Pocotó resiste: comunidade luta contra ação de despejo em Boa Viagem

0

Texto: Laércio Portela Imagens e edição de vídeo: Inês Campelo

Os motoristas dos carrões que passam por baixo do túnel Augusto Lucena, em Boa Viagem, saindo do Shopping Recife, do Carrefour ou seguindo em direção ao Aeroporto Internacional dos Guararapes nem se dão conta de que na laje acima da via pulsa, há pelo menos 15 anos, a vida de dezenas de famílias da comunidade Pocotó. Acostumados à moradia precária, os moradores que integram a economia informal no bairro que é cartão postal da cidade estão sob pressão da Prefeitura do Recife: ou deixam o local ou serão despejados.

A ordem judicial chegou na segunda-feira (11) assinada pela juíza Mariza Silva Borges, da 3a Vara da Fazenda Pública da Capital. No papel, onze moradores – nove mulheres e dois homens – são citados como réus na “ação demolitória com pedido de interdição e tutela de urgência”. A eles é dado o prazo de três dias para deixar voluntariamente o local ou serão despejados. “Os funcionários da Prefeitura disseram que mesmo aqueles que não tão com o nome no papel vão ter as suas casas derrubadas”, explicou Juliana Cristine Silva Rodrigues, 28 anos.

Nascida em São Paulo, Juliana veio para Pernambuco ainda criança. Morou em Ribeirão e em Caruaru e está há cinco anos na comunidade Pocotó. A vida nunca foi fácil ali, onde ela construiu o barraco de madeira e vive com a filha Carla, de seis anos. Mas desde segunda-feira ela está com o coração mais apertado do que de costume. Com medo de perder o teto, desmontou o barraco de madeira e ocupou, junto com outras famílias do Pocotó e da comunidade Entra Apulso, uma outra área a 500 metros de distância.

Na manhã desta quinta-feira (14) servidores da Secretaria de Controle Urbano da PCR, escoltados por policiais militares, derrubaram os barracos recém-instalados na Sementeira. “O pessoal do MTST já tinha nos alertado. Se eles não estão respeitando a comunidade aqui que tem mais de 15 anos de existência, como é que eles iam respeitar a ocupação lá da Sementeira, que tem só dois dias?”, explica Juliana, que foi acolhida na casa da cunhada também moradora da laje do túnel.

Barricada para o diálogo

O medo de perder a moradia levou dezenas de moradores do Pocotó a interditar a Avenida Ernesto de Paula Santos na altura da descida do viaduto Tancredo Neves, na manhã desta quinta-feira (14). Dessa vez os carrões não puderam ignorar a presença de Pocotó na paisagem de Boa Viagem.

O objetivo da barricada levantada com pneus queimados era o de chamar a atenção da imprensa e da sociedade para o drama que estão vivendo e forçar a Prefeitura do Recife a abrir uma mesa de negociação. “Queremos uma saída negociada para que fique preservado o direito à moradia da comunidade. Sem agressão, sem derrubada dos barracos e sem despejo. Ninguém está ali porque quer, mas porque precisa”, defendeu Rud Rafael, coordenador do MTST de Pernambuco.

O protesto surtiu efeito. Uma comissão de advogados populares, representantes do MTST e da comunidade foi recebida no final da manhã pelo diretor de relações institucionais da Secretaria de Governo, Henrique Leite, pelo diretor da Secretaria de Habitação, Leonardo Bacelar,  e pelo coordenador do programa Recife Participa, Sérgio Campelo. A Prefeitura não atendeu ao apelo dos advogados para que retirasse o pedido de desocupação. Alega que as casas de alvenaria sobre o túnel estão colocando em risco a estrutura.  Em julho, já havia tentado retirar os moradores do local. “A desocupação era necessária pois laudos da Dircon e Defesa Civil indicavam que a área é inapropriada e não projetada para receber nenhum tipo de edificação”, divulgou em nota.

O prazo de três dias para a saída voluntária das famílias não está contando porque a ordem de notificação judicial ainda não foi anexada aos autos do processo.

Um novo encontro entre a comunidade e os representantes da Prefeitura ficou marcado para a próxima terça-feira (19). “A Prefeitura não aceitou pedir a suspensão da ação de desocupação. Mas o que mais nos chamou a atenção é que eles não têm qualquer solução para as famílias que querem despejar do Pocotó. Não há nenhuma proposta de realocação, de transferência para um conjunto habitacional, nada. Iam tirar as pessoas e deixá-las na rua, desrespeitando o seu direito à moradia”, critica Cecília Gomes, advogada do MTST, que participou da reunião após o protesto.

Do sonho realizado para a depressão

O nome de Jamelina Lindalva do Nascimento, 46 anos, aparece na ordem judicial de desocupação. Ela mora há 15 anos no Pocotó. No Carnaval deste ano realizou o sonho de toda sua vida. Terminou a obra da casa dela e da filha. Os barracos de madeira agora são de alvenaria. “Eu fiz um acordo com meu ex-patrão. Saí do trabalho e recebi o seguro desemprego, o FGTS, juntei R$ 9 mil para levantar minha casinha. Trabalhei tanto para juntar e agora posso perder tudo de uma vez. Vou dizer uma coisa para o senhor, tô tomando remédio de depressão. Não consigo parar de pensar no dinheiro que juntei e gastei aqui. Tô sem dormir”.

Protesto na comunidade Pocotó

A angústia de Jamelina se explica também porque ela abriga sob o mesmo teto os quatro netos: Michael Douglas (4 anos), Sandriele Kelly (4 anos), Maysa Dayane (6 anos) e Keroli Yasmin (2 anos). Na casa ao lado mora a filha Jaqueline Nascimento Cristiano, de 20 anos, com o marido. O despejo vai desestruturar toda a família e pode colocar em risco o destino dos pequenos que estudam no colégio Santos Dumont.

Na quinta, depois de participar do protesto na Avenida Ernesto de Paula Santos, Jamelina já estava pronta para ir para o trabalho. Ela faz faxina três vezes por semana num apartamento próximo ao Pocoto dividido por jovens de Fortaleza que estudam na Uninassau-Boa Viagem. Vida que segue.

A sensação de que pode perder a casa também tem tirado o sono de Maria do Carmo Lima, 57 anos, há 10 na comunidade Pocotó. Ela não foi notificada pela Prefeitura, mas não tem ilusões: sabe que também pode ser atingida pela ação do Poder Municipal. Gastou recentemente R$ 2 mil para trocar o piso de casa e substituir paredes que já foram de madeira e lona por tijolos e cimento. O marido Carlos da Costa Ribeiro trabalha numa firma de construção civil e tem garantido a renda familiar já que Maria do Carmo está com problemas no joelho e vai operar.

Na pequena salinha da casa, o sofá divide espaço com o carrinho de espetinho e cachorro quente. “Eu vendia na rua, mas agora não tô mais podendo fazer isso por causa do joelho. Meu marido vai começar a vender nas horas de folga dele para garantir mais um dinheirinho aqui pra casa”, explica. Não é de hoje que Maria do Carmo sabe o quanto é difícil ter uma moradia digna no Grande Recife. Já morou na comunidade Chacatá, no Ibura, e numa área próxima ao lixão de Aguazinha. “Agora tenho o meu espaço e não quero perder”. No Pocotó, vivem também a sua filha Tarciana do Carmo Lima, de 30 anos, e três netos, de 4 e 5 anos e um bebê de dois meses. Um outro neto, de 11 anos, mora na comunidade de Entra Apulso com o pai.

ICC_5173_PQ ICC_5065_PQ Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  ICC_5295_PQ ICC_5310_PQ ICC_5315_PQ ICC_5318_PQ Moradores do Pocotó protestam por moradia  Moradores do Pocotó protestam por moradia  ICC_5401_PQ Moradores do Pocotó protestam por moradia  ICC_5443_PQ Moradores do Pocotó protestam por moradia

“Esse povo não gosta de pobre”

No final da manhã desta quinta-feira, Juliana Cristine parecia bem cansada. Ela, que mais cedo vira os materiais com os quais construiria um novo barraco na Sementeira serem recolhidos pelos funcionários da Secretaria de Controle Urbano da Prefeitura do Recife, buscava forças para retomar a rotina do trabalho, vendendo lanches na própria comunidade. Confessava que a apreensão tinha tirado sua disposição para voltar à rotina. Assim como Maria do Carmo e Jamelina, não conseguia tirar o pensamento do medo do despejo. “Quando é você só nessa vida é uma coisa, mas quando você vive com as crianças tudo fica delicado, mais difícil”.

Juliana conheceu no ano passado o lado nobre de Boa Viagem, como funciona o “Poder Privado” no bairro, ao trabalhar como empregada doméstica por 1 mês num edifício de cinco quartos e quatro banheiros localizado na orla. Não aguentou a exploração do trabalho exaustivo de até 12 horas por dia para 1 salário mínimo de remuneração. Agora, está conhecendo melhor o Poder Público que opera na região. Enquanto limpava e cozinhava para a família da Avenida Boa Viagem ficou com uma ideia na cabeça: “Tenho a impressão é que esse povo não vê os pobres, não gosta, não se confunde com os pobres. Acha que o pobre merece mesmo é ser explorado. Serve mesmo é pra trabalhar muito e ganhar pouco”.

Essa “ideia na cabeça” de Juliana vai estar em jogo nos próximos dias no Pocotó. Os moradores querem saber até que ponto o poder privado e o Poder Público falam a mesma língua no bairro rico cercado de miséria por todos os lados.

 

Compartilhe:

Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015. Atualmente presta consultoria nas áreas de planejamento em comunicação e redes sociais.

Deixe um comentário