Pescadores participam de limpeza do Capibaribe e exigem reconhecimento

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Pescador há 32 anos na Ponte do Limoeiro, Davi Vicente, 56, há muito tempo não pesca os 60 quilos de peixe que tirava por dia das águas do Capibaribe no passado. Ontem, quinta (30), ele navegou sete quilômetros mar a dentro com 1.500 metros de rede para pescar apenas quatro carapebas. “Acabou o rio. O rio tá morto”, lamenta, contando que o lixo plástico que toma o Capibaribe agora avança quilômetros pelo oceano.

Davi e dezenas de pescadores e pescadoras de várias comunidades do Recife participaram nesta sexta-feira (31) do projeto Há Gosto pelo Capibaribe, promovido pela organização não-governamental ReCapibaribe. Os pescadores se mobilizaram para limpar a sujeira do rio e denunciar o que chamam de “descaso ambiental”. Os organizadores tinham a expectativa de tirar das águas entre 15 e 20 toneladas de lixo.

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Davi Vicente: “Acabou o rio. O rio está morto”. DESCRIÇÃO: Davi está no lado esquerdo da foto, vestindo camisa regata da seleção brasileira, com chapéu de proteção amarelo. Do lado direito da foto aparece o rio Capibaribe, com várias jangadas e aparelhos de TV de tubo. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Casado, pai de quatro filhos, Davi diz que nenhum deles quis seguir a sua profissão. “Uma vida dessa eu não quero para ninguém. Não dá para viver assim. Estamos pescando lixo”, reclama, explicando que a falta de peixes e mariscos está afetando a vida dos 160 pescadores da área da Ponte do Limoeiro. “Agora, quebrei o motor porque uma madeira bateu na hélice. Vivemos no prejuízo”.

Dona do Capibar, no bairro do Monteiro, onde os pescadores se reuniram, Simone Catanhede está à frente do projeto há dez anos e há sete criou a ong. O Capibar existe há 18 como um espaço de educação ambiental. “Eu me sinto na obrigação de chamar a atenção do Recife para o veio d`água mais importante do estado que é o Capibaribe”, afirma.

Simone é moradora há 35 anos da comunidade de Cabocó, na beira do rio, onde está o Capibar. Para ela, não é só a poluição do Capibaribe que prejudica as comunidades pesqueiras, mas também o avanço do capital imobiliário. “Os governos tiraram a população de baixa renda do bairro de Casa Forte. Aqui, como no Monteiro, tem muita área verde e muita área de comunidade de baixa renda e eles tão querendo entrar com a especulação imobiliária. Esse espaço aqui é um espaço de resistência”.

TERRITÓRIOS PESQUEIROS

Resistência é palavra cotidiana na vida de Noêmia Fernandes, 38 anos, pescadora da Ilha de Deus. Ela integra a Articulação Recife de Luta – formada por diversas entidades da sociedade civil – e acompanha as discussões em torno da revisão do Plano Diretor do Recife. A Articulação tem denunciado uma série de manobras da Prefeitura para cercear a participação da população no Plano que vai definir as diretrizes para o desenvolvimento urbano da cidade nos próximos dez anos.

Noêmia foi a uma das reuniões convocadas pela Prefeitura para discutir o Plano Diretor e se sentiu deslocada. “Eu não me vi como pescadora ali. Aliás, tinha muito pouco pescadores lá. Só tinha grandão… advogado, administrador, gente da Prefeitura… Em nenhum momento tocaram no nome dos pescadores. Só falavam de grandes projetos, de prédios, de rodovia. Sobre pesca eu não ouvi nada”, queixa-se.

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Noêmia: “Tenho orgulho de ser pescadora”. Descrição: Do lado esquerdo está Noêmia, de camisa branca e boné azul, abraçada com o filho Jardel, que usa uma camisa vermelha e boné azul. Ao fundo o rio Capibaribe com parte das jangadas aparecendo no canto esquerdo da foto. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Para ela, o reconhecimento dos territórios pesqueiros pelo Poder Público pode fazer toda a diferença uma vez que com o reconhecimento pode vir o respeito que ela diz que não existe hoje. “O pessoal não está respeitando o nosso espaço como pescadores. É muito lixo e esgoto na maré. Quem vê de fora não vê nada. Mas quem tá dentro da maré é que sofre as consequência da sujeira. E foi na maré que eu criei os meus quatro filhos…”.

Por falar em filhos, Jardel, de apenas 9 anos, pediu para faltar à aula nesta sexta para acompanhar a mãe na limpeza do rio. Noêmia achou justo. Por horas, eles remaram na contra-maré da Ilha de Deus até o Capibar. Para ela, a presença do filho ao seu lado é importante para que ele veja com os próprios olhos que há dignidade no trabalho da mãe.

“O trabalho da gente alimenta a cidade. O que vai pra mesa das pessoas é o peixe que a gente pesca, o sururu, o marisco e outras mercadorias que pegamos e colocamos na feira para vender. Se não fosse por nós, o que seria deles? Eu tenho muito orgulho de ser pescadora”, afirma.

IDENTIDADE CULTURAL DA CIDADE

Integrante do núcleo de comunicação da Associação Comunitária Caranguejo Uça, da Ilha de Deus, Edson Fly diz que é preciso rediscutir a caracterização das comunidades pesqueiras como lugares empobrecidos, miseráveis e emergentes e reconhecê-las na sua realidade social, política, ambiental, cultural, habitacional e de saúde “sob a ótica e a ética das águas”, justamente por se tratarem de comunidades ribeirinhas.

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Fly: “O Recife Colonial nega o potencial que nós somos”. DESCRIÇÃO: Fly está no centro da foto, atrás estão várias pessoas do lado direito, e no esquerdo aparece o rio. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Para Fly, é preciso reconhecer as comunidades tradicionais pesqueiras como parte importante da identidade cultural da cidade. “O motorista que passa pela ponte e vê os pescadores lançando as redes ao rio para pescar pensa que ali está um coitado. Não percebe que aquele é um ato cultural da cidade. É um ato que revela a cidade como um espaço promissor de segurança alimentar, do ponto de vista da soberania alimentar. Recife tem tudo para isso. Mas o Recife Colonial nega essa existência. Nega o potencial que nós somos. E aí eu falo enquanto indivíduo das margens do rio”.

APOIO AO PROJETO

Este ano, o projeto Há Gosto pelo Capibaribe contou com a parceria do Rotaract Clube Encanta Moça, um braço jovem do Rotary Clube. O presidente do Rotaract, Ítalo Mafra, contou que conheceu Simone Catanhede numa festa que organizaram no Capibar para arrecadar fundos para uma creche na Torre e decidiram então apoiar o projeto tocado pela ReCapibaribe. Entre empresas privadas apoiadoras, vaquinha digital e venda de camisas juntaram R$ 10 mil.

Cada pescador e pescadora que participou da limpeza do rio ganhou R$ 80,00 e mais uma cesta básica. Os três pescadores que mais recolheram lixo receberam a premiação de R$ 400,00, R$ 300,00 e R$ 200,00.

 

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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