<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivo de Entrevista - Marco Zero Conteúdo</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/formatos/entrevista/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 26 May 2026 20:36:40 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Arquivo de Entrevista - Marco Zero Conteúdo</title>
	<link>https://marcozero.org/formatos/entrevista/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>“Árvores não são mobiliário urbano, que se coloca, retira e muda de tamanho”</title>
		<link>https://marcozero.org/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/</link>
					<comments>https://marcozero.org/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 May 2026 20:32:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[arborização]]></category>
		<category><![CDATA[árvores]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Neoenergia]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75632</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Letícia Lins, do blog Oxe Recife Quando se fala em árvore, no Recife, o primeiro nome que vem à lembrança de biólogos, botânicos, urbanistas, paisagistas, jornalistas, é Isabelle Meunier, E foi a ela que recorri, diante do visível excesso de arboricídios da cidade, de mudas computadas como “árvores” que não passam de gravetos. Como [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/">“Árvores não são mobiliário urbano, que se coloca, retira e muda de tamanho”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Letícia Lins, do blog</strong> <strong><a href="https://oxerecife.com.br/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Oxe Recife</a></strong></p>



<p>Quando se fala em árvore, no Recife, o primeiro nome que vem à lembrança de biólogos, botânicos, urbanistas, paisagistas, jornalistas, é Isabelle Meunier, E foi a ela que recorri, diante do visível excesso de arboricídios da cidade, de mudas computadas como “árvores” que não passam de gravetos. Como sou leiga no assunto, mas produzo a série #Paremdederrubarárvores, no<strong> </strong>#OxeRecife – que aliás virou campanha permanente  em defesa do patrimônio verde da cidade – achei conveniente ouvi-la, já que é uma grande autoridade no assunto.</p>



<p>Nessa entrevista, ela dá sugestões que permitam o controle social da arborização urbana, que os gestores cuidem do setor com transparência, e defende que o Conselho Municipal do Meio Ambiente receba e analise semestralmente informações detalhadas, por bairro, da quantidade de árvores suprimidas e de plantios para análise. Questiona o modelo da nova arborização urbana do Recife, “que está se estabelecendo contra tudo que conhecemos como boas técnicas”. Lembra que ao contrário do que se pratica na cidade, “uma árvore (ou muitas) não pode ter a supressão justificada porque vai ter compensação”. Adverte, ainda, que árvores não podem ser tratadas como mobiliário urbano. “São seres vivos e têm limites de resiliência”.</p>



<p>Isabelle é engenheira florestal, mestre em Ciência do Solo e doutora em Ciências Florestais. Professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde responde pelas cadeiras de Metodologia do Trabalho Científico para a Engenharia Florestal; Legislação Florestal e Ambiental; Política Florestal no Curso de Engenharia Florestal. É supervisora da área de Manejo Florestal e autora de livros infantis, paradidáticos sobre meio ambiente. Orienta e publica sobre arborização há muitos anos, com artigos divulgados em revistas especializadas internacionais e brasileiras. Dois desses artigos:  <em>Evolução da arborização de acompanhamento viário em cinco bairros de Recife – PE (</em> na Revista de Geografia)  e <em>Danos e estratégias de manejo de árvores no Parque da Jaqueira, Recife-PE</em> e <em>Participação na gestão ambiental de espaços públicos: estudo de caso no Parque da Jaqueira, Recife-PE</em>, trabalhos realizados junto a estudantes e apresentados na Semana da Engenharia Florestal da UFRPE, em 2025.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Veja a entrevista:</li>
</ul>



<p><strong>Entre 2013 e 2015, cerca de 2.500 árvores eram suprimidas a cada ano, segundo números oficiais que me foram fornecidos à época. A partir de 2016, esses dados passaram a não ser mais divulgados. Em 2025, segundo a Prefeitura, as erradicações caíram para 1.562.  Mas diariamente o cidadão se defronta com troncos degolados nas ruas. Como a população pode atuar nesse controle?</strong></p>



<p><strong>Isabelle Meunier –</strong> O mínimo que se espera para se ter controle social na arborização urbana é a prestação de informações precisas, claras, tempestivas e qualificadas. O Conselho Municipal de Meio Ambiente deveria apreciar, semestralmente, relatórios com quantitativos de supressões por bairro, se árvores públicas ou particulares, assim como a motivação das intervenções, com possibilidade de consultar os pareceres das autorizações ambientais respectivas. Relatórios de análises e pareceres deveriam estar disponíveis para toda população e os dados acessíveis à comunidade acadêmica, para novas análises. Se não se está fazendo isso, o poder público municipal está contrariando o princípio da transparência na administração pública e dois princípios do Direito Ambiental: o da informação ambiental e o da participação social. O controle social precisa estar presente também nas operações de poda, que deveriam ser notificadas em <em>site</em> e apresentar, no local dos trabalhos, placa indicativa como nome do técnico responsável e número de contato para esclarecimento.</p>



<p><strong>Pelo que eu entendi, a Prefeitura considera ter um superávit “verde” em 2025.  Isso porque houve 1.562 supressões, mas foi feito plantio de 1.963 mudas. Ou seja, “um crescimento real de 25 por cento em relação às árvores caídas ou suprimidas”, de acordo com a gestão municipal. No meu entender, essa conta não fecha. O que diz a senhora, que é uma das maiores autoridades no assunto aqui no Estado?</strong></p>



<p>Importante, novos plantios não compensam, necessariamente, árvores cortadas. Há um período de tempo que pode ser longo entre a época dos plantios de compensação e a efetiva compensação dos serviços ambientais que foram diminuídos com a remoção das árvores, o que pode simplesmente não ocorrer, porque as mudas podem não se desenvolver. Mas, além disso, é preciso deixar claro que a compensação ambiental é uma exigência legal, respaldada pelo princípio da reparação, mas não pode ser pretexto ou justificativa para corte de árvores. Uma árvore (ou muitas) não pode ter a supressão justificada porque vai ter compensação. A compensação é uma imposição legal quando não há meios de evitar a supressão.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-corte-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-corte.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-corte.jpg" alt="A foto mostra o tronco quebrado de uma árvore em uma calçada urbana, com pedaços de madeira pontiagudos e lascas espalhadas ao redor. O chão está coberto por folhas secas e fragmentos de casca, e ao fundo vê-se um muro com arame farpado e grafites, além de carros trafegando em uma avenida sob um céu azul com nuvens brancas. A imagem transmite uma sensação de impacto e contraste entre natureza e cidade, sugerindo o resultado de uma queda ou corte recente." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Isabelle Meunier diz que há evidente escassez de árvores em muitos locais do Recife
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>De acordo com cálculos oficiais, o Recife teria, hoje, 259 mil 565 árvores, sendo 159.304 em áreas públicas e o restante em lotes. Esses números são suficientes para garantir o conforto térmico de uma cidade cheia de ilhas de calor, com 1.600.000 habitantes, com frota de 730 mil veículos (sendo 399.615 automóveis), sem falar nos outros emissores de CO² existentes na capital?</strong></p>



<p>É bem complicado estimar a necessidade potencial de plantio nos diversos tipos de florestas urbanas, no Recife, a partir dos dados disponíveis.  Não se conhece o déficit por bairro e, mesmo diante de evidente escassez de árvores em muitos locais, não há iniciativas para tentar compensar as dificuldades de calçadas estreitas ou inexistentes com a oferta de categorias de áreas verdes convenientemente arborizadas, como praças, pátios de escolas e outros órgãos públicos.</p>



<p><strong>Parece haver, também, uma desigualdade na distribuição do verde urbano no Recife. Confere essa informação?</strong></p>



<p>Há décadas fizemos levantamentos comparando bairros de diferentes RPAs de Recife, que demostraram grande diferença entre as amostras, caracterizando a arborização de calçadas como um indicador das desigualdades no ambiente urbano. Diferenças entre tipos de problemas e danos ocorrentes também foram identificados. Mas faz tempo que avalio se vale a pena repetir esse tipo de diagnóstico, já que se mostraram inúteis por não subsidiar medidas de melhorias.</p>



<p><strong>Por que não há indicadores seguros de número ideal de árvores por habitante?</strong></p>



<p>Porque essa necessidade varia de cidade a cidade, em função do clima, da proximidade ao mar ou rios, vizinhança de áreas verdes e unidades de conservação. Então, cada cidade tem de estabelecer suas próprias metas, de acordo com suas expectativas de qualidade de vida e justiça ambiental.</p>



<p><strong>Andando tanto em bairros do centro quanto em outros afastados, como Monteiro e Afogados, já encontrei ruas sem uma árvore sequer. Também há canteiros centrais – como na avenida Norte (excetuando-se o trecho localizado na Macaxeira) – que são de aridez absurda. A alegação é que eles não comportam árvores. Quais seriam as espécies que poderiam ser plantadas em locais como aqueles?</strong></p>



<p>Para termos uma boa arborização, a cidade deve querer isso. Dificilmente a sociedade, espontaneamente, vai mudar seus costumes. E, portanto, cabe aos gestores serem catalisadores de novas inspirações. É realmente difícil ter árvores em calçadas estreitas, em construções sem recuos, canteiros centrais que não passam de simples divisor de pistas.  Ou seja, as calçadas precisam ser mais largas, novas avenidas devem ter verdadeiros canteiros centrais (com pelo menos 4 m de largura – e sem fiação aérea!), edifícios públicos ou particulares precisam abrir mão de vagas de estacionamento para dar lugar a árvores. Bairros mais antigos têm grandes desafios para a arborização de calçadas, por motivos óbvios, e pode-se tentar compensar com pequenas praças, estabelecidas em terrenos não ocupados.  Códigos de obras precisam ser cumpridos para manutenção de áreas verdes nas edificações e para isso é preciso controle urbano para, aos poucos, se ter alguma mudança de concepção de cidade. É difícil? Muito. Mas talvez seja possível.</p>



<p><strong>No Recife, o índice de perdas de mudas já chegou a 60 por cento. Não tenho números atuais, mas é impressionante a quantidade de gravetos computados como “novas árvores”. Na avenida Recife, por exemplo, cheguei a contar 40 gravetos entre as cem “árvores” plantadas pelo Programa Via Jardim. Como a sra vê esse problema?</strong></p>



<p>Poucas vezes vi, em Recife, plantios tão ruins. Muitas mudas grandes (mas não necessariamente boas, mas provavelmente caras), plantadas algumas vezes com o saco plástico (tenho fotos , mas uma dessas vítimas já deu lugar a uma entrada de estacionamento), em solo compactado, com pó de pedra como cobertura do canteiro, sem tutor ou com tutor e amarrio inadequados, sem grade de proteção.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;A nova arborização de Recife está se estabelecendo contra tudo que conhecemos como boa técnica&#8221;.</p>
</div>


<p><strong>Qual sua opinião sobre essa nova arborização do Recife?</strong></p>



<p>A nova arborização de Recife está se estabelecendo contra tudo que conhecemos como boa técnica. Nada de manutenção nem replantio das muitas mudas mortas. Isso se soma à densidade desordenada de postes de todos os tipos e finalidade e uma fiação aérea caótica. Infelizmente, não posso dizer que vi melhorias recentes. Aliás, melhoria na arborização começa com um bom viveiro, adequado e regular fornecimento de sementes, boas práticas de produção de mudas e gestão do viveiro, recursos humanos experientes e capacitados … No caso de mudas de terceiros, certamente é necessário que os contratos sejam muito melhor acompanhados pelo contratante.</p>



<p><strong>No Recife, espera-se até dois anos por um atendimento de poda feito à Emlurb. Pelo menos é o que acontece no meu bairro. Essa demora pode prejudicar as árvores, muitas das quais ficam “capengas” depois de “podas” feitas pela Neonergia, que são unilaterais e somente nos galhos que batem na fiação?</strong></p>



<p>Interessante esse dado, eu não tinha essa informação. Quando avaliei tempo de resposta à solicitação de cidadão, pela primeira vez, em 1998, fiz em relação aos atendimentos a pedidos de plantio, que foram atendidos no prazo de poucos dias a até três meses. É possível que as condições de atendimento tenham se degradado. Não tenho informações sobre as condições objetivas do órgão responsável para avaliar, dar parecer e prover as ações de arboricultura necessárias, com boa técnica. O certo é que é preciso ter essas condições. No caso de avaliação de risco, essa resposta tem de ser absolutamente tempestiva, indicando e aplicando a intervenção necessária.</p>



<p><strong>O que se espera de podas da Neonergia, que só visam os galhos que batem nos fios, deixando as árvores em desequilíbrio e mais propensas a tombarem?</strong></p>



<p>Em relação às <a href="https://marcozero.org/podas-mal-feitas-realizadas-pela-neonergia-podem-provocar-mais-quedas-de-arvores-no-recife/">podas da Neoen</a><a href="https://marcozero.org/podas-mal-feitas-realizadas-pela-neonergia-podem-provocar-mais-quedas-de-arvores-no-recife/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">e</a><a href="https://marcozero.org/podas-mal-feitas-realizadas-pela-neonergia-podem-provocar-mais-quedas-de-arvores-no-recife/">rgia</a>, a empresa tinha desenvolvido um protocolo que, ao menos, denotava cuidados, mas também observo uma certa perda de qualidade nas operações. Nos últimos anos, certamente houve avanços na qualidade de podas da Neoenergia, talvez principalmente pelos esforços de melhoria do isolamento da fiação. Da nossa parte, foram muitos e muitos anos alertando para o simples fato de que foice e fação não eram instrumentos para poda – ao menos nisso se avançou. Podas da Neoenergia têm como objeto “livrar a fiação” mas o mínimo que se espera é que deixe a árvore sem danos e em condições de se recuperar. Mais uma vez, um alerta: árvores não são mobiliário urbano, que se coloca, retira e muda o tamanho. São seres vivos e têm limites de resiliência.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-poda-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-poda.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/arvore-poda.jpg" alt="A imagem mostra uma rua urbana arborizada, com edifícios altos e brancos ao fundo. À esquerda, há carros e motos estacionados, enquanto à direita se estende uma calçada larga e bem cuidada, ladeada por árvores de copas densas e palmeiras. Os galhos se inclinam sobre a via, formando uma espécie de túnel verde, porém não há galhos acima da calçada. O céu está claro, e a cena transmite uma sensação de tranquilidade e integração entre natureza e cidade." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Podas da Neoenergia têm como objeto “livrar a fiação”, o que afeta o equilíbrio das plantas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Na nossa cidade, temos a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade e um Manual de Arborização Urbana, que é considerado eficiente. Mas há regras atuais estranhas. Por exemplo, quem autoriza a erradicação de árvores não é mais a esvaziada SMAS, mas sim a Secretaria de Política Urbana e Licenciamento, a mesma que libera construções e recentemente liberou o corte de 41 árvores no Parque Dona Lindu para “plantar” quiosques. Não há conflito de interesses que coloca nossas árvores em risco?</strong></p>



<p>Recife sempre teve problema de harmonização de órgãos para desempenho de atividades relativas à arborização: SMAS, Emlurb e, no caso de empreendimentos de construção,  a SEDUL. É um desafio da gestão pública ter o meio ambiente como eixo horizontal, mas ainda assim deve ser tentado. Não tenho sugestões sobre como articular o sistema municipal de meio ambiente com as instâncias de ordenamento urbanístico porque exige conhecimento sobre os órgãos: competências, recursos humanos, capacitação, investimentos em recursos para aprimorar o licenciamento… E, lembrando, as responsabilidades também são dos empreendedores, engenheiros e arquitetos e demais profissionais que precisam comungar da nossa certeza sobre a importâncias das árvores para a qualidade de vida nas cidades.</p>



<p><strong>O Manuel de Arborização do Recife vem sendo seguido?</strong></p>



<p>Sobre o Manual: parece que tem sido esquecido, não é mesmo? O Manual tem informações válidas, recomendações fundamentadas pela literatura especializada e muito ainda a ser desenvolvido por meio de experimentos com espécies indicadas ainda não são utilizadas. Mas parece estar sendo ignorado, o que comprova que a produção de documentos não é suficiente sem a ação responsável e eficaz de agentes públicos.</p>



<p><strong>O governo federal lançou recentemente o PlaNAU – Plano de Arborização Urbana, cujas primeiras ações já começam a aparecer, como Programa “ArborizarCidades” que vai liberar R$ 19 milhões para plantios urbanos de pequenas e médias cidades. O que acha do PlaNAU?</strong></p>



<p>Sinceramente, ainda não analisei o PlanAu. Enviei algumas contribuições, mas não acompanhei as últimas discussões e deliberações. Imagino o desafio de construir um instrumento de planejamento nacional para ações que se dão, necessariamente, nos territórios municipais. Assim, espero que aborde diretrizes, mas só vou falar sobre ele quando analisar o documento junto com minhas turmas, sabendo que será a simples análise de um documento, enquanto o verdadeiro desafio a ser enfrentado reside na capacidade, habilidade e vontade dos municípios de conduzirem a arborização como um serviço público essencial às populações.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/">“Árvores não são mobiliário urbano, que se coloca, retira e muda de tamanho”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/arvores-nao-sao-mobiliario-urbano-que-se-coloca-retira-e-muda-de-tamanho/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/</link>
					<comments>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 14:42:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[“coisa de rico”]]></category>
		<category><![CDATA[boa viagem]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Distinção social Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[elites recifenses]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[tese de doutorado]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Norte Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Sul Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75550</guid>

					<description><![CDATA[<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/">Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini Cooper, por exemplo. Já o rico da Zona Sul mora num apartamento com nome em inglês e vista para o mar de Boa Viagem, troca de SUV com regularidade, frequenta restaurantes badalados, decora a casa com arquiteto famoso e valoriza áreas comuns instagramáveis no condomínio. </p>



<p>São dois estilos de vida e duas formas de disputa simbólica entre as elites recifenses.<br><br>É isso que mostra a tese de doutorado <em>Classes e classificações na cidade: disputas simbólicas entre frações de elite do Recife</em>, do sociólogo Bernardo Fortes de Moura Arruda, defendida em junho de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Durante a pesquisa para a tese, ele realizou 80 entrevistas — 49 com moradores da Zona Norte e 31 da Zona Sul — e selecionou 50 para análise. Todos as pessoas entrevistadas integram o 10% mais rico do Recife, e algumas o 1%. Entre os entrevistados, há um grande empresário dos setores de energia, cimento e logística, integrante de família tradicional pernambucana de origem açucareira; e uma empresária e filantropa reconhecida pela Forbes, ex-bailarina e fundadora de projeto social de arte e educação.<br><br>O que Bernardo Fortes encontrou na pesquisa mostra que para a elite recifense a fronteira entre a Zona Norte e a Zona Sul não é apenas geográfica. &#8220;O ponto não é dizer que a Zona Norte é mais culta ou que a Zona Sul é apenas ostentação&#8221;, ressalta o sociólogo. &#8220;O que a tese mostra é que esses rótulos são usados na disputa entre as próprias elites. Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem: orla, prédios caros, consumo e visibilidade social. A Zona Norte, por sua vez, precisa narrar seu prestígio por outros caminhos: tradição, memória, arborização, casario, discrição e vida cultural”. Confira a entrevista abaixo.</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>A tese mostra que essa disputa entre ZN e ZS é assimétrica: a Zona Norte ataca, a Zona Sul defende. Por que o indivíduo da Zona Norte tem mais interesse em manter essa fronteira?</strong></p>



<p><strong>Bernardo Fortes &#8211; </strong>A assimetria existe porque Zona Norte e Zona Sul não disputam prestígio pelo mesmo critério. Boa Viagem consolidou-se como símbolo visível de êxito econômico: orla, imóveis de luxo, hotéis, restaurantes e consumo de alto padrão. Parte do seu prestígio já está inscrita na paisagem. Morar perto ou diante da praia funciona, nesse imaginário, como emblema de ascensão social.</p>



<p>A Zona Norte também concentra riqueza, mas costuma narrar sua distinção por outros sinais: tradição familiar, antiguidade da ocupação, memória dos antigos arrabaldes do Capibaribe, casarões, sítios e uma sofisticação mais discreta, associada à herança aristocrática e açucareira do Recife. Esses atributos, porém, não aparecem na tese como virtudes naturais da Zona Norte, mas como recursos simbólicos usados por suas elites para disputar prestígio com a Zona Sul.</p>



<p>Por isso, o morador da Zona Norte tende a investir mais nessa fronteira simbólica. A Zona Sul aparece, em muitos depoimentos, como lugar do dinheiro visível, do consumo e da ostentação; a Zona Norte, como espaço da tradição, da discrição, do refinamento cultural e do “bom gosto”. Não é uma descrição objetiva dos dois espaços, mas uma forma de classificação social. A Zona Sul precisa explicar menos seu prestígio porque ele é mais imediatamente reconhecível. A Zona Norte, ao contrário, reafirma sua legitimidade histórica, cultural e moral para se diferenciar do brilho econômico associado à orla.</p>



<p><strong>Gilberto Freyre descreve a urbanização do Recife como um processo traumático, como o estilhaçamento de uma ordem que mantinha os antagonismos sociais em equilíbrio &#8220;à sombra do engenho&#8221;. Esse trauma segue operando nas fronteiras simbólicas entre as zonas do Recife de hoje?</strong></p>



<p>Em Gilberto Freyre, o sobrado urbano aparece como um desdobramento da crise da antiga ordem da casa-grande e senzala. Ao contrário do engenho, que funcionava como espaço relativamente fechado e controlado, a cidade surge como ambiente marcado pela circulação intensa, pela mistura social e pela perda daquele domínio patriarcal mais direto sobre a vida cotidiana. Por isso, o sobrado frequentemente aparece em Freyre quase como uma arquitetura defensiva, hostil à rua e à imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p>Ecos desse processo ajudam a compreender também a formação histórica das áreas de prestígio do Recife contemporâneo. A Zona Norte tradicional começa a se consolidar ainda no século XIX, quando os antigos arrabaldes ligados ao Capibaribe passam a atrair setores das elites interessados em formas de vida mais rarefeitas e protegidas da intensidade social do centro portuário e comercial da cidade, marcado pela circulação de trabalhadores, comércio popular, escravizados, ex-escravizados e pela própria dinâmica anônima da urbanização. Já Boa Viagem e a Zona Sul surgem mais tarde sob outra lógica. A valorização da orla se associa à modernização da cidade, ao automóvel, à verticalização e a um imaginário cosmopolita ligado à vida marítima e ao consumo. Ainda assim, permanece a busca por formas urbanas relativamente seletivas de convivência.</p>



<p>Mas a própria trajetória de Boa Viagem produz uma contradição importante. À medida que a praia se populariza e se transforma no maior espaço público da cidade, atravessado por circulação metropolitana intensa, parte das elites passa a desenvolver uma relação mais ambivalente com aquele espaço. Boa Viagem continua extremamente valorizada como paisagem e símbolo imobiliário de prestígio, mas há uma tendência de deslocamento da sociabilidade das frações mais altas para praias mais seletivas do litoral sul e outros espaços percebidos como mais controlados. Nesse sentido, o trauma descrito por Freyre talvez não sobreviva como permanência direta da casa-grande, mas como continuidade de uma busca recorrente das elites recifenses por espaços protegidos da massificação, da circulação excessiva e da imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p><strong>Você escreve que o mercado imobiliário de alto padrão no Recife atua como um &#8216;operador simbólico&#8217; — não apenas refletindo, mas produzindo as fronteiras entre as elites. Os incorporadores fazem isso conscientemente ou simplesmente captam o que já está no ar?</strong></p>



<p>O mercado imobiliário não cria essas fronteiras sociais sozinho, porque elas já existem historicamente no Recife, mas ele também não atua de forma neutra. Os incorporadores captam desejos, hierarquias e imagens de prestígio já presentes entre as elites e os transformam em mercadoria. O imóvel de alto padrão raramente é vendido apenas como metragem ou localização. O mercado vende pertencimento social junto com o apartamento e o bairro.<br><br>Essa dinâmica aparece na própria forma como determinadas áreas da cidade são apresentadas. Em Boa Viagem, o discurso costuma enfatizar modernidade, consumo, vista para o mar e vida cosmopolita. O edifício na orla funciona quase como um troféu urbano. Já nos bairros valorizados da Zona Norte, o apelo tende a passar pela tradição, pela autenticidade histórica, pela discrição e por referências ao imaginário aristocrático ligado ao açúcar e aos antigos arrabaldes do Capibaribe, algo que muitas vezes aparece até nos nomes dos edifícios.<br><br>Não se trata necessariamente de uma ação totalmente consciente ou planejada para produzir identidades urbanas. O processo é mais difuso. O mercado lê aspirações sociais já existentes e, ao transformá-las continuamente em linguagem de venda, acaba ajudando a reforçar e organizar essas fronteiras simbólicas da cidade.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-300x180.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-1024x613.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-1024x613.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de um edifício com fachada de vidro em dois andares. No andar superior, silhuetas de pessoas de pé conversando. No andar inferior, uma multidão maior em movimento. A imagem é espelhada horizontalmente, criando uma composição simétrica." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites
</p>
	                
                                            <span>Foto espelhada de Bernardo Fortes/Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você mostra que os ricos da Zona Norte têm apreço pela caminhabilidade e pela arborização, mas isso em bairros que de certa forma têm uma circulação controlada. Já as elites da Zona Sul preferem o condomínio fechado, o shopping. Ambos se unem pelo medo do centro, que seria um espaço público mais propício ao encontro com outras classes sociais? Você acha que a decadência do centro do Recife está ligada também a um abandono do centro pelas elites?<br></strong><br>Sim, acho que existe uma relação importante entre esses processos. Embora a Zona Norte valorize caminhabilidade, casario, arborização e certa ideia de convivência urbana mais aberta, isso geralmente acontece em áreas relativamente protegidas, com circulação social mais previsível e padrões de convivência mais homogêneos. Nesse sentido, a própria valorização da rua e da circulação a pé parece depender também de uma percepção de segurança e familiaridade social do espaço.<br><br>Isso ajuda a entender uma contradição importante apreendida pela tese. A Zona Norte costuma se apresentar como espaço mais aberto à convivência urbana e à mistura social do que a Zona Sul. Mas, na prática, muitas dessas áreas continuam funcionando dentro de limites relativamente seletivos: espaços públicos bastante frequentados, como a Praça de Casa Forte ou eventos tradicionais do Poço da Panela, são abertos, mas frequentados majoritariamente por pessoas que compartilham códigos sociais parecidos, o que também ajuda a produzir uma sensação maior de familiaridade e conforto na convivência cotidiana.<br><br>Boa Viagem, por outro lado, possui intensa circulação urbana, comércio de rua e uma praia amplamente frequentada. O ponto não é ausência de mistura social, mas formas seletivas de uso desses espaços, como a ocupação mais restrita de certos trechos da praia e o deslocamento do lazer para praias mais exclusivas do litoral sul.<br><br>Nesse sentido, o centro tradicional do Recife acaba representando justamente o oposto dessa lógica: um espaço marcado pela circulação intensa, pelo comércio popular e por encontros urbanos menos controláveis entre grupos sociais distintos. Esse afastamento progressivo das elites em relação ao centro é um dos fatores que ajudam a explicar sua tendência de decadência. Quando escolas tradicionais, cinemas de rua, equipamentos de consumo, galerias, shoppings, investimentos privados e parte da atenção pública se deslocam para a Zona Norte e para a Zona Sul, o centro perde funções sociais, prestígio e capacidade de atrair recursos. Aos poucos, deixa de ser percebido como espaço de moradia, lazer e consumo das elites e passa a ser associado sobretudo ao comércio popular, à circulação intensa e à imprevisibilidade urbana.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam.</p>
</div>


<p><strong>A simpatia pela esquerda que aparece em alguns entrevistados da ZN é uma posição política efetiva ou mais um marcador de refinamento cultural que distingue a Zona Norte da Zona Sul?</strong></p>



<p>Pode ser as duas coisas. Em alguns entrevistados da Zona Norte, existe um entusiasmo vivido com pautas progressistas, como direito à cidade, preservação do patrimônio histórico, valorização da diversidade e preocupação com minorias. Mas essas pautas também aparecem ligadas a uma estética e a uma forma específica de viver a cidade. Defender ruas arborizadas, casarões antigos, caminhabilidade, vida cultural, convivência urbana e certa mistura social faz parte de um modo de experimentar a Zona Norte e de diferenciá-la simbolicamente da Zona Sul.<br><br>Nesse sentido, a valorização da diversidade também funciona como marcador de refinamento moral e distinção entre frações da elite. Isso não significa que seja apenas pose. Pode haver esforço real de convivência e valorização da diversidade. O ponto é que essa convivência frequentemente permanece seletiva, sem necessariamente romper as hierarquias sociais existentes.</p>



<p><strong>Moradores do Poço da Panela resistiram tanto à construção de um Atacado dos Presentes quanto à de uma UPA no bairro. Ambos estabelecimentos eram voltados a públicos populares. Os argumentos usados foram urbanísticos e ambientais: o impacto no trânsito, a preservação do rio, o microclima. Esses episódios podem revelar que o &#8220;estilo de vida&#8221; que as classes altas da Zona Norte dizem defender é, na prática, também uma forma de gestão do território para manter afastados os serviços e os públicos que não pertencem ao seu círculo simbólico?</strong></p>



<p>Esses episódios sugerem que o estilo de vida defendido no Poço da Panela envolve não apenas preocupações urbanísticas e ambientais legítimas, mas também uma tentativa de preservar a imagem social do bairro, suas hierarquias internas e suas regras implícitas de convivência. A defesa do patrimônio, da arborização, do microclima e da tranquilidade se liga a uma forma específica de viver a Zona Norte: um espaço valorizado justamente por parecer mais calmo, histórico, pouco adensado e socialmente previsível. Quando chegam equipamentos voltados a públicos populares, o incômodo não se reduz ao trânsito ou ao impacto ambiental. Também aparece o receio de que o bairro perca parte do perfil social e da atmosfera simbólica que sustentam seu prestígio.</p>



<p>Como sugere o sociólogo Pierre Bourdieu, a intolerância estética pode funcionar como uma das barreiras mais fortes entre classes. Nesse sentido, preocupações aparentemente neutras com paisagem, circulação ou preservação urbana acabam funcionando também como mecanismos de filtragem social: delimitam quem circula, quem consome e quais formas de presença parecem “adequadas” ao bairro, sem que isso precise ser formulado diretamente em termos de classe.</p>



<p><strong>A tese mostra que Boa Viagem nasceu como espaço de elite porque só era acessível de carro e o automóvel funcionava como filtro social que definia quem podia chegar lá. O condomínio fechado e o shopping herdaram essa lógica?</strong><br><br>A lógica é parecida: transformar acesso em distinção. No início, o automóvel filtrava quem podia chegar a Boa Viagem e convertia distância em privilégio. Depois, condomínio fechado e shopping atualizaram esse filtro por outros meios: portaria, segurança, estacionamento, consumo e controle da circulação. Isso aparece até na relação ambígua com o transporte público: muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam. O interessante é que essa recusa quase não precisa ser justificada: certos meios de transporte já aparecem previamente fora do horizonte cotidiano de uso das elites locais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, <em>habitus</em> é o conjunto de disposições incorporadas — agir, pensar, perceber o mundo — que uma pessoa adquire ao longo da vida pela socialização, e que orienta seu comportamento de forma quase automática, sem necessidade de reflexão consciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
        </div>
    </div>



<p><br><strong>O caso do entrevistado &#8220;Guilherme&#8221; mostra que a família dele abria mão de conforto material para mantê-lo nas escolas <em>certas</em> do bairro das Graças: a escola não transmite apenas conhecimento, mas repertório, rede e <em>habitus</em>. Isso vale para as duas zonas? Tanto a elite da Zona Norte quanto a da Zona Sul investem na escola como rito de inserção ou há uma diferença na forma como cada uma valoriza e usa a escola como instrumento de reprodução simbólica?<br></strong><br>A escola aparece na tese menos como simples transmissão de conteúdo e mais como espaço de formação de redes, repertórios, modos de falar e reconhecer pertencimentos sociais. No discurso dos entrevistados, Instituto Capibaribe e Apoio tendem a aparecer como o ideal de uma formação mais crítica, cultural e intelectualizada, muito associada ao imaginário da Zona Norte. Damas e São Luís, embora tradicionais e elitizados, surgem de forma mais nuançada, ligados a prestígio histórico e formação clássica. Já o Santa Maria aparece com mais frequência como símbolo mais direto de fechamento social e reprodução de classe.<br><br>Mas essa divisão não é mecânica. Mesmo entre moradores da Zona Sul aparecem pais e egressos que reconhecem esse elitismo e evitam o Santa Maria justamente por considerá-lo fechado demais. Ou seja, a escola funciona como rito de inserção nas elites, mas também como espaço onde as famílias escolhem que tipo de elite querem formar e a qual fração simbólica desejam pertencer.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Cunhado pelo sociólogo americano Richard Peterson nos anos 1990, o conceito de <strong>onivorismo cultural</strong> descreve o fenômeno pelo qual as elites contemporâneas passaram a consumir cultura de forma eclética — misturando erudito e popular —, em substituição ao antigo esnobismo que rejeitava tudo que fosse considerado de baixo status.</p>
        </div>
    </div>



<p><strong>A elite da Zona Norte frequenta o forró de Seu Vital, valoriza o artesanato popular e se orgulha de ver os morros pela janela. Esse &#8220;onivorismo cultural&#8221; aproxima realmente as classes altas da ZN das classes populares? Há alguma diferença real na relação das elites recifenses da ZN e da ZS com as classes populares ou é apenas a narrativa que cada uma constrói?</strong></p>



<p>O que aparece na tese não é exatamente uma dissolução das fronteiras de classe pelo “onivorismo cultural”, mas uma forma específica de relação com o popular que também funciona como distinção. Parte das elites da Zona Norte valoriza o forró, o artesanato, os mercados e até a proximidade visual com os morros como sinais de autenticidade cultural e enraizamento urbano.<br><br>Mais do que uma diferença objetiva e absoluta em relação à Zona Sul, isso aparece como parte de uma disputa simbólica interna às próprias elites recifenses. Como o prestígio econômico e imobiliário de Boa Viagem é mais imediatamente reconhecível, frações da Zona Norte tendem a investir com mais intensidade em critérios morais, culturais e estéticos de legitimação, contrapondo tradição, autenticidade e “bom gosto” ao dinheiro percebido como excessivamente visível ou ostentatório.<br><br>Mas essa aproximação com o popular permanece seletiva e hierarquizada. O Bar de Seu Vital revela bem essa ambiguidade: para moradores populares, é comércio cotidiano; para setores das classes médias e altas, aparece como espaço “autêntico” de sociabilidade.<br><br>Eventos como o Segura o Talo [bloco de carnaval da Zona Norte e arrasta milhares de pessoas, principalmente das classes populares] ajudam a mostrar o limite dessa abertura. Quando o popular deixa de aparecer como folclore, tradição ou autenticidade controlável e passa a ocupar intensamente áreas valorizadas da Zona Norte, surgem desconfortos e mecanismos de rejeição. Ou seja, essa boa vontade cultural funciona como trunfo simbólico na disputa entre frações da elite, mas não significa, necessariamente, maior igualdade concreta nas relações de classe.</p>



<p><strong>Os entrevistados “Jaciara” e “José” culpam a si mesmos pelo isolamento social no bairro das Graças e não parecem enxergar as barreiras simbólicas que os excluem. O que sugere que essas barreiras se tornam visíveis para quem já está perto o suficiente, mas para quem está mais distante, elas simplesmente não aparecem. A disputa que a tese descreve é uma briga interna entre frações da elite, ou próximas dela, ou isso se irradia para além das classes altas do Recife?</strong></p>



<p>Esses códigos funcionam como instrumentos de diferenciação e, ao mesmo tempo, como barreiras de entrada. Inicialmente, ajudam as diferentes frações da elite a marcar distinções entre si, definindo formas legítimas de morar, circular, consumir e se comportar. Mas, ao criar etiquetas sociais e códigos de pertencimento cada vez mais específicos, acabam também dificultando a integração de quem ascende socialmente sem ter sido socializado nesses universos.<br><br>Isso vale tanto para a Zona Norte quanto para a Zona Sul. Ambas possuem códigos próprios de pertencimento ligados a formas de vida burguesas, embora valorizem aspectos diferentes. Na Zona Sul, aparecem com mais força códigos ligados à apresentação social, ao consumo de alto padrão, à circulação em espaços privados e à etiqueta urbana das elites. Já em setores da Zona Norte, aparece no discurso uma valorização maior da cultura, da diversidade, da vida de rua, do patrimônio e de repertórios vistos como mais alternativos ou intelectualmente sofisticados. Isso não significa que a Zona Sul não tenha cultura, nem que a Zona Norte realize plenamente essa abertura. Trata-se de imagens construídas na própria disputa entre as zonas.<br><br>Por isso, não basta comprar um apartamento em Casa Forte ou na avenida Boa Viagem. A escolha do endereço não garante integração social. Entrevistei, por exemplo, novos ricos da Zona Sul que moram na avenida Boa Viagem, mas cuja vida social quase não acontece ali: os amigos permanecem em outros bairros, os vínculos seguem ligados aos lugares de origem e a circulação cotidiana continua organizada por redes anteriores à ascensão.<br><br>Isso produz um efeito importante na própria reprodução de classe. Como os pais permanecem parcialmente isolados, também têm mais dificuldade de inserir os filhos nas redes de amizade, sociabilidade e reconhecimento típicas desses grupos. O resultado é que a família consegue chegar ao espaço valorizado, mas nem sempre transforma essa chegada em pertencimento pleno e duradouro. É por isso que estudar os ricos ajuda a compreender as classes sociais como um todo. As barreiras criadas no topo não afetam apenas quem já pertence à elite; elas também moldam os caminhos, os limites e as frustrações de quem tenta ascender.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg" alt="Esta foto mostra uma vista aérea de uma área urbana litorânea, com vários prédios altos e modernos alinhados paralelamente à costa. As construções são predominantemente brancas e cinzas, com variações sutis de cor e design. À esquerda, há uma faixa verde com árvores que acompanha a avenida principal, enquanto ao fundo se estende o mar calmo sob um céu parcialmente nublado." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pesquisador explica que Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você escreve na tese que perguntas diretas sobre patrimônio e renda geravam desconforto ou eram simplesmente omitidas. Você então passou a medir o capital econômico também por perguntas indiretas, como a comparação entre restaurantes de preferência (Nez Bistro X Ilha da Kosta, por exemplo). O que essa mudança na metodologia da pesquisa revelou?</strong></p>



<p>Quando passei a observar o capital econômico por meio de sinais indiretos, percebi que a posição social aparecia com mais clareza nos estilos de vida do que nas declarações formais de renda. Poucos entrevistados se recusavam totalmente a falar sobre patrimônio ou ganhos, sobretudo porque essas perguntas ficavam para o fim, depois de duas ou três horas de conversa. Ainda assim, o desconforto era nítido. Em alguns casos, esse tipo de pergunta funcionava quase como um sinal de alerta: mesmo feita ao final da entrevista, podia dificultar a indicação de novos interlocutores ou fechar portas para contatos futuros.<br><br>Por isso, comecei a observar outros elementos: o prédio onde a pessoa morava, a escola em que estudou, viagens, carro, casa de praia e padrões de consumo. Muitas vezes, em vez de perguntar diretamente o valor do imóvel, eu procurava depois anúncios de apartamentos no mesmo prédio para estimar o padrão econômico daquele universo.<br><br>A comparação entre Nez Bistrô e Ilha da Kosta ajudou a mostrar isso. A diferença não estava apenas no preço, mas no tipo de gosto mobilizado. Alguns valorizavam fartura, quantidade e sensação de “valer o preço”; outros valorizavam ambiente, curadoria, apresentação, discrição e experiência gastronômica. Esse contraste revelava que a ascensão econômica não apaga automaticamente padrões de socialização anteriores: o modo como cada entrevistado avaliava um restaurante também indicava sua relação com o consumo, com a distinção e com os códigos de pertencimento daquele universo social. No fim, a pesquisa mostrou que o dinheiro, entre essas frações da elite, raramente aparece sozinho. Ele surge incorporado em gostos, estilos de vida, formas de circulação pela cidade e maneiras socialmente legítimas de consumir e demonstrar pertencimento.<br><br><strong>Com base no que você escreve do que o sociólogo Erving Goffman chama de &#8220;gestão da impressão&#8221;, você mesmo passou por um processo de adaptação da sua performance ao longo do campo: trocando o terno pela informalidade, ajustando o vocabulário, modulando gestos e tom de voz para se apresentar como alguém de dentro. Mas a tese também mostra que seus entrevistados fazem exatamente isso o tempo todo: gerenciam a impressão que causam, escolhem o que mostrar e o que esconder, ainda mais diante de um sociólogo quando eles sabiam que estavam sendo estudados. Como você lidou com essa dupla encenação, a sua e a deles?</strong></p>



<p>A pesquisa me fez perceber que a entrevista nunca era um espaço totalmente espontâneo. Eu também estava sendo observado e classificado o tempo inteiro. No início do campo, eu adotava um formalismo que imaginava transmitir seriedade, mas que muitas vezes produzia o efeito contrário: criava distância e pouca identificação.<br><br>Com o tempo, percebi que precisava construir uma imagem de maior proximidade para inspirar confiança. Passei então a modular conscientemente minha própria apresentação: um visual mais casual, mas alinhado aos códigos de discrição valorizados naquele universo, evitando parecer excessivamente formal ou “over”, como alguns entrevistados diziam. Também ajustava linguagem, referências e formas de interação. Falava de viagens internacionais, do bairro onde moro, das escolas em que estudei e de pessoas de frações da elite que eu conhecia. Comentava restaurantes, experiências urbanas e referências culturais que funcionavam como sinais reconhecíveis de familiaridade social.<br><br>Mesmo assim, meu <em>habitus</em> de estudante de humanas frequentemente gerava desconfiança. Muitos entrevistados associavam pesquisadores e intelectuais a uma postura hostil em relação às elites ou ao risco de serem retratados de forma caricatural. Isso fazia com que controlassem bastante a entrevista. Uma entrevistada que está entre o 1% mais rico chegou, por exemplo, a pedir o questionário antes da conversa para saber exatamente o que seria perguntado.<br><br>Então existia uma dupla gestão da impressão. Eu tentava construir uma imagem suficientemente próxima para reduzir desconfianças e conseguir acesso mais profundo ao campo; eles, por sua vez, também administravam cuidadosamente a imagem que produziam diante de um sociólogo. Em vez de tratar isso apenas como um obstáculo metodológico, a pesquisa passou a incorporar essa própria encenação como dado sociológico. Afinal, a maneira como esses grupos controlam sua exposição também revela inseguranças, estratégias de distinção e mecanismos de fechamento social.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como as elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.</p>
</div>


<p><strong>Você declara explicitamente, e mais de uma vez, que a pesquisa foi conduzida com seriedade e respeito em contraposição a produções que tratam as classes abastadas pelo viés do estereótipo e da ridicularização. E você cita como exemplo desse estereótipo o documentário <em>Um Lugar ao Sol</em>, de Gabriel Mascaro. Em um país tão desigual como o Brasil, não dá vontade de alfinetar essas classes abastadas?</strong></p>



<p>A desigualdade brasileira obviamente produz indignação e tensões reais. Mas transformar a pesquisa em caricatura moral empobrece a análise sociológica. Meu objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como essas elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.<br><br>O ponto central da pesquisa era justamente identificar mecanismos de fechamento social que muitas vezes passam despercebidos. A tese mostra que dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites. Existem códigos de sociabilidade, repertórios culturais, formas de consumo e redes de reconhecimento que também funcionam como barreiras de entrada.<br>Isso desloca a discussão da simples oposição entre “ricos e pobres” para algo mais complexo: como grupos socialmente privilegiados constroem fronteiras simbólicas e reproduzem pertencimento entre gerações. Assim, entender esses mecanismos me parecia sociologicamente mais importante do que simplesmente produzir uma sátira moral das classes altas.</p>



<p><strong>E por que você acha que a sociologia feita no Brasil ainda não estuda as classes altas com mais recorrência?</strong><br><br>Existe, primeiro, uma dificuldade metodológica real. Elites controlam fortemente sua privacidade e possuem maior capacidade de selecionar quem entra ou não em seus circuitos sociais. Conseguir acesso prolongado a esse universo exige tempo, adaptação e construção de confiança. Mas também existe uma tradição forte da sociologia brasileira voltada para pobreza, exclusão e classes populares, o que é compreensível num país profundamente desigual. O problema é que isso às vezes produz um desequilíbrio: estuda-se muito quem sofre os efeitos da desigualdade e menos quem participa de sua reprodução cotidiana.<br><br>Além disso, pesquisar elites exige um equilíbrio difícil. Existe o risco tanto da fascinação quanto da hostilidade moral. Em muitos casos, a caricatura acaba substituindo a análise. Só que, quando a elite aparece apenas como personagem grotesco, perde-se justamente a compreensão dos mecanismos sutis e cotidianos através dos quais as desigualdades continuam sendo reproduzidas.<br><br><strong>Michel Alcoforado virou fenômeno editorial com <em>Coisa de Rico</em>, um livro que expõe, por vezes com humor, ridicularizando e em tom sarcástico, códigos e rituais das elites brasileiras. Mas há vários pontos que ressoam com o que você encontrou na tensão entre as elites da Zona Norte e da Zona Sul. Como você lê esse livro à luz da sua tese?</strong></p>



<p>Michel Alcoforado tem um mérito importante como divulgador. Ele conseguiu levar discussões sobre consumo, comportamento e distinção social para além da bolha acadêmica, mostrando a existência de códigos das classes altas que muitas vezes passam despercebidos e que são fundamentais para definir quem pertence e quem não pertence a determinados universos sociais.</p>



<p>Ao mesmo tempo, parte da academia vê limites nisso, porque a lógica da divulgação e do humor às vezes simplifica conceitos sociológicos mais complexos. Acho que o problema não é existir esse tipo de trabalho, mas parar nele. Quando a análise fica apenas na sátira dos hábitos dos ricos, corre-se o risco de transformar processos sociais profundos em mera curiosidade comportamental.</p>



<p>Minha tese tenta ir além disso. O interesse não era apenas mostrar “coisas de rico”, mas entender como gostos, estilos de vida, formas de consumo e modos de ocupar a cidade funcionam como mecanismos de pertencimento, distinção e fechamento social entre as elites recifenses. Esses códigos não apenas expressam diferenças de classe: eles também moldam a cidade e fazem dela um marcador social, capaz de classificar pessoas, bairros e formas de vida.</p>



<p>E também acho importante dizer que as elites deixaram de ser um tabu absoluto na sociologia brasileira. Existe muita coisa sendo produzida hoje. Eu recomendaria, por exemplo, trabalhos de Miqueli Michetti, Marcella Novais, Michel Nicolau, Renato Ortiz e Valdênio Freitas Meneses. Claro que ainda existe uma dificuldade metodológica real de acesso a esses grupos, mas há diferentes estratégias possíveis de pesquisa. Nem todo estudo sobre elites precisa depender necessariamente de interação direta ou entrevistas profundas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Leia a tese completa</span>

	    <p>Se você chegou até o fim dessa entrevista, é porque se interessou pelo assunto: vale a pena ler a tese completa, que é muito bem escrita e interessante. <a href="https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37944" target="_blank" rel="noopener">Está disponível aqui, no repositório da UFPB</a>.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/">Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/</link>
					<comments>https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 13:38:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[arborização urbana]]></category>
		<category><![CDATA[árvore]]></category>
		<category><![CDATA[clima]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75374</guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando a jornalista Letícia Lins se mudou para uma casa antiga no bairro de Apipucos, tudo que ela via da janela da cozinha era de um verde profundo: árvores frondosas da Mata Atlântica no terreno do Seminário São João Paulo, à beira do rio Capibaribe. Hoje, 40 anos depois, muitas árvores se foram e não [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/">Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a jornalista Letícia Lins se mudou para uma casa antiga no bairro de Apipucos, tudo que ela via da janela da cozinha era de um verde profundo: árvores frondosas da Mata Atlântica no terreno do Seminário São João Paulo, à beira do rio Capibaribe. Hoje, 40 anos depois, muitas árvores se foram e não foram substituídas. A vista emoldurada pela janela é metade verde, metade céu. A vista da frente também mudou: não havia nenhuma planta na frente da residência. Hoje, há palmeiras e um Pau Brasil, tudo plantado por ela mesma. Apaixonada por árvores desde a tenra infância, há pelo menos dez anos Letícia Lins começou a dar status de notícia à erradicação de árvores no Recife – ou em qualquer outra cidade que avisem a ela. Nesta semana, o blog <a href="https://oxerecife.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Oxe Recife</a> chegou ao número de 1,5 mil arboricídios registrados somente no Recife.</p>



<p>“Meu critério não é científico, eu não sou bióloga, eu não sou botânica, eu não tenho financiamento para fazer esse trabalho. O que é que acontece? Eu caminho muito pela cidade, principalmente pela zona norte, e eu vou anotando as árvores que eu vou vendo derrubadas ou só o toco. É um trabalho de cidadã mesmo: as árvores não falam, alguém tem que falar por elas&#8221;, conta Letícia. O trabalho começou de forma não sistemática em 2017. “Eu fui botando uma árvore que tinha sido cortada, depois outra e mais outra. Aí decidi fazer uma série, &#8216;Parem de derrubar árvores&#8217;. Mas a série não terminava. Não termina. Estou com 526 postagens até agora”, contou a jornalista.</p>



<p>Uma postagem pode ter uma ou mais árvores cortadas. Por exemplo, um post de 2023 dava conta de 40 árvores erradicadas dentro de uma Unidade de Conservação da Natureza, no bairro da Imbiribeira. Com o passar do tempo, Letícia começou a receber ligações e mensagens de pessoas denunciando o corte de árvores em diversos lugares, inclusive fora de Pernambuco. Na mais recente postagem, foi uma denúncia que recebeu de corte na Estrada das Ubaias. Quando chegou lá, já havia outra árvore cortada. &#8220;Essa semana me avisaram de uma árvore na rua Marques de Amorim. Não foi assassinada. Ela caiu. Mas se cai, tem que botar outra no lugar”, avisa.</p>



<p>Já faz algum tempo que Letícia Lins busca informações sobre se Recife está plantando mais árvores do que cortando. &#8220;Em 2013, a prefeitura divulgou que 2.500 foram suprimidas. O mesmo número no ano seguinte. Mas em 2015 pararam de dizer a quantidade. Nesse período, eu já estive na Câmara Municipal, em uma audiência pública, eu já estive num seminário de botânica e arborização urbana e sempre pergunto quantas árvores são derrubadas no município por ano. Ninguém sabe, ninguém responde. Virou uma caixa preta&#8221;, conta Letícia.</p>



<p>Com base no último número oficial (2.500 supressões por ano, em 2013), Letícia estima que o Recife perdeu mais de 32.500 árvores entre 2013 e 2025. Mas, sem dados oficiais da prefeitura, não se sabe o número real. Um dia após nossa entrevista, a prefeitura do Recife respondeu para Letícia que em 2025 foram 1.562 árvores erradicadas, mas não deu os dados dos anos anteriores.</p>



<p>A prefeitura do Recife também não informa quantas árvores foram plantadas nestes últimos dez anos. “E o mais importante, não dizem mais o índice de sobrevivência”, diz Letícia. Esse índice indica quantas plantas sobreviveram após serem plantadas como mudas. “Já teve um tempo que 60% das mudas plantadas morriam. Na avenida Recife, de 100 mudas que eu contei, 40 viraram graveto. E isso é computado como árvore. Não é árvore. Não é muda. É um graveto”, reclama.</p>



<p>O silêncio sobre os cortes contrasta com os números que a prefeitura divulga. O município afirma ter 259.565 árvores, 660 áreas verdes e índice de 60,1 metros quadrados de área verde por habitante — cinco vezes acima do mínimo de 12 metros quadrados recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Letícia não acredita nesses dados. “É muito desigual a distribuição desse verde. Por exemplo, Boa Viagem já é uma ilha de calor&#8221;, diz.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Nem nos parques as árvores estão seguras</h2>



<p>Para uma cidade que figura entre as 16 mais vulneráveis do planeta às mudanças climáticas, nem nos parques urbanos as árvores estão a salvo do arboricídio. No Jardim do Poço, Letícia contou 40 tocos deixados pela prefeitura para fazer a obra. No Parque das Graças, <a href="https://marcozero.org/sucesso-de-publico-parque-das-gracas-tem-menos-mangue-do-que-no-projeto-original/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma reportagem da Marco Zero em 2023 mostrou que foram retiradas 99 árvores</a>, mais de 310 mil metros cúbicos de mangue e também vegetação rasteira. “O Recife é uma cidade que está em emergência climática, mas não tem uma política de arborização urbana&#8221;, queixa-se Letícia.</p>



<p>A jornalista lembra que, para a construção do parque Dona Lindu, na orla da praia de Boa Viagem, foi retirado o último coqueiral à beira-mar do bairro. Agora, ela fala que 41 árvores devem ser cortadas no Dona Lindu – hoje sob concessão privada da empresa Viva Parques – para dar espaço para atividades comerciais no local. A empresa, diz Letícia, se comprometeu a plantar o dobro do que será suprimido, mas não especificou onde. &#8220;O Recife é o único lugar que eu conheço que tira a árvore para plantar quiosque. Num parque&#8221;, alerta ela.</p>



<p>Na luta pelas árvores, uma crítica que Letícia Lins faz é sobre a mudança de responsabilidades pela liberação do corte das árvores. “Quem licencia o corte de árvores no Recife não é mais a Secretaria de Meio Ambiente e sim a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Há um conflito de interesses: quem quer cortar uma árvore de grande porte para construir um prédio vai para a secretaria que cuida das construções e não a do meio ambiente, que deveria ter técnicos para avaliar essas licenças”, diz.</p>



<p>Outro ponto que Letícia Lins costuma abordar no blog dela são as podas feitas no Recife pela Neoenergia, que deixa pela cidade um rastro de árvores desequilibradas, vulneráveis a tombamentos e adoecidas. &#8220;A Neoenergia não está preocupada com a saúde da árvore. Ela está preocupada com a saúde do fio e pronto. E é um absurdo a prefeitura permitir isso&#8221;, afirma.</p>



<p>Jornalista premiada, com longa e exitosa carreira em sucursais do Recife de jornais como O Globo e Jornal do Brasil, Letícia Lins encontrou no blog Oxe Recife uma forma de fazer o jornalismo mais conectado ao leitor, o jornalismo local. &#8220;A alma do jornal é a cidade. A espinha dorsal de um jornal tradicionalmente é a cidade, porque você tem a proximidade, você tem o interesse da comunidade. Se baixar um plano econômico, vai mexer no bolso das pessoas? Vai. As pessoas vão ter interesse? Vão. Mas a pessoa quer saber quanto é a passagem do ônibus amanhã. A pessoa quer saber como é que está a situação da cidade em que ela vive. E, se você for observar, os jornais do sul, pelo menos na minha época, dedicavam um grande espaço à cidade. Eu olhava a editoria de Grande Rio dos jornais cariocas e dizia que só queria fazer isso. Agora eu faço”, contou Letícia, que comemora neste ano uma década do blog Oxe Recife. E de uma voz atuante na luta pelas árvores.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/podas-mal-feitas-realizadas-pela-neonergia-podem-provocar-mais-quedas-de-arvores-no-recife/" class="titulo">Podas mal feitas realizadas pela Neonergia podem provocar mais quedas de árvores no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/">Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Precisamos remover os riscos, não as pessoas”, defende urbanista Raquel Ludermir</title>
		<link>https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/</link>
					<comments>https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 19:18:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[áreas de risco]]></category>
		<category><![CDATA[emergência climática]]></category>
		<category><![CDATA[Habitat Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[moradia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75205</guid>

					<description><![CDATA[<p>As chuvas intensas que atingiram o Recife e a Região Metropolitana, nas últimas semanas, escancararam, mais uma vez, o que especialistas e moradores da periferia já denunciam há anos: a ausência de políticas públicas estruturais para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos extremos nas cidades. Em poucos dias, episódios que poderiam ter sido evitados deixaram [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/">“Precisamos remover os riscos, não as pessoas”, defende urbanista Raquel Ludermir</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As chuvas intensas que atingiram o Recife e a Região Metropolitana, nas últimas semanas, escancararam, mais uma vez, o que especialistas e moradores da periferia já denunciam há anos: a ausência de políticas públicas estruturais para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos extremos nas cidades. Em poucos dias, episódios que poderiam ter sido evitados deixaram marcas profundas, como as duas mortes na comunidade do Pilar, no Recife, após o colapso de um edifício com problemas estruturais já conhecidos, e o deslizamento de uma barreira em Águas Compridas, em Olinda.</p>



<p>É nesse contexto que a <strong>Marco Zero</strong> entrevista a arquiteta e urbanista Raquel Ludermir, doutora e mestra em desenvolvimento urbano e gerente de incidência em políticas públicas da Habitat para a Humanidade Brasil, instituição fundada há mais de 30 anos e que, no último fim de semana, promoveu o encontro “Moradia e Justiça Climática nas Cidades”.</p>



<p>Ao longo da conversa, Raquel desmonta a lógica dominante de “adaptação” baseada em remoções e denuncia como essas políticas, em vez de proteger, aprofundam desigualdades e deslocam o problema para outros territórios igualmente vulnerabilizados. Para ela, o que tem sido chamado de solução pelo poder público, ao retirar famílias de áreas consideradas perigosas, muitas vezes ignora alternativas mais eficazes e justas, como a melhoria das condições de moradia e a gestão comunitária dos riscos.</p>



<p>Para a especialista, as chamadas “remoções verdes” muitas vezes são práticas que, sob o discurso ambiental, acabam expulsando populações inteiras sem garantir condições dignas de reassentamento. Raquel também chama a atenção para o papel limitado e, muitas vezes, perverso do auxílio-moradia, já que, com R$ 300, R$ 350, essas famílias não vão conseguir alugar uma moradia adequada, empurrando-as para novas situações de risco, criando assim um ciclo de vulnerabilidade.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ludermir-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ludermir-1024x682.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ludermir-1024x682.jpeg" alt="Na foto, vemos Raquel Lurdemir falando ao microfone, em um momento que transmite engajamento e firmeza. Ela veste uma camisa preta com dois broches vermelhos, um deles trazendo a frase “nós lutamos por inclusivas democráticas populares” e o outro parcialmente visível com o texto “missão denúncia”. Ao fundo, aparecem duas bandeiras penduradas na parede — uma vermelha e outra amarela — reforçando o ambiente de mobilização social e política. A cena sugere participação ativa em um espaço de discussão ou militância." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Raquel Lurdemir integra a equipe do Habitat para a Humanidade Brasil
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Vlademir Alexandre/Cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Confira os principais trechos da entrevista:</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Temos visto o poder público investir em políticas de remoções de famílias de seus territórios como se fossem políticas de adaptação climática. Como você enxerga essa prática e quais são as consequências desse tipo de estratégia?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> O poder público tem promovido remoções e despejos forçados de áreas de risco socioambiental sob a justificativa de estar promovendo resiliência e adaptação às mudanças climáticas. Esse é um fenômeno que a sociedade civil vem acompanhando inclusive no âmbito da campanha Despejo Zero, que tem um mapeamento de mais de três mil casos de remoções e despejos forçados em todo o Brasil. Essa é justamente a narrativa que vem justificando os processos remocionistas, ou seja, de expulsão e remoção de pessoas e comunidades vulnerabilizadas do seu local de moradia, sobrevivência e redes de apoio. Essa é a narrativa da questão socioambiental, dos riscos e muitas vezes também até da preservação do meio ambiente.</p>



<p>Mas esse pode ser um processo extremamente danoso, que a gente consegue ler a partir de um termo que chamamos de &#8220;remoções verdes ou expulsões verdes&#8221;; em inglês, &#8220;green evictions&#8221;. É quando os processos para supostamente promover a adaptação às mudanças climáticas resultam em remoção forçada de pessoas, e não na permanência dessaspessoas com segurança nos seus territórios e nas comunidades mais vulnerabilizadas. E a gente sabe que hoje já existem diversas soluções e estratégias.</p>



<p>Geralmente esses são processos de despejos administrativos, ou seja, eles não são judicializados como em outros conflitos por terra e moradia. Estão atrelados, algumas vezes, a obras públicas, como, por exemplo, aqui no Recife, o programa ProMorar. E outras vezes são simplesmente atrelados à pura e simples remoção. Então, a gente tem casas condenadas pela Defesa Civil que simplesmente não têm nenhuma perspectiva nem previsão de obra pública em determinadas áreas, daí as pessoas são simplesmente expulsas.</p>



<p>E quais são as consequências disso? A gente precisa entender que, quando estamos num cenário em que não há a menor perspectiva de intervenção em determinada área, estamos lidando com um processo remocionista e de inclusão dessas pessoas num auxílio-moradia. Quando isso acontece, o auxílio-moradia é basicamente uma produção de déficit habitacional. Porque a gente sabe que, com R$ 300, R$ 350, que é hoje o valor do auxílio, isso pode até ajudar famílias que tenham alguma renda, mas, para famílias que antes moravam em imóveis próprios, isso significa ter que passar a pagar um aluguel. Com esse valor, essas famílias não vão conseguir alugar uma moradia adequada.</p>



<p>Então, muitas vezes, estar no auxílio-moradia significa ter que recorrer a outras áreas de risco. Seja risco socioambiental ou outros riscos e outras vulnerabilidades. Então o auxílio-moradia hoje é um grande paliativo para essa negligência do poder público em relação ao direito à moradia. O Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH) fez, há alguns anos, um pedido de informação em que já havia <a href="https://marcozero.org/sem-dialogo-com-a-comunidade-prefeitura-do-recife-confirma-remocao-de-casas-para-ponte-casa-forte-cordeiro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mais de oito mil famílias beneficiárias do auxílio-moradia no Recife</a> e pessoas que estavam nisso há mais de 20 anos.</p>



<p>Então é uma consequência muito nefasta. Além disso, tem uma outra questão: às vezes, as pessoas acham que, por estarem no auxílio-moradia, elas já estão na fila da moradia, mas são coisas completamente diferentes. Infelizmente, são políticas que estão hoje ainda dissociadas. Então você tem, por um lado, o auxílio-moradia, que é uma questão assistencial, e, por outro, você tem o cadastro habitacional em outra secretaria, manejada de uma forma completamente diferente. </p>



<p><strong>E como fica a situação das famílias num contexto em que há uma obra pública?</strong></p>



<p>Já quando temos um cenário em que existe um processo de obra pública, um investimento público em determinada área, esses processos remocionistas têm, pelo menos, duas problemáticas: a primeira delas é a falta de acesso à informação e a falta de participação popular para construir e entender minimamente o que está sendo pensado e planejado nas áreas dessas intervenções; a segunda questão é quais são as soluções, as alternativas de moradia que vão ser oferecidas para essas famílias.</p>



<p>A gente tem algumas vezes compra assistida ou então processos de espera pela construção de um conjunto habitacional e, durante essa espera, temos a inclusão dessas famílias em um programa de auxílio-moradia. E essa espera é muito longa. Em contextos favoráveis, temos aí pelo menos de cinco a sete anos de espera pela conclusão de um conjunto habitacional.</p>



<p>E sabemos que, nesse período, existem, inevitavelmente, mudanças de gestão, mudanças de prioridades e muitas vezes também mudanças nos critérios de alocação dos beneficiários desses programas habitacionais. Então o que a gente vê muitas vezes — e a gente que circula nos territórios e escuta muito — são famílias que foram removidas de uma determinada área da cidade na expectativa de serem realocadas quando o conjunto habitacional ficasse pronto no seu território, de onde elas saíram, e de repente o conjunto fica pronto, outras famílias são direcionadas para aquele território e essas pessoas permanecem sem serem beneficiadas pelo projeto e permanecem no auxílio-moradia.</p>



<p>Além disso, a compra assistida é outra coisa super problemática porque tem uma interferência da própria dinâmica do preço do mercado imobiliário e requer, inevitavelmente, imóveis que precisam ser regularizados e regularizáveis num preço acessível. </p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Então resumindo, de uma forma geral, essas &#8220;remoções verdes&#8221; são uma grande contradição, é como se você tivesse mudando o problema de lugar.</p>
</div>


<p>Marco Zero &#8211; <strong>As reconstruções, após os eventos climáticos, são planejadas com morosidade, muitas vezes sem diálogo com os territórios e entregues com bastante atraso. Por que isso acontece e como prejudica as famílias mais vulneráveis e a dinâmica urbana?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Em relação à reconstrução, temos outra questão que é extremamente complexa. São atrasos em duas dimensões. Primeiro o atraso histórico, porque estamos tratando de uma questão que é um direito fundamental e que deveria ter um investimento na questão da moradia, da adequação e do fortalecimento dessas moradias. Não só da porta para fora, mas da porta para dentro, para construir a resiliência dessas unidades habitacionais e desses conjuntos habitacionais muito antes do desastre acontecer.</p>



<p>Então, se a gente tivesse construído sistemas de drenagem, de contenção e de gestão de risco a nível comunitário e também o fortalecimento e as melhorias habitacionais de alguns prédios, edifícios e unidades habitacionais, a gente não estaria, por exemplo, assistindo a episódios como o que aconteceu, na semana passada, na comunidade do Pilar, onde o prédio colapsou por questões estruturais. Estamos então diante de um atraso histórico, primeiramente.</p>



<p>O segundo atraso é o atraso da entrega em si. É um processo muito longo, desde a seleção do terreno até a viabilização de projetos específicos, a própria construção e o trabalho social necessário para designar e alocar essas unidades habitacionais. Deixa-se então essa população vulnerabilizada em um limbo, o que alguns teóricos chamam de &#8220;transitoriedade permanente&#8221;. É uma indefinição, uma suspensão da vida muito correlacionada à questão de onde e como essas pessoas moram.</p>



<p>Outro ponto sobre isso é que existe uma certa utopia, digamos assim, de achar que é possível reconstruir melhor. E aí, com base nisso, eu acho que vão sendo propostas algumas coisas que fogem um pouco de um processo que a gente pode chamar de verdadeiramente participativo. Essa reconstrução é feita sem a escuta da comunidade, sem a devida participação popular, sem as devidas leituras técnicas e geotécnicas de determinadas áreas. O que termina acontecendo, além do atraso, é uma, com muitas aspas, &#8220;perda de oportunidade&#8221;, de reconstruir melhor. Isso termina em aprofundamento dessas desigualdades. É importante entender que a reconstrução deveria vir junto de um processo de reparação histórica.</p>



<p>Quando olhamos para os levantamento sobre perdas e danos de eventos extremos, precisamos entender também que não estamos falando só de danos materiais individuais. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/" class="titulo">&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Diante da emergência climática, como garantir a permanência dessas famílias nos territórios com segurança?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Quando visitamos os territórios em áreas onde existem organizações de base comunitária fortes, observamos que um dos elementos-chave para a permanência com segurança é justamente a existência dessas organizações fortalecidas para fazer a gestão comunitária do risco.</p>



<p>Não dá para imaginar um cenário onde exista uma gestão pública que vá remover 200 mil pessoas de áreas de risco no Recife hoje. Não estamos diante de um cenário de possibilidade de realocação adequada dessas famílias. Então precisamos, sim, construir e fortalecer soluções que já existem para permanência com segurança dessas famílias e dos grupos vulnerabilizados nos seus territórios, no sentido de reduzir o risco. </p>



<p>Isso se faz com gestão comunitária de risco, com fortalecimento de ações, de planos de contingência, de preparação das comunidades. É isso que chamamos de adaptação às mudanças climáticas, o que inclui desde tecnologias sociais, de planejamento comunitário, de preparação para a resposta a eventos extremos até efetivamente políticas de implantação de infraestrutura, como drenagem, melhoramento de calçamentos e outros serviços básicos, que precisam vir com a devida transparência, participação e gestão democrática desses processos.</p>



<p>Eu acho que a grande questão aqui é como fortalecer essa atuação comunitária, local, que já vem sendo um grande divisor de águas. Quando há um evento extremo, são essas comunidades e esses grupos comunitários que estão na linha de frente da resposta. Então nada mais justo e mais inteligente do que fortalecer esses processos comunitários de planejamento e de gestão de risco.</p>



<p>O que não exime o poder público de fazer a política pública de adaptação às mudanças climáticas, a implantação de infraestrutura básica, principalmente drenagem, água, saneamento, mas também de melhorias das estruturas físicas das moradias e de pensar nos planos de contingência, nos equipamentos e nos serviços e fluxos de contingência para o momento do evento extremo.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Quem repara o dano de uma criança que vê sua casa sendo demolida com um trator?</p>
</div>


<p>Marco Zero &#8211; <strong>E quando as realocações são inevitáveis, como garantir que elas sejam feitas sem violações de direitos humanos?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Essa é a grande questão. Eu acho que existem algumas premissas. A primeira delas é a transparência para que as pessoas consigam minimamente entender o que está sendo pensado e proposto, e que possam também mobilizar assessoria técnica, seja assessoria jurídica, urbanística ou política também.</p>



<p>Uma segunda premissa é a participação popular. Não adianta ter transparência e as pessoas ficarem sabendo o que vai acontecer se não houver espaço para devida e efetiva participação popular. Porque estamos aqui lidando com cenários em que não existe uma solução única para tudo. Temos territórios com uma complexidade extremamente diversa, em diferentes contextos em que conseguimos observar o risco socioambiental.</p>



<p>As próprias comunidades e tecnologias sociais e a própria inteligência social, que vêm sendo construídas ao longo de décadas e séculos nos territórios, são essenciais para um projeto, para alternativas de construção bem-sucedidas e que possam ter aderência. Na realidade, na vida concreta desses territórios e dessas cidades, o terceiro elemento são as construções de fato, as alternativas de moradia que estão sendo pensadas.Ainda sobre essas alternativas, existem vários estudos que levantam processos de indenização que considerem não somente a benfeitoria em si, mas considerem as questões de danos e perdas não materiais.</p>



<p>Quais eram os laços que existiam ali? Quais eram as redes de confiança, as redes de clientela? Às vezes você tem determinados cenários em que a pessoa que está sendo removida tinha ali não só a casa, mas uma vendinha, um vizinho de onde ela podia comprar fiado, as redes de confiança, etc. Isso ela não vai construir numa nova comunidade nem tão cedo.</p>



<p>Então a gente precisa, em processos em que a realocação é inevitável, não considerar somente as benfeitorias, a questão material da casa que está sendo ali demolida. A gente precisa entender que existe toda uma rede, todo um processo social por trás dessas questões, com variáveis emocionais, psicológicas e intergeracionais.</p>



<p>Esse é um tema extremamente complexo, mas que requer justamente essa colaboração entre governos, população, sociedade civil e as organizações, que têm feito esse papel de assessoria, de traduzir um pouco os temas que são mais áridos, mais técnicos para as comunidades e para que elas possam, de fato, participar em pé de igualdade.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ping-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ping.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ping.jpg" alt="Na foto, vemos um grupo de pessoas — entre socorristas e moradores — atuando em um terreno íngreme e cheio de lama, resultado de um deslizamento. Os socorristas usam capacetes e uniformes de proteção, alguns em bege e outros em vermelho, e trabalham com cordas e ferramentas para garantir segurança e buscar possíveis vítimas. O cenário mostra a dificuldade da operação: o solo está encharcado, há uma pequena construção parcialmente visível embaixo e casas ao fundo em áreas mais altas. A imagem transmite a intensidade e o esforço coletivo em uma situação de emergência." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0"> &#8220;Em um evento extremo, os grupos comunitários estão na linha de frente da resposta&#8221;
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/">“Precisamos remover os riscos, não as pessoas”, defende urbanista Raquel Ludermir</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</title>
		<link>https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/</link>
					<comments>https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2026 10:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[parques urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[privatização]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75138</guid>

					<description><![CDATA[<p>No mês passado, eu e o fotógrafo Arnaldo Sete estávamos entrando no Parque da Jaqueira, para apurar mais uma reportagem sobre a concessão dos parques do Recife, quando fomos interceptados por uma vigilante da concessionária Viva Parques. Ela perguntou porque o fotógrafo estava com uma câmera profissional e, ao ser informada que era para uma [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/">Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No mês passado, eu e o fotógrafo Arnaldo Sete estávamos entrando no Parque da Jaqueira, para apurar mais uma reportagem sobre a concessão dos parques do Recife, quando fomos interceptados por uma vigilante da concessionária Viva Parques. Ela perguntou porque o fotógrafo estava com uma câmera profissional e, ao ser informada que era para uma reportagem, disse que era necessário uma autorização prévia. “Mas é um parque público”, retruquei. “Não é mais, foi privatizado”, respondeu a vigilante, sem titubear.</p>



<p>Uma cena parecida com essa foi postada nas redes sociais pelo vereador de São Paulo Nabil Bonduki (PT) ao visitar o Vale do Anhangabaú para fazer um vídeo. Ao ser abordado por um vigilante, Nabil foi informado que o lugar não era mais uma área pública, mas privada – apesar de, assim como na Jaqueira, não se tratar exatamente de uma privatização, mas de uma concessão privada, ainda que aqui no Recife seja por longos 30 anos.</p>





<p>Arquiteto e urbanista, professor da Universidade de São Paulo (USP), Nabil Bonduki tem sido um crítico contundente das concessões dos parques urbanos, que mudam o público e a função desses parques. Em entrevista para a Marco Zero, o urbanista alerta: a comercialização dos espaços públicos ameaça o direito ao lazer, elitiza os parques e amarra as mãos dos governos futuros por décadas. Confira abaixo:<br></p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Quando houve a privatização dos quatro parques do Recife — todos localizados em bairros nobres, mas usados por toda a população da região metropolitana —, um dos argumentos usados pela prefeitura foi que ela deixaria de gastar com esses parques e investiria mais em saúde e educação, por exemplo. Como o senhor avalia esse argumento?</strong></p>



<p><strong>Nabil Bonduki &#8211; </strong>Isso está acontecendo em muitos lugares. A prefeitura quer, independentemente da concessão — que é um instrumento que coloca um intermediário com fins lucrativos —, comercializar o espaço público, o espaço que é de uso da população. Eu vejo isso com preocupação. Não sou totalmente contra algum tipo de atividade econômica dentro de um parque, mas esse não pode ser o objetivo do espaço público. O objetivo do espaço público é ser um espaço de lazer, de recreação, de tranquilidade. A função do parque dentro das cidades é oferecer uma relação com a natureza, com o espaço não construído, de modo que a cidade tenha uma diversidade de situações. A cidade é um espaço não natural, uma segunda natureza, e a manutenção de espaços com características diferenciadas é muito importante.<br><br>A visão das prefeituras é de comercializar a terra — não é por acaso que os parques concedidos estão nas áreas mais privilegiadas da cidade, onde o preço da terra é mais alto. Evidentemente, interessa que esses lugares sejam os que vão dar mais rentabilidade. A concessão é um instrumento para fazer isso por meio de um particular que terá mais apetite para esse tipo de intervenção e que vai desconsiderar os outros aspectos, porque não é público. Então, você transfere para o particular, que fica responsável pelo custo de manutenção, segurança, conservação e manejo da área — mas, para isso, ele precisará rentabilizar ao máximo o solo, em desacordo com os objetivos originais do parque. Vejo com muita preocupação, porque isso está se expandindo pelo país inteiro e a tendência é que continue acontecendo dessa forma.</p>



<p><strong>Quais foram as principais mudanças que ocorreram nos parques de São Paulo, que já estão há mais tempo sob concessão do que os daqui?</strong></p>



<p>Mais estabelecimentos comerciais, muita propaganda e também shows e eventos — o que é uma outra preocupação. Tudo que é lugar público virou espaço de eventos, com sons altos que criam impacto tanto para os frequentadores quanto para a fauna. O parque perde o seu caráter original. Vejo com bastante preocupação essas duas tendências.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/projeto-usa-arte-e-pesquisa-para-denunciar-impactos-da-gestao-privada-nos-parques-do-recife/" class="titulo">Projeto usa arte e pesquisa para denunciar impactos da gestão privada nos parques do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Quais são os efeitos disso na sociedade? Os parques públicos são lugares onde várias classes sociais se encontram</strong>&#8230;</p>



<p>Exatamente porque esses parques estão em lugares valorizados da cidade, a tendência é que se tornem espaços com valores de consumo altos. Mesmo para quem quiser consumir dentro do parque, haverá um recorte de classe — nem todo mundo poderá consumir. Na prática, está se elitizando o parque. Geralmente são raros os casos em que se cobra ingresso, mas no limite isso pode começar a acontecer gradativamente — o que seria ainda mais lamentável. O parque vai perdendo as características de um espaço público aberto para qualquer um, porque começam a ser implantados serviços usufruídos apenas por quem pode pagar. É uma tendência que infelizmente tende a se consolidar. Há ainda a questão da poluição visual por conta das propagandas, a poluição sonora e o desvio da proposta original do parque.</p>



<p><strong>A modelagem para a concessão dos parques do Recife foi feita pelo BNDES, já com o intuito de replicar o modelo em outras cidades do Brasil. Como o senhor, que é petista, avalia essa participação do BNDES nessas concessões?</strong></p>



<p>Infelizmente, o BNDES entrou nessa perspectiva de apoiar esse tipo de iniciativa. O BNDES, nesse caso, funcionou como uma consultoria privada, fazendo um estudo de viabilidade. Agora, em alguns casos — e não sei se é o caso do Recife —, o BNDES acaba também financiando a concessionária. Aí a situação é mais grave, porque se usam recursos públicos subsidiados para financiar uma intervenção feita por um privado, que depois explora o lugar e coloca o investimento como parte do processo. Acho bem lamentável, de uma maneira geral, essa perspectiva de o BNDES financiar. Elaborar os estudos já não é ideal, mas se não fosse ele, seria outra empresa fazendo o mesmo.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Diferenças entre privatização e concessão</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de frequentemente usados como sinônimos no debate público, concessão e privatização são contratos distintos. Na privatização, o Estado transfere a própria titularidade de um bem ou serviço para a iniciativa privada. É uma venda: o que antes era obrigação do Estado passa a ser obrigação do particular. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na concessão, a titularidade permanece com o poder público, mas a administração ou gestão desse serviço ou espaço é passada para o ente particular, mediante condições e forma de remuneração estabelecidas em contrato. Quando o contrato é encerrado, o ativo ou serviço retorna para o Estado, que deverá avaliar se fará ou não uma nova concessão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante todo o contrato de concessão, há uma obrigação permanente do poder concedente: fiscalizar o cumprimento do contrato. Na prática, isso exige que o poder público mantenha estrutura de monitoramento ativa, e não apenas transfira a gestão e se afaste.  Caso as obrigações estabelecidas em contrato não sejam cumpridas, a concessão pode ser revogada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando se fala então na entrega dos parques do Recife à iniciativa privada, trata-se tecnicamente de uma concessão — e não de uma privatização —, ainda que os efeitos práticos sobre o uso público dos espaços sejam objeto de debate.</span></p>
	</div>



<p><strong>Quem está ganhando com essas concessões de parques? As prefeituras realmente estão tendo o alívio de gastos prometido?</strong></p>



<p>As prefeituras estão deixando de gastar com um equipamento que, a princípio, é público. As concessionárias estão ganhando — ou pelo menos supõem que vão ganhar, o que não quer dizer que irão. Tem o caso aqui da concessionária do estádio do Pacaembu, que está devendo milhões na praça. A viabilidade econômica é muito discutível, porque se prevê uma receita que não necessariamente vai acontecer. Mas, a princípio, essas empresas entraram nisso para ganhar dinheiro — só por isso. A questão central é: o serviço ambiental de lazer e tranquilidade prestado pelos parques é necessário ou não? Se chegarmos à conclusão de que não é necessário, tudo bem. Mas aí entra uma discussão de princípio: é um direito do cidadão ter espaços tranquilos para curtir a natureza, ou não é? Na verdade, a prefeitura está deixando de priorizar esses espaços e rentabilizando o solo.<br><br>É verdade que, em alguns casos em São Paulo, o parque pode até ficar mais bem cuidado, em relação à manutenção e à limpeza. Fala-se muito que o Parque do Ibirapuera está mais bem cuidado. Mas é preciso avaliar o que se ganhou e o que se perdeu, e isso varia muito de caso a caso, dependendo do tamanho do parque, do que ele representa como patrimônio.</p>



<p>O que precisaria ser feito, de fato, é um amplo processo participativo, com mais transparência nos custos e na rentabilidade, e uma discussão se o melhor modelo é uma concessão única para uma empresa ou se a própria prefeitura faz concessões específicas. A tendência é querer fazer uma coisa única e se livrar do problema, mas não necessariamente é o melhor caminho.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/nabil-4-Douglas-Ferreira-CMSampa-300x202.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/nabil-4-Douglas-Ferreira-CMSampa.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/nabil-4-Douglas-Ferreira-CMSampa.jpeg" alt="A foto mostra Nabil Bonduki em um ambiente formal, como uma reunião ou conferência. Ele é um homem mais velho, com cabelos grisalhos e cacheados, usa óculos de armação vermelha, terno cinza claro, camisa branca e gravata vermelha. Está segurando um microfone enquanto fala, transmitindo a ideia de participação ativa em um debate ou apresentação. Ao fundo, há outras pessoas sentadas, mesas com papéis e placas de identificação, reforçando o contexto institucional da cena." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">&#8220;Concessão por 30 anos afeta todos os governos seguintes&#8221;, assegura Bonduki
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Douglas Ferreira/Câmara Municipal de São Paulo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Falta discutir essas mudanças com a população?</strong></p>



<p>É preciso discutir com a população, com os frequentadores, com as pessoas de maneira geral, para poder avaliar o que é o melhor. Se isso é uma prioridade para a cidade, para a população. E também depende do parque: se for muito grande, pode fazer sentido ter um restaurante num setor, até porque a pessoa não vai sair do parque para comer fora. Mas em parques pequenos, você pode ter esse serviço fora. A prefeitura acaba usando um espaço público para concorrer com estabelecimentos externos. O caso do Parque Augusta, em São Paulo, com apenas 25 mil metros quadrados, exemplifica isso: querem fazer um polo gastronômico dentro do parque, quando não há necessidade, poderia ficar fora.</p>



<p><strong>A Jaqueira tem sete hectares e fica numa região cheia de restaurantes e cafés ao redor. Fazer um polo gastronômico ali, como está nos planos da concessionária, é concorrer diretamente com o comércio de fora.</strong></p>



<p>Exato, e não há necessidade. O serviço existe fora. Para a empresa, a lógica é clara: em vez de alugar um espaço fora, ela ocupa dentro do parque sem esse custo. Mas isso não se justifica do ponto de vista público.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/com-dizimo-de-10-e-gentrificacao-gestao-privada-altera-comercio-popular-nos-parques-do-recife/" class="titulo">Com &#8220;dízimo&#8221; de 10% e gentrificação, gestão privada altera comércio popular nos parques do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>O senhor acha que algo pode mudar essa maré de concessões — geralmente por longos períodos, como os 30 anos aqui no Recife?</strong></p>



<p>Acho que uma avaliação dos impactos vai ser necessária, tanto dos efeitos sobre o espaço quanto sobre as contas públicas. Há também outra questão importante: quando você concede para a iniciativa privada, a capacidade da sociedade e do poder público de decidir o que será feito ali se torna muito pequena. O espaço deixa de ser efetivamente público e passa a ser privado. O poder público, por 30 anos, perde praticamente toda a capacidade de intervir. Reverter é possível, mas o problema é que, depois que a prefeitura concede, dependendo do modelo — se há uma outorga de saída ou um conjunto de investimentos previstos —, revogar a concessão implicará pagar indenizações e multas.</p>



<p>Na verdade, um governo está tomando uma decisão que não é de governo, é de Estado. Uma decisão que vale por 30 anos não pode ser tomada de maneira parcial e individual, porque afeta todos os governos seguintes. O próximo governo já chega com os negócios amarrados. E isso vai levar, gradativamente, à perda da capacidade dos governos de intervir na cidade. Aqui em São Paulo, há concessão de parque, de mercado, de cemitérios, de áreas e equipamentos públicos. A capacidade que um prefeito tem, ao assumir, de fazer mudanças é muito pequena.</p>



<p><strong>Como funciona em outros países? Em vários países da Europa, por exemplo, os parques não têm propagandas.</strong></p>



<p>Não, os parques são caracterizados como entendemos que um parque deve ser. O financiamento é público, da prefeitura. Pode haver um modelo como o do Central Park, em Nova York, onde existe uma entidade sem fins lucrativos responsável pela gestão — algo parecido com o conselho gestor que temos aqui para o Ibirapuera, com base em uma lei de minha autoria. São pessoas eleitas para acompanhar a gestão. Era um conselho com função deliberativa, mas o João Dória (prefeito de São Paulo entre 2017 e 2018) mudou a lei para retirar esse caráter deliberativo quando quis fazer a concessão para a iniciativa privada. Esse conselho pode ter mais flexibilidade do que o poder público, mas a função principal é cuidar do parque. Os parques podem ter alguma rentabilidade? Podem, não acho que seja necessariamente ruim. Mas o objetivo principal não pode ser a rentabilidade.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Nabil-2-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Nabil-2.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/Nabil-2.jpg" alt="A foto mostra um painel digital amarelo instalado em um parque. Na parte superior, está escrito “Parque Santana Ariano Suassuna”. A tela exibe um anúncio com o texto “esportes da sorte” e “melhores cotações”, acompanhado da imagem de uma pessoa sorrindo. O painel fica em um caminho pavimentado, cercado por árvores, palmeiras e uma área esportiva cercada ao fundo. O ambiente é iluminado pela luz do dia." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Nos parques recifenses, descando e tranquilidade deram lugar à propaganda
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	<p>O post <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/">Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</title>
		<link>https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/</link>
					<comments>https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Mar 2026 20:29:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[desapropriações]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[ZEIS]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75034</guid>

					<description><![CDATA[<p>O arquiteto e urbanista André Araripe tem acompanhado de perto as desapropriações feitas para obras públicas no Recife. Como assessor do então vereador Ivan Moraes (PSOL) elaborou junto com a advogada Luana Varejão um estudo que mostrou que entre 2013 e 2023 cerca de 1,7 mil famílias foram removidas de suas casas no Recife. A [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/">&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O arquiteto e urbanista André Araripe tem acompanhado de perto as desapropriações feitas para obras públicas no Recife. Como assessor do então vereador Ivan Moraes (PSOL) elaborou junto com a advogada Luana Varejão um estudo que mostrou que <a href="https://drive.google.com/file/d/1byhTRHQfW2lI6q_u7EicFNXIPmiZz9Ps/view" target="_blank" rel="noreferrer noopener">entre 2013 e 2023 cerca de 1,7 mil famílias foram removidas de suas casas</a> no Recife. A maioria sem reassentamento em conjuntos habitacionais, apenas com indenizações por benfeitorias.</p>



<p>E essas indenizações tinham valores baixos, quase sempre insuficientes para a compra de uma casa regularizada: 27% das indenizações foram abaixo de R$ 10 mil nos dez anos analisados. “Essas famílias vão ocupar uma outra área de risco. A gestão só está empurrando o problema para outro lugar”, disse em entrevista para a Marco Zero.</p>



<p>Trabalhando na ONG Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), Araripe agora acompanha as desapropriações do Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Socioambiental, o ProMorar, o projeto de R$ 2 bilhões de resiliência climática da prefeitura do Recife.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:43% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="793" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-793x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-75049 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-793x1024.jpeg 793w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-232x300.jpeg 232w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-768x992.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-1189x1536.jpeg 1189w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10-150x194.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/WhatsApp-Image-2026-03-27-at-12.47.10.jpeg 1239w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Em entrevista para a MZ, Araripe fala sobre o motivo das famílias rejeitarem os conjuntos habitacionais, critica o racismo estrutural e a lógica de higienização que prioriza os interesses do mercado imobiliário em detrimento do direito à moradia e fala de como a participação das comunidades é importante para construir soluções que garantam moradias dignas.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Por que quando há obras públicas as pessoas mais pobres sempre são as escolhidas para as remoções</strong>?</p>



<p><strong>André Araripe</strong> &#8211; É importante sempre considerar que temos uma estrutura de racismo estrutural que se espraia por todas as áreas, inclusive por dentro do Estado. E isso impacta certamente nas opções de moradias que as pessoas têm. De fato, as comunidades mais pobres – que é uma população negra, na grande maioria – ocupam algumas áreas com menos qualidade, ou menos propícias ambientalmente para moradia. São áreas com menos infraestruturas, mas que historicamente se mantiveram no Recife, através de muita luta.</p>



<p>O Prezeis (Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social) possibilitou que boa parte dessa população pobre se mantivesse inclusive em áreas nobres da cidade. Então, geralmente, na implantação das infraestruturas ou na complementação delas, como é o caso do sistema viário, a gestão tende a fortalecer esse processo racista que foi estrutural já na composição da cidade e continua se perpetuando nessas intervenções, por exemplo.</p>



<p>Um caso clássico recente é o que chamaram de readequação do sistema viário da ponte Monteiro e Iputinga. O traçado original do projeto pegava uma parte desocupada, de lotes vazios. Mas eram lotes privados, e, em uma segunda versão do traçado, o sistema viário desvia desse lote privado, porque uma incorporadora queria empreender lá uma edificação <em>[</em>o edifício em questão é o Hillson Macedo, da construtora Moura Dubeux]. O traçado original dava exatamente em cima desse edifício, ou seja, inviabilizaria o empreendimento dessa incorporadora imobiliária. Por outro lado, o novo traçado criou como alternativa o remanejamento de parte da comunidade da Vila Esperança/Cabocó.</p>



<p>Vários grupos, inclusive nós, apontamos alternativas de desapropriação que não impactavam as famílias. Então, você percebe que há uma opção mesmo de passar o traçado por áreas mais pobres. Tem algumas camadas de escolha. Uma é que, de fato, há um custo menor – mas aqui a gente está falando de custo financeiro, se falar do custo social, é muito maior. Na opção que os movimentos sociais deram, seria retirado parte de uma escola, que nem comprometeria a escola propriamente dita, um estacionamento de uma academia de ginástica e parte de uma área livre de um edifício privado.</p>



<p>Haveria um impacto social muito menor, mas a opção foi fazer por cima da comunidade, também como uma expectativa higienista. O Recife tem essa característica peculiar de que, com exceção da Jaqueira, todos os bairros têm alguma favela dentro, inclusive os bairros de alta renda. À medida que vão sendo feitas intervenções por cima dessas comunidades, vai se tirando das áreas nobres essas áreas que são indesejadas pelo mercado imobiliário.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;O traçado original pegava uma parte de lotes vazios, privados. Em uma segunda versão do traçado, o sistema viário desvia desse lote privado, porque uma incorporadora queria empreender lá </p>
</div>


<p><strong>Onde a pressão imobiliária para a saída das comunidades tem sido mais forte?</strong></p>



<p>Na zona norte temos um caso clássico, que foi uma aliança de forma mais explícita do poder público com empreendimentos privados: <a href="https://marcozero.org/a-luta-de-duas-comunidades-contra-os-poderes-do-municipio-e-da-ferreira-costa/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o caso da ZEIS da Tamarineira</a>, onde dois terços da Ferreira Costa foi apropriado de uma ZEIS. A zona sul também está passando por uma higienização. Nós aqui na Fase estamos acompanhando a situação das comunidades ribeirinhas do rio Jordão. Tem seis comunidades ameaçadas pelo ProMorar, algumas de remoção total, como a Fazendinha, Pocotó, remoção quase total, mas também tem Joca, Beira Rio&#8230; são seis comunidades ao todo, na margem do Jordão.</p>



<p>Houve desapropriações recentes, também pelo ProMorar, nas comunidades Aritana, Beira da Maré e Irmã Dorothy, com várias famílias retiradas. E o que percebemos é que é uma área de expansão do mercado imobiliário. Hoje, a principal fronteira do mercado imobiliário da Região Metropolitana do Recife é aquela fronteira entre Boa Viagem e Imbiribeira. Não é à toa que 10 das 17 comunidades do ProMorar estão localizadas nessa região.</p>



<p><strong>Em muitas das reportagens que a Marco Zero faz sobre desapropriações e realocações, os entrevistados e entrevistadas demonstram uma rejeição muito forte à ideia de irem morar em um conjunto habitacional feito pela prefeitura ou o Governo do Estado. Por que isso acontece?</strong></p>



<p>Nós fizemos uma pesquisa recentemente em um estudo de caso do Jardim Uchoa, que também está no ProMorar e há uma expectativa de remoção de cerca de 500 famílias. Fomos na comunidade para pesquisar e entender como as pessoas recebiam essa remoção e qual era a expectativa. Em um primeiro momento, a quase totalidade disse que queria indenização, que não queria ir para um habitacional.</p>



<p>Então fomos para uma segunda abordagem, que era entender o porquê dessa rejeição tão grande ao habitacional. O que apareceu mais? A grande questão que as pessoas falam é que, usando os termos delas, é que os habitacionais são “amundiçados”, mais do que a favela. Que é muita confusão, muita bagunça, muita intriga. Que os habitacionais são cheios de lixo, que o tráfico toma conta e que ninguém cuida das áreas comuns. Que o lixo fica espalhado.</p>



<p>E tudo isso não deixa de ser verdade. Tem razões para ser. E tem a ver com projeto. Isso tem muito a ver com o modelo de condomínios que os habitacionais são feitos. São condomínios de grande porte, com muitos blocos, murados. Quando se constitui como um condomínio de vários blocos, com arruamentos internos e áreas comuns, o poder público, a Emlurb, por exemplo, não pode entrar e coletar o lixo lá dentro, não pode varrer as ruas internas. Por quê? Porque ele é um condomínio. Porque a Emlurb só pode atuar em área pública.</p>



<p>Então, quem é que vai varrer esses espaços? Quem vai recolher o lixo que vai se espalhar por esse lugar? Quem vai gerir esse processo de uso e ocupação? E a taxa de condomínio que ninguém vai pagar? Ninguém quer ir para os habitacionais porque só se escuta notícias ruins. E tem a ver com esse padrão de habitacional de grande porte, todo cercado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-03-27-125223-300x147.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-03-27-125223-1024x500.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Captura-de-tela-2026-03-27-125223-1024x500.png" alt="A imagem mostra uma maquete digital de um conjunto residencial planejado. São vários prédios idênticos, todos brancos, com quatro andares e telhados planos. Em alguns telhados há estruturas laranjas que se destacam. Os prédios estão dispostos ao longo de uma rua curva, que tem faixa tracejada no centro e calçadas com áreas de grama. Árvores verdes estão plantadas em intervalos regulares, dando um aspecto organizado e agradável ao espaço. Na rua aparecem duas indicações: uma seta para baixo com a palavra “AREIAS” e outra para cima com a palavra “BARRO”, sugerindo direções ou bairros próximos. Ao fundo, além dos prédios, vê-se uma paisagem com mais construções e uma área de vegetação ou colinas." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Projeção feita por ONGs para habitacional mais eficiente, sem muros, com ruas públicas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Que outros fatores contribuem também para essa rejeição aos habitacionais?</strong></p>



<p>A segunda questão que as pessoas colocam muito é morar em apartamento: não estão acostumados, não tem lugar para estender roupa, não tem área de serviço. É muito citado que, dentro das comunidades, as casas têm mais de um uso. É onde guardam os recicláveis que coletam. Há quem tenha uma cocheira no quintal, cria galinha ou cria porco, tem uma bodega. Em um apartamento, há limitações.</p>



<p>Outra coisa que apareceu na pesquisa é a saída do território, já que há habitacionais longe que ficam longe de onde as pessoas moravam. Há também os conflitos territoriais. Por exemplo, estão fazendo um habitacional ali no Coque, em Joana Bezerra, e estão querendo colocar moradores do Coque e dos Coelhos. Não pode: o povo briga, há facções diferentes. Se misturar, vai dar problema, como já está dando na Sérgio Loreto, como já está dando na Vila Brasil. Parece que a gestão não sabe que existem conflitos territoriais na cidade, que você não pode juntar pessoas de dois lugares que estão em disputa, em conflito.</p>



<p>É um conjunto de questões que gera esse sentimento de repulsa, as pessoas não querem ir para um habitacional, além disso os apartamentos são muito pequenos e quentes. E, por fim, a qualidade das construções dos habitacionais. Por exemplo, o habitacional do Arruda, que já foi todo desocupado por duas vezes. Da primeira vez, foi feita uma recuperação estrutural, o povo voltou e teve que desocupar às pressas novamente, porque o edifício está todo rachado.</p>



<p>Isso tudo está no imaginário da população. A população tem motivações, sim, para rejeitar o habitacional, ou pelo menos esse padrão de habitacional que tem sido feito.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/moradores-do-cordeiro-reclamam-do-valor-das-indenizacoes-para-dar-lugar-a-nova-ponte/" class="titulo">Moradores do Cordeiro reclamam do valor das indenizações para dar lugar à nova ponte</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>A outra opção oferecida pelo poder público aos desapropriados, a indenização, também é problemática? A indenização que, por exemplo, a prefeitura do Recife tem pagado dificilmente dá para as pessoas se manterem no mesmo bairro, em uma moradia digna, com escritura.</strong></p>



<p>Quando a gente falou que a prefeitura prefere passar um sistema viário por cima de uma favela e não por cima de terrenos livres do mercado imobiliário é também por conta da indenização, como foi no caso da Vila Esperança. Na indenização de um terreno regular, a gestão tem que pagar o terreno e o valor da construção em si. E a gente sabe que o terreno tem uma participação muito significativa no valor de um imóvel, porque o solo no Recife é caro, e nessas áreas é mais caro ainda. E com a favela, o que acontece? A pessoa não é dona do terreno, então a gestão não paga o terreno, ela só paga a benfeitoria, a construção.</p>



<p>Então, a gestão vai contar quantos metros quadrados de tábua tem, quantos metros de telha brasilit, um basculante velho, um balcão que ela aproveitou e custou R$ 10, vai somando, e é uma indenização que é feita por benfeitoria. Como nas favelas as casas, em geral, são muito simples, quando você faz o laudo de indenização daquele imóvel, você vai ter casas muito baratas. Como o nosso estudo com dados até 2023 mostrou, nos últimos 10 anos 27% dos imóveis tinham recebido menos de R$ 10 mil de indenização. Qual casa a pessoa compra com R$ 10 mil?</p>



<p><strong>Continuam ocupando favelas em outros lugares</strong>&#8230;</p>



<p>Essa família que foi indenizada vai ocupar uma outra área de risco. A gestão só está empurrando o problema para outro lugar. A população fica, por um lado, sem querer o reassentamento no habitacional, por toda essa problemática que a gente já viu, e, por outro lado, ela fica confiando que vai ter uma indenização. E aí tem uma decepção grande, porque quando a pessoa vê o valor que tem a receber, quase sempre é muito ruim.<br><br><strong>Há um direcionamento para que as famílias optem pela indenização e não por uma vaga em um habitacional?</strong></p>



<p>Sim, porque para a gestão é muito mais rápido e muito mais prático. Pagar uma indenização é um processo administrativo simples: você assina o papel aceitando que quer receber aquele valor, eu assino o papel homologando a negociação, é formatado num processo jurídico-administrativo e o recurso é repassado para a pessoa. É coisa de dois, três meses. Agora, fazer um habitacional não, tem que ir atrás de um terreno, tem que fazer projeto, conseguir financiamento, construir em dois, três anos. E nesse período ter que dar auxílio moradia para essa família, etc.</p>



<p>Quando você vai falar sobre o reassentamento das famílias com a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) – que está fazendo uma ponte, por exemplo – dizem: “meu projeto é de ponte, meu projeto não é construir moradia”. Então, a URB faz habitacionais porque tem uma obrigatoriedade, tem uma legislação. Fazer conjunto de projetos sem ter uma política habitacional estruturada na cidade leva a esses problemas todos que estamos vendo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/54485441604_9b1f18b372_c-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/54485441604_9b1f18b372_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/54485441604_9b1f18b372_c.jpg" alt="A imagem mostra um beco estreito entre dois prédios. O prédio à esquerda tem paredes em verde e bege, janelas com grades e um aparelho de ar-condicionado instalado na parte superior. Em um canto, há uma faixa vertical vermelha com letras grandes que dizem “DEUS É FIEL”. O chão é pavimentado e apresenta algumas áreas molhadas que refletem a luz. No centro da cena, uma pessoa caminha pelo beco. Ela veste boné verde, camiseta laranja e shorts azuis, segurando um pequeno objeto em uma das mãos. Ao fundo, o beco se prolonga, revelando mais construções e um pouco de vegetação." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Rejeição à habitacionais está relacionada à falta de limpeza, segurança e limitações do uso.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>E qual seria, então, a solução para essas obras? O que a prefeitura deveria fazer para que essas desapropriações não gerassem tantos custos sociais?</strong></p>



<p>São necessárias etapas de soluções. Primeiro, é preciso compreender que a obra em si é completamente imprescindível. Porque há obras que não são necessariamente imprescindíveis de acontecer. O segundo ponto é fazer um estudo muito minucioso do projeto e aí os critérios precisam ser invertidos: o dano social tem que estar como prioridade de proteção, ao invés do dano econômico ou do dano de investimento.<br><br>Essas obras viárias dessa nova ponte (a que vai ligar o Cordeiro a Casa Forte) fazem parte do plano de mobilidade da cidade que remonta ainda à década de 1970, que são as perimetrais, as radiais da cidade. Estão complementando agora o que foi feito e ficou inacabado. Parece então ser uma obra imprescindível para que haja na cidade um sistema melhor de mobilidade. Mas a segunda questão é definir melhor a intervenção do ponto de vista locacional: será que se eu puxar 50 metros para cima ou 30 metros para baixo eu não tenho menos impacto ambiental, social, de desapropriações? Mas a opção tem sido que é melhor comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário.</p>



<p>O terceiro aspecto: se é uma obra imprescindível e já foi escolhido o traçado que eu vou ter o menor impacto social possível, mas ainda assim vai ter um impacto, o que eu preciso fazer? Primeiro, é preciso ter um canal aberto e franco com a comunidade. Hoje, não existe processo participativo. Você vê que as pessoas estão com a mão na cabeça. Não sabem quando a obra começa, quando termina, quem vai ser impactado, quem não vai. Pegam as pessoas no susto. É preciso abrir canais de diálogo que sejam de fato participativos com a comunidade que vai ser afetada, para construir alternativas com a comunidade.</p>



<p>No caso do ProMorar, há justificativas para o reassentamento, as famílias estão em áreas de risco. Não tem o que fazer, porque o papel do poder público é de fato possibilitar que não tenha esse tipo de ocupação em área de risco. Então, é preciso garantir que essa remoção seja acompanhada de um processo de reassentamento construído com a comunidade e que leve essa população, essas famílias, a terem uma situação de vida, no mínimo, um pouco melhor do que elas tinham na área de risco.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/desapropriacoes-para-construcao-da-ponte-cordeiro-casa-forte-deverao-custar-cerca-de-r-56-milhoes/" class="titulo">Desapropriações para construção da ponte Cordeiro-Casa Forte deverão custar cerca de R$ 5,6 milhões</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>E isso não acontece. O que acontece é que você tira a pessoa de uma área de risco numa favela e joga para uma área de risco no habitacional, com outros riscos: o risco do tráfico de drogas, o risco da violência, o risco dos adoecimentos por viver em um outro ambiente fora da sua comunidade. Há ainda o risco de empobrecimento, porque você leva a pessoa para um bairro distante, e perto da favela, ela vendia pipoca na esquina, fazia um pequeno serviço, um biscate. Quando você perde essa rede de sociabilidade há um risco de empobrecimento econômico.</p>



<p>As pesquisas também mostram que o reassentamento inadequado ou as famílias que sofrem processos de remoção forçada têm processos de adoecimento mental. Se de fato é estabelecido um processo participativo franco, honesto, colaborativo, de criação da alternativa, é possível minimizar os riscos que o reassentamento pode gerar em uma família.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/55144197469_eaf678e957_c-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/55144197469_eaf678e957_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/55144197469_eaf678e957_c.jpg" alt="A imagem mostra um grupo de pessoas reunidas em um espaço aberto, em um dia ensolarado. Elas estão segurando cartazes de protesto escritos em português, expressando indignação e exigindo justiça. Entre as mensagens visíveis estão frases como: “CHEGA DE INJUSTIÇA!”, “VAMOS MOSTRAR A VERDADE”, “NOSSA VOZ NÃO VAI SE CALAR”, “A URB ESTÁ NOS ROUBANDO”, “QUEREMOS INDENIZAÇÃO JUSTA!” O cenário ao redor inclui árvores, uma cerca vermelha e alguns prédios ao fundo. A atmosfera transmitida é de mobilização social." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">No Cordeiro, mais de 100 famílias terão suas casas desapropriadas para construção da nova ponte.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>E como mudar esse padrão dos conjuntos habitacionais?</strong></p>



<p>Eu acredito que a arquitetura, o desenho desses habitacionais, poderia contribuir para minimizar esses problemas. E a gente tem soluções para isso. No resultado desse estudo no Jardim Uchôa prototipamos apartamentos em prédios sozinhos em um terreno, ou, se for em um terreno grande, todo com arruamento público entre os prédios. Ou seja, você não faz um grande condomínio, você faz dez pequenos condomínios, com ruas públicas entre eles.</p>



<p>Além de reassentar perto de onde as pessoas viviam, que seja em estruturas menores, com condomínios menores, porque sabemos que a gestão de condomínios muito grandes é complexa e tende a favelizar. Outro ponto é buscar criar nesses habitacionais o uso misto. Há várias experiências habitacionais que têm uso de moradia, uso de comércio e de serviços dentro do próprio habitacional. Quem tem uma bodega na casa, quem tem uma oficina mecânica, quem tem um pequeno negócio, pode botar lá no seu condomínio. Mas todas essas soluções dependem de um processo participativo franco, aberto e de cocriação com as comunidades, que é o que não acontece.</p>



<p><strong>Em várias reportagens que a Marco Zero tem feito sobre desapropriações da zona norte e no Cordeiro escutamos as pessoas reclamarem que a URB faz pressão para que as pessoas aceitem logo a indenização oferecida e não levam à Justiça, dizem que os funcionários da URB põem medo dizendo que na Justiça o valor oferecido é menor. Você já escutou essas reclamações? Isso acontece em outros lugares?</strong></p>



<p>Acontece muito. Nós, inclusive, na época da Vila Esperança, conseguimos, junto com a Defensoria Pública e com o Ministério Público, garantir que as famílias, quando fossem chamadas para negociar os valores das negociações, tivessem direito a uma assessoria jurídica. </p>



<p>O que acontece na prática é que uma equipe técnica da URB faz o levantamento da casa e diz que custa R$ 30 mil, por exemplo. E passa isso para uma equipe “social” e é essa equipe que vai negociar com a família. Essa família é chamada para ir a um gabinete na URB. Então veja, você já tem uma intimidação, porque é uma pessoa pobre, que vem lá de uma favela, que vai pra um gabinete e é colocada ali em frente a um advogado, um assistente social e alguma diretora, coordenadora de desapropriações. E aí, é colocado nesses termos: “olha, você tem isso e é melhor aceitar. A gente paga logo. Agora, se você não quiser, você pode esperar. Você vai para o auxílio moradia e vai entrar na fila dos habitacionais”.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Não é verdade que a URB sempre paga mais do que a Justiça. O único caso que judicializou na Vila Esperança, o valor da indenização aumentou.</p>
</div>


<p>A rapidez do pagamento é verdadeiro e é um critério que chama a atenção das famílias pobres. Elas sabem que há pessoas que estão há 20 anos na fila esperando um habitacional. Tem pessoas que perderam suas casas para a construção da Via Mangue que ainda estão no auxílio moradia, esperando uma vaga.</p>



<p>Então, tem essa primeira tentativa com a família para que ela aceite logo e assine. E nessa primeira chamada, já é com o documento na mesa. Se essa família disser que não quer, aí tem toda uma retórica de apreensão, de medo, e esse argumento de que colocar na Justiça diminui o valor é muito comum e é inverídico. Na própria Vila Esperança, tivemos um único caso de judicialização, porque a família bateu o pé. E sabe o que foi que houve? o laudo do Judiciário deu maior do que o laudo da prefeitura. Não é verdade que a URB sempre paga mais do que a Justiça, porque a assessoria do tribunal vai fazer um laudo independente e o juiz vai olhar para os dois e vai dizer &#8220;olha, é esse aqui, é o do Judiciário que vai prevalecer&#8221;. O único caso que judicializou na Vila Esperança, o valor da indenização aumentou.</p>



<p>A prefeitura do Recife inclusive aplica uma prática chamada de taxa de depreciação. Isso é escandaloso: quanto mais antiga a benfeitoria de uma casa, menos a prefeitura paga. Se a porta de um barraco tem cinco anos, a prefeitura diminui o valor no laudo. A prefeitura não é obrigada a aplicar essa taxa ao pagar as indenizações, mas mesmo assim a aplica. Isso é de uma crueldade que não tem tamanho. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que está financiando o ProMorar, fez um parecer sobre o plano de reassentamento que a prefeitura do Recife propôs e rejeitou o uso dessa taxa de depreciação.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/">&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Cartografias do Frevo: um mapa contemporâneo do ritmo que não para de ferver</title>
		<link>https://marcozero.org/cartografias-do-frevo-um-mapa-contemporaneo-do-ritmo-que-nao-para-de-ferver/</link>
					<comments>https://marcozero.org/cartografias-do-frevo-um-mapa-contemporaneo-do-ritmo-que-nao-para-de-ferver/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 21:20:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[frevo]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=73389</guid>

					<description><![CDATA[<p>O frevo, ritmo que pulsa nas ruas e nas veias de Pernambuco, é também uma linguagem de resistência, memória e criação. Mais do que uma herança cultural, ele se reinventa a cada passo, em cada esquina e em cada nova geração que se reconhece nesse compasso vibrante. É a partir dessa inquietação e da vontade [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/cartografias-do-frevo-um-mapa-contemporaneo-do-ritmo-que-nao-para-de-ferver/">Cartografias do Frevo: um mapa contemporâneo do ritmo que não para de ferver</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:18% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="766" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg" alt="" class="wp-image-73638 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg 766w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-224x300.jpg 224w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-768x1027.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-150x201.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa.jpg 1080w" sizes="(max-width: 766px) 100vw, 766px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>O frevo, ritmo que pulsa nas ruas e nas veias de Pernambuco, é também uma linguagem de resistência, memória e criação. Mais do que uma herança cultural, ele se reinventa a cada passo, em cada esquina e em cada nova geração que se reconhece nesse compasso vibrante. </p>
</div></div>



<p>É a partir dessa inquietação e da vontade de entender como o frevo permanece vivo que nasce o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>



<p>A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo. Coordenado pela professora Ana Paula Campos e vice-coordenado pela professora Lívia Valença, o projeto reúne estudantes do Departamento de ComunicaçãoSocial da universidade e se dedica a registrar histórias de vida, práticas e experimentações que mantêm o frevo vivo e em transformação.</p>



<p>As entrevistas resultaram em uma série de onze reportagens que a Marco Zero publicará na íntegra a partir de uma parceria com o projeto Cartografias do Frevo. A série está organizada em três blocos, que dialogam com as múltiplas dimensões do frevo:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Memórias e Preservação &#8211; </strong>mergulha nas origens e nos esforços de salvaguarda de acervos e mestres;</li>



<li><strong>Releituras e Futuro &#8211; </strong>acompanha artistas e pesquisadores que experimentam novas formas de expressão sem romper com a tradição;</li>



<li><strong>Frevo segue vivo nas ruas &#8211;</strong> destaca a força da folia popular e o papel político das agremiações e brincantes.</li>
</ul>



<p>Ao reunir histórias, reflexões e experiências de quem mantém o frevo em ebulição, a série <strong>Cartografias do Frevo</strong> propõe um olhar para o presente — um mapa afetivo e cultural que mostra que o ritmo, nascido da luta e da alegria, segue sendo um território fértil de invenção e pertencimento.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Leia aqui as entrevistas completas:</strong></h2>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bloco 1 &#8211; </strong><strong>Memórias e Preservação</strong></h3>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/carlos-dantas-museu-levino-ferreira-e-o-desafio-de-manter-viva-a-memoria-do-frevo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Carlos Dantas // Museu Levino Ferreira e o desafio de manter viva a memória do frevo</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/luiz-maciel-no-ritmo-do-frevo-pulsa-a-historia-de-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Luiz Vinícius Maciel // No ritmo do frevo, pulsa a história de Pernambuco</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/mestre-tonho-das-olindas-ser-frevo-e-ser-capoeira/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mestre Tonho das Olindas // Ser frevo é ser capoeira</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bloco 2 &#8211; Releituras e Futuro</strong></h3>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/catarina-deejah-carnaval-vivido-o-ano-inteiro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Catarina DeeJah // Carnaval vivido o ano inteiro</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/dj-dolores-o-enigma-do-frevo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">DJ Dolores // O Enigma do Frevo</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/flaira-ferro-a-ousadia-em-mostrar-que-o-frevo-e-vivo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Flaira Ferro // A ousadia em mostrar que o frevo é vivo</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/leonardo-pellegrim-inovar-nao-e-trair-a-tradicao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Leonardo Pellegrim // Inovar não é trair a tradição</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/alexandre-urea-quando-a-tradicao-cruza-com-a-ousadia-de-experimentar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Alexandre Urêa // Quando a tradição cruza com a ousadia de experimentar</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bloco 3 &#8211; Frevo segue vivo nas ruas</strong></h3>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Luciana Veras // É na rua que o frevo faz revolução</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Maria Flor // O frevo não pode ser resumido apenas a uma sombrinha colorida</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">João Pedro Nires // Cariri Olindense busca equilíbrio entre resistência cultural, juventude e transformação social</a></strong></p>
</div></div>
</blockquote>
</blockquote>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/cartografias-do-frevo-um-mapa-contemporaneo-do-ritmo-que-nao-para-de-ferver/">Cartografias do Frevo: um mapa contemporâneo do ritmo que não para de ferver</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/cartografias-do-frevo-um-mapa-contemporaneo-do-ritmo-que-nao-para-de-ferver/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Luciana Veras // É na rua que o frevo faz revolução</title>
		<link>https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/</link>
					<comments>https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 21:12:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[frevo]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=73515</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Beatriz Santana* Há quase 50 anos, o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho É Pouco arrasta pelas ladeiras de Olinda um dragão vermelho e amarelo que carrega mais do que confete e serpentina: carrega um ideal político e coletivo. Desde o primeiro desfile, em 1977, o bloco se destacou por unir descontração [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/">Luciana Veras // É na rua que o frevo faz revolução</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Beatriz Santana*</strong></p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:18% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="766" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg" alt="" class="wp-image-73638 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg 766w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-224x300.jpg 224w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-768x1027.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-150x201.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa.jpg 1080w" sizes="(max-width: 766px) 100vw, 766px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Há quase 50 anos, o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho É Pouco arrasta pelas ladeiras de Olinda um dragão vermelho e amarelo que carrega mais do que confete e serpentina: carrega um ideal político e coletivo.</p>
</div></div>



<p>Desde o primeiro desfile, em 1977, o bloco se destacou por unir descontração e seriedade, transformando alegria em posicionamento. “Organizar a raiva em defesa da alegria”, lema criado em plena pandemia, sintetiza a essência do grupo. A jornalista Luciana Veras, voluntária do <em>Eu Acho É Pouco</em>, explica que o bloco sempre foi “um espaço político por excelência”, onde a liberdade de ser e pensar se manifesta em plena rua.</p>



<p>Durante a Ditadura Militar, amigos perseguidos e torturados pelo regime criaram o bloco como forma de protesto. A orquestra e a folia tornaram-se armas simbólicas na defesa da redemocratização. “Passado meio século, estamos onde a gente sempre esteve: numa defesa ferrenha da democracia e também da liberdade de pensar o Carnaval como espaço em que as pessoas podem ser quem elas querem ser. De militância aberta, de esquerda”, afirma Luciana.</p>



<p>Para ela, o bloco continua em militância aberta e cotidiana: “Chegamos até aqui cada vez mais próximos desse ideal que não é utópico. Utopia é algo distante; o nosso ideal é concreto: a política se faz todo dia”.</p>



<p>Sem receber subvenção pública por escolha própria, o <em>Eu Acho É Pouco</em> mantém-se com a força da coletividade. A autonomia é sustentada pela venda de camisetas, eventos e o tradicional Baile Vermelho e Amarelo, realizado desde 1982. </p>



<h2 class="wp-block-heading">É a coletividade que leva o Dragão às ruas</h2>



<p>A agremiação não tem hierarquia nem diretoria: é movida por voluntários que trabalham durante todo o ano. “O Carnaval em Pernambuco vai muito além da sazonalidade. Estamos sempre pensando, planejando e renovando a agremiação”, diz Luciana.</p>



<p>Essa autogestão garante liberdade política e criativa. O bloco já desfilou em apoio à eleição de Dilma Rousseff, em protesto contra o golpe de 2016 e, mais recentemente, participou do ‘Cortejo do Futuro’, durante a posse de Lula em 2023, quando o dragão cruzou a Esplanada dos Ministérios junto ao bloco do Minhocão.</p>



<p>A renovação também passa pelas novas gerações e pela música. O Eu Acho É Pouquinho introduz as crianças à tradição carnavalesca, mostrando que o frevo é liberdade, política e brincadeira. Já a orquestra, regida por Rizonaldo Souza, mantém viva a essência do frevo de rua enquanto renova arranjos e incorpora canções como <em>Arrea a Lenha</em>, <em>Maracatu Atômico</em> e sucessos de Reginaldo Rossi.</p>



<p>Artistas como Ed Carlos e Flaira Ferro, conhecidos por reinventar o frevo, também já subiram aos palcos dos bailes da agremiação. Entre as ladeiras de Olinda e as festas de arrecadação, o <em>Eu Acho É Pouco</em> segue reafirmando o Carnaval como espaço de alegria, memória e resistência.</p>



<p>E, como lembra Luciana Veras, “Carnaval é política, sempre foi e sempre será”.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong> Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.</p>
<p>As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão “Cartografias do Frevo”, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/">Luciana Veras // É na rua que o frevo faz revolução</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/luciana-veras-e-na-rua-que-o-frevo-faz-revolucao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Maria Flor // O frevo não pode ser resumido apenas a uma sombrinha colorida</title>
		<link>https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/</link>
					<comments>https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 21:11:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[frevo]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=73521</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Beatriz Santana* Foi ainda na infância, ao se tornar bolsista do Grupo de Teatro João Teimoso, que Maria Flor descobriu que a arte seria o caminho para a vida. Hoje, a multiartista (passista de frevo, pesquisadora e integrante do conselho consultivo do Paço do Frevo) reflete sobre uma trajetória marcada pelo cruzamento entre técnica [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/">Maria Flor // O frevo não pode ser resumido apenas a uma sombrinha colorida</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Beatriz Santana*</strong></p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:18% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="766" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg" alt="" class="wp-image-73638 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg 766w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-224x300.jpg 224w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-768x1027.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-150x201.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 766px) 100vw, 766px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Foi ainda na infância, ao se tornar bolsista do Grupo de Teatro João Teimoso, que Maria Flor descobriu que a arte seria o caminho para a vida. Hoje, a multiartista (passista de frevo, pesquisadora e integrante do conselho consultivo do Paço do Frevo) reflete sobre uma trajetória marcada pelo cruzamento entre técnica e afeto.</p>
</div></div>



<p>Em entrevista, ela conta como a convivência familiar com diferentes gêneros musicais se aprofundou à medida que seu olhar técnico sobre o frevo se desenvolveu. “De lá para cá eu participei de diversos trabalhos no frevo, música, dança, história, pesquisa, especialização. Isso tira essa ideia sazonalizada do frevo, a ideia só carnavalesca, e traz ele para um ambiente muito mais próximo da gente. Tem muito mais da nossa história dentro dele e muito mais dele na nossa própria história”, afirma.</p>



<p>Hoje, Maria Flor leva mais pessoas a viver essa experiência com o frevo por meio do minicurso “Frevo: trajetória, som e movimento”, ministrado no Paço do Frevo. O curso, pensado inicialmente para o público de fora de Pernambuco, acabou atendendo também a muitos pernambucanos interessados em conhecer o próprio estado a partir de suas manifestações populares.</p>



<p>A proposta é fazer o aluno enxergar o frevo para além da “sombrinha colorida”, como uma expressão potente, enraizada em um ambiente cultural que lhe dá sentido e força. “Se eu vou dar aula para uma pessoa que não é daqui, seja de música, de dança, eu vou ter que pensar uma forma de integrar ela com essa manifestação que ela não vive aqui”, explica.</p>



<p>Para Maria, é nas ruas, entre os brincantes das ladeiras de Olinda, no calor e no suor da festa, que o frevo revela sua potência. “Não romantizando toda essa precariedade, essa dificuldade que tanta gente vive, mas é como se ela trouxesse isso para a arte que ela realiza dentro do frevo enquanto cultura popular, como um potencializador de vontades”, diz.</p>



<p>Na contramão da lógica dos grandes centros e da visibilidade midiática, Maria destaca a importância dos mestres e mestras da cultura popular. “O maestro Oséas, o maestro Lúcio e Adriana do frevo são pessoas que fazem aquilo acontecer dentro da comunidade, que mudam a realidade daquelas pessoas, principalmente de crianças e adolescentes. Eu sou um exemplo disso, de ter uma pessoa assim”, conta.</p>



<p>A ausência de padrões rígidos, segundo ela, é o que torna o frevo um espaço de liberdade, capaz de atrair pessoas interessadas não apenas em dançar, mas em vivenciar a cultura popular de forma autêntica. Essa dualidade entre ludicidade e realidade é parte essencial da manifestação, em que a arte não se separa da vida cotidiana. “Foi esse caminho que me atraiu mais para o estudo do frevo quando eu passei a estudar lá em Olinda, nos brincantes das ladeiras”, recorda.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A lente histórica de Maria Flor</strong></h2>



<p>A trajetória do frevo enquanto música também é marcada por rupturas graduais com estruturas rígidas. Nascido de bases militares, marchas, dobrados e marcações, o gênero evoluiu conforme os próprios instrumentistas inseriam elementos novos e subjetivos em suas execuções. Com o tempo, o mercado fonográfico passou a organizar o frevo em três categorias: de rua, de bloco e canção.</p>



<p>Embora úteis para difusão, essas classificações também limitaram sua diversidade. “Isso vai além, encaixotando nos formatos, o que não deixa de escantear ou deixar de fora muitos outros que não necessariamente se adequam àquele lugar”, comenta.</p>



<p>Mesmo os compositores considerados tradicionais, que conviveram com ícones como Nelson Ferreira, inovaram, ainda que, por vezes, criticassem a mudança. Para Maria Flor, essa aparente contradição é parte natural da arte. “Muita gente pensa assim, que essas coisas novas vão acabar ofuscando ou deixando para trás a tradição. Acho que uma coisa não precisa apagar a outra. Você pode ter um processo de amadurecimento, mudança, adaptação, transformação, sem deixar que aquela tradição se perca no tempo.”</p>



<p>A Orquestra Experimental de Frevo da Universidade Federal de Pernambuco, da qual Maria Flor faz parte, exemplifica essa convivência entre tradição e inovação. O grupo incentiva o público jovem não apenas a interpretar o frevo, mas a criar novas sonoridades. “Já tivemos frevo com música eletrônica, com rabeca, acordeon, marimba, violino, quarteto de cordas”, lembra. Essa diversidade, para ela, prova que o frevo está longe de ser uma peça de museu: ele vive, respira e se reinventa a cada nova geração.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>* Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.</p>
<p>As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão “Cartografias do Frevo”, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/">Maria Flor // O frevo não pode ser resumido apenas a uma sombrinha colorida</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/maria-flor-o-frevo-nao-pode-ser-resumido-apenas-a-uma-sombrinha-colorida/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>João Pedro Nires // Cariri busca equilíbrio entre resistência cultural, juventude e transformação social</title>
		<link>https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/</link>
					<comments>https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 21:10:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[frevo]]></category>
		<category><![CDATA[Olinda]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=73526</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Beatriz Santana* Em 1921, cinco amigos talvez não imaginassem que criariam o grupo responsável por anunciar a chegada do carnaval em Olinda. A Troça Carnavalesca MistaCariri Olindense, hoje Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco, conquistou oficialmente esse título em 2016, mas já carregava há muito tempo o reconhecimento popular como símbolo de tradição. A [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/">João Pedro Nires // Cariri busca equilíbrio entre resistência cultural, juventude e transformação social</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Beatriz Santana*</strong></p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:18% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="766" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg" alt="" class="wp-image-73638 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-766x1024.jpg 766w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-224x300.jpg 224w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-768x1027.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa-150x201.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/11/Logo-certa.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 766px) 100vw, 766px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Em 1921, cinco amigos talvez não imaginassem que criariam o grupo responsável por anunciar a chegada do carnaval em Olinda. A Troça Carnavalesca Mista<br>Cariri Olindense, hoje Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco, conquistou oficialmente esse título em 2016, mas já carregava há muito tempo o reconhecimento popular como símbolo de tradição.</p>
</div></div>



<p>A história começou com o encontro de Augusto Canuto de Santana, Cosmo Botão, Jacinto Martinho, Isnar Colombo e Eugênio Cravina com um velho mascate vindo do Sertão do Cariri, região entre Pernambuco, Paraíba e Ceará, para vender ervas medicinais no centro do Recife. Encantados com sua figura, pediram permissão para homenageá-lo na agremiação que estavam fundando.</p>



<p>Desde então, todos os anos, o Cariri sai da sede, no bairro de Guadalupe, às quatro da manhã. À frente do cortejo, um homem fantasiado de mascate, com barbas brancas, chapéu de palha e montado em um burro, guia os foliões pelas ladeiras. A lenda dizia que o mascate “pegava crianças”, uma brincadeira inventada para impedir que os pequenos saíssem de casa durante a madrugada.</p>



<p>Quem melhor conta essa história é o educador musical e diretor de preservação e memória do Cariri Olindense, João Pedro Nires. Em entrevista exclusiva, ele explica que a troça é, para ele, quase um parente: “É aquele primo ou tio que exige atenção o tempo todo. Já demandou esforço, tempo e dinheiro da família”.</p>



<p>Esse esforço coletivo foi essencial para impedir que a tradição se interrompesse. Em 2008, quando o Cariri não desfilou, o bairro reagiu com indignação. “Saiu até no jornal: ‘revolta no bairro do Guadalupe’. Porque o Cariri não saiu”, relembra João.</p>



<p>O sentimento de pertencimento se renova a cada cortejo. Os versos do hino <em>“Lá vem o Cariri ali / Com saco de pegar criança / Pegando menino e moça / Pegando tudo o que a vista alcança”</em> embalam os foliões, que seguem o bloco com devoção.</p>



<p>No passado, a manutenção da troça dependia do “Livro de Ouro”, que circulava de casa em casa recolhendo doações. Hoje, além da contribuição da comunidade, o Cariri se sustenta com a venda de camisetas, ingressos de festas e patrocínios pontuais, além da bolsa do título de Patrimônio Vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Entre tradição e renovação</strong></h2>



<p>Para muitos moradores de Guadalupe, o som da orquestra do Cariri é o verdadeiro anúncio de que o carnaval começou. “Era uma agremiação bem restrita à sua saída às 4 horas da manhã. E de um tempo para cá, por vários fatores, o público vem mudando, vem chegando a juventude para brincar o Cariri, vem chegando uma galera de Recife, vem chegando a galera branca, é vem chegando a galera de São Paulo, de outros estados, enfim, para curtir”, conta João.</p>



<p>O desafio, agora, é equilibrar tradição e crescimento. “A logística se torna mais difícil: garantir espaço para os músicos, para os estandartes, para o burro do Cariri. Controlar não é dizer ‘vai pra cá, vai pra lá’, é trazer conforto”, explica.</p>



<p>Ainda assim, João vê a chegada do novo com entusiasmo. “A juventude vai chegar com mais gás, com mais energia, com mais potência. O novo sempre vem”, diz. Para ele, cabe às gerações anteriores orientar e equilibrar essa energia, garantindo que o “transe coletivo” continue.</p>



<p>João alerta para os perigos de um discurso que idealiza o passado. “É uma armadilha muito grande, principalmente para nós jovens, cair nesse discurso da essência, do que era original, do que é raiz”, afirma. Para ele, congelar o frevo e o carnaval em uma forma fixa é negar sua própria natureza transformadora.</p>



<p>Essa reflexão ganha ainda mais peso quando entra em pauta a inclusão. “A Troça Carnavalesca Mista, com ‘M’ de mista, inclui homens e mulheres. Algumas agremiações ainda não têm esse ‘M’. A gente vai manter isso em nome da tradição?”, provoca.</p>



<p>Preservar o Cariri é manter viva a memória coletiva e o pertencimento do bairro de Guadalupe, mas também aceitar que a tradição, como o frevo e o carnaval, só sobrevive se continuar se transformando. Afinal, como lembra João, “se o carnaval é o momento em que tudo pode ser, por que não pode também ser reinventado?”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>* Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.</p>
<p>As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão “Cartografias do Frevo”, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/">João Pedro Nires // Cariri busca equilíbrio entre resistência cultural, juventude e transformação social</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/joao-pedro-nires-cariri-busca-equilibrio-entre-resistencia-cultural-juventude-e-transformacao-social/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
