Foliões são mercadoria para quem assiste o carnaval de camarote, diz pesquisadora

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Você vai viver o carnaval de rua ou vai assistir tudo de camarote? Essa não é uma pergunta retórica. Não para quem, como a pesquisadora Suélen Matozo Franco, se debruçou sobre o tema para entender como vem mudando, nos últimos 30 anos, a percepção do folião e a organização do Carnaval de Olinda. No centro do debate está a relação entre a gestão pública municipal e a iniciativa privada, cada vez mais interessada em ditar o ritmo e os rumos da festa, tratada como um megaevento de marketing.

Suélen fez a análise de discurso dos diversos atores envolvidos no carnaval a partir da cobertura de imprensa do Diario de Pernambuco e do Jornal do Commercio nos anos de 1986, 1996, 2006 e 2016. O material compõe sua tese de doutorado (No Reinado de Momo, quem governa Olinda?) apresentada no Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE em 2017.

Nessa entrevista à Marco Zero Conteúdo, ela discute o processo de camarotização e a forma distinta como Olinda e Recife resistem ao fenômeno. Fala sobre a omissão dos jornais em tratar de forma mais crítica o avanço da iniciativa privada e aponta como os camarotes fechados que só tocam música sertaneja estão mudando a concepção do que é o carnaval para milhares de pessoas.

Suélen Franco

Pesquisadora Suélen Franco

 Você pesquisou quatro datas que abrangem 30 anos. O que mudou na relação público-privada, na perspectiva do discurso, nesse período?

 Os anos 1990 marcam muito fortemente a entrada da figura do patrocinador no Carnaval e Olinda acompanhou o que acontecia nos grandes carnavais pelo Brasil, com orientação mais turística. O que alguns autores chamam de “empresarização”, quando as empresas passam a fechar acordos com o poder público para financiar a festa. Um dos reflexos mais claros desse processo é a tentativa de criar polos de animação da iniciativa privada. Os camarotes.

A “empresarização“ acontece porque o poder público vai buscar o apoio privado e o setor privado vê no carnaval um ótima oportunidade de obter lucro? Qual a reação do folião a esse movimento? Houve resistência?

Na minha tese, como só acessamos o discurso de dois veículos (Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio), por uma questão metodológica eu não podia colocar o que eu acompanhava por outros canais que não estavam ativos durante todo o período da pesquisa (1986-2016), a coisa da resistência não fica tão clara porque não houve tanta cobertura da imprensa a esse movimento. Isso aconteceu sim, fortemente, no facebook com a comparação que se passou a fazer do Carnaval de Olinda com o da Bahia, que tem fama de ser um carnaval excludente, vinculado a um alto investimento individual do folião para pertencer e acompanhar um trio elétrico com cordão de isolamento. Lá há uma participação muito forte do setor privado.

Essa relação da gestão pública com o setor privado é pacífica?

O setor público e o setor privado, em teoria, atuariam por lógicas diferentes. O Estado deveria prestar serviço. O empresário quer lucrar. Em teoria são duas lógicas distintas, mas na concepção dos últimos carnavais o que a gente vem observando é o cruzamento desses interesses. Se a prefeitura faz um investimento naquilo, ela tem um retorno muito grande em arrecadação. Acontece que, com os anos, essa participação da prefeitura vai diminuindo, inclusive o papel dela de subvencionar as agremiações, e começa a aumentar a participação dos patrocinadores privados, que colocam até quatro vezes mais recursos do que o poder público. Quanto mais a iniciativa privada investe, mais prerrogativas ela vai querer ter sobre a organização da festa. Termina que o carnaval vai funcionar agora como um lógica de marketing. Eu tenho um público e eu segmento esse público.

Dividindo o público, dividem as formas de ver e viver o Carnaval?

É uma lógica de sustentação de mercado. Então eu tenho um público que faz questão de estar na rua, que acha que a rua é o local de excelência de fruição do carnaval de Olinda. E eu tenho um publico que acha que a rua é suja, arriscada, quente, sem oferta de banheiro público, violento… Isso termina se constituindo justamente no argumento que o setor privado quer pra dizer: “olha, a gente vai oferecer um espaço fechado, banheiro limpo, comida, segurança, shows exclusivos, você não precisa passar por tudo aquilo ali”. O que muitos foliões argumentam, aqueles que vão para o camarote, é que a infraestrutura de Olinda deixa a desejar.

Você disse que não encontrou nos jornais que pesquisou muito material sobre as críticas ao crescimento da participação da iniciativa privada no Carnaval? Acha que existe uma aliança entre gestão pública, setor privado e mídia? Afinal, os jornais cobrem entusiasticamente o desfile da Pitombeira do mesmo modo como cobrem entusiasticamente o Camarote Carvalheira na Ladeira, não é?

Sim. Sim. Eu só acessei dois veículos impressos, como eu disse o critério era o de estarem em atividade durante todo o período estudado. O ponto mais sensível para mim da cobertura foi esse. Ao contrário do que se via nos jornais, no meio digital esse debate existia muito fortemente. Inclusive com matéria da Marco Zero Conteúdo e muita discussão espontânea no facebook. Havia uma página, acho que anônima, que inclusive publicou a foto dos vereadores de Olinda que votaram pela mudança da lei municipal para legalizar os camarotes na cidade em 2015. Foi quando rolou com força nas redes sociais a hashtag #VetaRenildo (em referência a Renildo Calheiros, então prefeito de Olinda). Não havia muito dessa cobertura nos jornais. Só algo pontual. O jornalismo está ali para informar, trazer vários olhares sobre a questão e, nesse caso, pelo menos nos veículos que eu acessei, não vi muita cobertura crítica.

Como tratavam a ideia dos camarotes?

Como algo completamente naturalizado. Com informações sobre os valores dos ingressos, como vai funcionar, os shows que vai promover… O folião que contestava esse modelo quase não aparecia. Tem um enunciado que aparece na tese que era o de que o camarote ameaçava a autenticidade do carnaval tradicional. Mas essa discussão não envolve apenas autenticidade, não é? Envolve uma série de outras questões que não lembro de ver os jornais abordando.

Como você avalia o ideal do carnaval tradicional de rua, ele ainda é forte para fazer frente a essa aliança público-privada? Em Olinda existe a Sociedade de Defesa da Cidade Alta (Sodeca) e o Conselho de Preservação do Patrimônio. No Recife, não. O fato de a Prefeitura do Recife ceder espaços públicos como avenidas, ruas e praças para exploração econômica do setor privado no desfile do Galo da Madrugada não mobiliza a sociedade civil como em Olinda. Os camarotes já fazem parte natural da paisagem.

Eu acho que Olinda e Recife têm contextos um pouco diferentes. Acho que, sim, já está naturalizada a coisa do camarote. Como você disse, já faz parte da paisagem. Pra muita gente ir ao Galo é realmente ir pro camarote e ficar vendo o desfile passar. Olinda é diferente. O carnaval surge e é organizado por uma galera que tem uma história ligada à resistência, que é mais politizada, e que realmente desenhou aquele carnaval para ser um carnaval de rua. Porque ele já foi um carnaval de passarela no passado não tão remoto, até o final dos anos 1970. Então, quando eles quiseram dar uma identidade para este carnaval, de que vai ser um carnaval de rua, de irreverência, de espontaneidade, criou-se essa narrativa.

Isso distingue Olinda do Recife?

Olinda tem duas coisas. Muito da organização passa de geração em geração. Hoje a gente está com Luiz Adolfo à frente do Homem da Meia Noite, que é filho de um dos fundadores e está há 17 anos na presidência do Clube. Tem até um pesquisador que chama de clãs. Os clãs foram criando as agremiações que vão se reproduzindo como dissidência. Essa é uma característica de Olinda. O fato de o sítio histórico ser uma zona de preservação também traz a problemática de que ali não se pode fazer qualquer coisa que ameace o patrimônio. O Carnaval em si já é uma ameaça pela quantidade de gente, a poluição sonora, a geração de resíduos. Olinda já tem esse contexto de resistência que eu não vejo tão fortemente no Recife. Principalmente no Recife Antigo cheio de camarotes. Porque o Recife Antigo já é uma região gentrificada. A proposta do Recife Antigo já passa por essa gentrificação.

E o Carnaval reflete as construções políticas do cotidiano, não é? A gentrificação do cotidiano reflete na gentrificação do Carnaval?

O que eu acho problemático no camarote, e isso vale pro Recife como para Olinda, e pra qualquer carnaval. À exceção das escolas de samba, porque as escolas de samba são um desfile e um desfile tem espectadores. Se eu quero brincar carnaval em um clube, eu compro ingresso, vou para um clube fechado e lá eu sou brincante. Isso é completamente diferente do que acontece no carnaval de Olinda e do Recife, e no próprio Galo da Madrugada. Na hora que eu crio polos de animação privados para um público assistir de camarote o que acontece na rua, eu pego todo o entorno, que não é um espetáculo, não é um show, não foi ensaiado, são brincantes que estão na rua experienciando uma festa popular e eu transformo aquilo ali numa mercadoria de vitrine. Então o brincante que está na rua, correndo atrás do bloco, dançando, fazendo irreverência acaba se transformando em uma vitrine para quem pagou camarote. Então eu quero o melhor de dois mundos. Eu quero estar no clube e quero estar cercada pelo carnaval de rua. Como se fosse uma hiper-realidade. Isso eu acho que está ficando naturalizado. As pessoas não problematizam que quem está no camarote vai pra uma vitrine e que o folião que está na rua é tão brincante quanto o cara que está no camarote, mas naquele momento ele vira uma mercadoria que eu estou assistindo como expectadora.

Essa segregação de classe, entre rua e camarote, facilita a atuação coercitiva e repressora do poder público?

Inclusive eu tenho notado que a abordagem policial está sendo extremamente agressiva. Fazia anos que eu não via isso. Inclusive com armas de descarga elétrica. Tenho ido para as prévias e fico bastante triste em ver isso.

Olinda vive este ano a crise de não ter conseguido fechar todas as cotas de patrocínio. Essa dependência financeira e a pressão pela instalação de casas camarote e de day use mostra a fragilidade do poder público?

Sim. O poder público já perdeu o poder de barganha. Porque realmente a participação master é do setor privado. Não por acaso o festejo tem adquirido essa feição. Quando ela responde por mais de 50% do orçamento do Carnaval e quando a inciativa privada se omite, ela de fato quebra as pernas do poder público. Numa situação que a gente está vivendo, passando por um processo de crise, também era de se esperar que as cotas de patrocínio se reduzissem. Eu acho que a prefeitura falhou em não prever, senão a negativa total, que eles poderiam se deparar, sim, com a redução e deviam pensar em outras ações. As agremiações podem perder muito com isso. As agremiações que têm o discurso de que são elas que fazem isso aqui brilhar, que fazem o turista querer vir. Essa relação público-privada foi sempre problemática, desde os anos 1980. Os patrocinadores privados ganhando espaço e as agremiações perdendo.

Muitos dos grandes camarotes sequer tocam frevo, os shows hoje nesses espaços são praticamente monopolizados pela música sertaneja. Isso mostra o quanto a iniciativa privada pode interferir na cultura do Carnaval?

Até na concepção que as pessoa têm do carnaval. As pessoas começam a ressignificar o que é brincar carnaval. Para mim, que tenho 37 anos, carnaval sempre foi rua e frevo. Mas eu converso com um primo de 19 anos, estudante de medicina, e pra ele faz total sentido ir para camarote ouvir Wesley Safadão durante o carnaval. Aí eu questiono: você não pode ouvir Wesley Safadão durante todo o ano? Porque se você tirou a rua, tirou o frevo, tirou toda a atmosfera do carnaval, você está indo para um show que poderia ocorrer em qualquer época do ano. Mas é incrível que as pessoas estão perdendo essa dimensão. Se colocar glitter no rosto e acontecer em fevereiro, já é carnaval.

Fico imaginando o impacto geracional. Quando essas pessoas tiverem 40 anos, estarão sem o referencial do carnaval de rua e do frevo, e como sabemos que há um recorte de classe essas pessoas vão ser gestores, empresários, advogados, vão ter influência sobre os processos decisórios.

Existe essa tendência que é muito forte. Como na minha adolescência existia a tendência de ir para Boa Viagem atrás de um trio elétrico. Chegou a ter trio elétrico em Olinda. No próprio carnaval de Olinda já teve essa proposta de trazer um pouco do carnaval da Bahia. Na minha geração, entre 35 e 40 anos, muitos que viveram o carnaval daquela maneira têm hoje inclinação pelos camarotes. Mas a gente também tem o Eu Acho é Pouquinho, o Ceroulinha, a gente tem os bloquinhos de rua do Recife que permitem que algumas famílias já vão iniciando as suas crianças na tradição do carnaval. Não é à toa que os blocos líricos têm uma longevidade enorme e você vê crianças desfilando entre os foliões mais idosos. E é muito bonito ver três ou quatro gerações no mesmo bloco. Tem a Pitombeirinha. Eu vejo essa coisa de já iniciar as crianças no bloco como uma tentativa de resistir a esse processo de camarotização. Sei que também tem carnaval de clube para as crianças, que aprendem a brincar no cercadinho, segregando desde cedo. Mas tem criança que vai experimentar o bloquinho de rua. Tenho esperança nesse contraponto.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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