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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Entre a democracia e a ociosidade: os imóveis que a política ocupa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 18:24:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Anselmo Bezerra* Lembra daquele terreno baldio que só cria problemas para a vizinhança? E aquele casarão antigo, na avenida movimentada, que está há anos fechado? E se um dia, ao acordar, fossemos surpreendidos com esses imóveis ociosos ganhando algum uso? Fachadas pintadas com cores vibrantes, iluminação no entorno, gente ocupando e usando de verdade [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Anselmo Bezerra*</strong></p>



<p>Lembra daquele terreno baldio que só cria problemas para a vizinhança? E aquele casarão antigo, na avenida movimentada, que está há anos fechado?</p>



<p>E se um dia, ao acordar, fossemos surpreendidos com esses imóveis ociosos ganhando algum uso? Fachadas pintadas com cores vibrantes, iluminação no entorno, gente ocupando e usando de verdade esses espaços!</p>



<p>Pois bem, a cada ciclo eleitoral, de dois em dois anos, vemos se repetir um movimento que muda a paisagem das cidades brasileiras. As ruas são tomadas por bandeiras, pessoas usando camisetas e adereços de campanha de candidatos e candidatas dos vários partidos políticos. É a chamada “festa da democracia”! Mas já parou para observar que, junto com esse movimento, também ocorre a ocupação, pelos chamados comitês de campanha, de imóveis ociosos e/ou abandonados?</p>



<p>E o que isso tem a ver com o direito à cidade?</p>



<p>Acontece que, durante o período eleitoral, partidos e candidatos, em sua maioria, alugam espaços que não estão sendo utilizados nas cidades para montar verdadeiros “quartéis-generais” de campanha. Os recursos para tal finalidade têm origem no financiamento público de campanhas, ou seja, no dinheiro do contribuinte, que serve para financiar o aluguel temporário desses imóveis. Quanto maior o partido, maior o recurso do fundo partidário e maiores e mais bem localizados são os imóveis. Isso se replica aos postulantes a cargos majoritários e proporcionais.</p>



<p>E qual o problema disso?</p>



<p>Vou usar a “celebração” dos 25 anos da publicação da Lei 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, para refletir sobre isso.</p>



<p>Desde o ano de 2001, com a promulgação do Estatuto da Cidade, os municípios dispõem de uma série de instrumentos de gestão para diminuir os problemas urbanos. Entre esses problemas estão o abandono de imóveis, a ociosidade de construções, os espaços sem uso e a especulação imobiliária.</p>



<p>Dentre os principais instrumentos dessa lei, estão previstos mecanismos que obrigam os detentores de propriedades em áreas urbanas a dar uso aos imóveis, fazendo cumprir sua função social. Imóvel desocupado não cumpre função social da propriedade e da cidade.</p>



<p>Mas, então, por que estamos chamando a atenção para isso, uma vez que os comitês dão uso a esses espaços?</p>



<p>O problema não está no uso, mas na seletividade por períodos curtos de campanhas eleitorais, a cada dois anos. Existem imóveis que ficam ociosos por anos e só são utilizados nesse período, porque, possivelmente, o valor do aluguel pago por partidos e candidatos pode até compensar o período em que o espaço permanece ocioso, bem como existe a tão conhecida especulação imobiliária.</p>



<p>A grande contradição aqui está nos atores que participam desse processo. De um lado, proprietários que só têm em vista o arrendamento temporário dos imóveis. Do outro, atores políticos, atuais e futuros legisladores ou executivos, que são responsáveis por fazer valer a lei promulgada em 2001.</p>



<p>Se aqueles que deveriam zelar pelo cumprimento da legislação, combatendo todo tipo de desigualdade no acesso à propriedade para promover o direito à cidade, têm negligenciado historicamente a efetividade dos instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, a quem podemos confiar as decisões que poderiam reduzir os problemas urbanos e garantir uma maior justiça social?</p>



<p>Afinal, para que servem os instrumentos legais de planejamento e gestão urbana se a aplicabilidade deles parece ser bastante limitada na maior parte das cidades brasileiras?</p>



<p>Será desconhecimento dos tomadores de decisão? Ou será que apenas uma pequena parcela da população se beneficia do não cumprimento daquilo que está previsto em lei?</p>



<p>Passado o período eleitoral, como seria bom que os terrenos, prédios e imóveis utilizados nas campanhas ganhassem usos diversos. Novos locais de moradia, espaços de lazer, comércios, serviços etc. Mas a realidade nos mostra que alguns desses espaços já são conhecidos no imaginário popular como comitês de campanha que só são ocupados por poucas semanas e posteriormente voltam a ficar ociosos à espera do próximo ciclo eleitoral.</p>



<p>Infelizmente, um triste legado para celebrar os 25 anos do Estatuto da Cidade.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Anselmo Bezerra</strong> é geógrafo, gestor ambiental e professor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). Pesquisador no campo das políticas públicas urbanas, ambientais e de saúde.</p>
    </div>
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		<title>Avisa seu candidato: mais prisões não significam mais segurança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Sep 2026 18:32:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[presídios]]></category>
		<category><![CDATA[Segurança Pública]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mariana Rosetti, do site Ponte Jornalismo “Chegou a morte”, era a frase que Maurício Monteiro ouvia policiais militares gritarem, em meio a estampidos de disparos de arma de fogo, no corredor do terceiro andar do pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru, na zona norte de São Paulo. Monteiro acompanhava a movimentação da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Mariana Rosetti, do site <a href="https://ponte.org/avisa-seu-candidato-mais-prisoes-nao-significam-mais-seguranca/">Ponte Jornalismo</a><br></strong></p>



<p>“Chegou a morte”, era a frase que Maurício Monteiro ouvia policiais militares gritarem, em meio a estampidos de disparos de arma de fogo, no corredor do terceiro andar do pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru, na zona norte de São Paulo. Monteiro acompanhava a movimentação da cela que dividia com outros companheiros.</p>



<p>Escondia-se no banheiro, um metro cúbico delimitado por um vaso sanitário e um lençol branco, que simulava uma parede. Até que, em poucos segundos, um policial rompeu o tecido, apontou uma arma para a sua cabeça e a engatilhou. O disparo, que o mataria, não veio. Interrompido por um superior, o PM desarmou a própria arma e saiu da cela.</p>



<p>Horas depois, Maurício seria submetido a um corredor polonês — uma punição física em que uma pessoa passa correndo ou andando entre duas fileiras de pessoas que a agridem — e empilharia corpos de companheiros executados pelo braço-armado do Estado. Em 2 de outubro de 1992, tornou-se um sobrevivente do <a href="https://ponte.org/tag/carandiru/">Massacre do Carandiru</a>. </p>



<p>Naquele dia mais cedo, uma briga entre presos escalou para uma confusão generalizada. Algo rotineiro em um espaço projetado para 3.350 pessoas, mas que abrigava mais de 6.000. Foi quando o comandante da Polícia Militar, Ubiratan Guimarães, entrou no pavilhão 9 com mais de 300 agentes da <a href="https://ponte.org/tag/rota/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar)</a>, do <a href="https://ponte.org/tag/coe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">COE (Comando de Operações)</a> e do <a href="https://ponte.org/tag/gate/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais)</a>. E a matança começou.</p>



<p><a href="https://anistia.org.br/informe/massacre-do-carandiru-25-anos-depois/">Cerca de 70% dos disparos atingiram as regiões da cabeça e do tórax das vítimas</a> — o que, somado ao fato de que nenhum policial se feriu, reforça a tese de que não houve confronto. O 9º pavilhão, onde ocorreu o massacre, abrigava réus primários e presos provisórios: mais de 80% dos 111 mortos naquele dia aguardavam julgamento.</p>



<p>Tudo aconteceu na véspera do primeiro turno das eleições para prefeitos e vereadores. Por isso, o governo só divulgou a proporção do massacre minutos antes do fechamento das urnas, ignorando o sofrimento de familiares que aguardavam por respostas do lado de fora do presídio.</p>



<p>Como consequência do massacre, São Paulo veria nascer, meses depois, a facção criminosa <a href="https://ponte.org/tag/pcc/">Primeiro Comando da Capital (PCC)</a>, que se aproveitou desse ambiente de violações e abandono para disseminar seus ideais e cumprir uma lacuna estatal.</p>



<p>Não é exagero dizer que o Carandiru mudou a história do sistema prisional brasileiro, mas ele não aconteceu ao acaso. Integrava um projeto político em ascensão nacional que perdura até os dias de hoje: o punitivismo e a letalidade como resposta a uma segurança pública que serve de palanque político.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-6.webp" alt="A imagem mostra a fachada da Casa de Detenção, com um grupo de policiais fardados posicionados em frente ao prédio. A foto é tirada de um ângulo baixo, destacando as botas pretas de dois policiais em primeiro plano, o que transmite uma sensação de autoridade e tensão. Ao fundo, há uma fileira de agentes com escudos e capacetes, formando uma barreira de segurança, enquanto alguns homens conversam próximos à entrada do edifício." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Policiais militares bloqueiam entrada da Casa de Detenção de São Paulo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Itamar Miranda/Agência Estado</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>É o que a <strong>Ponte </strong>investiga nesta reportagem, parte do <strong>Ponte nas Eleições</strong>, projeto especial sobre segurança pública e os temas que estarão em disputa nas eleições gerais deste ano. Ao longo da série, a <strong>Ponte </strong>analisa como decisões tomadas por governos estaduais moldam as políticas de segurança e seus impactos sobre a população.</p>



<p>Para entender como o Carandiru se tornou possível, é preciso voltar às políticas de segurança e encarceramento adotadas por São Paulo nos anos anteriores ao massacre.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“Política de humanização dos presídios” </h2>



<p>No fim dos anos 90, o Brasil vivia a transição para o período democrático após 21 anos de uma ditadura empresarial-militar (1964-1985). Na primeira eleição para o governo estadual de São Paulo, Franco Montoro (PMDB) foi eleito, sendo Orestes Quércia (PMDB) seu vice.</p>



<p>Montoro herdou um sistema prisional com déficit de 2 mil vagas, a maioria delas na Casa de Detenção, explica Fernando Salla, sociólogo pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), no trabalho <em><a href="https://revista.forumseguranca.org.br/rbsp/article/view/8">De Montoro a Lembo: as políticas penitenciárias em São Paulo</a>.</em> </p>



<p>Em vez de propor a construção de mais cadeias ou o aumento de penas para conter a violência, Montoro tentou implementar uma &#8220;política de humanização dos presídios&#8221; e eliminar práticas de tortura e falta de transparência herdadas do regime militar. Entre as medidas estavam comissões eleitas por presos para dialogar com juízes, por exemplo.</p>



<p>A reação foi imediata. Setores conservadores não só se opuseram à política, como geraram um clima de tensão e boicote que desencadeou rebeliões em diversas penitenciárias. &#8220;A política de humanização dos presídios chegava ao final do governo Montoro profundamente desgastada&#8221;, pontua o pesquisador.</p>



<p>Quando Quércia assume em 1987, nomeia Luiz Antônio Fleury Filho (MDB) como secretário de segurança pública. Juntos, caminham do extremo oposto do antecessor: abandonam as tentativas de humanização, focam na construção de unidades prisionais e respondem às manifestações dos presos com letalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A matemática do extermínio na cela-forte</strong></h2>



<p>Era domingo de Carnaval, quando 50 presos se amotinaram e mantiveram uma carcereira refém, numa tentativa de fugir da carceragem do 42º DP, no Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo. O local, projetado para abrigar 32 pessoas em quatro celas, aprisionava 63 naquele 5 de fevereiro de 1989.</p>



<p>A PM foi acionada e o motim logo encerrado. Mesmo assim, as forças policiais ordenaram que os presos tirassem as próprias roupas e percorressem um corredor polonês. O destino final era uma cela-forte, um cubículo conhecido como &#8220;solitária&#8221;, em que “presos perigosos” eram isolados dos demais.</p>



<p>Ali, os oficiais amontoaram 50 homens e, antes de fechar a porta, jogaram gás lacrimogêneo. A saleta de 1,5 metro por 3 metros não tinha janelas. O efeito de câmara de gás matou 18 homens por asfixia e deixou outros 12 hospitalizados.</p>



<p>O “Massacre da Cela-Forte” chegou à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) dias após o ocorrido. O que não impediu a projeção política dos responsáveis. Fleury, até então secretário de segurança, seria governador de São Paulo no mandato seguinte, durante o Massacre do Carandiru.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-FOTO-2-1024x474.jpeg" alt="A imagem é uma reprodução de uma reportagem de jornal em preto e branco, composta por três fotos na parte superior e um texto abaixo. As fotos mostram um retângulo demarcado no chão, onde pessoas se agrupam em diferentes quantidades — primeiro duas, depois trinta e, por fim, cinquenta — ilustrando o aperto e a falta de espaço. O título da matéria, em destaque, fala sobre uma “equação que a geometria não ajuda”, e o texto discute a superlotação em celas prisionais e seus efeitos físicos e psicológicos. A composição transmite uma forte crítica às condições desumanas de confinamento." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Reportagem publicada em 11 de fevereiro de 1989, simula superlotação em espaço demarcado
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/O Estado de S.Paulo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Após o massacre na Casa de Detenção, ele chegou a admitir que “houve excesso” por parte da PM. Porém, em 2013, durante o julgamento dos policiais, quando atuou como testemunha de defesa, afirmou que a invasão foi necessária. “Não dei a ordem de entrada, mas, se estivesse em meu gabinete, daria.”</p>



<p>As mortes, em 1989 ou 1992, aconteceram nos primeiros anos da promulgação da Constituição de 1988 e deixaram uma mensagem: a recente democracia tardaria a alcançar a todos.</p>



<p>Nas décadas seguintes, a política de encarceramento deixaria de ser impulsionada apenas pela construção de presídios e pelo endurecimento da repressão. Uma mudança na legislação ampliaria ainda mais o número de pessoas enviadas às prisões.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A política de drogas que retrocede direitos</h3>



<p>Nos anos 2000, o Brasil vivia o que a pesquisadora e escritora Juliana Borges nomeia de “boom econômico”. Havia expansão do programa Bolsa Família, implementação de cotas nas universidades, entre outras políticas que pareciam, enfim, atingir a população negra e periférica. “Nós falávamos que vivíamos em um país quase de pleno emprego. Estávamos saindo do mapa da fome”, recorda.</p>



<p>Em meio a essa articulação social inédita, um anúncio: a sanção, em 2006, da nova<a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm"> Lei de Drogas</a>, aprovada durante o primeiro mandato do governo Lula (PT).</p>



<p>De um lado, a pressão internacional e os setores conservadores pediam o endurecimento contra o crime organizado — fruto desse mesmo endurecimento penal. Do outro, movimentos sociais defendiam a descriminalização do usuário de drogas, por considerar esse um problema de saúde pública.</p>



<p>A redação do decreto até tentou um consenso: aumentou a pena mínima para o tráfico e extinguiu a pena de prisão para o consumo próprio. Mas falhou em não deixar claro o que diferencia cada uma das condutas, delegando essa decisão às polícias e ao Judiciário.</p>



<p>O resultado disso veio com o passar dos anos. Na falta de critérios objetivos, marcadores sociais como o CEP, a cor da pele e as características físicas de quem é abordado pela polícia fundamentaram sucessivas decisões judiciais, impulsionando o encarceramento em massa da população jovem, pobre e negra. &#8220;Nós tínhamos a expansão da renda [naquela época], mas aprovamos uma lei que fez triplicar, quintuplicar o número de pessoas no sistema prisional&#8221;, lembra Borges.</p>



<p>No segundo semestre de 2025, o Brasil atingiu a marca de 960.976 pessoas privadas de liberdade, segundo a <a href="https://www.gov.br/senappen/pt-br">Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN)</a>. Pretos (116.552) e pardos (360.874) representavam 65,64% dos presos em celas físicas (727.301). </p>



<p>Isso significa dizer que, no segundo semestre de 2025, a cada três pessoas presas, duas eram negras. Além disso, 192.699 dos presos em celas físicas respondiam por tráfico de drogas (26%), disparado a tipificação criminal que mais encarcera no país.</p>



<p>Para a pesquisadora, a Lei de Drogas contém uma estratégia extremamente sofisticada porque não é explicitamente contra negros. &#8220;É uma lei para combater drogas. Mas a gente sabe que não se combatem drogas, se combatem pessoas&#8221;.</p>



<p>Se a violência estatal no Carandiru forjou o PCC, o aprisionamento em massa nos anos seguintes fortaleceu a facção: homens sem qualquer ligação com a criminalidade organizada precisaram se faccionar para garantir a própria vida atrás das grades.</p>



<p>&#8220;É o próprio Estado dando munição para o crescimento dessas organizações. Um problema que ele cria para depois ter que resolver&#8221;, conclui Juliana.</p>



<p>O encarceramento em massa e o fortalecimento das facções não ficaram restritos aos grandes centros urbanos. Em Altamira, no Pará, essas consequências se combinaram com uma transformação acelerada do território e a ausência de políticas públicas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A barbárie planejada no centro do mundo</strong></h3>



<p><a href="https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2025/01/31/crise-climatica-derruba-producao-de-belo-monte-a-57-do-esperado.htm">“O que eu sei fazer é pescar. Como vou pegar peixe no asfalto?”</a>, perguntou a pescadora Maria Cristina Alves da Costa, de 46 anos. Maria vivia em Santo Antônio, uma comunidade ribeirinha extinta para dar lugar à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Após ver seu território submerso pela obra milionária, em meados de 2011, pegou a carta de crédito oferecida pela Norte Energia e comprou uma pequena casa em Altamira. Como ela, muitos moradores atingidos pela construção da usina se mudaram para a cidade.</p>



<p>A falta de solo para plantar e colher, a contaminação dos rios, bem como a expansão de uma cidade que não comporta tudo aquilo de gente — com falta de escolas, postos de saúde, saneamento básico e trabalho, <a href="https://amazoniareal.com.br/ribeirinhos-de-belo-monte/">como denuncia há anos a <strong>Amazônia Real</strong></a> — aumentou, expressivamente, os índices de criminalidade, incluindo o tráfico de drogas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-FOTO-3-1024x681.jpeg" alt="A foto mostra dois homens indígenas sentados em um ambiente interno, segurando cartazes escritos à mão com mensagens de protesto contra a usina de Belo Monte. Ambos estão com pinturas corporais tradicionais e adornos coloridos, incluindo cocares de penas vibrantes. Ao fundo, outras pessoas e câmeras indicam que o momento ocorre em um espaço público, possivelmente uma audiência ou reunião." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Indígenas do Xingu protestam contra enchimento do reservatório de Belo Monte
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><a href="https://oglobo.globo.com/politica/altamira-cidade-mais-violenta-do-brasil-22184692">Em 2015, Altamira foi considerada a cidade mais violenta do Brasil</a> e se consolidou como um importante polo na rota da cocaína. Foi esse contexto político que forjou a Comando Classe A (CCA), uma facção criminosa que estampou o noticiário nacional e internacional em 29 de julho de 2019, após seus integrantes incendiarem uma cela onde estavam internos do Comando Vermelho (CV) no Centro de Recuperação Regional de Altamira.</p>



<p>A disputa deixou 62 homens privados de liberdade mortos. Entre as vítimas, 26 ainda não haviam sido julgadas.</p>



<p>Assim como nos massacres do Carandiru e da Cela-Forte, a unidade estava superlotada. Com capacidade para 163 presos, abrigava 343, <a href="https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2019/07/29/presidio-onde-52-morreram-no-para-esta-superlotado-e-em-condicoes-pessimas-aponta-cnj.ghtml">apontou um relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)</a> que atestou que as condições do presídio eram “péssimas”.</p>



<p>Em declaração divulgada nas redes sociais em 29 de julho de 2019, mesmo dia do massacre, <a href="https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2019/07/29/estrutura-carceraria-no-para-esta-em-situacao-precaria-diz-helder-barbalho-governador-diz-trabalhar-para-melhoras-condicoes.ghtml">e reproduzida pelo <strong>g1</strong></a>, o então governador do estado, Helder Barbalho (MDB), afirmou que, desde o início de seu governo, havia adotado “todas as ações para conter o crime fora e dentro do sistema carcerário”. Ele atribuiu às facções criminosas o que chamou de “carnificina” e reforçou que continuaria “agindo firmemente para demonstrar o poder do Estado&#8221;.</p>



<p>Já o então secretário de Segurança Pública do Pará, Uálame Machado, eximiu o Estado de qualquer responsabilidade. <a href="https://ponte.org/o-massacre-previsivel-no-para-com-mais-de-60-mortos/">Segundo reportagem publicada pela <strong>Ponte </strong>na ocasião</a>, Machado afirmou: &#8220;Por parte do Estado, de forma alguma, houve participação. Até porque não havia reivindicação nesse sentido, queixas de más condições, superlotação. Foi uma briga interna de grupos criminosos&#8221;. O discurso contraria os dados do CNJ.</p>



<p>Quem esbarrava nas declarações podia achar que o episódio era uma briga de facções isolada. Contudo, <a href="https://www.intercept.com.br/2019/08/06/belo-monte-forjou-massacre-altamira/">o <strong>The Intercept Brasil </strong>relembrou que a construção de um novo presídio</a> em Altamira era parte da obrigação contratual da Norte Energia, para reduzir os impactos causados pela construção de Belo Monte. Mas a obra não foi entregue no prazo previsto. </p>



<p>Mais do que uma solução para a superlotação, a exigência contratual apontada pelo <strong>Intercept </strong>revelava que o aumento da criminalidade em Altamira era previsto. Os relatórios de impacto da obra já antecipavam que a urbanização forçada, a remoção das comunidades ribeirinhas e o inchaço populacional sem infraestrutura levariam ao colapso da segurança pública.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-FOTO-4.jpeg" alt="A colagem mostra duas cenas de um possível incidente em uma unidade prisional. À esquerda, há um prédio cercado por arame farpado com chamas intensas e fumaça escura saindo do telhado, indicando um incêndio. À direita, vê-se uma área coberta onde algumas pessoas aparecem em meio à fumaça, com uma figura caída no chão, sugerindo uma situação de emergência ou conflito. As imagens transmitem um clima de tensão e perigo, com forte contraste entre fogo e sombra." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dois momentos do massacre em Altamira
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Ponte Jornalismo</span>
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<p>Os massacres ocorridos no Carandiru e em Altamira não foram casos isolados. Eles fazem parte de um cenário de violações marcado pela superlotação e pela omissão estatal em diferentes regiões do país. Ainda assim, em vez de provocar uma ruptura com esse modelo, a violência nas prisões continuou sendo naturalizada e usada como plataforma eleitoral.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O inconstitucional sistema prisional brasileiro</strong></h3>



<p>&#8220;Hoje, dois anos depois, o massacre de 111 presos no pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo virou plataforma política de candidatos a deputado estadual&#8221;, dizia o primeiro parágrafo<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/10/02/cotidiano/15.html"> de uma reportagem publicada pelo repórter Daniel Castro, na Folha de S. Paulo, em 2 de outubro de 1994</a>, intitulada: &#8220;Bancada 111&#8242; usa massacre para se eleger&#8221;.</p>



<p>A reportagem citava dois candidatos, entre eles o Coronel Ubiratan Guimarães (PSD), que comandou a operação policial no Carandiru e disputava uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo com o número 41.111. Ele negava que a escolha fizesse referência aos 111 mortos no massacre.</p>



<p>A exploração eleitoral do episódio ajudou a perpetuar a ideia de que a violência contra pessoas presas não apenas seria aceitável, como poderia ser celebrada. Quase três décadas depois, u<a href="https://iclnoticias.com.br/secretaria-seguranca-investiga-pms-carandiru/">m vídeo revelado pelo ICL Notícias</a> mostrava alunos da Escola de Soldados da Polícia Militar de São Paulo entoando um canto de guerra. Na gravação, eles chamavam as vítimas do Carandiru de &#8220;lixo&#8221; e &#8220;escória&#8221; e exaltavam o uso de bombas, tiros e facadas no massacre.</p>



<p>Para a pesquisadora Juliana Borges, essa naturalização da violência está relacionada à própria forma como a sociedade compreende a função da prisão. Borges cita a militante antirracista Carla Akotirene para lembrar que a etimologia da palavra &#8220;penitenciária&#8221; carrega a ideia de &#8220;penitência&#8221;. Essa associação reflete o entendimento de que o sofrimento seria necessário à ressocialização. Assim, massacres, decapitações e mortes por asfixia passam a ser vistos como consequências das escolhas anteriores das vítimas, em vez de serem tratados como responsabilidade do poder público.</p>



<p>Essa concepção não se manifesta apenas em episódios extremos, mas sustenta um sistema marcado pela repetição de violações. Foi nesse contexto que, em outubro de 2023, o STF reconheceu oficialmente o sistema prisional brasileiro como um &#8220;estado de coisas inconstitucional&#8221;.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-FOTO-5.jpeg" alt="A foto mostra Ubiratan Guimarães, político e ex-coronel da Polícia Militar de São Paulo, falando em um púlpito com microfone. Ele veste terno escuro, camisa branca e gravata estampada, e aparece gesticulando com uma das mãos enquanto discursa. Ao lado do microfone há uma pequena bandeira do estado de São Paulo, reforçando o contexto institucional da cena. O ambiente é formal, com fundo claro e iluminação uniforme, típico de uma sessão ou pronunciamento oficial." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ubiratan Guimarães (1943-2006), quando era deputado estadual
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/Alesp</span>
                                    </figcaption>
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<p>A decisão atesta que o problema não é &#8220;isolado no Acre, em São Paulo ou nas facções&#8221;, mas estrutural. &#8220;É o reconhecimento de que essa estrutura funciona à margem da Constituição&#8221;, pontua Aline Passos, advogada e pesquisadora abolicionista. Ainda assim, no palanque eleitoral, ignoram-se as melhorias estruturais exigidas pelos próprios presos do Carandiru há mais de 30 anos e pelo STF em 2023.</p>



<p>Se o encarceramento em massa aprofunda os problemas que promete combater, pesquisadoras e movimentos formados por pessoas atingidas pela prisão defendem outras formas de lidar com conflitos e produzir segurança.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Abolicionismo na prática e o alerta às urnas</strong></h3>



<p>Na contramão do punitivismo, o abolicionismo penal não se resume a implodir as estruturas das prisões, mas exige a formulação de uma nova organização social e de resolução de conflitos. Para Juliana Borges, esse caminho passa pelo fortalecimento da mediação comunitária e pela valorização de conhecimentos e práticas desenvolvidos por comunidades quilombolas e povos indígenas.</p>



<p>A pesquisadora também cita a geógrafa norte-americana Ruth Gilmore, que enxerga nos assentamentos do <a href="https://ponte.org/tag/movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra/">Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST</a>) experiências de organização comunitária que não recorrem necessariamente à punição para responsabilizar alguém por um conflito.</p>



<p>É a partir dessa mesma premissa comunitária que atua o <a href="https://www.instagram.com/libertaelas/">Liberta Elas,</a> uma coletiva feminista, abolicionista e antirracista da Região Metropolitana do Recife (PE), formada por ativistas, mulheres e pessoas trans atravessadas pelo cárcere.</p>



<p>Para a pesquisadora Juliana Trevas, cofundadora do grupo, a prisão produz uma morte social e emocional. “Quando você sai, sai traumatizada. Não é à toa que usamos a palavra ‘sobrevivente’, porque a pessoa sobreviveu a uma quase morte, a uma tortura permanente”, descreve.</p>



<p>A organização política de quem sobreviveu ao sistema “caminha sobre o fio da navalha&#8221;, descreve Aline Passos. Por terem ligação direta com a prisão, esses movimentos são submetidos a uma vigilância constante. Segundo ela, qualquer tentativa de articulação pode provocar retaliações do Estado e criar pretexto para que essas pessoas sejam novamente encarceradas.</p>



<p>Ainda assim, essas pessoas, forjadas pela violência do cárcere e dos territórios militarizados, reivindicam seu lugar na formulação de políticas de segurança pública. &#8220;As pessoas da prisão estão compreendendo o negócio todo e querendo falar. Nas &#8216;saidinhas&#8217;, a gente faz troca. Como diz a professora Karina Biondi, nós fazemos um contrabando de ideias&#8221;, resume Trevas.</p>



<p>Como as prisões não serão extintas do dia para a noite, Trevas aponta medidas pragmáticas capazes de reduzir imediatamente a população carcerária. A primeira não tem nada de revolucionária, segundo ela. Bastaria cumprir a legislação vigente, o que reduziria o número excessivo de prisões provisórias e impediria a aplicação de punições internas utilizadas para torturar e imobilizar pessoas presas.</p>



<p>A segunda medida esbarra em um tabu político estrutural, a legalização das drogas, acompanhada da anistia aos condenados por esse tipo de crime como forma de reparação histórica. Regulamentar as drogas e tratar seu uso também como uma questão de saúde pública interromperia parte da dinâmica de encarceramento. Contudo, Trevas ressalta que o conservadorismo paralisa inclusive a esquerda, que evita o tema por medo de perder votos, apesar das experiências de países que já regulamentaram a maconha.</p>



<p>Para Juliana Borges, é justamente no palanque eleitoral que está a maior armadilha. A pesquisadora orienta os eleitores a desconfiarem das promessas simplistas que reduzem a segurança pública à força bruta. &#8220;Se o discurso do candidato for o de mais punição, mais armamento, de que a presença ostensiva do Estado é o que resolve e de que quem está na prisão é tudo vagabundo, eu fugiria&#8221;, crava.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/prisoes-ILUSTRACAO-1charge_encarceramento_juniao_150-1024x737.jpg" alt="A ilustração mostra um grupo diverso de pessoas representando diferentes causas sociais e políticas, como “bem viver”, “participação social”, “saúde”, “educação”, “segurança pública cidadã” e “redução da letalidade”. Cada personagem é colorido de forma distinta e simboliza uma área de atuação ou valor coletivo. À esquerda, um homem de terno segura um botão amarelo com a palavra “vote”, sugerindo o contexto eleitoral e a importância de escolher políticas voltadas ao bem-estar social. A arte, assinada por Junião, transmite uma mensagem de engajamento e cidadania." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Junião/ponte.org</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><b>Esta é a terceira reportagem da série Ponte nas Eleições. Ao longo de seis reportagens, a Ponte vai tratar de temas centrais da segurança pública, com objetivo de ajudar o eleitor a compreender os principais problemas da área, os caminhos apontados por especialistas e o que deve ser observado nas propostas dos candidatos na hora do voto.</b></p>
<p><b>Além da Ponte, as reportagens da série são republicadas por veículos parceiros de diferentes regiões do país: </b><a href="https://conquistareporter.com.br/"><b>Conquista Repórter</b></a><b> (BA), </b><a href="https://coletivosargentoperifa.com/"><b>Sargento Perifa</b></a><b> (PE), </b><a href="https://www.plural.jor.br/"><b>Plural </b></a><b>(PR),</b><a href="https://projetocolabora.com.br/"><b> #Colabora </b></a><b>(RJ), </b><a href="https://ehfonte.com.br/"><b>Eh Fonte</b></a><b> (MT), </b><a href="https://institutomidiaetnica.org.br/"><b>Mídia Étnica/Correio Nagô</b></a><b> (BA), </b><b>Marco Zero </b><b>(PE), </b><a href="https://amazoniareal.com.br/"><b>Amazônia Real</b></a><b> (AM), </b><a href="https://revistaafirmativa.com.br/"><b>Revista Afirmativa </b></a><b>(BA), </b><a href="https://agenciamural.org.br/"><b>Agência Mural </b></a><b>(SP), </b><a href="https://catarinas.info/"><b>Portal Catarinas</b></a><b> (SC) e </b><a href="https://ocatarinao.com.br/"><b>O Catarinão</b></a><b> (RJ).</b></p>
    </div>



<p><br></p>



<p></p>
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		<title>Quando tudo circula ao mesmo tempo: por que checar fatos já não basta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2026 15:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ruthy Costa* No início de setembro de 2026, um vídeo que parecia mostrar o presidente argentino Javier Milei segurando uma motosserra e falando em português circulou nas redes sociais. Na gravação, ele atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarava apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. O conteúdo havia sido produzido com [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Ruthy Costa*</strong></p>



<p>No início de setembro de 2026, um vídeo que parecia mostrar o presidente argentino <a href="https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2026/09/02/desinformacao-ia-falso-video-milei-portugues-apoio-flavio-critica-lula.ghtm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Javier Milei segurando uma motosserra e falando em português circulou nas redes sociais</a>. Na gravação, ele atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarava apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. O conteúdo havia sido produzido com inteligência artificial a partir de uma fotografia publicada pela revista Forbes Argentina em 2024. Quando foi verificado pelo UOL Confere, acumulava mais de 263 mil curtidas no Instagram.</p>



<p>Poucos meses antes, outro vídeo fabricado por inteligência artificial atribuía ao ministro Luiz Fux a falsa informação de que Jair Bolsonaro seria solto e poderia disputar as eleições de 2026. As publicações haviam sido visualizadas mais de 50 mil vezes. Em agosto, vídeos manipulados fizeram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães pronunciarem críticas a Bolsonaro que nunca foram ditas por eles. Os exemplos envolvem personagens e interesses políticos diferentes, mas compartilham a mesma facilidade de produção, adaptação e circulação.</p>



<p>Cada um desses conteúdos pode ser submetido a uma checagem. Jornalistas podem localizar o registro original, comparar imagens, consultar documentos, ouvir especialistas e demonstrar que determinada fala ou cena foi fabricada. Esse trabalho é indispensável. Permite corrigir informações, oferecer evidências ao público e responsabilizar quem utiliza falsificações para interferir no debate político.</p>



<p>O problema é que a checagem começa depois que alguma coisa foi dita, publicada ou compartilhada. Enquanto uma equipe investiga um vídeo, novos áudios, imagens, textos e montagens continuam aparecendo. Alguns repetem alegações antigas com pequenas alterações. Outros combinam dados verdadeiros com conclusões enganosas, retiram falas de contexto ou apresentam opiniões como se fossem informações comprovadas. A desinformação não chega às redações em uma fila organizada. Ela circula simultaneamente por redes abertas, aplicativos de mensagens, transmissões ao vivo, canais de vídeo e perfis que podem desaparecer logo após uma publicação.</p>



<p>Por isso, o desafio contemporâneo não se restringe a determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Antes de verificar, alguém precisa decidir o que merece ser verificado. Essa escolha envolve avaliar alcance, dano potencial, relevância pública, possibilidade de comprovação, autoridade de quem fez a declaração e presença daquela narrativa em diferentes espaços. Depois da checagem, ainda é necessário decidir como apresentar o resultado, como fazê-lo alcançar as pessoas expostas ao conteúdo original e como acompanhar suas reformulações.</p>



<p>Dizer que checar não basta, portanto, não significa diminuir a importância do <em>fact-checking</em>. <a href="https://mediawell.ssrc.org/citations/fact-checking-a-meta-analysis-of-what-works-and-for-whom/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Uma metanálise de 30 estudos, com mais de 20 mil participantes, concluiu que a checagem produz um efeito positivo sobre a correção de crenças políticas</a>. A questão está nas condições em que esse resultado é produzido e distribuído. Uma verificação pode ser metodologicamente rigorosa e, mesmo assim, alcançar apenas uma parcela pequena do público que recebeu a informação falsa.</p>



<p>Um <a href="https://arxiv.org/abs/2412.13280" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo de Morgan Wack, Kayla Duskin e Damian Hodel sobre as eleições legislativas de 2022 nos Estados Unidos</a> comparou a circulação de narrativas eleitorais enganosas com as checagens correspondentes. A pesquisa constatou que menos da metade das principais narrativas analisadas foi verificada. Entre as que receberam checagem, o tempo mediano entre o surgimento da alegação e a publicação da resposta foi de quatro dias. As verificações representaram menos de 1,2% das conversações relacionadas a essas narrativas e circularam principalmente dentro das mesmas comunidades políticas, com pouca passagem entre grupos partidários.</p>



<p>Os dados se referem ao contexto norte-americano e não devem ser automaticamente transferidos para o Brasil. Ainda assim, ajudam a compreender uma limitação estrutural. A desinformação opera com custos de produção menores, pode ser repetida por diferentes perfis e não precisa demonstrar como chegou a uma conclusão. O jornalismo trabalha com procedimentos mais demorados, porque precisa reunir documentos, consultar fontes, verificar a procedência dos materiais e tornar público o caminho da apuração.</p>



<p>A diferença de velocidade não pode ser resolvida com a simples exigência de que jornalistas chequem tudo mais rapidamente. A pressa pode comprometer a análise, produzir classificações equivocadas e reduzir a explicação necessária para que o público compreenda o problema. Também não é possível responder a todas as alegações. Equipes possuem tempo e recursos limitados, enquanto o fluxo de conteúdos é contínuo.</p>



<p>Além disso, nem toda falsidade deve receber a mesma atenção. Uma publicação com circulação restrita pode ganhar visibilidade justamente porque uma organização jornalística decidiu desmenti-la. A repetição de uma alegação, mesmo para corrigi-la, também pode reforçar os termos escolhidos por quem a produziu. Em outros casos, o silêncio permite que uma narrativa prejudicial cresça sem contestação. Decidir entre verificar imediatamente, monitorar, contextualizar ou não ampliar um conteúdo é uma escolha editorial que não pode ser orientada apenas pelo número de visualizações.</p>



<p>É nesse ponto que a curadoria jornalística se torna relevante. Curar informação não consiste somente em reunir links ou resumir conteúdos publicados por terceiros. Trata-se de selecionar, hierarquizar, relacionar e contextualizar informações de acordo com critérios jornalísticos e com as necessidades de um público. Diante da desinformação, a curadoria ajuda a identificar quais alegações fazem parte de uma narrativa mais ampla, quais grupos estão sendo atingidos, quais temas exigem resposta urgente e quais conteúdos podem ser acompanhados sem receber exposição adicional.</p>



<p>Esse trabalho também permite deslocar a cobertura de falsidades isoladas para os processos que lhes dão sustentação. Dez publicações diferentes podem repetir a mesma narrativa com palavras, imagens e personagens distintos. Se cada peça for tratada como um caso independente, a redação produzirá dez respostas semelhantes e continuará reagindo ao ritmo definido por quem desinforma. Quando os conteúdos são agrupados e analisados em conjunto, torna-se possível investigar quem os produz, quais interesses mobilizam, que canais utilizam e como se adaptam depois de uma checagem.</p>



<p>A curadoria também deve ser aplicada às informações verdadeiras. Em períodos eleitorais, a atenção pública pode ser ocupada por declarações falsas, conflitos fabricados e controvérsias de curta duração, enquanto propostas de governo, execução orçamentária, políticas públicas e relações entre candidatos e grupos econômicos recebem menos espaço. Se a imprensa utilizar apenas a viralidade para selecionar o que será verificado e noticiado, as estratégias de desinformação passam a influenciar a própria agenda jornalística.</p>



<p>Selecionar com base no interesse público significa considerar o que produz consequências para a vida coletiva, mesmo quando o assunto não aparece entre os conteúdos mais compartilhados. Para um veículo independente ou regional, esse critério inclui observar como narrativas nacionais chegam aos territórios, quais grupos locais são utilizados na sua circulação e que questões específicas ficam encobertas pelo volume da disputa política nas redes.</p>



<p>A inteligência artificial pode auxiliar nesse processo, principalmente em tarefas que envolvem grande quantidade de dados. Sistemas computacionais conseguem acompanhar discursos, transcrever entrevistas e transmissões, localizar afirmações verificáveis, agrupar conteúdos semelhantes e comparar novas declarações com checagens já publicadas. Também podem ajudar a reconhecer a repetição de uma narrativa em diferentes plataformas e indicar mudanças na forma como ela está sendo apresentada.</p>



<p>A organização britânica <a href="https://fullfact.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Full Fact</a> utiliza aprendizado de máquina desde 2016 para apoiar o monitoramento do debate público. <a href="https://www.poder360.com.br/nieman/com-meios-proprios-full-fact-combate-conteudos-eleitorais-feitos-com-ia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suas ferramentas processam textos, áudios e vídeos</a>, separam frases que contêm alegações verificáveis e procuram correspondências com afirmações analisadas anteriormente. O objetivo é reduzir um conjunto muito amplo de informações a uma quantidade que possa ser examinada por profissionais. A decisão sobre o que investigar e a verificação das evidências permanecem sob responsabilidade humana.</p>



<p>Essa distinção é necessária. Um sistema pode localizar uma frase que contém números, mas não determina sozinho se ela possui relevância pública. Pode encontrar semelhanças entre duas declarações, mas não compreende necessariamente as diferenças de contexto. Pode indicar uma provável falsidade e, ainda assim, utilizar dados desatualizados, fontes inadequadas ou associações estatísticas que não constituem prova. A automação contribui para organizar o fluxo, mas não elimina a apuração.</p>



<p>Há também escolhas anteriores ao funcionamento da tecnologia. Alguém define quais fontes serão monitoradas, quais temas receberão prioridade, que palavras serão usadas nas buscas e que nível de circulação será considerado relevante. Se um sistema acompanha apenas perfis nacionais de grande audiência, pode ignorar desinformação dirigida a comunidades locais. Se foi treinado principalmente em outro idioma ou contexto político, pode ter dificuldade para reconhecer expressões regionais, ironias e referências compartilhadas por determinados grupos.</p>



<p>Por isso, a incorporação da inteligência artificial ao jornalismo precisa ser transparente e submetida a critérios editoriais. As redações devem saber que tarefas foram automatizadas, quais bases orientam os resultados, onde estão as possibilidades de erro e quem responde pela decisão final. A tecnologia pode ampliar a capacidade de observação, mas não deve assumir a função de definir sozinha o que é verdadeiro, relevante ou publicável. A seleção sem verificação pode organizar conteúdos pouco confiáveis. A checagem sem curadoria tende a atuar de forma reativa e fragmentada. A automação sem supervisão pode reproduzir erros em maior escala.</p>



<p>Na prática, uma atuação articulada começaria pelo monitoramento de temas de interesse público, não apenas de conteúdos virais. Ferramentas poderiam auxiliar na identificação e no agrupamento de alegações, enquanto jornalistas definiriam prioridades considerando danos, alcance, recorrência e impacto social. A verificação reuniria documentos, dados, fontes e registros originais. Depois da publicação, o acompanhamento permitiria observar se a narrativa reapareceu, mudou de formato ou passou a circular entre outros públicos.</p>



<p>O resultado da checagem também precisa circular em formatos compatíveis com os lugares em que a desinformação foi encontrada. Uma reportagem detalhada no site preserva a metodologia e as evidências, mas pode ser acompanhada por vídeos, cards, áudios ou mensagens que apresentem a conclusão sem eliminar o contexto. Isso não significa adaptar o jornalismo a qualquer lógica das plataformas. Significa reconhecer que a correção precisa alcançar o debate público e que diferentes formatos podem conduzir o leitor à apuração completa.</p>



<p>Essa abordagem exige investimento em formação, protocolos e cooperação. Veículos independentes não precisam desenvolver isoladamente sistemas complexos de inteligência artificial. Podem compartilhar bancos de checagens, estabelecer parcerias com universidades, acompanhar bases públicas e formar redes de monitoramento com outras organizações jornalísticas. A colaboração reduz a repetição de tarefas e permite que cada equipe concentre recursos nas dimensões locais e investigativas que conhece melhor.</p>



<p>Também é necessário preservar a autonomia das redações diante das plataformas e dos fornecedores de tecnologia. Se as ferramentas usadas para identificar tendências pertencem às mesmas empresas que organizam a visibilidade e lucram com a circulação dos conteúdos, seus critérios não podem ser aceitos sem questionamento. Dados de engajamento ajudam a perceber o alcance de uma narrativa, mas não substituem a avaliação sobre relevância, dano e interesse público.</p>



<p>Em 2026, o <em>Digital News Report</em> registrou que <a href="https://veja.abril.com.br/coluna/planeta-ia/redes-sociais-ultrapassam-imprensa-como-principal-fonte-de-informacao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">47% dos brasileiros evitam notícias algumas vezes ou com frequência e que a confiança geral no noticiário caiu para 36%</a>. Mais da metade da população utiliza redes sociais para se informar semanalmente. Esses dados não resultam apenas da desinformação ou do excesso de notícias, mas mostram um ambiente em que ampliar continuamente o volume de publicações não garante melhor informação.</p>



<p>Nesse contexto, a contribuição específica do jornalismo está menos na capacidade de acompanhar cada postagem e mais na oferta de critérios, evidências e relações que ajudem o público a compreender o que importa. Checar fatos permanece essencial, mas precisa integrar um processo mais amplo, capaz de escolher com responsabilidade, verificar com rigor, contextualizar e acompanhar a circulação das narrativas. A inteligência artificial pode ajudar a lidar com a escala desse trabalho. A definição das prioridades e a responsabilidade pelas conclusões continuam pertencendo aos jornalistas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><span style="font-weight: 400;">*Graduada em Jornalismo e Relações Públicas, é professora efetiva do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Integra o Estopim, Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do PPGCOM/UFPE, o Núcleo de Pesquisas em Mídia, História e Tecnologias e o Grupo de Pesquisa Jornalismo e Convergência Midiática, ambos da UFPI.</span></p>
    </div>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/quando-tudo-circula-ao-mesmo-tempo-por-que-checar-fatos-ja-nao-basta/">Quando tudo circula ao mesmo tempo: por que checar fatos já não basta</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Por que o seu candidato deveria falar da letalidade policial nessas eleições? </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 17:18:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[letalidade policial]]></category>
		<category><![CDATA[Polícia Militar]]></category>
		<category><![CDATA[ponte jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mariana Rosetti, do site Ponte Jornalismo Era madrugada quando centenas de camponeses despertaram do sono. Alguns, com a garganta fechada pelo efeito sufocante do gás lacrimogênio que sobrecarregava o ar. Outros, depois de ouvirem estampidos provocados por disparos de arma de fogo. Ainda sem entender direito o que acontecia, quem pôde, instintivamente, correu. Mas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Mariana Rosetti, do site <a href="https://www.plural.jor.br/por-que-o-seu-candidato-deveria-falar-da-letalidade-policial-nessas-eleicoes/">Ponte Jornalismo</a></strong></p>



<p>Era madrugada quando centenas de camponeses despertaram do sono. Alguns, com a garganta fechada pelo efeito sufocante do gás lacrimogênio que sobrecarregava o ar. Outros, depois de ouvirem estampidos provocados por disparos de arma de fogo. Ainda sem entender direito o que acontecia, quem pôde, instintivamente, correu. Mas eles estavam cercados por invasores que, mesmo sendo na maioria policiais, usavam máscaras.</p>



<p>Dias antes, em busca de terra para morar, o grupo de posseiros tinha chegado à Fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara, em Rondônia. Mesmo com tendas e barracas estendidas num pequeno fragmento do terreno com mais de 20.000 hectares, a ocupação desagradou o proprietário Hélio Pereira de Morais. Influente, Morais se articulou e, não demorou muito, a Polícia Militar do estado montou uma frente de negociação com os camponeses, que resistiram e permaneceram com a ocupação popular.</p>



<p>No dia 9 de agosto de 1995, antes mesmo do sol aparecer, policiais, jagunços e pistoleiros — homens armados contratados por fazendeiros para proteger as terras, sendo alguns deles policiais de folga — cercaram o acampamento e o invadiram, alegando cumprir uma ordem de reintegração de posse. <a href="https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/29-anos-do-massacre-de-corumbiara/">Quase 200 agentes da Polícia Militar foram mobilizados para a operação, com revólveres calibre 38, escopetas calibre 12 e metralhadoras de 9 mm</a>. Um dos oficiais daquela noite era o tenente José Hélio Cysneiros Pachá.</p>



<p>Entre os moradores assustados com a ofensiva, estava Vanessa dos Santos Silva, de 7 anos, baleada nas costas enquanto tentava fugir com a mãe. Além dela, outros nove camponeses e dois policiais militares foram mortos. Mais de 50 pessoas foram feridas e outras 300 presas e torturadas por policiais, conforme denunciaram à época.</p>



<p>O Massacre de Corumbiara, como ficou conhecido o episódio, chegou à <a href="https://ponte.org/tag/CIDH/">Corte Interamericana de Direitos Humanos</a>, que, em 2024, responsabilizou o Estado brasileiro por violação do direito à vida.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Posseiros rendidos reunidos no acampamento sob vigilância de um policial militar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: &#8216;Corumbiara, caso enterrado&#8217;, Editora Elefante/Reprodução </span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em 2026 — trinta e um anos depois daquela fatídica madrugada — o mesmo Pachá, agora coronel da PM, foi nomeado secretário de Segurança e Defesa e Cidadania de Rondônia pelo atual governador, o também coronel Marcos Rocha (PSD).</p>



<p>Pachá assumiu o comando da segurança em 2026, depois de Rondônia registrar um aumento expressivo da letalidade policial.<strong> </strong>Entre 2024 e 2025, Rondônia registrou uma alta de quase 500% nos casos de <a href="https://ponte.org/tag/MDIP/">Morte Decorrente de Intervenção Policial (MDIP)</a>, passando de 8 para 47 mortes, segundo o <a href="https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica">Sistema Nacional de Informações da Segurança Pública (Sinesp)</a>, do <a href="https://ponte.org/tag/MJSP/">Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP)</a>.</p>



<p>Mesmo assim, ao assumir o cargo, <a href="https://www.rondoniagora.com/politica/coronel-pacha-diz-que-ira-resolver-problemas-internos-e-planejar-melhorias-para-seguranca-publica">o secretário disse ao Jornal Rondoniagora</a>: “Eu confio muito nas instituições, aqueles que integram a Polícia Civil, Militar, Polícia Técnica e Corpo de Bombeiros. Todos são comprometidos com a segurança e com o povo rondoniense”.</p>



<p>Em seu perfil no Instagram, onde muitas publicações são vídeos de operações policiais, uma marca d’água, no canto superior direito, salta aos olhos: as letras ‘PACH’, em branco, são acrescidas de uma caveira com uma faca enterrada ao crânio. Ela simula o ‘Á’ e completa o sobrenome do atual secretário.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Em nota enviada à Ponte, a Secretaria de Estado da Comunicação de Rondônia (Secom-RO) afirmou que Pachá foi absolvido por unanimidade no processo relacionado ao Massacre de Corumbiara e que nenhum dos policiais sob seu comando na Fazenda Santa Elina foi denunciado. Segundo a pasta, as armas usadas por esses agentes foram periciadas e não apresentaram correspondência balística com as mortes registradas no episódio. A reportagem solicitou à Secom os documentos que comprovam essas informações.</p>
<p>A secretaria ressaltou ainda que Pachá assumiu a Segurança Pública somente em 2026, depois do aumento das mortes decorrentes de intervenção policial registrado entre 2024 e 2025. De acordo com a Secom, as ocorrências de 2025 aconteceram durante operações contra organizações criminosas e nenhum dos policiais envolvidos foi acusado de excesso. A pasta classificou as ações como respostas a confrontos, realizadas “dentro do estrito cumprimento do dever legal”.</p>
<p>A Secom também contestou qualquer interpretação de que a trajetória profissional de Pachá tenha sido marcada por ocorrências com mortes e destacou sua participação na missão de paz da ONU no Timor-Leste, entre 2004 e 2005. Sobre a marca usada pelo secretário nas redes sociais, afirmou que a caveira faz referência à simbologia tradicional das unidades e dos cursos de operações especiais, área na qual Pachá possui formação, e que não representa apologia à violência ou a homicídios.</p>
<p>A nomeação de um oficial que participou da operação de Corumbiara para comandar a segurança pública de Rondônia, três décadas depois, ajuda a expor uma dimensão da letalidade que nem sempre aparece quando as mortes são tratadas apenas como resultado da ação do policial que apertou o gatilho. Governadores escolhem quem comanda suas forças de segurança, quais mecanismos limitam sua atuação e como o Estado responde quando essas forças matam.<b><br />
</b></p>
        </div>
    </div>



<p>E Rondônia está longe de ser um caso isolado. Enquanto as taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) caem de forma consistente no Brasil, as polícias brasileiras matam, em média, 17 pessoas a cada 24 horas — ou, dois massacres de Corumbiara por dia.</p>



<p>A relação entre violência policial e decisões políticas atravessa governos de diferentes espectros ideológicos. Na Bahia, governada pelo PT, em São Paulo, sob o Republicanos, e no Rio de Janeiro, comandado pelo PL, episódios de violência extrema foram acompanhados por respostas de governadores que ajudam a entender por que mecanismos de controle avançam, recuam ou sequer chegam a existir.</p>



<p>É o que a <strong>Ponte </strong>investiga nesta reportagem, parte do <strong>Ponte nas Eleições</strong>, projeto especial sobre segurança pública e os temas que estarão em disputa nas eleições gerais deste ano. Ao longo da série, a <strong>Ponte </strong>analisa como decisões tomadas por governos estaduais moldam as políticas de segurança e seus impactos sobre a população.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-4-300x300.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-4.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-4.jpeg" alt="A imagem mostra um homem de óculos e barba, vestindo uma roupa escura com aparência de uniforme, em pé diante de um prédio com painéis horizontais e escudos militares na parede superior. À esquerda, há um cacto alto e, no canto superior direito, aparece o logotipo “Coronel Pach” acompanhado de um pequeno desenho de caveira com faca. No centro, há um ícone de reprodução de vídeo, indicando que se trata de uma captura de um vídeo. A cena parece ter sido gravada à noite ou em ambiente com pouca luz." class="" loading="lazy" width="588">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O “á” é substituído por uma caveira com uma faca enterrada no crânio
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Instagram/Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">“Como um artilheiro em frente ao gol”</h2>



<p>Vinte anos depois de Corumbiara e a mais de 3 mil quilômetros dali, outro massacre mostraria como a resposta de quem governa pode legitimar a atuação das forças policiais.</p>



<p>Moradores da Vila Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador (BA), ainda cansados da noite mal dormida, ouviam o governador <a href="https://ponte.org/tag/rui-costa/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rui Costa (PT)</a> dizer: “[O policial] é como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol”.</p>



<p>No dia anterior, em 6 de fevereiro de 2015, também de madrugada, agentes da <a href="https://ponte.org/tag/rondesp/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rondesp (Rondas Especiais)</a>, uma unidade tática e operacional da <a href="https://ponte.org/tag/PMBA/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Polícia Militar da Bahia (PMBA)</a>, assassinaram 12 jovens negros e deixaram outras seis pessoas gravemente feridas. Nenhuma das vítimas fatais tinha antecedentes criminais e três eram menores de idade.</p>



<p>A ação ficou conhecida como a <a href="https://ponte.org/tag/chacina-do-cabula/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Chacina do Cabula</a>. O <a href="https://ponte.org/tag/MPBA/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ministério Público da Bahia (MPBA)</a> denunciou nove policiais por agirem de forma excessiva, “encurralando e executando sumariamente” as vítimas.</p>



<p>No dia seguinte à barbárie, durante uma coletiva de imprensa sobre o Carnaval baiano, Rui continuou: “Depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque, se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-ilustracao-1-juniao-300x208.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-ilustracao-1-juniao-1024x708.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-ilustracao-1-juniao-1024x708.jpeg" alt="A ilustração mostra uma charge política colorida em que um homem de terno e expressão irritada tenta se proteger de uma Constituição brasileira que brilha intensamente ao fundo. Em volta dele, há vários círculos e placas com frases como “Redução da maioridade penal”, “Bandido bom é bandido morto”, “CPF cancelado” e “Direito dos manos”, todas acompanhadas da palavra “Vote”. A imagem critica discursos populistas e punitivistas que se chocam com os princípios constitucionais e os direitos humanos." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Junião/ponte.org</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>O inimigo interno como herança da ditadura</strong></h2>



<p>Essa chancela institucional dada por falas como a de Rui Costa ajuda a entender por que a Bahia, hoje governada por <a href="https://ponte.org/tag/jeronimo-rodrigues/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Jerônimo Rodrigues (PT)</a>, liderou os casos de MDIP em números absolutos no ano de 2025. Foram 1.569 mortes, à frente de São Paulo (835) e Rio de Janeiro (798), segundo o Sinesp. Isso significa dizer que a polícia baiana matou 1 pessoa a cada 6 horas, em média.</p>



<p>Mas a permanência da violência policial não pode ser explicada apenas pela declaração de um governador, por uma gestão ou por um partido. Para Wagner Moreira, pesquisador do <a href="https://www.ideasap.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ideas – Assessoria Popular</a>, é impossível analisar qualquer dado ou cenário sobre a política baiana sem considerar que o Estado carrega um histórico de violência moldado por uma herança colonial. Ele avalia que, após a ditadura empresarial-militar (1964-1985), a transição democrática falhou ao permitir que as corporações mantivessem seus privilégios e sua lógica de controle interno.</p>



<p>Privilégios esses também sentidos por Rondônia: os governos militares promoveram incentivos fiscais para a ocupação do território por empresários e produtores de outras regiões, com o objetivo de expandir o agronegócio. Como resultado, houve um aumento deliberado da desigualdade social e de conflitos por moradia. Corumbiara é um reflexo disso.</p>



<p>Entre as lógicas que sobreviveram à ditadura está a construção de um “inimigo interno” a ser combatido pelas forças de segurança. Antes, a Polícia Militar buscava combater os comunistas. Com a redemocratização, passou a mirar em outra classe: “A política sobre drogas ajuda a explicar quem é o inimigo comum: o corpo negro, jovem, em geral de ‘cabelo na régua’ ou descolorido, que usa bermuda de tactel”, afirma Moreira. Os alvos do Cabula.</p>



<p>Essa lógica se enraizou de tal maneira que, mesmo entre os governos mais progressistas, ou ditos de esquerda, o debate sobre a atuação policial e segurança pública é muitas vezes tímido ou insuficiente. Fica a cargo dos movimentos sociais a discussão qualificada sobre o que significa viver na pele o aparato estatal se impondo de maneira letal.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Letalidade está relacionada à fragilidade de fiscalização</h3>



<p>Ao buscar movimentos sociais que lutam contra a letalidade policial em Rondônia, pouca informação aparece na internet. A tímida presença on-line não significa que eles não existam. Mas que precisam ser discretos em uma governança “totalmente militarizada”, explica Ana Valeska, advogada e integrante do <a href="https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/orgaos-colegiados/mnpct/mecanismo-nacional-de-prevencao-e-combate-a-tortura-mnpct" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT)</a>, que atuou durante anos na região norte.</p>



<p>Pachá, por exemplo, assume em 2026, substituindo o coronel Bombeiro Militar Felipe Vital (PSD). O secretário adjunto de segurança é Hélio Gomes Ferreira, um delegado da Polícia Civil. Marcos Rocha, o governador do estado, é um coronel da Polícia Militar.</p>



<p>Corumbiara evidenciou que a letalidade policial avança de mãos dadas com os conflitos fundiários e com a criminalização de movimentos sociais ligados à luta pela terra, o que, além de explicar a discrição desses movimentos, evidencia a inércia dos órgãos fiscalizadores.</p>



<p>O Ministério Público de Rondônia (MPRO), para Valeska, é “silente” e atua com mais força em ações estruturais, como planos de carreira, aquisição de viaturas, armamentos e coletes. Enquanto a fiscalização e o controle externo da atividade policial — <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm#art129" target="_blank" rel="noreferrer noopener">função prevista na Constituição Federal</a> — seguem em segundo plano, inclusive, na apuração de crimes já sabidos.</p>



<p>Um exemplo é que policiais frequentemente fazem segurança privada para fazendeiros em suas folgas. “Isso é um dos elementos que mais alimenta o alto índice de conflitos no campo em Rondônia”, comenta a advogada. Quando os chamados “pistoleiros” ou “jagunços” trocam tiros, integram o dado de letalidade policial, que inclui as ações dos policiais de folga.</p>



<p>Na Bahia, a governança militarizada não aparece nas patentes que antecedem o nome dos ocupantes de cargos públicos, mas em práticas consolidadas ao longo de 19 anos do PT no poder.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-5-300x176.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-5.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-5.jpg" alt="A foto em preto e branco mostra um grupo grande de pessoas reunidas ao ar livre, formando um círculo em torno de um homem que parece conduzir uma fala ou ritual. No centro, há objetos dispostos no chão — tecidos, flores e papéis — enquanto os demais observam atentamente. A cena transmite um momento de coletividade e expressão comunitária, ligado a uma homenagem, protesto ou cerimônia simbólica, em meio à vegetação densa ao redor." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
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                                            <span>Crédito: Rafael Bonifácio/Ponte Jornalismo</span>
                                    </figcaption>
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<p>Moreira observa que, justamente por o partido carregar uma imagem de progressista, fiscalizar a atuação das polícias ou reivindicar políticas de segurança pública mais transparentes e participativas é tido como oposição ao governo. “E fazer oposição num estado que apresenta índices de aprovação em primeiro turno tão marcantes como o PT na Bahia é muito difícil”.</p>



<p>Wagner, contudo, não acredita que a resposta esteja numa gestão que se apresenta como conservadora. A experiência vista em outros estados reforça que mesmo políticas com resultados animadores no controle da letalidade vêm sendo substituídas por uma retórica de autonomia das forças de segurança em diversos territórios.</p>



<p>É justamente o que aconteceu em São Paulo, onde mecanismos criados em resposta a episódios de violência policial passaram a ser desmontados por uma gestão que reivindica maior autonomia para as forças de segurança.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A estratégia política de recuar</strong></h3>



<p>Um William Bonner ainda de cabelos castanhos e na bancada do Jornal Nacional, inicia o programa: <a href="https://globoplay.globo.com/v/3550535/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Abuso, violência e covardia: soldados da PM de São Paulo transformam batidas na periferia em sessões de terror”</a>. A voz grave de Marcelo Rezende narra: “Município de Diadema, na Grande São Paulo, meia-noite e sete minutos do dia 3 deste mês”. Era março de 1997 e a letalidade policial de São Paulo estampava o horário nobre do principal noticiário nacional.</p>



<p>Na tela, uma gravação amadora flagrava policiais do 22º Batalhão de Polícia Militar agredindo moradores durante uma batida policial. Um homem negro é levado para um beco lateral e espancado por um dos policiais por oito minutos. Ele chora e geme de dor. Rezende narra quando um segundo agente se aproxima e atira. Segundos depois, o policial que batia deixa o beco massageando os braços. Quem atirou, ri. No dia seguinte, um homem é morto pelo mesmo pelotão numa segunda noite de batida policial na comunidade.</p>



<p>O episódio ficou conhecido como o “Caso da Favela Naval”. Mário Covas (PSDB), governador à época, reuniu uma coletiva de imprensa e anunciou a prisão preliminar dos policiais envolvidos, a instauração de um inquérito policial-militar e o estudo, pela corporação, da expulsão de 10 soldados envolvidos.</p>



<p>Covas não era contra a letalidade policial, mas fez o que Almir Felitte, advogado e mestre em Direito pela Faculdade de Ribeirão Preto (USP), aponta como uma estratégia política. Mesmo fomentando o endurecimento penal em seus discursos eleitorais, ao registrar picos de violência, governantes recuam para tentar frear o desgaste público.</p>



<p>Em São Paulo, essa estratégia de recuo diante do desgaste provocado pela violência policial voltaria a aparecer mais de duas décadas depois, com o programa Olho Vivo — câmeras operacionais portáteis acopladas aos uniformes dos policiais militares. O projeto foi implementado pelo governador João Doria (PSDB) como uma resposta ao <a href="https://ponte.org/o-que-foi-o-massacre-de-paraisopolis/">Massacre de Paraisópolis,</a> <a href="https://ponte.org/o-que-foi-o-massacre-de-paraisopolis/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">quando nove jovens morreram por asfixia e pisoteamento durante uma ação da PM em um baile funk, em dezembro de 2019</a>.</p>



<p>Nas primeiras horas do dia seguinte às mortes, antes de qualquer investigação, Doria disse: “A letalidade não foi provocada pela Polícia Militar. E sim, por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk. Não podemos inverter o processo”. Depois, pediu o afastamento dos policiais envolvidos na ocorrência e começou a incentivar programas de controle da letalidade.</p>



<p>Com <a href="https://ponte.org/tag/tarcisio-de-freitas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Tarcísio de Freitas (Republicanos)</a>, esse freio político deixou de funcionar da mesma maneira. Além de paralisar a criação de novos mecanismos de controle e fiscalização, o atual governador de São Paulo e candidato à reeleição optou por retroceder programas já existentes.</p>



<p><strong>Falta de freio político promove crise de violência policial</strong></p>



<p>Durante o período de transição, em 2022, a equipe de <a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/10/tarcisio-quer-adotar-modelo-do-rj-que-acaba-com-a-secretaria-da-seguranca.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Tarcísio estudou propor um modelo descentralizado de governança das polícias inspirado no Rio de Janeiro</a> — que, como veremos adiante, também tem números altos de letalidade policial — que extinguiria a <a href="https://ponte.org/tag/SSP/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP)</a>.</p>



<p>Diante da movimentação que isso causou, Tarcísio deu um suave passo para trás. Não encerrou a pasta, mas a deixou sob comando de <a href="https://ponte.org/tag/guilherme-derrite/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Guilherme Derrite (PP)</a>, <a href="https://ponte.org/quem-e-guilherme-derrite-secretario-de-tarcisio-indicado-como-relator-do-pl-antifaccao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ex-tenente</a> das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA). Ao fazer isso, eliminou a tradicional intermediação civil entre o Executivo e as tropas, aponta Felitte.</p>



<p>Esse caminho de retrocessos, traçado sob a justificativa da autonomia policial, chegou ao programa <a href="https://ponte.org/tag/olho-vivo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Olho Vivo</a>: Tarcísio afirmou <a href="https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/01/02/tarcisio-questiona-efetividade-de-pms-com-cameras-apesar-dos-numeros.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">que a efetividade das câmeras corporais para a segurança do cidadão “é nenhuma”</a> e <a href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/02/sp-corta-r-37-milhoes-do-programa-de-cameras-corporais-em-policiais/">retirou R$ 15,2 milhões em investimentos já no primeiro ano de gestão</a>, além de prever o fim da gravação ininterrupta.</p>



<p>O relatório <a href="https://institutocidadesegura.com.br/portfolio/producao-do-conhecimento/https-institutocidadesegura-com-br-wp-content-uploads-2026-08-relatorio_sistematizacao_policiamento_baseado_em_evidencias_vs1-pdf/">“Polícia que Funciona”</a> aponta que as câmeras corporais reduziram tanto a letalidade policial (−45% a −90%) quanto o uso da força (−51% a −63%) nos estados em que a política foi implementada.</p>



<p>Foi também na gestão Tarcísio que as <a href="https://ponte.org/tag/operacao-escudo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Operações Escudo</a> e <a href="https://ponte.org/tag/operacao-verao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Verão </a>— consideradas as ações policiais mais letais desde o Massacre do Carandiru e os <a href="https://conteudo.ponte.org/crimes-de-maio-o-massacre-que-o-pais-ignora/?_gl=1*ei8vyz*_gcl_au*MTUyMTI5ODE4Mi4xNzg1ODc1NDI5Li0uLS4xNzg1ODc1NDMwLjExODAyMzcyOS4xNzg2NzMxMjE2LjE3ODY3MzU5ODA.*_ga*MTg1NzM5MDgzMi4xNzc4MDkxMTYz*_ga_V3P7820XXT*czE3ODY3MzMwNzkkbzIwMiRnMSR0MTc4NjczNTk4MCRqNDQkbDAkaDA." target="_blank" rel="noreferrer noopener">Crimes de Maio</a>, com 84 civis e três policiais mortos — aconteceram. “Pela primeira vez em São Paulo, nós vemos uma crise de violência policial que não tem nenhum freio político. E o que nós temos como resultado são três anos de uma crise de violência policial enorme”, resume Almir.</p>



<p>O caso paulista mostra, portanto, que mecanismos capazes de conter a letalidade não dependem apenas de sua existência formal. Dependem também da disposição política dos governos para mantê-los e enfrentar as próprias forças de segurança quando elas produzem violência.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-6-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-6-1024x769.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/letalidade-policial-6-1024x769.jpg" alt="A imagem parece ser um registro de vídeo datado de 3 de março de 1997, às 12h18 da madrugada, mostrando dois policiais uniformizados interagindo de forma tensa com uma pessoa vestida com um casaco claro, em uma rua iluminada artificialmente. O enquadramento e a qualidade granulada sugerem uma gravação de câmera de segurança ou reportagem televisiva. Ao fundo, há um veículo estacionado, e o ambiente transmite uma atmosfera de abordagem policial noturna." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Policial dá tapa no rosto de morador da Favela Naval, em Diadema (SP)
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Rede Globo/Reprodução</span>
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                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>“Venceu a segurança pública”</strong></h3>



<p>No Rio de Janeiro, a relação entre controle e letalidade é ainda mais evidente. Em 28 de outubro de 2025, o país amanheceu com uma das cenas mais marcantes e viscerais da história nacional. As imagens, amplamente transmitidas na TV aberta e estampadas nas capas dos jornais, mostravam dezenas de corpos — a maioria negros — estendidos em cadência na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro.</p>



<p>Aquele era o “resultado” da investida policial mais letal da história do Brasil: 121 pessoas assassinadas na <a href="https://ponte.org/tag/operacao-contencao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Operação Contenção</a>, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, pelas polícias civil e militar do Rio.</p>



<p>Alguns anos antes, durante a pandemia de Covid-19, o <a href="https://ponte.org/tag/supremo-tribunal-federal/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Supremo Tribunal Federal (STF)</a> impôs restrições às operações policiais no estado no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como <a href="https://ponte.org/tag/ADPF-DAS-FAVELAS/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ADPF das Favelas</a>.</p>



<p>Ela foi proposta em 2019 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), com apoio de entidades civis e movimentos sociais, para denunciar o uso desproporcional da força policial no estado. Naquele ano, <a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/06/pretos-e-pardos-sao-78percent-dos-mortos-em-acoes-policiais-no-rj-em-2019-e-o-negro-que-sofre-essa-inseguranca-diz-mae-de-agatha.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">1.814 pessoas tinham sido mortas pelas polícias no Rio de Janeiro. </a>Além de impor restrições a operações policiais, a ação obrigou o Estado a apresentar um plano de redução de letalidade, com uso de câmeras corporais e protocolos de transparência.</p>



<p><a href="https://observatorioseguranca.com.br/tres-anos-da-adpf-das-favelas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um estudo publicado em maio de 2023 pela Rede Observatórios</a> calculou que, “nos primeiros meses em vigor [da ADPF], de junho a setembro, o Rio teve 191 óbitos, frente a 675 no mesmo intervalo do ano anterior, uma redução de quase 72%”. Contudo, os pesquisadores já alertavam que grupos conservadores e forças de segurança iniciavam uma ofensiva contra a medida e retomavam, aos poucos, a letalidade.</p>



<p>Mesmo assim, o número de pessoas mortas pela polícia baixou de 1.814 em 2019 para 699 em 2024, uma queda de mais de 61%, informaram os advogados Daniel Sarmento e Ademar Borges, que atuavam na ADPF, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/02/a-adpf-das-favelas-e-o-supremo.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em artigo publicado na Folha de S. Paulo</a>.</p>



<p>Nada disso, contudo, significou uma mudança de paradigma na política de segurança do Rio de Janeiro. A concepção sobre como as polícias deveriam atuar nas comunidades e enfrentar o crime permaneceu, em seus aspectos centrais, a mesma, sem uma inflexão significativa na visão do governador, de seus secretários ou das próprias forças policiais.</p>



<p>Nesse contexto, causou espanto que, em abril de 2025, o STF tenha concluído o julgamento da ADPF e declarado encerrado o estado de coisas inconstitucional na segurança pública fluminense, reconhecendo um “compromisso significativo” do estado em cessar as violações. Cláudio Castro (PL), então governador, comemorou: “Venceu a segurança pública do Rio de Janeiro”.</p>



<p>Seis meses depois, ao ser questionado pelo Supremo sobre o Massacre do Alemão e da Penha, Castro disse que a incursão policial <a href="https://www.cartacapital.com.br/politica/as-alegacoes-de-castro-a-moraes-sobre-a-operacao-mais-letal-do-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“observou os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência”</a>. Em entrevista coletiva, reforçou que “<a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/10/de-vitima-ontem-so-tivemos-os-policiais-diz-governador-claudio-castro-pl.shtml">de vítima, ontem, lá, só tivemos os policiais</a>“.</p>



<p>A narrativa do ex-governador contrasta com o que <a href="https://ponte.org/carreguei-mais-de-80-corpos-relatos-do-terror-nos-complexos-da-penha-e-do-alemao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">moradores disseram à <strong>Ponte </strong>sobre o massacre</a>. À reportagem, eles relataram horas de tiroteios, famílias em busca de parentes e dezenas de corpos deixados na mata, cuja retirada ficou a cargo dos próprios moradores.</p>



<p>Entre a queda da letalidade registrada durante a vigência das restrições da ADPF e o massacre, o Rio explicita o mesmo ponto observado em São Paulo: quando mecanismos externos impõem limites à atuação policial, as mortes podem cair; quando o poder político trata esses limites como obstáculos à segurança, o custo aparece nos corpos.</p>



<p><strong>Quem responde pelas mortes da polícia?</strong></p>



<p>De Rondônia ao Rio de Janeiro, os casos mostraram formas diferentes de uma mesma relação entre violência policial e poder político. Isso não significa que governadores comandem cada decisão tomada por corporações que preservam estruturas, interesses e práticas próprias. Mas tampouco permite tratar a letalidade como uma sucessão de decisões individuais de policiais em supostos confrontos.</p>



<p>Como aponta Felitte, desde 2018, o país registra um número inédito de agentes de segurança eleitos para o Congresso Nacional. O pesquisador observa que, na última legislatura, policiais chegaram a ocupar 10% das cadeiras da Câmara dos Deputados, embora representem menos de 1% da população brasileira.</p>



<p>Essa super-representação integra um projeto que tem como pilar a defesa da autonomia operacional em relação à sociedade civil. Disseminou-se na corporação o discurso de que entidades de direitos humanos e governos civis são obstáculos ao trabalho policial, o que justificaria a violência sistêmica como um mero sintoma ou exceção.</p>



<p>“Isso explica por que nós vemos esse problema num governo do PT na Bahia, num governo do PL no Rio de Janeiro, num governo do Republicanos em São Paulo. São problemas que são da ordem de cada governo, mas são também da ordem de cada polícia, de cada instituição”, explica Felitte.</p>



<p>É nessa fronteira entre a autonomia das corporações e a responsabilidade de quem governa que a letalidade policial entra nas eleições de 2026. Se governadores nomeiam secretários, definem prioridades, financiam programas, mantêm ou desmontam mecanismos de controle e respondem politicamente às mortes produzidas por suas forças, essas escolhas também podem e devem ser cobradas nas urnas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mas, então, qual é o caminho?</strong></h3>



<p>“Nenhum bandido é bom, todos devem ser julgados, punidos e presos”, é o que pensam 73% das pessoas que responderam à pesquisa <a href="https://votepelapaz.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vote pela Paz</a>, do <a href="https://soudapaz.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Sou da Paz</a>. Uma boa parte delas (65%) disse, ainda, que “não precisamos de mais polícia: é preciso uma polícia melhor e mais preparada”.</p>



<p>A resposta está na perigosa ilusão do atalho. Para Almir Felitte, quando um candidato aposta todas as suas fichas na ponta final da cadeia — o armamento pesado e o dedo no gatilho —, o Estado está assinando uma confissão pública de fracasso. É a admissão de que abriu mão da inteligência e da prevenção.</p>



<p>A própria trajetória dos estados analisados mostra que controle da atividade policial e a redução da letalidade não são sinônimos de abandono da segurança pública. Câmeras corporais e restrições a operações, por exemplo, produziram reduções nas mortes sem impedir a atuação das forças de segurança.</p>



<p>A virada de chave para desarmar esse colapso, a longo prazo, exige mudar radicalmente a natureza das investigações. Enquanto megaoperações militarizadas nas favelas seguem letais para a população negra e pobre, ações recentes de inteligência financeira desarticularam esquemas bilionários de lavagem de dinheiro do crime organizado na Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, sem disparar um único tiro.</p>



<p>Para forçar governadores a largarem o espetáculo do confronto e adotarem protocolos de transparência, Felitte defende que a União aperte onde mais dói: no cofre. Um controle orçamentário efetivo que condicione o repasse do Fundo Nacional de Segurança Pública ao cumprimento de metas de redução de letalidade.</p>



<p>Ainda assim, nenhum estado vencerá essa guerra isoladamente. Do ponto de vista estrutural, Wagner Moreira, do IDEAS, alerta que é preciso coordenação transnacional e federal. Mais do que isso: é urgente quebrar o tabu corporativo e repensar a divisão das polícias em castas, separando praças e oficiais.</p>



<p>É preciso, também, voltar os olhos para quem tem poder político para permitir, limitar ou responder a essa violência. Resgatando a metáfora do governador Rui Costa, é hora de parar de cobrar apenas o “artilheiro” e responsabilizar também o técnico do time e a diretoria do clube.</p>



<p>“Se existem falhas acontecendo na ponta, existe uma cadeia de comando. O comandante daquela tropa, o secretário de Segurança Pública e o governador precisam ser responsabilizados, não apenas o policial indivíduo que apertou o gatilho”, adverte o pesquisador baiano.</p>



<p>A sociedade civil, por meio de seus pesquisadores e ativistas sociais, já mapeou dezenas de caminhos possíveis para mitigar a letalidade policial. São iniciativas baseadas em dados e evidências que têm como norte uma segurança pública que englobe a todos, independentemente de bairro, de cor, de crença ou qualquer outro marcador. A resposta já existe e vem do território.</p>



<p>Contudo, como alerta Felitte, há um total desinteresse em ser resolutivo: “Se o problema da violência policial acabar, essa bancada da bala não tem mais voto. Eles sobrevivem politicamente disso. Não querem a solução, porque a solução acabaria com eles mesmos”, conclui.</p>



<p>Nas eleições de 2026, discutir segurança pública exige, portanto, ir além das promessas de mais armas, mais operações ou mais policiais nas ruas. Significa perguntar aos candidatos quem estará no comando das forças de segurança, quais mecanismos de fiscalização pretendem manter ou criar e o que farão, concretamente, para reduzir as mortes provocadas pela polícia.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><b>Esta é a segunda reportagem da série Ponte nas Eleições. Ao longo de seis reportagens, a Ponte vai tratar de temas centrais da segurança pública, com objetivo de ajudar o eleitor a compreender os principais problemas da área, os caminhos apontados por especialistas e o que deve ser observado nas propostas dos candidatos na hora do voto.</b></p>
<p><b>Além da Ponte, as reportagens da série são republicadas por veículos parceiros de diferentes regiões do país: </b><a href="https://conquistareporter.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Conquista Repórter</b></a><b> (BA), </b><a href="https://coletivosargentoperifa.com/" target="_blank" rel="noopener"><b>Sargento Perifa</b></a><b> (PE), </b><a href="https://www.plural.jor.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Plural </b></a><b>(PR),</b><a href="https://projetocolabora.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b> #Colabora </b></a><b>(RJ), </b><a href="https://ehfonte.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Eh Fonte</b></a><b> (MT), </b><a href="https://institutomidiaetnica.org.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Mídia Étnica/Correio Nagô</b></a><b> (BA), </b><b>Marco Zero </b><b>(PE), </b><a href="https://amazoniareal.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Amazônia Real</b></a><b> (AM), </b><a href="https://revistaafirmativa.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Revista Afirmativa </b></a><b>(BA), </b><a href="https://agenciamural.org.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>Agência Mural </b></a><b>(SP), </b><a href="https://catarinas.info/" target="_blank" rel="noopener"><b>Portal Catarinas</b></a><b> (SC) e </b><a href="https://ocatarinao.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><b>O Catarinão</b></a><b> (RJ).</b></p>
    </div>



<p><br></p>



<p><br></p>



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<p>O post <a href="https://marcozero.org/por-que-o-seu-candidato-deveria-falar-da-letalidade-policial-nessas-eleicoes/">Por que o seu candidato deveria falar da letalidade policial nessas eleições? </a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>O seu candidato quer gastar ainda mais com segurança pública. Mas o que é segurança para ele?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2026 22:03:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[policia militar]]></category>
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		<category><![CDATA[ponte jornalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Paulo Batistella, do site Ponte Jornalismo Comece com um exercício de imaginação em que o governo do seu estado passou por uma enorme crise sucessória: o governador renunciou para evitar alguns problemas; o vice dele preferiu pular para um outro cargo público, com menos dor de cabeça e maior estabilidade; e o presidente da [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Paulo Batistella, do site <a href="https://ponte.org/o-seu-candidato-quer-gastar-ainda-mais-com-seguranca-publica-mas-o-que-e-seguranca-para-ele/">Ponte Jornalismo</a></strong></p>



<p>Comece com um exercício de imaginação em que o governo do seu estado passou por uma enorme crise sucessória: o governador renunciou para evitar alguns problemas; o vice dele preferiu pular para um outro cargo público, com menos dor de cabeça e maior estabilidade; e o presidente da Assembleia Legislativa local, que deveria virar o novo chefe do estado, acabou preso.</p>



<p>Do dia para a noite, bateram, então, à porta da sua casa com um anúncio: parabéns, você é a única pessoa que sobrou para assumir o governo! A sua primeira missão agora é definir o orçamento público, ditar para onde vai o dinheiro do estado — que, vale dizer, é limitado, apesar dos tantos impostos recolhidos da população.</p>



<p>Saúde e educação parecem, então, unanimidades para receber a maior parte dos investimentos, certo? Habitação e transporte talvez venham na sequência, para todo mundo ter onde morar e como se locomover. Trabalho, agricultura, indústria, urbanismo e cultura surgem como outras áreas prioritárias. E a segurança pública também é fundamental para você?</p>



<p>Agora tente imaginar um estado que gasta mais com segurança do que com qualquer outra dessas áreas. Se fosse ficção, pareceria um exagero, mas esse estado existe:<a href="https://ponte.org/sp-rj-e-es-poem-seguranca-acima-de-politicas-sociais-e-gastam-mais-com-policiamento/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">trata-se do Rio de Janeiro</a>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/ponte-1-de-1.jpeg" alt="A ilustração mostra um político sorridente, de terno e gravata, com um crachá escrito “VOTE”, fazendo o gesto de vitória com as mãos diante de enormes sacos de dinheiro marcados com cifrões. Em dois deles há as palavras “POLICIAMENTO OSTENSIVO” e “ENCARCERAMENTO”, sugerindo que esses temas recebem grandes investimentos ou são usados como bandeiras eleitorais. A assinatura “Junião – ponte.org” aparece no canto inferior direito. A imagem critica de forma satírica o uso de recursos públicos e discursos políticos voltados para segurança e punição como forma de ganhar votos." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
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                                            <span>Crédito: Junião/ponte.org</span>
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<p>Só em 2026, a segurança pública fluminense deve se apropriar de R$ 19,4 bilhões dos cofres públicos. A saúde e a educação, por exemplo, que costumam ser as maiores pastas de estados e de municípios, terão apenas R$ 13,5 bilhões e R$ 10,9 bilhões, respectivamente.</p>



<p>Parece, então, contraditório perceber que esse mesmo estado, onde a prioridade no uso do dinheiro é a segurança, tem, ainda assim, o maior número de policiais mortos no país, <a href="https://ponte.org/letalidade-policial-piora-no-pais-e-faz-47-vitimas-civis-a-cada-agente-morto-em-supostos-confrontos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">um dos piores índices de letalidade policial</a>, a mais alarmante taxa de roubos, uma das menores taxas de apreensão de armas de fogo, um dos maiores números de feminicídios e <a href="https://ponte.org/a-vitima-desvalorizada-como-o-brasil-escolhe-quais-mortes-vai-esclarecer/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">um dos piores índices de esclarecimento de assassinatos</a>.</p>



<p>Como um estado que gasta tanto com segurança aparece, há décadas, em manchetes de jornais por causa decomunidades violadas por operações policiais violentas e por facções criminosas?</p>



<h2 class="wp-block-heading">Gastos com segurança quase dobram em cinco anos em alguns estados</h2>



<p>Para especialistas ouvidos pela <strong>Ponte</strong>, não há, contudo, contradição nessa realidade. E, para entender o porquê disso, é preciso começar olhando justamente para o orçamento público.</p>



<p>É o que a <strong>Ponte</strong> faz com essa reportagem, a primeira de uma série especial sobre a segurança pública, a <strong><a href="https://ponte.org/categoria/eleicoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ponte nas Eleições</a></strong>, devido ao tema ser colocado em pesquisas de opinião como prioridade para as eleições gerais de 2026. Na mesma medida em que gera apelo político e votos, a área também tem recebido cada vez mais dinheiro dos governantes, sempre dispostos a garantir um novo mandato.</p>



<p>Essa é uma realidade não só do Rio, onde, <a href="https://cbn.globo.com/politica/noticia/2026/07/27/seguranca-publica-e-a-pior-area-do-governo-para-66percent-dos-eleitores-do-rj-aponta-quaest.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo indicou uma pesquisa recente da Quaest</a>, 66% dos eleitores apontaram a segurança pública como a pior área do atual governo. Provisoriamente, o estado é chefiado pelo desembargador Ricardo Couto, que presidia o Tribunal de Justiça local (TJRJ) e assumiu o governo após uma crise sucessória não tão distante de exercícios de imaginação.</p>



<p>Em 2025, conforme mostrou a edição mais recente do<a href="https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Anuário Brasileiro da Segurança Pública</a>,o país gastou R$ 163,12 bilhões com segurança pública. Tratou-se do maior valor destinado à área pelo menos desde 2016, período correspondente à série histórica monitorada pelo anuário, uma publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/ponte-2-de-1.jpeg" alt="A charge política mostra uma pilha enorme de sacos de dinheiro com o símbolo de cifrão e a inscrição “POLICIAMENTO OSTENSIVO”, enquanto, à direita, há apenas um pequeno saco de dinheiro sob uma lupa, acompanhado do texto “OUTRAS POLÍTICAS PÚBLICAS ESSENCIAIS NA ÁREA DE SEGURANÇA”. A assinatura “Junião – ponte.org” aparece no canto inferior direito. A imagem critica de forma irônica a desigualdade na distribuição de recursos públicos, sugerindo que o policiamento recebe grandes investimentos enquanto outras políticas de segurança são negligenciadas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
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                                            <span>Crédito: Junião/ponte.org</span>
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<p>A maior parte do dinheiro veio dos estados, que comandam as polícias militares, civis, técnico-científicas e penais: foram R$ 131,25 bilhões provenientes dos cofres estaduais, o equivalente a 80,5% do total. A União, responsável pela Polícia Federal (PF) e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), veio na sequência, com R$ 18,09 bi. Os municípios, cada vez mais equipados com guardas municipais, aportaram R$ 13,77 bi na área.</p>



<p>Considerando os últimos cinco anos, a região Norte foi a que teve maior aumento de gastos, com uma alta de 38,4% desde 2021, seguida pela região Nordeste (+32,5%). No Piauí, por exemplo, o volume de recursos quase dobrou nesse período (+93,2%), algo parecido com o que ocorreu no Acre (+89,9%).</p>



<p>O Acre foi justamente o estado que teve o maior gasto per capita com segurança pública em 2025, com um saldo de R$ 1.486,52 para cada habitante. O estado foi seguido por outros três da região Norte: Amapá (R$ 1.448,58), Roraima (R$ 1.384,40) e Rondônia (R$ 1.321,41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maior-orcamento-e-dedicado-especialmente-para-policiamento-ostensivo"><strong>Maior orçamento é dedicado especialmente para policiamento ostensivo</strong></h2>



<p>Uma análise detalhada do orçamento dos estados evidencia ainda que a atenção cada vez maior dada à segurança pública tem significado, fundamentalmente, maiores gastos com a Polícia Militar.</p>



<p>Um estudo produzido pela <a href="https://www.justa.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">plataforma Justa</a>, uma entidade civil que monitora o orçamento do sistema de Justiça, identificou que, em 2024, os militares ficaram com quase metade dos R$ 109 bilhões gastos por um grupo de 24 estados com a segurança pública e com o sistema prisional — a pesquisa só não obteve dados de Roraima, Maranhão e Piauí, que, de todo modo, somam apenas 4% do orçamento total dos estados.</p>



<p>Para as polícias militares, cuja principal função é o policiamento ostensivo, realizado por meio de patrulhamento nas ruas, foram repassados R$ 52,2 bilhões. Já as polícias civis e técnico-científicas, focadas em trabalhos investigativos e na produção de provas técnicas, ficaram com R$ 20,2 bi e R$ 2,5 bi, respectivamente.</p>



<p>Ou seja, já ao traçar o orçamento, cada estado decidiu não apenas gastar mais com segurança pública, mas também financiar um modelo específico do que entendem ser segurança.</p>



<p>“É um investimento muito intensivo para a ostensividade. Por esse próprio planejamento, existe a priorização de um modelo de segurança pública de confronto, com essas operações policiais em comunidades, invasões com grande poderio bélico, com a compra de armas, de caveirão, de helicópteros blindados”, diz o advogado Felippe Angeli, coordenador de <em>advocacy</em> do Justa.</p>



<p>Para ele, o policiamento ostensivo é importante, até pela percepção de segurança causada pelo patrulhamento, mas tem evidentes limitações. “A ostensividade tem, por natureza, um resultado policial menor, porque, na maior parte das vezes, ela só consegue coibir crimes em flagrante, que, por natureza, são menos complexos, porque estão acontecendo nas ruas. Então, esse modelo coíbe o roubo no semáforo, o porte da pequena quantidade de droga”, explica.</p>



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	                                        <p class="m-0">Estados concentram na PM os gastos com segurança pública
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<p>Felippe diz entender, portanto, que, já no orçamento, o Estado decide encher o sistema prisional com autores de pequenos delitos em vez de investir, por exemplo, na prisão de grandes traficantes de armas, autores de homicídios e operadores financeiros do crime organizado — porque, para alcançar esses criminosos, uma atuação ostensiva não basta, é preciso bancar um trabalho policial de investigação.</p>



<p>Esse mesmo estudo do Justa, chamado <em>Funil de Investimentos da Segurança Pública e Sistema Prisional</em>, também identificou que, <a href="https://ponte.org/para-cada-r-4-mil-gastos-com-policiais-apenas-r-1-e-investido-em-quem-sai-da-prisao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">para cada R$ 4.877 gastos com as polícias, o poder público dedicou apenas R$ 1 para políticas aos egressos</a>, que permitam a reinserção social de quem já foi preso.</p>



<p>“Eu costumo dizer que a gente basicamente está financiando as facções criminosas com dinheiro público. Porque pegamos esses pequenos criminosos, dos crimes nas ruas, em geral jovens com baixíssimas perspectivas, negros e pobres, e colocamos eles nessas masmorras lotadas e em condições insalubres, ambientes que são muito propícios para as facções [surgirem e cooptarem novos integrantes].”</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-dinheiro-para-as-pms-atende-operacoes-mas-nao-os-policiais">Dinheiro para as PMs atende operações, mas não os policiais</h3>



<p>Os maiores gastos com as polícias, particularmente a militar, têm sido acompanhados ainda de uma outra contradição: as queixas constantes de desvalorização por parte dos próprios policiais, que alegam falta de estrutura em suas carreiras, desvalorização salarial e déficit funcional nas corporações.</p>



<p>A segunda edição do <em><a href="https://forumseguranca.org.br/publicacoes/raio-x-das-forcas-de-seguranca-publica-do-brasil-2026/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil</a></em>, uma pesquisa publicada agora em agosto de 2026 pelo FBSP, indicou que o efetivo disponível de policiais militares, civis e penais corresponde a apenas 64% do previsto pelos próprios estados — isso equivale a 336 mil profissionais a menos do que o número de vagas estabelecidas por lei.</p>



<p>No caso da Polícia Federal, houve, inclusive, perda de efetivo nos últimos anos — de 2023 ao ano passado, ele caiu 2,8%. Isso ainda ocorreu em um momento, conforme destaca o FBSP, em que as competências federais na segurança pública têm sido mais exigidas, no combate a crimes transnacionais, ao crime organizado, à corrupção e a crimes cibernéticos.</p>



<p>O Raio-X publicado pelo FBSP também indicou que os gastos assumidos pelos estados com segurança pública estão longe de serem proporcionais aos salários dedicados aos policiais.</p>



<p>São Paulo, por exemplo, com o maior orçamento do país na área, ocupa apenas a 19ª e a 21ª colocação nas listas dos estados que melhor remuneram, na média, policiais militares e civis, respectivamente.</p>



<p>O Rio de Janeiro, em segundo lugar nos gastos totais com segurança, é só o sétimo que melhor remunera PMs e o 14º na lista de remuneração dos policiais civis. Na sequência, Minas Gerais, com o terceiro orçamento mais robusto na segurança pública, tem a Polícia Civil mais mal paga de todo o país e é apenas o oitavo estado que melhor remunera os militares.</p>



<p>E se o dinheiro que aumenta a cada ano não chega para os trabalhadores da segurança pública, para onde ele vai, então? “Esses orçamentos não são usados para comprar câmeras, para fazer perícia, para uma política de segurança baseada em inteligência. Não é para nada disso. É para aumentar o número de operações, para continuar produzindo uma política de guerra”, diz o historiador Fransérgio Goulart, que é coordenador-executivo da <a href="https://dmjracial.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR)</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-se-seguranca-e-sinonimo-de-guerra-e-seguro-desinvestir"><strong>Se segurança é sinônimo de guerra, é seguro desinvestir</strong></h3>



<p>A entidade civil da qual Fransérgio faz parte passou a monitorar nos últimos anos o orçamento da segurança do Rio, onde está sediada, e de outros estados, o que, a princípio, parecia ser algo incoerente com o maior propósito da organização: enfrentar a violência de Estado.</p>



<p>A medida surgiu, no entanto, justamente como uma tentativa de conter a violência policial, que acomete principalmente a população negra, uma vez que nem mesmo decisões judiciais e protocolos internacionais de uso da força dos quais o Brasil é signatário foram capazes disso — no fim das contas, acima da letra da lei, havia dinheiro e apelo político para sustentar uma guerra.</p>



<p>“Nós começamos a dialogar com um grupo de movimentos negros dos Estados Unidos, de organizações comunistas e anarquistas que se consolidou após a morte de George Floyd [que impulsionou o movimento “Vidas Negras Importam”, em 2020, em Minneapolis], e uma das pautas deles era pensar no que eles chamam de desfinanciamento das polícias. Era um dispositivo novo para tentar controlar a letalidade policial.”</p>



<p>O IDMJR defende hoje, então, o que parece impensável diante do senso comum afoito por mais dinheiro para a segurança: ir justamente no sentido oposto, reduzindo os investimentos em um modelo de polícia que, embora tratado como prioritário, só torna a vida mais insegura.</p>



<p>Uma pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostrou que, de 2007 ao ano da morte de George Floyd, <a href="https://ponte.org/operacoes-policiais-no-rio-viram-megachacinas-na-gestao-castro-poupam-milicias-e-ficam-impunes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">quase 85% das operações policiais no Rio foram pouco eficientes, ineficientes ou desastrosas</a>, no sentido de terem mais mortos e feridos do que prisões de criminosos e apreensões de drogas, armas e itens roubados.</p>



<p>Ou seja, a ideia do IDMJR é retirar dinheiro de um modelo de segurança que prefere equipar policiais para confrontos, em vez de combater, por meio de investigação e inteligência, o mercado ilegal de armas e drogas.</p>



<p>Para isso, a entidade tem dado treinamentos a outros movimentos sociais e incidido junto a parlamentares para convencê-los a remanejar emendas orçamentárias para políticas sociais. Esse trabalho tem sido feito junto de outros movimentos sociais que, assim como o IDMJR, integram o Fórum Popular de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (FPOPSEG).</p>



<p>“Nós não está estamos falando de tirar dinheiro do salário dos policiais. Estamos falando de operacionalização, de estrutura. Estamos falando de desinvestir nesse orçamento de políticas de guerra, da compra de armas letais, de operações. Estamos falando de remanejamento, de tirar dinheiro da compra de um caveirão, que vai produzir mais letalidade, para investir em alimentação escolar, por exemplo.”</p>



<h3 class="wp-block-heading">Segurança baseada em confronto impõe custos também a outras áreas</h3>



<p>Fransérgio diz que esse modelo de segurança pública tem consumido dinheiro não só da própria área, mas também de outras. Ele cita como exemplo as escolas militares, que repetem o militarismo já privilegiado na segurança, mas agora financiado pelo orçamento da educação.</p>



<p>Há ainda impactos orçamentários em outras áreas. O mais evidente deles está na saúde. Um estudo do <a href="https://soudapaz.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Sou da Paz</a> dimensionou o peso sobre o orçamento causado por uma segurança pública que hoje não prioriza, entre outras coisas, o controle de armas de fogo: só em 2024, <a href="https://soudapaz.org/meio-bilhao-de-reais-dos-recursos-federais-destinados-a-saude-foram-gastos-com-internacoes-de-vitimas-da-violencia-armada-nos-ultimos-10-anos-revela-pesquisa-do-instituto-sou-da-paz/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Sistema Único de Saúde (SUS) precisou gastar R$ 42,3 milhões com internações de vítimas da violência armada</a>.</p>



<p>“Existe esse custo direto, de internação, mas existe também uma série de custos indiretos, de pessoas que precisam fazer fisioterapia, que perdem a sua capacidade de trabalho. É um impacto importante”, diz a advogada e socióloga Carolina Ricardo, que é diretora-executiva do Sou da Paz.</p>



<p>“Em locais conflagrados, em que tem muita troca de tiro, existe uma dificuldade de manter profissionais, é necessário fechar unidades de saúde, fechar também escolas, e aí precisa repor aula, lidar com o trauma dos profissionais. E tudo isso é custo, são custos sociais e econômicos”, acrescenta.</p>



<p>Ainda assim, também conforme identificou o Sou da Paz, atualmente apenas seis estados do país têm delegacias especializadas no enfrentamento ao tráfico de armas — Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.</p>



<p>“Nós defendemos a criação de uma delegacia ou ao menos de um departamento com uma equipe alocada, um sistema padronizado das armas apreendidas, investimento em perícia balística. Isso é muito importante, porque arma não é só ferramenta de crime. Ela permite rastrear uma fonte, chegar a uma quadrilha de tráfico de armas, desvendar um homicídio. É uma ferramenta de prova”, diz Carolina.</p>



<p>Mesmo quando o orçamento parece atender o controle de armas, isso nem sempre ocorre de maneira efetiva. No Rio, a antiga gestão de Cláudio Castro (PL) adotou um <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-05/militares-do-bope-vao-receber-bonus-de-r-5-mil-por-apreensao-de-fuzis" target="_blank" rel="noreferrer noopener">bônus de R$ 5 mil para os policiais por cada fuzil apreendido</a>, o que geralmente ocorre em operações de baixa efetividade e de alto custo social e econômico — no Massacre do Alemão e da Penha, no ano passado, por exemplo, <a href="https://ponte.org/operacoes-policiais-no-rio-viram-megachacinas-na-gestao-castro-poupam-milicias-e-ficam-impunes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">houve mais mortes (121), inclusive de policiais, do que fuzis apreendidos (93)</a>.</p>



<p>“Qualquer incentivo financeiro precisa estar atrelado a uma visão política, para não fazer as coisas a qualquer custo. É importante retirar fuzil de circulação, mas ele foi rastreado? Houve uma inteligência investigativa por trás disso? No Rio, nós sabemos, existe um grande problema de corrupção policial. Então, pagar bônus sem mecanismo de auditoria e visão estratégica é arriscado, porque aí nós podemos ver caso de fuzil plantado, de um mesmo fuzil ser apreendido cinco vezes.”</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/ponte-3-de-1.webp" alt="A imagem mostra uma grande multidão reunida em uma rua, cercando uma área onde há cobertores e lençóis cobrindo corpos estendidos no chão, sugerindo um momento de comoção coletiva. As pessoas, de diferentes idades e estilos, observam atentamente, algumas com expressões sérias e outras tentando se aproximar. Há carros estacionados e o ambiente parece urbano e popular, com forte presença de moradores locais. A cena transmite tensão e tristeza." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Massacre do Alemão e da Penha, no Rio, teve mais mortos do que fuzis apreendidos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tomáz Silva/Agência Brasil</span>
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<h3 class="wp-block-heading" id="h-politica-de-seguranca-sem-discussao-sobre-orcamento-e-sonho"><strong>Política de segurança sem discussão sobre orçamento é sonho</strong></h3>



<p>Para Carolina, o bônus, no fim das contas, pareceu mais uma tentativa de se promover politicamente diante de uma população assustada com a violência armada. A especialista diz ainda que, agora nas eleições, essa deve ser uma premissa para se avaliar candidatos: desconfiar dos que prometem usar ainda mais dinheiro público de maneira populista para sustentar uma guerra.</p>



<p>“O candidato que promete só dar mais polícia está te enganando. Claro, o Brasil precisa de polícia, mas não necessariamente de mais polícia. Nós precisamos de uma polícia mais valorizada, mais bem preparada, com melhores condições de trabalho, que olhe para a saúde mental dos policiais. Precisamos de quem olhe para o todo da polícia: além da polícia ostensiva, precisa ter investigação criminal.”</p>



<p>“Eu brinco que nós só costumamos ver candidatos fazendo propaganda com o ‘policial Rambo’, aquele fardado e com um fuzil na mão. Ninguém faz propaganda com um investigador, com o escrivão que está registrando o inquérito, com o perito analisando uma amostra. Então, desconfie, porque nem sempre aquilo que é visível é o que resolve na segurança pública.”</p>



<p>Felippe Angeli, do Justa, concorda com essa avaliação: “Nós precisamos entender segurança para além das polícias — com as polícias, o que é importantíssimo, mas para além delas. Segurança passa por trazer cidadania, urbanismo, trabalho, uma série de questões”.</p>



<p>O especialista diz ainda que o orçamento de segurança precisa ser tratado de maneira integrada principalmente com o sistema prisional e estar sob o mesmo escrutínio que políticos costumam dedicar às políticas sociais.</p>



<p>“Quando nós falamos em segurança pública, é como se houvesse um orçamento paralelo em que não há limite de dinheiro. O Congresso vota, por exemplo, aumento de pena e condições mais rígidas, o que necessariamente vai gerar mais gastos, e nenhum desses projetos discute de onde vai sair o dinheiro. A Faria Lima não questiona, nenhum banco fala nada. Mas quando falamos em redução de alíquota de imposto de renda, aí parece que o país vai quebrar.”</p>



<p>Já Fransérgio Goulart, do IDMJR, diz que mandatos de fato preocupados com a segurança pública precisam construir o orçamento da área em diálogo com quem sofre a violência.</p>



<p>“E é diálogo de verdade, e não de faz de conta. Por que nós falamos em desinvestimento (ou, se preferir, em remanejamento, para não assustar as candidaturas)? Porque, nas nossas formações, nós sempre fazemos um exercício em que o morador vira governador ou governadora por um dia. E aí distribuímos até dinheiro fictício, para construir didaticamente essa discussão sobre orçamento. Nós pedimos para a pessoa investir: a polícia aparece quase sempre zerada. Quase sempre zerada”, diz.</p>



<p>“Então, o que nós propomos dialoga com o que o povo preto e favelado deseja, que é uma política de promoção da vida. É remanejar os recursos que produzem morte para as políticas de promoção da vida. E a disputa do orçamento público é algo estratégico nisso. Ninguém fala de orçamento em campanha, só fala de proposição. E política sem orçamento é sonho.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>Esta é a primeira reportagem da série Ponte nas Eleições. Ao longo de seis reportagens, a Ponte vai tratar de temas centrais da segurança pública, com objetivo de ajudar o eleitor a compreender os principais problemas da área, os caminhos apontados por especialistas e o que deve ser observado nas propostas dos candidatos na hora do voto.</strong></p>
<p><strong>Além da Ponte, as reportagens da série são republicadas por veículos parceiros de diferentes regiões do país: <a href="https://conquistareporter.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conquista Repórter</a> (BA), <a href="https://coletivosargentoperifa.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sargento Perifa</a> (PE), <a href="https://www.plural.jor.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Plural </a>(PR),<a href="https://projetocolabora.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> #Colabora </a>(RJ), <a href="https://ehfonte.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Eh Fonte</a> (MT), <a href="https://institutomidiaetnica.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mídia Étnica/Correio Nagô</a> (BA), <a href="https://marcozero.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Marco Zero </a>(PE), <a href="https://amazoniareal.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Amazônia Real</a> (AM), <a href="https://revistaafirmativa.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Revista Afirmativa </a>(BA), <a href="https://agenciamural.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agência Mural </a>(SP), <a href="https://catarinas.info/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Portal Catarinas</a> (SC) e <a href="https://ocatarinao.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O Catarinão</a> (RJ).</strong></p>
    </div>
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		<title>Herdeiros do mesmo trono (parte 2): Orfeu e Sísifo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 20:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves** Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica quem disputa e por que a disputa é, no fundo, uma questão [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves</strong>**</p>



<p>Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica <em>quem</em> disputa e <em>por que</em> a disputa é, no fundo, uma questão de sucessão, e não de guerra entre mundos opostos. Mas a cidade dos sete portões não basta para explicar <em>como</em> cada um disputa — o gesto, a retórica, o método com que cada herdeiro tenta convencer Pernambuco de que é ele quem rompe o ciclo. Para isso, é preciso outro par de espelhos: Orfeu e Sísifo, dois mitos que não pertencem ao ciclo tebano, mas que emprestam a Tebas o que lhe falta — a psicologia da disputa. Se Etéocles e Polinices dizem o que está em jogo, Orfeu e Sísifo dizem como cada herdeiro joga. É nesse par contraditório que João Campos e Raquel Lyra se inscrevem. Ambos, contudo, evitam a pergunta que o estado deveria formular: o que resta além da sucessão do trono?</p>



<p>Essa disputa não nasce no vazio. Ela é herdeira de um processo concreto: entre 2007 e 2022, o PSB governou Pernambuco por quatro mandatos consecutivos, construindo uma engenharia partidária com alcance real no território.</p>



<p>A morte de Eduardo Campos não encerrou essa estrutura — ela abriu uma disputa interna sobre direção e herança, que a vitória de Paulo Câmara em 2018 ainda conteve dentro de casa. Foi a ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado pelos Campos e a vitória de Raquel Lyra, que rachou publicamente o que antes era administrado internamente. Hoje, dois polos disputam o comando dessa reorganização: de um lado, os Campos tentando recuperar o governo estadual; do outro, Raquel tentando consolidar uma nova hegemonia. Lula funciona como ativo central nessa disputa, mas — como já demonstrado na Parte 1 — apoio não é identidade: é tração eleitoral emprestada, não sangue da casa. É esse terreno fático, e não a mitologia em si, que autoriza a leitura simbólica que segue.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-por-que-raquel-nao-e-bolsonaro-e-joao-nao-e-lula/" class="titulo">Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>João Campos: o Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás</strong></p>



<p>Orfeu obtém dos deuses a graça de resgatar Eurídice sob uma única interdição: não voltar ou olhar para trás até a superfície. João Campos opera em regime invertido. Seu discurso invoca futuro, inovação e modernização, mas sua legitimidade política repousa numa arqueologia permanente — um movimento que Walter Benjamin chamaria de escovar a história a contrapelo, com o objetivo de reivindicar glórias seletivas.</p>



<p>Eduardo Campos é o pai simbólico, herança imediata; Miguel Arraes, o bisavô mítico, que amplia a espessura temporal da linhagem; Lula, o fiador nacional, que ancora o projeto no presente do governo federal. Trata-se de engenharia eleitoral precisa: o passado fornece identidade, Lula oferece capilaridade, e o discurso da modernização tenta transformar essa matéria arcaica em promessa de futuro.</p>



<p>Mas a contradição é interna e cresce com o próprio recurso ao arquivo familiar. Quanto mais João evoca os seus antepassados para definir-se, menos responde ao que efetivamente pretende ser. E há um silêncio significativo nessa genealogia política: Paulo Câmara, seu antigo chefe de gabinete, é sistematicamente omitido. Não se trata de lapso, mas de operação calculada: exclui-se o elo que aproximaria o herdeiro do desgaste do ciclo PSB de dezesseis anos, preservam-se os ícones imunes à corrosão do tempo.</p>



<p>João é, assim, Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás. Sua novidade não reside no conteúdo do projeto, mas na seleção dos mortos que o autorizam a falar em nome da vida futura.</p>



<p><strong>Raquel Lyra: Sísifo e a pedra da ruptura que não cessa de recomeçar</strong></p>



<p>Raquel Lyra constrói sua narrativa por outra via. Em 2022, sua vitória interrompeu a hegemonia do PSB, apresentando-se como antítese à velha ordem. A imagem de renovação tornou-se seu ativo central.</p>



<p>Sísifo, porém, adverte: condenado a rolar um bloco de mármore montanha acima, vê o esforço desfeito no instante em que o topo parece próximo e recomeça, eternamente, o mesmo gesto inútil. A pergunta que o mito impõe à governadora é incômoda: a ruptura de 2022 rompeu efetivamente as estruturas de poder ou apenas transferiu a mão que empurra a mesma pedra?</p>



<p>Sua trajetória não é externa ao universo que ela diz superar. Formada no PSB, forjada em suas redes, Raquel encarna menos uma cesura do que uma recomposição oriunda das elites — o que Maquiavel chamaria de novo príncipe com velhas clientelas. A pedra mudou de empunhadura, mas permanece a mesma: a concentração de poder, a dependência do Estado como mecanismo de reprodução de grupos, a baixa capilaridade das decisões econômicas. Renovação, nesse quadro, não pode se reduzir a troca de atores, estética ou alianças conjunturais. Exige alteração de prioridades, de matriz de desenvolvimento, de relação com as desigualdades estruturais — algo que o mito de Sísifo, justamente, nega ao condenar seu herói à repetição infinita do mesmo.</p>



<p><strong>O que a disputa oculta — e por que isso importa</strong></p>



<p>Os três registros míticos, lidos juntos, convergem. Tebas é o tabuleiro de herdeiros em disputa — a estrutura que Etéocles e Polinices desenham. Orfeu é João, que fala em porvir, mas retroalimenta-se de fantasmas. Sísifo é Raquel, que promete ruptura mas reproduz o ciclo. Ambos disputam o trono com gramáticas opostas — um reivindica a memória dos antepassados; a outra, a negação deles. Mas ambos operam dentro do mesmo horizonte: a sucessão, e silenciam sobre o que viria depois dela — exatamente como Etéocles e Polinices, cuja disputa termina em fratricídio nos portões da cidade, sem que nada realmente mude, e o poder simplesmente passa a Creonte por decreto.</p>



<p>O que está em jogo, portanto, não é a qualidade da herança, mas a própria herança como categoria política. Hegel, na Fenomenologia do Espírito, mostrou que o senhor só é senhor porque o escravo o reconhece como tal; o trono só existe enquanto os súditos aceitarem sua necessidade. A pergunta incômoda que nenhum dos dois candidatos formula é: por que Pernambuco precisa de um trono? Por que o futuro deve ser eternamente apresentado como escolha entre pretendentes de uma mesma linhagem, ainda que com roupagens diferentes?</p>



<p>Na falta de um projeto substantivo para o estado, a disputa simbólica torna-se o campo decisivo. João escava Arraes e Eduardo; Raquel escava a própria vitória de 2022 como fetiche de novidade. É uma eleição em que os candidatos competem menos pelo futuro de Pernambuco do que pela autoridade para interpretar o passado que lhes daria direito a ocupá-lo.</p>



<p>Essa é uma armadilha de época, em que o historicismo empático com os vencedores transforma a tradição em mercadoria de legitimação. Pernambuco não precisa saber quem é o mais legítimo herdeiro de Eduardo, o mais fiel a Arraes, o mais próximo de Lula ou o mais rompido com o PSB. Precisa saber qual projeto enfrenta a fome, o subemprego, a concentração fundiária, a precarização do serviço público — variáveis que nenhuma genealogia resolve.</p>



<p><strong>Recusar a tragédia tebana</strong></p>



<p>É nesse ponto que a esquerda, em particular, deve escapar do papel de coro auxiliar de um dos irmãos em contenda. Não lhe cabe escolher entre Orfeu e Sísifo, entre o nostálgico e o reiterativo — nem torcer, como o coro de Tebas, para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade.</p>



<p>A tarefa é outra, mais espinosana: distinguir entre <em>potentia</em> (capacidade de agir coletivamente) e <em>potestas</em> (poder constituído sobre os corpos). O trono é <em>potestas</em> pura — concentração que se perpetua. A política que interessa é a que não quer ocupar o trono, mas dissolver sua própria necessidade; que não pergunta qual dos dois será o próximo faraó, mas por que ainda há faraós.</p>



<p>Essa recusa, porém, não pode ficar apenas no plano simbólico — sob risco de repetir, em chave filosófica, o mesmo silêncio que se cobra dos herdeiros. Dissolver a necessidade do trono significa, concretamente, perguntar o que nenhum dos dois candidatos pergunta: quais propostas enfrentam o déficit habitacional, o saneamento básico e a precarização do trabalho? Que caminhos para a segurança pública não se limitam ao repertório da punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e participação social? Como tratar a concentração econômica e a desigualdade racial como problema estrutural, e não como promessa episódica de governo? É nessas perguntas, e não na genealogia de quem tem o sangue mais legítimo, que se mede a diferença entre potentia e potestas.</p>



<p>João olha para trás para forjar o amanhã. Raquel empurra a pedra da renovação em direção ao mesmo cume. Ambos disputam Tebas. Mas Pernambuco talvez precise de uma política que não deseje apenas herdar o reino, e sim tornar o reino irrelevante.</p>



<p>Essa, sim, seria a verdadeira ruptura. Não escolher entre Orfeu e Sísifo.</p>



<p>É sair de Tebas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong> Tiago Paraíba integra a executiva nacional do PSOL e militante da Ação Negra.</p>
<p><strong>**</strong>Michel Chaves é historiador e economista.</p>
    </div>
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		<title>“Voto pela convivência com o Semiárido” é a nova campanha da ASA para as Eleições 2026</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 18:35:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Helena Dias*, publicado originalmente pela Articulação do Semiárido Brasileiro Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Helena Dias*, publicado originalmente pela <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/25/voto-pela-convivencia-com-o-semiarido-2026/">Articulação do Semiárido Brasileiro</a></strong></p>



<p>Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de Brasil, seja no voto para a presidência da República, governos e assembleias estaduais, para a Câmara e o Senado Federal.</p>



<p>É neste contexto que a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) apresenta a campanha “Voto pela convivência com o Semiárido” com foco na conscientização sobre a direta ligação entre o avanço das políticas públicas de convivência e o voto em candidaturas comprometidas com a vida das pessoas do território. Sua primeira ação foi o lançamento da <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/17/asa-lanca-carta-politica-para-as-eleicoes-2026/">Carta Política da ASA para as Eleições 2026</a>.</p>



<p>“Nós só vamos conseguir disputar o orçamento público para as políticas de convivência com o Semiárido se a gente tiver um governo democrático, votar para isso. Precisamos avançar no nosso projeto político e isso só vai acontecer se a gente conseguir manter o país nesse caminho que ele está agora, ir avançando na democracia. Tendo a possibilidade de debater, de discutir, de dialogar, de apresentar propostas e de disputar o orçamento do país”, aponta Cícero Félix, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A campanha se posiciona na defesa da reeleição do presidente Lula (PT) e tem caráter de mobilização territorial, seu público alvo são as famílias do Semiárido, sobretudo mulheres e juventudes. As mulheres continuam sendo maioria do eleitorado brasileiro (52,8%) e o Nordeste é a região que concentra a maior parte de eleitores e eleitoras jovens (entre 16 e 18 anos) do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1.webp" alt="A imagem mostra um grupo de pessoas reunidas ao ar livre, segurando várias bandeiras brancas com o logotipo e o texto “ASA – Articulação Semiárido Brasileiro”. As bandeiras têm um desenho colorido que lembra um globo, e os participantes usam bonés claros. O cenário é ensolarado, com árvores ao fundo, e transmite a ideia de um evento coletivo ou manifestação organizada em defesa de causas relacionadas ao semiárido e à sustentabilidade." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Campanha quer alcançar e mobilizar famílias do Semiárido brasileiro
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo/ASA Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O diálogo com as juventudes é prioritário quando o assunto é voto e participação política. Entre 2022 e 2026, o registro eleitoral de pessoas com 16 a 17 anos caiu de 42,9% para 27,6%. Ou seja, 70% da população brasileira nessa faixa etária chegará às eleições deste ano sem título de eleitor. Historicamente, essa participação das juventudes nas eleições vem diminuindo desde 2014.</p>



<p>“A gente não pode perder de vista a nossa capacidade de articulação da base, o Semiárido é isso. Eu acho que a gente tá conseguindo trazer os companheiros e as companheiras para esse debate, para incidir nos nossos territórios. Nossas vidas todas, nossa forma de viver nos próximos anos está em jogo”, pontua Roselita Vitor, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A iniciativa da Articulação tem parceria com outras campanhas, como é o caso da<a href="https://drive.google.com/drive/folders/1VQWKFudAAS08Yj5P8mW3HbutWnBskdBI?usp=drive_link" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agroecologia nas Eleições</a>, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).</p>



<h2 class="wp-block-heading">A força dos territórios</h2>



<p>Com caravanas territoriais e estratégias digitais de comunicação, a iniciativa centra forças no orgulho do povo do Semiárido pelas conquistas de políticas como o <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p1mc/">Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p12/">Uma Terra e Duas Águas (P1+2)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/sementes-do-semiarido/">Sementes do Semiárido</a> e o projeto <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/quintais-das-margaridas/">Quintais das Margaridas</a>.</p>



<p>A campanha incentiva a valorização dessas políticas resgatando a memória de luta da ASA como forma de demarcar os avanços que o Semiárido deseja a partir das Eleições 2026: universalização da primeira e da segunda água, saneamento rural, democratização do acesso à energia fotovoltaica, fortalecimento do combate à violência contra a mulher e da divisão justa do trabalho doméstico.</p>



<p>Todos os temas abordados na “Voto pela convivência com o Semiárido” estão detalhados na Carta Política da ASA. Apesar das ações priorizarem as famílias do território, a Articulação pretende engajar a sociedade civil em geral por este voto. Candidaturas novas e à reeleição, próximas ao Semiárido, ao campo agroecológico e da agricultura familiar estão sendo mapeadas para dialogar com as reivindicações da campanha.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1.jpg" alt="A imagem mostra um homem e uma mulher em um ambiente rural, cercados por vegetação verde e céu azul. O homem, de camisa azul, segura uma bandeja com uma abóbora e vários tomates pequenos, enquanto a mulher, de blusa vermelha e chapéu de palha, segura um grande repolho. Ambos sorriem, transmitindo orgulho pela colheita. O cenário sugere uma horta ou pequena propriedade agrícola, com plantas e árvores ao fundo, simbolizando o cultivo sustentável e o vínculo com a terra." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Divisão justa do trabalho doméstico é um dos focos da campanha
</p>
	                
                                            <span>Crédito: João Gabriel Marins/ASA Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Histórico</h3>



<p>Historicamente, a Articulação vem denunciando o clientelismo eleitoral no território, por meio da campanha <a href="https://asabrasil.org.br/campanha/nao-troque-seu-voto/">Não Troque Seu Voto</a>. A nova campanha, “Voto pela convivência com o Semiárido”, vem para ampliar a reflexão, mantendo a voz de denúncia, mas também evidenciando a necessidade de um voto afirmativo em defesa do território.</p>



<p>A troca de voto por favores ainda é muito recorrente no Semiárido, fragiliza a autonomia política das famílias e alimenta relações de dependência. No Brasil, uma em cada cinco pessoas (22%) diz já ter recebido oferta para vender o voto em algum período eleitoral, de acordo com pesquisa da Ipsos-Ipec. Segundo dados da Polícia Federal, a compra de votos está entre os principais motivos para a instauração de inquéritos policiais no âmbito do Codigo Eleitoral, em 2026.</p>



<p>Diante desse cenário, a ASA quer evidenciar que a troca do voto pode oferecer uma vantagem imediata, mas não garante políticas públicas capazes de transformar a vida das famílias de forma duradoura.</p>



<p>Votar pela convivência com o Semiárido é defender água, comida saudável, produção de alimentos, acesso à terra, energia, direitos das mulheres, oportunidades para as juventudes e dignidade para quem vive no território. É defender políticas públicas para uma região onde vive cerca de 15% da população brasileira e que concentra quase 30% da agricultura familiar do país.</p>
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			</item>
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		<title>Como a IA reconfigura a ação política e por que é preciso definir regras rigorosas na disputa eleitoral</title>
		<link>https://marcozero.org/como-a-ia-reconfigura-a-acao-politica-e-por-que-e-preciso-definir-regras-rigorosas-na-disputa-eleitoral/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 17:24:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
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		<category><![CDATA[Inteligência Artificial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Paulo Faltay*Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Paulo Faltay*</strong><br><br>Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo cedendo ao filho o lugar no tradicional “caixote” usado em suas campanhas. Já em 27 de julho, outro vídeo mostra Eduardo empunhando uma bandeira do estado e a passando para João Campos. “A Missa do Vaqueiro é tradição passada de geração em geração”, narra a postagem.</p>



<p>A rememoração é um recurso até batido em campanhas políticas: mobilizar o passado, lembrar de onde viemos para produzir sentido sobre o que podemos ser. Uma fotografia de Eduardo Campos pode evocar sua trajetória, um registro antigo pode relembrar as realizações dos seus governos. Sua imagem pode funcionar como uma espécie de atalho para uma memória política compartilhada. Aliás, tem sido assim há cinco eleições desde a sua morte. Há, porém, uma diferença fundamental entre o gesto de lembrar uma figura política e fazê-la voltar a agir.</p>



<p>A inteligência artificial vai além do arquivo. Ela traz à presença a figura política ausente. É uma tecnonecromancia eleitoral. Uma liderança pode continuar aparecendo, falando e mobilizando apoiadores mesmo quando seu corpo já não está disponível para participar da disputa.</p>



<p>A tecnologia reconstrói a imagem, a fala e os gestos de alguém para produzir momentos que nunca aconteceram. A crescente indistinção entre verdadeiro e falso, entre invencionice e fato é um problema grave, ainda mais em contextos sensíveis como o eleitoral. Mas não quero discutir a capacidade da IA produzir imagens mais ou menos convincentes. A inquietação com os vídeos de Eduardo Campos produzidos por IA me parece ser de outra ordem. É preciso discutir quais são as consequências políticas quando uma figura política ausente não é simplesmente rememorada e passa a ter a capacidade de intervir diretamente no presente. Duas questões são centrais aqui: como a tecnologia está reconfigurando a presença e a ação política e como o domínio desigual dessas ferramentas pode aprofundar assimetrias na própria disputa democrática.</p>



<p>O primeiro aspecto nos convoca a pensar coletivamente novas formas de equacionar e regular plataformas digitais, modelos generativos, campanhas eleitorais, normas jurídicas e práticas de circulação de comunicação política. O segundo aspecto, decorrente do primeiro, carrega a preocupação de como o uso dessas ferramentas pode aprofundar desequilíbrios no próprio jogo democrático. Afinal, grupos políticos com maior capacidade de compreender o funcionamento dessas tecnologias, de mobilizar recursos técnicos especializados e de investir financeiramente na produção e na disseminação desses conteúdos passam a dispor de possibilidades de intervenção, circulação e persuasão que não estão igualmente disponíveis aos demais atores políticos.</p>



<p>Tomemos o exemplo do que aconteceu na convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em um vídeo também produzido com IA, uma representação de Jair Bolsonaro aparece dizendo que escolheu o filho para substituí-lo e pede aos apoiadores que o recebam de braços abertos. A tecnologia não foi utilizada apenas para recordar Bolsonaro. Ela foi mobilizada para fazer com que ele continuasse a falar, para que pudesse demonstrar uma escolha e para legitimar politicamente seu sucessor.</p>



<p>A controvérsia jurídica que se desenrolou após a exibição do vídeo explicita meu ponto. A inteligência artificial altera as próprias condições de presença dos atores políticos. Neste sentido, importa menos se as representações de IA são autênticas, ou se o vídeo em questão poderia ser enquadrado enquanto uma <em>deepfake</em>. O desafio é compreender como os sistemas de IA transformam o próprio significado de representação e participação política. Proibido de se manifestar publicamente, Bolsonaro continuou a participar do debate público com o vídeo. Ou seja, quando a tecnologia permite que uma pessoa continue falando depois que seu corpo perde as condições biológicas ou jurídicas de se manifestar, estamos diante de uma mudança nas próprias condições de ação política.</p>



<p>A política moderna sempre esteve profundamente associada à presença corporal. Discursos, comícios, entrevistas e debates pressupõem um corpo presente, capaz de falar, de se tornar visível e de mobilizar afetos e eleitoras. Este corpo político também se coloca na posição de ser observado, interrompido, confrontado e responsabilizado por suas declarações. A presença física sempre implicou uma forma de exposição às contingências da interação democrática. A inteligência artificial rompe parcialmente essa associação ao dissociar duas dimensões que historicamente caminhavam juntas: a presença política e a vulnerabilidade política. Os avatares preservam a capacidade de estar presente no debate público, mas reduzem a exposição às formas convencionais de contestação.</p>



<p>A ação política passa a ser produzida por uma infraestrutura sociotécnica que permite sua disponibilidade contínua sem submetê-la às mesmas condições de confronto, imprevisibilidade e responsabilização que caracterizam a atuação de um agente político vivo. Nesse sentido, o uso de IA, mais do que uma estratégia de comunicação política, deve ser entendida como a transformação das condições materiais sob as quais esta presença é exercida, deslocando sua dependência do corpo para uma rede composta por modelos computacionais, arquivos digitais, sistemas de recomendação das plataformas, algoritmos e estratégias de campanha.</p>



<p>É bem verdade que a IA não inaugura a distribuição da pessoa política. Nas campanhas digitais, a presença da figura política depende da ação compartilhada de apoiadores e dos algoritmos das plataformas. Mas nem todos os candidatos, partidos e grupos conseguem fazer uma mensagem circular com a mesma intensidade. Capacidade financeira para impulsionar conteúdos, domínio técnico das ferramentas de segmentação e produção, organização de redes de apoiadores, maior adequação às lógicas de funcionamento e mesmo o alinhamento ideológico às políticas das big techs vêm se convertendo em vantagens concretas na disputa pela atenção pública.</p>



<p>As plataformas, portanto, já aprofundaram assimetrias nas condições de visibilidade na disputa política. Com a IA generativa, esse fenômeno passa a depender também de modelos capazes de produzir novas enunciações em nome dessa liderança. A agência deixa de ser apenas distribuída e passa a ser computacionalmente reencenada, permitindo que determinadas capacidades políticas continuem operando mesmo na ausência do corpo biológico. Esse deslocamento transforma a presença política, que permanece disponível para agir, mas em condições profundamente diferentes daquelas que caracterizam a participação democrática tradicional.</p>



<p>Mais do que simples representação mimética da pessoa, os avatares sintéticos passam a funcionar como atualizações parciais da capacidade de agir politicamente. Ou seja, ao invés de reproduzir integralmente o indivíduo, os avatares reativam capacidades específicas, como endossar candidatos, mobilizar afetos e conferir legitimidade, contribuindo para a manutenção de uma figura política que continua produzindo efeitos mesmo na impossibilidade biológica ou jurídica da presença.</p>



<p>Passamos assim para o segundo ponto da inquietação. A democracia depende de uma determinada distribuição e equalização das capacidades de agir. Candidatos podem falar, adversários podem responder, jornalistas podem questionar, eleitores podem avaliar e instituições podem responsabilizar. Em outras palavras, a democracia organiza a participação no debate público, estipulando quem pode agir sobre quem. Quando uma campanha mobiliza um avatar póstumo ou de alguém proibido juridicamente de se manifestar, essa paridade é parcialmente rompida. Enquanto os candidatos vivos e presentes continuam submetidos às regras ordinárias da disputa, podendo ser criticados, responder a acusações, cometer erros, rever posições e prestar contas de suas declarações, o avatar permanece sobretudo como uma fonte estabilizada de autoridade. Ele não improvisa, não pode ser colocado em contradição por novas circunstâncias, não responde a críticas e não está sujeito às formas habituais de responsabilização política. Ainda assim, continua produzindo efeitos no presente ao participar do debate público. A inteligência artificial, nesse sentido, redistribui as condições sob as quais a autoridade pode ser exercida e, sobretudo, contestada na democracia. Os avatares de IA consistem em agentes eleitorais que reúnem capacidades políticas antes incompatíveis. Sua participação é seletiva: preserva a capacidade de influenciar, mas elimina parte das vulnerabilidades inerentes à participação democrática.</p>



<p>A inteligência artificial pode aprofundar as condições de visibilidade desiguais &#8211; já presente nas campanhas plataformizadas &#8211; ao ampliar ainda mais a capacidade daqueles que já dispõem de recursos financeiros, técnicos e organizacionais para produzir conteúdos em escala, testar formatos, ocupar diferentes espaços de circulação e manter determinadas figuras e narrativas permanentemente disponíveis. O risco do uso de IA nas eleições, portanto, reside na concentração desigual da capacidade de produzir presença, visibilidade e influência política.</p>



<p>O problema colocado pela IA nas eleições não pode se restringir à checagem do que é verdadeiro ou falso. Se a plataformização da política já transformou poder econômico, conhecimento técnico e capacidade de mobilização digital em vantagens assimétricas, a expansão das tecnologias generativas pode tornar essas diferenças ainda mais determinantes. Grupos com mais dinheiro podem adquirir maior capacidade de produzir, experimentar, segmentar, distribuir e fazer circular ações políticas. Quando essas capacidades se distribuem de maneira profundamente desigual, o que está em jogo é a própria busca por paridade das condições da disputa eleitoral.</p>



<p>O desafio que se coloca, portanto, é coletivo. Cabe às instituições eleitorais, às instâncias reguladoras, aos agentes políticos, à imprensa e à sociedade discutir quais usos da inteligência artificial devem ser permitidos ou proibidos. Ainda, e mais importante, devemos deliberar sobre quais condições materiais e tecnológicas devem ser estabelecidas para que eleições possam ser disputas paritárias. Preservar a democracia diante das transformações tecnológicas significa enfrentar as desigualdades na capacidade de produzir visibilidade e influência política. Uma eleição democrática não depende apenas de garantir que diferentes atores possam falar, mas de impedir que a capacidade financeira e tecnológica de alguns torne a voz dos demais progressivamente inaudível.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Paulo Faltay é professor de Comunicação no campus do agreste da UFPE, coordenador do Estopim -Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE.</p>
    </div>
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		<title>Data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 20:07:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[consumo de água]]></category>
		<category><![CDATA[data centers]]></category>
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		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Wendal Carmo, do site Mangue Jornalismo Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Wendal Carmo</strong>, <strong>do site <a href="https://manguejornalismo.org/vampiros-de-recursos-naturais-data-centers-previstos-para-sergipe-devem-consumir-mais-energia-do-que-todo-o-estado/">Mangue Jornalismo</a></strong></p>



<p>Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora do Socorro, o empreendimento consumirá 2 gigawatts quando estiver em total funcionamento; o atual consumo de Sergipe é de 700 megawatts.</p>



<p>Com o avanço das Inteligências Artificiais (IAs), cresceu a necessidade de grandes empresas de tecnologia como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), Alphabet (dona do Google), ByteDance (dona do TikTok), Amazon e Microsoft por data centers de hiperescala. Essas são estruturas pensadas para o processamento e armazenamento de enormes volumes de dados, como os necessários para treinar IAs e possibilitar operações com criptomoedas.</p>



<p>Com o grande interesse no Brasil devido à sua larga oferta de energia de fontes renováveis, água e falta de regulamentação, empresas de data centers nacionais e estrangeiras têm negociado diretamente com estados e municípios os termos dos acordos de instalação, lógica aplicada também em Sergipe.</p>



<p>Há cerca de dois anos, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) negocia a instalação de um data center da empresa estadunidense Optimus Technology Group, que inaugurará a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. Empreendimentos instalados em ZPEs recebem generosas desonerações fiscais e devem exportar pelo menos 80% de sua produção. O data center da Optimus ocupará 440 mil m² do total de 880 mil m² da ZPE de Sergipe e terá um centro de formação em IA, segundo comunicados oficiais do governo estadual.</p>



<p>O que parece uma boa notícia para a economia do estado esconde, na verdade, a altíssima demanda de energia para manter as operações ininterruptamente, além da água para resfriamento das máquinas, inclusive com a possibilidade de utilizar captação do Rio São Francisco.</p>



<p>O curta-metragem documental <a href="https://www.youtube.com/watch?v=pQrg-OrKHeI"><em>Vampiros de recursos naturais</em></a>, dirigido por Sarah Lima e as repórteres da Mangue Jornalismo Ana Paula Rocha e Rossella Cecília apresenta essas e outras informações resultantes de meses de investigação. A proposta foi selecionada na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, organizado pelo<a href="https://br.linkedin.com/company/instituto-vladimir-herzog?trk=public_post-text" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Instituto Vladimir Herzog</a>. Foram repassados R$ 6 mil para a realização do curta, que teve orientação da professora Ana Carolina Cavalcanti (DCOS/UFS) e mentoria da jornalista Angelina Nunes.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Sergipe e os “vampiros de recursos naturais” na corrida da IA | 18º Prêmio Jovem Jornalista" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/pQrg-OrKHeI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>Uma das descobertas foi o avanço não de um, mas dois projetos de data centers – o segundo está previsto para o município de Barra dos Coqueiros, mas não foram publicizados números sobre consumo de energia ou água. A localização exata também não foi definida ainda, porém, em entrevista para o documentário, o gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, Carlos Augusto de Albuquerque, afirmou que o data center estará próximo à termelétrica da Eneva, no povoado de Jatobá.</p>



<p>As realizadoras percorreram diferentes localidades para entender qual a situação energética e hídrica dos municípios possivelmente<em></em>afetados caso as estruturas sejam instaladas. Elas constataram a cooperação entusiasmada das administrações públicas locais.</p>



<p>Nossa Senhora do Socorro, por exemplo,<a href="https://www.socorro.se.gov.br/sites/socorro.se.gov.br/files/renuncias-de-receitas/Lei%20Ordin%C3%A1ria%201844%202025%20de%20Nossa%20Senhora%20do%20Socorro%20SE.pdf"> aprovou uma lei em julho de 2025</a> que “Institui o Programa Municipal de Incentivo à Instalação de Data Centers mediante concessão de benefícios tributários e urbanísticos, e dá providências correlatas”. Dentre as benesses, está a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) “pelo prazo de até 10 (dez) anos, prorrogável por mais 5 (cinco) anos, mediante requerimento fundamentado”.</p>



<p>Já em Barra dos Coqueiros, a proximidade com a termelétrica da Eneva e a construção de uma segunda unidade a gás da mesma empresa sugerem que o data center que irá para a cidade pode ser alimentado com energia fóssil, caminho inverso ao preconizado por cientistas climáticos de todo o mundo. Apesar de menos poluente que o carvão mineral ou a queima de petróleo e seus derivados, o consumo de gás é um dos causadores do efeito estufa. Hoje, 20% de toda a reserva conhecida de gás fóssil no Brasil está em Sergipe, e o lobby pró-gás no estado é forte, como mostrou o segundo episódio do podcast<a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV"> </a><em><a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sergipe verde, Sergipe fóssil</a>,</em> lançado pela Mangue em dezembro de 2025.</p>



<p>Segundo levantamento do site <a href="https://www.datacentermap.com/brazil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Data Center Map</a>, o Brasil tem 218 data centers em operação, mas nem todos são de hiperescala. A região Sudeste concentra a quantidade dessas estruturas no país. </p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/Virginia_Tech_-_data_center_Christopher-Bowns.jpg" alt="A imagem mostra o interior de um centro de dados — um ambiente técnico onde ficam fileiras de servidores organizados em racks metálicos pretos. O piso é branco e elevado, típico para permitir a passagem de cabos e ventilação. No teto, há arcos e luminárias que iluminam o corredor central. Ao fundo, vê-se uma porta de vidro que leva a outra sala. O logotipo azul “sgi” indica que o equipamento pertence à Silicon Graphics International, empresa especializada em computação de alto desempenho." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Brasil tem 218 data centers em operação
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Christopher Bowns/Wikimedia Commons</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/data-centers-previstos-para-sergipe-devem-consumir-mais-energia-do-que-todo-o-estado/">Data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 20:13:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[COP]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ulaanbaatar (Mongólia) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da [&#8230;]</p>
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<p><strong>Ulaanbaatar (Mongólia</strong>) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da organização baiana Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), integrante da <a href="https://asabrasil.org.br/publicacao/brazilian-semi-arid-where-climate-solutions-already-thrive/">Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)</a></p>



<p>Essa foi uma das principais mensagens levadas pela delegação da ASA aos debates realizados nesta quarta-feira (19), durante a COP-17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, quando representantes da entidades, organizações parceiras, do Governo Federal e de instituições de pesquisa participaram de atividades sobre manejo da Caatinga e do Cerrado, restauração socioprodutiva, cooperação Sul-Sul, financiamento climático e racismo ambiental.</p>



<p>Embora organizados a partir de diferentes perspectivas, os debates convergiram em um ponto: as populações das terras secas não podem ser tratadas apenas como beneficiárias de projetos. Agricultores e agricultoras familiares, mulheres, indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais precisam participar das decisões e ser reconhecidos como sujeitos centrais da restauração.</p>



<p>Durante o painel “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”, foram abordadas as práticas de regeneração dos territórios e as condições políticas e financeiras necessárias para ampliar essas experiências.</p>



<p>Entre os alertas apresentados esteve o avanço de áreas semiáridas no Brasil. Segundo um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), de 2023, no qual analisou o período entre os anos 1960 a 2020, as áreas do semiárido do país têm crescido a uma taxa média superior a 75 mil km² a cada década.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Esse processo acontece em territórios nos quais milhares de estabelecimentos da agricultura familiar produzem grande parte dos alimentos consumidos pela população. Isso não é apenas uma ameaça à terra, mas também à segurança e soberania alimentar dos povos”, disse o Diretor de Combate à Desertificação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires.</p>
</blockquote>



<p></p>
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