Tese de doutorado fortalece tombamento do Estelita

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O argumento de que o Cais José Estelita precisa ser preservado e que sua destinação deve ser melhor discutida ganhou uma chancela importante no final de agosto. O Estelita foi objeto da tese “Paisagem-postal: a imagem e a palavra na compreensão de um Recife urbano”, que recebeu da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) o prêmio de melhor tese de Doutorado na área de Planejamento Urbano e Regional/demografia.

O trabalho foi realizado pela professora Lúcia Maria de Siqueira Cavalcanti Veras, do Programa de Pós-Graduação de Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O trabalho também já havia sido reconhecido como melhor tese defendida em 2014, em sua área, pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR). O trabalho pode fortalecer o argumento do tombamento, ainda em análise pelo IPHAN. No caso, um tombamento muito específico e especial: a paisagem.

A pesquisadora convidou diversos profissionais liberais a fazerem intervenções gráficas nas fotos que abarcam da área do Cais José Estelia até a altura das Torres Gêmeas. 70,5% dos 78 entrevistados (entre arquitetos, pintores, fotógrafos, cineastas, empresários, moradores etc.) querem o Recife do século XX, que respeite o skyline (a linha do céu) do local; 74,5% ressaltam a importância da relação entre água e céu; 60% apontam a importância da borda do Cais como área pública. Os entrevistados também julgaram a paisagem do Cais com as torres gêmeas como a imagem que menos identifica o Recife.

A imagem abaixo, retirada da tese, é uma das que expressa esses resultados.

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Reprodução

 A reflexão que a tese da professora Lúcia Veras traz é que pelo seu valor histórico, os monumentos dos bairros de São José formam uma “paisagem-postal” – da qual não participam os edifícios modernos; também fazem parte dessa “paisagem-postal” as trocas, passagens, interações, relações que acontecem no âmbito do comércio popular daqueles bairros – ainda que não haja planejamento para a área e independentemente dos modernos edifícios.

É interessante contrastar essa conclusão às recentes iniciativas da Prefeitura da Cidade do Recife, que já sinalizou o interesse em retirar os comerciantes do entorno do Mercado de São José – uma das áreas que é conhecida desde o nascimento da cidade como local de comércio de rua e que formou um viés da identidade urbana da capital pernambucana.

Uma outra conclusão a que chegou o trabalho é que, enquanto entre os arquitetos há certa incompreensão das noções de “paisagem” e de “paisagem urbana”, expressa na legislação que rege os destinos da cidade, entre os cineastas, o olhar privilegiado que justapõe “imagens” e “palavras”, revela, em découpages cinematográficas, a forte referência de que essa “paisagem-postal” – São José e Santo Antônio – encarna a história da cidade. Por fim, o trabalho conclui que “Aos arquitetos cabe extrapolar os limites da legislação e inserir a compreensão de paisagem no ato de pensar e projetar a cidade.”

Lúcia Veras ainda identificou que o Projeto Novo Recife esconde a real altura das torres e além disso, em seu material de publicidade, introduz uma linha de morro inexistente, que atenua o seu impacto visual. Lúcia Veras comparou o material publicitário com o real gabarito das torres, que pode ser visto nas imagens abaixo.

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Na primeira imagem, produzida pela pesquisadora, as torres são colocadas em seus reais tamanhos, sem a linha de morro inserida na segunda imagem (que realmente não existe), criada pelo Consórcio Novo Recife. “Do século XVII ao início do século XXI, o Recife manteve no conjunto da paisagem de seu centro histórico o mesmo perfil que caracterizava o seu horizonte. O moderno encostado ao antigo submetia-se à ordem do visível, definido por um gabarito só quebrado em 2005 com a construção dos dois altos e modernos edifícios. Esta era uma legítima Paisagem-postal recifense”, afirma a pesquisadora.

O impacto visual produzido pelo Projeto Novo Recife traz prejuízo à memória coletiva da cidade. “É tão danoso e estranho que torna toda a cidade preexistente rodapé dos novos empreendimentos. Com esta verticalização, achata-se tudo que está por trás e cria-se uma outra referência que não é a do velho Recife, é além-mar, além do nosso horizonte. Quando digo isso me refiro a um horizonte vertical ob-scenus, que significa a criação de um’ lugar fora do lugar’, descolado da paisagem que o acolhe, como se esta fatia de solo do ‘Novo Recife’ pertencesse a outros territórios”.

Ventilação

Uma outra pesquisa (dessa vez de mestrado) intitulada “Influência da forma urbana na ventilação natural: um estudo de caso no Cais José Estelita, Recife”, defendida em maio de 2014 por Joana Pack Sousa, teve como objetivo principal analisar as modificações que ocorrem na ventilação natural a partir da alteração da forma urbana. O trabalho considerou especificamente as implicações do adensamento construtivo sobre a ventilação urbana no bairro de São José (Recife), onde está localizado o Cais José Estelita.

Com base em seis modelos de ocupação urbana do Cais, a pesquisadora concluiu, principalmente, que os edifícios-garagem previstos no projeto Novo Recife formam uma grande barreira contínua ao nível do pedestre, reduzindo a taxa de renovação do ar e criando, consequentemente, um calor excessivo e um grande acúmulo de fragmentos poluidores. Ou seja, gera-se mais calor num ar mais poluído. Além disso, a grande barreira construída faz com que o vento seja canalizado para as ruas transversais. Por conta disso, nessas áreas, o pedestre é submetido a ruas desconfortáveis – não porque o calçamento está esburacado. É que o vento nessas ruas será muito forte, além do que já verificado em ruas contíguas dos pontos mais adensados do bairro de Boa Viagem, por exemplo.

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Para chegar a esses resultados, a pesquisa passou por duas etapas. Primeiramente, foi feito um estudo bibliográfico sobre urbanismo bioclimático, sustentabilidade, forma urbana e ventilação natural no meio urbano. Em seguida, foi executada uma pesquisa experimental com simulação computacional dos seis modelos de ocupação urbana do Cais José Estelita para entender quais seriam os mais propícios e benéficos ao conforto térmico e à ventilação da cidade. Esses modelos apresentaram variação dos afastamentos e da altura dos edifícios. No modelo que permite melhor ventilação, os prédios são mais afastados um do outro. Além disso, a simulação indica ainda a necessidade de afastamentos verticais, ou seja, com pilotis e pavimentos vazados.

A imagem seguinte resume o trabalho da pesquisadora Joana Pack Sousa:

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Sobre o autor

Jornalista formado, com mestrado e doutorado em Sociologia. Pesquisa formas periféricas de apropriação tecnológica e suas possíveis contribuições a movimentos sociais emancipadores na periferia do capitalismo tardio. Também se interessa pelas discussões atuais em torno do estatuto da propriedade intelectual, segurança em rede, privacidade e cidadania.

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