WhatsApp: denúncia contra Bolsonaro evidencia crise de mediação

0

O WhatsApp virou o centro das atenções neste segundo turno. Reportagem de capa desta quinta-feira (18) da Folha de S. Paulo afirma que empresários pagaram até R$ 12 milhões por disparos de mensagens em massa pelo aplicativo, que também pertence ao Facebook. As mensagens seriam de apoio ao candidato Jair Bolsonaro (PSL), o mais bem cotado nas pesquisas, e com ataques ao PT, partido de Fernando Haddad. A prática é ilegal, já que empresas não podem fazer doações a candidatos, o que configura o crime de caixa 2 na campanha.

Em resposta ao teor da reportagem, o PDT afirmou que vai entrar com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) questionando o resultado do primeiro turno, alegando fraude eleitoral. “Nós estamos falando aí de 20 a 30 empresários envolvidos nesse esquema. Se prender um, em menos de dez dias a gente vai ter a relação de todos os empresários que estão financiando com caixa dois uma campanha difamatória. A democracia que está em jogo”, disse Haddad hoje, antes de um evento de campanha em São Paulo.

A Folha cita as empresas Quickmobile, a Yacows, Croc Services e SMS Market. A matéria afirma que entre as empresas compradoras dos pacotes para WhatsApp está a Havan, cujo proprietário fez vários vídeos a favor do candidato do PSL.

A reportagem, assinada pela jornalista Patrícia Campos Mello, apurou que os preços variam de R$ 0,08 a R$ 0,12 por disparo de mensagem para a base própria do candidato e de R$ 0,30 a R$ 0,40 quando a base é fornecida pela agência. Segundo a reportagem, as bases de usuários são fornecidas ilegalmente por empresas de cobrança ou por funcionários de empresas telefônicas. As empresas citadas ou negaram fazer os disparos ou afirmaram fazer de acordo com a lei – com base de dados dos candidatos.

Pelas redes sociais, Jair Bolsonaro se defendeu afirmando ao site Antagonista que “eu não tenho controle se tem empresário simpático a mim fazendo isso. Eu sei que fere a legislação. Mas eu não tenho controle, não tenho como saber e tomar providência”. Bolsonaro foi além, sugerindo uma teoria da conspiração: “pode ser gente até ligada à esquerda que diz que está comigo para tentar complicar a minha vida me denunciando por abuso de poder econômico”, disse ao site.

O que o WhatsApp pode fazer para conter as fake news?

Em artigo publicado ontem no jornal norte-americano The New York Times, os pesquisadores Fabrício Benevenuto (UFMG) e Pablo Ortellado (USP) e a jornalista Cristina Tardáguila apontam três sugestões para diminuir o alcance de fake news no WhatsApp.

A primeira seria restringir as mensagens encaminhadas. Em todo o mundo, o aplicativo permite que uma mesma mensagem seja encaminhada para até 20 pessoas. Na Índia, depois que a disseminação de rumores causou linchamentos, o WhatsApp restringiu esse número para 5. Os autores do artigo defendem a mesma medida no Brasil.

A segunda seria restringir as transmissões. Pelo aplicativo, uma mensagem pode ser enviada para até 256 contatos de uma única vez. Novamente, os autores defendem a limitação deste número, já que “isso significa que um pequeno grupo coordenado pode facilmente conduzir uma campanha de desinformação em grande escala”.

A terceira seria limitar o tamanho dos grupos de WhatsApp neste tempo que falta até as eleições, sem afetar grupos já existentes. Os três autores contectaram o WhatsApp que respondeu afirmando que não haveria tempo hábil para implantar essas medidas. “Nós não concordamos: na Índia, levou apenas poucos dias para que o WhatsApp fizesse esses ajustes. O mesmo é possível no Brasil”, dizem Benevenuto, Ortellado e Tardáguila.

O alto nível de engajamento e a propagação de conteúdos de extrema-direita no WhatsApp já evidenciavam que dificilmente esses resultados estariam sendo alcançados apenas de forma orgânica. Os novos fatos mostram que, ao contrário do que se pensou quando a eleição começou a ser desenhada, há muito dinheiro envolvido na propagação de conteúdo incendiário plataforma de troca de mensagens instantâneas mais usada do Brasil.

Mas que poder é esse que o WhatsApp tem sobre a disseminação de informação? E por que os brasileiros são tão contaminados a compartilhar conteúdo sem checar? Na visão do doutorando em comunicação e pesquisador do MediaLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Faltay, a arquitetura do WhatsApp favorece esse tipo de desresponsabilização da informação que é passada adiante.

Além disso, boa parte do conteúdo que circula sem qualquer freio (ou com poucos) tem uma dimensão mais afetiva do que racional. São conteúdos de denúncias, explosivos, polêmicos, que terminam reforçando ainda mais a polarização e o conteúdo incendiário.

“O que está acontecendo é uma reconfiguração do que são os discursos públicos e privados e da circulação do debate político. Isso impõe uma grande crise de mediação, mais do que de representatividade, tanto do sistema político quanto da imprensa. As pessoas não acreditam mais na política institucional estabelecida e também não creem mais na imprensa. E aí existe um certo tipo de sedução de encontrar outras formas de mediação desse debate público”, analisa Faltay.

“A campanha de Bolsonaro foi muito boa em refutar a imprensa. Conseguiram criar um cordão de isolamento: o que é contra é sempre mentira da imprensa. Eles precisam minar as outras fontes de informação que podem ir contra o disparo do que é divulgado”, complementa.

O pesquisador acredita que, apesar da “tempestade perfeita” para se ter no Brasil um candidato como Bolsonaro, aparentemente a extrema direita conseguiu criar uma metodologia digital (assim como Steve Bannon, estrategista da campanha de Donald Trump) usando plataformas para tentar minar a democracia liberal e as instituições de representatividade de mediação.

Mas ainda assim, Faltay não acha que o WhatsApp é determinante para decidir a eleição, uma vez que, como há a dimensão da dúvida, as informações são corroboradas ou refutadas por outras redes de confiança e proximidade das pessoas, seja online ou offline, como a igreja, a escola, a família, o trabalho, os vizinhos. Ele acha que o papel do WhatsApp está sendo superdimensinado.

“Não teríamos essa campanha se não fosse o WhatsApp, mas ele não é determinante. A campanha de Bolsonaro teve, ao que tudo indica, uma enxurrada de fake news de cunho homofóbico e moralista, e teve também, ao mesmo tempo, as igrejas evangélicas reafirmando esse tipo de informação”, exemplifica.

Compartilhe:

Sobre o autor

Deixe um comentário