O jornalismo sem adjetivos de Joe Sacco

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Bastou ler o texto introdutório, assinado pelo próprio Joe Sacco, na edição brasileira de Reportagens para me remeter às dúvidas e perguntas sobre o “novo jornalismo”, tema sempre presente nas palestras e debates com estudantes de comunicação que os integrantes da Marco Zero – e qualquer um que se arrisca a desbravar o terreno desconhecido do jornalismo independente da web.

Confesso que eu não sei exatamente do que se trata o tal “novo jornalismo”. É o que eu sempre repito, numa resposta que costuma fazer sucesso entre os interlocutores, seja professores ou alunos.

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Ao responder, tento reduzir as expetativas em torno dessa expressão. O “novo jornalismo”, em minha opinião, se resume a esse modelo não-industrial (ou pós-industrial) em que vários portais produzem pautas que já não encontram espaço nos veículos da mídia tradicional e trocam conteúdos em rede.

Sem necessitar da linha de produção que envolve diagramadores, parques gráficos, ilhas de edição e estúdios, esse modelo tem outro traço característico: nós que o praticamos ainda não descobrimos como pagar as contas realizando tarefa tão nobre.

Talvez o tal “novo jornalismo” seja mesmo apenas isso. A muleta dos adjetivos como “novo” ou “independente” provavelmente será posta de lado quando a fórmula do financiamento for descoberta.

O uso de recursos multimídia, mapas, infográficos transados, vídeos instigantes ou podcasts não faz o jornalismo ser “novo”. Até porque tudo isso já é arroz-de-festa do arsenal do jornalismo que distorce, manipula e falseia.

Complemento a resposta com uma frase de efeito: na verdade, entrei nessa para voltar a fazer o “velho jornalismo”, aquele que suja as calças de lama, toma banho de chuva, torra ao sol e, principalmente, escuta as pessoas. Mas escuta mesmo, prestando atenção em tudo, não apenas naquilo que quer se ouvir para render uma manchete. E, principalmente, como diz o inglês Robert Fisk aquele jornalismo em que “os repórteres devem ser neutra e imparcialmente a favor daqueles que sofrem”.

A frase de Fisk acima não está aqui por acaso, nem a cito de memória. Foi com essas palavras que Sacco define seu trabalho, usando um recurso que nasceu no final do século XIX: a história em quadrinhos.

Sacco, mais conhecido por suas narrativas jornalísticas em quadrinhos Palestina – uma nação ocupada, publicadas nos anos 90, continua a percorrer o mundo para relatar muitos dos principais fatos políticos e fenômenos sociais do planeta com todos os sentidos atentos para a versão do lado mais fraco, de quem é reprimido, de quem perdeu o lar, de quem não tem acesso à justiça, de quem teve direitos e bens detruídos. Ou seja, exatamente daqueles que aparecem como números ou como uma massa sem rosto nos veículos do jornalismo comercial.

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Os quadrinhos de Sacco mostram o que o jornalismo comercial omite ou naturaliza: a perpetuação do poder opressor

Reportagens, cuja recente edição brasileira é de responsabilidade da Companhia das Letras, é uma coletânea da apuração jornalística que resultou em narrativas mais curtas que aquelas dos álbuns que o tornaram célebre. As HQs foram publicadas em diferentes veículos europeus ou americanos entre 2001 a 2011.

Os exemplos de que está à serviço dos mais fracos estão presentes em praticamente todas as páginas.

Até quando viaja ao Iraque incorporado à tropa, Sacco encontra uma maneira de escapar do ponto de vista oficial do Pentágono.

Ignorado pela mídia global, o drama dos refugiados chechenos deixa de ser apenas “o drama dos refugiados chechenos” das manchetes insossas para se transformar naquilo que é: uma dolorosa via-crucis de dezenas de mulheres e crianças sem comida, amontoadas em barracões imundos e sujeitas à violência de soldados russos.

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Na reportagem ‘Kushnagar’, a fome e a indigência completa dos dalits, os “intocáveis” indianos, são mostradas não como um fato natural ou cultural inevitável, decorrente da tradicional divisão em castas desiguais – elemento quase sempre tratado de maneira folclórica pelo indústria de entretenimento ocidental -, mas sim, resultantes de um perverso mecanismo de exclusão, de perpetuação do poder e de corrupção.

E isso tudo sem fazer tese, sem lançar mãos de recursos próprios às ciências sociais. Sacco faz jornalismo. Reproduz os diálogos que travou, desenha o que viu e é honesto com aqueles que compartilharam suas dores e, mesmo que apenas por alguns minutos, o enxergaram como uma tábua de salvação.

Pouco importa se “novo”, “velho” “gráfico” ou “visual”, o que Joe Sacco faz é jornalismo. Adjetivos são dispensáveis.

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Sobre o autor

Formado em Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, aprendeu mesmo o ofício como repórter de polícia do Diário Popular (SP) . Depois disso, foi parar na sucursal paulista de 'O Globo' e no 'Diário de Pernambuco'. Ganhou os prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, Cristina Tavares, Ayrton Senna de Jornalismo e menção honrosa no Ibero-Americano de Jornalismo pelos Direitos da infância. Também é Jornalista Amigo da Criança. Saiu dos jornais no final de 2000 para ser secretário de Comunicação de Olinda. Em seguida, foi oficial e consultor de comunicação do UNICEF, atividade que ainda exerce. Publicou uma trilogia de crônicas de futebol com Samarone Lima e dois livros de entrevistas e memória com a cineasta Tuca Siqueira. É casado com uma mulher que ama desde a adolescência e tem três filhos.

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