O sapateiro e o poeta

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Os fuzis e as flechas conquistou leitores em todas as partes do país. Entre eles, o sapateiro Celso Jacinto dos Santos, de Três Lagoas, e o compositor e cantor Milton Nascimento, nascido no Rio de Janeiro, mas criado em Três Pontas, Minas Gerais.

Celso e Milton recomendam a leitura do livro. O músico nas entrevistas à imprensa e o sapateiro sul mato-grossense, na livraria comunitária que montou na porta da sua sapataria.

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Ali, em cima de uma mesa improvisada, estão expostos mais de 200 títulos literários. Entre eles, Os fuzis e as Flechas, O Pequeno Príncipe, Dom Quixote, Capitães de Areia, entre outros.

Montar uma livraria comunitária sempre fez parte dos planos de Celso, desde quando trabalhava como auxiliar na sapataria, que se tornando sua. Em 2008, o sonho do sapateiro começa a virar realidade:

- Em vez de cartão de visita para a sapataria, optei por mandar imprimir centenas de marca-páginas e, neles, carimbava o nome e o endereço da sapataria. Entregava aos clientes dizendo que aceitava doações de livros para livraria comunitária que pretendia montar – conta ele.

Uma das primeiras doações foi a da promotora aposentada Maria Auxiliadora. E até hoje é comum estudantes, professores, trabalhadores e donas de casa, quando levam seus sapatos para consertarem, doarem livros para o acervo da livraria.

Rubens Valente, que não conhece o sapateiro, ficou sabendo de sua existência pelo  amigo Vandecir Hanauer, um vendedor de sol a sol, que, de acordo com o jornalista, de tanto viajar para vender seus produtos conhece como poucos as entranhas do Brasil.

E foi nessas andanças que, lá em Três Lagoas, nas barrancas do rio Paraná, Vandecir conheceu Celso Jacinto.

O sapateiro contou para a Marco Zero o sapateiro que é um “leitor voraz” e que o amor pelos livros lhe foi repassado por uma professora quando ele tinha nove anos “Ela me dizia que uma casa sem livros é uma casa vazia”, recorda o sapateiro de 48 anos e que hoje lê, em média, dois livros por mês.

O sapateiro, por sua vez, conta que em sua livraria ninguém paga pelo livro. O leitor interessado pode trocar uma obra por outra ou mesmo levar um dos livros do acervo da livraria desde que os devolvam, o que acontece na maioria das vezes.

“Os poucos que não devolvem acabam emprestando os livros da livraria comunitária para amigos e parentes”, conta o estudante Lucas Pache, um dos mais assíduos frequentadores da livraria do sapateiro. Pache não têm dúvida de que a inciativa do seu Celso têm contribuído para aumentar o interesse dos 117.477 habitantes de Três Lagoas pela leitura.

Em busca do leitor Milton

Rubens conta que antes do lançamento do livro, em março deste ano, colocou na cabeça que tinha de entregar um exemplar de “Os fuzis e as flechas” para Milton Nascimento, com quem nunca havia falado. E essa vontade se deu não só pelo fato de ter ouvido continuamente os discos do cantor enquanto escrevia o livro, mas também “porque o músico continua em permanente reflexão sobre a causa indígena, inclusive mantendo encontros com índios, como fez há poucos anos no Mato Grosso do Sul. Além disso, como esquecer do belíssimo álbum Txai, de 1999, recheado de referências indígenas”.

Em março, numa viagem a Belo Horizonte, Rubens pediu a um amigo jornalista e músico  que bolasse um plano para fazer chegar o presente a Milton. Rubens enviou  um exemplar autografado pelos Correios, o amigo tentaria fazê-lo chegar até Milton.

“Nesse meio tempo, fui a Campo Grande (MS) para fazer um debate sobre o livro. No dia seguinte, o dono de uma nova livraria na cidade, Semy Ferraz, me disse casualmente: ‘Sabe quem já está com um exemplar do seu livro? Milton Nascimento! Eu mesmo entreguei nas mãos dele’.”

Ocorre que Milton havia estado naquela exata livraria poucos dias antes, para o lançamento de outra obra. Daí em diante, o poeta e compositor mineiro assumiu voluntariamente o papel de garoto-propaganda do livro.

Três meses depois, Milton concedeu entrevista em Porto Alegre (RS), em julho, por ocasião de um show que faria na cidade. Ao Jornal do Comércio, ele sugeriu a leitura de Os fuzis e as flechas (na foto abaixo). “Ao “Correio do Povo”, fez uma referência extremamente elogiosa, e por certo indevida, à minha pessoa”, diz o autor.

Em agosto, Milton voltou a falar sobre a importância de Os fuzis e as flechas em cima do palco, durante show que fez no teatro Guararapes, em Recife, conforme revela o Jornal do Comércio, na matéria do repórter Bruno Albertim:

Este show, mais do que tudo, tem como objetivo chamar atenção para a causa dos índios Guarani Kaiowá. Nós queremos gerar uma reflexão através de uma mensagem de esperança presente na nossa música, esta sim é a meta. Agora, para entender e, principalmente, questionar a situação dos índios brasileiros, é necessário procurar duas fontes principais antes de iniciar qualquer debate, o filme Martírio, de Vincent Carelli, e o livro Os Fuzis e as Flechas, de Rubens Valente.

 

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Sobre o autor

Jornalista especializado em economia solidária, agricultura familiar, política e políticas públicas. Trabalhou na "Folha de Londrina" e "O Globo", onde esteve por mais de 20 anos exercendo diversas funções, entre elas a de chefe de redação da sucursal de São Paulo. Em 2003, fundou a Agência Meios e a Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA), com Paula Quental. Foi coordenador do projeto por dez anos. Sob sua gestão, a agência conquistou 11 prêmios de jornalismo web e alcançou 1,2 milhão de acessos mensais.

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