Crédito: Jonathan Lima Coque (R)existe

Por Sidney Silva*

Se procurarmos olhar a pandemia como um fenômeno complexo – sem cair na tentação de simplificar ou generalizar a situação – não será difícil perceber que a Covid-19 não é “só” uma questão de saúde pública; é também um problema de natureza social, governamental, ética, ecológica. É, acima de tudo, um problema de política cósmica. Isso significa uma série de coisas, dentre elas, gostaria de destacar o fato de que muitas dessas consequências desastrosas que estamos passando com o coronavírus não são novas. Há muito tempo estamos sofrendo com os descasos em saúde, em educação, saneamento. A pandemia na verdade contribuiu para potencializar e intensificar, colocando numa escala mundial e acelerada, problemas que os espaços e sujeitos periféricos precisam lidar no seu cotidiano.

O que estamos querendo dizer é o seguinte: seria muito arriscado pensar que antes do vírus vivíamos num paraíso. Uma das coisas que as vozes das favelas querem fazer ressoar, por meio desse surto mortal que não para de se alastrar, é que esse fenômeno brutal nos trouxe de volta para nossa existência real. “Bem-vindo ao deserto do viral”, onde parasitas especialistas te roubam a saúde, te oferecem o medo e te sequestram a vida.

Nesse sentido, não seria muito inteligente achar que basta conter o coronavírus que tudo estará magicamente resolvido e, com isso, poderemos voltar àquela mortífera normalidade sustentada em grandes doses de delírios. Precisamos entender que a situação já estava ruim com o crescente sucateamento do SUS, com a privatização de bens comuns, com a falta de investimento em educação e pesquisas, com a escassez de políticas públicas, com o avanço do aquecimento global, com a prioridade no bem-estar pessoal em detrimento do coletivo, etc, etc, etc. E quem vive no Brasil de verdade – que digam os moradores de nossas comunidades – sabe muito bem o que significa “voltar” para a realidade.

Por isso, no Coque, uma das maiores periferias da região metropolitana de Recife, e imagino que em outras favelas, a história de luta, enfrentamentos e resistência não é atual e não começou em meados de março de 2020. Antes da Covid-19 outras classes de parasitas já nos perseguiam. A questão é que quando a gente não cuida do que está ruim a situação só tende a piorar. O que não dá mais é ver os governos e parte de nossa população tratar da situação de forma unilateral, como se o Brasil fosse uma grande massa homogênea – não é!

Quando vamos entender que nossa sociedade é plural, repleta de microperspectivas e formas singulares de existências? Precisamos pensar estratégias mais inteligentes, com perspectivas mais amplas e heterogêneas. É urgente a necessidade de levarmos em consideração os diferentes modos de vida, e compreender essas vidas a partir de seus mundos próprios. Entretanto, não é isso que acontece. Não por acaso, uma das maiores dificuldades que as periferias precisam enfrentar é a insistente repetição da nossa história sócio-política: há aqueles poucos que podem viver – ou ter maiores condições para isso – e aqueles muitos que são deixados para morrer, sem condições básicas nem para sobreviver.

O descaso governamental – como o desgoverno federal – com as causas sociais não tem, entretanto, impedido as periferias de inventarem suas próprias formas de fazer política para continuar resistindo aos problemas que aparecem. Na comunidade do Coque, e em muitas outras periferias do Recife e do Brasil, o enfrentamento à pandemia vem sendo feito principalmente com estratégias de auto-organização, política da amizade e redes de solidariedade – algo, inclusive, que é muito característico em nossas favelas. Até porque a forma como os governos, via de regra, pensam as soluções não leva em consideração situações específicas que atravessam a realidade de nossas comunidades. Tem quesitos que só são deixados para serem pensados muito depois, quando a situação já está caótica.

Desde o início do combate ao vírus temos nos perguntado muitas coisas, como: o isolamento físico é necessário sim, mas e quem não tem as condições adequadas para manter-se em casa? A higiene é de fundamental importância, mas e quem não tem acesso à saúde e ao saneamento básico? Aumentar a imunidade com boa alimentação é imprescindível para combater melhor o vírus, mas e quem não tem como gerar renda no isolamento porque é autônomo e atua no trabalho informal? Vamos ter que esperar mais quantas epidemias? Vamos precisar enterrar quantos mortos? Será necessário superlotar quantos sistemas de saúde para aprender que estamos diante de um problema estrutural? A pandemia está escancarando a sujeira que a gente costuma colocar nos espaços subterrâneos.

O que nos resta? Enfrentar esse problema como sempre fizemos: procurando nos apoiar, nos ajudar, nos fortalecer, vendo quem precisa do que, trazendo informações mais contextualizadas e de forma cuidadosa; enfim, articulando forças, movimentos, pessoas e, sobretudo, corações por meio de uma rede amiga e solidária. Mas não sem cobrar o que é preciso e não sem nos colocar inquietações que são necessárias. Em momentos assim precisamos dizer: a periferia não é lugar para matar, nem espaço para morrer! O direito à vida digna não pode ser privilégio de uns, mas uma condição real para todes – humanos e não humanos.

Crédito: Jonathan Lima Coque (R)existe

É isso que temos procurado fazer no NEIMFA, em parceria com outras organizações e movimentos sociais como AVIPA, MABI, Rede Coque Rexiste, Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste. Afinal, política não é um exercício exclusivo dos políticos e as periferias têm criado ações interessantíssimas no enfrentamento ao coronavírus – e mesmo antes dele. De modo bem pragmático, a gente tem procurado adotar, por um lado, estratégias de combate que buscam pressionar e denunciar todo tipo de descaso, negligencia e indiferença do governo para com as comunidades – daí a nossa parceria com o CPDH, por exemplo, e com as mídias alternativas e contrahegemônicas para gritar o que normalmente é silenciado e dizer o que normalmente não se diz. A gente não quer e nem vai ficar de braços cruzados enquanto nosso povo está sendo ameaçado.

Por outro lado, temos utilizado estratégias de potencialização das vidas, procurando promover o cuidado uns com os outros, o trabalho em articulação, a força comunitária, lembrando sempre que o desejo e o direito pela vida atravessam a todes nós. Nesse momento, mais especificamente, temos procurado tecer essa rede de cuidado por meio de anuncicletas que circulam pelas ruas da comunidade informando sem criar pânico, passando mensagens de apoio, fazendo campanhas para arrecadar doações em dinheiro, assim como material de limpeza e produtos de alimentação, fortalecendo o supermercado local, estimulando entre as pessoas que por aqui costuram a confecção de máscaras de tecido e mais recentemente começamos a montar um grupo de atendimento psicossocial e atenção à saúde mental para que as famílias da comunidade possam ter acesso a atendimentos psicológicos, ainda que de forma remota.

Em redes como essa temos aprendido a agir de forma integrada e interdependente, percebendo que a verdadeira política está na capacidade de como eu e tu cuidamos dos outros e em como nós comprometemo-nos com o mundo. Esse, me parece, tem sido o modo periferia de enfrentar e o modo favela de lidar com o que se passa já há muito tempo: na troca, na partilha, no encontro, na doação, no fazer junto ainda que distantes, na solidariedade. Quando as coisas ficam difíceis lembramos um ao outro que temos a nós mesmos! Tanto damos, quanto nos doamos. Isso é um dos indicadores mais potentes de política que se articula e se exerce principalmente entre os pobres: ela é comunitária, não privativa; e estar em comunidade é saber-se em laços de amor e amizade. Aqui a gente sempre sabe que em algum lugar, não importa o momento, tem alguém disposto a partilhar de nossa alegria e de nosso sofrimento. Apesar do isolamento físico, descobrimos que não estamos e nem precisamos nos sentir sozinhos.

Crédito: Revelar.si – Coletivo de Fotógrafas do Coque

Se todo sintoma é sinal, esse pequeno ser parece está a nos dizer, que nosso destino, que só haverá destino, quando formos capazes de vivê-lo em comum, como agora e com os menores – com as classes de seres mais pobres. É tempo de gerar lucidez para descentrarmos de uma vez a lógica que insiste em focar no equilíbrio fiscal em detrimento do compromisso social. Tempo para entender que a preocupação com o lucro não pode ser maior do que a preocupação com a vida – qualquer que seja ela. Hora de saber que “fazer sua parte” não é suficiente, é preciso aprender a fazer junto! Porque a forma que coletivamente escolhemos viver, diz diretamente do modo como podemos morrer. O mundo, e seus outros, precisam significar alguma coisa para nós! E as periferias carregam uma sabedoria capaz de nos ajudar nesse quesito.

Já passou da hora para entender, e por isso gostaríamos de relembrar, que, como bem observado por Ludwig Wittgenstein, “Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem. Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma”. Por que? Porque cada vida importa: a minha, a sua, a nossa!

*Coordenador do NEIMFA, integrante da Rede Coque (R)existe, psicólogo social, doutor em Educação, morador da comunidade do Coque, no Recife.