<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/tag/6x1/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 09 May 2025 19:53:42 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.11</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Ser trabalhadora e mãe, a conta não fecha!</title>
		<link>https://marcozero.org/ser-trabalhadora-e-mae-a-conta-nao-fecha/</link>
					<comments>https://marcozero.org/ser-trabalhadora-e-mae-a-conta-nao-fecha/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 May 2025 19:37:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[6x1]]></category>
		<category><![CDATA[dia das mães]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[redução de jornada de trabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=70662</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Manuela d&#8217;Ávila* e Eugênia Lima** A proximidade entre o 1º de maio, Dia das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, e o Dia das Mães, comemorado neste ano no dia 11 de maio, é uma oportunidade para refletirmos sobre o descompasso entre a forma como está organizado o mundo do trabalho e o papel social atribuído às [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ser-trabalhadora-e-mae-a-conta-nao-fecha/">Ser trabalhadora e mãe, a conta não fecha!</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Manuela d&#8217;Ávila* e Eugênia Lima**</strong></p>



<p>A proximidade entre o 1º de maio, Dia das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, e o Dia das Mães, comemorado neste ano no dia 11 de maio, é uma oportunidade para refletirmos sobre o descompasso entre a forma como está organizado o mundo do trabalho e o papel social atribuído às mães. </p>



<p>A consolidação da escala de trabalho 6&#215;1 se deu em um momento histórico no qual vigorava a ideia de que o principal papel das mulheres na sociedade era o de cuidadora da família e do lar. Apesar de sabermos que a dedicação exclusiva aos trabalhos domésticos nunca foi uma realidade para as mulheres pobres e negras, que sempre lidaram com a sobrecarga da busca pelo sustento material e o trabalho doméstico, a crescente presença das mulheres no mercado de trabalho, resultado de décadas de luta feminista, escancara a contradição entre o direito ao trabalho e a responsabilização solitária pelo cuidado.</p>



<p>O trabalho de cuidado é essencial à sustentação da vida. Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que, se contabilizado, o trabalho relacionado aos afazeres domésticos e cuidado da família acrescentaria 13% ao PIB brasileiro. O mesmo estudo indica ainda que esse trabalho não pago é realizado majoritariamente pelas mulheres, que em média dedicam mais que o dobro de horas por semana a essas atividades do que os homens. </p>



<p>Mesmo em contextos urbanos como o da Região Metropolitana do Recife, a desigualdade é gritante: mulheres chefes de família gastam até 22 horas semanais apenas com tarefas domésticas. Essa sobrecarga retira o direito de nós mulheres ao descanso, ao lazer, à plena participação na vida cultural e política e é um importante obstáculo à construção de nossa autonomia financeira. Apesar das mulheres terem alcançado níveis educacionais mais altos que os homens, ainda somos minoria nos cargos de chefia e ocupamos mais trabalhos em tempo parcial, o que faz com que as mulheres brasileiras tenham um rendimento médio 20% menor do que os homens.</p>



<p>A invisibilidade histórica do cuidado como trabalho é sustentada por uma lógica patriarcal que transfere às mulheres, especialmente às mães, a obrigação exclusiva de sustentar a vida. A superação de tal situação requer medidas amplas e diversas voltadas à valorização do cuidado como direito e responsabilidade coletiva. Meninos e homens precisam ser educados para o exercício do cuidado de si, do outro e do ambiente em que vivem. O setor privado deve se responsabilizar e arcar com os custos da sustentação da vida. O Estado, além de prover políticas públicas que absorvam o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres com, por exemplo, ampliação de vagas em creches, em escolas de tempo integral e serviços de saúde, deve induzir mudanças amplas para a promoção do cuidado como responsabilidade coletiva. No lugar da omissão e do silêncio, é urgente que as políticas públicas reconheçam o cuidado como uma função social que sustenta o conjunto da vida em sociedade.</p>



<p>É nesse sentido que estamos propondo legislações concretas voltadas à promoção de direitos para trabalhadoras e trabalhadores que exercem o cuidado cotidiano. Uma das medidas mais urgentes é a que garante o abono de faltas para quem precisa acompanhar filhos, tutelados ou pessoas sob sua responsabilidade em situações de saúde ou escolares. Elas buscam transformar a contratação pública em instrumento de indução de práticas justas e inclusivas, fortalecendo uma rede de proteção à infância, à família e às cuidadoras e cuidadores.</p>



<p>Atualmente, a CLT assegura ao trabalhador e à trabalhadora o direito de se ausentar do trabalho, sem prejuízo do salário, em duas situações específicas relacionadas aos filhos: para acompanhar crianças de até seis anos em consultas médicas e para participar de reuniões escolares, limitado a um dia por ano. Qualquer pessoa que acompanha minimamente a rotina de uma criança ou adolescente sabe que esta regulamentação é completamente insuficiente. É chocante pensar que a legislação brasileira parte do pressuposto de que sempre haverá uma pessoa sem vínculo empregatício, disponível para levar crianças maiores de seis ao serviço de saúde. Nesse sentido, nossa proposta diz também sobre os direitos de pessoas vulneráveis como crianças, adolescentes e idosos de terem o devido acesso ao cuidado.</p>



<p>Atualmente, mulheres dependem da boa vontade e favores de chefes para exercer o cuidado. E sabemos que relações trabalhistas desregulamentadas são um campo fértil para abusos e assédios.</p>



<p>Essa medida é especialmente benéfica para as mulheres mães, que historicamente carregam o maior peso das responsabilidades domésticas e do cuidado com os filhos, muitas vezes acumulando jornadas duplas ou triplas de trabalho. Políticas públicas que promovem o compartilhamento do cuidado ampliam a participação de mulheres na política e assim, a democracia. Além disso, a rigidez das relações de trabalho e a falta de políticas de apoio à parentalidade contribuem para que muitas sejam prejudicadas em suas carreiras, com menos oportunidades de contratação, crescimento e maior vulnerabilidade à demissão. </p>



<p>Um direito como esse representa um avanço necessário para reduzir a desigualdade de gênero no mundo do trabalho e reconhecer, ainda que minimamente, o valor social do cuidado. Mas ele também representa algo mais profundo: a chance de transformar a cultura patriarcal que ainda estrutura o trabalho e a vida no Brasil.</p>



<p>A luta pelo reconhecimento da maternidade como trabalho não é apenas uma reivindicação por direitos — é uma convocação para reorganizarmos a sociedade em torno do cuidado e da vida. Por isso, não basta denunciar. É hora de agir. É hora de legislar. E de fazer do cuidado uma política de Estado. A maternidade é trabalho. E precisa virar lei.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*É jornalista e doutoranda em políticas públicas pela UFRGS. Foi a vereadora mais jovem de Porto Alegre, deputada federal mais votada do Brasil e deputada estadual mais votada em 2014.</strong></p>
<p>**<strong>Vereadora de Olinda, advogada e mestra em desenvolvimento urbano.</strong></p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ser-trabalhadora-e-mae-a-conta-nao-fecha/">Ser trabalhadora e mãe, a conta não fecha!</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/ser-trabalhadora-e-mae-a-conta-nao-fecha/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Redução da jornada de trabalho: &#8220;a resistência é mais política do que econômica&#8221;, diz sociólogo</title>
		<link>https://marcozero.org/reducao-da-jornada-de-trabalho-a-resistencia-e-mais-politica-do-que-economica-diz-sociologo/</link>
					<comments>https://marcozero.org/reducao-da-jornada-de-trabalho-a-resistencia-e-mais-politica-do-que-economica-diz-sociologo/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Nov 2024 17:59:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[6x1]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=67648</guid>

					<description><![CDATA[<p>O texto analisa as implicações da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1, com foco na PEC proposta pela deputada Erika Hilton. O sociólogo Sidartha Soria argumenta que a redução da jornada pode ser benéfica para a economia como um todo, apesar das resistências de alguns empresários. Ele discute o impacto da automação no mercado de trabalho e o enfraquecimento dos sindicatos, destacando o desafio de garantir os direitos dos trabalhadores em um cenário de precarização. Soria também acredita que a PEC, apesar dos obstáculos, pode ser aprovada, influenciada pelas tendências globais e pela crescente necessidade de repensar a sociedade do trabalho.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/reducao-da-jornada-de-trabalho-a-resistencia-e-mais-politica-do-que-economica-diz-sociologo/">Redução da jornada de trabalho: &#8220;a resistência é mais política do que econômica&#8221;, diz sociólogo</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O professor Sidartha Soria, do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ficou positivamente surpreso com toda a discussão em torno da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6&#215;1. De autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que faz essas alterações já conseguiu o mínimo de assinaturas e <a href="https://marcozero.org/com-assinatura-de-12-pernambucanos-pec-para-fim-da-escala-6x1-vai-tramitar-no-congresso/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">vai tramitar no Congresso</a>.</p>



<p>“Essa discussão toda gerada pela PEC é importante para pensar o que essa sociedade do cansaço procura nos negar: o direito de ficar refletindo sobre a vida, sobre o que a gente quer e o que a gente não quer. Eu acho que proposta já teve um ponto positivo, só de ter acendido uma lâmpada na cabeça de muita gente: &#8216;é realmente necessário que eu trabalhe seis dias? Não dá para ser diferente?&#8217;. Isso já é alguma coisa, e não é pouca coisa”, afirma o sociólogo.</p>



<p>Coordenador do Grupo de Estudos em Sociologia do Trabalho e dos Ofícios (Gesto), Sidartha Soria conversou com a <strong>Marco Zero</strong> sobre os impactos que essas medidas podem ter na vida dos trabalhadores e das trabalhadoras e quais são os obstáculos para a concretização dessas mudanças.</p>



<p><strong>MARCO ZERO &#8211;</strong> <strong>O sociólogo<a href="https://marcozero.org/se-a-gente-nao-lutar-nossos-filhos-e-nossos-netos-serao-escravos-digitais-avisa-o-sociologo-ricardo-antunes/"> Ricardo Antunes falou recentemente aqui no Recife </a>que o tema do trabalho passou um tempo sem ser tão discutido e, de uns anos para cá, tinha voltado a entrar em pauta, estar mais na mídia. Por que aconteceu isso? </strong><br><br><strong>SIDARTHA SORIA &#8211;</strong> Nos anos 1990, houve uma discussão entre os pesquisadores que diziam que o trabalho como dimensão analítica, como dimensão fundante da vida social e econômica, não era mais tão importante, por conta do avanço tecnológico. Normalmente quem traz essa discussão da perda de centralidade, da perda da importância da dimensão do trabalho, está tentando puxar para o lado de um passado que não volta mais, um passado em que havia muitos empregos, empregos sobrando e que hoje não teria mais. </p>



<p>E o que o Ricardo Antunes sempre tenta contextualizar é o seguinte: não, o trabalho nunca sai de pauta, a importância dele nunca deixa de estar colocada. Primeiro, porque, numa sociedade capitalista, a maior parte das pessoas vive do trabalho. É uma sociedade do trabalho. Se você tem um volume maior ou menor de empregos, ou a qualidade desses empregos está variando, você está gerando ocupações precárias em maior quantidade do que ocupações com qualidade melhor, protegidas, com remuneração melhor, isso é uma outra questão. </p>



<p>Mas o fato é que a centralidade do trabalho está sempre colocada, a importância dele, inclusive na definição da vida, das agendas das políticas públicas, da saúde e das condições de vida das pessoas.</p>



<p><strong>A maior automação do trabalho pode ajudar a diminuir a jornada do trabalhador?</strong></p>



<p>Nos últimos 10, 15 anos, temos uma escalada das inovações tecnológicas indo em direção à automação. Automação é algo que já existe no capitalismo desde o século XIX, só que vai se expandindo para outros setores, na forma primeiro da robótica e, mais recentemente e principalmente, na forma da inteligência artificial. </p>



<p>O tamanho real dessa escalada é algo que eu creio que não devemos tomar como um dado, e sim como algo a ser também problematizado, algo discutido. A IA existe, está se expandindo, mas a gente tem sempre que tentar dar o verdadeiro peso a isso. Seja como for, é uma questão que a gente tem que enfrentar. E faz parte do processo de automação do trabalho que vai implicar também não só no volume de ocupações disponíveis, como também no tipo de ocupações.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/se-a-gente-nao-lutar-nossos-filhos-e-nossos-netos-serao-escravos-digitais-avisa-o-sociologo-ricardo-antunes/" class="titulo">&#8220;Se a gente não lutar, nossos filhos e nossos netos serão escravos digitais”, avisa o sociólogo Ricardo Antunes</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/trabalho/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Trabalho</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Por enquanto, as facilidades que essa automação cada vez mais refinada traz ainda não impactam uma grande massa de trabalhadores, como os que estão na escala, por exemplo, de trabalhar seis dias e folgar só um?</strong></p>



<p>Sim, sim. É uma boa pergunta porque permite que a gente destaque onde é que a Inteligência Artificial está entrando. Vamos dividir de modo bem grosseiro as ocupações em três níveis. Primeiro, aquelas ocupações que têm um elevado grau de qualificação no sentido da capacidade de criatividade humana, inventividade, a capacidade de dar respostas originais para os problemas que vão surgindo. Esse perfil é pouco afetado pela automação informatizada. </p>



<p>Outro setor que é pouco afetado — e que inclusive no Brasil concentra grande parte das ocupações — são as ocupações mais manuais, que exigem menos qualificação. A IA vai pegar mais nesse miolo que é um trabalho já de escritório, mas é um trabalho mais repetitivo. O trabalho no setor administrativo, na contabilidade. Sempre que a rotina do trabalho da pessoa envolver rotinização de procedimentos, um pensamento mais mecânico, mais repetitivo, essa área está ameaçada pela entrada da Inteligência Artificial.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0"> A história do capitalismo é a história também da luta pela redução da jornada de trabalho</p>
</div>


<p><strong>Então como é que você vê a retirada da escala 6&#215;1 para os trabalhadores do setor de serviços, como bares, restaurantes, transportes?</strong></p>



<p>A discussão da redução da jornada de trabalho é tão antiga quanto o próprio capitalismo. Desde que o capitalismo surgiu, existe essa questão colocada, sempre antecedida por uma intensidade grande de trabalho. Jornadas de trabalho imensas geram uma reação por parte da classe que trabalha, da classe assalariada. A história do capitalismo é também a história  da luta pela redução da jornada de trabalho. </p>



<p>Sempre aquele cabo de guerra em que o empregador procura ampliar a intensidade e a quantidade de horas, ou manter elevadas, e a classe assalariada tentando diminuir. No que diz respeito à discussão atualmente colocada, o que é importante destacar é que é normal acontecer isso da parte de quem defende a manutenção do sistema atual. A ideia de aterrorizar, de assustar, de chamar a atenção para o fato de que isso pode devastar a economia, pode gerar muita crise, gerar desemprego, porque aumenta o custo do trabalho para o empregador, você tem que contratar mais gente, enfim. </p>



<p>Outro ponto nessa discussão é que tem que ver como ficaria o sistema das horas extras, porque você tem sempre a possibilidade de reduzir a jornada legal, mas, ao manter também a legalidade da hora extra, isso atenua o impacto da medida. Em um contexto em que os salários são mais baixos, o trabalhador também fica sensível a querer trabalhar mais tempo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/WhatsApp-Image-2024-11-14-at-13.21.49.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/WhatsApp-Image-2024-11-14-at-13.21.49.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/WhatsApp-Image-2024-11-14-at-13.21.49.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="333">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O sóciólogo e professor Sidarta Soria.Foto: Arquivo pessoal
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Há quem defenda que a redução de jornada é benéfica também para os empresários. Como você vê isso?</strong></p>



<p>Do ponto de vista da economia como um todo, a redução de jornada é quase sempre benéfica para todo mundo, para quem trabalha e para quem emprega. A questão do empregador que fica temeroso em relação a isso é porque tem uma visão fragmentada. O empresário tem um campo visual que é somente do negócio dele. Então, ele bota tudo no papel, faz a contabilidade e fala &#8220;isso aqui vai me custar tanto&#8221;. </p>



<p>Mas, do ponto de vista da economia como um todo — e aí é que entra a importância de uma gestão que tenha uma visão macroeconômica e que não compre a perspectiva micro do empresário —, se considera que, se você diminui a jornada, embora num primeiro momento aparentemente você vai ter uma pressão em cima dos empregadores, isso logo é compensado. Isso acontece porque aquele tempo disponível maior da força de trabalho corresponde à dinamização de outros serviços, que vão gerar outros empregos e vão aumentar a massa salarial. <br><br>A redução da jornada de trabalho aumenta o número de pessoas empregadas e aumenta assim a massa salarial como um todo, o que beneficia todo mundo que vende nessa economia, todo mundo que produz e vende, que é o caso do comércio, dos serviços, da indústria. A economia brasileira ainda tem, em grande medida, um dinamismo tecnológico baixo. Ou seja, ela é muito intensiva na mão de obra, como serviços de atendimento, do comércio, de apoio à indústria, etc. Tudo isso é mão de obra intensiva. Ao diminuir a jornada, aumentando a entrada de pessoas no mercado de trabalho, dinamiza como um todo a economia. A tendência no médio e longo prazo é o salário médio aumentar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-intima-relacao-entre-o-trabalho-precarizado-e-o-sofrimento-psiquico/" class="titulo">A íntima relação entre o trabalho precarizado e o sofrimento psíquico</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/trabalho/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Trabalho</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Diminuir a jornada pode ser uma medida para se diminuir também o desemprego?</strong></p>



<p>Sim, porque você facilita a absorção de uma massa maior de pessoas. Quando você diminui o desemprego, a tendência, como você tem uma oferta menor de mão de obra ociosa no mercado, é o valor da mão de obra ir subindo. Por quê? Porque, se eu emprego você sabendo que tem 10 pessoas lá fora querendo o seu lugar, a tendência é eu diminuir o salário. Agora, se tem pouca disponibilidade de força de trabalho lá fora, aí você quem está com a bola, você fica mais valorizado. Porque, inclusive, você não precisa se submeter às más condições de trabalho.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">A resistência à diminuição da jornada é mais de natureza política, de natureza disciplinar do capitalista, do que propriamente econômica</p>
</div>


<p><strong>Isso ajuda os trabalhadores a terem mais poder nessa barganha, não é?</strong></p>



<p>Sim, você não precisa se submeter às condições que eu coloco para você unilateralmente. Você pode sair porque tem oferta de trabalho em outros lugares. Ou seja, isso favorece quem vive de salário, a classe trabalhadora. E talvez seja aí um ponto delicado que explica a resistência dos empresários à redução da jornada. Porque, veja, eu disse agora mesmo que, do ponto de vista do giro da economia, isso favorece a todo mundo no médio prazo. Você vai vender mais porque tem mais gente com renda para consumo. </p>



<p>Então, o capitalista deveria gostar disso. O empresário deveria gostar disso. Por que ele não gosta? Porque, não só no início que ele fica temeroso de ter que gastar mais com contratação, mas principalmente porque, se o emprego está muito alto, o desemprego está baixo, o poder dele sobre os seus funcionários no âmbito da sua empresa, do seu negócio, tende a diminuir. Porque a classe trabalhadora fica mais fortalecida quando você tem um desemprego baixo. </p>



<p>Ou seja, a resistência à diminuição da jornada é mais de natureza política, de natureza disciplinar do capitalista, do que propriamente econômica. Porque economicamente vai aumentar no médio prazo o número de vendas, o volume de vendas e de lucro do capitalista. Mas vai diminuir essa ingerência do capitalista sobre a gestão da força de trabalho dele, porque o trabalhador vai ficar mais fortalecido em termos estruturais.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">A sociedade do trabalho que temos é uma sociedade do trabalho adoecida. Física e, principalmente, mentalmente</p>
</div>


<p><strong>Pelo outro lado, o trabalhador na escala 6&#215;1, cansado, também favorece o capitalismo? Porque esses trabalhadores tão cansados não vão ter nem forças pra tentar lutar pelos seus direitos.</strong></p>



<p>De fato, fica todo mundo exausto, estressado. A escala 6&#215;1 massacra todo mundo em geral, deixa todo mundo cansado, extenuado. Mas em particular, mulheres, e mulheres negras, que acumulam, muitas vezes, com o trabalho do cuidado e o trabalho doméstico. As pessoas ficam mais preocupadas em descansar no pouco tempo disponível que têm. A sociedade do trabalho que temos é uma sociedade do trabalho adoecida. Física e, principalmente, mentalmente. </p>



<p>O alto consumo de psicotrópicos e de medicamentos psiquiátricos é para dar conta das demandas, para conseguir suportar. Então, não deixa de ser uma forma de manter as coisas estabilizadas através de você manter todo mundo exausto o tempo todo. E eu acho que é por isso mesmo que você tem esse movimento grande na luta pela mudança dessa escala. Porque o pessoal está cansado de estar cansado.</p>



<p><strong>Em 1988, a Constituição reduziu o tempo máximo de trabalho de 48 para as atuais 44 horas semanais. Em alguns países ricos, está se adotando a semana 4&#215;3. Isso pode virar uma tendência mundial?</strong></p>



<p>Bom, aqui é mais difícil por algumas razões. É mais fácil nos países desenvolvidos, primeiro, porque os salários médios são mais altos. O que diminui, por exemplo, a tentação entre os trabalhadores de pegar hora extra não é tão necessário. O salário baixo daqui é o primeiro obstáculo. O segundo obstáculo é a resistência patronal, que é mais forte aqui do que lá. Porque, assim, ela é proporcional à resistência da classe trabalhadora, falando aqui da força do movimento sindical. </p>



<p>Esse é um fator que pode dificultar: quão forte ou quão enfraquecido está o nosso movimento sindical para poder levar essa luta adiante? Esses seriam os principais obstáculos para o sucesso dessa medida. Entre os próprios trabalhadores pode ter uma resistência porque, como o salário é baixo, ele fica mais tentado a adotar a hora extra para aumentar o rendimento, ainda que a médio prazo com a redução da jornada a tendência geral é o salário médio aumentar. </p>



<p>Temos no Brasil ainda um outro fator, que é a informalidade muito elevada no nosso mercado de trabalho. A lei atenderia quem está no mercado formal. Ou seja, entre 40% e 50% da população que está economicamente ativa ficaria de fora disso, porque é uma massa que trabalha à revelia da lei trabalhista.</p>



<p><strong>E poderia até gerar mais informalidade? Ao invés de contratar como CLT, as empresas poderiam contratar como PJ?</strong></p>



<p>O aumento da informalidade é um risco, sim, principalmente nos setores econômicos e nos estabelecimentos econômicos menores. Nas grandes indústrias, nas grandes empresas, a informalização é mais difícil de acontecer. No capitalismo, a tendência é sempre ir aumentando o tamanho das empresas. E a empresa maior fica mais obrigada a obedecer vários tipos de normas e regulamentos. Tem mais fiscalização. </p>



<p>Temos que também ter em mente que essa <em>pejotização</em>, essa <em>MEIização</em> da força de trabalho já é um processo que marcha há bastante tempo. Esse é um obstáculo sério, mas a gente também pode ver por um outro lado. Uma vez que você tem uma quantidade significativa de pessoas no mercado de trabalho que são celetistas, se a redução de jornada virar lei, os efeitos benéficos passam a ser percebidos socialmente. Na verdade, eu acho que isso poderia gerar um movimento de contrafluxo em relação à tendência anterior, de <em>pejotização</em>. Os trabalhadores começariam a pressionar para voltar para o sistema anterior, para o sistema celetista.</p>



<p><strong>Como é que esse enfraquecimento dos sindicatos, principalmente depois da reforma de Temer, influencia na garantia dos direitos dos trabalhadores?</strong></p>



<p>O movimento sindical sempre foi, na história do capitalismo, um fator de defesa dos interesses imediatos da classe trabalhadora e que, inclusive, tem impactos econômicos. Porque se o sindicato está lá para defender uma remuneração mínima ou então um aumento da remuneração, há um efeito econômico. Isso não afeta positivamente só a vida do trabalhador individual, mas afeta também positivamente a economia como um todo. </p>



<p>O movimento sindical tem essa dupla dimensão. No Brasil, historicamente, o sindicalismo é dificultado no seu processo de fortalecimento. Primeiro, porque a nossa economia tem um dinamismo muito baixo. Então, são muitas ocupações precárias. E onde você tem ocupação precária, você vai ter também uma dificuldade maior de construção de movimentos operários, movimentos trabalhadores organizados. Estou dizendo que é difícil sim, impossível não. Tanto é que a gente vê já, por exemplo, nos segmentos de pessoas que trabalham com aplicativos de entrega, de transporte passageiro, uma organização surgindo. Isso é uma tendência, o pessoal leva aquela lapada do capital, aí sofre, depois vai se organizando para resistir. </p>



<p><strong>Você está otimista com esse movimento agora dessa PEC, com essas questões de trabalho voltando a serem discutidas?</strong></p>



<p>Eu primeiro fiquei surpreso com a repercussão. Aliás, positivamente surpreso. E também serve como um indicador de que, como falamos aqui no início, a questão do trabalho no mundo moderno está sempre colocada, a importância dele não pode ser nunca minimizada e uma prova está aí, que as pessoas estão entrando nessa discussão. Me parece que tem muita gente a favor da medida, justamente porque não é necessário você trabalhar tanto, nem mesmo do ponto de vista da produção da riqueza, porque, se você aumenta a produtividade da economia, você produz mais ou tanto quanto produzia antes em menos tempo, o que libera mais tempo para você poder descansar, tomar conta das outras esferas da vida, ficar com a família, se divertir, etc.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Está sendo discutido e repercutido, e isso é importante para pensar o que essa sociedade do cansaço procura nos negar: o direito de ficar refletindo sobre a vida, sobre o que a gente quer e o que a gente não quer. </p>
</div>


<p>Ou inclusive se informar, se instruir, porque o avanço dos sistemas informatizados uma hora chegará em todo lugar. Isso nos coloca um desafio: temos que ir atrás daquilo que não pode ser substituído por uma máquina, ou por um algoritmo, ou por um sistema de inteligência artificial. O que é humano no processo e que realmente não pode ser reproduzido? A nossa capacidade como artífices, a nossa capacidade inventiva, a nossa capacidade criativa, aquilo que faz a humanidade ser o que é. Nós somos uma espécie que inventa e se reinventa o tempo todo. Robô nenhum vai fazer isso. Nenhum sistema de inteligência artificial é capaz de pensar como nós somos capazes de pensar.</p>



<p>A despeito dos obstáculos para a PEC passar, eu acredito que, em algum momento, vai acabar passando, porque o mundo anda, as economias mais desenvolvidas seguem avançando e as influências disso chegam para nós. Temos razões para ficarmos otimistas, pelo menos em relação a ter jogo. Está sendo discutido e repercutido, e isso é importante para pensar o que essa sociedade do cansaço procura nos negar: o direito de ficar refletindo sobre a vida, sobre o que a gente quer e o que a gente não quer. Eu acho que essa PEC já teve um ponto positivo, só de ter acendido uma lâmpada na cabeça de muita gente: “é realmente necessário que eu trabalhe seis dias? Não dá para ser diferente?”. Isso já é alguma coisa e não é pouca coisa.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/reducao-da-jornada-de-trabalho-a-resistencia-e-mais-politica-do-que-economica-diz-sociologo/">Redução da jornada de trabalho: &#8220;a resistência é mais política do que econômica&#8221;, diz sociólogo</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/reducao-da-jornada-de-trabalho-a-resistencia-e-mais-politica-do-que-economica-diz-sociologo/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
