Pernambuco levará 2 mil mulheres para a Marcha das Margaridas em Brasília

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Do campo, da floresta e das águas diretamente para Brasília, como de costume. Nos dias 13 e 14 de agosto, cerca de 100 mil mulheres trabalhadoras rurais irão marchar pelas ruas do Distrito Federal em defesa dos seus direitos e, principalmente, por uma previdência social pública. Na 6ª Marcha das Margaridas, Pernambuco será representado por 2 mil mulheres de várias partes do estado que vêm se preparando há mais de um ano para a manifestação. Em sua maioria, as margaridas pernambucanas são trabalhadoras da zona rural que estão ligadas aos sindicatos filiados à Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco (Fetape) e se articulam nacionalmente através da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).

Com o apoio também de movimentos feministas, centrais sindicais e organizações internacionais, esse ano é a primeira vez que a marcha conta com uma campanha de financiamento coletivo para garantir a presença das mulheres na mobilização. A cada R$100 doados em apoio à marcha, a presença de três margaridas é garantida em Brasília. A primeira meta já foi batida e garantiu a participação de 3.600 mulheres, mas a arrecadação continua até o dia 2 de julho para atingir a segunda meta de R$120 mil.

Quem são as Margaridas?
Trabalhadoras rurais de todo país que marcham a cada quatro anos em defesas dos seus direitos e em homenagem à Margarida Maria Alves, agricultora paraibana, sindicalista e defensora dos direitos humanos assassinada em 1983. A mobilização acontece desde 2000.

De lá para cá, a expressão “do campo, da floresta e das águas” foi construída como forma de abarcar a diversidade das mulheres rurais: agricultoras familiares, camponesas, sem-terra, acampadas, assentadas, assalariadas, trabalhadoras rurais, artesãs, extrativistas, quebradeiras de coco, seringueiras, pescadoras, ribeirinhas, quilombolas, indígenas e outras tantas identidades, como elas mesmas fazem questão de ressaltar.

Nessa 6ª marcha, o lema central é “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre da violência”.

A campanha expressa um dos principais motes da marcha de 2019 que é a mobilização da sociedade. Demarcar espaço e mostrar que as mulheres do campo continuam lutando é a prioridade, segundo a agricultora familiar e Diretora de Política para as Mulheres da Fetape, Adriana do Nascimento. Para ela, a mobilização social se tornou ainda mais importante em meio ao governo Jair Bolsonaro (PSL), que não “apresenta nenhuma estrutura que dialogue políticas específicas para as mulheres”. Em vez de uma pauta restrita à negociação com o Estado, a marcha traz uma plataforma de diálogo com a população.

Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Crédito: José Cruz/Agência Brasil

“Além de uma previdência social pública assegurada para todos, temos outros eixos na marcha que estamos dialogando em nível regional e estadual. São eles: o acesso à terra, à água e à produção da alimentação agroecológica. Sustentabilidade, segurança energética e segurança alimentar também fazem parte. Somos contra todas as formas de violência contra a mulher, contra o racismo e o sexismo. Temos mais incidência no público rural, mas os movimentos da cidade também tem entrado nesse debate. Algumas organizações de Pernambuco se somam ao movimento sindical e o debate não está apenas no campo brasileiro, mas em espaços urbanos. Porque a gente entende que a luta das mulheres do campo não só beneficia a elas, toda a sociedade ganha com a discussão”, explica Adriana.

De Pernambuco, 40 ônibus devem pegar a estrada levando as mulheres rumo à marcha em agosto. Cada estado estabelece a sua meta de participação como é o caso do Maranhão que levará cerca de 5 mil mulheres. A expectativa de participação das margaridas é maior nos estados mais próximos de Brasília, porque a viagem, por si só, é uma grande luta. O percurso será feito de maneira contínua, sem muitas paradas e deve levar em média dois dias.

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Agricultoras marcham contra o racismo e em homenagem a Marielle

Reforma da Previdência

Mesmo com algumas alterações sendo feitas pelo Congresso no texto da reforma da previdência do governo Jair Bolsonaro (PSL), movimentos de trabalhadores urbanos e rurais continuam a rechaçar as propostas de modificações nas aposentadorias. Isso porque, por falta de participação popular no processo de discussão da reforma, os movimentos não acreditam que o recuo em algumas medidas vão de fato acontecer.

Entre as alterações na proposta do governo, no que diz respeito à aposentadoria rural, a idade mínima para as mulheres agricultoras se aposentarem ficou em 55 anos, com 15 anos de contribuição, como é atualmente. Mas, segundo a presidenta da Fetape, Cícera Nunes, o problema está na dificuldade cada vez maior das trabalhadoras conseguirem provar junto aos sindicatos que atuam como agricultoras.

“Na reforma, a dificuldade é na comprovação de documentos do tempo de contribuição. Com os documentos que nós comprovamos hoje, o governo não vai aceitar mais. Nós usamos o comprovante de acesso ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), porque a maioria do nosso povo tem. Utilizamos certidões de casamento, contas bancárias, comprovantes de filiações dos sindicatos. Mas o governo não aceitará mais se a reforma for aprovada. Ele trata os sindicatos como fraudadores desses documentos”, diz Cícera.

Ela conta que há muitas mulheres na zona rural em todo Brasil que dependem exclusivamente da agricultura para sobreviver. Programas sociais destinados aos trabalhadores do campo vindos da Previdência, Assistência Social ou até o Benefício de Prestação Continuada (BPC) são um suporte para as rendas dessas famílias.

Crédito: Pedro França/Agência Senado

Crédito: Pedro França/Agência Senado

Feminismo

A 6ª Marcha das Margaridas está na pauta dos movimentos feministas urbanos e rurais desde o processo de construção das mobilizações do Dia Internacional de Luta das Mulheres, o 8 de março, do ano passado. Para angariar recursos, as bases rurais do estado têm realizado eventos e muito aconteceram durante os festejos juninos deste mês. Em Recife, no último dia 23, a Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco (MMM-PE) organizou a venda de uma feijoada, no Armazém do Campo, no bairro de Santo Antônio. O valor arrecadado foi revertido para o apoio das margaridas. Anteriormente, houve também mobilizações na comunidade de Palha de Arroz, no bairro de Campo Grande, Zona Norte da capital.

A militante da MMM-PE, Rebeca Barbosa, vem acompanhando a organização da marcha junto à Fetape. Ela afirma que não poderia deixar de participar da mobilização diante da conjuntura política atual de “grande ataque aos direitos das mulheres, trabalhadores, LGBT’s, negros e qualquer diversidade”. “Essa ampla ação estratégica das mulheres do campo, da floresta e das águas que acontecerá entre os dias 13 e 14 de agosto em Brasília busca conquistar visibilidade, reconhecimento social, político e cidadania plena, desde 2000 vem se consolidando como a maior e mais efetiva ação de luta das mulheres contra a exploração, a dominação e todas as formas de violência e em favor de igualdade, autonomia e liberdade para as mulheres”, acrescenta.

De acordo com o site oficial do financiamento coletivo em prol da Marcha das Margaridas, o orçamento da mobilização se aproxima de R$ 5 milhões. Valor correspondente a despesas com locação de espaço e equipamentos de som, itens e serviços de segurança, higiene, limpeza, saúde, alimentação, logística, divulgação, comunicação e cultura e com os custos de deslocamento dos estados para Brasília. O dinheiro arrecadado na campanha da benfeitoria serão destinados principalmente à infraestrutura, segurança, saúde e comunicação.

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