíveis da Petrobras e da redução de barreiras à importação de leite em pó é “propina, só pode ser propina”.

A cada xingamento, Ciro era aplaudido com mais intensidade pelo auditório lotado. E pedia desculpas ao padre Pedro Rubens, reitor da Unicap que assistia à palestra na segunda fila. “Desculpe padre, mas eu não consigo me conter. Prometo que vai ser a última vez”, dizia, até o próximo ataque.

Se o debate na Católica terminou em selfies e mais selfies, o encontro na Universidade Federal de Pernambuco por pouco não acaba em tapa. Dessa vez, Ciro já não estava entre os seus, dividindo a mesa com a deputada federal Maria do Rosário (PT), o deputado federal Marcelo Freixo (Psol), o presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco, Áureo Cisneiros (Psol), e o delegado e coordenador do movimento nacional de policiais Antifascismo, Orlando Zacconi.

A confusão começou quando Ciro questionou a política de segurança dos governos Lula e Dilma: “Vocês sabem o que mudou na segurança pública do país entre 2002 e 2016? Nada. E se mudou, foi para piorar”, argumentou apresentando dados sobre o encarceramento em massa no país. O clima pegou fogo quando o líder pedetista rebateu a sugestão dos demais integrantes da mesa de construção da unidade das esquerdas contra o governo Bolsonaro: “Unidade para quê, cara-pálida? Para fazer o mesmo? Não conte comigo, não. Dessa unidade estou fora para sempre”, afirmou.

A cobertura do evento na UFPE foi realizada pelo site de jornalismo independente Saiba Mais, de Natal. Você pode ler aqui: Ciro provoca, petistas rebatem e debate termina em “barraco” em Recife.

A Marco Zero Conteúdo acompanhou a discussão na Universidade Católica de Pernambuco e apresenta, na sequência, as principais análises e reflexões de Ciro Gomes sobre o quadro atual da política nacional, entrecortadas pelos conhecidos palavrões que emolduram o discurso veemente e cheio de estatísticas do líder pedetista.

As manifestações pró-Bolsonaro

Um governo constituído por valores tão concretos quanto o que o fascismo representa, sempre tem um percentual de apoio da população. O desemprego em massa, a informalidade brutal, o medo como necessária consequência da incompetência do Estado brasileiro de enfrentar a violência, a falta de perspectiva de futuro, a sensação desagradável de que a política não produz resultado e consequências, que as instituições estão fracassando… tudo isso é um caldo de cultura muito perigoso. Eu vi as manifestações com humildade, com muito cuidado.

O Congresso e o Supremo

Temos que defender as instituições por amor à democracia, mas que elas também se compenetrem porque é inescusável que o Congresso tem disfuncionalidades muito graves. Apenas não podemos concordar que a solução seja fechar. É absolutamente impossível de esconder que a Suprema Corte brasileira tem distorções absolutamente intoleráveis, só não podemos cair na bobagem de imaginar que o Judiciário não é uma função fundamental da estabilidade, de intermediação das relações sociais.

A divisão no campo da direita

A direita tem uma percepção das coisas que o Bolsonaro choca também. O bolsonarismo não é propriamente direita, é ultradireita, é fascismo. No seu estado mais brutal, homofobia, misoginia, horror à sustentabilidade ambiental. Isso tudo é um caldo de cultura de uma direita chucra. A direita mesmo está se organizando para vir aí com Doria (João Doria, governador tucano de São Paulo) e ela fica horrorizada com essas coisas.

Os ataques a Rodrigo Maia

Você imagina, o homem hoje mais interessado em fazer a agenda do mercado acontecer, da direita, é o presidente da Câmara, o Rodrigo Maia (DEM), e essa gente foi para a rua esculhambar o Maia. Eles não têm nada na cabeça. Eu vi uma fotografia que é emblemática desse tipo de gente. Que é um camarada vestido de capitão América, com a bandeira de Israel e dos Estados Unidos, e no escudo um retrato de Bolsonaro sob um fundo amarelo. Pode ter coisa mais típica dessa gente? Puta que o pariu!

Ciro Gomes bem à vontade entre correligionários e simpatizantes, na Unicap, no Recife

Ciro Gomes bem à vontade entre correligionários e simpatizantes, na Unicap, no Recife

As manifestações contra o governo Bolsonaro

O povo brasileiro está indo às ruas apesar de nós, está indo às ruas por uma concretude. O violento ataque à educação, porque esses canalhas dizem que cortaram no ensino superior, que maconheiros andam pelos corredores das universidades pelados, e forjam fotografias falsas para reforçar a educação básica. É mentira! Cortaram na educação básica com mais violência ainda. Nós precisamos prestigiar, apoiar, mas não sujar a autonomia do movimento popular dos estudantes e dos professores.

Parlamentarismo branco

É flagrante que as forças política do Brasil estão se organizando no Parlamento numa espécie de esforço de contenção de dano. Isso é uma disfuncionalidade institucional, mas talvez é o que resta ao Brasil, num país em que o presidente vai aos Estados Unidos e se compromete a envolver o Brasil numa guerra com a Venezuela, sem que nós tenhamos condições nem interesse nenhum em defender essa possível guerra, e quem segura isso é o Parlamento… Então isso tudo passa a ser um esforço muito importante para o país desde que não usurpe os poderes do presidente da República.

Posições partidárias no Congresso

O Bolsonaro foi eleito por 57 milhões de brasileiros. Essa eleição representa a vontade da maioria. Podemos denunciar a malversação, as fake news, mas no limite o PT fez a mesma coisa. Aí o Bolsonaro vai tomar posse no Congresso Nacional e o PT se recusa a participar da posse e, dias depois, vai para a posse de Maduro? Que lição estamos dando ao povo brasileiro? Que tipo de pedagogia democrática nós estamos dando? Se lá atrás quando o Aécio (Aécio Neves, deputado federal por Minas) fez esse tipo de canalhice com a Dilma nós consideramos uma posição golpista?

A política no Congresso Nacional

Depois vem a eleição da Câmara (para presidente do Legislativo) e o PT quer transformar no terceiro turno das eleições. Não é terceiro turno. Nós perdemos feio o segundo turno e fizemos apenas 130 deputados em 513 deputados. Nosso papel qual é? Lacrar? Jogar pedra? Ir pro gueto? Ou ajudar o nosso povo a conter danos? O PT mentiu que estava apoiando Freixo e nós fizemos um acordo em cima de coisas pragmáticas, participação em comissões, agenda da reforma da Previdência que não atropele os prazos. Ganhamos isso no acordo que fizemos com o Maia. E o PT nos critica por isso.

Encarceramento em massa

Os narcotraficantes pagam 50 reais para atrair jovens garotos nas periferias do Brasil. Para fazer a distribuição e morrer como bucha de canhão e a elite brasileira fazer de conta que está reprimindo o tráfico na chamada guerra às drogas. Grande canalhice, grande impostura das nossas elites. O Brasil tem hoje 760 mil pessoas em presídios que só têm vaga para 360 mil. Dois terços são jovens negros das periferias, todos presos por transportar minúsculas quantidades de droga… No dia seguinte, sem ter cometido nenhum crime violento, essa meninada entra no presídio, e é obrigada a se filiar à facção “a”ou “b” ou “c” ou vai ser estuprado ou morto no dia seguinte.

Cenário socioeconômico do Brasil

O Brasil possui 13,7 milhões de pessoas desempregadas, cada um desses é gente que tem conta para pagar, aluguel, nome a zelar nas casas Bahia e na Ricardo Eletro senão o nome vai pro SPC.. Acha pouco? Nós temos 32 milhões de brasileiros vivendo na informalidade… correndo do rapa nas praças do Recife e de Fortaleza. O Brasil está com 63 milhões de pessoas com o nome sujo no SPC. Você sabe o que é um pobre ter o nome no SPC? É ele ser proscrito da vida. É ele preencher a ficha do emprego e o camarada ligar pro Serasa e ele simplesmente sair da fila.

Os governos de esquerda e o discurso da direita

A direita faz uma crítica absolutamente superficial e leviana, porém, absolutamente crível em tempos de fake news e impulsionamento de facebook e de whatsapp. É que nós, da esquerda ou auto referidos de centro-esquerda, governamos o Brasil desde o Plano Real até ontem. Na retórica do Fernando Henrique, depois com Lula e Dilma… Como nós governamos o Brasil nesse tempo todo, é muito crível para o conjunto da população que nós sejamos atacados como os grandes responsáveis pela tragédia socioeconômica generalizada em que vive o Brasil porque bocado comido, na psicologia popular, é bocado esquecido.

O antipetismo como mola eleitoral

Nós chegamos a uma condição em que a crítica do fascismo, da direita, percebeu a mais importante força eleitoral que é o antipetismo. Não é uma coisa, propriamente racional, refletida, portanto é algo pouco racional, não dá para discutir com eles. Se você vem pra se defender e diz “ah, o filho do Bolsonaro está roubando na Assembleia do Rio de Janeiro”, eles dizem “ah, mais o filho do Lula também roubava”. Poxa. Tudo bem, pode-se sempre dizer que o PT tem um monte de merda feita aí, mas o cara não foi eleito para olhar para trás, mas para consertar para frente.

Consumo das famílias

60% do produto interno bruto do país, quando cresce, a razão de crescer é a elevação do consumo das famílias. Quem precisa ser economista para entender essa obviedade? Só o Guedes não entende por pura interdição ideológica. Chicago não explica essa coisa.

A facada em Bolsonaro

Nenhum político, nenhum de nós acreditava que Bolsonaro iria ganhar essa eleição. Não fosse essa facada. (Nesse momento, alguém na plateia insinua que Bolsonaro deve levar outra facada) Ei, espera aí, calma. Deixa ele bem vivo. Vamos derrotá-lo no voto.

Cartel bancário

A um crime praticado no Brasil sem precedente no capitalismo mundial. No Brasil, cinco bancos concentram 85% de todas as transações financeiras do país. Nós estamos pagando 486% de juros ao ano no cartão de crédito. Dos cinco bancos, dois são públicos, a Caixa e o Banco do Brasil, que participam desse cartel. Sabe quantos bancos competem pelo cliente nos Estados Unidos? 5 mil. Competem baixando as taxas de juros, baixando as tarifas, tratando melhor o freguês. Aqui no Brasil são cinco e se não quiser vai para a puta que o pariu.

Investimento empresarial

O investimento empresarial é colapsado por essa estrutura bancária, que impede o Brasil de montar uma estrutura de recomposição de débitos empresariais em contrapartida a um programa de investimento e emprego. O Brasil possui no Exterior uma espécie de caderneta de poupança em dólares, que soma ao redor de 360 bilhões… Nós tomamos emprestado a 14% ao ano e estamos aplicando a zero. Uma parte desse dinheiro a gente pode trazer para reestruturar o passivo estrangulado das empresas.

Os juros altos

Qualquer crescimento que o Brasil experimente acima dos 2% ao ano explodem as importações. Aumenta o consumo e destruímos a nossa indústria… O dólar quando sobe contamina os preços locais. Sobe o preço do remédio, sobe o preço da passagem de ônibus, sobe o preço do trigo, sobe o pão. FHC, Lula e Dilma atiraram nessa alta relativa do preço com taxas de juros e toda vez que a taxa de juros se coloca numa economia, como é o caso do Brasil, acima da rentabilidade média dos negócios, essa economia para… Consertar exige uma política industrial de comércio exterior que o mundo inteiro faz.

O protecionismo norte-americano

Existe a retórica de livre comércio. Mas não por acaso os americanos estão com a menor taxa de desemprego desde 1969 na esteira da maior onda protecionista da história americana. A China tem um superávit para os americanos que vai perigosamente para a casa dos 100 bilhões. O que faz Donald Trump? Na cara da freguesia. A retórica não interessa, o que importa é o interesse da indústria norte-americana e o resultado prático é que ele meteu uma tarifa de 25% sobre os produtos chineses importados. Enquanto isso, nossa própria gente está rasgando e entregando tudo aqui.

A venda da Embraer

Somos um dos 28 países do mundo que é capaz de produzir um avião. Esses canalhas, para não dizer fdp, entregaram a Embraer para a Boing americana, por um valor quase igual à compra da Avon pela Natura. Só o KC 390, um supercargueiro desenvolvido pela engenharia brasileira, paga com dinheiro público e que ficou pronto agora, e ia começar a venda, tem uma fila de clientes equivalente a 20 bilhões de dólares. Aí um filho da puta desse vem falar de “Brasil acima de tudo”, vagabundo, entrega um patrimônio de tanto sacrifício do povo brasileiro, a preço de nada. Com nove ministros generais (no governo), desavergonhados, traidores da pátria brasileira.


Petróleo e gás

Sabe o que esses canalhas estão fazendo com o complexo de petróleo e gás? O Brasil está importando do estrangeiro 206 milhões de barris de óleo diesel, de gasolina. Coisa que a gente pode fazer aqui. Com nossas refinarias 30% ociosas. Reparem, nós temos capacidade de produzir 100 litros e estamos produzindo 70 e essa gente importando do estrangeiro em dólar, que a gente não emite, estabelecendo que o preço do combustível no Brasil que deveria ser (a soma) dos custos da Petrobras mais um lucro razoável, é o custo de especulação do estrangeiro mais a taxa de câmbio. É propina. É propina, não duvidem disso.

A importação de leite em pó

Um dia desses eu vi o governo Bolsonaro – não havia crise de desabastecimento, não havia problema de preço – de repente, tirar o anti-dumping contra o leite europeu. Sabia que o subsídio que a França faz por uma vaca é mais caro do que o que eles gastam com criança em creche? E aí a França está superestocada de leite em pó e, por milagre, Bolsonaro assume e 60 dias depois acaba o anti-dumping. Resultado, o Brasil agora está importando leite em pó estocado da França, destruindo 350 mil famílias que vivem da atividade pecuária leiteira. Por que isso? Quem foi que pediu? Onde está a queixa? É toco, é propina. Não duvidem disso. Qual é a explicação?

O baixo investimento público

O investimento público hoje está tendente a zero. É simplesmente o menor volume de investimento… desde 1946. O Lula chegou a investir 2,1% do PIB. Neste ano, ano o consolidado de União, estados e municípios se aproxima de 0,7% do PIB. Por isso temos 24 mil obras paradas. Por isso a Transnordestina, tão importante para o miolo de Pernambuco, está parada. A obra do São Francisco falta 3% para terminar e está se deteriorando… A indústria foi destruída, de Pernambuco, do Rio Grande, do Rio de Janeiro, destruída. Aí como conserta a conta pública? É igual à casa da gente ou aumenta a receita ou diminui a despesa, ou acha o equilíbrio de um pouco dos dois.

Reforma da Previdência

Quando (o modelo de Previdência) foi montado nós tínhamos sete trabalhadores ocupados para cada aposentado uma expectativa de vida no país de 60 anos. Hoje temos 1,7 trabalhador ocupado para financiar aposentados com expectativa de vida de 73 anos. Evidentemente que o Brasil precisa discutir o problema da Previdência. Em cima dessa obviedade o que faz o governo? Uma proposta absolutamente selvagem em que 70 de cada 100 reais são retirados, pela lógica da despesa, em cima de quem ganha até dois salários mínimos.

A Previdência e os militares

São nove generais que estão entregando o Brasil. Portanto, eles vão ter que ouvir. Com todo o respeito, eles vão ter que ouvir. Os militares na Previdência Social custam à nação 47 bilhões de reais por ano e contribuem com 3 bilhões. Um buraco de 44 bilhões de reais por ano. Olha só que sacrifícios se deu para eles. Idade mínima de 55 anos, quando o trabalhador rural tem que pagar agora 65 e a mulher 62. Qual é a contribuição dos militares? Era 5% e passou para 10,25%. Mas para fazer isso Bolsonaro deu um reajuste, tirando os generais de 22 mil reais de salário por mês para 30 mil. Percebem a jogada? Ainda sobra um saldozinho.

A corda que arrebenta pro mais fraco

Estão espetando nas costas do miserável dos miseráveis, do mais pobre do país, como é que você não fica indignado com um negócio desses? O Benefício de Contribuição Continuada que é de um salário mínimo estão reduzindo para 400 reais. De maneira que o pobre, miserável, doente, velho que não pôde contribuir e que tem renda inferior a ¼ do salário mínimo, o deficiente físico, vai ter que escolher entre comer e comprar remédio. Com 400 reais.

A proposta de capitalização da Previdência

A proposta de Bolsonaro de capitalização da Previdência tira a contribuição do patrão, fica só a do empregado. Eu examinei 60 países: 59 têm a contribuição patronal e só um não tem, o Chile. Lá quebrou a Previdência dos trabalhadores e, agora, tem um projeto no Congresso chileno para colocar a contribuição patronal como solução de desespero. E eles aqui estão imitando o único país que errou… É canalhice da pura e simples. Vai dar certo? Não tem como dar.

Bolsonaro, a elite e o sistema

Eles não estão vendo o problema, não têm imaginação, não têm projeto, não têm concepção e basicamente são demofóbicos, têm horror a povo. A elite brasileira é que nem pacto com o demônio, o Bolsonaro vendeu a alma pro demônio para se eleger e, agora, o demônio é que quer a alma dele para sempre e ele tá nessa esquizofrenia de, fazendo o jogo do sistema, chamar o povo contra o sistema. Não vai dar certo.

Imposto sobre lucros e dividendos

Só dois países no mundo não cobram tributos sobre lucros e dividendos empresariais, o Brasil e a Estônia, um minúsculo país do leste da Europa. Eu ministro da Fazenda de Itamar, cobrava. Sabe quanto isso atinge? 0,5% dos brasileiros. Quando você coloca uma coisa dessa em discussão vêm dizer que chega de imposto, que é para roubar mais. Aí o pobre e a classe média costumam reverberar esse argumento contra si. A carga tributária sobre o povo pobre é de 42% da renda e sobre os ricos, de 7%. A renúncia fiscal é de 380 bilhões. Se a gente fizer um pente fino de 20% dos 380 bi, imposto sobre heranças e impostos sobre lucros e dividendos, o deficit público some.

Lula, as eleições e o futuro

Eu sou amigo, ou era amigo do Lula, ajudei, fiz o diabo, mas o problema é que o Lula decidiu simplesmente desconsiderar o Brasil, porque quando ele diz “eu sou candidato” simplesmente sabendo que não vai ser, ele tá cometendo uma fraude… Às vezes o pai da gente morre, tem coisa mais amargurante do que isso, e eu faço o quê? Tenho que organizar a vida, olhar pro futuro. Isso é uma nação com 206 milhões de pessoas. E vai fazer o quê? Dizer de novo que é candidato explorando a boa fé da população, a gratidão justa que o povo tem? Isso é uma tragédia. Quando falo, a petezada é de uma agressividade comigo e, depois, tem uma coisa engraçada, querem que eu apoie.

Fundamentalismo religioso

Tem a emergência do fundamentalismo cristão entre nós. Se nós não aprendermos a respeitar esse fenômeno, nós estaremos nos afastando do povo. É mentira que o povo é uma massa de ignorantes explorados por pastores pilantras. Isso é apenas uma falácia, ou seja, uma meia verdade. Há padre pedófilo, há ateus safados e criminosos, e portanto há evangélicos safados também. O problema é que nossa população pobre perdeu o ambiente comunitário, perdeu a crença na linguagem comunitária que é a política. E o povo está pagando por pertencimento porque ninguém aguenta viver o drama econômico e social que nosso povo vive sem o pertencimento a alguma rede.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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