Mulheres que lutam pelo direito de torcer nos estádios são agredidas pela PMPE

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Maiara Melo, jornalista, 26 anos, luta por uma maior presença das mulheres nos estádios no Movimento Coralinas, fundado há dois anos. Orgulha-se de levantar bandeiras feministas ao lado da bandeira do Santa Cruz junto com 70 torcedoras, integrantes do grupo. Aproximadamente 15 delas compareceram ao último jogo do time tricolor, no domingo (19). Três foram agredidas pela polícia. Maiara levou um tapa no rosto e foi xingada de puta por um policial na entrada do estádio, enquanto tentava ajudar uma amiga que estava passando mal. Seu delito talvez tenha sido achar que encontraria proteção ao lado da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE).

Naquele dia o estádio estava lotado, quase 50 mil pessoas, público recorde na temporada segundo as contas do próprio clube. Como frequentadoras assíduas do estádio, Maiara e suas amigas previram a agonia na entrada e chegaram com antecedência ao Arruda. Mas a prudência pouco adiantou diante do despreparo da PM na condução de um esquema subdimensionado de segurança e da desorganização do próprio clube de futebol, que teve muitas das catracas eletrônicas desligadas por uma pane elétrica.

Logo a multidão de mulheres, crianças, idosos e homens começou a se espremer como gado entre os estreitos acessos do estádio. Empurrões agonia e, por fim, spray de pimenta da PM contra a torcida, o que só piorou a confusão. Na tentativa de fugir do tumulto, Maiara levou uma amiga que estava quase desmaiando por reação alérgica ao spray para uma área onde a PM faz a revista dos torcedores. Buscava proteção, mas encontrou truculência. “Um policial começou a me dizer que eu não podia ficar ali. Tentei explicar que minha amiga estava passando mal. Ele se irritou, abriu a grade e me puxou pelo braço. Eu disse que não ia sair. Foi então que ele me deu um tapa na cara e me chamou de puta”, contou a torcedora.

Depois da agressão, Maiara diz que já não lembra bem das coisas. Lembra de repetir chorando para o PM: “Você não está acima da lei!”, mas a lei parecia estar bem longe dali. Também lembra que uma policial mulher tentava contornar a confusão dizendo que elas “deveriam estar em casa, porque estádio não era lugar de mulher”. Era justamente o que as Coralinas não queriam mais ouvir. “A gente quer que as mulheres vivam o futebol que é um esporte do povo, uma festa linda”, argumentou a jornalista, que mesmo depois de todo o trauma não pretende deixar de exercer seu direito de torcedora de ir ao estádio.

Junto com Maiara, outras três integrantes do Movimento Coralinas foram agredidas no último domingo. Nesta segunda-feira (20), elas procuraram a Defensoria Pública e devem, dentro em breve, prestar queixa na Delegacia da Mulher, além de mover uma representação no Ministério Público contra a PM. O Movimento Coralinas também divulgou nota onde “repudia veementemente a agressão vinda da PM, às integrantes e à todos os torcedores e torcedoras que passaram por situações como essa durante o jogo”.

Procurada, a Federação Pernambucana de Futebol disse que não é responsável pelo esquema de segurança fora dos estádios, o que seria responsabilidade do clube junto com a polícia. O presidente do Santa Cruz, Constantino Júnior, lamentou o fato, mas evitou assumir responsabilidade pela segurança na entrada do estádio. “O que está fora do Arruda é da polícia”, disse. Entretanto, ele admitiu que a queda de energia prejudicou o funcionamento das catracas eletrônicas (o dirigente não soube precisar quantas) e contribuiu para o caos no acesso ao jogo.

Por nota a Polícia Militar de Pernambuco informou que “houve um atraso na abertura dos portões pelo clube mandante, e a PM (cujo contingente era de 400 homens dentro do estádio e no entorno) teve dificuldades para ordenar o grande fluxo de torcedores, alguns empurrando e tentando entrar na frente de outros. Mas foi feito o uso da técnica e orientações dadas, contornando o problema.” Sobre a agressão do policial, a PM disse apenas que “se houve alguma queixa, o comando do BPchoque, a Ouvidoria da SDS e a Corregedoria da SDS estão à disposição para esclarecer os fatos”.

Atualmente o Santa Cruz tem aproximadamente sete mil associados. O clube orgulha-se de ter a torcida mais apaixonada de Pernambuco. “A gente gosta de dizer que o morro desceu para o Santa subir. Todo mundo se orgulha de dizer que o Santa é um time do povo, mas a verdade é que os torcedores e torcedoras são criminalizados pela polícia, principalmente mulheres, moradores de comunidades, negros e os integrantes da torcida organizada”, denunciou Maíara. “Sei que não sou a primeira pessoa, nem a primeira mulher a sofrer esse tipo de agressão. Também sei que o máximo que deve acontecer a esse policial e a tantos outros que agridem torcedores é um procedimento administrativo e uma transferência de setor. O que machuca é essa sensação de impunidade.”

Confira aqui  um vídeo divulgado pelo Movimento Coralinas que mostra a confusão no acesso dos torcedores ao Arruda.

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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