Entrevista | Gerlane Simões: “Fui positivamente surpreendida ao levar o feminismo às ruas”

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Por Clara Guedes

adalgisasaberturaSocióloga formada pela Universidade Federal de Pernambuco, Gerlane Simões, 36 anos, é a candidata a vice-governadora de Dani Portela (PSol). Filiada ao Partido Comunista Brasileiro, Gerlane cresceu em Paratibe, numa vila que nasceu de uma ocupação em Paulista. Seus pais são da terceira geração de moradores, daí a luta pelo o direito à moradia esteve sempre presente em sua vida, já que viviam na ameaça de tomada da posse pela Sehab (Secretaria Estadual de Habitação).

Aos 13 anos, quando começou a ativamente se interessar e entender política, Gerlane conheceu o movimento hip-hop, auxiliando a montar um núcleo de resistência de raça e classe, pois a juventude negra é predominante na cultura do hip-hop. Nessa época, ela também se descobriu feminista.

Trajetória Política

Meus amigos, os mesmos do grupo de hip-hop, conheceram o PCB e o partido montou uma célula lá, e, depois, um diretório em Paulista. Então, estou no PCB desde 1998, não me vejo em outro partido, por toda a história por toda a luta. Em 2014, veio o primeiro convite para ser candidata a deputada federal. A chapa era só o PCB, foi bem difícil, como continua a ser, por ser partido pequeno, de esquerda. Vivemos nessa dificuldade, mas sabemos que a verdade é a nossa, que política se faz com verdade, no cara a cara, no boca a boca, não precisa de rios de dinheiro para se fazer política. Em 2016, fui candidata a vereadora de Olinda, na época, morava lá. Foi bem difícil, por somos só eu e meu irmão, e eu moro com a minha mãe. Em julho, ela trincou o joelho, só que a campanha começava em agosto. Como ela ficou dependente para tudo, eu precisava estar sempre junto a ela, por isso quase não fiz campanha, foi mais pela consciência de preciso compor a chapa, teve vários momentos que não pude estar presente.

Coligação com PSol

Com o Psol, são dois partidos de esquerda, que vão na contramão do modelo de política que temos, a da máquina, da corrupção. O PCB entende que o PSol é o único partido que pode ficar junto com a gente, que levanta as mesmas bandeiras, as mesmas pautas, não tem histórico de corrupção, não há a velha política internamente, então não tinha como coligar com outro, senão o Psol.

Gerlane e Dani

Conheci Dani em 2016 na campanha de Olinda, ela foi nossa advogada. Nessa época, por conta das minha dificuldades, interagimos pouco. Agora, em 2018, houve a decisão do PSol de ter uma chapa majoritária com mulheres e feminista, então, pela questão da coligação, o PCB falou comigo e decidimos que seria eu. Achei maravilhoso, já que também conhecia Eugênia, porque ela já havia se candidatado em Olinda, e sabia da história de Albanise, só veio a acrescentar. Nos conhecemos das ruas, nos atos estamos sempre muito juntas e juntos.

Função da vice

No partido, nós vemos com a mesma importância um vice e um governador, sempre demos a devida atenção. Ter a educação de parar para perceber com quem estamos juntos, somando, eu aprendi assim. Acho que uma grande maioria que tá hoje, 2017-2018, fazendo a crítica ao temeroso que está lá, começaram a prestar atenção agora em saber quem é o vice. Em relação ao inominável, por exemplo, ficam tão ofuscados com a imagem dele que quase não percebem que há um vice ao lado dele, que é pior do que ele.

“Nós dividimos muito a campanha, estamos sempre uma pro lado e outra pro outro. Fazer a campanha e estar juntas, co-governança mesmo, e eu acho que isso vai ficar para o governo. A chapa não é Dani sozinha, vamos governar juntas e com o povo, é a nossa principal proposta. Nosso programa de governo foi construído a partir de debates, de todas as áreas, com o povo durante a pré-campanha.”

Cotas partidárias

Desde que eu entrei, na política, em 2014, sempre coloquei que nenhuma mulher deveria entrar por cotas, mas já que eles ainda não entendem isso, torna-se necessário. Também sempre tive na cabeça que, se fosse candidata, iria fazer campanha, não ser uma laranja, até porque não é o modelo do PCB.

Balanço geral

A questão da visibilidade pesou muito. Nossa proposta é co-governança, mas neste modelo milionário de campanha, não temos verbas para produzir material para as duas. Mesmo assim, percebi um reconhecimento maior nas ruas, a ideia da chapa cresceu muito, diferente de quando concorri nos anos anteriores. Pessoalmente, tive minhas dúvidas, tanto por essas questões colocadas anteriormente quanto pelo machismo, mas fui positivamente surpreendida, levar o feminismo às ruas, falar e escutar com o povo, bate de frente com esse estado de Gilberto Freyre, patriarcal e racista. Nós acertamos no final.

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