“Fora Temer” marca entrega de relatório final da Comissão da Verdade em PE

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Durou 67 minutos a cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, ontem à tarde, nos jardins do Palácio do Campo das Princesas. Desse tempo, voltado para reflexões sobre o legado da violência da última ditadura militar, iniciada em 1964, apenas duas palavras e alguns segundos foram o suficiente para causar uma saia justa política.

As palavras foram “Fora Temer!”, no microfone, por Cristina Capristano, filha do desaparecido político Davi Capistrano da Costa. Convidada para falar em nome dos familiares dos 51 mortos e desaparecidos em solo pernambucano, ela lembrou que o “Fora Temer” está mobilizando milhões de brasileiros e citou a adesão do público no Rock In Rio. No Palácio, a plateia de convidados repetiu várias vezes o bordão.

Ao lado de Cristina, o governador Paulo Câmara (PSB), que apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e deu sustentação política por um ano ao governo Temer, permaneceu em silêncio.

“Não foi uma decisão coletiva dos familiares, foi da convidada mesmo”, disse Cristina, após a cerimônia. “É fora Temer, fora Rodrigo Maia, fora esses deputados latifundiários, donos de terra, do agronegócio, o que Darcy Ribeiro chamava de ´bovinocultura´”, completou. “A maior posição política deles é assaltar o Estado”.

Os poucos segundos de “Fora Temer”, puxados pela filha de um desaparecido político (seu pai foi preso em 16 de março de 1974 e a família nunca mais recebeu qualquer informação, sequer sobre os restos mortais) teve outro momento de reflexão, quando o cerimonial do Palácio leu os 51 nomes de pessoas mortas e desaparecidas sob a ditadura em Pernambuco. A cada nome, parte do público respondia “presente”. No palanque onde estavam as autoridades, apenas as mulheres repetiam baixinho a palavra. Alguns antigos militantes erguiam o punho, lembrando dos companheiros.

A cerimônia aconteceu no mesmo local em que o então governador, Eduardo Campos, presidiu a criação da Comissão, no dia 1º de julho de 2012.

Mas os tempos e a política mudaram. Falaram, naquele dia, além do governador, a deputada federal Luíza Erundina (ex-PSB, atualmente filiada ao PSOL); Elzita Santa Cruz, mãe do desaparecido político pernambucano Fernando Santa Cruz, representando a Comissão Parlamentar Memória e Verdade; José Paulo Cavalcanti Filho, representando a Comissão Nacional da Verdade; e Fernando Coelho, já como presidente da Comissão. Desses convidados, apenas Fernando Coelho estava presente na cerimônia de ontem.

Num discurso que citou Albert Einstein, a física moderna e Santo Agostinho, o governador Paulo Câmara (PSB) associou o fim dos trabalhos da Comissão com a Revolução Pernambucana de 1817. “São dois eventos separados por 200 anos, mas extremamente vinculados a esta área, em poucas centenas de metros quadrados”, referindo-se ao Parque 13 de Maio, do outro lado do rio Capibaribe, onde os revolucionários daquele época foram punidos. “Cidadãos que tinham a chama da liberdade no sangue pernambucano”, disse, e a “altivez com que enfrentaram seus carrascos”.

Paulo Câmara Memória e Verdade

Paulo Câmara discursa durante solenidade de entrega do relatório final da Comissão da Verdade de Pernambuco

Rupturas democráticas

O governador tocou no delicado assunto da “quebra da democracia”. Ao citar o “profundo e detalhado relatório da Comissão”, disse que ele servirá para responder algumas questões: “quando, como e onde se iniciou a ruptura com a democracia, mergulhando o país nas trevas do chamado ´anos de chumbo´. Quem se omitiu? Quem errou?” Avaliou que, em muitos momentos, faltou “o exercício sereno e experiente da política”, para impedir o arbítrio. Ao abordar a política nacional, sem citar nomes, disse que “essa capacidade de construir consensos é o que hoje, mais uma vez, falta à nação”.

Parte dos questionamentos que o governador levantou ao falar da ruptura democrática de 1964 são feitos hoje ao seu partido, o PSB, e a ele próprio na medida em que referendaram politicamente o afastamento da ex-presidenta Dilma Rousseff sem que estivesse comprovado o crime de responsabilidade, de acordo com esses mesmos críticos, o que teria se configurado como um “golpe parlamentar”.

Hoje, quando os ministros mais próximos do presidente e o próprio Temer são acusados de cometer vários crimes, os ventos autoritários voltam a soprar da caserna nas palavras do general do Exército Antônio Hamilton Martins Mourão que defendeu, recentemente, uma “intervenção militar” caso o Judiciário “não retire os corruptos da vida pública”.

Ao citar a “crise sem precedentes”, que paralisa o Congresso Nacional, o governador Paulo Câmara disse que será necessário “um esforço de todos nós” para negar as “saídas aventureiras” para a crise. A responsabilidade coletiva, completou, é o que vai consolidar, pelo voto, “o desejo da maioria”.

Trabalho incansável

Ao final do evento o relatório foi distribuído. Os dois volumes somam 847 páginas, fruto de um trabalho obsessivo de investigação dos membros da Comissão, criada por uma iniciativa do então governador Eduardo Campos, através da Lei 14.688, de 1º de julho de 2012, para investigar violações de direitos humanos ocorridas contra qualquer pessoa, no estado de Pernambuco, de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988. Por diversos motivos, a Comissão teve como foco principal as violações ocorridas na ditadura militar (1964-1985).

A Comissão fez 50 sessões públicas e 40 reservadas, colheu 157 depoimentos, encontrou e organizou 70 mil documentos em diversos arquivos, e tem cerca de 200 mil páginas digitalizadas.

Todo o acervo está disponível para leitura e pesquisa:

www.comisaodaverdade.pe.gov.br

http://acervocepe.com.br/comissao-verdade.html

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Sobre o autor

Samarone Lima, 46 anos, jornalista e escritor. Nascido no Crato (CE), mora no Recife desde 1987, com breve estadia em São Paulo (1994 a 2000). Sua escola de jornalismo foi a redação do glorioso "Diário Popular", na editoria de Polícia. Já publicou alguns livros, mas gosta mesmo é de poesia. Só em 2012 teve coragem de publicar "A praça azul & Tempo de vidro", repetindo a dose em 2013, com "O aquário desenterrado". Dizem que é um taurino turrão, o que pode ser bom para quem acredita na teimosia do jornalismo.

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