Secundaristas vão contar em filme história das ocupações nas escolas do Recife

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Eles e elas enfrentaram a polícia, a diretoria das escolas e da Secretaria de Educação. Lutaram contra a Reforma do Ensino Médio e a PEC do teto de gastos públicos. Denunciaram o golpe contra a democracia no Brasil e exigiram melhorias na estrutura física dos espaços de ensino e lazer. Eram apenas adolescentes, mas sua ação política mobilizou o aparelho repressivo do Estado e forçou as autoridades públicas a sairem de sua zona de conforto.

Passado um ano das ocupações das escolas secundaristas em Pernambuco, alguns dos jovens protagonistas do movimento estão juntos novamente. Desta vez a luta é para não deixar cair no esquecimento tudo o que viveram nos dois meses de protesto pacífico. Afinal, contar a história e criar a memória das lutas populares é um desafio enorme no país que invisibiliza as manifestações contra o status quo que vêm das periferias negras e pobres.

Em Pernambuco, a experiência das ocupações secundaristas nas escolas públicas vai virar filme. Esse era um desejo antigo dos jovens pernambucanos que se inspiraram em documentários realizados em outros estados para ocupar as escolas locais.

PROJETO DE EXTENSÃO

A ideia saiu do papel com o projeto de extensão do Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA) da UFPE coordenado pela professora do Departamento de Serviço Social, Soraia de Carvalho, em parceria com o Núcleo de Documentação dos Movimentos Sociais de Pernambuco (NuDoc), também da UFPE.  Toda a produção e filmagem está sendo realizada por jovens estudantes universitários. Alguns dos quais apoiaram as ocupações secundaristas em 2016.

No sábado, 18 de novembro, nove estudantes participaram do último dia de filmagens na quadra de vólei da UFPE. Sentados no chão em semicírculo, eles lembraram os momentos difíceis que passaram, as tensões e ameaças que viveram, mas também o quanto amadureceram e se uniram com todo o processo.

Estudantes gravam última cena do documentário, na quadra de volei da UFPE, com balanço das ocupações no Recife

Estudantes gravam última cena do documentário, na quadra de volei da UFPE, com balanço das ocupações no Recife

“Nós ocupamos o que era nosso. Vimos que nosso papel na escola não era só o de obedecer. Nós também podíamos comandar. Nos sentimos cidadãos de verdade. Ficou também o lado humano. A ocupação criou o ser sensível. Cada um de nós ficou sensível à causa dos outros e das outras”, explica Maria Catarina, 19 anos, ex-aluna da Escola de Referência do Ensino Médio (Erem) Cândido Duarte, em Apipucos, e que hoje cursa o primeiro ano de Letras na Universidade Rural de Pernambuco.

Daniel Francisco dos Santos, 18 anos, ex-aluno da Escola Municipal Nilo Pereira, em Casa Amarela, lembra dos debates realizados nas escolas ocupadas. Pela primeira vez os jovens puderam discutir abertamente sobre homofobia, racismo, direitos humanos e democracia de igual para igual. “Se todas as escolas fizessem discussões como as que realizamos durantes as ocupações teria muita mais pessoas com senso crítico na sociedade. A ocupação foi uma aula de cidadania”.

“Nós questionamos a PEC do teto de gastos e a reforma do Ensino Médio porque eram medidas que iriam prejudicar o ensino público no Brasil. Iam nos prejudicar diretamente. Mas também questionamos o modelo de ensino que temos. Um modelo conteudista e alienante. Em que os professores só despejam conteúdo e mais conteúdo e não abrem espaço para questionamentos e reflexões. Uma educação podre”, critica Mylena Thaís de Amorim, 18 anos, ex-aluna do Ginásio Pernambucano

O documentário será dividido em cinco partes. Na primeira, os estudantes contam como as ocupações tiveram início. Os códigos que utilizaram para manter a informação sob sigilo, a passagem nas salas de aula explicando os impactos da PEC e da reforma do Ensino Médio, as discussões de bastidores para atrair o apoio dos indecisos, as votações em assembleias que aprovaram as ocupações e o corre-corre do dia decisivo.

COMO TUDO COMEÇOU

Vão tomar a tela aí, por exemplo, as imagens do trancaço da Avenida Agamenon Magalhães, a principal via do Recife, pelos alunos e alunas da Escola Barbosa Lima. “Foi emocionante. Todo mundo foi chegando, chegando e aconteceu. Ali a gente viu a nossa força”, conta Graziele Maria, 18 anos. “Acho importante contar essa história porque foi um grande marco e as ocupações não foram muito mostradas pelas mídias grandes. Todos precisam saber que nós secundaristas também temos capacidade de fazer um grande ato, que não são só os universitários. Que a gente pode sim mobilizar”.

Também estará registrada a surpresa entre os estudantes de escolas públicas do Recife quando se espalhou a notícia da ocupação da Escola Municipal Nilo Pereira, de ensino fundamental. “A gente correu para lá para ver. Eram crianças. Muito jovens. Já organizadas e ocupando. Isso nos deu uma força tremenda. Pensamos ‘Meu Deus, a gente não pode desistir. Se eles estão lá ocupando, todos temos que ser fortes e resistir também’”, conta Maria Catarina.

REPRESSÃO

A segunda parte do documentário trará depoimentos sobre a repressão. O fato de serem adolescentes ocupando pacificamente e de forma organizada as escolas públicas não arrefeceu o ímpeto repressor do Governo do Estado.

Em quase todas as escolas, depois da pressão inicial dos diretores e gerentes da Secretaria de Educação, os jovens tiveram que enfrentar os homens fardados e armados da Polícia Militar de Pernambuco e até do Exército brasileiro. Quem devia garantir a segurança, levou medo e ameaças aos jovens secundaristas que exerciam o seu direito de livre manifestação.

Foi assim no dia 8 de novembro de 2016 no Erem Cândido Duarte, em Apipucos. Foi assim também no dia 10 de novembro na Escola Estadual Sebastião Leme, no Ibura. No primeiro caso, a PM cercou a escola na manhã do dia seguinte à ocupação e proibiu os alunos que queriam aderir ao movimento de entrar ou ajudar os colegas com mantimentos. Foi preciso horas de negociação para que deixassem o local. No segundo caso, quatro ex-alunos da escola Sebastião Leme foram agredidos e detidos por desacato pelos policiais. Depois do constrangimento de serem encaminhados à delegacia, acabaram liberados sem acusações.

O caso mais emblemático, no entanto, aconteceu no dia 16 de dezembro na Escola Municipal Nilo Pereira. Pelo menos oito veículos do Exército ocuparam a rua na frente da escola e dezenas de militares armados montaram guarda. Depois de horas de cerco, os militares só saíram com a chegada ao local de advogados, professores e mães que vieram em socorro dos estudantes da ocupação.

A principal suspeita é a de que o Exército decidiu intervir para desmobilizar reunião que estava marcada naquela tarde na Nilo com representantes dos Ocupas das outras escolas engajadas nos protestos contra a Reforma do Ensino Médio e a PEC 55. Não adiantou. Mesmo cercados e intimidados, os garotos e garotas fizeram o Encontrão.

DEMOCRACIA E RESPEITO

Na terceira etapa, o documentário vai abordar a organização horizontal dos grupos estudantis e como eles construíram suas pautas específicas de reivindicação. Vitória Magalhães, 16 anos, aluna da Escola Barbosa Lima, recorda com entusiasmo de como as decisões eram tomadas coletivamente, fruto sempre de debate e votações internas A divisão igualitária das tarefas também foi uma característica dos movimentos que todos lembram. “Não tinha isso de atividade de meninos e atividade de meninas. Todos faziam tudo. De cuidar da segurança, a lavar os banheiros e preparar a comida”, revela.

O cuidado com o patrimônio das escolas foi uma das principais marcas das ocupações secundaristas em Pernambuco. Nas páginas no facebook criadas para registrar o dia a dia de cada ocupação as imagens mais recorrentes são de jovens lavando os banheiros, consertando portões e cadeiras, pitando as salas e corredores, restaurando o piso. Para surpresa de muitos alunos, ao terem acesso pela primeira vez a áreas que eram mantidas isoladas, eles descobriram livros didáticos, comida, computadores, equipamentos esportivos e musicais que nunca tinham sido utilizados.

REDE DE SOLIDARIEDADE

A rede de solidariedade que se formou em torno das ocupações secundaristas é o quarto tema a ser abordado no documentário. Professores, advogados, estudantes universitários, jornalistas, pais e mães. Foi essa rede que funcionou nos momentos mais tensos das ocupações quando os jovens precisaram de apoio jurídico, conforto psicológico e visibilidade para as pressões que sofreram e para as suas reivindicações.

Soraia Carvalho Ocupas

Soraia Carvalho coordena projeto de extensão do documentário

Renato Saldanha, professor no Centro Acadêmico de Vitória de Santo Antão, da UFPE, foi um dos professores que se engajou no apoio aos estudantes secundaristas e concedeu entrevista para o filme. “Alguns de nós, professores, apoiamos o movimento, mas o protagonismo sempre foi dos estudantes. Acho que essa luta estudantil foi o elemento mais dinâmico da conjuntura nacional pós-golpe, ponta de lança contra o governo Temer. Então quando acaba o movimento a tendência é que isso se disperse e fique tudo só na memória individual. A ideia do projeto é transformar isso em registro, em memória coletiva que possa sintetizar um pouco do que foi essa luta, mas também iluminar outros processos que podem ter novos desdobramentos”.

VISIBILIDADE

A professora de Serviço Social da UFPE, Soraia de Carvalho, vê o documentário como um projeto contra a invisibilização da luta dos estudantes secundaristas. “Porque quando eles voltam das ocupações para as escolas a tendência dos gestores e do poder público é de apagar essa história. Falar que não aconteceu, ou que não foi importante ou que não mudou nada. Então isso de eles se juntarem, contarem como tudo aconteceu, tem muita importância”.

Essa invisibilização das ocupações foi sentida na pele por muitos dos alunos dos Ocupas quando as aulas foram retomadas. Na Escola Técnica Estadual Professor Lucilo Ávila Pessoa, na Avenida Caxangá, todos os grafites produzidos durante a ocupação foram apagados pela direção. “Eu sofri muito quando vi aquilo. Não acreditei. Tinha muita mensagem importante escrita ali. Era o registro da nossa história e foi apagado. Colocaram até azulejos nas paredes”, lamenta Caio Martins da Silva Bandeira, 16 anos.

Para a professora Soraia, o “fazer o filme” tem também possibilitado uma auto-reflexão dos jovens. “Tem alguns que já são estudantes universitários e você os vê trazendo essa reflexão. Então é um processo bem interessante não só de contar como de refletir sobre. E também são os jovens que a gente vê nas outras manifestações. Ao longo desse ano todo, nesses atos de rua, a gente tem sempre encontrado eles, então essa experiência foi marcante e desencadeou um processo que não se encerrou ali”.

Carol e Mateus Ocupas

Estudantes universitários, Ana Caroline e Mateus fazem parte da equipe de produção e filmagem do documentário

PRODUÇÃO COLABORATIVA

A produção do filme está sendo feita de forma colaborativa. Estudante de Comunicação Social, Rádio, TV e Internet da UFPE, Ana Caroline, 20 anos, tem executado multitarefas. “Eu tô ajudando um pouco na direção de fotografia, tô filmando, tô fazendo imagens de apoio também e durante a gravação é muito tocante ouvir dos jovens como foi a ocupação, como eles encararam de frente seus medos para lutar por uma coisa que é deles, não é? A visão deles mudando sobre saber que a escola é também espaço do aluno e não só da gestão”.

Aluno de Psicologia, Mateus Alves, 21 anos, divide com a estudante do curso de História Rebeca Pereira Rodrigues, 22 anos, a produção executiva do documentário. Mateus tinha vivido de perto a experiência de ocupar a universidade e, agora, tem a oportunidade de conhecer também a dinâmica das ocupações nas escolas secundaristas. “Nosso papel é contribuir para que a história deles seja contada. Porque tem uma disputa aí de discurso da questão que a gente mesmo enfrentou na universidade, do que é falado pela grande mídia, pelos grandes veículos de informação de massa, e o que de fato aconteceu. De dar às ocupações secundaristas sua devida importância política”, argumenta.

DE OLHO NO FUTURO

Na última parte do documentário, os estudantes fazem um balanço do movimento. Apesar da aprovação da PEC do corte de gastos e da Reforma do Ensino Médio, houve ganhos pontuais do ponto de vista das reivindicações locais de melhoria na infraestrutura das escolas: climatização de salas de aula, reforma de banheiros, ampliação de horário para uso da biblioteca, instalação de bebedouros, plantio de hortas comunitárias. Mas a verdade é que muitos dos compromissos assumidos pelos diretores nunca saiu do papel.

A maior vitória apontada pelos jovens ouvidos no documentário, no entanto, foi a do fortalecimento do senso crítico e da capacidade de mobilização política própria, sem atrelamento a partidos políticos e outras instâncias institucionais. Foi a partir das ocupações que muitas escolas formaram pela primeira vez seus grêmios estudantis e seus alunos se sentem hoje mais preparados e unidos para cobrar uma gestão mais democrática de suas direções.

Como dizia o cartaz afixado na entrada da então ocupada Escola Martins Júnior, na Torre: “Quem acredita que a juventude está perdida é porque não visitou uma escola ocupada”.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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