Rogério Christofoletti: “A mídia deve fiscalizar os poderes, mas não pode pré-julgar e perseguir”

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Ávido leitor de literatura policial e autor de oito peças teatrais, o professor da Universidade Federal de Santa Catarina e jornalista Rogério Christofoletti se especializou no estudo da ética no jornalismo, crítica de mídia e novas tecnologias. Christofoletti conhece de perto as pressões de uma redação. Trabalhou em jornais e revistas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina nas editorias de Política, Economia, Cultura, Geral, Polícia, Transporte, Infraestrutura e Logística.

Em parceria com Ana Paula Maux e sob o pseudônomo de Chris Lauxx, escreveu o livro Os Maiores Detetives do Mundo, uma espécie de guia sobre 60 grandes investigadores do universo da literatura, quadrinhos, cinema, TV e games. Christofoletti também escreveu o livro Ética no Jornalismo, lançado em 2008 pela Editora Contexto. É com este conhecimento mesclado que ele tenta decifrar os caminhos da cobertura jornalística recente da política brasileira.

Ética no Jornalismo

 1. Como você avalia o comportamento da grande mídia na cobertura política recente: Governo do PT, Operação Lava-Jato e processo de impeachment da presidenta Dilma?

A cobertura tem sido errática, e isso é muito ruim, de uma forma geral. Durante meses, resisti a usar a expressão “golpe midiático”, mas não podemos nos desviar dos fatos e perceber que grandes veículos têm sim uma total indisposição para cobrir bem a crise, uma resistência quase primitiva contra o PT, e quase nenhuma preocupação em manter os relatos equilibrados. A Revista Veja tem perseguido de forma permanente o ex-presidente Lula e a presidente Dilma. Suas capas são peças não-jornalísticas, mas de produção indiscriminada de ódio. A Revista IstoÉ vem insistindo em “reportagens” com tons sexistas, e que muitas vezes sequer têm amparo nas técnicas jornalísticas. Uma reportagem não muito distante relatava que Dilma Rousseff havia perdido tanto o equilíbrio emocional que destratava seus conviventes mais próximos, quebrava móveis e utensílios no Palácio do Planalto, e por isso, não tinha mais condições de conduzir o país. A “reportagem” em nenhum momento, repito, em nenhum momento, citou uma única fonte que atestasse os fatos narrados, o que fragiliza em muito aquele “esforço jornalístico”. Bastaria apenas que o público acreditasse na palavra do jornalista e ponto. Mas jornalismo vai além disso, e precisa ser feito de forma rigorosa, criteriosa, exaustiva. A cobertura da crise é muito, mas muito ruim. Tropeça em aspectos técnicos, está viciada nas mesmas fontes, não tem qualquer compromisso com o equilíbrio das narrativas e reforça o discurso pre-julgador. Em muitos momentos, é vergonhoso o que se apresenta ao público.

2. Em que pontos a cobertura atual da grande mídia se assemelha àquela de 1954 na crise que culminou com o suicídio de Vargas e à cobertura de 1964, quando ocorreu o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart?

Em 1954, não tínhamos o poderio da TV e da internet. Os jornais eram tribunas políticas, e se comportavam como forças quase partidárias. Em 1964, a TV ainda era incipiente, e colhíamos os frutos podres de uma crise que não foi solucionada dez anos antes. Hoje, temos um país cuja mídia é oligopolizada, temos redes sociais na internet que permitem alguns contrapontos, temos a oitava economia do mundo (o que faz com que o resto do planeta se preocupe com o andar das coisas), temos um discurso de ódio sendo tramado há pelo menos dez anos, disposto a derrubar um governo. Então, fica muito difícil comparar  os três momentos. Particularmente não vivi as duas crises anteriores, mas já passei pela de 1992 – que tirou Collor do poder -, pelo fim do governo militar – em 1985 – e pelas constantes crises econômicas, que trouxeram recessão e inflação galopante. Neste sentido, acho que a crise atual é maior que essas que acabei de citar. A conjugação de setores conservadores no parlamento, de elites econômicas indispostas com o governo, de sensação de corrupção generalizada e de setores da mídia que insistem em atuar como partidos, tudo isso torna a crise atual bastante aguda e de difícil solução.

3. Até que ponto o clima de intolerância e de divisão política que tomou as ruas do Brasil e o dia a dia das pessoas foi provocado ou amplificado pela atuação da imprensa?

Boa parte da nossa noção de realidade se dá pela mídia. Sabemos o que se passa na esquina de casa e na China pelos meios de comunicação. Os noticiários ajudam a moldar nossas concepções de herois e vilões, de manobras e de acertos. Então, a mídia tem responsabilidade nesse Fla-Flu atual sim. Não posso dizer que ela criou essa condição antagônica. Mas a soma de noticiário enviesado mais narrativas polarizadoras e redutoras mais disseminação de críticas sem contraponto criam um resultado de ódio, de intolerância, de ansiedade por soluções mágicas. A mídia criou a crise? Não. Mas que ela vem alimentando esse monstro, ah, isso sim!

4. Podemos falar que existe uma aliança entre oposição–capital (empresariado/financistas)–grande mídia- e estamento burocrático (Polícia Federal, Ministério Público Federal-Poder Judiciário) para derrubar um governo legitimamente eleito? Como você vê a participação da mídia nesta aliança?

Eu resisti muito a adotar a expressão “mídia golpista”. Me parecia algo de teoria da conspiração. No entanto, ao acompanhar mais detidamente a cobertura dos grandes meios, não podemos nos enganar e pensar que a mídia está isenta. Não está. É clara a sua intolerância com o governo. É clara a sua indisposição com a presidente e com o PT. É clara a forma desequilibrada com que vem oferecendo o noticiário. Não são claros, no entanto, os interesses ali envolvidos. Penso que o jornalismo precisa fiscalizar os poderes, e isso significa ficar nos calcanhares do governo. Mas fazer esse trabalho de cão de guarda é diferente do que está sendo feito agora. Por acaso, jornais paulistas como a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo estão mordendo os calcanhares do governador Geraldo Alckmin? Não, não estão. São condescendentes muitas vezes. Foi assim com a crise hídrica, com os escândalos de corrupção no metrô da capital, com o desvio de verbas da merenda escolar, etc. No entanto, esses mesmos jornais não perdem tempo nem ânimo para fustigar, hostilizar e pre-julgar o governo Dilma. Sim, há dois pesos e duas medidas. Qual o papel da mídia nessa coalizão? Dar um verniz de legitimidade às ações golpistas de Eduardo Cunha, de Michel Temer, de Aloysio Nunes Ferreira, entre outros. Outro papel é construir um consenso público em torno de uma única saída: o fim da gestão Rousseff. Como se isso apenas fosse aplacar a crise…

5. Até que ponto o jornalismo independente na Internet e a sociedade civil organizada podem fazer um contraponto informativo à grande mídia?

O jornalismo independente que vigora na internet é importante não apenas neste momento, mas em outros também. Vivemos num país cuja mídia é oligopolizada, e que sempre atua para construir consensos em torno de questões muito complexas. Mas não podemos nos enganar: o poder desses veículos menores é muito, mas muito inferior aos veículos convencionais. Alguns números mostram isso. Em 2015, o mercado de mídia no Brasil faturou R$ 35 bilhões, e R$ 25 bilhões foram para as TVs abertas e por assinatura. Isso mesmo! Mais de 71% das verbas publicitárias estão ainda dirigidas para o meio TV, e o resto é dividido entre os demais. A TV está em 99% dos lares brasileiros. Somos 205 milhões de pessoas e apenas 117 milhões são usuários da internet. Então, a distância entre o poder de financiamento, o poder de penetração, e o poder de construção de imaginários da TV e dos meios alternativos é muito grande. É uma guerra assimétrica, desigual e desleal. O que fazer? Insistir nas alternativas, lutar por elas, empoderá-las. Fortalecer esses meios, ajudar a difundi-los e lutar pela democratização da mídia brasileira. Este é um tabu, um assunto que não se fala no parlamento porque mais de 270 políticos são diretores, proprietários ou concessionários de emissoras de rádio e TV, o que contraria a Constituição. Logo, há um conflito de interesses ali. E os governos centrais (prefeitura, estados e União) não se interessam em mexer nessas estruturas.

6. Considerando a cobertura da grande mídia dos eventos que estão culminando no processo de impeachment da presidenta Dilma, como você considera que deve ser conduzido o debate público sobre a democratização da mídia? Qual a emergência desse debate e como sensibilizar a sociedade para o tema?

Considero que a democratização da mídia é um assunto prioritário na agenda política brasileira. Não podemos admitir que um país continental como o nosso tenha apenas meia dúzia de redes de TV aberta, quando poderia ter dez vezes mais. Não podemos admitir que as verbas publicitárias fiquem confinadas nos grandes conglomerados de mídia. Não podemos admitir que a Constituição seja ignorada em diversos aspectos, que o Parlamento não regulamente as matérias atinentes à área e que o governo federal não implemente políticas de maior transparência no setor. Não se trata de censura, nem de bolivarianismo. Os Estados Unidos têm regras claras para o setor. O Estado interfere pouco, mas estabelece regras que permitem a competição, e a livre iniciativa. E os Estados Unidos não são bolivarianos. Por aqui, parece um clube, um clube restrito em que não se admite mais sócios. É uma ação entre amigos, que conta com alguns aspectos perversos: nossa legislação é obsoleta e cheia de brechas, nossas agências reguladoras são inoperantes, o Parlamento e o Executivo não demonstram disposição para mudar as regras ou regulamentá-las, e a população não vê na comunicação um direito e uma luta que vá interferir no seu cotidiano. Tudo isso torna o tema um tabu, e temos razões de sobra para imaginar que não democratizaremos a mídia tão logo neste país.

7. O jornalismo sai ferido desse processo? Por que os jornalistas que tudo questionam não questionam o seu próprio trabalho?  

Puxa! Você oferece questionamentos quase psicanalíticos! E eu acho que as redações não querem deitar no divã. Não estão dispostas a revisarem seus percursos, a olharem as próprias vísceras e aceitarem suas condições de imperfeição. Particularmente, não acho que seja só um problema de o repórter fazer o que o patrão manda. Acho que a situação é bem mais complexa e que tem no seu bojo uma operação (consciente ou inconsciente) de fé, que faz com que os repórteres acreditem que estão fazendo o seu melhor ao perseguir o governo. Ora, é preciso buscar algum equilíbrio nessa operação. A mídia tem, precisa, deve fiscalizar os poderes. Mas não pode pre-julgar, perseguir, inventar, e se omitir. Muitos repórteres se convenceram com os argumentos dos patrões e aderiram a um delírio coletivo de derrubar o governo. Outros seguem as ordens. Outros sequer as questionam. Então, se trata de um cenário complexo, de difícil solução.

8. Faz sentido falarmos numa crise de credibilidade do jornalismo brasileiro? Ou da mídia brasileira?

Sim, acho que faz sentido. De maneira ampla, o jornalismo está passando por um conjunto de crises: de sustentabilidade financeira, de reposicionamento na sociedade (diante do fim da sua primazia e da emergência das narrativas alternativas), de credibilidade e de sua utilidade na sociedade. A crise é generalizada no jornalismo, independente do país. Mas no nosso caso, somam-se a isso a necessidade de se buscar um lugar para as empresas de mídia no espectro político. Identificar os nós da crise é essencial para se buscar adequações e soluções. Ainda acredito no jornalismo como um tipo de narrativa útil e relevante para os seres humanos. Mas ele já não vem oferecendo o melhor de si há algum tempo. Precisamos melhorá-lo. Se o paciente chega no consultório com dor de cabeça, não podemos cortar a cabeça para resolver seu problema. O mesmo se dá com o jornalismo. Não é acabando com ele que o tornaremos melhor…”

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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