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	<title>Arquivos Abayomi Juristas Negras - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Abayomi Juristas Negras - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>O coletivo de juristas negras que quer promover justiça para o povo negro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Nov 2019 18:41:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ao perceber que a balança da Justiça nem sempre equilibra as desigualdades raciais que constituem a sociedade brasileira, um grupo de advogadas negras decidiu transformar esta realidade. Abayomi, palavra iorubá, significa “encontro precioso”. E foi assim, em um encontro precioso de mulheres que se viam isoladas no universo branco da justiça brasileira, que cerca de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ao perceber que a balança da Justiça nem sempre equilibra as 
desigualdades raciais que constituem a sociedade brasileira, um grupo de
 advogadas negras decidiu transformar esta realidade. Abayomi, palavra 
iorubá, significa “encontro precioso”. E foi assim, em um encontro 
precioso de mulheres que se viam isoladas no universo branco da justiça 
brasileira, que cerca de 15 advogadas e juristas se conhecerem e criaram
 o coletivo Abayomi Juristas Negras.</p>



<p>Em busca de aproximar a Justiça da deusa grega Themis – divindade 
símbolo do sistema judiciário ocidental – à Justiça de Xangô, orixá 
cultuado com nomes distintos em religiões de matriz africana, as 
advogadas que constroem o coletivo pretendem entrar no sistema 
judiciário e, de dentro, promoverem mudanças que caminhem para a justiça
 racial.</p>



<p>Segundo a procuradora federal Chiara Ramos, uma das idealizadoras do 
Abayomi, existe um pacto de silêncio que favorece a manutenção do 
racismo institucional no sistema judiciário e também “embranquece” as 
pessoas negras que se inserem nesse universo. Sozinhas ou sem 
consciência de como a questão racial é uma das engrenagens da 
desigualdade e injustiça fica muito mais difícil transformar, de fato, 
as estruturas.</p>



<p>A mudança de paradigma que propõem, explica a procuradora Chiara, é 
ampliar a percepção individualista da justiça europeia para uma 
compreensão coletiva da justiça. “Quando uma mulher negra consciente de 
raça ocupa um lugar de poder, ela tem possibilidade de gerar maior 
impacto nas suas decisões. O direito é muito mais do que lei, tanto é 
que temos uma constituição que diz que o racismo é inafiançável, 
imprescritível, mas, no Brasil, 70% dos casos de racismo são decididos 
favoráveis ao réu”, argumenta.</p>



<p>Para ela, esse fato é consequência do que ela chama de hermenêutica 
da branquitude – hermenêutica é uma ciência que estuda a interpretação 
no direito. “Uma hermenêutica que não sabe o que é ser chamado de 
macaco, o quanto isso é dilacerante, que diz que isso é só uma 
brincadeira. Esse tipo de racismo recreativo que o judiciário ignora 
acaba inocentando as pessoas racistas. Hoje, no Brasil, não temos 
nenhuma pessoa presa por racismo”, explica, e complementa que “isso é 
questão de interpretação. Se você falar de política de encarceramento em
 massa da população negra, por exemplo, precisa pensar que uma juíza 
negra consciente de raça jamais deixaria Renan da Penha preso”.</p>



<p>É por isso que o coletivo se dedica a formar pessoas para ocuparem  espaços de poder dentro da estrutura do judiciário brasileiro. “A nossa  militância dentro do judiciário é por respeito, inclusão. Nós é que  podemos trazer a igualdade, de fato”, defende Patrícia Oliveira,  integrante do coletivo e responsável pelas relações institucionais.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Excelência negra</h3>



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	                                        <p class="m-0">A procuradora federal Chiara Ramos, uma das fundadoras do Abayomi</p>
	                
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<p>A principal estratégia do coletivo é a formação e preparação para  concursos públicos, com foco em cargos no sistema judiciário. A primeira  turma tem 10 pessoas, incluindo dois homens negros. A experiência de  Chiara como professora de concursos é o pilar dessa estratégia. Ela  desenvolveu um método de aprovação a partir da própria experiência de  estudar sozinha, com condições extremamente difíceis, mas que garantiu  que ela ocupe hoje uma vaga como procuradora federal da Advocacia Geral da União.</p>



<p>No método criado por Chiara, a primeira turma em Rondônia teve 100% 
de aprovação. Agora, no Recife, apenas com pessoas negras, o objetivo 
não é menos que aprovar todas e todos. O grupo se reúne de uma a duas 
vezes por mês e funciona com a lógica do apoio mútuo e não da 
competição. “As pessoas estudam em casa de acordo com essa métrica de 
fazer questões, fazer leituras e depois fazer mais questões. Também 
simulamos todas as etapas de prova e depois elas se reúnem para discutir
 e debates os temas que estudaram sozinhos, fazer dinâmicas e se apoiar 
mutuamente. Porque o estudo para concurso é muito solitário. Aí é que 
entra a força do grupo”, explica.</p>



<p>“Sempre tive consciência de ser negra, mas não de entender o que 
seria meu papel”, conta&nbsp; Chiara, que é natural do município de Palmares,
 na Mata Sul de Pernambuco. Foi no doutorado, na Itália, que sentiu na 
prática o racismo institucional, além do machismo.</p>



<p>De volta ao Brasil, ela assumiu um cargo de direção na escola  nacional da Advocacia Geral da União (AGU). “Dividi a direção com Paulo  Fernando Soares Pereira, doutor em direito pela UnB e procurador  federal. Ele é um negro que já estava num processo muito intenso de  pesquisa sobre a negritude, de consciência racial. Ele é o único  procurador black power do brasil e vem de Pinheiro, no interior do  Maranhão, uma das cidades mais pobres do estado mais pobre”, relembra.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Ubuntu e quilombismo</strong></h3>



<p> Foi esse encontro precioso, mais uma vez, que contribuiu para a  trajetória da procuradora. “Mas é a história dos negros únicos, nós  víamos o quanto nós éramos exceção. As outras pessoas estavam sempre  questionando o que estávamos fazendo ali, questionando o que uma mulher  negra, nordestina, jovem estava fazendo ali”, conta. Essa experiência  influenciou seu desejo de se reencontrar e contribuir para  transformações estruturais em coletivo. </p>



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	                                        <p class="m-0"> Coletivo Abayomi Juristas Negras em evento na OAB Pernambuco. Foto: Renieri Natura </p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A filosofia africana ubuntu, baseada no respeito e solidariedade, é 
um dos pilares do Abayomi Juristas Negras. No Brasil, o sentido do 
Ubuntu se popularizou com a ideia “eu sou porque nós somos”, que remete à
 lógica da coletividade como força e essência.</p>



<p>Para as mulheres que fazem parte do coletivo, é tanto uma 
oportunidade de crescerem profissionalmente como reestabelecer contato 
com a ancestralidade negra, africana, em um ambiente de fortalecimento 
em vez de competição. O perfil do grupo é jovem, com integrantes de 27 
aos 40 anos. Todas advogadas já formadas, a maioria vem de realidades 
periféricas no meio urbano. uma integrante é quilombola, do Quilombo de 
Catucá, em Camaragibe.</p>



<p>A integrante do coletivo Juliana Ferreira, que também faz parte da  Comissão de Igualdade Racial da OAB Pernambuco, apresenta também a ideia  de quilombismo que orienta o trabalho.”O quilombismo tem a ver com  pertencimento”, explica. Para ela, além de participar da turma de  estudos, compor o grupo a ajuda a resgatar a própria identidade e também  a afirmar com segurança sua negritude. “É curioso que hoje eu chegue na  OAB e, na portaria, as pessoas já perguntem se eu viria para essa  reunião. As pessoas deduziram que por ser negra estaríamos juntas”,  conta.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Afirmação da estética negra</strong></h4>



<p>Se, por um lado, o reconhecimento fortalece as mulheres, por outro é  cansativo ser sempre vista com olhares de estranhamento, de exotização.  Sabendo disso, a preocupação do coletivo é também afirmar a estética  negra em sua diversidade e colorido para desobstruir o olhar racista  sobre as mulheres. Ao entrar na OAB Pernambuco, por exemplo, as roupas  coloridas com tecidos africanos ganham projeção de altivez pelos  corredores brancos e indiferentes.</p>



<p>Pensando nisso, um ponto forte da atuação do Abayomi tem a ver com a  imagem e autoestima das integrantes. Se o ambiente jurídico pode ser  opressor para as mulheres em geral, com a necessidade de estarem sempre  impecáveis sob a perspectiva branca e machista, as abayomis advogadas  optam por trançar os cabelos, usar maquiagens que valorizam a pele negra  e roupas que remetem à ancestralidade africana.</p>



<p>O coletivo considera, por isso, que além das advogadas, as parceiras  trancistas, maquiadoras, da comunicação também fazem parte do coletivo.  Ao todo, contabilizam 45 pessoas envolvidas no fortalecimento mútuo das  mulheres.</p>



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	                                        <p class="m-0"> Encontro do Abayomi Juristas Negras. Foto: Luana Cruz </p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"> Direito Antidiscriminatório </h4>



<p>É com essa perspectiva de crescimento coletivo que o Abayomi Juristas
 Negras realiza, no dia 25 de novembro, um evento sobre Direito 
Antidiscriminatório. O evento, considerado pelo coletivo como uma 
expressão jurídica, política e social, tem o objetivo de construir 
propostas e compartilhar conhecimento entre mulheres e homens negros 
ligados ao universo da Justiça. Para custear o evento, estão realizando 
crowdfunding, com uma <a href="https://www.vakinha.com.br/vaquinha/criacao-do-instituto-brasileiro-de-direito-antidiscriminatorio?utm_campaign=whatsapp&amp;utm_content=762104&amp;utm_medium=website&amp;utm_source=social-shares">vakinha de doações</a>.</p>



<p>Como meta, elas têm a intenção de criar o Instituto Brasileiro de 
Direito Antidiscriminatório em 2020, outra oportunidade de ampliar o 
trabalho iniciado e fortalecer as estratégias para fazer da Justiça 
brasileira menos racista.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-coletivo-de-juristas-negras-que-quer-promover-justica-para-o-povo-negro/">O coletivo de juristas negras que quer promover justiça para o povo negro</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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