Vencedor da eleição para reitor da UFPE, Alfredo Gomes acredita que MEC acatará resultado

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Vencedor do segundo turno das eleições para reitor da UFPE, o professor Alfredo Macedo Gomes acredita que o Ministério da Educação (MEC) seguirá o resultado da consulta à comunidade acadêmica e escolherá o seu nome junto ao do vice-reitor eleito Moacyr Cunha de Araújo Filho para ocupar a direção da universidade. O nome de Alfredo vai encabeçar a lista tríplice que será encaminhada pelo Conselho Universitário da UFPE ao Ministério da Educação. Cabe ao governo federal dar a palavra final.

Nesta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) rompeu tradição mantida desde o início do governo Lula de nomear o primeiro colocado da lista, escolhendo o professor Luiz Fernando Rezende, segundo colocado na eleição interna, para assumir a reitoria da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). O primeiro da lista tríplice, Fábio Cesar da Fonseca havia sido filiado ao PT de 1995 a 2005 e ao PSOL de 2007 a 2018.

A decisão do pleito na UFPE aconteceu no último dia 12, após um processo eleitoral em que o combate aos cortes nos orçamentos das instituições federais de ensino, anunciados pelo Governo Federal em maio desse ano, tomaram conta da pauta da educação no país. Na segunda e última etapa da disputa, Alfredo e Moacyr venceram com 31,26% dos votos a chapa apoiada oficialmente pela atual gestão da UFPE, composta pelos professores Jeronymo José Libonati e José Luiz de Lima Filho que obtiveram 26,99%.

Alfredo Macedo Gomes é diretor do Centro de Educação (CE) da universidade, e professor do Departamento de Fundamentos Sócio-filosóficos da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu). É graduado em psicologia pela UFPE, doutor em Educação (PhD) pela University of Bristol (2000), do Reino Unido.  Também em Bristol, fez estágio pós-doutoral junto ao Centre for Globalization, Socialities and Education.

Em entrevista à Marco Zero, Alfredo se posicionou sobre algumas questões políticas que interferem diretamente no funcionamento das universidades públicas brasileiras e falou sobre suas principais propostas de gestão.

Você e Moacyr venceram a consulta, mas os nomes ainda serão avaliados pelo governo. Qual a expectativa?

Acho que nós vamos ser indicados sim. Nós fomos escolhidos pela comunidade, foi um processo amplo e legítimo, um processo bastante demorado. E agora o Conselho Universitário deve então encaminhar a lista tríplice no próximo mês. A minha expectativa e de Moacyr, que é meu vice, assim como de todo movimento da universidade é que o governo indique nosso nome para reitor e vice-reitor e a gente possa, por tanto, honrar os compromissos que fizemos durante o processo de consulta.

Sobre cortes nos orçamentos das universidades, como vai ser o diálogo com o Ministério da Educação?
É importante destacar a importância de não haver nenhum tipo de corte nos recursos das universidades federais. Nós conseguimos por meio de uma ampla mobilização nacional impedir com que os cortes efetivamente se materializem, tanto é que o governo voltou atrás e tem negociado com as universidades. Inclusive, liberou recursos semana passada e isso tem sido importante. Destacamos que nós temos que conversar amplamente com todas as universidades e apresentar uma pauta unificada nacionalmente, porque essa é a pauta mais importante da universidade pública federal brasileira. Uma pauta única em defesa da universidade pública, em defesa do financiamento estatal das universidades. Isso é fundamental no contexto em que estamos vivendo. É lutar e resistir para que nenhum tipo de corte aconteça nos recursos das universidades federais.

Na carta programa da sua chapa se fala muito sobre diálogo. Como vocês pretendem estabelecer o diálogo com a comunidade acadêmica? Quais serão os mecanismos utilizados?
Isso é um pressuposto não só brasileiro, mas um pressuposto amplo internacionalmente falando. As universidades precisam de liberdade e democracia para fazer as suas funções sociais. O ensino, a pesquisa, a extensão, dentre outras atividades. Precisamos fortalecer a democracia na universidade que é uma forma de fortalecer o próprio espírito de pesquisa e de ensino. Internamente, nós precisamos, sim, fortalecer a democracia da universidade e constituir espaços de diálogos permanentes com os estudantes, técnicos e professores. Nós temos indicados na nossa carta-programa vários mecanismos e iremos realizar um amplo diálogo. Não é um diálogo pelo diálogo, mas um processo de fortalecimento da universidade e também para a realização de uma gestão efetivamente democrática. Para você planejar, você precisa avaliar e monitorar. Ao mesmo tempo, construir a partir dos estudantes e professores uma relação de confiança e legitimidade na condução dos problemas tem impactado no dia-a-dia da nossa população não só no campus de Recife, mas também em Vitória de Santo Antão e Caruaru.

Crédito: MUDE/Divulgação

Crédito: MUDE/Divulgação

A sua chapa se chama MUDE-Movimento pela União, Democracia e Excelência. Qual a sua avaliação sobre a situação atual da UFPE nestes três pontos?
O MUDE tem um duplo sentido nesse processo de campanha e de pós-campanha. Inicialmente, o MUDE tem o objetivo de promover mudanças na gestão da nossa universidade. Temos dito que vamos redefinir o modelo de gestão, colocando em prática um modelo de gestão dialógica e participativa. Com capacidade de resolver os problemas que a universidade precisa mudar. A segunda dimensão é a da união, temos falado sobre a necessidade de unificar os três seguimentos em defesa da universidade pública, gratuita e financiada com recursos estatais. Uma universidade diversa, plural, laica e inclusiva. É um movimento amplo de unificação de estudantes, professores e técnicos não apenas localmente, mas que também pretende dialogar e liderar mudanças com a comunidade nacional em torno da universidade pública. Em relação à democracia, nós a temos como valor central da organização da nossa universidade e sociedade. Precisamos que esse valor se torne uma prática constante de uma universidade de práticas republicanas, transparentes e que correspondam às expectativas e aos projetos de uma universidade forte e criativa. E a excelência é uma questão central, porque toda universidade que recebe este nome precisa discutir a questão da excelência. Nós temos colocado como uma questão multireferenciada. Não apenas dos programas que já são excelentes, mas no sentido da excelência da graduação, das pós-graduações e da pesquisa. Temos que resolver os problemas de cursos que não conseguem fazer com que os estudantes concluam o curso. Queremos fazer com que os alunos concluam o curso e de forma boa.

Nos debates durante as eleições da UFPE, um assunto recorrente foi a internacionalização da universidade. Qual o plano na sua gestão?
A universidade tem caminhado para a internacionalização e nós precisamos fortalecer as iniciativas existentes e redimensionar a nossa estrutura para dar um salto em um processo de internacionalização da universidade. Nós temos os institutos Latino-america, África, Ásia e o Instituto do Futuro. Vamos fortalecer esses institutos como forma de articular a internacionalização não apenas com a Europa ou com os Estados Unidos, mas de forma mais global no contexto atual das universidades. A própria ideia de universidade nasce da ideia de ser cosmopolitana, uma instituição que está em todos os lugares para universalizar uma prática de conhecimento e isso é fundamental. Nós precisamos fortalecer isso dentro da universidade. Temos destacado a importância de criar um birô de recepção e acomodação de estudantes e professores estrangeiros dentro da universidade. Criar um centro de línguas, criar condições para que nossos estudantes possam estudar diferentes idiomas e também prover cursos de português para quem vem à universidade para estudar. São iniciativas que a gente vai aprofundar ao longo de uma reunião que iremos realizar no final de novembro. Uma reunião geral de planejamento da universidade para que a gente possa traçar quais são as metas de curto, médio e longo prazo nas diversas áreas no ensino da graduação, internacionalização e da pesquisa. É inovação, infraestrutura e outras coisas que nós vamos nos dedicar para implantar na universidade no próximo ano.

Você fala sobre não se aproximar apenas da Europa e dos EUA, mas isso é uma postura que diverge um pouco das aproximações que o país tem feito politicamente no atual governo. Vemos uma aproximação muito maior do Brasil com os EUA do que com países da África, Ásia, ou com a China e os países da América Latina. Como você acredita que vai acontecer?
A universidade é uma instituição que lida essencialmente com conhecimento. Nós temos que fazer articulação entre pesquisadores, professores, técnicos e estudantes do mundo todo. Relações em torno da produção do conhecimento com a África. A África é um ponto fundamental na questão da geopolítica global. Portanto, o Instituto África, que já existe e vem trabalhando nessa perspectiva, nós precisamos apoiar e fazer com que o instituto fortaleça o conjunto de pesquisas que existem em diferentes áreas de ciências humanas, da tecnologia e saúde com a África. Isso tem um impacto para o Brasil e para os países de África envolvidos nesse processo. Assim como a América Latina e Ásia. O processo de produção do conhecimento é muito diverso, não podemos centralizar. O importante é fazer pesquisas de qualidade e que tenham impacto na vida das populações dos diferentes países envolvidos. A universidade goza de autonomia didático-científica e isso significa que essa é uma questão que diz respeito como a sua comunidade, por meio de suas escolhas e seus projetos, fazem esse tipo de articulação.

Crédito: MUDE/Divulgação

Crédito: MUDE/Divulgação

Sobre o acesso ao restaurante do campus da UFPE que é restrito, uma maior abrangência tem sido reivindicada pelos alunos. Talvez seja uma situação a ser resolvida pela atual gestão. Mas, caso não seja resolvida, como vocês vão agir?
“A gestão atual vai até meados de outubro, tem muito trabalho pela frente. O ideal seria resolver essa situação em termos de uma licitação que atenda à demanda estudantil. Não apenas aos estudantes que estão isentos de pagamento. Fazer com que o processo de licitação se dê e resolva essa questão e possa atender. De qualquer forma, estamos acompanhando as iniciativas e vamos acompanhar posteriormente e nosso papel é assim que assumir procurar, com a maior brevidade possível, colocar o restaurante universitário para funcionar atendendo a comunidade estudantil de maneira geral. E tomar a iniciativa de criar condições para implantar dois restaurantes menores na universidade. Um ficaria na área 2 e outro na área de saúde. Nós temos esse compromisso com o campus de Recife e vamos trabalhar para construir um restaurante escola no Centro Acadêmico de Vitória de Santo Antão. A política de permanência dos estudantes é uma prioridade e nós vamos nos dedicar para criar condições de permanência dos estudantes na universidade. Envolve o restaurante universitário, mas também envolve iniciativas que nós já temos conversado com a população estudantil da UFPE no sentido de fazer o planejamento e tentar resolver isso com maior brevidade possível”

As cotas sociais e raciais tem sido alvo de polêmicas sobre as suas permanências. Faz parte da defesa da democracia, defender as cotas?
“É importante defender políticas públicas que foram implementadas e que tiveram uma enorme repercussão dentro das universidades federais, especialmente nós tivemos um ciclo de expansão das universidades por volta dos anos 2005. Isso foi aprofundado com o processo de interiorização das universidades em todo Brasil e depois nós tivemos um processo de democratização que veio pela introdução do sistema de cotas. Isso permitiu com que em todos nossos cursos e turnos tivéssemos 50% de estudantes provenientes de escolas públicas. Mudou o perfil socioeconômico da população estudantil da universidade. É fundamental persistir com essas políticas para que nós caminhemos no sentido da democratização do acesso, garantindo que essa política permaneça por um longo tempo nas universidades. Para que as universidades tenham uma projeção de democratização como um de seus pilares em termos de sua organização e seu funcionamento. Vamos juntos às demais universidades federais brasileiras e também os institutos federais, fazer a defesa dessa política importante”

O combate à censura dentro da universidade também faz parte?
“Temos que ter a liberdade de cátedra, liberdade de ensinar, pesquisar e criar. Isso está na constituição federal de 1988. E ela deixa muito claro quais são os princípios e os pilares da universidade pública. Eu posso retomar com você o Artigo 207 da constituição que garante a autonomia das universidades. É fundamental para as universidades continuarem fortes e constantes e nisso temos que persistir. A outra questão fundamental é o financiamento estatal da universidade. Temos como principal fonte de financiamento os recursos estatais conforme a constituição, que diz que 18% dos recursos de um conjunto de impostos são para financiar as universidades. É dentro disso obviamente que está a democracia da universidade nós não podemos admitir nenhum tipo de perseguição e limitação do ponto de vista das formas de pensar e praticar o que a universidade vem fazendo”

Crédito:MUDE/Divulgação

Crédito: MUDE/Divulgação

No programa da sua chapa havia um ponto sobre sustentabilidade. Nesse campo, quais medidas serão tomadas?
“Temos como eixo articulador da nossa proposta a questão da qualidade de vida e do bem-estar social dentro da universidade. Isso implica em prover instalações adequadas para pesquisa e de maneira geral para o trabalho. Mas, também, começar a mudar a nossa forma de se relacionar com o meio ambiente e as condições internas da universidade. Temos defendido a tese da universidade ambientalmente responsável e sustentável. Isso é uma condição fundamental para que nós possamos dar um salto de qualidade em termos da organização da infraestrutura da universidade. A UFPE precisa fazer investimentos nas questões das energias renováveis e precisa recuperar o Riacho do Cavouco, que é um riacho que corta toda a nossa universidade. Estou chamando atenção dessas dimensões, mas tenho outras importantes. Isso se faz com o resgate do protagonismo político de articulação da nossa universidade, precisamos conversar com os organismos públicos municipais e estaduais para que apresentemos uma pauta nesse sentido. Precisamos conversar com o sistema produtivo e com os movimentos sociais. Articular iniciativas que tenham impacto direto na qualidade de vida da nossa população universitária”

A queixa sobre falta de segurança dentro do campus Recife é recorrente, principalmente as mulheres não se sentem seguras. O que vocês vão fazer sobre isso?
“Entendemos que a política de segurança da universidade tem que levar em consideração a especificidade de determinados grupos. Portanto, mulheres e a comunidade LGBT. Tem características diferentes e precisamos ter ações que possam proteger os grupos e comunidades específicas, estou chamando de maneira geral. Vamos fazer um amplo diagnóstico dessa situação e elaborar conjuntamente com a participação dos diferentes grupos as iniciativas para isso. É necessário equipar a universidade para fazer uma boa segurança e também ter iluminação ampla e adequada. Permitir com que o trânsito seja mais seguro e fazer articulação no entorno da universidade com o governo do estado e com o sistema de segurança pública estadual. Fazer políticas de capacitação com todos aqueles que fazem parte da segurança dentro da UFPE. São algumas iniciativas que já discutimos e precisamos fortalecer em debate com a comunidade”

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