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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>A política está em toda grande literatura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2026 20:16:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Dia do Livro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Publicada originalmente pela Revista Aracá com o título O espaço da opinião nunca fica vazio Nesta entrevista para a Revista Araçá, o ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Eduardo César Maia afirma que a política está em toda grande literatura. O problema não é o tema, é o &#8220;como&#8221;. E o &#8220;como&#8221;, [&#8230;]</p>
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<p><strong>Publicada originalmente pela <a href="https://www.aracarevista.com.br/edicao/27/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Revista Aracá</a> com o título <a href="https://www.aracarevista.com.br/o-espaco-da-opiniao-nunca-fica-vazio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O espaço da opinião nunca fica vazio</a></strong></p>



<p>Nesta entrevista para a Revista Araçá, o ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Eduardo César Maia afirma que a política está em toda grande literatura. O problema não é o tema, é o &#8220;como&#8221;. E o &#8220;como&#8221;, diz ele, é o que a sala de aula e a crítica andam esquecendo.</p>



<p><strong>Quando os seus alunos precisam citar uma referência intelectual para entender o país, quem aparece? Algum escritor pernambucano vivo é citado?</strong></p>



<p><strong>Eduardo César Maia</strong> ー Tenho duas disciplinas que trabalham o pensamento brasileiro: História do Pensamento Brasileiro e Cultura Brasileira, para alunos não de Letras, mas de Comunicação. Utilizo muito a literatura brasileira como fonte do pensamento brasileiro, e não simplesmente o que normalmente se faz, que é trabalhar a sociologia, a história e, às vezes, a economia do Brasil.</p>



<p>Mas devo admitir que, apesar de dar muita atenção ao contemporâneo, não uso nessas duas cadeiras nenhum escritor pernambucano vivo. Vivo, não. Tenho que ser honesto. Enfim, a pergunta me fez pensar, porque realmente não consigo lembrar de citar nessas aulas a opinião de algum escritor. No âmbito mais nacional, diria que sim, já citei e cito alguns, mas pernambucanos vivos eu não citei.</p>



<p><strong>Em Pernambuco, o escritor como referência pública existiu de fato ou é memória da idade de ouro? Em que época e para quem?</strong></p>



<p>Acredito que sim, tanto em Pernambuco quanto em todo o Brasil, houve uma época em que o escritor ou o crítico atuava como um árbitro do debate público. Atualmente, com a ascensão das mídias sociais, o cenário ficou muito mais misturado, o que traz ganhos e perdas. Os ganhos se dão no sentido de uma maior participação, pois qualquer pessoa pode opinar e participar de um debate qualquer. No entanto, fica cada vez mais difícil selecionar o que é uma opinião relevante e intelectualmente embasada do que é simplesmente guerra cultural, como vivenciamos atualmente. Existiram grandes intelectuais pernambucanos que foram direcionadores da cultura. Álvaro Lins foi chamado de imperador da crítica por causa de Drummond de Andrade. Pode-se citar também Gilberto Freyre, que teve uma influência esmagadora em sua época, além de um Ariano ou de um Osman Lins, que escrevia para jornais e também exercia a sua influência. A figura desse intelectual mais específico já teve um grande poder de movimentação cultural. Esse poder continua existindo, mas de forma muito mais diluída devido ao formato de funcionamento das redes.</p>



<p><strong>O lugar de voz intelectual que o escritor ocupava passou para o acadêmico, o jornalista, o influenciador, ou ficou vazio?</strong></p>



<p>O jornalismo tradicional, no qual iniciei minha carreira, deixou de existir em seus moldes originais, dando espaço a novas formas de exercício da opinião pública. O espaço de formação da opinião e da retórica pública nunca fica vazio; sempre há quem o ocupe. Há uma valorização desproporcional da opinião rápida e superficial dos influenciadores digitais, que frequentemente exercem mais impacto do que acadêmicos de formação rigorosa e erudita.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="605" height="744" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto.jpeg" alt="" class="wp-image-77202 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto.jpeg 605w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto-244x300.jpeg 244w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/araca-foto-150x184.jpeg 150w" sizes="(max-width: 605px) 100vw, 605px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>No campo da literatura, é comum ver críticos de excelente formação acadêmica presentes nas redes sociais recebendo pouca atenção, enquanto jovens sem qualificação específica atraem grandes audiências por meio de linguagem acessível ou posturas polêmicas. Em um projeto de pesquisa recente sobre estratégias retóricas da crítica literária contemporânea nos meios digitais, constatamos que não existe relação direta entre qualidade e número de seguidores. </p>
</div></div>



<p></p>



<p>Críticos de excelência costumam dialogar com nichos restritos, enquanto perfis que funcionam como meros publicitários literários — muitas vezes patrocinados por editoras — mobilizam multidões.</p>



<p>O grande público raramente busca um aprofundamento crítico severo; a motivação principal costuma ser a reafirmação de seus próprios pontos de vista ou o pertencimento identitário a uma discussão.</p>



<p><strong>Você acha que o curso de Letras forma leitores para o debate público ou para a própria academia? Essa ponte existe?</strong></p>



<p>Antigamente, o intelectual letrado podia vir de qualquer área e participava do debate público de maneira muito complexa. Falava sobre tudo: religião, política, economia; era, nesse sentido, um intelectual humanista. Acredito que a universidade caminhou e ainda tem caminhado para uma espécie de setorização do conhecimento, de especialização, o que dificulta um pouco a formação do intelectual público. Na verdade, a chave estará na vocação pessoal de cada um.</p>



<p>Considero o curso de Letras um dos melhores nas humanidades até hoje. É muito melhor, por exemplo, do que o curso de Jornalismo que eu fiz. Mas, para dar esse salto para o debate público que você pergunta, a academia teria que incentivar também outro tipo de diálogo voltado para fora dessa setorização.</p>



<p><strong>O meio acadêmico daqui tolera quem pensa diferente da maioria, entre estudantes, escritores e colegas?</strong></p>



<p>Dentro do nosso tempo de emergência das guerras culturais e da atual polarização política, sou um pouco pessimista sobre se o meio acadêmico tolera quem pensa diferente. Acredito que não tolera. Existe um certo nível de tolerância entre quem pensa de forma apenas um pouco diferente, mas certas coisas parecem inaceitáveis. Não diria somente em relação a quem pensa, mas quem problematiza artisticamente qualquer coisa é visto sob suspeita. Tenho escrito sobre isso utilizando um conceito que venho desenvolvendo chamado de hiper-humanização da arte. O tema é abordado em um artigo que publiquei no jornal O Estado de S. Paulo.</p>



<p>O que vejo hoje é uma hipertrofia dos afetos. O que as pessoas parecem buscar, e o que a crítica parece validar nas obras de arte, é um compromisso direto com o que já é sabido e pensado, com os afetos e com uma espécie de retribuição às vítimas da história. Isso ocorre de forma muito clara, em detrimento da pesquisa formal e da avaliação da própria expressão artística. Evidentemente, como se trata de uma generalização, isso deve ser avaliado caso a caso.</p>



<p><strong>Você se lembra de algum caso específico?</strong></p>



<p>São muitos casos. Um de que me lembro de forma muito marcante ocorreu em uma disciplina. Houve uma grande procura por essa disciplina e os alunos se matricularam. Depois disso, porém, a coordenação me chamou informando que um grupo de alunos a havia procurado para problematizar o fato de que, na bibliografia da disciplina, constava “um demônio, uma pessoa do mal”, chamada Gilberto Freyre.</p>



<p>Eles não foram reclamar diretamente comigo, mas solicitaram à coordenação que conversasse comigo sobre a possibilidade de retirar Gilberto Freyre da bibliografia. É claro que eu não aceitei. Respondi que preferia cancelar a disciplina a retirar o autor, pois não faz o menor sentido, dentro de uma cadeira de Cultura ou Pensamento Brasileiro, não trabalhar a perspectiva de Freyre.</p>



<p>Esse é apenas um exemplo de como a academia pode agir a partir de supostas boas intenções, na tentativa de impor um discurso moralmente acima de tudo, do bem e do mal. O que para eles pode parecer uma boa intenção, acabam não percebendo que, na verdade, é uma intolerância.</p>



<p>Um outro caso que lembro como muito interessante, também envolvendo alunos, foi o uso da obra de Nabokov na disciplina. Uma aluna problematizou o fato de ele ser o autor de Lolita e estar no programa, considerando isso inaceitável. Até Machado de Assis já chegou a ser problematizado em minhas salas. A questão não era um texto específico com uma opinião particular, mas o simples fato de usar o autor. O engraçado é perceber que as pessoas criticam sem ter lido a obra, como ocorre claramente com Gilberto Freyre.</p>



<p><strong>O escritor que se posiciona politicamente ganha ou perde como escritor, aos olhos da crítica e da sala de aula?</strong></p>



<p>Do ponto de vista literário ele não ganha nem perde. O posicionamento político fora da literatura não transforma a obra em algo melhor ou pior. No mundo real, no entanto, um posicionamento político pode atrapalhar ou beneficiar um autor, visto que muitos escrevem para a sua própria bolha. O que prejudica a literatura é quando o escritor utiliza essa percepção política pública para obter simpatia, deixando rastros ideológicos em sua obra para receber o beneplácito de um grupo — um ponto sobre o qual Guimarães Rosa falava muito.</p>



<p>O grande desafio não é evitar o tema, pois a política está presente na vida de todos e é um grande tópico da existência humana. É impossível fazer literatura sem política, assim como é impossível uma literatura que não fale de amor ou de outros grandes temas.</p>



<p>A verdadeira dificuldade é encarnar essas ideias e visões de mundo na obra de maneira artística, evitando que se tornem meros esquemas de visões pré-configuradas. Poucos autores conseguem atingir esse feito. A maioria cai em um esquematismo político, tentando explicitar ideologias na narrativa, na criação poética ou na construção de um personagem. Um grande escritor ou escritora pode tratar de quaisquer temas políticos sem nenhum problema; a questão central é o “como” essa abordagem é feita.</p>



<p><strong>O que a literatura consegue dizer que um artigo de opinião ou um post não consegue?</strong></p>



<p>São registros diferentes, que obedecem a retóricas e a propósitos distintos. Um post, um artigo de opinião ou uma argumentação no debate público tenta mover as pessoas em direção a uma visão muito clara das coisas: o que se quer, o que se combate, o que se acha certo e o que se acha errado. A literatura, ou a expressão artística em geral, vai além disso, porque o objetivo literário não se encerra em passar uma mensagem que diga A, B ou C. A expressão artística lida com as ambiguidades, com as possibilidades simbólicas, com a difusão dos significados e, fundamentalmente, também com a forma — ou seja, como forma e fundo se relacionam em uma determinada expressão.</p>



<p>A última coisa que discuti nesse sentido foi um artigo que escrevi na Folha de S. Paulo sobre a questão da forma, após a polêmica envolvendo o depoimento de Aurora Bernardini. A professora, crítica e tradutora do russo que vive no Brasil queixou-se de que a literatura brasileira contemporânea esqueceu a forma e se dedica quase que exclusivamente ao tema. Ela foi muito atacada e eu tentei fazer um artigo de ponderação, porque acredito que o interessante em literatura não é essa disjunção que, na verdade, não cabe: ou forma, ou fundo, ou conteúdo.</p>



<p>O discurso da filosofia, da sociologia e da opinião pública é monológico. Ele se dirige a uma lógica única que precisa ser apreendida, ou que se pretende que seja entendida em um sentido único e determinado. O discurso da arte, não. É um sentido que se espalha, que varia muito de pessoa para pessoa, e aí está a riqueza das grandes obras.</p>



<p>Para exemplificar isso, eu poderia perguntar: qual é o sentido do Romance d’A Pedra do Reino? Essa pergunta não faz o menor sentido, porque o Romance d’A Pedra do Reino é um manancial de sentidos. O mesmo vale para uma obra de Clarice Lispector, Hilda Hilst ou qualquer grande escritor e poeta: o sentido se dilata. É isso que faz a arte ser algo especial, que não se reduz somente ao utilitário ou ao meramente informativo. 6 Ela transcende isso, apesar de que, como qualquer discurso, também tem suas mensagens.</p>
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		<title>Reeleita e mais votada, Dani Portela projeta próximos passos como líder da oposição em PE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 23:14:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[alepe]]></category>
		<category><![CDATA[Dani Portela]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com uma votação que surpreendeu até mesmo sua equipe de campanha — e a extrema-direita nem se fala —, Dani Portela (PT) foi reeleita como a deputada estadual mais votada de Pernambuco este ano. Em sua quinta disputa eleitoral, ela quase quadruplicou a votação de 2022. Os 146.123 votos que recebeu (2,78% dos votos válidos) [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com uma votação que surpreendeu até mesmo sua equipe de campanha — e a extrema-direita nem se fala —, Dani Portela (PT) foi reeleita como a deputada estadual mais votada de Pernambuco este ano. Em sua quinta disputa eleitoral, ela quase quadruplicou a votação de 2022. Os 146.123 votos que recebeu (2,78% dos votos válidos) consolidam seu nome como líder da oposição ao governo Raquel Lyra (PSD) e uma das principais representantes do campo progressista e da esquerda popular no estado.</p>



<p>Em entrevista por telefone, na última terça-feira, 6 de outubro, dois dias após a eleição, Dani analisa sua campanha, reforça sua posição contrária à governadora reeleita, a quem tece duras críticas no campo das políticas públicas para as mulheres, e fala sobre o desejo de disputar o Executivo novamente.</p>



<p>A deputada deve sua expressiva votação a dois fatores principais. Um deles é a sua ida para o PT. “Eu tenho uma relação de profunda gratidão aos 10 anos de PSOL. Eu me formei no PSOL, é um partido relevante e fundamental. Mas, quando o próprio Lula não só me fez o convite como assinou a minha ficha, era inegável que eu estava entrando em um outro momento”, relembra.</p>



<p>Nestas eleições, o PT de Pernambuco triplicou sua bancada na Câmara Federal, com a eleição de Carlos Veras, Liana Cirne e Rosa Amorim. Também ampliou a presença na Alepe, passando de três para cinco cadeiras — com João Paulo, Breno Araújo, João Paulo Costa e Ivete Caetano, além da própria Dani — e terá dois representantes no Senado, Teresa Leitão, que segue seu mandato, e Humberto Costa, reeleito.</p>



<p>“Eu não abaixo nenhuma das bandeiras que eu trazia no PSOL, é a mesma Dani. Não abro mão de nenhuma das nossas lutas nem da radicalidade delas para disputar voto, mas eu venho essa Dani para um partido maior, que, para além do tamanho e da dimensão do PT, tem o lulismo, que é maior do que o próprio partido”, afirma. </p>



<p>Outro fator para a votação histórica, na perspectiva da parlamentar, teria sido a construção coletiva que tem com organizações e movimentos sociais, levando-os “para dentro do espaço institucional”, num “convite a mudar a fotografia do poder”, como ela define, ao reunir, dentro de seu gabinete, quadros técnicos e militantes.</p>



<p>“Há bandeiras que muitas pessoas abaixam na eleição, eu não faço isso. Sou uma militante do movimento feminista, militante organizada no movimento negro e aliada da luta LGBT não apenas na fala, mas na atuação de uma vida inteira. Sou defensora de direitos humanos e advogada popular e, se eu não estivesse na política, estaria em qualquer um desses movimentos, instituições, entidades e organizações da sociedade civil nas mesmas lutas que eu travo do lado do parlamento”, analisa.</p>



<p>“Todos os projetos de lei que a gente conseguiu aprovar — e conseguiu aprovar coisas bem relevantes —, a gente fez a partir dessa perspectiva da qual eu venho, sou de uma linha de feminismo popular e também educadora popular. Uma lei não sai de uma cabeça iluminada de alguém do mandato. Temos as ideias de quem são os nossos sujeitos prioritários e aí a gente dialoga com as organizações e os movimentos que atuam naquele tema”, explica, mostrando que a “receita” dá certo também porque quem colabora se vê representado no resultado.</p>



<p>Uma lei de autoria do mandato que ficou em alta, durante a corrida eleitoral, foi a nº 18.437/2023, de combate à violência na gravidez e no parto. A lei atualizou o conceito de violência obstétrica para reconhecer o racismo obstétrico como uma de suas formas e responsabilizar quem a pratica, além de fortalecer a proteção às gestantes, parturientes e puérperas.</p>



<p>O projeto foi amplamente citado, no último mês, em contraponto à frase de Raquel “faz sem ela saber”, ao sugerir um procedimento de laqueadura sem consentimento em uma mãe de sete filhos. Depois que o vídeo, gravado em 2025, viralizou, a governadora reconheceu o erro e pediu desculpas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Alvo do ódio digital</h2>



<p>“Nós tínhamos consciência do trabalho que fizemos em quatro anos. Mas, também pelo próprio fato de ser liderança da oposição, eu nunca fui tão atacada em toda a minha vida política. Então, ao mesmo tempo em que a gente tinha consciência do que foi feito, também sofremos uma onda de ataques do gabinete do ódio. A gente não sabia o efeito negativo que isso podia trazer”, revela Dani.</p>



<p>“A votação expressiva que eu tive não surpreendeu somente a gente. Surpreende também os coronéis da política”, ressalva, lembrando que, nos corredores da Alepe, se dizia que ela estaria fora da próxima legislatura.</p>



<p>Ela apontou, no último ano, para a existência de supostas milícias digitais para atacar opositores do governo do estado de Pernambuco. Um dos principais episódios dessa disputa foi a representação feita, de forma anônima, pelo então assessor especial do gabinete da governadora Raquel, Manoel Pires Medeiros Neto, que também concorreu a deputado estadual, mas se saiu mal, conquistando pouco mais de 5 mil votos.</p>



<p>O caso aconteceu depois de a deputada ter feito o requerimento que deu origem à CPI da Publicidade na Alepe, uma comissão para apurar possíveis irregularidades em contratos firmados pelo governo estadual com agências de comunicação. Na denúncia de Manoel, Dani foi acusada de contratar uma empresa-fantasma de automação de dados ligada a Wildson Pinto Coutinho, tio de Jesualdo de Albuquerque Campos Júnior, seu marido.</p>



<p>Em setembro de 2025, o Ministério Público de Contas de Pernambuco (MPC), que atua junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), considerou que a documentação apresentada por Dani não caracterizava a empresa como “fantasma” e encerrou a apuração, arquivando a denúncia.</p>



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                                            <span>Crédito: Géssica Amorim/Divulgação</span>
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<p>Mas, além de avaliar a própria vitória e o tamanho com que o PT de Pernambuco sai das urnas em 2026, Dani chama para uma reflexão, ao lembrar que o segundo colocado para a Alepe foi o vereador do Recife Gilson Machado Filho (Podemos), com 132.322 votos, mas que, até o início deste ano, estava no PL. Ele é filho do sanfoneiro e forte aliado do bolsonarismo Gilson Machado, ministro do Turismo no governo Jair Bolsonaro.</p>



<p>“Isso precisa trazer para nós uma reflexão de como a gente avança nas nossas lutas para além da polarização”, comenta Dani. “Mesmo Raquel tendo sido reeleita, a mulher que liderou a oposição à governadora chegar em primeiro lugar dá para a gente uma responsabilidade, uma tarefa e um recado muito grande”, acredita.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“A caneta do Executivo”</strong></h2>



<p>Em seu discurso de vitória, Dani soltou uma frase pouco comum para as circunstâncias: “e vou avisando, viu? A gente quer a caneta do Executivo na mão. Hoje é Alepe, amanhã é prefeitura. Eu sonho que um dia essa cidade, esse estado e esse país vão ser presididos por uma mulher negra”. </p>



<p>Quando perguntada pela reportagem sobre os próximos passos rumo a esse objetivo e como isso estaria sendo dialogado dentro do PT, Dani recuou, dizendo que “o discurso não foi um pré-lançamento a outra candidatura. Foi dizendo que eu estou à disposição do PT”, complementou, destacando que sua experiência no Legislativo, como vereadora e como deputada, serviram também para reafirmar os limites de atuação do parlamento em questões orçamentárias e de direcionamento de políticas públicas.</p>



<p>“Então, cada vez mais, o desejo de mudar a vida das pessoas e de trazer os nossos sujeitos prioritários para o centro do debate nos leva ao desejo de falar em alternância de poder, de ter a caneta do Executivo nas nossas mãos. Não necessariamente na minha mão, porque não é personalismo, é projeto coletivo. E acho que chegou o tempo de um partido do tamanho do PT chegar de volta nesse lugar”, explicou.</p>



<p>“Eu tenho disposição, estou à disposição do meu partido e acho que a gente tem que disputar prefeituras no estado inteiro e na região metropolitana. O nosso campo tem que se fortalecer. O meu sonho e o meu compromisso número um hoje são a reeleição do presidente Lula, mas meu sonho é que essa cidade, esse estado e esse país um dia sejam governados por mulheres negras, que são a maioria da população”, desenvolveu.</p>



<p>Se Dani pretende concorrer à Prefeitura do Recife em 2028 ou ao Governo de Pernambuco em 2030, terá que se colocar no caminho do atual prefeito Vitor Marques (PCdoB) e medir forças com João Campos (PSB), de quem se tornou aliada.</p>



<p>Em 2024, no PSOL, Dani disputou a Prefeitura do Recife contra João. Em 2026, com ela no PT, os dois estiveram juntos, com a parlamentar ao lado do ex-prefeito em eventos de campanha ao Governo do Estado.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Oposição e críticas a Raquel Lyra</strong></h2>



<p>Como líder da oposição na Alepe, Dani acredita que seu maior desafio e, portanto, foco a partir de 2027, com a reeleição de Raquel e o segundo deputado mais votado sendo um forte representante do bolsonarismo, será conseguir fazer uma atuação voltada para a fiscalização do orçamento público e cobrar da governadora por mais políticas efetivas para mulheres.</p>



<p>“Eu tenho estudado o orçamento como nunca. Eu rodei o estado no primeiro ano com o Plano Plurianual (PPA) Participativo, trazendo o povo para discutir o orçamento. Isso vai ser a grande centralidade da nossa atuação”, antecipa. E promete aumentar ainda mais as cobranças ao governo Raquel 2 por mais políticas para mulheres.</p>



<p>“Nós, do movimento feminista, lutamos muito tempo por mais mulheres na política. E agora o que a gente está dizendo? Que não basta ser mulher, não pode ser qualquer mulher. Precisa ser uma mulher aliada das nossas lutas. E aí se reelegem duas mulheres (Raquel e Priscila Krause, sua vice, também do PSD), mas as mulheres não são prioridade”, dispara Dani.</p>



<p>Como exemplo, ela cita que a Secretaria da Mulher, em 2025, tinha o quinto menor orçamento entre as 22 pastas do Executivo estadual. “Se é prioridade, então precisa estar no orçamento”, resume.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dani Portela e João Campos se aproximaram a partir de 2024
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tom Cabral/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quando Raquel lançou o programa Juntos pela Segurança, em novembro de 2023, assumiu, naquela época, uma meta de redução de 30%, até 2026, nos índices de violência contra a mulher em Pernambuco, em comparação com 2022. No entanto, em 2025, segundo dados da própria Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE), o estado registrou 88 feminicídios, contra 76 em 2024, uma alta de 15,7%.</p>



<p>“Outra coisa que muitas candidaturas bateram, eu inclusive, não só como candidata, mas na atuação parlamentar, uma coisa insistentemente trazida por nós, é a questão das delegacias das mulheres”, aponta Dani, lembrando que a governadora não inaugurou nenhuma nova unidade especializada em quatro anos.</p>



<p>“Das 15 que existem, apenas sete abriam 24 horas. Recentemente Raquel ampliou isso em uma ou duas, mas elas fecham à noite e nos finais de semana, justamente os horários de pico dessa violência. Então efetivamente você não vê prioridade para a vida das mulheres, apesar de ter uma governadora mulher”, critica.</p>



<p>Sobre se o PT seguirá como oposição ou se vai negociar cargos no governo Raquel 2, Dani disse que ainda é muito cedo para decidir sobre isso, até porque o partido sequer se reuniu para debater essas questões, está totalmente focado na reeleição do presidente Lula no segundo turno.</p>



<p>Neste fim de semana, Dani viaja ao Agreste, vai , para reunir a militância e fazer com que o voluntariado continue na rua nos municípios onde ela teve boa votação. “O partido ainda não se reuniu para definir posição, lembrando que a gente está numa federação e a federação tem outros partidos (Federação Brasil da Esperança é formado por PT, PCdoB e PV)”, comenta.</p>



<p>“Mas eu, desde já, individualmente, sou oposição à Raquel Lyra, sempre fui e não vou sair desse lugar. Só que não é sobre Dani indivíduo, é sobre o partido dos trabalhadores e das trabalhadoras, que ainda vai discutir isso. Mas, olhando para o perfil da bancada e para as pessoas que se elegeram, acho que nós seguiremos, sim, na oposição. É o que eu defendo e vou defender dentro do partido”, complementa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Quem é Dani Portela</h3>



<p>Advogada popular, historiadora e professora, Dani Portela tem 51 anos e é mãe de dois filhos — Alice, de 23 anos, e Jorge, de dois anos. Filha por adoção de um ex-preso político da ditadura militar brasileira, tornou-se alfabetizadora de adultos pelo método Paulo Freire ainda na juventude.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/55559371796_2559be5b53_c.jpg" alt="Dani Portela, uma mulher negra, de cabelo preto cacheado, usando uma camiseta vermelha com estampa e textos políticos, caminha por uma rua acompanhada por um grupo de pessoas que também vestem roupas vermelhas. Ao fundo, há uma bandeira vermelha erguida e casas dos dois lados da via. A cena acontece durante o dia, em ambiente externo, e mostra uma atividade coletiva em espaço urbano." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Deputada garante que, agora, vai se dedicar à campanha pela reeleição de Lula
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Géssica Amorim/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em 2026, disputou sua quinta eleição. Em 2018, concorreu ao Governo de Pernambuco pelo PSOL. Teve 188.087 votos (4,97% dos votos válidos), ficando em quarto lugar. Foi quando ficou conhecida como “a mulher da flor”, por causa do adereço que sempre usa preso ao cabelo.</p>



<p>Dois anos depois, elegeu-se vereadora do Recife, sendo a mais votada do município naquele ano, com 14.114 votos. Uma de suas principais iniciativas como vereadora foi a criação da Comissão da Igualdade Racial e Enfrentamento ao Racismo da Câmara Municipal.</p>



<p>Em 2022, tornou-se deputada estadual, com 38.215 votos. Em 2024, disputou a prefeitura, alcançando 35.110 votos. Agora, pelo PT, chega ao seu segundo mandato na Alepe.</p>



<p>Fez uma campanha, segundo o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com uma receita de R$ 1,1 milhão, sendo a maior parte desse dinheiro oriunda da direção do PT (R$ 1 milhão). Na sequência, a maior doação foi de seu marido, Jesualdo, de R$ 66,8 mil. De bens declarados, Dani tem como registro, no TSE, apenas um carro, no valor de R$ 96,2 mil.</p>



<p>Líder da oposição na Alepe, Dani preside a Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular e é vice-presidente da Comissão da Mulher.</p>



<p>Em seu caderno de propostas, fala em defesa da cultura, educação, saúde, acessibilidade, mobilidade e segurança. É defensora da agroecologia e do Passe Livre e foi contra a privatização da Compesa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A composição da próxima Alepe</h3>



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<p>O post <a href="https://marcozero.org/reeleita-e-mais-votada-dani-portela-projeta-proximos-passos-como-lider-da-oposicao-em-pe/">Reeleita e mais votada, Dani Portela projeta próximos passos como líder da oposição em PE</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>&#8220;É um grande equívoco colocar o cenário eleitoral na conta dos evangélicos&#8221;, diz socióloga</title>
		<link>https://marcozero.org/voto-evangelico-2026/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 14:28:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o avanço da extrema direita nas urnas deste domingo não se explica pelo voto evangélico. &#8220;Existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico&#8221;, afirma. Para ela, o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o avanço da extrema direita nas urnas deste domingo não se explica pelo voto evangélico. &#8220;Existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico&#8221;, afirma. Para ela, o fenômeno a observar é a aproximação de atores cristãos com a extrema direita, com destaque para a radicalização de lideranças católicas.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero, a pesquisadora, que também é pós-doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fala sobre a complexidade do campo religioso na política brasileira, a ausência de um voto evangélico em bloco, a nova geração de políticos formada nas redes e o que pode mudar até o segundo turno.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Ana-Carolina-Marsicano-746x1024.jpeg" alt="Retrato de Ana Carolina Marsicano, mulher jovem de cabelos castanhos curtos, em meio a grandes folhas verdes de vegetação tropical. A pessoa está voltada para a câmera, com cabelos curtos escuros, usando camisa verde, argola no nariz e brincos metálicos grandes. A fotografia tem iluminação natural suave e fundo desfocado, destacando o rosto entre as folhas." class="" loading="lazy" width="366">
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	                                        <p class="m-0">Ana Carolina Marsicano
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Já dá para saber como foi o voto evangélico nessas eleições?</strong></p>



<p><strong>Ana Carolina Marsicano </strong>&#8211; Ainda não temos muitas pesquisas com estratificação por religião e gênero, mas dá para levantar algumas hipóteses. Na perspectiva da religião, o primeiro ponto a destacar é que existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico. Produzi recentemente, com a Casa Galileia, um relatório sobre as alianças de católicos e evangélicos em torno da campanha de Flávio Bolsonaro, e percebemos também uma participação intensa de atores católicos em torno da candidatura dele.</p>



<p>A grande questão é que estamos diante de uma forma de fazer política que passa por algumas inflexões e mudanças. Tivemos um percentual muito grande de eleitos para o Legislativo que vêm de uma carreira de influenciadores digitais, políticos cujo capital político foi construído nas redes sociais. Existe uma ruptura, obviamente não total, mas parcial, com uma tradição e uma forma de fazer política.</p>



<p><strong>Os católicos e os evangélicos costumam se unir em pautas religiosas?</strong></p>



<p>Mais ou menos. Os conflitos entre os campos evangélico e católico são históricos. O que observamos desde 2010, principalmente entre 2010 e 2014, foi uma aproximação entre atores dos dois campos em torno de uma aliança programática, de algumas agendas, para impedir o avanço de pautas progressistas e de governos de esquerda. Mas o conflito de interesses entre católicos e evangélicos é anterior a essa aliança.</p>



<p>Acredito que esta eleição deixou claro que existem questões próprias e sensíveis a cada campo. A polêmica envolvendo Nossa Senhora mobilizou conflitos que revelam tensões internas ao catolicismo. De um lado, a posição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que não apoiou Lula nem falou de Flávio Bolsonaro explicitamente, mas se manifestou a favor de uma agenda contra a desinformação, pelo bem comum e pela soberania nacional. De outro, a polêmica de que Flávio Bolsonaro faria Nossa Senhora deixar de ser a padroeira do Brasil, e depois a alegação de que essa informação teria relação com agentes comunistas infiltrados na CNBB. São conflitos clássicos do campo religioso.</p>



<p>Existem alianças, sim. Mas, para mim, mais fundamental do que pensar as alianças entre evangélicos e católicos é pensar a aproximação de atores do campo cristão, católicos e evangélicos, com a extrema direita. Há atores conservadores dos dois campos que entendem a necessidade de preservar valores democráticos e republicanos. O que observamos nos últimos anos é uma radicalização de atores católicos que se aproximam da extrema direita, uma convergência de atores do campo cristão com interesses da extrema direita.</p>



<p>Não à toa, nestas eleições houve um aumento percentual de votos em Flávio Bolsonaro em municípios com maior percentual de evangélicos, alguns em que ele teve inclusive mais votos que o pai. Em compensação, e esse é um ponto importante para tensionar, Lula teve queda no voto de católicos em regiões onde historicamente foi votado por eles. Então, para onde está indo esse voto? Em quem esses católicos estão votando agora? Se percebemos uma tendência de radicalização no catolicismo, será, e é só uma hipótese, que esses católicos deixaram de votar em Lula para votar em Flávio Bolsonaro porque estão se radicalizando?</p>



<p>Então, o grande ponto é que não podemos colocar esse cenário desolador da eleição para a Câmara e o Senado na conta dos evangélicos. Uma série de parlamentares católicos e de influenciadores conservadores e tradicionalistas apoiou Flávio Bolsonaro, seja explicitamente, seja fomentando um discurso de antipetismo e antilulismo. O campo religioso é mais complexo do que as análises, às vezes, fazem parecer.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/conheca-as-igrejas-evangelicas-em-pernambuco-que-nao-apoiam-a-extrema-direita/" class="titulo">Conheça as igrejas evangélicas em Pernambuco que não apoiam a extrema direita</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Lideranças católicas conservadoras, como Frei Gilson, ganharam muita influência nas redes. Qual o peso delas nesse cenário?</strong></p>



<p>Frei Gilson é conservador, tem um número muito grande de seguidores e é representante do que chamamos de apostolado digital. Mas acho mais importante direcionar o olhar para além da hierarquia católica, para outros atores identificados com valores do catolicismo. Por exemplo, Eduarda Campopiano, uma jovem do PL Jovem que foi uma das mais bem votadas no estado de São Paulo como deputada estadual. Ela é católica apostólica romana e defende valores da extrema direita. Fez uma fala recente dizendo que os indígenas são canibais e é contra a pauta LGBTQIAPN+. É extremamente jovem, mas defende a subordinação das mulheres.</p>



<p>Essas lideranças, esses apóstolos digitais, são importantes, mas existe algo que vai além deles no catolicismo. É esse campo que tem se aproximado cada vez mais da extrema direita e criado alianças cada vez mais firmes com ela.</p>



<p><strong>E consegue muitos votos.</strong>..</p>



<p>Muitos votos. Estamos falando de pessoas jovens: do PL Jovem, do PL Mulher, na verdade do PL, que elegeu uma quantidade imensa de candidatos. O ponto importante é entender que o PL se converteu no principal celeiro da extrema direita brasileira. Lucas Pavanato, de São Paulo, e Rafael Satiê, do Rio de Janeiro, foram eleitos vereadores e agora chegam à Câmara dos Deputados, onde já está Nikolas Ferreira.</p>



<p><strong>Aqui, o vereador evangélico e de extrema direita Thiago Medina também foi eleito deputado federal.</strong></p>



<p>Exatamente. E quando falo dessa inflexão na forma de fazer política, é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista, porque está muito difícil: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade. Digo isso justamente por causa de Jones Manoel. Ele representa um projeto de extrema esquerda, um projeto comunista, realmente comprometido com agendas com as quais muitos atores da esquerda têm pudor de se comprometer, como a descriminalização do aborto.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade&#8221;.</p>
</div>


<p>E este é o primeiro cargo de Jones Manoel, como deputado federal. Ele é um influenciador digital com mais de 2 milhões de seguidores e a prova viva de que essa inflexão na forma de fazer política pode funcionar para a direita e para a esquerda. Só que a esquerda precisa ver nisso uma oportunidade, e só vai aproveitá-la se entender a importância de fazer alianças. Quando falo em alianças, falo de PT e PSOL.</p>



<p>Existem diferenças internas, é normal. Os partidos têm suas correntes, o PT também. Mas o momento pede um pouco mais de esforço para fazer alianças e construir quadros jovens que ocupem esse espaço na política. O que mais me deixa inconformada é pensar que Lula foi eleito em 2002, estamos em 2026 e não temos um novo quadro. Isso é revoltante. Qual quadro vai suceder Lula? Quais candidatos?</p>



<p>Esta eleição mostrou todas essas questões: muitos candidatos da extrema direita se elegendo, muitos jovens se elegendo, o que indica que a juventude está sendo disputada. A esquerda precisa entender isso e investir mais energia no diálogo com os jovens, estimulando-os a participar da política institucional. Durante anos vivemos uma crise, com o discurso da antipolítica, do antissistêmico. Precisamos voltar a transformar a política em uma utopia, um horizonte de mudança real.</p>



<p><strong>E Jones Manoel representa isso?</strong></p>



<p>Sim. Temos alguns outros jovens: o próprio Renato Freitas, lá no Paraná, que se elegeu deputado federal. Temos figuras muito interessantes eleitas, como Natália Boulos. Erika Hilton se reelegeu, Sâmia Bomfim se reelegeu. São figuras muito importantes, que representam de fato um projeto progressista de defesa de direitos. Mas precisamos ficar atentos também: os novos que estão entrando representam o quê? Que novidade representam?</p>



<p>No Senado, por exemplo, entrando mais na questão de gênero, tivemos numericamente o maior número de senadoras eleitas na história: 12.</p>



<p><strong>O próximo Senado vai ser o com mais mulheres, mas são mulheres que não defendem as mulheres.</strong></p>



<p>Esse é o ponto. Doze mulheres eleitas: quem são essas senadoras? Que projeto político representam? Isso também indica o problema do discurso puro e simples da representatividade. Como mulher de esquerda, progressista, me interessa muito mais uma figura que represente os interesses das mulheres, seja homem ou mulher, do que uma mulher que represente os valores do antifeminismo, das pautas antidireitos, das políticas neoliberais, da precarização das condições de trabalho das mulheres. É preciso ficar atento às ciladas de defender uma representatividade que não tenha convergência com a fidelidade a determinadas agendas.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/doze-mulheres-chegam-ao-senado-por-quais-portas/" class="titulo">Doze mulheres chegam ao Senado. Por quais portas?</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>O voto evangélico é um voto em bloco?</strong></p>



<p>Não. É importante destacar que o campo evangélico é extremamente disputado e tensionado. As pesquisas de intenção de voto apontaram o segmento evangélico masculino votando majoritariamente em Flávio e, em contrapartida, o segmento feminino católico votando mais em Lula. Então a análise do voto religioso tem que vir acompanhada de uma análise do voto de gênero, para capturar essa complexidade. Por que os homens evangélicos votam mais em Flávio? Por que as mulheres católicas votam mais em Lula? Qual é o ponto de identificação? Precisamos de análises com mais profundidade, que ainda não temos, relacionando religião, gênero e também território.</p>



<p>Uma questão que me preocupou muito, vendo o percentual dos votos para presidente, foi uma série de estados no Norte do país onde o voto em Flávio Bolsonaro foi altíssimo, entre 65% e 70%. E aí entra o ponto de não colocar isso só na conta do evangélico. A expansão do campo evangélico no Norte é obviamente um dos elementos, mas esse dado, sozinho, não explica tudo.</p>



<p><strong>É correta a visão de que o evangélico tem uma propensão maior a votar em quem é indicado pelo pastor, pela igreja?</strong></p>



<p>As pesquisas recentes têm mostrado que essa lógica do voto conforme a orientação do pastor já não acontece há um bom tempo. Uma <a href="https://iser.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Relatorio-2022.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser)</a> sobre mulheres evangélicas e cotidiano mostrou que o que mais importa para elas são questões como o preço dos alimentos e do gás, questões realmente básicas.</p>



<p>Outro ponto importante para entender que não é um voto de rebanho, e sim um voto intensamente disputado: na última eleição, o voto que virou e permitiu a eleição de Lula foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas. A perspectiva de que o evangélico vota no conservador por causa das pautas morais, além de rasa, é muito ultrapassada. Obviamente as questões morais têm peso e exercem influência, mas não são necessariamente predominantes quando analisamos as mulheres, e os homens também.</p>



<p>O posicionamento no campo evangélico é muito matizado. E hoje a comunicação com os fiéis não acontece mais só no púlpito. Há os grupos de WhatsApp: existe uma construção coletiva do voto dessas comunidades acontecendo também nesses grupos.</p>



<p><strong>E a direita está sabendo se comunicar melhor com esse público? A propaganda de Flávio Bolsonaro é muito isso: está tudo caro, a comida está cara, vamos baratear a comida.</strong></p>



<p>Flávio Bolsonaro parte desse discurso, desse tom, também porque não está na posição governista. É muito mais fácil fazer essa crítica na oposição. Ele vai surfar no discurso da necessidade de manter o Bolsa Família, de melhorar as políticas públicas para as pessoas, mesmo sem dizer como. E mesmo procurando a todo custo evitar a palavra meritocracia, a ideia de criar as condições para a pessoa fazer aquilo por si só, sabemos que o pano de fundo é exatamente esse.</p>



<p>Tanto que quem foi cotada para estar à frente da pauta econômica de Flávio Bolsonaro é Daniella Marques, uma mulher católica, da escola de Paulo Guedes. Apesar de ele falar em baixar o preço dos alimentos, a orientação econômica por trás é neoliberal, de baixíssima preocupação com o trabalhador. É a distância entre o discurso público e o que vem sendo construído como plataforma política.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;o voto que virou e permitiu a eleição de Lula [em 2022] foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas.&#8221;</p>
</div>


<p><strong>Você acha que Lula ainda tem condições de virar no segundo turno? O que poderia mudar na campanha para atingir tanto as mulheres quanto as pessoas religiosas?</strong></p>



<p>Acho que tem sim condição de virar e de se eleger no segundo turno. Há alguns pontos importantíssimos a trabalhar. O primeiro tem a ver com o nível altíssimo de abstenção e de votos nulos e brancos. É o lugar do diálogo, do olho no olho, dos movimentos sociais e da militância indo às ruas para dialogar principalmente com os eleitores que não queriam votar nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro e votaram em um Augusto Cury da vida. Abrir esse flanco de comunicação para tentar angariar o voto de quem não votou em Flávio.</p>



<p>O segundo ponto é convencer quem anulou ou votou em branco a votar. O terceiro é investir numa estratégia de comunicação massiva nos lugares onde se percebeu um percentual muito baixo de voto em Lula. Há um trabalho grande a fazer e o tempo é muito curto, mas acredito que esses são os pontos mais importantes.</p>



<p>Em relação ao segmento religioso propriamente dito, o segundo turno sempre traz um senso de urgência. É outra etapa, com outras estratégias. A primeira coisa é acompanhar se determinadas figuras públicas do campo cristão vão se posicionar. Elas podem não ter se posicionado no primeiro turno, mas vir a se posicionar agora. Uma delas é Frei Gilson, que não chegou a se posicionar no primeiro turno. Será que vai se posicionar agora?</p>



<p>O mesmo vale para outras lideranças religiosas: observar se, nesse contexto mais acirrado, vão se posicionar publicamente e, para quem está engajado no monitoramento das redes desses atores, ver o nível de repercussão. Existem algumas frentes em que cabe investimento, fazendo esse monitoramento passo a passo, porque no segundo turno cada dia conta muito.</p>



<p><strong>Mas Frei Gilson não se posicionaria a favor de Flávio Bolsonaro?</strong></p>



<p>Pode ser que sim, pode ser que não. A política tem uma tendência a nos surpreender. Eles podem se posicionar a favor de Flávio Bolsonaro ou, por exemplo, reforçar a nota que a CNBB publicou. Os católicos não precisam manifestar um apoio explícito para, ainda assim, se posicionarem de uma forma que influencie. É preciso observar também essas delicadezas.</p>



<p>Eu vi um vídeo em que padre Marcelo Rossi falava alguma coisa sobre o voto dele e sinalizou nitidamente com a mão, fazendo um L. Ele apagou esse vídeo depois. Mas é isso: ir acompanhando essas declarações e manifestações que não recaem explicitamente num apoio declarado de voto, mas que têm uma mensagem subliminar. Tudo isso pode acontecer agora, porque segundo turno é senso de urgência. A hora é essa. É uma nova eleição. Acredito que, muito provavelmente, alguns atores dos campos católico e evangélico vão ser interpelados a ter algum tipo de posicionamento mais explícito.</p>



<p></p>
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		<title>&#8220;Para vencer, a mensagem de Lula precisa ser de futuro&#8221;, defende Jones Manoel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2026 21:50:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Jones Manoel]]></category>
		<category><![CDATA[PSOL]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O maior fenômeno eleitoral de Pernambuco em 2026 acredita que, para virar o jogo e vencer o bolsonarismo, a campanha do presidente Lula precisa oferecer uma perspectiva de futuro e não apenas insistir naquilo que já foi realizado. “A mensagem tem que ser de futuro. Nesses 20 dias, o presidente Lula precisa apresentar um projeto [&#8230;]</p>
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<p>O maior fenômeno eleitoral de Pernambuco em 2026 acredita que, para virar o jogo e vencer o bolsonarismo, a campanha do presidente Lula precisa oferecer uma perspectiva de futuro e não apenas insistir naquilo que já foi realizado. “A mensagem tem que ser de futuro. Nesses 20 dias, o presidente Lula precisa apresentar um projeto político que convença as pessoas de que vale a pena sair de casa pra votar, de que vale a pena fazer campanha, de que se for reeleito vai ter um impacto concreto e positivo na vida das pessoas”, defende o historiador Jones Manoel (PSOL).<br><br>Eleito como segundo deputado federal mais votado do estado, com 249 mil votos, na primeira vez em que disputou o cargo, Jones não acredita que o problema da campanha de Lula está na forma como se comunica, mas sim no conteúdo daquilo que é comunicado: “ele precisa apontar para o futuro colocando em debate a tarifa zero, o enfrentamento do caos urbano com a expansão do sistema metroferroviário, reindustrializar o Brasil, para gerar emprego em massa, enfrentar de maneira concreta a crise climática para superar a sensação objetiva de mal-estar nas grandes cidades, que são quentes, engarrafadas, violentas, sujas e tumultuadas”.</p>



<p>Famoso por sua postura combativa nas redes sociais, ele entende que a solução para Lula não é usar mais ou menos as redes sociais, como apontou em vídeo que viralizou outra campeã de votos, <a href="https://www.instagram.com/anaelisast">a mineira Ana Elisa (PT)</a>. “O meio da mensagem não é neutro, o meio da mensagem é importante, mas é preciso considerar a importância da mensagem”, explica.</p>



<p>Os gastos de campanha de Jones Manoel registrados no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que não há incoerência entre aquilo que fala e sua estratégia nas redes. Mesmo contando com 2,1 milhões de seguidores no Instagram, por exemplo, ele gastou R$ 140 mil com impulsionamento.</p>



<p>Para efeitos de comparação, Pedro Campos (PSB), o deputado federal mais votado, investiu R$ 232 mil em anúncios nas redes sociais da Meta (Instagram, Facebook e Threads), Anderson Ferreira (PL), a terceira maior votação, gastou E$ 227 mil. Já Rosa Amorim (PT), que teve 144 mil votos, gastou R$ 600 mil, quatro vezes mais do que o comunista do PSOL.</p>



<p>“É uma bobagem investir fortunas em impulsionamento. Vou explicar: é mais interessante postar carrosséis de fotos com as pessoas que participam de nossas atividades. Quem estava lá vai se ver nas fotos e compartilhá-las em seus perfis, quem não pôde ir, mas é da cidade ou do bairro, vai identificar os amigos nas fotos e também compartilham”, revela, dando o caminho das pedras. Ou, ao menos, uma parte dele.</p>



<p>Deve funcionar, afinal ele foi o deputado federal mais votado em Recife, Olinda e Paulista; segundo mais votado em Jaboatão dos Guararapes e terceiro mais votado em Abreu e Lima e Cabo de Santo Agostinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mandato para mobilizar e politizar</h2>



<p>Jones garante que, no Congresso Nacional, irá “recuperar uma tradição da esquerda, que é cumprir o mandato com um pé na política institucional e outro pé para usar a institucionalidade como um mecanismo para alavancar as lutas, para a mobilização popular e organização da classe trabalhadora”.</p>



<p>Segundo ele, sua atuação como deputado só terá sentido se não se pautar apenas na costura de acordos de bastidores, mas também “fazer com que pessoas se sintam parte do processo, que seja pautado na mobilização popular, na politização e a articulação política”.</p>



<p>As perspectivas sobre os rumos do mandato, no entanto, estão condicionadas ao resultado do segundo turno da eleição presidencial. “Uma coisa é ser deputado com Lula presidente, outra coisa bem diferente será exercer o mandato com Flávio Bolsonaro na presidência”, garante. Questionado sobre qual seria a maior diferença, Jones Manoel responde com ironia: “se o for para a oposição a bancada do PT vira o exército bolchevique, o PT na oposição volta a falar de socialismo, de revolução, de imperialismo, de Marx, de Che Guevara, Fidel Castro e tudo que você imaginar. O PT na situação é outro contexto”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sem fórmula para derrotar a direita</strong></h2>



<p>Jones Manoel não foi surpreendido com as inúmeras vitórias eleitorais do PL e do bolsonarismo no dia 4 de outubro. “Eles estão crescendo desde 2018, só foi pego de surpresa quem olha só pra eleição presidencial, mas não olha pro quadro geral como um todo”, argumenta. Em sua análise, três fatores que estão conectados contribuem decisivamente para esses resultados.</p>



<p>Sincero, ele admite que o primeiro motivo seria o fato de as esquerdas ainda não terem encontrado a fórmula para derrotar o extremismo de direita: “a gente ainda não conseguiu encontrar uma fórmula para enfraquecer o campo deles, eles tiveram derrotas táticas, é bem verdade, mas não sofreram nenhuma derrota estratégica. A a gente não tem fórmula política pra isso”.</p>



<p>O segundo motivo seriam as emendas pix e as demais emendas parlamentares impositivas, chamadas anteriormente de orçamento secreto. Ele acredita que boa parte dessas vitórias podem ser explicadas pelo derramamento de dinheiro nos municípios gerados por essas emendas. Ele cita como exemplo, a eleição de Alvinho Lira, o filho de Arthur Lira de 20 anos de idade que foi o deputado federal mais votado em Alagoas.</p>



<p>Por fim, mas não menos importante, estaria o enraizamento e a capilaridade da extrema direita na sociedade. “A extrema-direita está mais organizada socialmente em igrejas evangélicas, em grupos de corrida, em espaços de fortalecimento de empreendedorismo, em espaços de palestras, em grupos de coach, de negócio motivacional, de associações empresariais e comerciais. O tecido organizativo deles está se expandindo, enquanto o nosso tecido organizativo está se retraindo”.</p>


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		<title>&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 20:16:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[agronegócio]]></category>
		<category><![CDATA[Alagoas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de [&#8230;]</p>
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<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, <a href="https://marcozero.org/o-que-o-nordeste-pode-esperar-do-el-nino-2026-e-como-se-preparar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa</a>, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Naquela época, a certeza era de que haveria um El Niño, mas sua intensidade ainda era objeto de debate. Ouvimos o cientista novamente na segunda semana de setembro: é um El Niño muito intenso e, pior, que ainda não atingiu seu pico.</p>



<p>Apesar de o El Niño estar ofuscado pela campanha eleitoral, Humberto Barbosa reforça que governos já deveriam ter começado a se preparar para enfrentar o fenômeno – que é natural, mas tem se intensificado por conta das mudanças climáticas. Em entrevista para a Marco Zero, o cientista explica o que é o fenômeno e quais são seus impactos diretos e indiretos, a grande influência do oceano no clima e o que já se sabe sobre como serão os próximos meses. Em vários momentos da entrevista usa o verbo “castigar” para falar sobre os efeitos do fenômeno no Brasil.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-1024x682.jpeg" alt="Humberto Barbosa está sentado à mesa em um ambiente interno, usando óculos, camiseta azul e camisa jeans aberta; tem cabelos curtos e escuros e aparece em posição de conversa, com uma das mãos apoiada sobre a mesa. Ao fundo, há uma parede cinza com formas circulares claras e um banco estofado vermelho, compondo uma cena de entrevista ou reunião." class="" loading="lazy" width="655">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Humberto Barbosa, meteorologista, coordenador do Lapis/UFAL
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Semiárido nordestino</h2>



<p>&#8220;A partir do momento em que é um El Niño intenso, já se sabe que há um padrão clássico: seca no Nordeste e enchentes no Sul. Mas isso vai depender também, no caso do Nordeste, do Atlântico. Onde está muita incerteza é em relação ao leste (a costa do Nordeste) até metade do interior. Até fevereiro, a pré-estação chuvosa pode ser até boa e isso ilude muitas vezes os agricultores. Podemos ter uma boa pré-estação, que é de dezembro a janeiro, criando até uma expectativa no agricultor, mas chega fevereiro, março, e aí entram os veranicos, diminuindo a chuva. Olhando agora, eu consigo fazer uma análise até fevereiro: a costa está normal. Ou seja, aquela variabilidade não está interferindo. O Atlântico e o Pacífico estão quase se cancelando. Pode ser que isso mude daqui a alguns meses, em função mais do Atlântico do que do Pacífico.</p>



<p>O que temos que esperar é o final de outubro. É quando vai nos dar uma clareza maior de como vai ser o resto da estação chuvosa, que é a estação mais crítica do semiárido, que vai de fevereiro a maio.</p>



<p>O problema do Nordeste não é só a questão da chuva. Na verdade, a região semiárida do Nordeste tem até um volume de chuva acima de muitas outras regiões semiáridas. O problema é a evaporação, em função das altas temperaturas. O Nordeste é uma área-piloto. Se eu quiser testar um modelo climático e não funcionar para o Nordeste, ele não funciona para lugar nenhum, porque é uma região onde os oceanos controlam o clima de fevereiro a maio. Se esse modelo não conseguir prever para essa região, jogue-o fora, porque não vai ter outra região do globo em que ele consiga entender o impacto&#8221;.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/na-cop-17-asa-defende-combate-a-desertificacao-que-fortaleca-comunidades-tradicionais/" class="titulo">Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Costa leste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Na costa leste é um cenário favorável. O litoral do Nordeste foi abaixo da média de chuvas, mas poderia ter sido muito pior. Não foi muito pior porque o Atlântico está aquecido, e aumentou a passagem de frentes frias, principalmente de julho para setembro. Essas frentes frias terminam jogando mais umidade em direção à costa leste. Como as águas do mar estão mais quentes, terminam aumentando a convecção, o que chamamos de cavados, que são sistemas de baixa pressão. Por isso as chuvas foram um pouquinho mais bem distribuídas em Pernambuco.</p>



<p>Mas se olharmos para Alagoas e Sergipe, já indo para a Bahia, é outro cenário, é um cenário mais seco. Esses dois estados estão muito abaixo da média, estão chamando muito a atenção. Você tem uma mancha de redução de chuva nos últimos meses que chama muito a atenção sobre os estados de Alagoas, Sergipe e algumas áreas da Bahia. O Atlântico não salvou, porque as águas estavam mais neutras, mas, como sob forte influência do El Niño, terminaram não trazendo a chuva esperada para essa época do ano, que é a estação chuvosa deles.</p>



<p>Já em Pernambuco até o Rio Grande do Norte, esses últimos meses, considerando que já estamos sob uma influência de El Niño muito forte, até que esse final da estação chuvosa foi bom. Saímos no lucro. O leste já terminou a estação chuvosa, pegou El Niño já na metade da estação chuvosa, e com o Atlântico não foi tão castigada.</p>



<p>Toda a região costeira tem uma tendência de estar mais quente, e mais quente até mesmo do que o Atlântico Norte, e isso nos beneficia, porque, com essas altas temperaturas, se alguns sistemas chegam ali ao meio do Atlântico, os ventos terminam ajudando, trazendo um pouco de alívio para essa região. Até fevereiro, a costa leste está a dizer assim: olha, está normal. Se algum sistema meteorológico chegar aqui, não vai ter nenhuma inibição: vai provocar chuva.</p>



<p>Como o Atlântico Sul está mais quente, é muito provável também que a zona de convergência em algum momento esteja um pouquinho fraca, mas favorável para essas chuvas que ocorrem no Nordeste em fevereiro. As ondas de leste, a partir de março, já começam a aparecer.</p>



<p>Em 2027, a estação chuvosa da costa leste pode ser que tenha um início irregular, ali por abril, mas vai melhorando à medida que vão chegando os meses de junho e julho. Pode ser favorável para alguns estados e outros nem tanto. Mas a parte leste do sul do Nordeste, pegando Alagoas, Sergipe e a Bahia, já vem nos últimos anos com redução de chuva significativa. E isso tudo são pontos que vão começar a ficar mais agudos a partir do final deste ano e do primeiro semestre de 2027&#8243;.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Seca e estiagem deixam 641 municípios em situação de emergência no Brasil</span>

		<p>O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) divulgou na quarta-feira passada (16) um novo mapa de monitoramento mensal da precipitação, baseado em dados de satélite (foto abaixo). O mapa destaca o volume e a distribuição das chuvas nas regiões brasileiras no período de nove de agosto a 10 de setembro.</p>
<p>De acordo com o Lapis, a distribuição de chuvas se concentrou fortemente na região Sul, além de áreas pontuais da Amazônia e do leste do Nordeste. No Nordeste, o interior consolidou uma seca relâmpago, que é um evento de rápida intensificação da seca, associado às altas temperaturas.</p>
<p>O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, registrou no dia 16 de setembro um total de 641 municípios brasileiros em situação de emergência por seca e estiagem. São cerca de 5 milhões de pessoas atingidas. O semiárido concentra a maior parte dos municípios afetados pela seca.</p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1.jpeg" alt="Mapa da América do Sul com estimativa de precipitação acumulada por satélite para o período de 9 de agosto a 10 de setembro de 2026, usando cores para indicar volumes de chuva, do marrom e laranja (menor precipitação) ao verde e azul (maior precipitação); uma ampla área destacada sobre o centro-norte e nordeste do Brasil aparece em tons alaranjados e está identificada como “situação de seca meteorológica”, indicando baixos índices de chuva em comparação com outras regiões do continente que apresentam volumes mais elevados de precipitação." class="" loading="lazy" width="592">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Lapis/UFAL</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Matopiba e oeste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Esse é um período mais seco na Amazônia, mas está ficando ainda mais seco em função do resfriamento ali na costa setentrional. Isso pega um pouco também do Norte e do Nordeste, já ali entre Maranhão, Piauí, e isso já é consequência do resfriamento do Atlântico, que tem uma relação direta com o El Niño. É uma tendência que vai continuar. Olhando do leste indo para o interior do Nordeste, essa chuva começa a diminuir. E essa diminuição se torna mais significativa à medida que se vai para a região oeste do Nordeste, onde está o Matopiba, que é Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste da Bahia. Essa região vai ser muito castigada pela seca. Essa tendência se mantém até pelo menos o início de 2027. Tudo vai estar muito influenciado por essas condições do El Niño. O Atlântico não vai conseguir reverter, porque ele é muito intenso.</p>



<p>A transição entre a Caatinga e o Cerrado é uma região produtora de grãos, uma região de agronegócio que vai ter problemas. O oeste do Nordeste vai entrar agora em outubro já na fase chuvosa. E tudo indica que o início da estação chuvosa do oeste, que é muito próximo ali da Amazônia, também vai estar abaixo da média.</p>



<p>O oeste do Nordeste é muito pouco falado, porque normalmente tem uma distribuição de chuva um pouco mais frequente. Mas neste ano a região vai chamar a atenção por essa variabilidade de impacto do El Niño, de seca mais aguda para essa área do que para qualquer outra região do Nordeste do Brasil&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Amazônia mais seca</h2>



<p>&#8220;A Amazônia entre 2023 e 2024 foi duramente castigada, a ponto de ter os rios em um nível muito baixo, tanto que até mesmo para a entrega de alimentos, distribuições, teve um impacto. Houve morte até de botos, enfim, foi muito impactante. Tudo indica novamente que a Amazônia vai ser castigada, muito impactada. A realidade vai ser um país com uma redução de chuva significativa na Amazônia, muito possivelmente, ou até talvez um pouco pior do que foi entre 2023 e 2024&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sudeste mais quente</h2>



<p>&#8220;A região Sudeste também vai ser muito castigada, porque nos El Niños anteriores havia mais o aumento das temperaturas, mas pela primeira vez estamos vendo que as secas estão mais agudas nessas regiões. Esse padrão atmosférico do El Niño indica que a região Sudeste vai ser também significativamente afetada por uma redução de chuva. Muito parecido com o que ocorreu na seca de 2015-2016. As usinas hidrelétricas também podem ser impactadas&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Chuvas no Sul do Brasil </h2>



<p>&#8220;Na região Sul, o Atlântico não tem a mesma influência, porque já está numa região quase no fim dos trópicos e extratrópicos, mas ainda assim determina. Tudo indica que o Atlântico vai ficar um pouco mais neutro. Isso só já dá um certo alívio, mas não para tirar a região do extremo Sul do Brasil das chuvas intensas, como já está acontecendo. Então isso vai se estender ainda para o período de janeiro e fevereiro. Poderia até ser pior, mas o Atlântico pode ainda aliviar. Mas esse alívio não é tanto quando comparamos com o Nordeste do Brasil: o papel do Atlântico, porque aqui é uma região tropical, termina sendo mais determinante do que na região do extremo Sul. Essas chuvas que estão ocorrendo no Sul já são consequência do El Niño&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">Altas temperaturas</h2>



<p>&#8220;O agravante em relação aos outros El Niños muito intensos são as altas temperaturas. Quase todo o Brasil vai ser impactado. O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas. Essa é a ligação direta. Qualquer pessoa pode até discutir se aquela seca é 100% por causa do El Niño. Pode chegar a 80%, 70%. Mas as altas temperaturas são um efeito direto e têm dois componentes que trazem uma complicação.</p>



<p>Primeiro, porque os gases de efeito estufa trazem desequilíbrio térmico ao planeta. Ou seja, a Terra esquenta mais, está guardando mais energia em função não só do vapor d&#8217;água, mas dos gases do efeito estufa que estão presentes na atmosfera. Mas tem um adicional, que é o El Niño. É um impacto direto.</p>



<p>Muito se debate qual é o acréscimo na temperatura. No Brasil como um todo – tirando um pouco o Sul, que vai ter muita nebulosidade – as temperaturas podem ficar em média um a dois graus acima da média histórica.</p>



<p>Devemos passar de 1,5 grau na temperatura global [em relação ao período pré-industrial (1850-1900), a referência usada pelo Acordo de Paris], o que traz imprevisibilidade, porque os eventos extremos estão diretamente relacionados com esse aquecimento. Quanto mais calor tiver na atmosfera, mais umidade vai aumentar nessa atmosfera, e com isso eu vou ter eventos extremos de chuva. Mas o contrário também acontece: quanto menos umidade se tem, quanto mais calor tiver, mais seco vai ficar, e as grandes secas vão ocorrer, os incêndios florestais que já estamos vendo. Isso tudo é um aditivo já do El Niño com a questão do aquecimento global&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Planeta em desequilíbrio</h2>



<p>&#8220;Começamos a entrar num aquecimento do planeta nunca antes registrado. Não sabemos como os sistemas vão se acomodar, porque o planeta busca o equilíbrio, mas, para buscar esse equilíbrio, ele vai jogar todo o excesso de energia em regiões onde vai ter mais chuva, mais seca, para encontrar o equilíbrio termodinâmico. Alguém injetou muito calor nele, ele vai ter que dissipar esse calor. Ele não guarda, ele implode. Então, o planeta tem que distribuir isso com chuvas e com campos de pressão.</p>



<p>É um planeta em desequilíbrio. Desde os anos 1980, está saindo menos energia do que entra, e a Terra está ficando mais quente. Esse aquecimento no Pacífico vai interferir nas temperaturas em todo o globo. E aí ele provoca mais ondas de calor, mais queimadas, tudo em função das altas temperaturas, que estão mexendo nos padrões de precipitação e pressão.</p>



<p>Tipo assim: vou fazer uma fogueirinha. Eu vou controlar aquele fogo. Mas à medida que você começa a colocar mais lenha, mais fogo, você acha que controla o fogo, mas ele começa a tomar uma dimensão sobre a qual você não tem mais controle&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Seca relâmpago</h2>



<p>&#8220;Seco e quente é a pior combinação, porque aí tem uma tipologia de seca. <a href="https://noticias.ufal.br/servidor/noticias/2024/7/estudo-desenvolve-modelo-com-inteligencia-artificial-para-detectar-secas-relampagos-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizemos até um estudo</a>, o primeiro estudo na América do Sul, sobre a combinação das altas temperaturas e da redução de chuva. É o pior cenário, porque isso acontece em poucas semanas. O solo perde muita umidade e a atmosfera está mais seca também. Uma atmosfera mais seca está sugando muito mais rápido essa umidade do solo, que também está recebendo menos carga d&#8217;água. Quando os dois combinam, isso acelera essa seca, que chamamos de seca relâmpago.</p>



<p>E é o primeiro sinal para que as outras secas clássicas, a seca meteorológica, a seca hidrológica e a agrícola, ocorram. Só vemos o impacto delas, não vemos o início. Já a seca relâmpago, sabemos como determinar o início e o fim dela. E o que determina a seca relâmpago? É a umidade do solo. Se essa umidade do solo estiver abaixo de 20%, já posso contar os dias em que a seca já está atuando. E normalmente, para o solo perder essa água, é porque também as temperaturas estão altas. Os açudes secam mais rápido&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mortes por calor</h2>



<p>&#8220;O calor tem um impacto direto não só na economia, mas na saúde. O calor mata. Aqui na região tropical nos adaptamos. Estamos vendo o que aconteceu no verão da Europa. Os jovens, as crianças e os idosos são os mais vulneráveis. E a nossa infraestrutura, ainda que boa parte do país esteja na região tropical, ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há bebedouros, não há pontos de refrescamento públicos. Você fica muito vulnerável em dias de altas temperaturas. Já houve mortes em shows. Vamos ter um carnaval muito quente.</p>



<p>O índice de calor é calculado pela combinação de alta umidade, ou seja, muito vapor d&#8217;água na atmosfera, com altas temperaturas. Quando se tem 33 graus e mais 60% ou 70% de umidade, se entra em zonas perigosas. O nosso corpo humano está adaptado a mais ou menos 36 graus, e não oscila muito: ou eu vou transpirar muito, ou meus vasos sanguíneos vão se contrair quando está frio, para manter esses 36 graus. Mas quando começa a ter muita umidade, muito calor, o cérebro não consegue dar conta da demanda, mesmo que eu esteja hidratando o corpo, num período muito curto. Em poucas horas o cérebro não consegue administrar essa mudança corporal, e aí entra em colapso.</p>



<p>Quando começa a ficar todo verão nessas condições, a sociedade civil também começa a pressionar os gestores e a cobrar investimentos. Não se fala muito sobre isso, mas poderemos precisar de abrigos contra o calor. Os centros de convenções são uma alternativa, já que a maioria tem estrutura de ar-condicionado, principalmente nas capitais. Numa semana de onda de calor, é preciso ter onde abrigar quem está vulnerável, num lugar com a temperatura controlada&#8221;.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, um consórcio de várias universidades, divulgado nesta quarta-feira (23), estima que <a href="https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/09/23/super-el-nino-pode-causar-450-mil-mortes-por-calor-ate-fevereiro-diz-estudo.ghtm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">451 mil pessoas podem morrer no mundo até fevereiro</a> de 2027 por conta do El Niño. Para o Brasil, a estimativa é de <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/mais-13-mil-mortes-por-calor-no-brasil-sao-estimadas-devido-ao-el-nino.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">até 13,3 mil mortes.</a></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A intensidade do El Niño</h2>



<p>&#8220;Maio e junho foram os meses em que tivemos uma intensidade crescente, até acima do que havia sido previsto. A comunidade científica também esperava um El Niño intenso e forte, mas ele foi ainda um pouco acima do que era esperado. Ele vem numa intensidade muito forte, acima de dois graus e crescente: ainda continua aumentando esse aquecimento no Pacífico.</p>



<p>Já passou dos dois graus, que normalmente a mídia coloca como super El Niño. Mas, para os climatologistas, não há essa classificação de &#8216;super El Niño&#8217;, &#8216;El Niño Godzilla&#8217;. Temos a classificação de fraco, moderado, muito forte e extremo. O atual já está saindo da condição “muito forte” e indo para “extremo”. Tem regiões que já estão em mais de três graus acima da média.</p>



<p>Este El Niño já é caracterizado como o mais intenso registrado, no mínimo, nos últimos 50 anos. E ele continua ainda se desenvolvendo de uma forma crescente. Para nós, climatologistas, que trabalhamos com dados, a partir do momento em que ele chega a 2,5 ou três graus, não necessariamente a atmosfera vai responder linearmente na mesma intensidade. Pode ser até que alguns pontos sejam muito intensos, mas não é tão direta essa relação&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O pico e o fim do El Niño</h2>



<p>&#8220;O pico do El Niño vai ser em novembro. A resposta dele vai chegar em fevereiro, do ponto de vista da atmosfera, porque há um <em>delay</em>. O oceano chega ao seu pico e aí vai diminuindo, mas continua presente. Mas a atmosfera só começa a responder a esse pico entre fevereiro e março. Sempre tem uns dois a três meses de delay para que o sistema oceano-atmosfera vá se ajustando a essas condições.</p>



<p>Pegando os grandes El Niños, os mais conhecidos, 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, sempre chegam ao fim entre março e abril. Há uma expectativa de que este de 2026-2027, entre março e abril, chegue ali próximo de 0,5 grau de aumento na temperatura do Pacífico, o que já estaria fraco, e em maio já estaria neutro. Essa é uma tendência, não uma previsão.</p>



<p>Quando colocamos o fim em abril, pode ser que ele ainda vá um pouquinho mais do que isso, porque não é o El Niño olhando as temperaturas, mas é a atmosfera, o El Niño atmosférico. A intensidade dele de 2 graus já foi embora, o oceano já esqueceu a temperatura mais alta, já está com águas mais frias, mas a atmosfera ainda está ligada com aquela memória de quando o El Niño estava forte. Ele não desaparece assim&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;nossa infraestrutura ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há pontos de refrescamento públicos&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">El Niño: o que é e como age</h2>



<p>&#8220;O El Niño é natural e recorrente. A cada dois a sete anos, embora já tenha mudado para três a cinco anos, você tem esse fenômeno. Não é algo novo. Não se entendia bem o que era, mas já havia registro desde os anos 1800. Quando eu falo do El Niño, eu estou falando de uma região no Pacífico em que os ventos de leste enfraquecem, e com isso essa água começa a se aquecer ali na costa da América do Sul, no Equador, no Peru. Os peruanos notaram que a água estava mais quente e associaram que havia um fenômeno acontecendo ali. E, como isso acontecia por volta de dezembro, coincidindo com o nascimento de Jesus Cristo, veio o nome El Niño.</p>



<p>Isso acontece porque os ventos alísios de leste ficam mais fracos. São eles que normalmente empurram a água quente da superfície para o oeste do Pacífico, na direção da Indonésia, e é por isso que aquele lado do oceano é o mais quente. Quando os alísios enfraquecem, esse empurrão diminui: a água quente deixa de se deslocar e se espalha pelo centro e pelo leste do Pacífico. É essa mudança que altera toda a circulação, chamada de circulação de Walker, e que interfere em toda a região tropical global.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cidades brasileiras não estão preparadas para calor extremo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quando o El Niño alcança o nível em que ele se encontra agora, muito forte, ele tem uma presença muito marcante na atmosfera. Em função desse aquecimento, através da circulação, afeta toda a distribuição de chuvas e dos campos de pressão. São condições únicas. Nunca tivemos essa experiência no passado. Eu posso comparar até a intensidade dele, mas não como é a resposta desse aquecimento. A atmosfera reage de formas diferentes: é heterogênea, não é tão linear.</p>



<p>Mesmo nos anos de El Niño muito intenso, como foi em 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, 2023-2024, cada um tem sua identidade. Mas alguns sinais são clássicos: muita chuva em uma região, menos chuva na outra.</p>



<p>Essa circulação não é tão linear porque o oceano é mais estável, é água, e a atmosfera é fluida, ela tem outros campos de pressão, tem topografia, tem vegetação, tem os outros oceanos interferindo. Então ela torna esses impactos muito mais complexos. Mas sempre entendendo: quando eu falo de seca relacionada com El Niño, é um impacto indireto, nunca é direto. É um impacto que até nós, climatologistas, sempre associamos diretamente, mas não é. A enchente é indireta, os incêndios florestais são indiretos. Porque dependem da chuva: a redução da chuva vai deixar a folha mais seca, e isso vai fazer acontecer um incêndio. Então nunca é em função da temperatura do oceano. Mas as altas temperaturas, não. Essas são diretas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A dança dos oceanos</h2>



<p>&#8220;O El Niño está interferindo no Atlântico Norte, no sentido de estar resfriando. Na maioria dos casos, o Pacífico e o Atlântico Norte têm quase o mesmo relógio: quando um esquenta, o outro também esquenta. Este ano estamos tendo o inverso: o Pacífico está muito quente e o Atlântico Norte, principalmente ali próximo da região do Equador, está mais frio do que se espera.</p>



<p>Normalmente se fala muito do Pacífico e não se dá a devida atenção ao Atlântico. Mas, de fato, a nossa atmosfera hoje, a circulação de como essas áreas estão sendo impactadas, é exatamente a dança dos dois. Às vezes os dois estão dançando juntos, às vezes os dois estão dançando separados. Não que seja anormal, isso já aconteceu, mas não é tão frequente: estamos tendo um ano em que eles não estão dançando juntos. E eles têm impactos distintos, que podem ser acumulativos, ou podem atuar juntos para inibir um pouco, ou diminuir esse impacto. E o Nordeste do Brasil agora vai começar também a entrar nessa dança.</p>



<p>Na região tropical, o oceano e a atmosfera estão bem coladinhos mesmo, dançando juntos. Só tem um delay: um está escutando a música, e aí depois o outro, dois minutos, cinco minutos, é que escuta a mesma palavra. O cara falou uma palavra aqui, ele demora três minutos para escutar, mas estão juntinhos dançando. Fora dos trópicos, aí eles já não dançam juntos. Eles são um casal separado. Aí vai depender do nível de separação: tem uns amigáveis, outros não tão amigáveis, mas eles não estão juntos.</p>



<p>Na região tropical, o calor vai se dissipando para as altas latitudes, então eles também estão influenciando nas regiões de altas latitudes. Mas é na região tropical que os efeitos são mais significativos, mais impactantes, porque eles estão juntinhos. Qualquer perturbação no oceano vai, com o tempo, chegar à atmosfera&#8221;.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/el-nino-seca-nordeste/">&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
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		<title>Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026</title>
		<link>https://marcozero.org/dinheiro-fe-e-antifeminismo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 16:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e política]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e religião]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres cristãs]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado. Assuntos como [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/dinheiro-fe-e-antifeminismo/">Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado.</p>



<p>Assuntos como violência contra a mulher, maternidade, cuidado, família, autonomia financeira e empreendedorismo também passaram a integrar o discurso de setores conservadores, ao mesmo tempo em que ganha força um ativismo cristão antifeminista, que inclusive disputa a própria definição do que significa ser mulher.</p>



<p>Para falar sobre esses e outros temas em torno do voto feminino cristão nestas eleições, a <strong>Marco Zero</strong> conversou com a socióloga da religião e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) Tabata Tesser, pesquisadora associada do Instituto de Estudos da Religião (Iser).</p>



<p>Socióloga, ela tem estágio doutoral na Universidade de Barcelona (UB) e é mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No ISER, integra a pesquisa <em>Cristianismos e Aborto: disputas nas instituições públicas brasileiras (2010-2025)</em>. Também faz parte do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR-Unicamp) e do grupo de estudos de Investigações em Sociologia da Religião (Isor), da Universidade Autônoma de Barcelona.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto-Tabata-1-1024x726.jpg" alt="A foto mostra Tabata Tesser sentada confortavelmente em uma poltrona de madeira clara com laterais de palhinha trançada. Ela tem cabelos longos e castanhos, usa um macacão azul escuro sem mangas e está sorrindo de forma serena. Seu braço esquerdo repousa sobre o encosto, enquanto o direito apoia a cabeça num gesto descontraído. Usa pulseiras douradas, anel e esmalte vermelho, e há uma almofada verde ao seu lado. O ambiente é elegante e acolhedor, com parede neutra e persiana ao fundo, transmitindo uma sensação de tranquilidade e confiança." class="" loading="lazy" width="666">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero — <strong>Nas eleições de 2022, a pauta de costumes parecia mais concentrada no segmento evangélico. Em 2026, vemos novas personagens, como <a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/quem-e-a-catolica-que-emerge-como-um-dos-principais-rostos-femininos-da-campanha-de-flavio-bolsonaro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Daniella Marques</a>, num movimento que une identidade católica, tradicionalismo, perfil de elite e discurso sobre mulheres e família. O que mudou na forma como a direita está tentando falar com essas mulheres? O que essa mudança revela sobre o eleitorado feminino cristão no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Tabata Tesser —</strong> Acho que a primeira mudança importante é que estamos começando a perceber que falar de mulheres cristãs não é falar apenas de mulheres evangélicas. Existe uma espécie de miopia na cobertura eleitoral brasileira que transforma o eleitorado evangélico em sinônimo de eleitorado cristão, quando, na verdade, o cristianismo brasileiro tem um rosto fortemente feminino e o maior contingente de mulheres cristãs é católico.</p>



<p>O Censo de 2022 mostra que as mulheres são 55,4% dos evangélicos e 51% dos católicos. Quando olhamos para esse conjunto, estamos falando de dezenas de milhões de mulheres. São mulheres que não apenas frequentam igrejas, mas sustentam boa parte da vida cotidiana dessas instituições por meio do trabalho voluntário, da catequese, da assistência e do cuidado.</p>



<p>A emergência de uma figura como Daniella Marques é interessante justamente porque ela permite à direita fazer uma operação diferente daquela que vimos em 2022. Ela combina uma identidade católica explicitamente assumida, credenciais técnicas, pertencimento às elites econômicas e um discurso sobre mulheres, família, empreendedorismo e autonomia financeira. É uma tentativa de construir uma interlocutora feminina que não seja apenas a mulher religiosa tradicional, mas uma mulher profissional, economicamente bem-sucedida, empreendedora e, ao mesmo tempo, conservadora nos valores.</p>



<p>Isso é importante porque revela que a direita percebeu que não basta falar de aborto, ideologia de gênero ou sexualidade para disputar as mulheres cristãs. É preciso falar também de dinheiro, trabalho, cuidado, maternidade, violência e família, temas que já fazem parte do cotidiano dessas mulheres.</p>



<p>Ao mesmo tempo, eu teria cuidado para não interpretar isso como se essas mulheres estivessem simplesmente migrando para uma nova liderança. O voto cristão não é um voto que se entrega por atacado. A pesquisa do Iser com mulheres evangélicas mostra justamente isso: elas escutam pastores e familiares, mas fazem suas próprias escolhas, pesquisam e interpretam a política a partir de suas experiências.</p>



<p>Então, mais do que perguntar quem vai “ficar” com as mulheres cristãs, eu acho que precisamos perguntar o que essas mulheres estão dizendo sobre política. E, quando fazemos isso, encontramos um eleitorado muito mais complexo do que os rótulos permitem enxergar.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Janja Lula da Silva e Michelle Bolsonaro são mulheres muito diferentes e que também representam maneiras muito diferentes de construir politicamente a imagem da mulher. Até que ponto elas conseguem produzir uma identificação para além das já eleitoras de seus respectivos campos políticos?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>— </strong>Eu acho que existe um limite importante na própria ideia de primeira-dama como representante das mulheres. Janja e Michelle constroem imagens femininas muito diferentes, mas ambas estão inseridas em projetos políticos bastante identificados com seus respectivos campos.</p>



<p>Michelle Bolsonaro conseguiu construir uma identificação muito forte especialmente entre mulheres evangélicas e setores conservadores, mobilizando uma linguagem de fé, família, maternidade e testemunho cristão. Janja, por outro lado, constrói uma imagem pública que dialoga com outras formas de participação feminina, com pautas sociais, direitos e uma linguagem mais próxima de setores progressistas.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;As mulheres cristãs, por exemplo, não são homogêneas. Classe, raça, geração, território, família, experiência religiosa e cotidiano produzem diferenças enormes&#8221;.</p>
</div>


<p>E há uma questão que considero particularmente importante: a tentativa de “recuperar” ou “entregar” as mulheres cristãs por meio de primeiras-damas ou lideranças religiosas acaba dizendo mais sobre a estratégia dos partidos do que sobre essas mulheres. Elas não são um eleitorado que necessariamente acompanha uma mulher porque ela é mulher ou porque ela é cristã.</p>



<p>A identificação política acontece quando a mulher reconhece sua própria vida naquela agenda. E aí chegamos a temas muito concretos: o preço do supermercado, a consulta médica, a segurança dos filhos, a violência dentro de casa, o trabalho, a renda e a possibilidade de cuidar de quem depende dela.</p>



<p>Por isso, acho que tanto Janja quanto Michelle podem produzir identificação para além de seus campos, mas isso não acontece automaticamente pela imagem feminina ou pela religião. Depende da capacidade de falar com mulheres que não necessariamente se reconhecem integralmente em nenhum dos dois projetos.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Como você já colocou</strong>, <strong>as mulheres evangélicas não formam um bloco homogêneo. Suas posições políticas são atravessadas por questões de classe, raça, geração, território, família e cotidiano. Que peso a pauta de costumes ainda tem como caminho para conquistar essas eleitoras? Ou temas como endividamento, cuidado, violência, trabalho, renda, saúde e segurança podem ser mais decisivos nas eleições de 2026?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu diria que a chamada pauta de costumes continua sendo importante, mas talvez ela seja superestimada quando tentamos explicar o voto das mulheres cristãs.</p>



<p>A pesquisa <a href="https://iser.org.br/publicacao/mulheres-evangelicas-politica-e-cotidiano-2024/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mulheres evangélicas, política e cotidiano</em></a>, do Iser, é muito interessante nesse sentido porque mostra mulheres de diferentes regiões, majoritariamente negras e das classes C e D, falando sobre política a partir da própria vida. E o que aparece no centro não é necessariamente aborto ou ideologia de gênero. Aparecem cuidado, infância, maternidade, família, saúde, segurança, violência contra a mulher, preço dos alimentos e políticas públicas.</p>



<p>Existe uma frase que resume muito bem isso, essas mulheres conhecem a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta médica e a condução.</p>



<p>Isso não significa que elas não tenham posições sobre aborto, sexualidade ou educação. Elas têm. Mas essas posições convivem com experiências concretas. Uma mulher pode, por exemplo, ter uma visão bastante conservadora sobre família e, ao mesmo tempo, defender educação sexual nas escolas porque viveu uma experiência de violência na infância. Isso mostra como é inadequado transformar essas mulheres em caricaturas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto.webp" alt="A foto mostra um auditório cheio de pessoas sentadas, voltadas para um palco com cortinas vermelhas abertas e uma grande tela de projeção ao centro. Na tela, lê-se em letras grandes e coloridas “Mulher Potência Empreendedora”, indicando um evento da Prefeitura do Rio de Janeiro voltado ao tema do empreendedorismo feminino. O ambiente é de expectativa e atenção, com luzes baixas e foco na tela, sugerindo o início ou andamento de uma apresentação sobre o poder e a iniciativa das mulheres." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Empreendedorismo feminismo faz parte da pauta das mulheres de direita
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil</span>
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<p>Então, para 2026, eu acho que quem quiser compreender esse eleitorado precisa olhar menos para a pergunta “qual é a posição dela sobre a pauta de costumes?” e mais para “como ela está vivendo?”. Ela está endividada? Consegue cuidar dos filhos? Tem acesso à saúde? Sente-se segura? Tem renda? Quem cuida dela quando ela precisa cuidar de alguém?</p>



<p>E existe uma dimensão religiosa muito importante aí: a igreja muitas vezes funciona como rede de apoio justamente porque o Estado não chega de maneira suficiente. Por isso, políticas públicas também são questões religiosas para essas mulheres, porque atravessam diretamente suas vidas e suas comunidades.</p>



<p>A pauta de costumes não desapareceu. O que muda é que ela precisa ser compreendida dentro de uma vida cotidiana muito mais complexa.</p>



<p>Marco Zero — <strong>A direita nunca falou tanto das mulheres. De 2022 para cá, setores conservadores passaram a disputar temas tradicionalmente associados à esquerda e ao feminismo, como violência contra a mulher, cuidado, autonomia financeira e maternidade. Mas o que vemos é um ativismo cristão antifeminista ganhando força. Como você avalia esse movimento?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu acho que esse é um dos movimentos mais interessantes — e também mais importantes — para entendermos o conservadorismo atual.</p>



<p>Durante muito tempo, determinados temas foram identificados quase exclusivamente com a esquerda e com os feminismos. Agora, setores conservadores perceberam que não precisam abandonar seus valores para falar sobre mulheres. Eles podem disputar a própria definição do que significa proteger uma mulher, cuidar, falar de violência, defender autonomia econômica ou valorizar a maternidade. No fim, o que está em disputa é a pergunta “o que é ser uma mulher?”.</p>



<p>É aí que entra o ativismo cristão antifeminista. Ele não significa simplesmente ausência de uma agenda para mulheres. Pelo contrário: existe uma disputa ativa pela categoria “mulher” virtuosa e pelo significado de conceitos como autonomia, liberdade, cuidado, família e violência.</p>



<p>O caso da Daniella Marques é interessante porque mostra uma dessas formulações. A autonomia feminina aparece associada sobretudo à capacidade de gerar renda, empreender, acessar crédito e adquirir educação financeira. É uma agenda que pode produzir efeitos concretos, mas parte de uma concepção muito específica de desigualdade: a ideia de que a inclusão econômica individual seria um dos principais caminhos para a emancipação.</p>



<p>Isso é diferente de uma perspectiva feminista que olha para as estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que produzem a desigualdade entre homens e mulheres.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Aí está a novidade: elas estão disputando o feminismo e, em alguns casos, disputando a própria linguagem feminista&#8221;.</p>
</div>


<p>E acho que os feminismos precisam prestar atenção nisso. Porque feministas e antifeministas estão, muitas vezes, falando sobre problemas semelhantes, violência, maternidade, cuidado, dinheiro, saúde, mas a partir de diagnósticos, linguagens e repertórios políticos completamente diferentes e chegando em concluíres distintas sobre a categoria mulher e gênero.</p>



<p>É uma disputa não apenas pelo voto das mulheres, mas pela definição do que é uma mulher, do que ela precisa e de quem deve protegê-la. E isso está acontecendo tanto no campo progressista como na direita. No campo progressista, vide o crescimento de discursos antigênero e antitrans buscando justamente responder a pergunta “o que é ser mulher?”.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Projetos sobre misoginia, violência contra a mulher, educação, família e infância têm mobilizado a direita na Câmara e no Senado, para além de temas como aborto, diversidade, “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”. A pauta de costumes mudou no Congresso Nacional?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Sim, e eu acho que a principal mudança é justamente essa ampliação do repertório. A pauta de costumes não desapareceu. Aborto, diversidade, sexualidade e gênero continuam sendo temas fundamentais para a direita religiosa. Mas eles passaram a conviver com uma agenda muito mais ampla sobre família, infância, adoção, doulagem, educação, violência contra a mulher, misoginia, maternidade e cuidado.</p>



<p>Isso acontece porque esses temas são capazes de produzir uma conexão muito mais direta com a experiência cotidiana das mulheres. E a direita percebeu que pode disputar esses assuntos sem necessariamente adotar o diagnóstico feminista sobre eles.</p>



<p>Por exemplo, falar de violência contra a mulher não significa necessariamente reconhecer as mesmas estruturas de gênero que os feminismos reconhecem. Falar de maternidade não significa necessariamente defender políticas de autonomia reprodutiva e múltiplas capacidades reprodutivas. Falar de cuidado não significa necessariamente reivindicar sua socialização pelo Estado.</p>



<p>É justamente aí que a disputa fica mais sofisticada. Vide a direita que defende armar mulheres para combater a violência doméstica.</p>



<p>Acho que estamos vendo uma passagem de uma pauta de costumes mais caricatural e episódica, aquela dos grandes pânicos morais, como “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”, para uma disputa mais cotidiana sobre quem define família, infância, educação, proteção, violência e a própria categoria mulher.</p>



<p>Isso não torna a pauta menos conservadora. Ao contrário, torna o conservadorismo potencialmente mais capilarizado, porque ele passa a ocupar temas que fazem parte da vida concreta das pessoas para além de fantasmagorias.</p>



<p>E há uma consequência importante para quem pesquisa ou cobre eleições: não podemos mais procurar o conservadorismo apenas quando ele fala de aborto ou sexualidade. Ele também pode aparecer quando fala de cuidado, empreendedorismo feminino, maternidade, proteção da infância, liberdade educacional ou combate à violência.</p>



<p>Por isso, eu diria que a pauta de costumes mudou menos porque abandonou seus temas tradicionais e mais porque ampliou seu território de disputa. E as mulheres estão no centro dessa disputa. E outra questão: mulheres conservadoras/virtuosas não precisam mais de interlocutoras. Estão online e roteando o antifeminismo cristão numa desconfortável, mas importante contradição: são feministas conservadoras na prática.</p>
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		<title>Recife tem 273 imóveis preservados por lei e 73% deles estão em apenas oito bairros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2026 21:02:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[iep]]></category>
		<category><![CDATA[imóveis preservados]]></category>
		<category><![CDATA[lei de uso e ocupação do solo]]></category>
		<category><![CDATA[preservação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1997, o Recife criou um instrumento para garantir a preservação de imóveis, independentemente da área onde estivessem. Eram os Imóveis Especiais de Preservação, os IEPs. A lista nasceu com 154 imóveis e cresceu a passos lentos: foram acrescentados 106 até 2016 e, no ano passado, mais 13, com a promulgação da nova Lei de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1997, o Recife criou um instrumento para garantir a preservação de imóveis, independentemente da área onde estivessem. Eram os Imóveis Especiais de Preservação, os IEPs. A lista nasceu com 154 imóveis e cresceu a passos lentos: foram acrescentados 106 até 2016 e, no ano passado, mais 13, com a promulgação da nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Recife.</p>



<p>Entre 1998 e 2011, nenhum imóvel foi acrescentado à lista. Foram 14 anos sem uma única inclusão, o intervalo mais longo desde que o instrumento foi criado. Houve um salto em 2014, mas das 98 classificações daquele ano, 96 vieram no pacote do Plano Específico da Boa Vista, uma lei de zona de preservação que, ao delimitar o perímetro, classificou os imóveis como IEP. Descontado esse conjunto, a Prefeitura incluiu dez imóveis em 28 anos por iniciativa própria: dois em 2012, dois em 2014 e seis em 2015. Depois disso, a lista voltou a ficar parada por uma década.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Quais são os Imóveis Especiais de Preservação do Recife?</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Apenas 87 dos 273 imóveis aparecem na lei com nome próprio. Os outros 186 são identificados só pelo endereço. Entre os nomeados há prédios facilmente reconhecidos pelos recifenses, como a sede do IMIP, o monumento no Morro da Conceição e o Teatro do Parque. Há também quatro pontes da cidade; clubes, como o Internacional e a antiga sede do América; e escolas, como o Instituto Capibaribe e o Educandário São José. Há, ainda, casas e edifícios residenciais, como a antiga residência de Manuel Bandeira, na Rua da União, e o Edifício Barão do Rio Branco, do arquiteto Delfim Amorim, cuja foto abre esta reportagem. </span></p>
<p><a href="https://drive.google.com/file/d/18IZJ8Lk-cDdkKHIQWpO_AqPc9Mk3_po9/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="noopener">Confira a lista completa dos IEPs do Recife</a></p>
	</div>



<p>Dos 273 imóveis que compõem a lista da lei municipal – ou 271, já que há uma repetição de endereço e um campo em branco na lista oficial –, 199 estão concentrados em apenas 8 dos 94 bairros da capital pernambucana. O bairro da Boa Vista sozinho tem um quarto dos imóveis da lei.<br><br>Se a definição legal coloca o IEP como um &#8220;exemplar isolado&#8221;, na prática a lei protege alguns conjuntos urbanos sem lhes dar regras mais rígidas, como são as da Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural (ZEPH). A avenida Dezessete de Agosto concentra 33 IEPs; a rua Visconde de Goiana, 24. Na Praça de Casa Forte, são 13; na avenida Rosa e Silva e na rua Marques Amorim, dez em cada. Apenas nove ruas concentram 122 imóveis preservados pela lei dos IEPs.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Oito bairros concentram quase três quartos da lista de IEPs:</h2>



<figure class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td><strong>Bairro</strong></td><td class="has-text-align-center" data-align="center"><strong>Número de IEPs</strong></td><td class="has-text-align-center" data-align="center"><strong>Porcentagem</strong></td></tr><tr><td>Boa Vista</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">72</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">26,4%</td></tr><tr><td>Casa Forte</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">34</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">12,5%</td></tr><tr><td>Poço da Panela</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">23</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">8,4%</td></tr><tr><td>Graças</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">19</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">7,0%</td></tr><tr><td>Coelhos</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">15</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">5,5%</td></tr><tr><td>Santo Amaro</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">14</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">5,1%</td></tr><tr><td>Ilha do Leite</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">13</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">4,8%</td></tr><tr><td>Derby</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">9</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">3,3%</td></tr></tbody></table></figure>



<p>Essa preservação isolada permite, por exemplo, que uma torre residencial avance por cima do imóvel preservado, uma vez que o entorno não tem proteção equivalente. É o caso do Edifício Maria Clementina Vianna, na Praça de Casa Forte, citado pelo arquiteto e urbanista Luiz Amorim. &#8220;É como se houvesse um conflito não apenas de escala, mas de arquitetura, de estilos diferentes. Às vezes a gente consegue concatenar a arquitetura do passado com a arquitetura de hoje de maneira brilhante, mas o que acontece é muito mais nessa condição de esmagamento da edificação que se quer preservar&#8221;, afirma o professor titular aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que hoje atua no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).<br><br>Em entrevista à Marco Zero, Luiz Amorim fala sobre o surgimento dos IEPs, o que o instrumento protegeu, o que deixou de fora e por que a lista cresceu tão pouco em quase três décadas. Confira abaixo os principais trechos:</p>



<h2 class="wp-block-heading">Entrevista // Uma aula com Luiz Amorim</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A criação dos IEPs</strong></li>
</ul>



<p>Os IEPs foram criados em lei de 1997. E ela veio com um propósito, digamos assim, nobre, que era o de estender a proteção a um conjunto de imóveis que não teria uma condição exemplar de monumento, como, por exemplo, as grandes obras constitutivas do patrimônio religioso brasileiro, ou as obras cívicas do século XIX, como teatros, escolas, presídios, hospícios, etc., mas que constituem um determinado conjunto de obras de grande significância para a cidade, porque revelam etapas de desenvolvimento da cidade, gostos, modos de vida, técnicas construtivas, inovações compositivas e assim por diante.</p>



<p>E muitas dessas identificações não haviam sido incluídas nas grandes zonas especiais de preservação histórica, algumas delas consagradas ainda no início dos anos 1980 por lei municipal. Então, o IEP veio com esse interesse de tentar salvaguardar uma parcela dessa produção que não seria possível naquele determinado momento. As políticas de preservação são muito contingenciadas pelas questões político-administrativas e teóricas, do ponto de vista daquilo que a gente considera passível de proteção, mas principalmente das dinâmicas urbanas que constituem um mercado específico, que a gente costuma chamar de mercado imobiliário, de utilização do solo para geração de capital, pela multiplicação desse solo num ativo comercial.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/arquiteto-luiz-amorim-thiago-lubambo-1024x678.jpeg" alt="O arquiteto Luiz Amorim, de barba branca e óculos, diante de uma parede com quadros." class="" loading="lazy" width="663">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O urbanista Luiz Amorim aponta a ausência da arquitetura moderna na lista
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Thiago Lubambo/Ceci Galeria</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O IEP surge nesse contexto: Como é que eu posso conservar um determinado conjunto de imóveis, e mesmo que seja irrefreável esse processo de expansão do mercado imobiliário no Recife, uma das capitais de menor área do país e cujo solo urbano é valiosíssimo, porque ter um endereço no Recife não é o mesmo — estou falando do ponto de vista comercial —, não tem o mesmo valor do que em municípios que constituem a região metropolitana. Então o ativo solo urbano do Recife é muito valioso.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O esmagamento do imóvel preservado</strong></li>
</ul>



<p>Quando você pergunta o que eu acho da lei: nos anos 1990 eu escrevi um artigo intitulado <em>Trocando gato por lebre</em>, quando eu me referia aos IEPs. Eu utilizei esse ditado porque a minha ideia era revelar que o que se estava fazendo não era necessariamente a conservação desses imóveis, mas permitir que, em certa medida, a multiplicação desse solo urbano pudesse acontecer em detrimento da preservação desses imóveis.<br><br>Essa ideia partia do princípio de que um dos aspectos que é muito levado em consideração no contexto da conservação patrimonial é a ambiência. A ambiência é entendida como aquele contexto urbano no qual esse objeto de interesse de preservação está inserido.<br><br>Exemplo: se eu tenho interesse em conservar um determinado imóvel, ou um conjunto de imóveis, eu teria que levar em consideração o sistema viário, as construções que existem ao redor, a cobertura vegetal e, até em determinadas abordagens, que tipo de atividades ali ocorrem. Se é uma área estritamente habitacional, a dinâmica urbana é distinta daquela que é de comércio e de serviço.<br><br>A proteção do IEP não envolve isso. É essa ambiência que não é respeitada no momento em que eu tenho um imóvel e a três ou cinco metros há uma edificação de 30 pavimentos. É como se houvesse um conflito não apenas de escala, mas de arquitetura, de estilos diferentes. Às vezes a gente consegue concatenar a arquitetura do passado com a arquitetura de hoje de maneira brilhante, mas o que acontece é muito mais nessa condição de esmagamento da edificação que se quer preservar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/mais-uma-casa-modernista-e-demolida-as-escondidas-em-recife/" class="titulo">Mais uma casa modernista é demolida às escondidas no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		            </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O interior das casas e as edículas</strong></li>
</ul>



<p>O interior dos imóveis, que é testemunho de modos de vida, pode ser alterado por inteiro. Alguns IEPs têm todo o seu “recheio”, toda a parte interior removida para criar um salão de festas, por exemplo. Mas essa parcela histórica é fundamental: entender como as pessoas moravam, onde as pessoas dormiam, onde as pessoas se alimentavam. Isso é a história sendo apagada.<br><br>A lei dos IEPs também não leva em consideração a existência dos anexos, ou seja, das edificações que faziam parte desse conjunto da habitação, as edículas. Nelas, normalmente, você tinha – claro, nas casas mais abastadas – os quartos para os criados, os empregados domésticos, motoristas, lugar para estacionar veículos.<br><br>Como, por exemplo, a casa do barão de Catende, que fica na esquina da rua Amélia com a Rosa e Silva. É hoje o edifício Costa Azevedo. Os anexos daquele casarão denunciavam ou representavam uma estrutura social de elite, com uma edícula que era completamente distinta de outras. Foram itens suprimidos porque foram considerados menores, frente às condições que se impunham naquele momento.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Como o mercado imobiliário se apropriou da lei</strong></li>
</ul>



<p>O mercado imobiliário do Recife conseguiu também fazer dessa lei um ativo imobiliário. É uma vantagem enorme para eles. Para você entender por que o mercado imobiliário aceitou o IEP sem grandes questões: a própria norma estabelece algumas vantagens, como a de que a área do imóvel preservado não é computada na área total do imóvel do empreendimento.<br><br>Isso dá um adensamento maior para a área. E, além disso, os recuos normativos são afrouxados, justamente para poder permitir a construção do imóvel naquele lote. Ou seja, o IEP cria uma brecha para negociações, para tentar viabilizar o empreendimento e viabilizar a preservação do imóvel — ou melhor, do volume do imóvel.<br><br>Na Praça de Casa Forte tem um caso muito curioso, que é um edifício que se projeta sobre o edifício. Não é como se o prédio abraçasse o casarão, mas como se avançasse sobre o imóvel preservado. É um caso emblemático: é aquele em que todas essas normas de afastamentos e proteção de ambiência são rompidas para favorecer a existência do empreendimento. O edifício é o Maria Clementina Vianna, na Praça de Casa Forte, 445, já citado anteriormente. Ver mapa abaixo:</p>



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<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Dentro do que se queria, o IEP é uma política positiva</strong></li>
</ul>



<p>Na brilhante dissertação de mestrado de José Nilson de Andrade Pereira, que eu orientei, tomamos como referência a documentação original que caracterizava os IEPs em termos de estado de conservação. E utilizamos os mesmos parâmetros para analisar a situação desses imóveis depois de feitas as intervenções.<br><br>A avaliação foi positiva, porque tomamos os parâmetros que foram inicialmente constituídos para a seleção e caracterização dos imóveis. No entanto, esses critérios originais não levavam em consideração aspectos importantes de preservação: o valor da organização espacial interna, seus elementos decorativos, as técnicas construtivas existentes e coisas muito simples, como portas e maneiras de revestimentos. Foram itens suprimidos, porque foram considerados menores.<br><br>Do ponto de vista desse critério metodológico que utilizamos, pode-se dizer que os IEPs foram positivos para a preservação das edificações segundo tais e tais parâmetros, mas não mais do que isso.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-1024x576.jpg" alt="Vista aérea do Morro da Conceição, com o Monumento à Virgem cercado de casas." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Monumento no Morro da Conceição é classificado como IEP. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A ausência da arquitetura moderna</strong></li>
</ul>



<p>O que me parece é que a política dos IEPs teve um início festejado, mas não houve uma ampliação sistemática e consistente desses imóveis, principalmente no que concerne aos exemplares da arquitetura moderna.</p>



<p>A maior parte dos exemplares incluídos na lista dos IEPs eram imóveis ecléticos. Há poucos imóveis modernos. E o acervo de residências modernas que nós tínhamos aqui no Recife era absolutamente exemplar.</p>



<p><a href="https://jc.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2017/09/13/casas-modernistas-protegidas-por-lei-sao-danificadas-no-recife-306408.php" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aquelas duas casas na avenida Rosa e Silva</a> eu diria que são obras — esta é a minha opinião — que não estão entre as obras exemplares da arquitetura moderna em Pernambuco. Há outras muitíssimo mais importantes que influenciaram a produção da arquitetura residencial no Nordeste brasileiro.</p>



<p>A ausência de uma política plena de preservação levou à expansão radical do mercado imobiliário em determinadas áreas em que alguns dos representantes dessa arquitetura moderna, principalmente residencial, estavam presentes. Lotes grandes em bairros de expansão na Zona Norte e na Zona Sul foram para o espaço levando parte da história dessa arquitetura no Recife. Então, em certa medida, o instrumento do IEP teve sucesso. E eu diria que mais ainda nos imóveis em que essa troca do solo por mais solo não era possível.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Por que a lista não foi muito ampliada</strong></li>
</ul>



<p>Não houve um interesse político, porque várias iniciativas foram encaminhadas para que decisões políticas viabilizassem o aumento dessa lista. E só recentemente é que alguns imóveis foram incluídos. Muitos, eu diria assim, daqueles que sobraram em pé. Se nós tivéssemos tido uma política mais efetiva, teríamos um acervo muito maior. Porém, talvez o mercado imobiliário teria menos ativos, ou teriam ativos não tão interessantes quanto um solo livre de toda e qualquer edificação no terreno.</p>



<p>Por origem, o IEP tenta adequar uma política de preservação à dinâmica de reprodução do solo urbano, portanto, reprodução do capital imobiliário.</p>



<p>No momento em que essa lei surge, há um certo conflito. Por exemplo, eu não lembro agora do número, mas vamos dizer assim: dos 100 imóveis que foram encaminhados à Câmara de Vereadores, uns 30 não foram aprovados pelos vereadores. Isso por encaminhamento dos proprietários, com pareceres técnicos emitidos por profissionais que argumentavam contrariamente à preservação daquele imóvel.</p>



<p>Passado esse momento inicial, o mercado imobiliário entendeu que, &#8220;opa, esse é um bom negócio&#8221;. Porém, é melhor quando não se tem nenhuma preservação. Como se dá esse alinhamento entre mercado imobiliário e administração municipal é algo que não é visível, mas é discutível.</p>



<p>Portanto, não é porque não houvesse nada para preservar. É porque, de fato, não era interessante preservá-los. É só isso.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Fiscalização é inexistente</strong></li>
</ul>



<p>O Departamento de Preservação dos Sítios Históricos (DPSH), atual Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC), não tinha braços suficientes para fazer o acompanhamento e as fiscalizações do que estava acontecendo com os imóveis de preservação. A área do bairro de São José está incluída num desses sítios históricos estabelecidos por lei, se não me engano, desde 1981.</p>



<p>Vá ao bairro de São José e veja lá o que há de grande preservação na ambiência histórica do bairro. As ações de preservação estabelecem características a serem mantidas e o poder institucional tem por propósito coibir descaracterizações, fiscalizar, manter aquele imóvel íntegro. Porém, isso é uma das grandes questões da preservação no Recife: a administração municipal não tem tido poder de fiscalização nem de coibir ações que infringem normas municipais.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>De quem é a obrigação de preservar</strong></li>
</ul>



<p>Sempre que há um sinistro em imóveis que foram preservados ou tombados em âmbito nacional, muitas matérias jornalísticas dizem &#8220;onde estava o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), não sei o quê, que não conservou&#8221;.</p>



<p>Mas não é papel do Iphan nem manter, nem pagar pelo restauro do imóvel. Esses imóveis têm donos. O dono é quem tem que preservar esse imóvel, independentemente de ele ser uma residência, um templo barroco do século XVII ou XVIII, de posse da Igreja Católica, ou um edifício público ou cívico, como, por exemplo, o Teatro Santa Isabel, propriedade do município do Recife.</p>



<p>Não é o Estado que tem que manter e pagar pelo restauro, mas o Estado tem que fiscalizar o que está sendo feito. O Estado tem que se fazer presente para que essas ações de descaracterização não ocorram. E, claro, tem que haver uma cultura que compreenda que essa preservação é manter valores da nossa cultura. Reduzir patrimônio a valor imobiliário é muito pouco. É muito mais do que esse ativo financeiro.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O esvaziamento da cidade e da cultura</strong></li>
</ul>



<p>Numa cidade como a nossa, hoje vemos grandes empreendimentos com imóveis de pequeno porte porque há um mercado mundial de turismo de pouca permanência, para além da capacidade hoteleira, que são os Airbnbs e outras estruturas dessa natureza. Então, estamos construindo uma série de imóveis que são dirigidos para o mercado, que é um mercado muito discutido mundo afora: vários países vêm proibindo esse tipo de comércio ou o reduzindo drasticamente, porque o efeito é absolutamente danoso para a vida da cidade.</p>



<p>Eu estou falando de centros históricos europeus, como Lisboa, Barcelona. Há um investimento massivo na ocupação de áreas onde antes havia residentes, que constituíam uma vida e uma cultura naquele lugar. E agora eles são substituídos por atores transitórios, que não carregam em si valores próprios daquele lugar. É quase como se fosse a manutenção de uma ambiência destituída de valor cultural. É quase como se fosse um cenário. E isso vem com uma expulsão radical dos seus moradores e a introdução de determinados hábitos ou determinados serviços.</p>



<p>A minha família é portuguesa [Luiz Amorim é filho do arquiteto Delfim Amorim, responsável por prédios icônicos do Recife, como o Acaiaca e o Pirapama], eu sempre vou a Portugal. E uma das vezes que eu fui a Lisboa, muitos anos atrás, eu saí no metrô, no Chiado, no centro histórico de Lisboa, e vi toda uma propaganda da McDonald&#8217;s subindo a escada. E quando eu chego lá em cima, me dou de cara com um McDonald&#8217;s grande no centro de Lisboa. Eu, literalmente, disse: &#8220;agora o processo de destruição desse centro de Lisboa ganhou um outro patamar, de processo mais avançado&#8221;.</p>



<p>Claro, eu estou falando de McDonald&#8217;s como sendo uma coisa simbólica, de uma cultura de comer rápido, comer porcaria, e ponto. Diferentemente da cultura portuguesa, em que tudo se faz ao redor da mesa, qualquer festividade é comendo. A troca de residentes por atores transitórios é uma troca do ponto de vista da compreensão de uma cultura profunda. São valores culturais que vão se perdendo.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>&#8220;Qualquer coisa é metralha&#8221;</strong></li>
</ul>



<p>Voltando para o Recife, é mais ou menos isso: não se tem essa constituição de uma consciência coletiva de que o patrimônio está para além do edifício, está para além da forma, é algo muito mais amplo. Se as pessoas não têm essa consciência, qualquer coisa é metralha.</p>



<p>Eu costumava dizer, quando dava aula na universidade, que o meu tema predileto, que nunca ninguém aceitou conduzir, para oferecer para os estudantes, era um empreendimento imobiliário na Praça da República, destruindo o Palácio das Princesas também. Porque esse é o marco simbólico da cidade, em todos os sentidos.</p>



<p>Desde que Maurício de Nassau estabeleceu o lugar da administração pública ali, desde 1630, nunca o poder saiu dali. Teve um hiato ou outro, mas sempre o poder esteve ali. Então, simbolicamente, esse exercício que eu faria era uma demonstração da submissão do poder ao capital imobiliário. Seria um belíssimo exercício de demonstração de que, de fato, cultura é metralha.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/mansao-harley-lundgren-torres-area-verde/" class="titulo">Mansão Harley Lundgren: prefeitura mudou cálculo para viabilizar prédios em jardim preservado</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Os IEPs que não podem ser vistos</strong></li>
</ul>



<p>Eu acho que isso é o que a gente pode chamar de &#8220;não problema&#8221;. O que interessa não é necessariamente o usufruto público. Essa casa [o imóvel no cruzamento da rua professor Ageu Magalhães com a Professor Andrade Bezerra, no Parnamirim, que virou IEP no ano passado] sempre teve muro alto. Mas o portão de acesso originalmente era em madeira, e ao lado, em cima desse portão, tinha uma laje em concreto que ia de canto a canto. Na área do jardim, tinha elementos de ferro que iam até em cima e a casa era completamente transparente à rua.</p>



<p>Essa era uma casa fabulosa do ponto de vista urbano, porque foi pensada para ser vista naquela rua, que é maravilhosa. Aquela rua foi um loteamento em que, com muita felicidade, foi criado aquele grande canteiro ao centro, e a casa fica no eixo. Quando entra na rua, o que você vê no fundo é aquela casa, maravilhosamente assentada, elevada — era uma zona de inundações —, com a fachada azulejada e com aquele eixo de coberta precisamente marcando o eixo da via.</p>



<iframe src="https://www.google.com/maps/embed?pb=!4v1786049517612!6m8!1m7!1sXAOi1uOvWY0Fuph5KRjGZA!2m2!1d-8.034085928586322!2d-34.91298886474447!3f175.5791316452462!4f0.14588358992720885!5f1.9587109090973311" width="600" height="450" style="border:0;" allowfullscreen="" loading="lazy" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin"></iframe>



<p>É uma das primeiras casas projetadas por meu pai, que depois ficou consolidado na literatura como as chamadas casas tipo Amorim, que eram casas em que ele projetava com uma coberta em laje de concreto armado, com telha canal sobre ela, com uma inclinação muitíssimo suave. Foi uma solução que ele desenvolveu para reduzir os problemas de infiltração que as lajes em concreto armado planas criavam, além do calor. Então, ele coloca a telha por cima e, claro, evita que a laje em concreto vaze, porque ela está mais protegida do processo de resfriamento e aquecimento. Vamos supor que está um calor enorme, a laje está a 200 mil graus de temperatura e de repente baixa para 50. Isso causa fissuras, e a telha protege. Então essa solução virou um tipo arquitetônico que vários outros arquitetos repetiram. E aquela casa é um dos raros exemplares ainda existentes dessa concepção, desse modo de fazer e desse modo de organizar o espaço doméstico.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Nem todo bem preservado precisa ser visto</strong></li>
</ul>



<p>Muitas vezes o Estado tem que preservar determinados aspectos e determinados valores que não necessariamente estão expostos plenamente a todos. Isso não é um princípio de elitização. Em determinadas condições o acesso não é público. </p>



<p>Por exemplo, templos religiosos como os beneditinos não permitem o acesso de mulheres. E neles há um acervo arquitetônico, mas também de bens móveis, pinturas, mobiliário, elementos utilizados nos atos e nos ritos religiosos. Não vai se preservar esse rico acervo e essa edificação porque mulheres não podem entrar? Da mesma maneira há conventos de religiosas em que também não é permitido o acesso de homens. São normativas religiosas, porque é a zona de meditação, é a zona de privacidade.</p>



<p>Há, sim, que se imaginar que certas ações de preservação levam em consideração determinados aspectos que, sim, impedem o acesso das pessoas, mas o papel do Estado é preservar determinados valores. Certos bens não precisam ser vislumbrados nem acessados.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/recife-tem-273-imoveis-preservados-por-lei-e-73-deles-estao-em-apenas-oito-bairros/">Recife tem 273 imóveis preservados por lei e 73% deles estão em apenas oito bairros</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>&#8220;A fala pública de mulheres políticas não precisa caber no modelo da fala masculina&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-fala-publica-politica-juliana-romao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 23:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[fala pública]]></category>
		<category><![CDATA[Juliana Romão]]></category>
		<category><![CDATA[linguagem e poder]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres na política]]></category>
		<category><![CDATA[participação feminina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que é tão mais difícil para as mulheres falar em público? Em seu primeiro livro, A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública, da Editora Appris, a jornalista Juliana Romão fala sobre como o modelo de fala pública vigente na política é feito por e para homens. E é [&#8230;]</p>
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<p>Por que é tão mais difícil para as mulheres falar em público? Em seu primeiro livro, <em>A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública</em>, da Editora Appris, a jornalista Juliana Romão fala sobre como o modelo de fala pública vigente na política é feito por e para homens. E é elitizado e conservador. “Importa o que está sendo dito e como, mas na valoração social o elemento definidor é quem está dizendo. A cor da pele, o gênero e o CEP são marcadores estruturantes das desigualdades e definem igualmente o grau de audiência à fala e à expressão”, disse a autora, em entrevista para a Marco Zero.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:43% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="648" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-648x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-76383 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-648x1024.jpeg 648w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-190x300.jpeg 190w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-768x1214.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-972x1536.jpeg 972w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-150x237.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro.jpeg 1012w" sizes="(max-width: 648px) 100vw, 648px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>No livro, que será lançado nesta quinta-feira, às 19h, na Livraria do Jardim, Juliana defende que mulheres não precisam aprender a caber no molde da fala masculina, mas “desmecanizar” o pensamento: pensar sobre o próprio pensar antes de pensar no microfone. Cursos de oratória e <em>media training</em> capacitam a caber no modelo tradicional de fala. Romão não os descarta, e diz que são ferramentas importantes de letramento ao jogo midiático, mas argumenta que, quando despolitizados, como ocorre na maioria deles, reforçam um cânone estereotipado e esvaziam a força do discurso.</p>



<p>Mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), Juliana Romão é assessora especial no Ministério da Igualdade Racial, professora universitária e há anos assessora discursos de candidatas, parlamentares e movimentos de mulheres. Nesta entrevista, ela fala sobre o que trava a mudança linguística no Brasil e sobre o tribunal das redes, mas avisa que não existe perfil prévio adequado: a boa oradora nunca é, até que seja.</p>
</div></div>



<h2 class="wp-block-heading">&#8220;A boa oradora nunca é, até que seja&#8221;</h2>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Você conta que apresentou um projeto de pesquisa sobre dominação masculina na linguagem e ouviu que o tema não frutificaria. O livro nasce dessa recusa?</strong></p>



<p><strong>Juliana Romão</strong> &#8211; Não exatamente. Olhando pelo retrovisor, essa recusa foi um significativo marco desmotivador, que talvez, por um tempo, tenha me feito achar que tudo o que eu enxergava era mais individual, “coisa minha”. Mas o interesse pelos fascínios da linguagem e de como ela está entranhada nas relações sociais e políticas sempre foi muito genuíno, então não parei de me misturar com o tema, estudando, refletindo, praticando.</p>



<p>Importa o que está sendo dito e como, mas na valoração social o elemento definidor é quem está dizendo. A cor da pele, o gênero e o CEP são marcadores estruturantes das desigualdades e definem igualmente o grau de audiência à fala e à expressão.</p>



<p>Levantei muitos debates sobre o tema em sala de aula, escrevi diversos artigos que sempre trouxeram perspectivas desse debate sobre poder, linguagem e gênero. As diversas funções na minha atuação profissional estiveram umbilicalmente marcadas por essas lentes. Nesse percurso, me aproximei também das mulheres da política institucional e passei a atuar na gestão de narrativas e articulação política. De maneira muito natural, a conexão entre os desafios da fala pública dessas mulheres diversas na política e as violências e as barreiras de acesso ao poder fizeram muito sentido e provaram que nunca foi uma questão individual, e sim um fenômeno coletivo.</p>



<p>Desenvolvi uma formação para fala pública de mulheres com a proposta de pensar a própria narrativa tendo referências da linguística, da política, da filosofia, do jornalismo, dos feminismos, das artes e da vida vivida. Não mais apenas pelos moldes pré-formatados de cursos de oratória, que se mostram sim importantes, mas depois da segunda página não são suficientes para dar conta das demandas ao mesmo tempo singulares, de cada potencialidade e trajetória, e coletivas.</p>



<p>O livro nasce de todos esses acúmulos, ficaram mais estruturados com a formação.</p>



<p>“<strong>A linguagem das mulheres políticas” se dirige a candidatas, eleitas, professoras, assessoras, jornalistas, ativistas. O que essas mulheres têm em comum quando pegam o microfone?</strong></p>



<p>Todas as mulheres são desafiadas na fala pública. Todas. A curta experimentação feminina na aparição pública com protagonismo não é de A ou B ou C, mas comum ao gênero, consequência da histórica dominação masculina na expressão do mundo. Ainda que as mulheres estejam cada vez mais presentes e atuantes, o déficit de tempo longe do púlpito é grande e simbólico.</p>



<p>Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Clarice mostrou que “saúde”, “educação” e “família” são os lugares vistos como naturais para elas. Já a “ciência e tecnologia”, “negócios” são espaços onde ainda parece estranho vê-las, sendo o grau máximo a “política”.</p>



<p>Por isso digo no livro que as mulheres falam com um canivete do julgamento mirando a jugular e isso as afeta diretamente, mas não é sobre elas, pessoalmente, tem relação com o que todas estão tentando desafiar, é sobre o padrão que não ‘pode’ ser desfeito.</p>



<p>E, nesse sentido, sem dúvida as mulheres plurais da política institucional sofrem desafios extras, uma vez que o discurso público é matéria prima da sua atuação. É comum falarmos que dar voz às pessoas, mas não é exatamente sobre ter voz, e sim sobre ter uma voz audível, respeitada.</p>



<p><strong>Você diz no livro que para cada especialista em redes sociais deveria haver uma especialista em vida real. O que se perde quando o discurso é construído pensando apenas na repercussão online?</strong></p>



<p>De cara, perde autenticidade e a rica dimensão de modulação discursiva desenvolvida com a troca, a partir da conexão que ocorre quando os olhos se cruzam. Não há edição que alcance o calor do abraço, a energia extraordinária da presença.</p>



<p>Agora, é indiscutível que a mensagem narrada nas redes, recortada e visibilizada em audiovisual, é a mais consistente estratégia de massificação discursiva do nosso tempo. Não integrar a virtualidade nem é mais uma opção viável para quem precisa se comunicar publicamente, então o desafio é movimentar-se bem e conscientemente na maré. Refletir, a partir da prática, sobre como atuar com segurança, estratégia e personalidade. Sem ingenuidade.</p>



<p>A fala que repercute nas redes, então, será tão ou mais potente quanto mais corresponder, em alguma medida, à vida de carne e osso, desenquadrada de uma tela. O efeito do virtual pode ser conduzido não para substituir quem somos, mas para alargar a performance, expandir e espalhar a mensagem que conduzimos.</p>



<p><strong>As redes sociais adicionaram uma camada nova ao receio das mulheres diante da fala pública? Nesses espaços, elas são julgadas mais que os homens e por fatores que extrapolam suas qualificações, como o corpo, a roupa, a aparência física. Isso muda o cálculo que uma mulher faz antes de se expor?</strong></p>



<p>As redes virtuais têm a capacidade de massificar ainda mais os discursos, que ganham contornos extraordinariamente mais vastos e complexos do que já era um sintoma com o advento da TV, quando a fala para grandes multidões presentes passou a ser feita para multidões ausentes; quando a imagem passou a ser tão o mais importante do que o conteúdo discursado.</p>



<p>Esse julgamento já existia na fala do púlpito, mas era exercido por menos pessoas. O tribunal das redes é mais violento e repetível, podendo ganhar escala, então sem dúvida essa camada muda o cálculo que se faz ao compor mensagens nas redes. Um cálculo que deve compor a estratégia comunicativa, não para paralisar, mas como medida de proteção e consciência, inclusive sobre as formas de denúncia e uso do ferramental jurídico para coibir práticas violentas e discriminatórias. Com firmeza e sem ingenuidade.</p>



<p><strong>No capítulo &#8220;Quem pode falar&#8221;, você retoma a <a href="https://medium.com/@fabi2moraes/falar-de-falar-sobre-falar-com-3b9e6ddb85a1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">distinção de Fabiana Moraes </a> entre falar “de” e falar “por”. Como manter a legitimidade de quem vive a experiência sem que isso restrinja os temas que uma pessoa pode abordar</strong>?</p>



<p>A legitimidade da experiência de quem vive é intransferível e inalienável. Mas não é a única perspectiva, inclusive pessoas que vivem realidades semelhantes podem ter visões distintas ou não. Essa dimensão de validação das abordagens exige um amadurecimento mesmo quanto aos caminhos para avançarmos.</p>



<p>Olhares distintos, vistos de perto, de longe ou de qualquer ângulo, enriquecem o debate, possibilitando o acesso a enquadramentos diversos do mesmo objeto, que de tão complexo são vários, com múltiplas interpretações. Nenhum deles é ilegítimo a priori. Eles vão ser primários, secundários, perspectivados, enviesados.</p>



<p>E tem algo importante também, tanto os discursos potentes quanto os vazios ou oportunistas podem ser identificados por quem escuta. Não devemos subestimar a capacidade interpretativa das pessoas e suas trajetórias.</p>



<p><strong>Você é professora, dá palestras, assessorou discursos de candidatas e parlamentares. O que desse método testou primeiro em si mesma e qual é a recomendação mais difícil de colocar em prática?</strong></p>



<p>Sem dúvida mirei em mim primeiro. Mas não como um teste de um método externo, ao contrário, a escuta e reflexão interna quanto às minhas inseguranças, potências, dúvidas e habilidades me mostrou o caminho para desenvolver uma proposta de formação alicerçada nas minhas pesquisas, estudos e práticas.</p>



<p>No livro deixo muito cristalino que não me considero uma exímia oradora e nem o objetivo é formar exímias oradoras. O projeto é dar suporte para comunicar melhor o que pretendemos, com troca, verdade e adubo para crescermos neste movimento superlativo que é pôr em comum.</p>



<p>Não existe um jeito “certo” de fazer, uma receita infalível à venda na Shopee. Então a proposta é também sobre libertação, de não precisar seguir um padrão. Não há perfil prévio adequado; a boa oradora nunca é, até que seja.</p>



<p><strong>Apesar do livro não ser exatamente um manual, há várias recomendações para quando uma mulher for falar em público: chegar cedo ao evento, não ficar no celular durante as demais falas, levar anotações impressas. Uma das recomendações mais específicas do livro é nunca abrir uma fala dizendo que está nervosa. Por quê?</strong></p>



<p>Sim, há recomendações muito abertas. Não faz muito sentido pra mim as normas imperativas que dizem como fazer. É como pensar nas risíveis roupas tamanho único. Elas, ao final, não cabem em ninguém.</p>



<p>Mas sobre a recomendação de verbalizar o nervosismo, eu trouxe esse ponto pois é um recurso muito comum e um genuíno movimento por empatia. Não há nada errado com isso especificamente, contudo, é importante que saibamos que ao mencionar essa condição, é bem provável que ela seja acionada na cabeça de muita gente uma “confirmação” da imagem estereotipada de inexperiência ou de inabilidade, comumente associadas às mulheres quando discursam. Será erguida uma impressão ou barreira que tende reduzir o que virá depois.</p>



<p>Então, se possível, segura essa informação, jajá o nervosismo vai passar. Em 30 segundos após o começo da fala, mergulho na água gelada ficará mais agradável e até prazeroso. Deixemos o frio na barriga vir, o coração acelerar; costumo dizer que ambos são manifestações de vida e homenagem. É o nosso corpo em perfeita sintonia com o momento presente.</p>



<p><strong>Do Chile ao México, mulheres estão exigindo o feminino no nome do cargo. No Brasil, o pedido de Dilma Rousseff para ser chamada &#8220;presidenta&#8221; foi recusado, mesmo havendo uma lei de 1956 que determina a flexão em cargos públicos. Por que aqui isso trava?</strong></p>



<p>De maneira macro, esse assunto revela a violenta desigualdade de distribuição de poder e de espaços de decisão. A dificuldade das mulheres, especialmente as diversas, alçarem espaços de poder aumenta exponencialmente na medida em que os cargos ficam mais “altos”. Temos pouquíssimas mulheres presidentas no mundo, de modo que o imaginário demora a assimilá-las no poderosíssimo lugar de líder de uma nação. O mesmo vale para a língua, que se move orientada pelas necessidades de uso social. Como ainda são poucas as mulheres presidentas, a engrenagem linguística não tem forças para se impor, e o uso da palavra no feminino sofre rejeição, parece incorreção e soa estranha e desnecessária.</p>



<p>Revela também que as transformações estão em curso, mas são lentas, não lineares e nem sem tensão. No Brasil, elegemos nossa primeira e até agora única presidenta, Dilma Rousseff, 14 anos antes do México, contudo, não apenas Dilma foi retirada do poder por sua agenda e condição de gênero, como os mecanismos de política para uma &#8216;cota forte&#8217; sofreram e sofrem resistência contínua dos parlamentos.</p>



<p>No Brasil, as mudanças combinadas, que possam se dar ao mesmo tempo, sofrem barreiras mais consistentes e isso trava tudo mais visivelmente. Digo isso pois o caminho é conhecido, mas pouco aplicado. É necessário uma legislação inequivocamente orientada à mudança cultural, que favoreça a equidade de gênero e raça na política; também precisamos de uma corte firme, capaz de fazer cumprir as normas; além de estruturas partidárias mais democráticas e a forte atuação dos movimentos de mulheres. E uma ação linguística também: é preciso empurrar a engrenagem da língua para incluir e visibilizar as mulheres em sua pluralidade, como ocorreu no caso da Câmara do Chile. E torná-las cada vez mais conscientes da própria capacidade de expressão.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Serviço</span>

		<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal" dir="ltr">Lançamento de <em>A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública</em>, de Juliana Romão (Editora Appris), com bate-papo com a autora e a professora da UFPE Ana Veloso, prefaciadora do livro<br />
<strong>Quando:</strong> Quinta-feira, 6 de agosto, às 19h<br />
<strong>Onde:</strong> Livraria do Jardim — Av. Manoel Borba, 292, Boa Vista, Recife<br />
<strong>Quanto:</strong> Entrada gratuita. O livro custa R$ 55</p>
	</div>
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		<title>&#8220;A gente não vai recuar&#8221;, garante Rosane Borges</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 09:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[antirrascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pensar na construção de uma coletividade que atenda de maneira justa às demandas da sociedade, é pensar na participação direta de todos os grupos que estão sendo impactados com as decisões do Estado. Em uma passagem recente pelo Recife, a professora e pesquisadora Rosane Borges, lançou seu novo livro Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, [&#8230;]</p>
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<p>Pensar na construção de uma coletividade que atenda de maneira justa às demandas da sociedade, é pensar na participação direta de todos os grupos que estão sendo impactados com as decisões do Estado. Em uma passagem recente pelo Recife, a professora e pesquisadora Rosane Borges, lançou seu novo livro <em>Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível</em>, e trouxe reflexões importantes para projetar um futuro em que grupos ditos minoritários estejam no centro do debate.</p>



<p>Acompanhada pelas jornalistas Kauana Portugal e Catarina de Angola, e pela ativista Ingrid Farias, o debate de lançamento apresentou perspectivas que envolvem política, comunicação, território e transformação social. Com a presença de ativistas, coletivos e organizações da sociedade civil, o encontro fez parte da programação do Julho das Pretas, organizada pelo Observatório Feminista do Nordeste.  </p>



<p>Neste dia internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25), a Marco Zero traz as reflexões da professora para a construção de um novo mundo onde a participação das mulheres negras tecem um futuro de bem-viver para a coletividade. Pessoas negras, pessoas indígenas, pessoas LGBTQIAPN+, corpos dissidentes, brancos, pessoas rurais e pessoas da área urbana trabalhando para que seja um mundo possível para todos. &#8220;É escandaloso ter apenas um grupo que pensa e decide o que é o país, o que é o comum desse país&#8221;, analisa Borges.</p>



<p>A data é comemorada em homenagem ao primeiro Encontro de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas ocorrido em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana. O encontro marcou a história da luta de mulheres afrodescendentes ao reunir centenas de mulheres de mais de 32 países para discutir e encontrar estratégias para combater o racismo e o sexismo. Trinta e quatro anos depois, essas mesmas mulheres continuam na luta para garantir que os direitos conquistados não sejam retirados e que novas formas de viver sejam pensadas em uma dinâmica de justiça social e racial.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:45% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="683" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-76246 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-683x1024.jpg 683w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-768x1152.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-1024x1536.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-1365x2048.jpg 1365w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-150x225.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-scaled.jpg 1707w" sizes="(max-width: 683px) 100vw, 683px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Rosane Borges é referência para os estudos sobre comunicação, raça, gênero e cultura. Jornalista, escritora e professora, é doutora em Ciências da Comunicação pela USP, professora convidada do Diversitas (FFLCH-USP), coordenadora da Escola Online Longa e docente da PUC-SP. Além do livro lançado em julho, ela é autora de diversos livros, entre eles: <em>Fragmentos do tempo presente </em>(2021), <em>Esboços de um tempo presente</em> (2016), <em>Mídia e Racismo</em> (2012) e <em>Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro</em> (2004).</p>



<p></p>
</div></div>



<p>Marco Zero &#8211;<strong>No livro, você parte dos modelos sociais atuais. Então, de uma forma geral, como é que você tem avaliado esses modelos da contemporaneidade?</strong></p>



<p><strong>Rosane &#8211;</strong> São modelos em colapso. Por isso que eu começo falando no meu livro que é a queda de céu, a queda de tudo, na trilha do Davi Kopenawa, porque é um modelo que já se esgotou. Tanto do ponto de vista da política institucionalizada, quando a gente vê o Donald Trump, quando a gente vê Netanyahu, quando a gente vê Milei, quando a gente vê o bolsonarismo, a gente diz que isso se esgotou, porque isso não é política, é antipolítica, é o politicismo.</p>



<p>Do ponto de vista das relações sociais, há o esgarçamento das relações sociais, dos afetos palavra que a gente tá usando muito que tá até desgastada, mas é preciso a gente pensar o que que a gente tá chamando de afeto. Então, tem o esgarçamento dos afetos, tem o esgarçamento da sociabilidade. A pandemia brutalizou a gente no espaço público, acho que tem uma brutalidade. Tem um rebaixamento da inteligência coletiva, eu acho que as redes sociais elas jogam um papel fundamental nesse rebaixamento da inteligência coletiva.</p>



<p>A gente tem uma predação ambiental. A pergunta que até coloco no livro que a gente tem que fazer é: aonde que a gente vai com as nossas trouxas de roupas? Porque os lugares, os territórios estão cada vez mais sendo destruídos e devastados. E não é pela natureza, é pela ação do homem. Então, acho que o que a gente tem hoje no contexto das relações vigentes é a degradação, é o colapso, é um capitalismo de crise que avança para dentro das nossas subjetividades, colonizando as nossas subjetividades. Para além de avançar para fora esse capitalismo que não viu fronteiras, que o dinheiro não tem fronteiras, só as pessoas que são interditadas, a política migratória interdita pessoas, mas não interdita o capital.</p>



<p>Então, esse é um contexto nefasto e ao mesmo tempo contraditório, porque nós chegamos do ponto de vista da performatividade técnica a uma alta performatividade, inteligência artificial, às tecnologias da inteligência em geral, para além da inteligência artificial. A gente tem um contexto de um poder maquínico das máquinas, ou seja, a gente tem uma performatividade técnica elevada, mas que, contraditoriamente, a gente tem um rebaixamento do que a gente chamou de civilização no passado, de pacto civilizatório, de sociedade, de humanidade, de bem-estar, de direito.</p>



<p>Então, eu acho que esse é o contexto que o livro traz no primeiro momento. E aí é preciso, nesse contexto ruim, difícil, que é inviável para a gente, inclusive para a gente cogitar uma vida digna, é um contexto inviável para uma vida digna, a gente cogitar possibilidade de outra forma de existência, que já, inclusive, estão em pleno exercício das matrizes indígenas às matrizes africanas.</p>



<p><strong>Pensando um pouco nesse contexto de transformação da sociedade, quais as principais contribuições das mulheres negras e dos grupos ditos minoritários para o debate sobre democracia, sobre justiça social, sobre a erradicação das desigualdades?</strong></p>



<p>O nosso papel é um papel importante, porque sempre é aquele que faz um movimento antecedente. Ou seja, para além de a gente dizer que a gente precisa participar da vida coletiva dentro de um desenho federativo, qual o nosso passo antecedente? A gente, inclusive, questiona o desenho federativo. A gente não só está pedindo e reivindicando por políticas públicas. E parte das políticas públicas do Brasil só existem graças à reivindicação histórica dos grupos historicamente discriminados, mas ao mesmo tempo que a gente pede por políticas públicas, a gente questiona as normas da institucionalidade.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;a gente reivindica acesso ao mundo, mas também a gente postula transformação desse mundo&#8221;.</p>
</div>


<p>A gente aponta os limites da democracia e a gente diz que não cabe, não vale apenas a gente ter representação num contexto de um mundo do que precisa ser reestruturado. Então, eu acho que nosso papel é bifronte, importante, porque a gente reivindica acesso ao mundo como ele é, a gente precisa reivindicar acesso ao mundo, participar da vida coletiva como ela é, capitalista, excludente, etc., mas também a gente postula transformação desse mundo. Ou seja, eu acho que a nossa grande contribuição é acesso ao mundo como ele é, na mesma medida que também a gente tenta transformar esse mundo, tenta questionar as normas que atribuem reconhecimento diferenciado, como já diria Judith Butler.</p>



<p>Tenta dizer que esse modelo de Estado tem que ser repensado. É por isso que o nosso olhar é sempre um olhar muito utópico. É um olhar que a gente diz, &#8216;tá bom, como é que a gente faz não só para participar da vida, para jogar o jogo, mas para a gente mudar as regras desse jogo&#8217;. E dizer, inclusive, que não é nem mudar as regras do jogo, o jogo tem que ser outro, não são só as regras.</p>



<p><strong>Como é que a gente pode pensar no fim desse mundo e na construção de um mundo possível, pensando também na contribuição da comunicação para essa construção?</strong></p>



<p>O que nos conforta é que pensar um outro mundo, pensar os futuros possíveis, não nos leva a pensar na lógica do grau zero, da tábula rasa: &#8216;ah, vamos reiniciar da página em branco&#8217;. O que nos conforta é que quando a gente diz que a gente precisa pensar esse outro mundo, mundo, já existem experiências, laboratórios desse mundo. Eu digo que nós estamos no metaverso desde o 14 de maio, não é? Então a gente tem mundos paralelos, eu acho que o que nos conforta é que esses mundos paralelos de resistência, de reinvenção, de criação, de produção, eles precisam ser projetados como matriz coletiva de uma outra experiência de vida.</p>



<p>E a comunicação é fundamental nesses tópicos, porque também a gente não parte da comunicação como veículo, como a tecnologia, o instrumento. Não é o celular, não é a rede social. Mas a comunicação é uma troca, é um sistema de vínculo que nos proporciona criar a possibilidade de conexão com o outro, sem que esse outro fique no lugar do outro. Contudo, que esse outro projete, também, todos os eus. Então, no momento de alterofobia, na morte do outro, é preciso que a gente reposicione também o debate de comunicação, pois não pode ser reduzido ao debate das <em>big techs</em>. Passa por elas, porque a gente precisa destituir o capitalismo algorítmico, mas é preciso também compreender que a comunicação hoje não deve passar apenas pela lógica algorítmica que orienta perfis, comoditiza as vidas, porque você faz uma curadoria de si.</p>



<p>Pensar comunicação nesse sentido é fundamental, porque ela deixa de ser apenas uma estratégia para determinado fim, mas ela passa a ser também um princípio que acompanha estratégias de produção de vínculo, de construção de subjetividades, de instituição de outras plataformas e etc.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9455DSC04256-1024x683.jpg" alt="A imagem mostra um debate em uma livraria com quatro pessoas sentadas em um palco diante de um público em cadeiras brancas. O espaço tem paredes laranjas, plantas decorativas e um painel verde com o nome “Jardim”. À esquerda, um telão exibe o cartaz “Imaginários Emergentes e Mulheres Negras” com ilustrações de uma mulher, um tigre e o símbolo feminista. O mesmo cartaz aparece à direita em um suporte próximo a livros, reforçando o tema literário e cultural do evento." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Rosane Borges, Kauana Portugal, Catarina de Angola e Ingrid Farias debatem os futuros possíveis
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Mariana Lira</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Qual a importância de mulheres negras e periféricas na construção do imaginário de um futuro possível, justo e menos difícil?</strong></p>



<p>Eu acho que a importância é exatamente no sentido que a gente olha. Se a gente pensar hoje o contexto das eleições, a gente vive, em termos de enunciado, um imaginário empobrecido, porque do ponto de vista social, a gente tem uma narrativa empobrecida sobre o que é política, sobre o que é política pública e etc. Então, qual o nosso papel enquanto mulheres negras? Quando eu digo no livro que é preciso que a gente geste o impossível, que a gente amplia os horizontes do possível. O nosso papel é trazer narrativas que sejam mais ousadas. </p>



<p>Veja, a gente está na narrativa que a gente não quer que a extrema-direita venha, a gente não quer que ditadura venha. Então, a gente está numa narrativa, inclusive, reativa. A gente deixou de ter uma narrativa propositiva. Quando a gente fala em imaginário, a gente está propondo, a gente não está só reagindo. A gente não está só combatendo a regressão. A gente está dizendo também como é que pode vir a emancipação. </p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;é preciso que a gente amplie os horizontes do possível. O nosso papel é trazer narrativas que sejam mais ousadas&#8221;. </p>
</div>


<p>O nosso grande papel, quando a gente fala de imaginários na política, a gente está falando também de possibilidades, de sonhar, de emancipar, de criar uma narrativa em que as pessoas possam dizer: essa narrativa coletiva, é uma narrativa do sonho, da esperança, da transformação. E não apenas da manutenção, da contenção da crise, da defesa. Porque é isso, a gente está no contexto da defesa ao monstro que continua arriscando não só o Brasil, mas o mundo e a América Latina. Se a gente pensar o que são as eleições desse ano, a América Latina é um horror.</p>



<p><strong>No lançamento do livro, o Observatório Feminista do Nordeste fez a provocação de quem tem sido reconhecido como capaz de imaginar o futuro do Brasil. </strong><strong>Então, queria perguntar a você: quem tem sido reconhecido por imaginar o futuro do Brasil?</strong></p>



<p>Homens brancos, urbanos, de preferência sudestino, que a eles é atribuído o discurso competente de pensar a coisa pública e os destinos de uma coletividade. Isso é tão terrível e, ao mesmo tempo, tão cristalino tão real, porque é um país que segue dando a homens brancos o poder de definir os destinos de uma coletividade, é um país que coloca em risco a sua própria democracia.</p>



<p>Se a gente pensar a origem da democracia grega, tem um pensador que eu gosto muito, o Jacques Rancière, que ele vai dizer que a democracia grega começa com o vício de origem. E é a democracia grega que vai inspirar a democracia ocidental liberal. Ele vai dizer qual é o vício de origem que a democracia grega nasce, ela carrega. Na democracia grega nem todo mundo podia falar, as mulheres não podiam falar, a criança não tinha o direito à fala. O artesão estava ocupado com o trabalho manual, então ele não falava no espaço público.</p>



<p>Aí ele dizia o seguinte, quem falava na democracia grega? Homens adultos que definiam os destinos de uma coletividade, definiam o comum. O comum é isso, é a economia, é a política, é o vestimento, é a cultura, são as regras que ordenam uma comunidade. Se a gente pensar o Brasil, a gente também carrega esse vício da democracia grega com um acréscimo terrível, a exclusão de mulheres, de indígenas e de pessoas negras, de mulheres negras, da população LGBTQIAPN +.</p>



<p>Por que a gente fica um dia assim e outro também, que nós temos que ter uma mulher no Supremo Tribunal Federal (STF)? Max Weber dizia que as três instâncias do poder, eram direitos (social), economia e política. Se a gente pensar que esse é o tripé que sustenta o poder de uma sociedade, a gente está ausente. Quando a gente olha para o STF, a nossa instância máxima, nós não estamos. Quando a gente olha os acordos econômicos, seja a economia privada, os financistas, também nós não estamos. É até bom que a gente não esteja mesmo, porque aquilo ali é o terror. Mas quando a gente pensa em economia pública, nós não estamos.</p>



<p>Quando a gente pensa política, nós estamos chegando com muita luta com as mandatas, a vereança e etc. Mas nós também não somos ministras para além dos lugares que eles acham que a gente deve estar. Pensar os destinos de uma coletividade é ter uma corporeidade que não seja apenas a corporeidade branca. A gente não tá querendo excluir as pessoas brancas a gente quer dizer &#8216;é o seguinte, para pensar os destinos de uma coletividade, você tem que ter pessoas negras, mulheres negras, pessoas indígenas, pessoas LGBTQIAPN +, corpos dissidentes, brancos, pessoas rurais e pessoas da área urbana&#8217;. Não se trata apenas do cálculo da representatividade, trata-se de você pensar o poder e a corporeidade do poder. É escandaloso ter apenas um grupo que pensa e decide o que é o país, o que é o comum desse país.</p>



<p>Você ter o ministro da economia, ele está definindo os destinos de todo mundo. E normalmente, hora a hora, é só o homem branco que define os destinos de uma coletividade. E a gente veio para dizer o seguinte, na linha da Érica: não toleraremos mais. A gente não quer só ser destinatário de políticas públicas. A gente não quer só ser exibida pelos governos, mesmo progressistas, que dizem &#8216;olha, o que eu fiz por vocês&#8217;. Não. A gente reconhece que tem que ter política mesmo para quem está na base. A gente não está querendo dizer que não tem que ter.</p>



<p>Além de sermos pessoas faltantes pela tragédia da escravidão, pela manutenção disso no capitalismo, nós também somos pessoas de inteligência, de tática, que pensam, que articulam. Que entendem de economia, de política, de jurisprudência, de lei, de cultura, de artes, de educação, de matemática e de inteligência artificial. A gente também está querendo ser reconhecida nesse lugar. Para além do lugar que é real, ninguém está negando isso, das sujeitas assaltantes a quem o Estado precisa prover com políticas públicas em escala.</p>



<p><strong>Nesses lugares de representação, que estratégia a gente precisa adotar enquanto sociedade para aumentar essa representação de mulheres negras nesse espaço de poder?</strong></p>



<p>Primeiro é a luta, o que a gente aprendeu com quem veio antes. É ter o campo da denúncia, da luta. De não transigir de alguns princípios, de saber aquilo que a gente negocia e aquilo que a gente não negocia e ter estratégias de formação das nossas meninas e mulheres para dizer o que cabe a cada uma de nós.</p>



<p>Há quem quer estar na universidade, há quem quer estar na política institucional, há quem quer estar na mídia, na imprensa, há quem quer estar nos territórios, nas organizações não governamentais. Então, acho que a gente precisa ter estratégia de essa coisa de ninguém largar a mão de ninguém, se ela tem uma verdade, é a verdade do ponto de vista da estratégia de dizer quem nós somos, de onde a gente veio e para onde a gente quer ir.</p>



<p>E é pensar isso coletivamente, pensar isso de maneira estratégica. E dizer que a gente não vai recuar. De onde a gente veio até onde a gente chegou não há possibilidade mais de recuo, nem do ponto de vista discursivo, nem do ponto de vista da prática.</p>



<p></p>
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		<title>Aos 80 anos, pescador que virou artesão reproduz barcos em miniatura no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 19:19:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesão]]></category>
		<category><![CDATA[barcos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília Teimosa]]></category>
		<category><![CDATA[fenearte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as manhãs, o pescador aposentado Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, trabalha na sede da Colônia de Pescadores Z1, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife. Mesmo aos domingos e feriados, fica até umas 11h em uma salinha sem lâmpadas perto do estacionamento. Ali, ninguém o chama por outro nome que não seja Carpinteiro. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todas as manhãs, o pescador aposentado Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, trabalha na sede da Colônia de Pescadores Z1, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife. Mesmo aos domingos e feriados, fica até umas 11h em uma salinha sem lâmpadas perto do estacionamento. Ali, ninguém o chama por outro nome que não seja Carpinteiro. Por muitos anos, construiu barcos que iam para o alto mar atrás de cavalas, ciobas, arabaianas, sirigados. Hoje, os barcos que faz são de decoração: jangadas, navios, lagosteiros, escunas, tudo em tamanho diminuto. Usa lixadeira e serra, mas o grosso do trabalho é feito “na pontinha da faca”, ou seja, à mão.</p>



<p>As peças impressionam. Carpinteiro faz tudo no seu tempo, caprichando em buscar na memória as cores e formas originais. São peças cheias de pequenos detalhes, como portinhas que se abrem no navio de cruzeiro com piscina. “Eu tenho um dom que Deus me deu: eu vi esse navio passar no cais do Porto do Recife. Eu estava lá quando ele entrou, aí eu olhei para ele e disse &#8216;vou fazer um igual'&#8221;, conta, sobre a memória fotográfica que o faz reproduzir os barcos em escala reduzida.</p>



<p>A boa memória vem desde os tempos de pescaria. “O pescador tem uma cabeça que vai além do GPS. Porque o GPS marca um lugar e às vezes você perde o GPS. E se o pescador botou cem covos (armadilhas de pesca) em um lugar no mar, ele encontra os cem, só marcando pela posição na terra”, diz ele, que começou a pescar ainda criança, no Rio Grande do Norte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/55373152840_42668978b7_c.jpg" alt="A imagem mostra um modelo de navio à vela exposto em um ambiente interno. O navio tem três mastros com velas brancas e cordas pretas que formam a armação. O casco é pintado de branco, com uma faixa vermelha e detalhes verdes e azuis na parte inferior. Ele está apoiado sobre um suporte azul. Ao fundo, há uma porta escura com uma placa indicando “W.C. Funcionários” e uma abertura que dá para outro cômodo. A foto destaca o trabalho artesanal e o cuidado nos detalhes do modelo." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Rosiélio reproduz de memória os barcos que já viu no mar, como esta escuna
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>&#8220;Meu pai fazia barcos, mas eu só queria pescar. Eu vivia na beira da praia, eu via os peixes, o povo chegando do mar, eu me animei para aquilo. Eu quis ser pescador, aí fui pescar”, lembra. Foi se acostumando aos pouquinhos com o balanço do mar e dominando os fortes enjoos das primeiras idas.</p>



<p>Na fase mais intensa da vida na pesca, chegava a passar 12 dias direto no mar, em barcos de 12 metros com seis pessoas. Mal dormia. &#8220;Você não sai para o mar para dormir. A gente chama, “bora para a dormida”. Ali só é para acomodar o corpo, só para descansar, para começar de novo, tirar um cochilo. Mas dormir mesmo, você só dorme em casa”, diz.</p>



<p>Carpinteiro amava a independência da vida de pescador, confiando apenas na própria habilidade para o seu sustento. &#8220;Para ser pescador não precisa de gravata, nem terno, nem sapato. É só ele botar um calçado, uma camisa, uma faca nos quartos e ir embora trabalhar. A faca é a caneta do pescador&#8221;, afirma. Mas o que Carpinteiro gostava mais da vida no mar era algo bem mais comezinho: a caldeirada que fazia no barco, com peixe fresco. &#8220;Pega o peixinho na hora assim, mata ele e faz aquele pirão. Eu adorava&#8221;, lembra, com água na boca.</p>



<p>Ele perdeu a conta de quantos tubarões viu e também de quantos comeu. Não tem medo, nunca teve. “Se o pescador tivesse medo do tubarão, não tinha pescador no mar”, afirma. Diz que o medo que o pescador artesanal tem no mar é o de navio. De noite ou de dia, é preciso estar atento para não entrar na rota dos navios, altos e gigantescos, e sofrer uma colisão.</p>



<p>Há outra situação de temor que Carpinteiro lembra, mas foi algo entre o medo e o deslumbre: o encontro com uma baleia, a várias milhas da costa do Recife. &#8220;A gente estava em um barco pequeno de oito metros, quatro homens em cima dele. E a gente viu a baleia lá longe: ela veio, veio, chegou perto do barco. Aí ela mergulhou. Chegou mais perto do barco, assim de banda do barco, e então ela subiu, pulou&#8221;, descreve.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Da pesca em alto mar às miniaturas de barcos</h2>



<p>Os barquinhos de decoração não existiriam sem os barcos de verdade. &#8220;Eu comecei a construir embarcação por intermédio do meu pai&#8221;, diz. “Ele tinha o maior prazer de, quando morresse, ter um filho para representar ele. Mas os seis filhos não queriam nem ser pescador nem trabalhar de carpintaria. Lá de casa, o pescador que veio foi só eu mesmo”, conta.</p>



<p>Aprendeu a fazer barco vendo o pai fazer, mas foi só depois que o pai morreu, na casa dos 90 anos, que Carpinteiro seguiu sua segunda vocação. Já estava aposentado pelo INSS e, aos 60 anos, passou a construir embarcações. &#8220;Minha esposa disse: ‘mas rapaz, como é que tu vai fazer barco se tu nunca trabalhou nem de ajudante’, aí eu disse: ‘mas eu vi meu pai fazendo’&#8221;. A primeira embarcação foi para ele próprio: passou mais de 10 anos no mar com ela. Depois, ainda fez 13 embarcações para outros pescadores de Brasília Teimosa e do Pina, algumas com mais de 12 metros de comprimento.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/55372934939_922b6e3ee7_c.jpg" alt="A foto mostra pequenos modelos de jangadas artesanais dispostos sobre uma prateleira. Cada jangada é feita de madeira rústica, com velas triangulares coloridas — branca, verde e amarela — presas por cordas e fios. Os detalhes incluem bancos, mastros e amarras feitos à mão, com fios azuis e brancos enrolados nas estruturas. O fundo é simples, com uma parede bege, destacando o trabalho manual e o cuidado nos detalhes dessas miniaturas." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Jangadas feitas com cabos de vassoura velhos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>A idade foi avançando e também não conseguia mais encontrar madeiras como a do mulungu, boa para se fazer jangadas. Um dia estava em casa, olhou um cabo de vassoura e viu que dava para fazer uma pequena jangada com ele. Cortou a madeira, fez as tábuas, o mastro, modelou os bancos. Hoje, raramente compra madeira. Passou a reciclar para fazer seus trabalhos em miniatura. Se alguém tem um armário velho em casa, doa para Carpinteiro fazer um barco. Também segue usando cabos de vassouras velhas.</p>



<p>Uma jangada pequena leva umas três manhãs para ficar pronta. Em um quartinho contíguo ao ateliê, lugar que tem a única lâmpada do imóvel, há uma réplica de um navio lagosteiro. Carpinteiro já pescou em um desses, de verdade, com uns 15 metros de comprimento, que lançava armadilhas entre quatro e dez milhas da costa do Recife. “Tem pedra no mar, tem lagosta”, vaticina. Das lembranças do mar, fez a miniatura do lagosteiro de 1,20 metro, toda detalhada. “Essa grade que ele tem aqui atrás é para carregar os covos para pescar a lagosta&#8221;, explica. O barco tem cabine com portinha que abre e fecha dos dois lados. Está à venda por R$ 1 mil e levou três meses de trabalho para ser feito. As jangadas menores saem por R$ 200.</p>



<p>Apesar do talento, Carpinteiro não pensa em participar da <a href="https://fenearte.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fenearte, a maior feira de artesanato da América Latina,</a> que se encerra neste domingo (19) no Centro de Convenções. Como tudo é feito à mão do começo ao fim, diz que iria levar anos para ter uma quantidade suficientemente boa para participar da feira. Prefere trabalhar do jeito que sempre fez, em terra ou em mar: no seu ritmo, no seu tempo.</p>



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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/aos-86-anos-funcionario-mais-antigo-da-cepe-recicla-fragmentos-de-papel-fazendo-arte/" class="titulo">Aos 86 anos, funcionário mais antigo da Cepe recicla fragmentos de papel fazendo arte</a>
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