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	<title>Arquivo de Reportagem - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivo de Reportagem - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 21:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/plante-e-lute-como-uma-mulher-de-juazeirinho/">Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa para si mesma. “Antes eu era cega e não me via”, costuma dizer. Hoje, aos 65 anos, é presidente da associação da comunidade onde mora, participa de conselhos, fornece bolos para a merenda escolar e, com orgulho, afirma: “Hoje eu sou mais eu”.</p>



<p>A poucos quilômetros dali, Sandra Moraes começou uma pequena revolução com uma única galinha emprestada pela sogra. Em dois anos, transformou o quintal em uma criação de galinhas de capoeira, conquistou clientes pela região e se tornou uma espécie de central de vendas da família. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais”, resume.</p>



<p>Já Petrúcia Oliveira, 31 anos, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões comunitárias, intercâmbios e mutirões. Formada dentro das organizações da agricultura familiar, jamais imaginou ocupar um cargo público. No fim de 2024, recebeu um telefonema inesperado da prefeita de Juazeirinho e aceitou o desafio de comandar a Secretaria de Agricultura do município. “Se tivesse alguém lá dentro para provocar, já seria alguma coisa”, pensava.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Localizado no Cariri paraibano, às margens da BR-230, Juazeirinho tem cerca de 17 mil habitantes, dos quais 45% vivem na zona rural. O município abriga 47 comunidades rurais e aproximadamente 1,4 mil estabelecimentos agropecuários, sendo 73% pertencentes à agricultura familiar. Predominam pequenas propriedades: quase sete em cada dez têm até 10 hectares. Inserido no Semiárido, Juazeirinho enfrenta chuvas irregulares e longos períodos de estiagem, condições que impulsionaram a adoção de estratégias de convivência com o clima, como cisternas, bancos comunitários de sementes e sistemas produtivos agroecológicos. Hoje, a forte organização comunitária e a agricultura familiar são marcas da identidade e da economia do município.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>As três histórias são fortes e especiais, mas estão longe de serem únicas. Como as protagonistas dessa reportagem, outras famílias foram beneficiadas por projetos da sociedade civil organizada e por diversas políticas públicas. Ao longo de mais de duas décadas, cisternas, bancos comunitários de sementes, quintais produtivos, assistência técnica, mercados institucionais e organização comunitária ajudaram a transformar a vida de centenas de famílias agricultoras.</p>



<p>Ao contar as histórias de Maria de Fátima, Sandra e Petrucia, também estamos falando de uma população organizada em uma ampla rede de associações comunitárias, sindicatos, grupos de mulheres, cooperativas e outras organizações da sociedade civil, que desempenham papel central na promoção da agroecologia, na implementação de políticas públicas e no fortalecimento da agricultura familiar.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A atuação do PATAC em Juazeirinho</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>O PATAC (Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades) atua em Juazeirinho há mais de duas décadas, assessorando agricultores e agricultoras familiares na construção de alternativas de convivência com o Semiárido. Em parceria com organizações locais, o trabalho contribuiu para fortalecer a Comissão Municipal da Agricultura Familiar, implantar cisternas para consumo e produção, criar bancos comunitários de sementes, fundos rotativos solidários, feiras agroecológicas e unidades de beneficiamento de alimentos. A entidade também apoia a formação de mulheres e jovens, a assessoria técnica agroecológica e a incidência em políticas públicas, ajudando a transformar a organização comunitária em um dos principais pilares do desenvolvimento rural do município.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Maria de Fátima : “Hoje eu sou mais eu”</strong></h2>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A primeira coisa que chama a atenção na propriedade de Maria de Fátima é o jardim bem cuidado rodeando o terraço arejado onde ela recebe as visitas. De lá, é possível ver várias fruteiras, a cisterna que garante água nos momentos de seca e, um pouco mais afastada, a casa onde elas e as vizinhas produzem e armazenam as polpas de frutas que fornecem para as escolas do município. As coisas andam bem no quintal produtivo, que funciona segundo princípios agroecológicos, e também na sua vida pessoal. Mas nem sempre foi assim.</p>



<p>Maria de Fátima tem uma expressão que resume a própria vida. “Antes eu era cega e não me via.” Perto de completar 66 anos, ela fala da antiga Maria de Fátima como se estivesse descrevendo outra pessoa. Aquela mulher que saía de casa apenas para trabalhar no roçado, cuidava dos cinco filhos e passava os dias entre a cozinha e os afazeres domésticos não existe mais. “Meu trabalho era do roçado para casa e de casa para o roçado. Eu não me enxergava.”</p>



<p>Filha de agricultores, nascida e criada na comunidade Pedra d&#8217;Água, em Juazeirinho, no Cariri paraibano, Dona Fátima estudou apenas até a quarta série. Casou, criou os filhos e acreditou durante muito tempo que aquela era a vida que lhe cabia.</p>



<p>Tudo começou a mudar em 2006, quando um primo, então presidente da associação comunitária, insistiu para que ela participasse de uma reunião sobre a construção das primeiras cisternas para armazenamento de água de consumo. “Meu marido não queria que eu fosse. Naquele tempo as mulheres eram muito submissas. Mas, no terceiro convite, eu disse: agora eu vou.”</p>



<p>Foi nessa reunião que conheceu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, depois, o PATAC. Vieram as reuniões, os intercâmbios, as viagens e os encontros com outras mulheres. “Foi aí que eu abri os olhos.”</p>



<p>Existe um outro ponto de ruptura que separa a antiga da nova Maria de Fátima. Durante décadas, ela acreditou que seus anos de escola haviam ficado para trás. O sonho de continuar estudando foi interrompido ainda na infância. O pai, frustrado por não ter conseguido fazer do filho mais velho o estudante que desejava, acabou não incentivando os demais. Já casada e com as crianças crescidas, ela decidiu recuperar o tempo perdido. Voltou para a sala de aula, estudando à noite, e concluiu os estudos em 2012. “Meu sonho era ser enfermeira”, conta. “Meu marido não queria muito, mas eu dizia: eu vou estudar. E fui.”</p>



<p>A chegada das cisternas, de primeira e segunda água, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), representou muito mais do que água perto de casa. Antes delas, Dona Fátima percorria mais de três quilômetros carregando latas na cabeça. Depois, os tanques de pedra foram recuperados. O quintal ganhou árvores frutíferas, caixas d&#8217;água e sistemas de armazenamento. Hoje, onde antes predominava a algaroba, crescem pés de acerola, pitanga, pinha, graviola, seriguela e araticum. “O povo diz que o Cariri não dá nada. Mas dá. Dá, sim.”</p>



<p>Com as frutas vieram as polpas, a participação na feira agroecológica e o fornecimento para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Mais recentemente, os bolos produzidos por ela passaram a integrar a merenda das escolas do município.</p>



<p>Foi com o dinheiro desse trabalho que comprou uma vaca. Depois, uma máquina de lavar roupas. Em seguida, um armário e uma cristaleira. “Não tem preço você entrar numa loja e comprar uma roupa com o dinheiro do seu trabalho.”</p>



<p>A independência financeira veio acompanhada de outra conquista. “Antes eu tinha que esperar. Hoje não. Hoje eu compro minhas roupas, meus sapatos, o que eu quiser. Tudo fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Ao longo da vida, Dona Fátima enfrentou dores que ainda a emocionam. Perdeu dois filhos e passou anos em um casamento marcado pelo machismo e pela dependência econômica. “Meu marido nunca levantou a mão para mim. Mas mulher não sofre só quando apanha.” Ela conta que muitas vezes engoliu o sofrimento para criar os filhos. “Eu pensava: se eu deixar esse homem, como vou criar meus meninos?”</p>



<p>Foi trabalhando fora, fazendo feira e contando com a ajuda do sogro que conseguiu garantir o sustento da família. “Ele nunca comprou uma caneta para um filho. Tudo foi fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Hoje, vê com orgulho as filhas seguindo caminhos diferentes. E gosta de perceber que as mudanças alcançaram também as novas gerações. “Minha filha diz que se espelha em mim. E eu digo que guerreira é ela.”</p>



<p>Presidente da associação da comunidade, integrante da Comissão Municipal e participante de conselhos e atividades da igreja, Dona Fátima continua com a rotina intensa. Acorda às três da manhã, faz as orações, reza o rosário e, antes das seis, já está em atividade. “No dia em que eu parar, acho que me dá um troço.”</p>



<p>Quando lembra daquela mulher de antes de 2006, quando decidiu aceitar o terceiro convite para uma reunião, os olhos brilham. “Hoje eu sou mais eu.”</p>



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</p>
	                
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	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em><strong>Foto legenda:</strong></em></p>
<p><em>Conhecido na região como “o tanque do milagre”, o reservatório natural localizado na propriedade de Maria de Fátima nunca secou, mesmo nos períodos mais severos de estiagem. Em tempos difíceis, a água armazenada entre as pedras chegou a abastecer cinco famílias da comunidade Pedra d&#8217;Água. “Você tira água de manhã e, quando volta mais tarde, ele já está cheio de novo. Esse mistério só Deus sabe explicar”, diz a agricultora.</em></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sandra</strong>: &#8220;Hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</h2>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Na primeira vez que participou de uma reunião do programa ATER Mulheres, Sandra da Silva Araújo Moraes ouviu falar sobre direitos, projetos e oportunidades para mulheres agricultoras. Mas quando voltou para casa, na comunidade Ilha Grande, em Juazeirinho (PB), estava frustrada por não ter os requisitos mínimos para acessar o programa de fomento rural. Ela não tinha o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), não tinha praticamente nenhuma produção e tampouco recursos para investir no sonho que carregava desde criança: criar galinhas. “Meu problema era começar. Eu tinha vontade, mas não tinha dinheiro.”</p>



<p>Foi então que aconteceu algo inusitado. Uma galinha da sogra, que morava na casa ao lado, resolveu por ovos no quintal de Sandra. “Eu disse: &#8216;Vou amarrar essa galinha para mim&#8217;. E ela respondeu: &#8216;Pode amarrar&#8217;.” A ave chocou 13 ovos e nasceram 12 fêmeas. E assim, quase por acaso, começou a pequena criação que hoje garante uma renda extra para a agricultora.</p>



<p>Filha de agricultores, Sandra nasceu em Poçinhos (PB). O pai era vaqueiro e a família vivia mudando de fazenda em fazenda. Quando tinha cerca de oito anos, chegou a Juazeirinho e nunca mais saiu. “Cresci na agricultura. Desde que me entendo por gente vivo disso.”</p>



<p>Mas, apesar da ligação com o campo, durante muitos anos ela esteve distante das reuniões, das formações e dos espaços de organização. “Eu não participava de nada. Nem acreditava que um dia fosse receber alguma coisa do governo.”</p>



<p>A primeira mudança veio através do programa ATER Mulheres, iniciativa voltada para a assistência técnica e para a autonomia econômica das agricultoras. Foi ali que Sandra começou a entender a importância da documentação e dos programas voltados para a agricultura familiar. “Até para fazer a CAF é difícil. Muitas vezes, a pessoa recebe um não e desiste. Foi nessas reuniões que comecei a entender meus direitos.”</p>



<p>Embora não tenha sido contemplada naquele primeiro momento, pouco tempo depois conseguiu ingressar no projeto Quintal das Margaridas, desenvolvido no território com apoio das organizações da agricultura familiar. Recebeu R$ 4,5 mil em fomento produtivo, além de assistência técnica e acompanhamento. “Pode parecer pouco. Mas, para uma mulher que nunca tinha recebido nada diretamente, foi uma conquista muito grande.’</p>



<p>Mais importante do que o dinheiro, diz ela, foram os encontros com outras mulheres. “A gente ria, se emocionava, desabafava. Era uma convivência muito boa.” Com o apoio do projeto e a experiência acumulada desde criança, Sandra começou a ampliar a criação.</p>



<p>Hoje tem cerca de cinquenta galinhas de capoeira e alguns perus. Os ovos e as aves abatidas abastecem consumidores de Juazeirinho, Campina Grande, João Pessoa e pessoas ligadas às redes de organizações da agricultura familiar. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</p>



<p>Sandra faz questão de trabalhar apenas com galinhas de capoeira. “Não adianta enganar o cliente.” Ela explica que muitos compradores procuram os ovos por recomendação médica ou por buscar uma alimentação mais saudável. “Quem compra da gente quer a galinha verdadeira. Se descobrir que você misturou, nunca mais volta.”</p>



<p>Os conhecimentos adquiridos nas formações e na prática transformaram a agricultora em uma espécie de especialista em raças nativas. “Até pelo cheiro eu sei se é galinha de capoeira. É só abrir a panela.”</p>



<p>Mas criar os animais é apenas uma parte do trabalho. A outra é vender. E é justamente essa a parte de que ela mais gosta. Pelos status do WhatsApp, comercializa ovos, galinhas, leite, maxixe, coentro e cebolinha. Quando as irmãs não conseguem vender a produção, recorrem a ela. O mesmo acontece com o pai e a sogra. “Eu vendo tudo.”</p>



<p>O pai, que não usa redes sociais, faz as entregas. “Ele diz: &#8216;Você vende, que eu entrego&#8217;.” Com orgulho, Sandra conta que os clientes já entram nos status do WhatsApp para saber o que há disponível naquele dia. “Graças a Deus, tudo o que eu posto eu vendo.”</p>



<p>Em casa, a filha Isadora, de sete anos, parece seguir os passos da mãe. “Ela ama as galinhas. Vive dentro do galinheiro.” Já José Isaac, de 12 anos, prefere manter distância. “Ele morre de medo”, conta, entre risos.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Sandra tem um forno agroecológico que tem um peso importante no orçamento doméstico ao ajudar na economia do gás de cozinha. O fogão foi construído com recursos de um fundo rotativo, que ela é a atual tesoureira, mantido por vinte pessoas da comunidade que, desde 2006, contribuem com R$ 5 todo mês</em></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Petrucia: “Alguém precisava estar lá dentro”</h2>



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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Nos últimos dois anos, a vida de Petrucia Nunes de Oliveira mudou quase por completo. Foi morar em uma casa nova, teve o primeiro filho e começou um trabalho que nunca imaginou exercer. E não foi um emprego qualquer.</p>



<p>No fim de dezembro de 2024, a agricultora e articuladora social de Juazeirinho recebeu um telefonema da prefeita Ana Virgínia convidando-a para assumir a Secretaria Municipal de Agricultura. Filha e neta de agricultores da comunidade Sussuarana, Petrucia jamais havia ocupado um cargo público. Na família, ninguém tinha tradição política. “Passei o fim de semana inteiro em crise”, lembra.</p>



<p>A decisão não era simples. Além de deixar o trabalho que desenvolvia junto às organizações da agricultura familiar, ela assumiria uma secretaria historicamente marcada por uma visão tradicional do campo, em um ambiente predominantemente masculino. Poucos meses depois, já no cargo, precisou interromper a rotina para o nascimento do filho. Em abril entrou em licença-maternidade. Retornou em agosto com um desafio ainda maior: aprender a equilibrar os cuidados com o bebê e a responsabilidade de conduzir uma das principais políticas públicas do município.</p>



<p>Mas a história de Petrucia com a agricultura começou muito antes daquele telefonema. Filha e neta de agricultores, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, intercâmbios promovidos pelo PATAC e atividades do Coletivo Regional. Enquanto outras crianças brincavam, ela ouvia conversas sobre bancos comunitários de sementes, cisternas, convivência com o Semiárido e organização comunitária. “Meu avô foi um dos primeiros a participar dos intercâmbios. Foi ele quem despertou em nós esse amor pela agricultura.”</p>



<p>Nascida em 1994, ela pertence à geração que já encontrou um território transformado pelas organizações da agricultura familiar. Participou da Comissão de Sementes, ajudou a criar a Comissão de Juventude do Coletivo e passou a integrar diferentes espaços de formação e articulação política. “Nossa preocupação nunca foi ocupar cargos. A gente queria que esse trabalho fosse reconhecido.”</p>



<p>Foi nesse período que as organizações decidiram estreitar o diálogo com a prefeita Ana Virgínia. Primeiro apresentaram o conjunto de experiências desenvolvidas no município. Depois a convidaram para conhecer, de perto, os quintais produtivos, os bancos de sementes, as tecnologias de acesso à água e as famílias agricultoras. “O olhar dela sobre a agricultura era muito ligado ao corte de terra e à limpeza de barreiros. Nós mostramos que existia outro lado da agricultura. Um lado capaz de proporcionar uma vida melhor para as famílias.”</p>



<p>O diálogo ganhou força durante o projeto Cultivando Futuros. Ao lado de agricultores, lideranças e organizações, Petrucia participou da reconstrução da história da agricultura familiar de Juazeirinho. O grupo revisitou a trajetória das políticas públicas no município, identificou os principais desafios e elaborou uma carta de propostas para orientar a atuação da gestão municipal. “Foi um momento muito bonito. A gente revisitou a história dos nossos pais e dos nossos avós.”</p>



<p>Petrucia jamais imaginou que, poucos meses depois, estaria do outro lado da mesa. “Eu ajudava a construir aquela carta construída durante o projeto Cultivando Futuros enquanto estava na sociedade civil. De repente, me vi do outro lado, tentando colocá-la em prática.”</p>



<p>Assim, estabeleceu como prioridades estão a implantação do Sistema de Inspeção Municipal, o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a ampliação da participação da agricultura familiar na Juacapri, os campos de multiplicação de palma e a adaptação das chamadas públicas para facilitar o acesso dos agricultores.</p>



<p>São mudanças discretas, mas que dialogam diretamente com as reivindicações construídas pelas organizações ao longo de mais de duas décadas. Ser mulher e jovem em um ambiente tradicionalmente ocupado por homens também trouxe desafios. “Às vezes as pessoas perguntam: &#8216;A secretária é você?’”</p>



<p>Enquanto esteve do lado de fora da prefeitura, seu papel era provocar. Agora, acredita que sua missão é abrir caminho para que a agricultura familiar deixe de ser uma pauta periférica e passe a ocupar um lugar permanente nas decisões do município. “Não quero ficar aqui para sempre. Mas, enquanto estiver, quero contribuir para fortalecer esse trabalho.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Leia também:</h3>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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			</item>
		<item>
		<title>Caatinga Climate Week 2026 coloca semiárido no centro do debate climático</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 20:52:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[caatinga]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Sabiá]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A segunda edição do Caatinga Climate Week acontece de 1 a 3 de julho. A abertura ocorre no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, e segue para o agreste pernambucano nos dias seguintes. Promovido pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), o evento reúne painéis e diálogos entre diferentes atores da sociedade civil [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A segunda edição do Caatinga Climate Week acontece de 1 a 3 de julho. A abertura ocorre no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, e segue para o agreste pernambucano nos dias seguintes. Promovido pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), o evento reúne painéis e diálogos entre diferentes atores da sociedade civil para discutir a Caatinga. A iniciativa é inspirada nas semanas do clima realizadas em diversas partes do mundo e busca colocar o bioma exclusivamente brasileiro no centro do debate climático global.</p>



<p>Sob o tema A Caatinga falando para o mundo, a programação deste ano tem como objetivo amplificar as vozes de quem já constrói soluções concretas nos territórios do semiárido. Estão previstas participações de lideranças indígenas e quilombolas, agricultores e agricultoras familiares, representantes de movimentos sociais, articuladores da agenda socioambiental e gestores públicos, em uma programação que se dispõe a conectar saberes tradicionais, ciência, inovação social e justiça climática.</p>



<p>Após o dia de abertura no Recife, o evento segue nos dias 2 e 3 de julho com uma expedição pelo agreste pernambucano, quando os participantes visitarão experiências concretas de adaptação às mudanças climáticas desenvolvidas por comunidades locais. A programação &#8220;do cais ao sertão&#8221; reforça a proposta de aproximar debate urbano e vivência territorial, levando os participantes a conhecer de perto as tecnologias sociais criadas ao longo de gerações para viabilizar a convivência com o Semiárido.</p>



<p>A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional, estendendo-se por dez estados do Nordeste e pelo norte de Minas Gerais. Historicamente marcada pela escassez hídrica e por desigualdades socioambientais, a região tem sido cada vez mais impactada pelos efeitos das mudanças climáticas. Ainda assim, é também reconhecida como um território de respostas: povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares desenvolveram, ao longo do tempo, conhecimentos e práticas voltados à produção de alimentos, à conservação ambiental e à gestão sustentável dos recursos naturais.</p>



<p>Realizada pela primeira vez em 2025, o evento propõe reconhecer a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro. A programação completa está disponível no <a href="https://www.caatingaclimateweek.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">site oficial</a> do evento, e atualizações podem ser acompanhadas pelo perfil da iniciativa no <a href="https://www.instagram.com/caatingaclimateweek/" type="link" id="https://www.instagram.com/caatingaclimateweek/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instagram</a>.</p>



<p></p>
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		<title>Recife é a 8ª cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor</title>
		<link>https://marcozero.org/recife-e-a-8a-cidade-brasileira-mais-ameacada-por-ondas-de-calor/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 18:10:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[calor]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recife é a oitava cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor e ocupa a 89ª posição em um ranking global que avaliou 205 cidades com mais de um milhão de habitantes. O levantamento, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, mostra que os riscos associados [&#8230;]</p>
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<p>Recife é a oitava cidade brasileira mais ameaçada por ondas de calor e ocupa a 89ª posição em um ranking global que avaliou 205 cidades com mais de um milhão de habitantes. O levantamento, realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado na revista científica <a href="https://www.sciencedirect.com/journal/sustainable-cities-and-society">Sustainable Cities and Society</a>, mostra que os riscos associados ao calor extremo não dependem apenas das condições climáticas, mas também de fatores sociais, econômicos e de infraestrutura.</p>



<p>Entre as cidades brasileiras analisadas, Manaus aparece como a mais vulnerável aos impactos das ondas de calor. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª).</p>



<p>O estudo considerou apenas cidades com população superior a um milhão de habitantes. Das 15 cidades brasileiras que se enquadram nesse critério, 11 foram incluídas na classificação global do estudo.</p>



<p>A pesquisa rompe com abordagens tradicionais que medem o risco apenas a partir da temperatura registrada. Para os pesquisadores, esse tipo de análise pode ser enganosa, já que o impacto do calor sobre a população é mediado por fatores como renda, perfil demográfico, qualidade da infraestrutura urbana e capacidade dos governos e das comunidades de responder a eventos extremos.</p>



<p>Para elaborar o índice, os estudiosos combinaram três dimensões: exposição ao calor, medida a partir do Índice Universal de Clima Térmico (UTCI); vulnerabilidade social, relacionada a aspectos econômicos e demográficos; e capacidade de enfrentamento, associada à infraestrutura disponível e às condições urbanas.</p>



<p>Os resultados mostram que mais de 95% das cidades classificadas como de maior risco estão concentradas no Sul Global, especialmente no Sul e Sudeste Asiático e na África Subsaariana.</p>



<p>A pesquisa de Oxford destaca justamente que cidades com menor capacidade de adaptação podem apresentar níveis elevados de risco mesmo quando não registram as temperaturas mais extremas do planeta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ondas de calor já provocaram 120 mil mortes no Brasil</strong></h2>



<p>Os resultados do levantamento dialogam com outra pesquisa recente, desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a coordenação das equipes técnicas dos projetos <a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/ciencia-clima" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ciência&amp;Clima</a> e <a href="https://www.adaptacao.eco.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ProAdapta</a>, que identificou 120 mil mortes associadas às ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2018.</p>



<p>Lançado na semana passada, o estudo <em><a href="https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/cgcl/paginas/saude-e-ondas-de-calor" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Saúde e ondas de calor do Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS</a></em> apresenta dados inéditos que caracterizam padrão de exposição a eventos de ondas de calor e os efeitos na saúde humana em todo o território nacional.</p>



<p>Os achados reforçam o calor extremo como ameaça à saúde pública e destacam a necessidade de fortalecer a agenda de adaptação, diante do aquecimento global e da intensificação e frequência de ondas de calor.</p>



<p>De acordo com a pesquisa, o aumento da frequência e da intensidade dos episódios de calor extremo já produz impactos significativos sobre a saúde pública, elevando o risco de desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e aumento da mortalidade, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças preexistentes.</p>



<p>Os idosos foram os mais afetados: mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais podem ser associados a esses eventos extremos, o que representa aproximadamente 80% dos óbitos atribuíveis totais. Ainda dentro do total, quando observado o quantitativo de mortes por causas mais relevantes, destacam-se as doenças cardiovasculares e respiratórias. Os pesquisadores identificaram aproximadamente 34 mil e 24 mil mortes atribuíveis ao calor, respectivamente.</p>



<p>Em âmbito nacional, o estudo explorou os efeitos do calor extremo sobre as internações hospitalares do SUS. Na população em geral foi identificado um aumento consistente do risco de internação por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e geniturinárias, como insuficiência renal, em quase todas as regiões. O estresse térmico sobrecarrega as funções cardiorrespiratórias, contribuindo para inflamações sistêmicas e agravando doenças respiratórias pré-existentes, além de afetar o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia (redução do volume total de sangue e líquidos no corpo) e da disfunção renal.</p>



<p>Para crianças menores de 10 anos, as gastroenterites (diarreias) foram a causa de internação mais fortemente associada às ondas de calor em todas as macrorregiões do país. A condição pode estar associada à maior suscetibilidade à desidratação, à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e às alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos durante períodos de calor extremo.</p>



<p>Já na população idosa, indivíduos com mais de 60 anos mostraram alta sensibilidade em causas respiratórias, renais e metabólicas (diabetes).</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Raquel Lyra comemora queda de homicídios, mas violência policial cresce em PE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:52:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Polícia Militar]]></category>
		<category><![CDATA[redução da violência]]></category>
		<category><![CDATA[Violência em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto a redução geral dos homicídios ocupa o centro da narrativa da gestão Raquel Lyra (PSD) na área da segurança pública, Pernambuco registrou um aumento nas mortes por intervenção policial em 2025, com 89 pessoas assassinadas no ano passado, 30,9% a mais do que em 2024, . A letalidade da polícia tem cor, gênero, idade [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Enquanto a redução geral dos homicídios ocupa o centro da narrativa da gestão Raquel Lyra (PSD) na área da segurança pública, Pernambuco registrou um aumento nas mortes por intervenção policial em 2025, com 89 pessoas assassinadas no ano passado, 30,9% a mais do que em 2024, .</p>



<p>A letalidade da polícia tem cor, gênero, idade e território: 94,4% das vítimas eram negras, 100% eram homens, 71,9% eram jovens de até 29 anos e 12,4% (o maior percentual registrado) estavam no Recife quando foram mortas.</p>



<p>Os números fazem parte da sétima edição do estudo <em>Pele Alvo: entre racismo e letalidade</em>, <em>o amanhã</em>, que monitora dados de letalidade policial fornecidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelas secretarias de segurança de nove estados (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo).</p>



<p>Com os resultados de 2025, foi possível contabilizar que, na média dos nove estados, negros têm quatro vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que brancos. Em Pernambuco, essa chance chega a ser 11 vezes maior.</p>



<p>De acordo com o estudo, nos nove estados monitorados, o ano passado encerrou com um número recorde de mortes provocadas por policiais (4.330), um aumento de 6,4% em relação a 2024. Considerando os registros de raça ou cor “não informados”, o racismo na segurança torna-se evidente: 86,3% (3.104) das vítimas eram negras.</p>



<p>“Quando analisamos os dados de 2025 em Pernambuco, percebemos uma contradição muito importante. Ao mesmo tempo em que o estado vem divulgando a redução das mortes violentas e intencionais como um resultado positivo da política de segurança, principalmente por meio do programa Juntos pela Segurança, o número de mortes decorrentes de intervenção policial aumentou. Isso nos faz refletir sobre o que realmente significa falar em prevenção da vida quando a violência produzida pelo próprio Estado também cresce. Quando a gente para e olha quem são essas vítimas, o cenário fica mais preocupante”, avalia Dália Celeste, pesquisadora do estudo “Pele Alvo” em Pernambuco.</p>



<p>Afrotransfeminista e estudante de Direito e de Letras, Dália destaca que “existe um perfil muito evidente de qual corpo é atingido por essa violência”. Ela afirma que “isso demonstra que a letalidade policial não acontece de forma aleatória, ela atinge principalmente jovens negros. O que reforça a necessidade de discutirmos o racismo estrutural e as desigualdades presentes na política de segurança pública”.</p>



<p>Outro dado que chama a atenção no estudo é que, apesar de Pernambuco ter informado raça ou cor em 100% dos registros, 78,7% das vítimas não tiveram a profissão identificada. Para Dália, esse contraste é revelador, uma vez que o estado registra a cor daqueles que morrem, mas apaga suas trajetórias nos documentos oficiais.</p>



<p>“Embora o estado consiga informar a raça de todas as vítimas, não sabemos nada sobre quem eram essas pessoas antes da morte. Os dados mostram que um policial, inclusive, foi vítima de uma decorrência da intervenção da própria polícia. Isso aponta que a lógica do confronto também produz riscos para os próprios profissionais da segurança pública”, diz a pesquisadora.</p>



<p>“A nossa preocupação é que o debate sobre segurança pública não fique restrito apenas à redução dos homicídios. É preciso cobrar do estado mais transparência, responsabilização e políticas públicas que tenham como prioridade a preservação da vida”, argumenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Pernambuco segue tendência nacional</h2>



<p>Embora os números ainda sejam altos, Pernambuco vem apresentando uma retração nos principais indicadores criminais monitorados pela Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), acompanhando uma tendência verificada na média brasileira.</p>



<p>O estado encerrou os cinco primeiros meses de 2026 (janeiro a maio) com os menores índices já registrados, em toda a série histórica, para Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs) e Mortes Violentas Intencionais (MVIs). Até maio, foram registradas 8.070 ocorrências de CVP, o menor resultado dos últimos 16 anos, e 1.167 ocorrências de MVI, o menor resultado dos últimos 23 anos.</p>



<p>O governo estadual aponta o programa Juntos pela Segurança como principal responsável pela melhora do cenário, associado aos investimentos em tecnologia, inteligência e ações policiais.</p>



<p>Já o Brasil atingiu, em 2024, a menor taxa de homicídios em 11 anos, segundo o <em>Atlas da Violência 2026</em>, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) — esses são os dados nacionais mais recentes.</p>



<p>Os pesquisadores apontam que essa redução nacional dos homicídios está relacionada a um conjunto de fatores. Entre eles, estão a adoção de políticas de segurança pública mais orientadas por dados, permitindo ações focadas nas áreas com maior incidência de violência; mudanças na atuação de grupos criminosos, incluindo períodos de menor confronto entre facções em algumas regiões; e o envelhecimento da população, uma vez que os jovens continuam sendo o grupo mais exposto ao risco de assassinato.</p>



<p>Apesar da tendência de queda, o estudo recomenda cautela na interpretação dos números. Isso porque houve aumento dos registros de mortes violentas classificadas como de causa indeterminada, categoria que pode incluir homicídios não identificados oficialmente. Com base nessa hipótese, os autores estimam que o Brasil pode ter contabilizado até 49.673 homicídios em 2024. Nesse cenário, a redução em relação ao ano anterior seria de apenas 0,4%, significativamente menor do que a indicada pelos dados oficiais.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Mastectomia no SUS devolve liberdade do banho de mar para pessoas transmasculinas</title>
		<link>https://marcozero.org/mastectomia-no-sus-devolve-liberdade-do-banho-de-mar-para-pessoas-transmasculinas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jun 2026 18:54:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[CISAM]]></category>
		<category><![CDATA[dia do orgulho LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[homens trans]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. Isso, no [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. </p>



<p>Isso, no entanto, está mudando. Homens trans e pessoas transmasculinas têm recorrido cada vez mais ao Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer os tratamentos hormonais e cirurgias necessárias para reafirmar suas identidades, a exemplo da mastectomia bilateral masculinizadora ou mamoplastia masculinizadora  (retirada das mamas) e da histerectomia, nome que se dá à retirada de útero e ovários.</p>



<p>O SUS é um catalisador dessa afirmação e, apesar dos desafios, contribui com a adequação de gênero dessa comunidade. Em Pernambuco, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), vinculado à Universidade de Pernambuco (UPE) e o Hospital da Mulher do Recife realizam acompanhamento ambulatorial e realizam as cirurgias de readequação de gênero. A Policlínica Lessa de Andrade também oferece o atendimento ambulatorial.</p>



<p>Juntos, os três hospitais já realizaram 99 procedimentos de mastectomia. No Hospital das Clínicas (HC), primeiro do estado a oferecer o serviço, desde 2016 foram 54 procedimentos, o Cisam/UPE realizou 21, enquanto no Hospital da Mulher aconteceram 24. Com a chegada da cirurgia no Hospital da Mulher, o acesso ao serviço por parte das pessoas trans atendidas foi acelerado, considerando que a fila foi reduzida. Hoje, o tempo médio de espera na unidade por alguma dessas cirurgias demora de 45 a 60 dias. </p>



<p>“Cada dia que passa é algo muito grandioso. É acordar e se sentir bem, se sentir dentro de você mesmo. Sair sem ter tanto medo, porque é isso que eu sentia quando eu tinha as mamas”, conta o auxiliar de serviços gerais, Jack Mowatt, de 30 anos, que recentemente fez a mastectomia bilateral masculinizadora no Hospital da Mulher do Recife.</p>



<p>Foi possível ver o brilho no olhar de Jack ao contar como o procedimento realizado há pouco mais de dois meses transformou sua vida. Ele foi uma das dez primeiras pessoas trans a passar pelo bloco cirúrgico no Hospital da Mulher, que começou a oferecer o serviço no final de 2025.</p>



<p>Natural de Rio Formoso, na mata sul de Pernambuco, veio morar no Recife aos 12 anos de idade. Desde criança sempre soube quem era, mas só ao chegar na capital e conhecer e dialogar com outros homens trans, pôde compreender melhor sua identidade ainda durante a adolescência.</p>



<p>Os desafios foram muitos e apenas na vida adulta começou o acompanhamento para a readequação de gênero. “Só agora na fase adulta é que eu consegui, de fato, ter essa autonomia, tanto financeira quanto pessoal, para encarar uma terapia, me entender melhor pra chegar nesse processo da transição e da mastectomia também”, afirma.</p>



<p>Jack conta que começou seu acompanhamento no Hospital da Mulher para um tratamento de mioma no ambulatório especializado da unidade. Por causa desses problema de saúde, precisou fazer uma histerectomia e passou a ser atendido pelo serviço de acompanhamento psicológico. O tratamento hormonal veio dois anos depois, culminando com a mastectomia em abril de 2026.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jack Mowatt passou pela cirurgia de mastectomia em abril de 2026
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“É como se fosse algo que você não reconhecesse no seu corpo. Algo que incomodasse. Algo que fosse desconfortável em você, como uma mancha, algo assim. E quando você tira aquilo parece que tudo muda. A qualidade de vida diferente, surreal de tudo que eu já tinha sentido. Até quando vestia uma roupa qualquer, quando ia na praia não tirava roupa, não tomava um banho, ficava só era naquele chuveirão e muito mal, e corria logo porque achava que alguém estava olhando parecia uma fobia. Agora estou bem mais relaxado”, reflete.</p>



<p>Agora, Jack segue livre para ser quem é no seu trabalho em uma academia de <em>crossfit</em>, no sonho de realizar a graduação de Educação Física e como jogador no time de futsal Força Trans.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“Sempre fui uma pessoa do mar”</h2>



<p>“Passando pra dar notícias para pessoas que amo muito que deu tudo certo com minha mastectomia, estou aqui na recuperação”, esse foi o áudio enviado pelo multiartista e artivista Vyvo Dayo, de 29 anos, poucas horas após sua mastectomia que aconteceu no sábado, 27 de junho, um dia antes do dia do orgulho LGBTIA+. Conversamos com Dayo dois dias antes para entender a expectativa que vivia. </p>



<p>Acompanhado pelo Cisam/UPE, o multiartista não imaginava que sua cirurgia iria ser realizada agora, pois a fila de espera na unidade é longa, por atender a todo o estado. No entanto, acabou conseguindo o procedimento no Hospital da Mulher, unidade que está ajudando a desafogar as filas de espera dos hospitais maiores.</p>



<p>Segurança e saúde são os fatores que mais pesaram para Dayo nos dias de expectativa antes da cirurgia, afinal as pessoas trans e travestis convivem durante anos com o medo de agressões e violações, o que as obriga a usarem mecanismos para disfarçar determinadas características. No caso de quem tem mama, é comum usar fitas e o <em>binder</em>, uma espécie de colete colocado para comprimir os seios. Por este e outros motivos, Dayo vê na mastectomia uma nova possibilidade de viver. E viver com qualidade. </p>



<p>“A minha expectativa para ter uma mastectomia é muito porque quero esse lugar da segurança, da segurança e da saúde. De não estar usando roupas ou fitas prendendo o meu peito, pois depois do uso o mpeito fica cortado. Quantas vezes meu peito fica todo machucado&#8230; às vezes com partes em carne viva, porque eu não consegui me adequar, inclusive ao binder por causa da respiração, já tive falta de ar”, desabafa.</p>



<p>O procedimento pode trazer a segurança necessária para fazer aquilo que, em outro tempo, era parte da rotina. “Sempre que eu tinha um tempinho eu corria ou então até me exercitar na praia, enfim, sempre fui uma pessoa muito do mar, da praia e também uma pessoa de muito de não ter vergonha de mostrar a minha pele, de gostar de roupas curtas. A transição voltada para os corpos, para as identidades da gente, cai muito nisso de não mostrar o seu corpo, por isso transmasculinas usam muito roupas folgadas”, conta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-28-at-08.30.16-768x1024.jpeg" alt="A imagem mostra uma pessoa jovem deitada em uma cama, sorrindo para a câmera em um ambiente de aparência simples e clara. Essa pessoa tem pele clara, cabelo curto e loiro, barba rala e bigode. Está sem camisa e parece relaxada, com expressão tranquila e alegre. Ao lado da cabeça há uma camiseta cinza dobrada e um travesseiro preto. No fundo, vê-se uma parede branca com um painel elétrico fixado, contendo tomadas e cabos conectados — o que dá a impressão de um quarto ou ambiente hospitalar." class="" loading="lazy" width="564">
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	                                        <p class="m-0">Dayo foi operado na véspera do Dia do Orgulho LGBTQIA+
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Diferente de Jack, o multiartista é uma pessoa não-binária, cuja identidade de gênero não se encaixa nos gêneros tradicionais, transitando entre eles. Por isso, conta que diversas vezes já foi confundido com mulheres trans ou homens gays afeminados. “Cada vivência é submetido a um controle diferente. O controle que bate muito na gente é que transmasculino, pessoas não-binárias, passa por ‘esconda esse corpo, não se mostre’, afirma.</p>



<p>Até se entender como não-binário, Dayo passou por conflitos internos, processos depressivos e questionamentos, mas conta que a arte ajudou a salvá-lo. “Me descobri uma pessoa não-binária com uns 24 anos, mas ainda com muito medo do que isso iria significar socialmente. Sentia muito medo da repressão que já sofria sem apoio, sem referência. Até que fui buscando coletivos e descobrir referências na cultura <em>ballroom</em>”, relembra.</p>



<p>A cultura <em>ballroom</em> é um movimento político, artístico e de resistência criado por pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos na década de 1960. Esse movimento vai além de entretenimento, atuando como rede de apoio e acolhimento para corpos dissidentes, celebrando a diversidade por meio da dança, moda e autoexpressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Saúde e pertencimento caminham juntos</strong></h2>



<p>Há três anos, a organização não governamental <a href="https://gestos.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gestos</a> passou a oferecer atendimento psicológico em grupo para homens trans e transmasculinos, dos 18 aos 29 anos. Para a psicóloga Juliana Mazza, que acompanha o grupo desde o início, o procedimento é desejado pela maioria das pessoas atendidas no grupo, salvo algumas exceções que não o fariam por diferentes fatores.</p>



<p>&#8220;A gente percebeu que eles recebem a pessoa que fez a mastectomia de volta no grupo com muita felicidade e com muita propriedade. E a gente foi perguntando quem faria, quem não faria. E digamos que 98% do grupo faria a mastectomia. As pessoas que não fariam são as pessoas que, ou tem muito medo da cirurgia, acham que a cirurgia vai ser muito desgastante, ou temem o resultado, tem medo do processo. Ou ainda pessoas que, por terem as mamas pequenas, acreditam que com treino e hormônio conseguem bom resultado sem intervenção&#8221;, analisa.</p>



<p>Para a profissional a cirurgia também reduz a disforia, que tem a ver com a incompatibilidade dessa imagem corporal da pessoa. Ela explica que &#8220;a disforia tem relação com a saúde mental e com a imagem corporal. É conseguir ficar bem com o seu corpo. Essa ideia de se olhar no espelho, de se sentir como se não tivesse algum órgão intruso no corpo, sabe? Por isso que chamam de intruso também. Então, além de diminuir a disforia de gênero, aumenta a autonomia. Porque a ideia de poder treinar, de poder ir à praia, de poder tirar camisa, que tem a ver também com um comportamento que tem relação com o gênero&#8221;. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55355935597_5bc27cfec0_c.jpg" alt="A imagem mostra alguns folhetos impressos dispostos sobre uma superfície clara, como uma mesa. O foco está em um folheto em primeiro plano, enquanto os outros aparecem desfocados ao fundo. O folheto principal é de cor branca e contém texto em português com mensagens de conscientização sobre respeito às pessoas trans. No centro, lê-se em letras grandes: “PESSOAS TRANS SÃO COMO VOCÊ: HUMANAS E MERECEM RESPEITO”. Abaixo, há a frase “TRANSforme suas ideias!”. O design inclui pequenos símbolos de gênero — masculino, feminino e trans — espalhados ao redor do texto. Na parte superior, há um logotipo de uma instituição, mas os detalhes não estão totalmente legíveis." class="" loading="lazy" width="661">
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>A enfermeira e supervisora do Espaço Trans do HC da UFPE, Paula Graça, reitera essa ideia da autonomia e liberdade. &#8220;Se sentir bem no seu corpo, se ver, se visualizar como a pessoa se enxerga e ser passável por uma sociedade. A passibilidade quer dizer que ela ou ele passa pela sociedade, transita sem ser identificado como uma pessoa trans. Isso é muito importante porque a gente sabe do estigma, a gente sabe que os olhares e as pessoas trans sentem esse olhar perverso, né? Então, essas cirurgias vão melhorar a autoestima da pessoa, porque ela se sente um homem, ela se sente uma mulher, ela quer ter os órgãos que ela acha que deve ter&#8221;, explica.</p>



<p>Mas nem toda pessoa trans deseja fazer uma intervenção cirúrgica. Graça explica existem pessoas trans que não desejam fazer intervenções e que elas não deixam de ser trans por isso. No entanto, nos casos que existe a disforia é extremamente importante. &#8220;Se essa pessoa tem uma disforia por aquele órgão que é sensual, no caso da mama, que chama a atenção como uma pessoa de gênero feminino, mas ela se sente gênero masculino, então essa mama incomoda. A retirada, a remoção dessa mama e colocar um peitoral masculino faz eles se sentirem livres. Para a questão psicológica da pessoa, a questão social melhora acho que 90%. Não melhora 100% sempre por conta da sociedade&#8221;, avalia.</p>



<p>O processo transexualizador no SUS exige que as unidades tenham equipes multidisciplinares para cuidar e acompanhar os pacientes. O HC tem a equipe composta por enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, assistentes sociais, ginecologistas, urologistas, mastologistas, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogos, otorrinolaringologia e recepcionista.</p>



<p>No caso do HC, o acompanhamento acontece até um ano após a cirurgia. Apesar de ter sido o quinto serviço de saúde cadastrado no Ministério da Saúde para ter um espaço ambulatorial e cirúrgico para a população trans e travesti, uma referência nacional, o espaço trans enfrenta problemas estruturais. Para efeitos de comparação: desde 2016 foram realizados 54 procedimentos de mastectomia, enquanto que, no Hospital da Mulher do Recife, que começou a oferecer o serviço no fim do ano passado, já foram realizados 24, quase metade.</p>



<p>Isso acontece, porque o HC dispõe de quatro salas cirúrgicas para todos os procedimentos de afirmação de gênero previstos. Com a ampliação da equipe em 2025, foi possível ampliar o número de cirurgias de oito para até 18 ao ano, como explica Graça. Mesmo assim, a fila de espera do hospital é de mais de 1400 pessoas, por este motivo, eles aconselham as pessoas a iniciarem o acompanhamento nos serviços de saúde dos respectivos municípios.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Para não errar!</span>

		<p><strong>Sexo Biológico: </strong>conjunto de características corporais que diferenciam machos e fêmeas, definido desde a concepção. Expressa-se inicialmente pelos genitais: pênis (menino) ou vulva (menina).</p>
<p><strong>Identidade de Gênero:</strong> é como a pessoa se reconhece: masculina, feminina ou uma combinação dos dois, independentemente do sexo biológico. Pode ou não coincidir com o gênero atribuído ao nascer e envolve percepção do corpo, estilo, fala e comportamento social.</p>
<p><strong>Orientação Sexual: </strong>refere-se ao gênero das pessoas por quem sentimos desejo e afeto. Relaciona-se à identidade de gênero dos envolvidos, não ao sexo biológico.</p>
<p><strong>Transgeneridade: </strong>condição de quem possui identidade de gênero diferente daquela designada ao nascer, buscando viver e ser respeitada no gênero com que se identifica. Também chamada de transexualidade ou transidentidade.</p>
<p><strong>Cisgeneridade:</strong> condição de quem possui identidade de gênero correspondente ao gênero atribuído ao nascer.</p>
<p>Fonte: Cartilha Espaço Trans HC-UFPE/HUBrasil</p>
	</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Beneficiados de habitacional no Pina são cobrados por dívida com condomínio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 20:26:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[cobrança extrajudicial]]></category>
		<category><![CDATA[Condomínio]]></category>
		<category><![CDATA[habitacional]]></category>
		<category><![CDATA[Minha Casa Minha Vida]]></category>
		<category><![CDATA[pina]]></category>
		<category><![CDATA[politica de habitação]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É tudo limpo e há poucos móveis no apartamento em que uma jovem mãe mora com seu único filho no bairro do Pina, na Zona Sul do Recife. Ainda que passe do meio-dia em um dia de sol, a casa está fresca, com o vento circulando pela sala. Fernanda* não tem geladeira e usa um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É tudo limpo e há poucos móveis no apartamento em que uma jovem mãe mora com seu único filho no bairro do Pina, na Zona Sul do Recife. Ainda que passe do meio-dia em um dia de sol, a casa está fresca, com o vento circulando pela sala. Fernanda* não tem geladeira e usa um fogão portátil de duas bocas para cozinhar. O filho é autista não verbal, com uma dieta específica – o que a fez retirá-lo da creche, já que lá ele não conseguia se alimentar bem. Dedicada aos cuidados do filho, Fernanda não trabalha. Há três anos espera por uma consulta com um neuropediatra. Vive dos R$ 750,00 que recebe do Bolsa Família e do que o pai e a mãe dela conseguem dar como ajuda. </p>



<p>Há alguns meses, Fernanda tem tido uma preocupação a mais: o medo de ser expulsa de casa por não pagar o condomínio há mais de um ano.</p>



<p>O apartamento de 44 m² no qual Fernanda mora fica no bairro que mais tem se valorizado no mercado imobiliário do Recife. Assim como ela, mais de 60% dos moradores dos oito blocos do conjunto habitacional Encanta Moça II, na rua José Rodrigues, não estão conseguindo honrar com os pagamentos da taxa condominial, que pulou de R$ 25,00 para R$ 80,00 no ano passado – um aumento de 220%, que representa mais de 10% do benefício que Fernanda recebe.</p>



<p>Com 300 apartamentos, o Encanta Moça II foi construído graças a uma parceria do Governo Federal com a Prefeitura do Recife. A prefeitura entrou com a doação do terreno, no antigo Aeroclube, e ficou responsável pela indicação dos beneficiários, a execução do projeto técnico social e pela contrapartida financeira necessária para viabilizar a conclusão do empreendimento.</p>



<p>Os dois conjuntos habitacionais – o Encanta Moça I e II ficam lado a lado – demoraram dez anos para serem concluídos, a um custo estimado em R$ 50 milhões. Foram finalmente entregues em dezembro de 2023 para pessoas que moravam em palafitas da bacia do Pina, na comunidade do Bode ou que foram retiradas para a construção de avenidas no bairro, como a Via Mangue.</p>



<p>Sem nenhum aumento de renda, essas pessoas passaram a ter que arcar com despesas antes inexistentes na informalidade da maré, como contas de água e eletricidade. Agora, enfrentam ameaças e cobranças extrajudiciais para pagar uma taxa condominial que consideram abusiva.</p>



<p>De família de pescadores, Marieta* morou por quase três décadas em um barraco de palafitas no Bode. Vivia do que conseguia pegar nas águas da bacia do Pina e de bicos esporádicos. Com a falta de sururu por conta da poluição e do período chuvoso, viu sua renda cair drasticamente — e as contas aumentarem. Ela se mudou para o Encanta Moça II assim que ele foi inaugurado e pagou em dia o rateio de R$ 25,00. Quando o condomínio foi formalizado, não conseguiu mais fazer os pagamentos de R$ 80,00 mensais.</p>



<p>Na palafita, não pagava conta de água ou de luz. Ao sair da informalidade, viu as contas se acumularem. Teve mês que pagou R$ 300,00 de energia, antes de ir atrás do desconto para quem tem baixa renda. Também conseguiu benefícios para a conta de água. Mas o condomínio é quem vem tirando o sono de Marieta, que teme perder seu apartamento. “Já chegou umas três notificações extrajudiciais da administradora para pagar a dívida do condomínio”, diz ela, que não assinou nenhuma das notificações. Como outros moradores que nunca pagaram o condomínio, Marieta admite que deve mais de R$ 1 mil. É um valor que ela não tem como pagar.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/habita-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/habita.jpg" alt="A imagem mostra um poste de concreto no centro, com câmeras de vigilância instaladas em volta dele, apontando para diferentes direções. Ao fundo, há um prédio residencial de vários andares, pintado em tons de bege e verde-oliva, com janelas de venezianas brancas, algumas abertas. Em uma das janelas, há um pano estendido ao sol. Na parte inferior, vê-se um gramado com bicicletas e um objeto coberto, possivelmente uma moto." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Câmeras e refletores encarecem taxa condominial
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Isso aqui é um projeto social do Governo Federal para tirar a gente de uma área de vulnerabilidade e de risco. Foi falado que a gente ia pagar luz e água, mas não taxa de condomínio. E numa assembleia, que eu não pude ir, o condomínio ficou em R$ 80,00. Aí quem é pescador, quem vive da pesca, não tem condições de pagar. Não está dando nada na maré nessa época. A pessoa vai fazer uma <em>ôia</em> para comer durante o dia e não sobra quase nada”, reclama Marieta.</p>



<p>Também de família de pescadores, Luana*, que tem como principais fontes de renda o valor que recebe do Bolsa Família e o que consegue faturar com a pesca de mariscos, diz que entende que o pagamento do condomínio é importante para que o Encanta Moça II continue sendo um lugar limpo e arrumado. “Eu tenho consciência disso. É preciso ter um dinheiro para pagar os funcionários, fazer a capinação ou consertar uma bomba d’água, mas eu não consigo pagar esse valor. Que se faça um valor mais acessível, porque muitos aqui também não têm condições”, afirma ela, que também já recebeu notificações extrajudiciais da administradora do condomínio. “Tentei negociar a dívida, mas as condições não eram boas”, diz ela, que está com uma dívida que só faz crescer: há juros de 1% ao mês e multa de 2% sobre o débito.</p>



<p>Síndico do Encanta Moça II, Carlos Henrique da Silva diz que o valor do condomínio foi decidido em votação em assembleia ocorrida em 4 de dezembro de 2024. “A administradora contratada pelo condomínio, a Inaldo Dantas, fechou parceria com um escritório de advocacia para a cobrança das dívidas. Por isso que estão recebendo as cobranças extrajudiciais, mas ninguém está assinando o recebimento”, diz o síndico. Segundo ele, a taxa de inadimplência é superior aos 60%.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Custo alto com manutenção</h2>



<p>No período em que o condomínio ainda não estava formalizado, a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) assumiu os custos referentes ao consumo de energia elétrica das áreas comuns do empreendimento. “Com a regular constituição do condomínio e a eleição de sua gestão, as despesas das áreas comuns passaram a ser de responsabilidade dos condôminos, conforme previsto na legislação e nos instrumentos de gestão condominial”, disse a prefeitura em nota para a Marco Zero. Era nessa época que os moradores pagavam apenas R$ 25,00 de rateio.</p>



<p>O síndico diz que a prefeitura ainda paga a energia das áreas comuns — cerca de R$ 6 a R$ 7 mil mensais. &#8220;Mas a prefeitura mandou um recado mês passado, dizendo que esse mês a gente iria começar a arcar com a área comum”, avisa ele, que reclama dos altos custos de manutenção do conjunto habitacional. “Agora mesmo estamos desentupindo esgoto do condomínio. Tem muitos refletores nas áreas comuns e um custo alto de manutenção e de conta de energia”, diz ele.</p>



<p>“Já trocamos refletores e consertamos bomba com o dinheiro do condomínio. Mas em muitas coisas a construtora falhou. Aí as pessoas que não pagam (condomínio) dizem assim ‘olha aí, minha casa tá rachando, minha casa tá com infiltração e o síndico não resolve’. Mas eu entro em contato com a construtora, entro em contato com a prefeitura, só que eu não recebo um retorno”, alega. “Com tanta inadimplência a gente não tem recurso para fazer todos os serviços necessários aqui dentro do condomínio”, diz.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/" class="titulo">&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A transição da moradia precária para o habitacional não foi totalmente desassistida. Durante 23 meses, a prefeitura manteve um contrato com uma empresa que fez o projeto técnico social do conjunto. Havia assistentes sociais que trabalhavam para ajudar os moradores na adaptação à vida condominial. Segundo a prefeitura, “durante sua execução, foram trabalhados os eixos de mobilização, organização e fortalecimento social; desenvolvimento socioeconômico; educação ambiental e patrimonial; e assessoria à gestão condominial”.</p>



<p>Carlos Henrique conta que as assistentes sociais fizeram simulações de como seriam as reuniões de condomínio, explicaram como seriam as votações e as regras. “Não teve muito engajamento, apesar de a maioria das pessoas ter ido para esses encontros”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Falência do modelo</strong></h2>



<p>Para o arquiteto e urbanista Célio Rocha, doutorando em Geografia Urbana na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, a situação dos moradores do Encanta Moça II evidencia a falência desse tipo de conjunto habitacional, com muitos blocos e manutenção custosa. Não é por acaso que muitos habitacionais do tipo, mais antigos, enfrentam processos de favelização e convivem com a criminalidade e a insegurança, como é o caso do Via Mangue II, já visitado pela reportagem da Marco Zero e não muito longe do Encanta Moça II.</p>



<p>“O poder público se utiliza da demanda histórica da população por melhoria habitacional e retira essa população para habitacionais, sem o essencial nesses processos que são o diálogo e a negociação. Quais são as práticas que a população desenvolve no território? O que é que é importante para a população? E como isso pode ser traduzido num projeto de moradia social? Na lógica da prefeitura, tudo faz sentido: deu habitação digna, colocou um Compaz e um parque público por perto. Mas a grande falha da prefeitura é que, se vai se impor esse tipo de moradia, é preciso criar um processo prévio de adaptação porque essas pessoas não estão acostumadas com a lógica do condomínio, nem têm aumento de renda para arcar com os novos custos”, diz o urbanista, que também é mestre e doutor em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>



<p>“Hoje, a prefeitura não tem mais a obrigação de continuar com a assistência social aos moradores. O Encanta Moça virou uma unidade praticamente autônoma, mas virou no meio de uma bagunça. A prefeitura se exime da responsabilidade, mas o projeto técnico social que foi contratado falhou, não alcançou os objetivos, mais uma vez”, critica Célio Rocha.</p>



<p>Quem não pagar a dívida do condomínio pode ter que enfrentar um processo judicial, diz o síndico. “Eu não vou dizer que vai perder (o apartamento) sem uma ordem judicial, sem ter um trâmite todo jurídico, tem que passar por isso”, disse o síndico. Em nota à MZ, a prefeitura disse que “o não pagamento das contribuições condominiais sujeita o condômino às medidas e penalidades previstas na legislação vigente e nos instrumentos que regem o condomínio”.</p>



<p>Para tentar diminuir o valor do condomínio e as ameaças de processo judicial, um grupo de moradores está buscando a ajuda do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). A ideia é que seja fixado um valor acessível para todos ou que haja diferenciações de acordo com as possibilidades de cada morador. A denúncia ao MPPE ainda não foi formalizada.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Um sonho que acabou</h3>



<p>Por conta das cobranças de condomínio, o habitacional está em pé de guerra. Há vizinho fazendo boletim de ocorrência contra vizinho. “Morei 60 anos na maré e nunca me indispus com ninguém. Em pouco mais de dois anos aqui, já tive várias discussões”, relata a comerciante Maria de Lourdes Mota. “Tudo por conta dessas cobranças, dessas regras”, lamenta.</p>



<p>Ela e o marido, Givaldo Rodrigues, são dois dos moradores mais contrários à atual gestão do condomínio. Um dos pontos de tensão é a cobrança do condomínio em formato de boleto – que Givaldo recusa por medo de virar dívida. “Eu morava na beira da maré e nunca fiquei com dívidas. Agora dizem que a gente vai ter que sair daqui, que a gente vai perder nosso apartamento se não pagar os boletos”, reclama Givaldo. Por conta das brigas, também deixou de participar das assembleias. Ele reclama da quantidade de funcionários do habitacional (cinco), da quantidade de refletores e de câmeras de segurança – já que contribuem para aumentar a taxa.</p>



<p>Como tudo é decidido em assembleia, como em qualquer condomínio, e quem está em dívida não tem direito ao voto, a situação vai se tornando uma bola de neve de moradores insatisfeitos e sem voz. Quem não está em dia não pode usar o salão de festas, nem receber as encomendas pela portaria. A constante tensão por conta da taxa condominial abalou as relações entre os vizinhos. Xingamentos e trocas de acusações viraram rotina entre os grupos que se formaram no condomínio. “Era meu sonho morar aqui. Mas meu sonho acabou”, lamenta Maria de Lourdes.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Habita-Givaldo-boletos.jpg" alt="A imagem mostra Givaldo Rodrigues, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos, sentado em um sofá dentro de casa. Ele segura várias contas ou boletos abertos nas mãos e tem uma expressão séria, sugerindo preocupação. Veste uma camiseta cinza com a palavra “VILLAGE” estampada e está em um ambiente simples, com parede clara de textura marmorizada ao fundo. A luz natural ilumina parte do rosto e do ambiente, revelando uma cena que transmite reflexão sobre dificuldades financeiras ou organização doméstica." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Givaldo se queixa da cobrança das taxas por meio de boletos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Givaldo e a esposa ainda se lembram, com indignação, de que na entrega do Encanta Moça II, com a presença do então prefeito João Campos (PSB) e do ex-ministro das Cidades Jader Barbalho Filho, foi dito que os moradores não pagariam qualquer taxa. “O próprio prefeito disse que a gente estava isento de tudo, só ia pagar água e energia”, afirma Givaldo.</p>



<p>A afirmação está também em uma <a href="https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202312/ministerio-das-cidades-entrega-600-unidades-habitacionais-dos-residenciais-encanta-moca-1-e-2-em-recife" target="_blank" rel="noreferrer noopener">matéria no site do Governo Federal</a> de dezembro de 2023: “as famílias que recebem Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e estão enquadradas na Portaria do Ministério das Cidades, ou fazem parte daquelas removidas durante a construção da Via Mangue, estão isentas de qualquer taxa para morar no local.”</p>



<p>A isenção, porém, não inclui as taxas de manutenção do habitacional – o que talvez não tenha ficado claro para todos os moradores. O Encanta Moça II funciona como um condomínio qualquer: tem CNPJ próprio, regulamento, convenção condominial e regimento interno devidamente registrados. De acordo com a prefeitura do Recife, é um condomínio edilício, modalidade na qual os proprietários das unidades habitacionais possuem também uma fração ideal das áreas comuns do empreendimento.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">As modalidades de contratação dos habitacionais</span>

		<p>Em nota, a Prefeitura do Recife esclareceu que os instrumentos jurídicos dos habitacionais variam conforme a fonte de recursos e o programa habitacional ao qual o empreendimento está vinculado. Nos empreendimentos vinculados ao Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), como é o caso do Encanta Moça II, existem duas modalidades principais de contratação:</p>
<ul>
<li>Para famílias beneficiárias do Bolsa Família ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), é utilizado o Contrato por Instrumento Particular de Doação de Imóvel Residencial no âmbito do PMCMV Faixa 1, com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR);</li>
<li>Para as demais famílias, é firmado Instrumento Particular de Compra e Venda de Imóvel Residencial, com parcelamento e alienação fiduciária em garantia, também no âmbito do PMCMV.</li>
</ul>
<p>Já nos empreendimentos não vinculados ao PMCMV, o Município pode adotar instrumentos como a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) ou a titulação por meio da Regularização Fundiária Urbana de Interesse Social (REURB-S), conforme as características de cada projeto.</p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Sem aumento da renda, moradia vira mercadoria</strong></h3>



<p>Diretora Executiva Nacional da Habitat para a Humanidade Brasil, organização que atua com foco no direito à moradia, a arquiteta e urbanista Socorro Leite avalia que a verticalização e o adensamento no caso das novas moradias são um caminho sem volta quando se defende uma moradia bem localizada.</p>



<p>“Quando a gente fala de moradia nova, a principal questão é o terreno. E geralmente o terreno bem localizado tem um custo alto. Recife, assim como outras capitais, não tem mais grandes áreas bem localizadas. Uma das últimas era essa do Aeroclube, que tem esses habitacionais mais recentes, mas não tem como pegar um terreno hoje em Recife e construir moradias térreas, o que seria o ideal para não ter o pagamento da taxa de condomínio”, afirma.</p>



<p>Para que um habitacional possa funcionar bem, Socorro Leite defende que há questões prévias à mudança que precisam ser trabalhadas na perspectiva de fortalecer os novos laços entre vizinhos e a compreensão sobre novas responsabilidades. “É preciso uma interação com outras políticas também, porque muitas vezes você pega quem já está numa pobreza maior, numa situação mais precária e bota em uma moradia que vai ter custos adicionais sem a pessoa ter opção de geração de renda. Também é possível ter opções mais coletivas de geração de renda, como comércio nos térreos, que poderiam ajudar a reduzir o custo do condomínio, por exemplo”.</p>



<p>O trabalho social deve começar antes, e o poder público precisa acompanhar as famílias no longo prazo, aponta Socorro Leite. “Os custos de morar em condomínio de fato vão existir, mesmo que sejam mínimos”, diz, citando que há, por exemplo, projetos de condomínios com blocos menores, em que a limpeza e a iluminação são públicas, não pesando na taxa de manutenção.<br><br>O contrato dos moradores do Encanta Moça II com a Caixa Econômica Federal exige a permanência por pelo menos cinco anos. Depois disso, os beneficiários podem vender ou alugar a unidade. O síndico e moradores ouvidos pela reportagem estimam que mais da metade das pessoas que ali moram hoje não são mais os originalmente contemplados pelo poder público.</p>



<p>No bairro mais caro do Recife, os apartamentos do habitacional são vendidos por até R$ 150 mil em contratos de promessa de compra e venda, já que os moradores ainda não possuem a escritura dos imóveis. Os aluguéis são mais comuns e variam de R$ 700,00 a R$ 1,2 mil. “Muitas pessoas não conseguem arcar com os custos de água, luz, internet e condomínio. Aí alugam aqui e vão morar no Bode, onde o aluguel fica por uns R$ 400,00, R$ 500,00, usando o dinheiro que sobra para outros gastos”, diz Marieta.</p>



<p>Para Socorro Leite, isso é outra evidência da falha deste tipo de modelo habitacional. “Pela precariedade de renda das famílias, o aluguel acaba virando uma fonte de renda. Ou seja, o que deveria ser moradia se torna mercadoria, tudo o que não deveria ser”, pontua.</p>



<p>Em alguns casos, há marido e esposa em que cada um recebeu um apartamento, apesar de morarem juntos. Assim, um apartamento vira uma fonte de renda pelo aluguel e o outro para moradia. “Em maior ou menor escala, isso acontece mesmo que se tenha uma seleção muito criteriosa. É quase inevitável porque as pessoas criam estratégias. Por mais que você esteja mobilizando a comunidade, muitas vezes a família tem um plano paralelo. É frustrante, mas muito difícil de evitar”, afirma Socorro Leite.</p>



<p>A fiscalização para que os moradores cumpram as regras contratuais é feita pela Caixa Econômica Federal, já que foi um empreendimento financiado com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR). De acordo com a prefeitura do Recife, o contrato é celebrado entre o FAR, representado pela Caixa, e o beneficiário da unidade habitacional. “Dessa forma, o município não integra a relação contratual e não possui competência jurídica para fiscalizar ou aplicar medidas relacionadas ao descumprimento das cláusulas contratuais, incluindo aquelas referentes à venda, cessão ou locação do imóvel durante o período de restrição previsto no contrato”, disse a prefeitura em nota para a Marco Zero.</p>



<p>A urbanista alerta ainda para a necessidade de um olhar diferenciado no trato com cada família, de modo que a coletividade se fortaleça sem depender permanentemente do poder público. “Não se pode olhar as famílias como homogêneas. Algumas famílias vão se adequar melhor, outras não. Então é preciso que exista um apoio diferenciado para quem necessitar&#8221;, pontua.</p>



<p>A própria prefeitura do Recife reconhece as limitações do modelo adotado no Encanta Moça II ao afirmar em nota que empreendimentos habitacionais mais recentes já apresentam características distintas, “refletindo a evolução dos modelos de implantação e das soluções urbanísticas utilizadas pelo município”.<br><br>Como exemplos dessa evolução, a prefeitura afirmou que está investindo em habitacionais de menor porte e com acessibilidade, como o da Vila Esperança, no bairro do Monteiro, e o Paris, na Imbiribeira. Outro exemplo é o habitacional São José, também na Imbiribeira, que será de uso misto, com comércio no térreo. Segundo a prefeitura, a definição do modelo a ser adotado em cada empreendimento depende de fatores como disponibilidade de áreas, parâmetros urbanísticos, viabilidade técnica e financeira, além das diretrizes dos programas habitacionais que financiam os projetos – diálogo prévio com a população beneficiada não foi citado na nota.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Modos de vida das comunidades pesqueiras não são respeitados</strong></h3>



<p>O pesquisador Célio Rocha estudou comunidades ribeirinhas no mestrado, no doutorado e também agora no segundo doutorado. Para ele, o modelo habitacional do Encanta Moça pode funcionar para vários públicos, mas não é o ideal para comunidades pesqueiras. “É um tipo de habitação que destoa do modo de vida das pessoas que vivem da pesca. Apesar de não ser distante da água, é uma logística complicada&#8221;, diz. Os habitacionais ficam a aproximadamente 15 minutos a pé do chamado porto do Bode, de onde pescadores e marisqueiras saem para o mar. O local deveria ter sido revitalizado com a saída dos moradores das palafitas, mas segue precário e com novas palafitas se instalando.</p>



<p>&#8220;O pescador precisa morar perto do barco, em uma área que seja fácil a descarga dos produtos e perto também da área de beneficiamento”, acrescenta Célio. “Isso faz parte da lógica do ofício pesqueiro, que é uma lógica do território e os habitacionais não atendem essa população: há uma grande área murada onde vão ser estabelecidas regras muito específicas de convivência em função das edificações, da circulação e de acesso que são totalmente destoantes do que eles vivenciam no território, no dia a dia e historicamente”, analisa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Porto do Bode, de onde os pescadores e marisqueiras saem para o mar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na Bacia do Pina, e no Grande Recife, as palafitas surgiram como uma habitação feita no improviso. Mas é um tipo de habitação que pode funcionar para as comunidades pesqueiras, onde quanto mais próximo das águas, melhor. “Tanto o ofício pesqueiro, quanto os modos de vida, lazer e a história da população estão vinculados à água”, pontua Célio Rocha, lembrando que há palafitas bem construídas em outras cidades do Brasil, como em Afuá, no Pará.</p>



<p>Outra experiência, mais recente, <a href="https://www.agenciasp.sp.gov.br/governo-de-sp-entrega-parque-palafitas-e-avanca-na-requalificacao-de-area-de-mangue-em-santos" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aconteceu na maior favela de palafitas do Brasil</a>, que fica em Santos (SP). Um projeto-piloto manteve a comunidade pesqueira na maré, construindo habitações sobre plataformas de concreto sustentadas por estacas colocadas a até 35 metros de profundidade. As novas construções, entregues em abril deste ano, não impedem o crescimento da área de mangue e contam com saneamento básico, comércio e área de lazer para os moradores.</p>



<p>No Recife, nunca houve qualquer incentivo para manter as comunidades pesqueiras de frente para a água. “Aqui, palafitas são automaticamente associadas à precariedade. A comunidade do Bode é uma ocupação secular: não tem como transformá-la para um modelo pragmático e positivista de ocupação, que é totalmente destoante do que são acostumados. Para uma cidade ribeirinha, a palafita é uma tipologia arquitetônica que responde positivamente a muitas questões, principalmente na dinâmica do ofício que praticam”, diz Célio.</p>



<p>Mas há um grande impedimento para que as palafitas, ainda que bem construídas, se tornem realmente uma opção de moradia digna. “Nossos ecossistemas são poluídos. Não adianta fazer só a moradia em palafitas com boas condições enquanto não houver um programa muito mais amplo de despoluição e melhoramento dos nossos ecossistemas”, alerta. “A ação de habitação tem que ser conjunta com a ação de melhoramento ambiental e tudo mais. Mas aí você vai ter Secretaria de Habitação de um lado, a Secretaria de Meio Ambiente do outro, cada órgão, cada secretaria atuando de uma maneira quase autônoma. E, no final das contas, a solução que acham que é mais eficiente para a população é remover e colocar nesse modelo de habitacional”, critica.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/habita-Celio-Rocha.jpg" alt="A imagem mostra Célio Rocha, um homem de pele morena e barba curta, sentado ao ar livre sobre uma superfície de madeira, possivelmente um barco ou píer. Ele veste uma camisa azul-clara de mangas curtas e calça cinza, exibindo tatuagens nos dois braços. O fundo é composto por vegetação verde densa e um rio ou canal de água barrenta, sugerindo um ambiente natural e tranquilo. Célio olha diretamente para a câmera com expressão serena e postura relaxada." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Doutorando pela Universidade de Illinois, Célio Rocha critica o modelo de grandes habitacionais</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>*Os nomes marcados com asterisco são fictícios, já que as entrevistadas ficaram com receio de retaliações.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/beneficiados-de-habitacional-no-pina-sao-cobrados-por-divida-com-condominio/">Beneficiados de habitacional no Pina são cobrados por dívida com condomínio</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Indígenas pankará se preparam para cultivar maconha medicinal no sertão de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/indigenas-pankara-se-preparam-para-cultivar-maconha-medicinal-no-sertao-de-pernambuco/</link>
					<comments>https://marcozero.org/indigenas-pankara-se-preparam-para-cultivar-maconha-medicinal-no-sertao-de-pernambuco/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 21:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[maconha]]></category>
		<category><![CDATA[Pankará]]></category>
		<category><![CDATA[sertão]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75834</guid>

					<description><![CDATA[<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta [&#8230;]</p>
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<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta para fins terapêuticos dentro do território.</p>



<p>A associação já possui estatuto e Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e agora inicia uma longa jornada jurídica e técnica para obter autorização judicial para o plantio. Os pankará vivem no município de Itacuruba, a quase 500 quilômetros do Recife. </p>



<p>O pajé Geraldo Leal relata que o povo deixou de cultivar maconha há décadas por medo da criminalização. Segundo ele, a planta fazia parte dos saberes terapêuticos tradicionais da comunidade. “Como a maconha é proibida, ninguém mais quer nos dar raízes e ser descoberto”, lamenta.</p>



<p>Para os pankará, a retomada do cultivo representa não apenas a busca por novos tratamentos de saúde, mas também a recuperação de conhecimentos tradicionais interrompidos pela política de proibição das drogas no país.</p>



<p>A criação da Acarapuá resulta de um projeto coordenado pelo Centro de Prevenção às Dependências (CPD), organização não governamental que recebeu uma emenda parlamentar do deputado estadual João Paulo (PT) para estruturar a associação.</p>



<p>Para Ana Glória Melcop, coordenadora do CPD, a iniciativa possui também um caráter de reparação histórica. “A cannabis entrou no Brasil por africanos escravizados e logo os indígenas também começaram a usá-la para fins medicinais. Foram perseguidos, presos e mortos pelo plantio e pelo uso. Hoje trabalhar e ter essa associação é uma reparação, é um dever que a sociedade e o Estado brasileiro têm com os povos indígenas”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O caminho para a autorização judicial</h2>



<p>Embora a associação já esteja formalizada, o caminho até o cultivo efetivo ainda deve levar alguns anos. Atualmente não existe no Brasil um marco regulatório consolidado para associações de maconha medicinal produzirem seus próprios medicamentos. Segundo a advogada da Aliança Medicinal e vice-presidente da Comissão de Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), Lyane Menezes, as autorizações existentes têm sido obtidas por meio de decisões judiciais.</p>



<p>“Não existe hoje um caminho regulatório consolidado. O que existe são autorizações obtidas judicialmente, seja por ações cíveis ou por habeas corpus coletivos”, explica. Segundo ela, existem mais de 300 associações de cannabis no Brasil, mas apenas cerca de 30 conseguiram autorização judicial para cultivar a planta.</p>



<p>O primeiro passo dos pankará foi constituir juridicamente a associação. Agora lideranças indígenas participam de processos de formação técnica e científica para estruturar o projeto. Na última semana, um grupo formado por lideranças, entre elas agrônomos e o pajé Geraldo Leal, participou de uma capacitação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parceira da iniciativa. </p>



<p>Durante as atividades, professores do Departamento de Farmácia apresentaram os princípios ativos da cannabis, métodos de extração e boas práticas de fabricação de medicamentos. “Mostramos como obter preparados, extratos e outros produtos para fins medicinais que vão ajudar o povo pankará”, explica a professora Larissa Rolim, pesquisadora da cannabis sativa na UFPE.</p>



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	                                        <p class="m-0">Reunião de fundação da associação Aracauá
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<p>“Foi muito bom aprender de cada coisa um pouquinho e conhecer a utilidade da maconha para o ser humano”, comemora o pajé Geraldo Leal.</p>



<p>Além da formação acadêmica, as lideranças visitaram, nesta quinta-feira, 18 de junho, a associação de pacientes Aliança Medicinal, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, onde conheceram experiências de cultivo e produção de derivados da maconha. Segundo o diretor-executivo da Aliança Medicinal, Ricardo Hazin Asfora, a próxima etapa será identificar, dentro do território indígena, os pacientes que poderão ser beneficiados pelo tratamento e capacitar os profissionais de saúde que atendem as aldeias.</p>



<p>“A associação precisa demonstrar a necessidade do uso medicinal entre os pacientes. A partir disso, o jurídico poderá ingressar com ações judiciais solicitando autorização para o cultivo&#8221;, explica. De acordo com Hazin, somente após obter autorização judicial será possível iniciar o plantio experimental e a produção dos primeiros extratos medicinais.</p>



<p>Posteriormente a associação poderá tentar integrar o chamado sandbox regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mecanismo criado para estudar e testar modelos de regulamentação para associações de pacientes.</p>
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		<title>Agroecologia cria raízes em Itapipoca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jun 2026 15:23:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há [&#8230;]</p>
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<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há duas décadas ajuda famílias agricultoras a escoar sua produção e garantir uma fonte direta de renda.</p>



<p>Mas a feira representa mais do que uma oportunidade de comercialização. Ela é o resultado de anos de organização comunitária, políticas públicas voltadas para o campo e do uso de tecnologias de convivência com o Semiárido. Por trás de cada produto exposto nas barracas estão histórias que ajudam a compreender como redes agroecológicas enfrentam o avanço da monocultura do coco, dos grandes empreendimentos turísticos e da expansão de projetos de energia eólica sobre seus territórios.</p>



<p>No dia em que a Marco Zero visitou a feira, 17 famílias participavam da atividade. São os próprios agricultores que organizam o funcionamento do espaço por meio de uma associação, contando com o apoio do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Ceará. A autogestão é parte importante do processo de fortalecimento coletivo da feira e da autonomia dos próprios agricultores.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Localizado no noroeste do Ceará e conhecida como “terra dos três climas”, por integrar litoral, serra e sertão, Itapipoca ocupa uma área de 1.600,3 km² e é o 7º município cearense mais populoso. Segundo o Censo 2022, tem 131.041 habitantes, com 54.433 pessoas vivendo no campo (41,5% da população total) a maior população rural em números absolutos no estado.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Itapipoca reúne 6.629 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82% são da agricultura familiar, evidenciando a centralidade desse segmento na economia local. O território abriga ainda povos e comunidades tradicionais, como o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú e comunidades quilombolas na região serrana.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
        </div>
    </div>



<p>Maria de Fátima Pinto da Silva, moradora da comunidade de Jenipapo Barrento, é um exemplo dessa trajetória. Ela participa da feira desde sua criação, há vinte anos. Sua aproximação com a agroecologia começou após participar de um curso de Agente Multiplicador de Agroecologia, que durou dois anos. “A gente fazia agroecologia e não sabia. Já tinha cuidado com a terra. Mas só descobri isso com o curso”.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Hoje, Maria de Fátima divide seu tempo entre a barraca onde comercializa seus produtos e as atividades de coordenação da Feira Agroecológica de Itapipoca e da Rede de Feiras Agroecológicas do Ceará. Ela lembra que, no início, a feira acontecia a cada quinze dias. Com o passar dos anos, cresceu, se estruturou e passou a funcionar semanalmente.</p>



<p>O acesso a políticas públicas e programas voltados para a agroecologia costuma ser a principal porta de entrada para muitos agricultores que hoje participam da feira. O casal José Arildo e Leny, moradores do distrito de Calugi, é um exemplo disso.</p>



<p>A mudança começou com a chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Com maior oferta e regularidade no acesso à água, passaram a produzir hortaliças, coco e frutas. Também criam bodes e galinhas. “A cisterna mudou tudo, porque possibilitou que a gente plantasse durante o verão”, explica José Arildo.</p>



<p>Desde 2024, o casal participa da feira comercializando produtos cultivados no quintal, além de bolos, doces, tapiocas e café. Quando não estão na praça, vendem na própria casa ou em eventos, jogos e cavalgadas da região. A renda da família também é complementada pelo trabalho artesanal de Leny, que produz peças de crochê. “Temos que ser guerreiros. Fazer um pouquinho aqui, um pouquinho ali”, resume.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que é e o que faz o CETRA em Itapipoca</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>O CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora) é uma organização da sociedade civil criada nos anos 1980, no Ceará, com atuação voltada para a agricultura familiar, a agroecologia, os direitos humanos e a convivência com o semiárido. Em Itapipoca, o CETRA atua há mais de quatro décadas. A organização teve papel importante na formação política de comunidades rurais e na luta pela terra, contribuindo para a criação de assentamentos da reforma agrária e oferecendo assessoria jurídica em conflitos fundiários, especialmente na defesa do povo Tremembé da Barra do Mundaú.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>A partir dos anos 2000, o trabalho se consolidou na promoção da agroecologia. O CETRA apoiou a criação da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, articulou a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as dos Vales do Curu e Aracatiaçu e desenvolveu ações de formação, assessoria técnica, quintais produtivos, sistemas agroflorestais e beneficiamento de alimentos. A organização também impulsionou tecnologias sociais de convivência com o semiárido, como cisternas e casas de sementes, além de fortalecer a participação de mulheres e juventudes rurais em processos de geração de renda, cultura alimentar e comunicação. Atualmente, o CETRA segue atuando na articulação de políticas públicas, na defesa dos territórios e na consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento sustentável no município</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Farmácia agroecológica</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p>Maria Dalva Nascimento tem 73 anos e mora na comunidade de Lagoa do Juá, na zona rural de Itapipoca, a cerca de 30 quilômetros da sede do município. Como a maioria dos agricultores que participam da feira, ela chega ao centro da cidade em caminhões pau-de-arara.</p>



<p>Conhecida como Dalvinha, mantém uma das barracas mais procuradas da Feira Agroecológica e Solidária. O espaço funciona como uma espécie de farmácia natural, onde comercializa folhas, sementes, pomadas, garrafadas e outros preparados produzidos a partir de plantas cultivadas em seu próprio quintal. “Tudo que a gente traz, a gente vende, graças a Deus”, diz.</p>



<p>Os produtos são resultado de conhecimentos acumulados ao longo da vida e aprofundados durante sua participação na Pastoral da Criança, onde aprendeu sobre as propriedades terapêuticas de diversas espécies medicinais. “Meus remédios são todos tirados daqui”, afirma, apontando para as plantas que cultiva em casa. Há cerca de oito anos na feira, Dalvinha diz que o trabalho vai muito além da renda complementar. “É uma terapia para mim.”</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bula popular</span>

		<p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><strong>Malva-santa</strong> – tosse e gripe</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Aranto</strong> – gastrite</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Semente de moringa</strong> – diabetes</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Mastruz</strong> – expectorante</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Pomada de aroeira</strong> – dores musculares e inflamações</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Farinha de caroço de abacate</strong> – anti-inflamatório e diurético</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Lambedor de jenipapo</strong> – tosse e gripe persistente</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Agrião</strong> – auxilia na digestão</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Garrafada medicinal</strong> – utilizada tradicionalmente contra infecções</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Óleo de coco</strong> – cuidados com a pele e os cabelos</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Aprendizado e inovação</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Há dez anos, Inácia Patrícia do Nascimento participa da feira, onde comercializa bolos, lanches e outros alimentos produzidos por ela mesma. Agricultora familiar, encontrou na venda direta uma forma de agregar valor à produção e ampliar a renda da família.</p>



<p>Um dos diferenciais de seus produtos está na forma de embalagem. Em vez de utilizar filme plástico, Inácia recorre às folhas de bananeira. “Além de reduzir os custos, contribui para o meio ambiente e ainda fica mais bonito”, afirma.</p>



<p>Toda a produção é preparada em um fogão agroecológico recebido recentemente por meio de um projeto de apoio à agricultura familiar. Segundo ela, o equipamento trouxe uma economia significativa. “O botijão de gás durava quinze dias. Hoje dura um mês.”</p>



<p>Além da atividade produtiva, Inácia participa do sindicato e da associação comunitária. Para ela, o fortalecimento da agricultura familiar depende da combinação entre organização social e acesso às políticas públicas.</p>



<p>Ao longo dos anos, conseguiu participar de diferentes programas de apoio aos agricultores. Em 2012, ingressou no Brasil Sem Miséria, atualmente denominado Fomento Mulher, e utilizou os recursos para investir na criação de galinhas. Dois anos depois, passou a integrar o projeto Florestação, por meio do qual recebeu equipamentos para a produção de cajuína.</p>



<p>Sua trajetória é marcada pela busca constante por novos conhecimentos. “Ninguém sabe tudo. Estamos sempre aprendendo.” Para ela, a inovação faz parte da própria experiência agrícola. “Agricultor é um inovador. Fica sempre inventando coisas.”</p>



<p>Antes de ingressar na feira, Inácia já produzia em sua propriedade, mas não encontrava canais de comercialização. Começou vendendo galinhas e tapioca. Com o tempo, ampliou a variedade dos produtos e passou a investir em alimentos processados, como bolos e lanches, aumentando o valor agregado da produção.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, adaptou-se às novas formas de venda e passou a comercializar seus produtos também pela internet. A experiência permanece até hoje. “Quem não sabia mexer no celular teve que aprender”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Tudo integrado</h3>



<p>Entrar na propriedade de José Oliveira da Costa, o Zezão, de 53 anos, e de Francisca Maria da Silva Oliveira, na comunidade de Lagoinha, é uma imersão na arte e na ciência de conviver com a escassez de água no Semiárido.</p>



<p>Em uma área de apenas quatro hectares, dos quais cerca de 40% são mantidos como reserva, praticamente tudo remete a alguma estratégia de aproveitamento dos recursos naturais ou a tecnologias sociais voltadas para a convivência com o clima da região.</p>



<p>A propriedade funciona segundo princípios agroecológicos e reúne uma série de iniciativas que se complementam. Há cisternas destinadas ao consumo humano e à produção agrícola, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A família também utiliza sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e a tecnologia Bioágua, que permite reutilizar água doméstica na irrigação.</p>



<p>A gestão cuidadosa da água é uma das bases que sustentam toda a produção. Durante o período chuvoso, concentrado nos primeiros meses do ano, Zezão evita utilizar a água armazenada nas cisternas. O objetivo é preservar as reservas para o período de estiagem. Com segurança hídrica, a família consegue diversificar a produção e reduzir sua vulnerabilidade às oscilações climáticas.</p>



<p>Com mais água e os recursos de um programa de fomento acessado há cerca de um ano, Zezão implantou uma área de hortaliças e já planeja ampliar o cultivo. Atualmente produz cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, pimentão, tomate, feijão e plantas medicinais, além de manter um pomar com diversas espécies frutíferas.</p>



<p>A lógica da agroecologia aparece em cada detalhe do manejo. As folhas recolhidas na área de reserva são utilizadas para proteger o solo e conservar a umidade. Restos orgânicos ganham nova função como adubo e fertilizante. As mudanças ficaram evidentes especialmente no pomar. “As laranjeiras nunca tinham segurado os frutos”, conta Zezão. “Depois que ensinaram a colocar cinza, borra de café e casca de ovo como fertilizante, as coisas mudaram. É um NPK natural.”</p>



<p>Além da agricultura, a família complementa a renda com outras atividades. Zezão produz carvão vegetal, recolhe esterco para adubação nas proximidades do açude e também pesca para consumo e venda. A produção atual atende às necessidades da casa e ajuda a abastecer os três filhos, que vivem nas proximidades. “Cada um na sua casa”.</p>



<p>A propriedade funciona como um sistema integrado. Hortaliças, pomar, plantas medicinais, flores ornamentais, área de floresta, roçado, viveiro de mudas e criação de animais compõem subsistemas conectados entre si. Resíduos tornam-se insumos, a água é aproveitada ao máximo e cada atividade fortalece as demais.</p>



<p>O resultado é um modelo produtivo baseado na diversidade, na autonomia e no uso eficiente dos recursos disponíveis, uma lógica bastante diferente daquela adotada pelos sistemas agrícolas de monocultura predominantes em outras áreas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Caminho inverso</span>

		<p><em>A história da família também ajuda a compreender as transformações vividas pelo Semiárido nas últimas décadas. Em 2014, após anos vivendo em Fortaleza, Zezão e Francisca decidiram retornar para o campo. “Gostei demais da mudança. Não me arrependo”, afirma. “Tinha a agricultura no sangue.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Segundo ele, o retorno só foi possível graças ao acesso à água proporcionado pelas tecnologias de convivência com o Semiárido. “Não faz mais sentido voltar para a cidade grande. Vou visitar meu filho e já fico com vontade de voltar.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A decisão ganha ainda mais significado quando comparada à trajetória de seu pai, que deixou a região em 1978 fugindo da seca. Décadas depois, a família percorreu o caminho inverso: retornou ao campo atraída justamente pelas condições que hoje permitem produzir, gerar renda e viver no Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Para Maria do Socorro Ferreira Lima, a Socorrinho, coordenadora do P1+2 no território e integrante do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), o sucesso de experiências como a da família Oliveira não se explica apenas pela instalação de equipamentos. “Os projetos chegam não apenas para construir cisternas. Chegam para formação. Os agricultores também estão inseridos nas comunidades. São lideranças”, afirma.</p>



<p>A atuação comunitária faz parte da rotina de Zezão. Ele participa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e coordena uma casa de sementes, espaço coletivo dedicado à preservação, multiplicação e troca de variedades adaptadas às condições locais.</p>



<p>Na avaliação de Socorrinho, esse componente organizativo é tão importante quanto as tecnologias implantadas. “Quando a água chega acompanhada de formação, organização comunitária e troca de conhecimentos, ela produz muito mais do que alimentos. Produz autonomia.”</p>



<h2 class="wp-block-heading">Além do coco</h2>



<p>A experiência de Zezão e Francisca está longe de ser um caso isolado. Em maior ou menor grau, a lógica da agroecologia se espalha por diferentes comunidades rurais de Itapipoca, adaptando-se às características de cada território.</p>



<p>No Assentamento Maceió, no Sítio do Coqueiro, o quintal de Darliene e de sua mãe, Maria das Dores dos Santos, demonstra como pequenas áreas podem concentrar uma impressionante diversidade de produção.</p>



<p>Desde 2024, a família participa do projeto Quintal das Margaridas, iniciativa baseada nos princípios dos sistemas agroflorestais, que combina produção de alimentos, conservação ambiental e geração de renda.</p>



<p>Em uma caminhada pelos cerca de dois hectares da propriedade é possível encontrar abacaxi, limão, seriguela, goiaba, batata-doce, maxixe, abóbora, milho e coqueiros. A diversidade é resultado de um processo gradual de transformação da área. “Já existiam os coqueiros. Agora estamos tentando dar vida ao quintal plantando outras coisas”, explica Darliene. A mudança só foi possível graças ao acesso à irrigação, que ampliou as possibilidades de cultivo e permitiu a introdução de novas espécies.</p>



<p>A propriedade também incorpora tecnologias voltadas para o aproveitamento de recursos e a redução de custos. Um dos destaques é o biodigestor, instalado por meio de um projeto da Rede de Feiras Agroecológicas. O equipamento utiliza resíduos vegetais e dejetos dos animais criados na propriedade para produzir biogás. “Para a gente ser agricultor, tem que criar animais”, diz Darliene. Segundo ela, a tecnologia teve impacto direto no orçamento doméstico. “Desde que o biodigestor chegou, não compro mais gás.”</p>



<p>Outro equipamento presente no quintal é o minhocário, utilizado na produção de húmus, fertilizante orgânico empregado no cultivo das diversas espécies plantadas na área.</p>



<p>Além de abastecer a própria família, parte da produção é comercializada na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. Outra parte circula por meio de trocas com vizinhos e agricultores da comunidade.</p>



<p>Os cocos colhidos na propriedade também geram renda. Parte deles é destinada à produção artesanal de óleo. Mas essa já é outra história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Balanço do Coqueiro</h3>



<p>Bem perto do quintal de Darliene funciona uma iniciativa que reúne cultura, trabalho coletivo e geração de renda. O som que antes marcava o ritmo dos tambores e das apresentações culturais hoje também acompanha o funcionamento de prensas, raspadores e liquidificadores industriais. Foi desse encontro entre tradição e reinvenção que nasceu o Balanço do Coqueiro, grupo de mulheres que transformou o coco em fonte de renda e fortalecimento comunitário.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>A história começou em 2010, quando o Balanço do Coqueiro surgiu como um grupo de percussão, arte e cultura. Formado por jovens, mulheres e crianças da comunidade, o coletivo tinha como objetivo fortalecer vínculos sociais e valorizar as expressões culturais locais. “Eu sou uma das mais antigas. Entrei no começo e estou até hoje”, conta Rojane Alves do Nascimento, atualmente presidente da Associação de Moradores do Sítio Coqueiro.</p>



<p>O beneficiamento do coco veio alguns anos depois. Em 2017, a partir de projetos de apoio e capacitação, surgiu a ideia de transformar uma matéria-prima abundante na região em produtos com maior valor agregado. “Primeiro veio o grupo cultural. Depois vieram os projetos que permitiram transformar o coco em produto”, explica Rojane.</p>



<p>No início, tudo era feito de forma improvisada. Como não havia recursos para comprar matéria-prima, as integrantes utilizavam cocos retirados de suas próprias propriedades. Com o tempo, o grupo passou a adquirir o produto de agricultoras da comunidade, estabelecendo uma relação comercial que fortalece a economia local. Atualmente, paga R$ 1 por coco descascado, valor superior ao oferecido por atravessadores, que costumam pagar entre R$ 0,30 e R$ 0,50 pela unidade.</p>



<p>Hoje, o Balanço do Coqueiro produz óleo de coco, farinha e sabonetes artesanais. O principal produto é o óleo extraído por prensagem a frio, técnica que preserva melhor as propriedades nutricionais quando comparada ao método tradicional de cozimento.</p>



<p>Versátil, o óleo é utilizado tanto na alimentação quanto nos cuidados com a pele e os cabelos, dialogando com conhecimentos tradicionais presentes há gerações na comunidade.</p>



<p>A produção exige escala e organização. Cada litro de óleo demanda cerca de 16 cocos secos e maduros. Vendidos in natura, esses cocos renderiam aproximadamente R$ 16. Transformados em óleo, porém, ganham valor agregado: uma garrafa de 300 mililitros é comercializada atualmente por R$ 25.</p>



<p>A rotina de trabalho é intensa e coletiva. Quatro mulheres formam o núcleo permanente da produção, mas outras pessoas da comunidade colaboram em etapas como limpeza, transporte e comercialização.</p>



<p>Não há divisão rígida de funções. “Todo mundo faz de tudo”, resume Rojane. As integrantes ralham, prensam, embalam e vendem os produtos. Ao final do processo, as despesas são descontadas e o lucro é dividido igualmente. Dependendo da demanda e da disponibilidade de matéria-prima, a produção pode chegar a dez litros de óleo por dia.</p>



<p>Se no começo o trabalho acontecia no alpendre da casa de uma das integrantes, hoje o grupo conta com uma unidade própria de beneficiamento, inaugurada em 2021. O espaço foi viabilizado por iniciativas como o projeto Ecoforte, em parceria com o Banco do Brasil, além do apoio do Cetra e do Projeto São José, do Governo do Ceará. A estrutura reúne prensa, raspadores elétricos, liquidificador industrial, balança e seladora, permitindo ampliar a produção e melhorar as condições de trabalho.</p>



<p>O reconhecimento já ultrapassou os limites da comunidade. Em 2023, o grupo recebeu um prêmio na categoria Sustentabilidade durante a Naturaltech, uma das principais feiras do setor no país. Também levou seus produtos para eventos em estados como São Paulo, Pernambuco e Pará, além de Brasília.</p>



<p>A comercialização ocorre em diferentes espaços: na própria comunidade, em feiras locais e regionais e em uma feira mensal realizada em Fortaleza. O grupo também organiza sua própria feira no assentamento, fortalecendo redes de economia solidária e o intercâmbio entre produtores.</p>



<p>Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Atualmente, o grupo busca adequar a unidade às exigências sanitárias necessárias para ampliar a comercialização. A obtenção das certificações permitiria acessar novos mercados, incluindo supermercados e vendas para outras regiões do país. A formalização da atividade por meio de um CNPJ também está em discussão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Onde a luta virou escola</strong></h2>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Enquanto um grupo de crianças usando adereços indígenas desfruta alegremente a merenda escolar, Ezequiel Tremembé mostra orgulhoso a irrigação que alimenta o sistema agroflorestal da Escola Indígena Brolhos da Terra, em Itapipoca, no litoral oeste do Ceará. As fruteiras e hortaliças crescem graças à água reaproveitada da própria escola, transformada em fonte de produção de alimentos que, mais tarde, vão parar nos pratos dos alunos.</p>



<p>Para quem chega hoje ao território Tremembé da Barra do Mundaú, a cena pode até parecer corriqueira. Mas ela é resultado de uma luta que atravessou mais de duas décadas e opôs um povo indígena a um dos maiores empreendimentos turísticos já projetados para o litoral brasileiro. “Somos uma geração que estudou debaixo do cajueiro e hoje é professor”, resume Ezequiel, de 31 anos. Quando era criança, caminhava longas distâncias para estudar em espaços improvisados. Hoje, coordena o projeto Ensino Vivo na escola onde a agroecologia faz parte do currículo e da alimentação dos estudantes.</p>



<p>A escola consome alimentos produzidos no próprio território e também recebe produtos cultivados por agricultores indígenas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Macaxeira, frutas, ovos e galinha caipira ajudam a compor a merenda e fortalecem a economia local. A relação entre educação, produção de alimentos e defesa do território não surgiu por acaso. Ela foi construída em meio a um dos conflitos fundiários mais emblemáticos do Ceará.</p>



<p>No início dos anos 2000, um consórcio internacional anunciou a implantação do projeto Nova Atlântida, um megacomplexo turístico que prometia transformar a região na chamada “Cancún brasileira”. Resorts de luxo, campos de golfe e grandes estruturas de lazer ocupariam uma área sobreposta ao território tradicional Tremembé. A proposta veio acompanhada da promessa de desenvolvimento e empregos. Mas, para os indígenas, significava a perda da terra e do modo de vida construído ao longo de gerações.</p>



<p>Foi nesse contexto que os mais velhos da comunidade tomaram uma decisão que mudaria a história do território. Reunidos sob um cajueiro, escolheram mulheres para liderar a resistência. “Se os homens fossem para a linha de frente, poderia haver confronto e mortes”, lembra Cleideane Tremembé, hoje professora e coordenadora da escola. A estratégia funcionou. Em vez de uma estrutura concentrada em um cacique, a comunidade fortaleceu uma liderança coletiva, protagonizada por mulheres.</p>



<p>Durante anos, elas enfrentaram pressões políticas, ameaças e tentativas de convencimento para que o empreendimento fosse aceito. A resistência contou com o apoio de organizações parceiras, do movimento indígena e de instituições públicas. Em 2015, o território recebeu a portaria declaratória do Ministério da Justiça. O reconhecimento definitivo viria anos depois, com a homologação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, com 3.580 hectares.</p>



<p>A conquista, no entanto, não encerrou a disputa. A região continua pressionada pela especulação imobiliária, pelo turismo irregular e por projetos de infraestrutura que avançam sobre a zona costeira. A própria comunidade observa com preocupação os impactos provocados por grandes empreendimentos em áreas vizinhas. Para as lideranças, a experiência reforça a necessidade de construir alternativas próprias de desenvolvimento. É nesse ponto que a agroecologia ganha centralidade.</p>



<p>No território, ela aparece nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, no aproveitamento da água da chuva, na produção de alimentos para a escola e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Também se manifesta em iniciativas de geração de renda, como a produção artesanal do óleo de bateputá e os projetos conduzidos por jovens agricultores. Durante a pandemia, quando a aldeia precisou restringir a circulação de pessoas, a busca por autonomia alimentar tornou-se ainda mais urgente. A produção local passou a ser vista não apenas como fonte de renda, mas como garantia de permanência no território.</p>



<p>Na escola, essa visão é ensinada desde cedo. As crianças aprendem a plantar, colher, cuidar das plantas medicinais e conhecer os lugares sagrados do povo Tremembé. O território inteiro é parte do processo educativo. Mais do que preservar tradições, a comunidade busca formar novas gerações capazes de defender a terra conquistada e enfrentar os desafios que continuam surgindo.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista | Adriana Tremembé:</strong> <em>“Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece”</em></h3>



<p>Há 25 anos na luta pela demarcação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Adriana Tremembé tornou-se uma das principais referências da resistência indígena no litoral oeste do Ceará. Aos 54 anos, ela integra a geração de mulheres que assumiu a linha de frente do enfrentamento ao megaprojeto turístico Nova Atlântida e ajudou a conduzir a comunidade até a homologação do território, em 2023. Nesta entrevista, Adriana fala sobre as conquistas da luta, a defesa do território e os desafios que permanecem.</p>



<p><strong>Qual foi a maior conquista do povo Tremembé nos últimos anos?</strong></p>



<p>A maior conquista foi a homologação da nossa terra. Hoje ela está homologada, registrada e estamos avançando no processo de desintrusão. Isso significa que o Estado reconheceu oficialmente que esse território pertence aos povos indígenas que vivem aqui. É uma conquista construída por muitas mãos e por pessoas que já nem estão mais entre nós, mas que abriram esse caminho.</p>



<p><strong>Por que a luta pela terra era tão importante?</strong></p>



<p>Porque sem território não existe nada. A gente pode ter escola, saúde e outros direitos, mas, se não tiver a terra garantida, tudo fica ameaçado. O território é onde está nossa história, nossa espiritualidade, nossos alimentos e nossa cultura. É ele que sustenta tudo.</p>



<p><strong>O conflito com o empreendimento Nova Atlântida mudou a comunidade?</strong></p>



<p>Mudou muito. Foi um período muito difícil. Havia muita pressão e muita violência. Eles queriam implantar um grande projeto turístico aqui dentro e não consideravam nossa existência. Foi nesse momento que as mulheres assumiram a linha de frente da luta. Entendemos que, se colocássemos os homens para enfrentar diretamente aquele conflito, poderia haver mortes. Então as mulheres seguiram à frente e o território inteiro se organizou para resistir.</p>



<p><strong>O território continua ameaçado?</strong></p>



<p>Sim. A especulação imobiliária continua existindo. Existem pressões ligadas ao turismo, a grandes empreendimentos e a outros interesses econômicos. Nossa terra está numa área muito cobiçada da zona costeira. Por isso a luta não terminou com a homologação.</p>



<p><strong>Qual é o papel da escola nesse processo?</strong></p>



<p>A escola é fundamental porque ela ajuda a manter viva nossa história. Não ensinamos apenas português ou matemática. Ensinamos também nossa cultura, nossa espiritualidade, o Torém, os conhecimentos tradicionais e a importância de defender o território. É assim que garantimos que os jovens continuem essa luta.</p>



<p><strong>Depois de tantos anos de mobilização, o que mantém vocês firmes?</strong></p>



<p>A certeza de que estamos defendendo algo que pertence às futuras gerações. Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece. Essa é a força que nos faz continuar.</p>
</blockquote>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do fruto da mata ao sustento da aldeia</strong></h3>



<p>Quem vê aquela pequena fruta amarela espalhada pela mata da Barra do Mundaú talvez não imagine seu potencial. Do Bateputá, planta nativa e tradicional do território Tremembé, famílias indígenas produzem artesanalmente um óleo utilizado tanto na alimentação quanto como remédio caseiro para inflamações, dores e problemas de garganta.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Nascido e criado entre os pés de Bateputá, Samuel Nascimento de Castro aprendeu desde cedo os saberes tradicionais ligados à terra encontrou na agricultura uma forma de construir seu futuro sem precisar deixar a comunidade. Hoje, sua propriedade reúne uma diversidade de cultivos e criações, que variam de acordo com a época do ano, além da produção do óleo de Bateputá, comercializado no próprio território, em festas e feiras da região.</p>



<p>Ao perceber a necessidade de ampliar a produção de alimentos, Samuel tomou uma decisão arriscada. Vendeu as 40 galinhas poedeiras que criava para investir na implantação de uma mandala produtiva com criação de tilápias. A iniciativa surgiu após conhecer experiências semelhantes e identificar o potencial de integrar diferentes sistemas de produção.</p>



<p>O risco foi compensado algum tempo depois, quando ele foi contemplado pelo programa São José Jovem, política pública do Governo do Ceará voltada para jovens empreendedores rurais. Com os recursos recebidos, conseguiu reconstruir sua estrutura de criação de galinhas e fortalecer a produção familiar.</p>



<p>Mas a trajetória de Samuel não se limita à própria propriedade. Primeiro jovem a presidir o conselho indígena do território, ele ajudou a aproximar a comunidade de editais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a segurança alimentar.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, quando a aldeia permaneceu fechada por cerca de oito meses, a necessidade de produzir o próprio alimento tornou-se ainda mais evidente. A partir dessa experiência, foram fortalecidos projetos voltados à cultura alimentar, com incentivo a quintais produtivos, áreas coletivas de cultivo e outras iniciativas de autonomia produtiva.</p>



<p>Entre essas políticas está o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena, iniciativa do governo federal que compra alimentos produzidos pelas comunidades indígenas para distribuição a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições públicas. Samuel também comercializa parte de sua produção por meio do programa.</p>



<p>“O PAA Indígena é um trabalho de fortalecimento da nossa cultura”, afirma. Para ele, a alimentação vai muito além da nutrição. “Quando você come bem, além de se alimentar, você se cura.” Segundo Samuel, valorizar os alimentos produzidos no território significa também fortalecer a identidade indígena. “É um resgate da nossa ancestralidade através da alimentação. Fortalece nossa luta e nossa identidade.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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        </div>

		


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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/agroecologia-cria-raizes-em-itapipoca/">Agroecologia cria raízes em Itapipoca</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<item>
		<title>A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus</title>
		<link>https://marcozero.org/a-poupanca-que-junta-gente-o-movimento-das-mulheres-que-transformou-a-ilha-de-deus/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 19:45:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[ilha de deus]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[poupança comunitária]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, serviços públicos e moradias dignas. Entre as muitas reuniões e encontros que aconteciam naquela época, uma atraiu as então pescadoras e donas de casa Elivânia Rocha e Maria de Fátima da Silva. Seria uma reunião fechada para organizações e coletivos que atuavam na comunidade, mas elas foram mesmo assim.</p>



<p>Lá, foi apresentado um projeto de empoderamento feminino e de gestão financeira que não interessou a nenhuma das organizações presentes naquela reunião. Mas fez os olhos das duas mulheres brilharem. “Na reunião tinha um rapaz de São Paulo que participava de uma poupança comunitária, então quando ele falou sobre como a comunidade se organizava para poupar, eu pensei: &#8216;e por que a gente não traz para a nossa comunidade?'&#8221;, lembra Elivânia.</p>



<p>Surgia assim a Poupança Comunitária da Ilha de Deus, a primeira experiência do tipo em Pernambuco. As atividades não começaram envolvendo diretamente dinheiro. Primeiro, as mulheres fizeram um censo na comunidade. </p>



<p>Cercada pela água dos manguezais, de três rios e do mar da Bacia do Pina, a Ilha de Deus tem apenas um acesso por via terrestre – a ponte Vitória das Mulheres, inaugurada em 2009. Mesmo sendo uma área pequena, de cerca de 10 hectares na parte urbana, as futuras tesoureiras encontraram muitos moradores que haviam ficado de fora do cadastro da prefeitura do Recife. “A gente achava que conhecia o vizinho do lado. Mas a partir desse censo, a gente pôde se conhecer melhor, conhecer o nosso território, as nossas reais necessidades. Muitas famílias não iam receber casas, mas acabaram ganhando lugar onde morar graças ao nosso censo”, relembra Maria de Fátima.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea da Ilha de Deus, uma comunidade ribeirinha localizada no Recife. Em primeiro plano, há uma praça circular com um mosaico colorido no chão, formado por triângulos em tons de vermelho, amarelo, verde e azul, lembrando uma flor ou um sol. No centro da praça, ergue-se um mastro de bandeira, e ao redor há degraus concêntricos que formam uma espécie de anfiteatro. À esquerda e ao fundo, vê-se um conjunto de casas simples com telhados de barro e paredes pintadas em cores variadas — azul, branco, bege — cercadas por árvores e vegetação. O céu está azul e repleto de nuvens brancas, e ao longe, na linha do horizonte, aparece o perfil moderno da cidade do Recife, com seus prédios altos contrastando com o ambiente mais tradicional e tranquilo da comunidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A poupança comunitária ajudou a mudar a ilha desde que foi criada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com esse mapeamento da população, chegou a hora de entrar em campo para fazer com que as pessoas poupassem. Com cerca de 1,1 mil moradores em dados oficiais, as lideranças do projeto calculam que pelo menos 300 pessoas já foram poupadoras em algum momento. Qualquer pessoa da comunidade pode abrir uma caderneta, depositando o valor que quiser. O depósito é feito diretamente com uma das tesoureiras: cada um fica com um caderno onde os repasses são anotados.</p>



<p>“A gente sempre estimula que as pessoas façam também cadernetas coletivas, para juntar dinheiro para um objetivo em comum”, conta Maria de Fátima. Antes de entrar no grupo, cada poupador define um objetivo. Os mais frequentes são reformar a casa, fazer uma festa para o filho, comprar um eletrodoméstico, adquirir um barco. “Quando alguém vem sacar o dinheiro para outra coisa, a gente sempre lembra e reforça que estão poupando para um objetivo. Quando a Ilha de Deus não era urbanizada, muitos poupavam para ajeitar a casa, botar uma cerâmica, comprar algum móvel. Esses eram as metas mais comuns. E, quando eles vinham retirar o dinheiro, a gente dizia para esperar mais um pouquinho, não gastar e focar no objetivo”, lembra Elivânia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Poupar para fortalecer vínculos</span>

		<p>A poupança comunitária nasceu na Índia nos anos 1970, a partir de um grupo de mulheres de baixa renda que viviam em condições precárias e sofriam ameaças de despejo. Elas decidiram juntar o pouco dinheiro que sobrava do dia a dia para formar um fundo coletivo. Com ele, conseguiram construir suas próprias casas – priorizando as que estavam em situação de maior vulnerabilidade.</p>
<p>O modelo atravessou fronteiras e chegou ao Brasil disseminado pela Slum Dwellers International (SDI), organização presente em 33 países da África, Ásia e América Latina, formada por uma rede de entidades da sociedade civil e iniciativas populares baseadas na autogestão.</p>
<p>No Brasil, a metodologia é representada pela Rede Interação, associação sem fins lucrativos fundada em 2004 em São Paulo, que já atuou em mais de 70 cidades em 18 estados. Foi por meio dessa rede que a poupança comunitária chegou à Ilha de Deus, em Recife, em 2008, trazida por Lúcia Siqueira, coordenadora da Rede Interação no Recife, que conhecia lideranças locais envolvidas no processo de urbanização da ilha.</p>
<p>Segundo a Rede Interação, a poupança tem dois propósitos centrais: melhorar a gestão financeira individual e coletiva e, principalmente, construir relações de confiança e fortalecer vínculos dentro da comunidade. “Não é um projeto, mas um processo. A metodologia que trabalhamos com organização comunitária é apoiada em um tripé com poupança comunitária, intercâmbios e autorrecenseamento”, explica Lúcia. “Eu acredito muito nessa metodologia. Primeiro, porque não personifica em uma liderança só, tem como base a organização comunitária. E não é um projeto pontual, é algo que coloca o protagonismo nas mulheres, que eram donas de casa e aos poucos foram se empoderando”, afirma a coordenadora.</p>
	</div>



<p>O dinheiro é depositado pelas tesoureiras em uma conta não solidária da Caixa Econômica Federal, que é uma conta conjunta que exige a assinatura de todos os envolvidos para fazer a retirada do dinheiro. Assim, quando um poupador avisa que pretende sacar o dinheiro que juntou, é preciso que as três tesoureiras do grupo compareçam juntas ao banco.</p>



<p>É um mecanismo que ajuda a evitar compras por impulso, ainda mais quando se leva em conta o índice de endividamento de 80,2% das famílias brasileiras registrado em março de 2026, o maior da série histórica iniciada em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio. “Tem gente que tem cartão de crédito e pede para abrir uma poupança porque sabe que aqui consegue juntar o dinheiro”, conta Ana Mirtes Ferreira. “Essa exigência também ajuda as pessoas que já estão viciadas nesse negócio de jogo de tigrinho e nessas bets a economizar alguma coisa”, diz Fátima.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/QU9KVJXnAKY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading">Poupança ajuda a realizar sonhos</h2>



<p>Na Ilha de Deus, a maioria da população está envolvida de um jeito ou de outro com a pesca. A compra de um barco significa independência e a possibilidade de fazer um dinheiro rápido e certo. &#8220;Tem pessoas que têm cursos técnicos, formações de grau superior e, mesmo assim, pescam. A maré dá essa estabilidade para o pescador de fazer o seu horário, de não ter necessidade de bater ponto, nem de dar satisfação a ninguém”, diz Fátima.</p>



<p>Mãe solo de quatro filhos, Noêmia Fernandes dos Santos passava os dias nas águas da bacia do Pina e do porto do Recife. Ia em busca do sururu, que por tantos anos sustentou a família dela e de tantas outras mulheres da comunidade, mas lida diária era prejudicada por não ter um barco próprio: um balde de sururu ou marisco era usado como pagamento para o usar o barco dos outros.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1.jpg" alt="A imagem mostra uma cena tranquila à beira de um rio, onde um homem e uma criança observam um pequeno barco que navega lentamente pela água. O homem está de pé, descalço, usando uma camiseta vermelha e preta com o número 7 nas costas, um chapéu azul e segurando um galão azul na mão direita. Ao seu lado, a criança está sentada, vestindo uma camiseta colorida com números e letras e um chapéu de aba larga. No fundo, o barco de madeira leva duas pessoas — uma de camisa cinza e outra de camisa rosa — enquanto a margem oposta é coberta por vegetação verde e densa, provavelmente um manguezal. A cena transmite calma e simplicidade, como um momento cotidiano de contemplação entre o adulto e a criança diante do movimento sereno do rio." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Possuir um barco significa a garantia de autonomia para quem vive da pesca
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Com muita dificuldade, fui economizando pouco a pouco, a poupança me ajudou a ter meu próprio barco. Confesso que foi muito difícil, porque criei quatro filhos sozinha, sem ajuda de ninguém”, conta Noêmia. “A minha trajetória de economizar meu trocado para fazer um barco para mim serviu para incentivar outras mulheres a economizarem também”, diz ela, que, em 2012, se tornou uma das tesoureiras do projeto. “Já teve muitas mulheres que pouparam comigo. Umas fizeram barco, outras construíram um muro ou reformaram a casa”.</p>



<p>Para ela, a poupança comunitária transformou mais do que a parte financeira. &#8220;Antes da poupança eu era dona de casa, pescadora, não participava de nada, não tinha vez e voz para nada. Quando comecei a formar grupos de poupança, veio fortalecimento tanto para mim como para outras mulheres”, reforça.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da Ilha de Deus para o mundo</strong></h2>



<p>As líderes da poupança comunitária já fizeram intercâmbios em vários países, como Bolívia, África do Sul, Filipinas e Índia, para conhecer como funciona a poupança nesses países e trazer novas experiências para a Ilha de Deus. São lugares em que a vida é ainda mais difícil do que na Ilha de Deus – onde quase todo mundo tem casa de alvenaria com saneamento básico, há creche e posto de saúde para atender a comunidade.</p>



<p>Quando Fátima foi visitar a Índia, conheceu mulheres que faziam grupos de poupança para construir banheiros nas casas delas. “Elas poupam também para alimentação, para fazer sua moradia. Quando fui para a Índia, o que mais me interessou é que muitas delas não sabiam ler nem escrever, então usavam os lenços delas para usar como medida, no lugar da fita métrica, nas construções que faziam”, lembra a líder comunitária. “Muitas poupavam também para comprar comida em grande quantidade e, assim, economizar”, acrescenta.</p>



<p>Na Ilha de Deus, as necessidades também não são as mesmas de 18 anos atrás. Antes e durante a urbanização, que foi entregue em três etapas, fazer reformas e reparos nas casas eram os principais objetivos. Isso mudou com a entrega das casas aos moradores. “Em países como a Índia não existem as políticas públicas que a gente tem aqui, como habitação, benefícios sociais como o Bolsa Família, escola pública para todo mundo. Então lá as mulheres têm mais necessidades e levam mais a sério o hábito de poupar, porque eles poupam para construir, para educação. Aqui, com as melhorias que tivemos, já se poupa para algo individual”, compara Mirtes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O futuro da poupança comunitária</h3>



<p>Na terceira vez que foi para a África do Sul, Fátima não viajou sozinha. Ao lado dela foram quatro jovens de outras comunidades do Grande Recife: Ilha de Deus, Caranguejo Tabaiares, Afogados e Tururu, em Paulista. Lá, conheceram experiências de jovens que se juntavam e poupavam um dólar por semana para produzir vídeos de conscientização sobre a importância da reciclagem, por exemplo.</p>



<p>A poupança jovem é vista pelas mulheres como uma forma de mobilizar o futuro da Ilha de Deus e fomentar novas lideranças. “Trabalhamos com temáticas. Por exemplo, pegamos o tema do direito da juventude e levamos os adolescentes para participar de fóruns da juventude, seminários, tudo voltado para que eles possam entender que existe uma lei que assegura os direitos da juventude na cidade do Recife. Os jovens começaram a se interessar e foram convidando um amigo, convidando outro e assim está crescendo”, diz Mirtes.</p>



<p>O tema das mudanças climáticas também é forte nas ações da Poupança Comunitária. “Não é só sobre dinheiro. O nosso objetivo principal é juntar as pessoas, formar novas lideranças. Mobilizar a comunidade para pensar sobre o futuro, pensar em modificar a nossa realidade juntos. Para a gente, é de extrema importância trabalhar com a juventude, porque eles darão continuidade a essa mobilização. O nosso trabalho não vai parar, nem vai morrer com a gente”, afirma Mirtes.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Quem quiser apoiar as ações da Poupança Comunitária pode fazer uma doação via Pix: <a class="underline underline underline-offset-2 decoration-1 decoration-current/40 hover:decoration-current focus:decoration-current" href="mailto:noemiafsantoslinda@gmail.com">noemiafsantoslinda@gmail.com</a></p>
        </div>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Moradores do Ibura de Baixo sofrem por causa de obra da prefeitura</title>
		<link>https://marcozero.org/moradores-do-ibura-de-baixo-sofrem-por-causa-de-obra-da-prefeitura/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 01:23:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[alagamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Ibura]]></category>
		<category><![CDATA[obra]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem mora na rua Manaíra, exatamente ao lado do muro da cabeceira da pista do aeroporto, está sempre atento ao ruído dos motores dos aviões que passam a poucos metros dos telhados de suas casas. No entanto, após o início das obras da nova ligação entre as avenidas Recife e Dom Helder Câmara, essa comunidade [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem mora na rua Manaíra, exatamente ao lado do muro da cabeceira da pista do aeroporto, está sempre atento ao ruído dos motores dos aviões que passam a poucos metros dos telhados de suas casas. No entanto, após o início das obras da nova ligação entre as avenidas Recife e Dom Helder Câmara, essa comunidade no Ibura de Baixo passou a se preocupar mais com problemas ao nível do solo do que com as aterrissagens dos airbus e boeings.</p>



<p>Desde que os operários da empresa contratada pela prefeitura do Recife começaram a construir a nova via de acesso ao Ibura, os moradores passaram a conviver com alagamentos praticamente em tempo integral &#8211; pouco importando se chove ou faça sol &#8211; mau cheiro contínuo da água estagnada, problemas de saúde e rachaduras nas paredes dos imóveis.</p>



<p>A obra é resultado de convênio entre a prefeitura e o Ministério das Cidades, com aporte de R$12,5 milhões feito pelo órgão federal. A placa que sinaliza a construção é clara: início em novembro de 2024 e encerramento em novembro de 2025, com realização de serviço de pavimentação, drenagem, macrodrenagem e urbanização do acesso entre as duas avenidas. No entanto, até agora, junho de 2026, apenas metade do trecho anunciado foi concluído.</p>



<p>A lista de reclamações é extensa, começando pela falta de diálogo do poder público e culminando nos transtornos descritos no segundo parágrafo deste texto. </p>



<p>O catador de recicláveis Alexsandro Silva, de 41 anos, mora entre os trilhos da ferrovia Transnordestina e o muro do aeroporto há 15 anos, mas este ano foi a primeira vez que viu a casa ser tomada pela água.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:38% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="683" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-683x1024.jpg" alt="A foto mostra Alexsandro Silva em pé sobre uma calçada estreita ao lado de uma casa com paredes desgastadas e pintura verde-azulada descascada. Ele está com os braços cruzados, vestindo camiseta cinza e bermuda listrada, e olha firme para a câmera. Ao lado dele corre um canal estreito de água, cercado por vegetação e entulho, com uma muralha alta e enferrujada do outro lado. O céu azul com nuvens claras contrasta com o cenário urbano precário." class="wp-image-75714 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-683x1024.jpg 683w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-768x1152.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-1024x1536.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-150x225.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k.jpg 1365w" sizes="(max-width: 683px) 100vw, 683px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Durante a chuva do dia 1º de maio, que deixou pessoas desabrigadas, com vários pontos de alagamentos na cidade, inclusive na avenida Recife, Sandro, como é conhecido, foi surpreendido quando seus pertences e materiais de trabalho foram levados pela correnteza.Ele conta que a área já tinha alagado outras vezes, mas dessa vez atingiu proporções bem maiores. Para piorar, boa parte da água não escorreu, ficando empoçada, sem ter por onde escoar.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Não foi só o grande volume de chuva. A construção do canal que fará parte do novo sistema de drenagem e macrodrenagem, está aterrando o mangue por trás de um campinho de futebol, o campo do Real, e formou uma espécie de lago na área que foi aberta para passar o canal. Segundo os moradores com quem conversamos, para drenar este “lago”, os funcionários da prefeitura utilizam uma bomba que joga os dejetos em um curso d&#8217;água natural que já existia ali. Os resíduos acabaram obstruindo o córrego, agravando o problema.</p>



<p>“Antes a água batia no peito nesse córrego, o pessoal tomava banho, pegava beta. Agora não, porque isso não é só lama, é dejeto, vem uma ‘murrinha’ de um trator, puxa e vai jogando pro lado de cá. E quando eles tocam esse trabalho, é catinga de merda pura, ninguém aguenta ficar aqui dentro de casa não. É rato correndo de um lado pro outro, porque tão tirando os caminhos deles que ficam ali por trás, então de noite os ratos vem pra cá, disputando espaço com a gente”, explica Sandro.</p>



<p>Por medo que os filhos contraíam doenças, Sandro e a esposa, Daniele Patrícia, decidiram deixar os filhos com a avó. “Nem os filhos a gente pode deixar em casa, como dois adolescentes, um de 16 anos e outro de 14, vão ficar em casa numa situação dessa?”, questiona Sandro.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Algumas famílias também enfrentam falta de iluminação, pois algumas casas foram desapropriadas, algumas já foram demolidas e outras estão vazias, a espera do momento de irem abaixo. Só depois de reclamar junto aos funcionários da empreiteira, conseguiram que instalassem uma pequena lâmpada para iluminar o trecho. O ponto de luz foi ligado a uma gambiarra precária conectando a fiação das casas desapropriadas, com a das casas que permanecerem, por meio de fio e bocal, em uma das paredes que ainda ficaram de pé.</p>
<p>“Por medo disso cair numa noite de chuva e a fiação das casas da gente ir junto, dar um curto circuito e queimar nossos barracos, a gente foi atrás da empresa de novo. Só depois de oito dias eles vieram aqui, mas às sete da noite já dá medo de passar”, afirma a dona de casa Alessandra da Silva, que mora na Manaíra há dez anos.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">“Faz medo cair por cima”</h2>



<p>“Perdi dois guarda-roupa, rachou a casa, ainda tá rachada lá, faz medo cair por cima, né?” Essas palavras são de Jailton Nunes, que, há pelo menos 12 anos, mora com a esposa e as filhas em um beco com mais de 15 casas. Assim como seu vizinho Sandro, em todo esses anos sua família nunca tinha perdido móveis por causa de um alagamento.</p>



<p>A situação na casa de Jailton parece ser mais grave do que na vizinhança, pois duas paredes estão com grandes rachaduras. “É uma sensação ruim! Já tinha enchido na avenida Recife e num pedaço da área da linha de trem, mas aqui nunca! Mas depois dessa obra começou a encher, a água veio por trás e por frente”, conta. Quando ele fala &#8220;por trás&#8221;, se refere ao que restou do manguezal que está em processo de aterramento para construção do canal. &#8220;Pela frente&#8221; é onde tem a espécie de lago de águas podres formado em consequência da obra.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55292480317_0ce80c14f6_k-1024x683.jpg" alt="A foto mostra um beco estreito entre construções antigas e desgastadas. As paredes estão manchadas e com mofo, e há uma porta encostada no chão, sugerindo abandono ou reforma. No muro à direita, vê-se a inscrição “URB 106” feita com tinta preta em spray, enquanto ao fundo há outra marca semelhante. O telhado de zinco está danificado, com partes faltando e fios expostos, e o chão apresenta poças d’água e sujeira. A cena transmite uma atmosfera de degradação urbana, típica de áreas periféricas ou em processo de demolição." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Moradores dizem que fFuncionários da prefeitura marcaram as casas sem explicar motivo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>A casa da família de Jailton é uma das que foram marcadas pelas equipes da prefeitura antes do início das obras. Apesar das marcações, ele afirma que ninguém da prefeitura foi ao local para orientar ou tratar do assunto. “A gente falou com algumas pessoas, engenheiros, mas ainda não informaram nada a gente. Não falaram de indenização. Estão pagando o pessoal aos poucos, mas a gente ainda não sabe de nada, ninguém tomou decisão pra resolver nada”, lamenta Jailton.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Diálogo difícil com a prefeitura</h3>



<p>Todos os moradores que conversamos disseram que o diálogo com a prefeitura é difícil. Além de não terem sido consultados para a obra, mesmo após os problemas aparecerem, não se sentem ouvidos nem apoiados. Segundo Joelma Andrade, liderança do Centro Comunitário Mário de Andrade, mais de 230 casas foram desapropriadas para construção do acesso. No início do processo, as casas começaram a ser marcadas, mas as pessoas não tinha noção do que se tratava. Foi aí que Joelma procurou o Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) e a Defensoria Pública, que solicitaram a apresentação do projeto aos moradores, o que só teria acontecido depois de duas reuniões.</p>



<p>&#8220;Foi aí que eles apresentaram o projeto. No momento eu questionei para onde as águas iriam quando a chuva viesse. Disseram que nenhuma família iria sofrer mas, no entanto, é isso que está acontecendo, elas estão sofrendo&#8221;, conta Joelma.</p>



<p>A assistente social do Cendhec, Cristinalva Lemos, afirmou que apenas em 2025, após a provocação dessas organizações a prefeitura começou a se mobilizar para apresentar os projetos e dialogar minimamente com as famílias. A organização tem atuado junto às mulheres da região para discutir, sobretudo, a justiça socioambiental. No sentido de buscar os órgãos competentes que possam dar alguma resposta em relação aos transtornos que as pessoas. &#8220;O diálogo com o poder público é muito difícil&#8221;, conta.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que diz a prefeitura:</span>

		<p>A Prefeitura do Recife esclarece que as obras no Ibura fazem parte de um pacote de intervenções de R$ 12 milhões, financiado por convênio com o Ministério do Desenvolvimento Regional e a Caixa Econômica Federal, com contrapartida da gestão municipal. O projeto prevê a criação de uma nova rota de saída do bairro, com 1.100 metros de extensão ligando a Avenida Dom Hélder Câmara à Avenida Recife, além de obras de pavimentação, drenagem, macrodrenagem e urbanização de áreas públicas.</p>
<p>As obras de macrodrenagem seguem normas técnicas e têm autorização ambiental. O canal está em uma área anteriormente assoreada e sem profundidade suficiente para escoamento, e o projeto prevê dimensões capazes de absorver as águas em situações de chuva. A intervenção também viabiliza a requalificação da Avenida Dom Hélder Câmara, que será nivelada e receberá um reservatório subterrâneo para armazenar o volume de água que hoje escoa para a Avenida Recife.</p>
<p>Em relação às famílias que vivem às margens da linha do trem, a Prefeitura reconhece as dificuldades enfrentadas e esclarece que a região tem histórico de alagamentos, agravado pelo período chuvoso. Com a conclusão das obras do canal e das desapropriações, as águas passarão a seguir o curso projetado, reduzindo os alagamentos na área.</p>
<p>Sobre as casas da rua Manaíra, a gestão municipal informa que as residências nas imediações do número 46 estão incluídas no processo de desapropriação. As demais moradias com indícios de danos estruturais já foram vistoriadas, os valores de indenização foram negociados e estão em processo de pagamento.</p>
<p>Desde a fase de desenvolvimento do projeto, a gestão municipal manteve diálogo com a comunidade por meio de assembleias, reuniões e contato com lideranças locais. As negociações para desapropriação tiveram início em 2024 e estão sendo concluídas em 2026.</p>
<p>O projeto prevê ainda a urbanização de áreas públicas com novos espaços de lazer e convivência, incluindo quadra esportiva, parque infantil, campo de futebol requalificado e área para piquenique, além de arborização e paisagismo em todo o trecho da intervenção.</p>
	</div>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293537858_cfdb2d5f38_k-1024x683.jpg" alt="A imagem mostra uma área periférica em processo de transformação, com casas simples de tijolo e vegetação densa ao redor de um canal de água parada. O solo parece irregular e há entulho e lama, sugerindo obras ou reconstrução. À esquerda, vê-se uma estrutura metálica enferrujada coberta por plantas, e algumas pessoas caminhando ao longe. O céu está parcialmente nublado, com tons dourados e azulados, indicando o fim de tarde. A cena transmite uma mistura de vulnerabilidade ambiental e cotidiano urbano, onde a natureza e a ocupação humana coexistem em condições precárias." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Com aterro do manguezal, águas da chuva não tem para onde escoar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p></p>
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