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	<title>Arquivos 1º de abril - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 01 Apr 2024 19:03:36 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos 1º de abril - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Silêncio para lembrar os crimes cometidos pelos golpistas de 1964</title>
		<link>https://marcozero.org/silencio-para-lembrar-os-crimes-cometidos-pelos-golpistas-de-1964/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Apr 2024 19:03:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[1º de abril]]></category>
		<category><![CDATA[31 de março]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O dia 31 de março amanheceu com céu limpo, e temperatura amena, em São Paulo. Nas bancas de jornais da avenida Paulista, a Folha de São Paulo trazia a manchete com o resultado da mais recente pesquisa do Instituto Datafolha: “Democracia tem 71% de apoio, 60 anos após Golpe”. Mesmo com com todos o ataques [&#8230;]</p>
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<p>O dia 31 de março amanheceu com céu limpo, e temperatura amena, em São Paulo. Nas bancas de jornais da avenida Paulista, a Folha de São Paulo trazia a manchete com o resultado da mais recente pesquisa do Instituto Datafolha:</p>



<p>“Democracia tem 71% de apoio, 60 anos após Golpe”.</p>



<p>Mesmo com com todos o ataques à democracia, dos últimos anos, apenas 7% das pessoas entrevistadas concordaram que, em certas circunstâncias, “é melhor uma ditadura do que um regime democrático”</p>



<p>Uma pequena nota, trazia uma informação importante:</p>



<p>“Para 63%, data do golpe deve ser desprezada”.</p>



<p>A três quilômetros da Paulista, no pátio do 36º DP, na Vila Mariana, dezenas de entidades de direitos humanos, movimentos sociais, familiares de mortos e desaparecidos, que lutaram contra a ditadura, formaram uma espécie de barricada contra a desmemória.</p>



<p>Era a concentração para a 4ª Caminhada do Silêncio é uma realização do <a href="https://imdh.ufsc.br/eventos-2/vozes-do-silencio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Movimento Vozes do Silêncio</a>, representado pelo Instituto Vladimir Herzog, o Núcleo de Preservação da Memória Política e a OAB-SP, com apoio da secretaria municipal de Direitos Humanos e Cidadania.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/ato_golpe_02_Paulo-Pinto.webp" alt="Foto de um grupo de pessoas em um protesto ou manifestação. Elas estão segurando cartazes com imagens em preto e branco de seus parentes mortos pela ditadura para homenageá-los e lembrar. O ambiente parece ser uma manifestação ou protesto pacífico ao ar livre durante o dia. Há uma variedade de roupas visíveis, indicando a diversidade dos participantes. O fundo da imagem mostra parte de um edifício com uma placa que diz “DISTRITO POLICIAL - PARAÍSO" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Concentração da marcha silenciosa, na frente da delegacia onde funcionou o Doi-Codi
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Naquele mesmo local, durante o regime militar, funcionou a maior central de tortura e assassinato de presos políticos do país. Era a sede do Destacamento de Operações de Informações- Centro de Operações(Doi-Codi), órgão subordinado ao Exército, comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.</p>



<p>Segundo estatísticas dos próprios militares, de 1970 a 1973, naquele local, foram presas 1.786 pessoas, e 45 presos foram assassinados sob torturas. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, foram 51 mortos no mesmo período.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Gente de memória</h2>



<p>“Você viu a Bia?”, perguntava Michel Labaki aos amigos, segurando um ramalhete de flores. “Ela foi estacionar o carro e não chegou ainda”.</p>



<p>O ramalhete era para deixar junto ao monumento dos mortos e desaparecidos, no Parque do Ibirapuera, ao final da caminhada.</p>



<p>“Venho para esta caminhada para apoiar a luta. Tive a ‘sorte’ de passar apenas 24 horas neste lugar. É algo que não dá para esquecer”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/Sama-silencio-Labaki.jpg" alt="Foto colorida de um grupo de pessoas em um protesto ou manifestação. No centro da imagem, Michel Labaki, um homem idoso, branco, de cabelos grisalhos e óculos, está segurando um buquê de flores e outras estão segurando cartazes ao seu redor. As pessoas estão vestidas com roupas casuais; algumas usam camisetas vermelhas, enquanto outras usam roupas de cores variadas. O ambiente parece ser uma rua ou espaço público ao ar livre durante o dia. Além disso, há um cartaz com os dizeres: “DITADURA NUNCA MAIS!” e outro que menciona algo sobre “ESTACIONAMENTO EXCLUSIVO”. A imagem é uma cena de protesto e expressão de opiniões." class="" loading="lazy" width="298">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Michel Labaki
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Samarone Lima</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O dia, foi sete de outubro de 1973. Ele era amigo de Ivan Valente, procurado pelos militares.</p>



<p>“Achavam que eu sabia onde ele estava”. Foi solto no dia seguinte, mas entrou na contabilidade dos presos e torturados no lugar” Ele tem um alívio deste período:</p>



<p>“Não prejudiquei ninguém”, se referindo a não ter falado nada de importante, nas torturas, que pudesse levar alguém para aquele inferno.</p>



<p>Figuras históricas do movimento nacional dos mortos e desaparecidos, como Maria Amélia Almeida Teles, a “Amelinha” sua filha, Janaína, Criméia Almeida, se juntaram a pessoas de diferentes gerações, com vários novos líderes falando ao microfone, ao lado de políticos da “velha guarda’, como Luiza Erundina, José Dirceu, Eduardo Suplicy.</p>



<p>“Aqui onde estamos, fomos torturadas e estupradas. A gente marca os 60 anos do golpe com muitas feridas não cicatrizadas. Temos que trazer o passado para o presente, e remoer, remoer, remoer”, disse Amelinha, numa das muitas críticas abertas, durante a tarde, ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que vetou a realização de eventos oficiais, para, segundo ele mesmo, não “remoer” o passado.</p>



<p>Janaúina Teles, lembrou dos 8.350 indígenas que foram assassinados, segundo o levantamento da Comissão Nacional da Verdade. Somados aos 1.660 camponeses também mortos e aos 454 mortos e desaparecidos das listas oficiais, o Brasil teria 10 mil mortos.</p>



<p>“Precisamos saber a história deles. Há apenas que remoer o passado, para superar este trauma histórico, esse apagamento extorquido”.</p>



<p>“Não se trata de remoer, mas falar de um passado que está presente”, diz Mariluce Moura, ao lado da filha, Tessa, e dos netos, todos com camisas estampando a foto de Gildo Macedo Lacerda, militante da Ação Popular (AP), assassinado no Doi-Codi do Recife, em 28 de outubro de 1973, junto com o colega de AP, José Carlos Novais da Mata Machado. Mariluce e Gildo foram presos em Salvador, dias antes, e ela nunca mais viu seu companheiro. Na prisão, descobriu que estava grávida.</p>



<p>Os restos mortais de Gildo jamais foram encontrados. A família segue cobrando do Estado brasileiro, informações.</p>



<p>Também presente na caminhada, estava Dorival da Mata Machado, filho de José Carlos Novais da Mata Machado.</p>



<p>“A violência do passado violento, que durou 21 anos, fundamenta outras violências, como a das milícias, das PMs e outras máfias. Não houve julgamento público, nem reconstrução da verdade histórica, nem justiça, nem reparação”, lembrou Mariluce.</p>



<p>Representantes da torcida organizada “Democracia Corinthiana”, e “Porcomunas”, do Palmeiras, estavam presentes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O silêncio caminhando</h3>



<p>Às 18h, quando encerraram as falas, a multidão ocupou as duas faixas da rua Tutoia. Bandeiras, faixas, cartazes eram as mensagens possíveis. O silêncio respeitoso tomou conta da caminhada, de menos de dois quilômetros, até o Parque do Ibirapuera. Muitas velas foram acesas.</p>



<p>Ao chegar no Monumento aos mortos e desaparecidos político, obra de Ricardo Ohtake, havia violão e canto. Flores foram colocadas no local.</p>



<p>A pernambucana Manuela Mirella, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), falou sobre a destruição da sede da UNE, logo após o golpe de 1964, e reforçou a necessidade de manter a memória.</p>



<p>No último ato da caminhada, foram lidos, em voz alta, 30 nomes de pessoas assassinadas pela ditadura, e 30 nomes de vítimas da violência policial do governo Tarcísio de Freitas, especialmente na Baixada Santista.</p>



<p>Após cada nome, a resposta era em uma só voz:</p>



<p>“Presente!”</p>



<p>A ideia do movimento é atualizar as lutas do passado, com as do presente.</p>



<p>Só este ano, 54 pessoas da Baixada foram mortas pela Polícia Militar do estado.</p>



<p>No dia em que entidades de direitos humanos, familiares de mortos e desaparecido e diversas organizações realizaram a quarta Caminhada do Silêncio.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/ato_golpe_18_0_Paulo-Pinto.webp" alt="Foto de um homem idoso, de barbas e cabelos grisalhos, segurando uma foto e uma vela acesa durante um evento noturno ao ar livre. O indivíduo com o rosto nas sombras segura uma fotografia em preto e brando de um rapaz. O ambiente é sombrio e sério, possivelmente indicando que se trata de uma vigília ou um evento memorial. As árvores e o céu escuro podem ser vistos ao fundo, iluminados pelas luzes do evento." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Marcha silenciosa terminou na frente do quartel da 2ª Região Militar, no Ibirapuera</p>
	                
                                            <span>Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Nunca mais</title>
		<link>https://marcozero.org/nunca-mais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Apr 2023 13:46:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[1º de abril]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[livro reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[tortura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este texto estava programado para ser postado ontem (sábado, 1º de abril), o que acabou não acontecendo porque o site ficou fora do ar por mais de 48 horas em razão de graves problemas nos equipamentos da empresa que abriga a página. Oficialmente, segundo os responsáveis técnicos da empresa, os &#8220;clusters de cloud servers (ou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Este texto estava programado para ser postado ontem (sábado, 1º de abril), o que acabou não acontecendo porque o site ficou fora do ar por mais de 48 horas em razão de graves problemas nos equipamentos da empresa que abriga a página. Oficialmente, segundo os responsáveis técnicos da empresa, os &#8220;<em>clusters</em> de <em>cloud servers</em> (ou seja, a infraestrutura que<strong></strong>realiza o armazenamento do processamento de informações e de aplicativos) precisaram ser substituídos. </p></blockquote>



<p><strong>O golpe militar de 1964 teve início na madrugada de 1º de abril, quando o Forte de Copacabana foi ocupado, como <a href="https://www.instagram.com/p/Cqcv3KLu008/?igshid=YmMyMTA2M2Y=" target="_blank" rel="noreferrer noopener">provam os registros do fotógrafo Evandro Teixeira</a>, o primeiro a chegar lá, levando por um oficial do Exército amigo. Deslocar a data em um dia livrou os generais</strong> <strong>do incômodo de celebrar os aniversários da ditadura junto com o Dia da Mentira. Por isso, a Marco Zero decidiu que os 59 anos do golpe seriam abordados hoje, o contrário seria ratificar uma pequena e imerecida vitória aos golpistas.</strong></p>



<p><strong>Para marcar esse dia, convidamos o jornalista, poeta e escritor <a href="https://www.instagram.com/samarone_lima_escritor/?igshid=YmMyMTA2M2Y%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samarone Lima</a>, um dos fundadores da Marco Zero. Samarone está imerso na pesquisa do tema desde que era estudante universitário. De lá pra cá, publicou dois livros reportagens (<em>Zé </em>e <em>Clamor</em>) e um livro de poesia (<em>Cemitérios clandestinos) </em>sobre personagens, circunstâncias e episódios daquele período.</strong></p>



<p>***</p>



<p>Em 1993, eu era um estagiário magricela do Diário de Pernambuco, portador de uma timidez brutal, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e terminando o curso de Educação Artística na “Federal”, como sempre chamamos a UFPE. Tinha passado na seleção do estágio, e creio que contou a meu favor a habilidade com o teclado das velhas Remington, que ocupavam todas as editorias do Diário.<br><br>Era realmente delicioso trabalhar com aquela sinfonia de teclas, e o famoso reeeeec, quando alguém puxava a folha que estava sendo batida, com papel carbono, irritado por algum erro grave. Cigarros estavam sempre no bico de alguns editores e eu achava aquilo tudo o máximo.<br><br>Nos meus 23 anos de idade, o tema Ditadura no Brasil não era uma grande preocupação. Durante os vários anos de colégio, o tema nunca me foi apresentado. Meu pai, funcionário bem colocado no Banco do Brasil, era transferido com rara facilidade, mas em nenhuma delas das escolas das cidades por onde passamos tinha professor que falasse do tema. Meu pai nunca falou sobre o assunto. Nem minha mãe. Na oitava série, um professor de Moral e Cívica poderia até falar do assunto, mas sempre chegava de óculos escuros, com uma ressaca memorável (as aulas eram na segunda-feira), ele queria tudo, menos falar.<br><br>Um belo dia, apareceu um exemplar do livro <em>Brasil: Nunca Mais</em> lá em casa, e comecei a ler e fiquei chocado. Estava com 16 anos. Depois, meu irmão Paulo, que tinha ido para um seminário em Carpina, ser padre, chegou em casa com outro livro, <em>Batismo de Sangue</em>, e fiquei ainda mais impressionado com a violência da repressão;<br><br>Até que tive uma pauta com Amparo Araújo, líder do Grupo Tortura Nunca Mais em Pernambuco. Era sobre o Monumento Tortura Nunca Mais, que estava sendo construído, às margens do Rio Capibaribe. Ela começou a falar de sua vida, a militância contra a ditadura, os amigos e amores que perdeu, e a militância por justiça e memória, que fiquei impressionado. Ela era um arquivo vivo dos 21 anos dos militares no poder.<br><br>Saí de lá com cinco ou seis crimes cometidos pelos militares, que jamais tinham sido publicados, e a pauta sobre o Monumento rendeu um bela matéria numa edição de domingo do Diário. Vários familiares de mortos e desaparecidos e pessoas que lutaram contra a ditadura deram um abraço coletivo em torno do Monumento, ainda cercado por tapumes.<br><br>Como estava perto de concluir o curso de Jornalismo, e teríamos a famosa &#8220;Banca de Conclusão do Curso”, resolvi fazer uma boa pesquisa sobre uma das histórias mal contadas do período para uma série investigativa. O tema, portanto, seria a ditadura. Vários colegas da turma ficaram surpresos.<br><br>“Mas a Ditadura? Por quê? Teve alguém da tua família que foi preso?”<br><br>Que eu soubesse não, mas o que me motivava era ir em busca das vozes dos que viveram aquele período. Amparo me deu vários contatos. Eu já tinha um gravador que usava nas minhas entrevistas.<br><br>Fiz algumas entrevistas com pessoas que ela me indicou. Fiquei impactado, comovido, e impressionado por saber que aquelas pessoas nunca tinham dado depoimento sobre o que viveram. Prisão, torturas, exílio, perdas de amigos, de trabalhos, projetos, sonhos.<br><br>Até que surgiu o nome do mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, militante da Ação Popular, que teria morrido no Recife, em 1973, num tiroteio com os companheiros da organização.<br><br>Segundo a ditadura, foi uma morte causada por tiroteio entre os pares. Amparo me alertou que era comum no período criar situações que incriminasse as próprias vítimas da violência.<br><br>“Ele foi morto no DOI-CODI do Recife, em 28 de outubro de 1973”, disse. “Você precisa encontrar provas ou testemunhas disso”, alertou Amparo, me dando alguns nomes.<br><br>Fui à luta.<br><br>Encontrei pessoas que tinham visto o Zé chegar vivo ao DOI-CODI do Recife, naquele terrível outubro de 1973, e que nunca tinham falado. Um silêncio de 20 anos, difícil de desatar.<br><br>Descobri que tinha paciência e empatia. Nunca fazia a entrevista no primeiro encontro. Falava das pesquisas e do meu propósito, de resgatar memórias de quem viveu no corpo e na alma uma ditadura. Encontrei uma mulher guerreira, a advogada Mércia Albuquerque, que conseguiu localizar a cova clandestina onde o Zé foi enterrado, ao lado do companheiro de AP (como era conhecida a organização Ação Popular), Gildo Lacerda.<br><br>E na metade da pesquisa, recebi um telefonema de Amparo, com uma frase que jamais esqueci:<br><br>“Samarone, um ‘cachorro’ abriu, em João Pessoa. Estamos indo para lá agora. Quer ir com a gente?”<br><br>Falei com meu editor, expliquei o caso, precisava viajar.<br><br>“Pode ir, mas mande uma matéria de lá para o jornal”, disse.<br><br>No carro, perguntei a Amparo o que era aquela expressão.<br><br>“Cachorro é gente que trabalhou para a repressão, levando companheiros à prisão, tortura e morte”, respondeu.<br><br>Chegamos à OAB de João Pessoa. Gilberto Prata, cunhado de José Carlos da Mata Machado, iria fazer uma declaração pública.<br><br>Para um auditório perplexo, revelou que, em 1973, trabalhou para a repressão, como infiltrado na Ação Popular. Sua missão foi localizar o próprio cunhado.<br><br>Ao final do evento, o entrevistei e perguntei o motivo de ter passado para o lado da ditadura.<br><br>“Covardia ou medo”, respondeu.<br><br>O corpo de José Carlos Novais da Mata Machado foi devolvido à família, em Belo Horizonte, com a condição de que o caixão, lacrado, não fosse aberto. Só 20 anos depois a família fez uma exumação e confirmou que eram mesmo os restos mortais dele.<br><br>De 1993 a 1997, entrevistei mais de 50 pessoas, entre militantes da AP, amigos e parentes do Zé.<br><br>Sempre que eu me despedia de cada pessoa entrevistada, voltava pra casa com o <em>Nunca Mais</em> orientando a caminhada.<br><br>Em 1998, lancei, em Belo Horizonte, meu primeiro livro, <em>Zé: José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica</em>.<br><br>Ano passado, o livro teve roteiro adaptado pelo cineasta mineiro Rafael Conde, e virou um longa-metragem.<br><br>Chegará aos cinemas no segundo semestre.<br><br>Será a chama do <em>Nunca Mais</em> tremulando novamente.</p>



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