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Texto publicado originalmente na newsletter para assinantes

A escolha de um inimigo fácil para direcionar o ódio do povo e o uso de milícias são chaves usadas para comparar os Bolsonaro a Hitler. De Trump, ele reproduz a misoginia e as mentiras descaradas. Essas duas analogias são óbvias e se tornaram lugar comum.

Depois os experts começaram a perceberam as semelhanças entre os métodos bolsonaristas e os do chavismo venezuelano, que também enchem o governo de militares e fecharam a suprema corte de lá logo que chegaram ao poder. As motociatas e a má-educação parecem copiados da estética fascista. As fotos de Mussolini, sempre cercado de machões mal encarados deixam poucas dúvidas.

Há alguns dias, entretanto, tive um assombro: há muito de Lênin e do leninismo no clã Bolsonaro. Leiam os próximos dois parágrafos antes de debochar deste modesto escriba.

Depois que o governador de São Paulo puniu o comandante da PM que chamava seus subordinados para a manifestação no 7 de setembro, Eduardo Bolsonaro, a cria nº 03, iniciou um vídeo gravado dentro do carroem movimento com as seguintes palavras: “Todo sistema que está estrebuchando, perto do fim…”. Quantas vezes li ou escutei frases semelhantes vindas de dirigentes da esquerda revolucionária, se referindo ao capitalismo ou ao imperialismo americano?

Não sei se o próprio Lênin usou palavras como essas em outubro de 1917, mas certamente os leninistas pelo mundo afora usaram nas décadas seguintes, oferecendo uma perspectiva de vitória que parecia iminente para estimular os próprios militantes ou aquilo que chamavam de “massas trabalhadoras”. Nem é preciso dizer que, quase sempre, essa avaliação era excessivamente otimista. Para dizer o mínimo.

No entanto, foi despertando esse sentimento de urgência, de agarrar uma vitória que parecia estar nas mãos, a grande sacada do líder da revolução russa para tomar o poder dos mencheviques. No meio do buruçu político, social e econômica da Rússia após a queda do czar e ainda em guerra na Europa, Lênin percebeu que só os bolcheviques tinham um mínimo de organização e armas na mão para tomar o poder de uma tacada só. Sim, a revolução de outubro foi, a bem da verdade, um golpe armado de quem percebeu a oportunidade.

No final de semana que antecede ao 7 de setembro, Eduardo Bolsonaro está à frente de um da versão brasileira de um evento reacionário que, desde 1974, acontece nos Estados Unidos. À mesa, ao lado do 03, está Donaldo Trump Jr. Eis mais um traço leninista: a pretensão de fazer uma revolução internacional.

Que fique claro: não estou dizendo que os Bolsonaro são comunistas nem que os bolcheviques eram bolsonaristas. O que está ficando claro é que, se realmente existe um cérebro (Steve Bannon?) por trás da tática da extrema-direita de substituir a política pela guerra permanente, o que se fez foi um gigantesco corta e cola de estratégias de forças políticas que conquistaram ou mantiveram o poder com violência.