“Ser contemporâneo é ser jovem?”, pergunta Kátia Mesel, a primeira cineasta mulher de PE

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A sessão esvaziada em um dia de caos do transporte público, por causa da paralisação dos caminhoneiros, reuniu pouco mais de 20 pessoas no cinema da Fundação Joaquim Nabuco, bairro do Derby, no último sábado (26). Estava em cartaz “O Rochedo e a Estrela”, da cineasta pernambucana Kátia Mesel, um resgate da presença judaica no estado durante o período holandês. Após a exibição, os que ainda permaneceram na plateia conversaram com a diretora do longa. Talvez, entre os resistentes, poucos tenham capturado um sentido maior naquela tarde incomum. Estava ali, ao alcance das perguntas de qualquer jovem amante da sétima arte, a primeira mulher a fazer cinema em Pernambuco. Uma pioneira que depois de 50 anos de carreira completados este ano, continua suficientemente ativa para reivindicar seu lugar na história do cinematografia brasileira.

E se é preciso reivindicar é porque, de tantas maneiras, sua obra tem sido esquecida. Justamente ela, que sempre lutou pela preservação da memória cultural de seu estado. “Muitas vezes preciso lembrar às pessoas da minha história, que desbravei caminhos. Fui, por exemplo, a primeira mulher a conquistar um edital nacional de cinema no país”, diz, mantendo, aos 70 anos, a mesma avidez que a conduziu para a vanguarda do audiovisual brasileiro.

Na década de 60, quando ela começou a filmar com uma câmera 8mm que ganhou de presente do pai, o cinema era um campo inexplorado. Coisa de americano. “Tudo era difícil. Até para comprar o negativo do equipamento era preciso recorrer a São Paulo. Revelar o filme, então, só no Panamá!”, lembra. Mas ela nunca ficou refém do não. “Nunca me enxerguei de forma diferente porque era uma mulher fazendo cinema, eu era apenas gente fazendo cinema”, reflete.

Quando o Super 8 surgiu, Kátia, na época estudante de arquitetura, já tinha tomado gosto pelo audiovisual. Viajou para o exterior, onde fez workshops de filmagem. E, nos rudimentos do Super-8, aprimorou sua técnica. “O Super-8 democratizou a possibilidade de fazer cinema”, lembra. Mergulhou de vez no universo dos curtas-metragens, que representam boa parte das mais de 300 produções de sua filmografia.

Até 1984, porém, nenhuma mulher cineasta havia conquistado um edital de cinema nacional. “Só o pessoal do Rio de Janeiro e de São Paulo ganhava os editais. A gente cobrava o espaço para os nordestinos. Então, em uma reunião da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas) um diretor disse: – vocês não ganham porque não sabem nem apresentar um projeto. Eu pensei, ora, eu sei apresentar um projeto!”.

Tanto sabia que apresentou e ganhou o financiamento. O filme “Oh de Casa” é o resultado desse feito, uma obra baseada em escritos de Gilberto Freyre, que guarda preciosidades como algumas das únicas imagens em película do escritor ainda vivo. Ela também foi a primeira mulher a participar de um Festival de Cinema Nacional. “Eu fui fazendo. Não ficava pensando sobre a relevância disso, só fui descobrir depois”, comenta.

Sem olhar para trás, Kátia seguiu produzindo com toda a avidez característica à sua figura vibrante. Outros títulos como “Recife de dentro pra fora”, uma narrativa poética sobre o Rio Capibaribe, que conquistou mais de 20 prêmios, fazem parte de seu acervo. Em 1988, ela abriu a Arrecife Produções, a primeira produtora de cinema local. Fez história novamente privilegiando montagens culturais em um mercado então dominado pelas produtoras de vídeo para publicidade. Durante três anos, a Arrecifes produziu documentários para o programa “Pernambucano da Gema” na TVPE. Esse material, entretanto, nunca foi digitalizado por falta de financiamento.

Aliás, a traição das mídias digitais, que ameaça produções analógicas à obsolescência, é um adversário à preservação de sua produção. Não porque ela tenha qualquer tipo de resistência a novas linguagens, pelo contrário. “Não tenho medo das novas mídias, elas não são um desafio para mim”, diz, “mas se coloco meus filmes no YouTube, como vou comercializá-los depois? São obras que custaram muito para serem produzidas, não somente dinheiro mas anos de trabalho”, aponta. Para produzir “O Rochedo e a Estrela”,  seu único longa, por exemplo, a diretora dedicou dez anos de sua carreira – quatro deles apenas de pesquisa. Percorreu continentes para levantar documentos históricos em uma árdua imersão por bibliotecas, sinagogas e arquivos públicos. Apesar disso, o projeto para a confecção de mil cópias do filme, que seriam distribuídas em escolas, não foi aprovado para receber incentivos do Funcultura.

“É uma dificuldade imensa para aprovar projetos. Meu acervo tem imagens raras de vários artistas pernambucanos como Bajado e Ana das Carrancas. Eu tenho essa memória do estado, mas não consigo digitalizar por falta de financiamento”, revela. Essas dificuldades são atualmente os maiores entraves à sua produção.  “As pessoas que julgam os editais nacionais muitas vezes desconhecem a cultura pernambucana. E outras possibilidades de levantamento de recursos por aqui também são escassas. Em Pernambuco não há tantas empresas grandes com capacidade de patrocínio como no eixo Rio-São Paulo. Até bem pouco tempo, a gente não tinha nem empresas especializadas em captação de recursos aqui”, aponta.

Além da falta de recursos, que já obrigou a cineasta a pagar do próprio bolso várias vezes despesas com produções e até viagens para representar o cinema brasileiro em festivais do exterior, ainda há outras injustiças. Uma delas é o ranking da Ancine (Agência Nacional de Cinema). “O ranking dá mais pontos a quem tem mais longas. Curta-metragistas, como eu, são prejudicados, embora curtas hoje sejam vistos como uma coisa cult. O problema é que essa lista influencia para a disputa de editais”, explica. “No fim, isso privilegia as grandes produtoras. A gente fica refém desses comercialismos. É um cenário no qual um filme sobre Edir Macedo está como um dos maiores públicos do cinema nacional, porque eles contam as exibições nas igrejas”, lamenta.

Homenageada este ano pelo Cine PE, atualmente a cineasta se dedica ao projeto de um filme que será rodado em Fernando de Noronha, para o qual ela conseguiu recursos de um edital focado em cineastas mulheres. Sobre a participação no festival, que visibiliza novos diretores, Kátia se diz uma entusiasta das novas gerações, sobretudo em Pernambuco. Ela se orgulha de nomes como, por exemplo, o diretor pernambucano Camilo Cavalcanti, que chegou a ser seu estagiário. “Acho que temos cineastas excelentes aqui, inclusive muitas mulheres”, comemora.

Para a cineasta, contudo, não há uma barreira temporal entre a sua obra e a produção de cinema atual. “Outro dia conheci uma menina que estava conversando com cineastas mulheres brasileiras. Mas ela disse que não falaria comigo porque só estava ouvindo as contemporâneas. Ora, eu não estou fazendo tricô, com todo respeito a quem trabalha com isso, estou fazendo cinema. Isso não faz de mim uma contemporânea ou é preciso também ser jovem?”, questiona.

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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