Vítimas dos próprios alunos

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2774980_CreateAgifA violência contra o professor não se restringe à rede pública de ensino, mas está presente também nas escolas particulares e até mesmo nos cursos de idiomas. A idade também não se mostra uma restrição: crianças de até 6 anos já agridem seus professores

Por Carolina Seixas**

O professor brasileiro é o que mais sofre violência de seus alunos no mundo. Isso é o que aponta um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2014. De acordo com a pesquisa, 12,5% dos professores entrevistados no Brasil afirmaram ser alvo de agressões verbais ou de intimidação por seus alunos ao menos uma vez na semana. A taxa média entre os 34 países analisados é de 3,4%, mais de três vezes menor do que a nossa.

Essa realidade também se aplica ao estado de Pernambuco, e não somente nas escolas públicas, como grande parte da população tende a pensar, mas também nas instituições privadas. São vários tipos de agressão, que vão desde piadinhas maldosas e xingamentos até a própria violência física. Os professores são vítimas de assédio até mesmo nos cursos particulares de idiomas e, inclusive, por parte de crianças pequenas. Esse é o caso de André* e Roberta*, que já protagonizaram episódios do tipo nos cursinhos onde lecionam.

André conta que um de seus alunos o xingou e ameaçou cuspir em seu rosto durante uma atividade em sala de aula. A turma, cuja idade varia entre 7 e 9 anos, estava brincando de “batata quente” (uma bola é passada de mão em mão entre as crianças até que a música que está tocando pare, e então quem ficou com a bola por último tem que responder a uma pergunta). Então um menino, na sua vez de responder, se recusou a participar e saiu da brincadeira irritado. Algum tempo depois, ele começou a acusar o professor de estar roubando (na atividade) e o chamar de ladrão “da mesma laia de Dilma e Lula”. Um colega se juntou a ele dizendo “vamos cuspir na cara de Dilma!”, ao que o primeiro corrigiu: “na cara de Dilma não, na cara do teacher (professor em inglês)”.

O professor diz que conseguiu controlar a agitação dos meninos e, posteriormente, falou com a coordenação da instituição a respeito do ocorrido. O curso entrou em contato com a mãe do aluno, que disse que o comportamento agressivo do filho se repetia na escola e que ele já estava sendo acompanhado por uma psicóloga por conta disso. Apesar da explicação, André acredita que pode haver certa negligência com a criança. “Bullying ou outra violência que ele possa sofrer reflete em comportamento violento e descontrolado algumas vezes. Nunca se sabe o que aquele aluno passou para chegar ali, se dormiu bem, se teve algum desentendimento durante a semana”.

Não são todos os casos, porém, que são bem resolvidos pela instituição de ensino. Roberta, por exemplo, que também ensina idiomas, ficou decepcionada com a atitude do curso onde trabalhava. Ela foi agredida por um aluno de 6 a 8 anos de idade que também já tinha um histórico violento, sempre atacando os colegas de classe. Ele bateu na professora e tentou cuspir nela sem motivo aparente. Roberta conta que ficou tão nervosa que acabou tendo uma crise de ansiedade e indo parar num hospital depois do ocorrido.

Ela fala que ninguém na escola se pronunciou acerca do fato diante dela. “Foi tratado como se nada tivesse acontecido”, conta. Houve uma reunião entre os pais e a coordenação, mas ela, a vítima, não foi convidada. “A reunião deveria ter sido com a minha presença, pois eu fui lesada. O curso deveria tê-los processado porque não tinha sido a primeira vez que ele batia. Ele batia nos colegas toda aula”. A professora acha que a criança se comportava daquela forma para chamar a atenção da mãe, porque depois de passar algumas semanas com o pai (os pais são separados), ele parecia outra criança: calmo e amoroso com os colegas.

Mesmo não dando mais aula no mesmo cursinho, Roberta sente que mudou em relação aos alunos. “Eu mantenho o máximo de distância. Sinceramente, estou com medo de que isso possa acontecer de novo”. Ela ainda desabafa: “noto que os professores são tratados como nada, e que casos assim sempre estão acontecendo. A classe média acha que, por ter dinheiro, tem também a verdade. E nos tratam com descaso”.

Já o caso de Aline Barbosa, professora de matemática, aconteceu na escola municipal Marechal Castelo Branco, em Limoeiro (PE), na qual ela própria estudou até a 8ª série. A professora ensinava pelo Programa Mais Educação (que visa, entre outras coisas, reforçar as disciplinas de português e matemática para alunos com dificuldades). Um dos alunos, segundo ela, era bastante problemático. Estava no 6º ano e já havia passado por uma expulsão e duas transferências até chegar naquela escola, da qual só não tinha sido expulso porque a secretária de educação fizera com que ficasse.

Aline conta que depois de uma primeira semana tranquila de aula, ele começou a mostrar-se agressivo. “Eu passava diariamente por ofensas verbais. Ele me chamava de gorda quatro olhos – sou um pouco baixinha e gordinha, também uso óculos”. Após ignorar os insultos durante um tempo, a professora passou a ficar mais atenta, até que um dia, enquanto escrevia no quadro, o flagrou imitando-a de maneira ofensiva. “Levei-o até a coordenação do projeto. Após esse episódio, no mesmo dia, ele voltou para a sala com uma bola de handebol e jogou em mim enquanto eu estava passando atividade no quadro em outra turma. Ela não me acertou por muito, muito pouco. Foi uma pancada tão forte perto dos meus ouvidos que eu senti zunir. A bola voltou e ele tentou pegá-la de novo, mas outro aluno foi mais rápido, e puxou ele para fora da sala”.

Logo após o incidente, ela foi conversar com a diretoria. Entraram em contato com a mãe, mas não permitiram que Aline falasse com ela. “Aceitei não falar com a mãe dele, mas me recusei a voltar a dar aulas para o aluno”. O colégio tentou expulsá-lo mais uma vez, mas a secretária de educação, da mesma forma, não permitiu. “Eu me senti muito ameaçada. Não sabia até onde isso poderia chegar. E se ele me perseguisse fora da escola?” Aline diz que ainda se sentia importunada por ele durante o tempo que passou na escola, embora ele nunca mais tenha tentado agredi-la novamente.

Ela confessa que esperava mais apoio da escola, um maior aprofundamento. “Tentar descobrir a causa, procurar um acompanhamento psicológico. E o mesmo da parte da mãe: por ser um rapaz com histórico negativo, ela poderia tentar entender o que ocorria com ele. Ela nunca pareceu sensibilizar-se com a situação”. Aline acredita que a situação pode ter começado em casa, mas que se agravou porque “todo mundo foi ‘empurrando com a barriga’ sem tentar entender a raiz do problema. Eu mesma poderia ter tentado. Ter procurado o menino e falado com ele para entender a reação. Mas, por medo, não fiz”.

A professora fala ainda sobre as consequências da agressão. “Tudo isso me deixou muito impactada. Eu quis largar a profissão. Só não saí da escola porque precisava do salário. Mas quis desistir de tudo e procurar outra área”. Apesar de tudo, ela continuou atuando como professora e diz que seu comportamento não mudou com nenhum estudante. “Por mais que estivesse insegura e descontente com o trabalho, eu precisava ser profissional. Eram crianças e pré-adolescentes. Eu tive medo de acabar influenciando em algo. Me sentia mais alerta e medrosa, mas tentava segurar para mim. Já em casa, eu desmoronava tudo o que segurava o dia inteiro na escola. Acabei ficando impaciente, um tanto agressiva”.

Aline afirma que as coisas melhoraram depois que saiu do colégio municipal e passou a trabalhar numa rede particular. Ela ainda anda alerta à sinais de agressividade, mas se sente bem melhor. A escola oferece uma boa estrutura e os alunos são mais respeitosos. “O que acontece muito, e principalmente nas escolas públicas, é a falta de uma equipe que possa dar suporte. O professor torna-se pai e mãe dos alunos. A direção exige que sejamos psicólogos, super-heróis. Coisas que não somos e nem temos como ser. Existe, sim, a intenção de entender cada aluno em sua essência. Mas fazer isso, com várias turmas, todas lotadas, é quase impossível. E alguns casos passam despercebidos. Só chegam à visão quando ‘explodem’. De minha parte, eu queria, em resumo, apoio. Apoio para poder auxiliar e orientar os alunos, e para poder me proteger”.

A origem da violência

A doutora em psicologia Fátima Santos, que estuda a violência, explica o que pode representar esse tipo de comportamento. “Uma criança que xinga, bate, cospe, pode estar reagindo a uma violência sofrida na própria escola. Como, muitas vezes, ela não tem domínio total da linguagem, pode usar o corpo para expressar sua indignação ou sentimento de injustiça, através de comportamentos que consideramos agressivos”. Ela diz que, com frequência, os professores são autoritários ou simplesmente não procuram saber o que o aluno está pensando em seu momento de raiva, e repreendem logo a criança. “Obviamente, não estou dizendo que todo comportamento agressivo é culpa do professor, mas a violência é sempre algo relacional, e não característico de um só indivíduo. O professor deve representar a autoridade, mas isso não significa ser autoritário e, por vezes, essas coisas não são tão claras para o adulto”.

“A violência é sempre algo relacional, e não característico de um só indivíduo”

Fátima cita outros fatores que mexem com o comportamento infantil, como o desinteresse pela escola, problemas fora do ambiente escolar (nesse caso, a violência é uma tentativa de chamar a atenção e, inclusive, pedir socorro) e até mesmo quando pais ou professores não conseguem estabelecer limites com clareza. Ela exemplifica: “se uma criança corre brincando dentro de casa e esbarra sem querer em um objeto valioso, os pais brigam com ela porque ficam incomodados de ter perdido algo que era caro, mas se a criança rasga de propósito uma caixa de fósforo para agredir os pais, eles às vezes não dão importância, porque o prejuízo econômico foi pequeno. Agindo assim, eles não estão ensinando o valor moral da agressão, mas o valor econômico do objeto”.

A psicóloga acredita que, antes de tudo, quando a criança age de forma agressiva, cabe aos adultos compreender os motivos da criança e, em seguida, ensinar os limites da sua ação. “Nós, adultos, temos que aprender a ouvir de fato as crianças e tentar entender as suas motivações. Isso não significa que elas podem fazer o que quiser. Pelo contrário, a partir de suas razões, temos que ensiná-las a viver em sociedade e respeitar os limites das relações humanas e das instituições. Ao mesmo tempo, temos que ser figuras de referência para elas”.
Revertendo o quadro

Luciano Paz, secretário geral do Sinpro (Sindicato dos Professores do Estado de Pernambuco), defende que a realidade violenta enfrentada pelo professor merece intervenção do Estado. “O combate à violência nos espaços escolares não é só obrigação da escola ou da família. Trata-se de um problema de segurança pública, pois a escola reflete o que temos de marcante na sociedade como um todo: valores, conflitos, preconceitos, solidariedade e sociabilidade.”

Luciano acredita que, apesar de crítica, a situação atual é reversível. “Os adolescentes precisam de orientação. Sentimos que eles clamam por autoridade. Saber dosar essa autoridade, instruindo, fomentando valores que contribuam para a vida equilibrada em sociedade é um passo importante para se vencer essa realidade que, infelizmente, está presente nas nossas escolas”.

O presidente do SINTEPE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação em Pernambuco), Fernando Melo, também é otimista: “considero que um conjunto de fatores possa contribuir para a reversão desses casos de desrespeito para com o professor: o apoio pedagógico direcionado ao professor e ao estudante, feito nos locais de trabalho por psicopedagogos preparados para a função; além do atendimento às famílias e da construção de um ambiente de cumplicidade envolvendo toda a comunidade escolar”.

Para Heleno Araújo, diretor de assuntos educacionais do Sindicato, é a falta de educação em casa que reflete na escola e cria um sentimento de desrespeito no ambiente. “Toda a sociedade brasileira passa por um momento de afirmações e práticas de direitos humanos. Isto leva a tratar, por exemplo, os limites para as crianças em casa ao extremo de que tudo pode e/ou a criança escolhe o que e como fazer. Isto deixa o ambiente familiar confuso e muitos delegam à escola a tarefa de promover a educação doméstica e impor limites às crianças e aos jovens”.

Ele ressalta também a relevância da interação entre família e escola. “É muito importante. Pai, mãe ou responsável pelos alunos têm um papel fundamental no processo da formação cidadã das pessoas e podem contribuir muito para melhorar as relações no ambiente escolar”.

Fernando concorda: “a escola sofre, com certeza, os efeitos dos problemas sociais e familiares, da inversão de valores, da falta de segurança e da banalização da vida, dentre outros males do cotidiano. Os pais precisam compreender que, sem a parceria escola e família, pouca coisa de concreto pode ser feita”.

Ele acredita, porém, que não há uma diminuição no respeito do estudante pelo professor. “Vejo que falta respeito ao sistema (educacional), e o professor, por estar na linha de frente, acaba sofrendo as consequências. O sistema precisa ser repensado e o professor merece ser respeitado pelos governantes. Atualmente, ele é desrespeitado e desvalorizado salarialmente, sofre com a falta de condições de trabalho, tem uma jornada diária estressante, enfrenta uma carreira que não é atraente e ainda, mesmo trabalhando com o conhecimento e a formação do cidadão, não recebe formação continuada. Assim, quem primeiro desrespeita o professor é o poder público”.

Fernando conclui que “o professor precisa sair da condição de explorado e assumir o papel que lhe cabe. Mas isso só será possível com uma forte consciência política e cidadã, além de intensa luta social para o fortalecimento da profissão”.

*Nomes fictícios, pois os entrevistados preferiram não ter a identidade revelada.

 

carolina seixasPP** Carolina Seixas é recifense e estudante de jornalismo. Demora para tomar decisões e gosta de analisar as pessoas. Tenta ser simpática com todo mundo. Gosta mais de ouvir do que de falar. Mais de olhar do que de expor. Mais de pensar do que de dizer.

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