Não existe conciliação possível entre a Casa Grande e a Senzala no Brasil, diz Mino Carta

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Somos filhos de séculos de escravidão. As mentalidades do opressor e do oprimido permanecem ativas e nos fazem naturalizar a imensa desigualdade reinante no Brasil. Até quando vamos aceitar o inaceitável?

Diretor de Redação da Revista Carta Capital, o experiente jornalista Mino Carta fala para um auditório lotado no Sindisprev, no Recife, em evento organizado pela CUT Pernambuco: “No Brasil, pagamos por três séculos e meio de escravidão e todo o raciocínio tem que ser baseado nessa constatação rigorosíssima. Somo filhos da escravidão que, de certa maneira, ainda não acabou. A Casa Grande e a Senzala continuam de pé.”

Mino exorta a plateia a ler Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freyre, por ver nos livros o pensamento essencial para se compreender o Brasil de hoje.  “Um livro falava do campo e o outro da cidade, mas o diagnóstico é sempre o mesmo: essa disparidade brutal, inaceitável”.

Se a obra de Gilberto Freyre sugere uma aproximação entre opressor e oprimido, Mino Carta, no entanto, não acredita no caminho do entendimento político entre povo e elite no país.

Citando entrevista recente concedida pelo senador Humberto Costa (PT) à Revista Veja, o jornalista nascido em Gênova, na Itália, em 1933, e trazido pelos pais para viver no Brasil aos 13 anos, critica os políticos de esquerda brasileiros que ainda acham possível viver no sentido da realpolitik (atuação pragmática no mundo da política, que minimiza os aspectos ideológicos). “Não é possível”.

Conciliação só entre “iguais”, entre elites

Amigo de longa data do ex-presidente Lula (Mino afirma que foi o primeiro jornalista brasileiro a enxergar o potencial político do jovem metalúrgico, ainda nos anos 70, e estava com o sindicalista quando este foi preso pela ditadura militar nos anos 80) critica a visão conciliatória da maior liderança petista.

“O Lula comete um engano fatal ao achar que a conciliação é sempre possível. A verdade é que a conciliação no Brasil só é possível entre as elites. Uma conciliação que se dá dentro das Casas Grandes ou dentro dos Sobrados, esses lugares fantásticos. Conciliação entre iguais, entre aqueles que se consideram iguais”.

Vem à memória do velho jornalista o Pacto de Moncloa assinado em outubro de 1977 para garantir a democratização da Espanha pós-ditadura de Francisco Franco. O pacto uniu governo conservador, partidos de esquerda, incluindo o Partido Comunista Espanhol, sindicatos de trabalhadores e associações de empresários.

“Esse tipo de conciliação que aconteceu depois da morte de Franco, de entendimento entre capital e trabalho, conduzido por um conservador de grande estatura política como Adolfo Soares (então primeiro-ministro) nunca existiu no Brasil. Acordo base para assentar uma democracia. Entre a Casa Grande e a Senzala não há possibilidade de acordo”.

Assalto ao mundo do trabalho

As reformas da Previdência e Trabalhista levam o jornalista a um outro momento histórico, a criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) por Getúlio Vargas nos anos 30. A inspiração de Getúlio, segundo Mino, foi a Carta del Lavoro (Carta do Trabalho) implantada por Benito Mussolini na Itália.

Impressiona o fato de que as leis elaboradas sob o regime fascista italiano fossem progressistas para a realidade brasileira. “Era um tempo em que a Indústria Matarazzo tinha máquinas adaptadas para garotos de 12 anos. Naquele momento, mesmo as leis trabalhistas de Mussolini foram um avanço importante para o Brasil”.

Somos fracos e medrosos?

Mino diz se admirar com o fato de o juiz Sérgio Moro comparar a Operação Lava-Jato com a Operação Mãos Limpas, realizada entre 1992 e 1996, na Itália, e que investigou casos de corrupção na relação entre os partidos políticos e setores do empresariado.

“Quando ele diz que os vazamentos ajudam o desenvolvimento da Justiça e diz que era o que acontecia na Operação Mãos Limpas está valendo-se da nossa ignorância monumental. Nós somos ignorantes porque nunca houve o menor esforço da Casa Grande  para nos levar à consciência da cidadania. De nos sentirmos com direitos e com deveres. Nos conformamos facilmente. Cruzamos os braços diante das maiores barbaridades. O que está acontecendo no Brasil é algo terrível que não se dá em nenhum outro lugar do mundo. Exatamente porque somos fracos, medrosos e achamos que é assim mesmo, que a vida é sofrimento”.

Mino Carta fala para uma plateia eminentemente de sindicalistas, gente que sabe quanto está em risco o arcabouço legal que há mais de 70 anos protege o trabalho no Brasil. Ao lado de Mino, um amigo de críticas e assombro, o também jornalista Paulo Henrique Amorim, que mantém o blog Conversa Afiada e é apresentador do Programa de Domingo, da TV Record.

PHA

Paulo Henrique afirma que, até na Alemanha do pós-guerra, as empresas que se associaram ao nazismo foram poupadas. Puniram-se os dirigentes, mas as empresas permanecem ativas e fortes até hoje

O engodo do FGTS

Conhecido pelo tom ácido e jocoso, PHA não está para piada. O jornalista, critico contumaz da Rede Globo, alerta para o fato de o grupo de comunicação estar em campanha avassaladora de apoio à medida do governo Temer de liberar o saque das contas inativas do FGTS para os trabalhadores pagarem suas dívidas. “O que não se diz é que o trabalhador vai abrir mão do seu futuro para cuidar da situação que vive agora e tudo isso, na verdade, beneficia os bancos, que vão receber todo o dinheiro desses trabalhadores”.

A velha máquina de reprodução da desigualdade de renda funcionando a todo vapor no Brasil. Os recursos de quem não tem o suficiente indo parar no bolso de quem já tem demais.

A Segunda Guerra e a indústria alemã

Para Paulo Henrique, é chocante o desmonte do parque industrial brasileiro numa ação coordenada entre o governo Temer e as investigações da Operação Lava-Jato. Assim como Mino, PHA faz uma digressão no tempo para explicar como opera esse desmonte.

Lembra que após a Segunda Guerra Mundial, os aliados e o governo de Konrad Adenauer levaram a julgamento em Nuremberg as lideranças responsáveis pela adesão das empresas alemãs ao nazismo. Mas as empresas em si foram preservadas e, hoje, são multinacionais vigorosas. Cita a Volkswagen, a Krupp, a Thyssen e a IG Farben, que, segundo PHA, fabricava o Ziklon-B, gás utilizado nas câmaras de gás que mataram milhões de judeus.

“A Volks é a maior empresa automotora do mundo. A IG Farben é hoje a Bayer. A ThyssenKrupp continua em pleno funcionamento. Estão todas vivas, vivíssimas. Mas o que será das empresas instaladas aqui em Suape? Vão quebrar. A Odebrecht vai quebrar. A OAS vai quebar. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) vai quebrar. Porque a quebradeira faz parte do projeto de destruir o parque industrial brasileiro”.

A respeito do avanço do governo Temer sobre a CLT (pausa para lembrar a recente declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia-DEM, de que a Justiça do Trabalho não deveria sequer existir), Paulo Henrique diz que “nem o golpe de 1964 mexeu na CLT”.

“O golpe de hoje é mais destrutivo do que o de 1964. Tem a lógica de desfazer o Brasil, submetê-lo inteiramente aos Estados Unidos”, critica.

A capitulação na política externa

Essa lógica de desmonte interno, para PHA, está diretamente associada ao enfraquecimento do país no cenário internacional. Ele recorda a paralisação do projeto de construção do submarino nuclear brasileiro, numa parceria com a França, e diz que o próximo passo do governo Temer na área da defesa deve ser o cancelamento do acordo do Brasil com a empresa sueca Saab para o fornecimento de caças Gripen NG, com o compromisso firmado no governo Dilma de transferência de tecnologia e construção das aeronavers em São José dos Campos.

“Considero uma capitulação a escolha de Raul Jungmann para o Ministério da Defesa. Não se pode ser um país forte sem uma Defesa forte. Veja a diferença para o Brasil de Lula, da criação dos Brics (grupo formado pelos “emergentes” Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Foi Celso Amorim quem instalou a semente dos Brics. E hoje o Brasil é o país do grupo que tem o menor investimento em Defesa. A Odebrecht tinha 3 mil homens construindo o submarino nuclear em Angra dos Reis. E agora não tem mais ninguém”, argumenta Paulo Henrique.

Uma navegada rápida nos sites da mídia corporativa, na tarde da sexta-feira (17), confirma as preocupações de Mino e PHA: “Petrobrás põe a venda por US$ 40 milhões sondas que comprou por US$ 720 milhões” ou “Brasil ficará de fora do Conselho de Segurança da ONU até 2033”. Em resumo: crise na indústria de ponta e perda de protagonismo na política externa.

Sindisprev lotado

Auditório lotado do Sindisprev-PE para ouvir Paulo Henrique Amorim e Mino Carta em painel realizado no dia 10 de março

Sem povo nas ruas, nada muda

Uma angústia acompanha os dois experientes jornalistas: a ausência do povo nas ruas contra os infindáveis cortes nos direitos sociais e trabalhistas. “Sem povo nas ruas, nada muda. Nada muda” repete insistentemente Mino Carta.

“Esse governo está aí para desmontar o país. Acho que temos que encarar os problemas de fundo para enfrentar os problemas do dia a dia. Temos que resolver esse problema que transita entre os nossos fígados e nossas almas e marca nossas atitudes no cotidiano. Falo da prepotência da Casa Grande. E que nunca foi tão clara. Sem nenhum tipo de reação, sem nenhum tipo de revolta. Vão liquidar com o BNDES. Um dos maiores bancos de fomento do mundo. Vão acabar com a Caixa Econômica Federal. A única possibilidade de uma solução está nas nossas mãos”, alerta Mino.

O painel no Sindisprev aconteceu dias antes das mobilizações de rua da quarta-feira (15) que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas contra a Reforma da Previdência em várias cidades. Mobilizações organizadas pelos sindicatos de trabalhadores e ignoradas ou minimizadas por boa parte da mídia corporativa. Nenhum líder do movimento, por exemplo, pôde aparecer no espaço nobre dos telejornais noturnos defendendo as suas reivindicações. O enfoque principal dos grandes veículos de massa foi o transtorno no trânsito das principais capitais.

A expectativa de setores organizados da esquerda é a de que a luta contra as reformas da Previdência e Trabalhista aumente a insatisfação contra o governo Temer e leve para as ruas a classe média e os segmentos mais populares do mundo do trabalho, ampliando a pressão sobre o governo e o Congresso Nacional para além do movimento sindical.

A presença dos ex-presidentes Lula e Dilma nas ruas também é considerada fundamental na mobilização da sociedade. É grande a expectativa da participação dos dois na “inauguração popular” das obras do Rio São Francisco, em Monteiro, na Paraíba, no domingo (19). São esperadas milhares de pessoas no mesmo local que há alguns dias Temer discursou e disputou a paternidade da obra.

E se o Lula for preso?

Paulo Henrique Amorim não acredita em comoção popular porque diz que a notícia será “escondida” pela grande mídia. “Se o Lula for preso e se ele for impedido de se candidatar? Não vai acontecer nada. Porque vai ser uma notícia de 30 segundos no Jornal Nacional”. A plateia reage: “Nós vamos pra rua, vamos pra rua”.

Mino discorda veementemente do colega de profissão. “Eu acho que não será possível esconder uma notícia desse porte. Será notícia de todos os jornais, até o Jornal do Commercio aqui, de Pernambuco, vai ter que dar. Acho que haverá um ruído infernal”.

Questionado sobre a força de mobilização de grupos de Direita, como o MBL, e a baixa adesão popular às manifestações contra Temer, Mino joga a pergunta de volta para o público: “Digamos que, repentinamente, nós saibamos que Lula foi preso. Qual será a nossa reação? O que faremos? Uma indignação mansa? Quantos ficarão revoltados? Quantos?”.

Num ponto Mino e PHA parecem concordar: quando a democracia está em jogo, as ruas não podem calar.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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