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	<title>Arquivos artista de rua - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos artista de rua - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Os sonhos da ginasta da Torre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Aug 2024 19:41:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artista de rua]]></category>
		<category><![CDATA[ginástica rítmica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem passa pelos semáforos das ruas Conde de Irajá e Real da Torre, no bairro da Torre, já viu um pouquinho de ginástica rítmica. Há três anos e meio, a artista de rua e baliza de bandas marciais Priscilla Tawanny, 25 anos, faz das faixas de pedestres daquele cruzamento seu ginásio a céu aberto. Com [&#8230;]</p>
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<p>Quem passa pelos semáforos das ruas Conde de Irajá e Real da Torre, no bairro da Torre, já viu um pouquinho de ginástica rítmica. Há três anos e meio, a artista de rua e baliza de bandas marciais Priscilla Tawanny, 25 anos, faz das faixas de pedestres daquele cruzamento seu ginásio a céu aberto. Com <em>collant</em> decorado com rendas, Priscilla coloca no fone as trilhas sonoras da rotina de apresentação das suas ídolas da ginástica – a brasileira Angélica Kvieczynski e a italiana Sofia Raffaeli – e faz acrobacias nos sinais vermelhos.</p>



<p>É com um X marcado com giz nas faixas de pedestres que Priscilla sabe o meio do seu palco, para exatos 50 segundos de apresentação – o tempo que o sinal fica fechado. Geralmente se apresenta com um arco. “O pessoal que passa já conhece o arco, que é um acessório da ginástica rítmica. Todo mundo passa e diz ‘ah, a menina do bambolê’. Esse ano eu consegui comprar um par de massas conectáveis, que também é da ginástica. Eu venho treinando pra tentar trazer pra cá pra rua também”, conta Priscilla.</p>



<p>A paixão pela ginástica começou na adolescência. “Eu acho que eu tinha uns 12, 13 anos de idade e comecei a ver as competições pelo YouTube e achava tudo muito bonito. Sempre foi uma modalidade que me pegou bastante. Eu procurava muito na internet, ia pra lan house pra assistir as competições”, lembra.</p>



<p>Como não tinha acesso a treinamentos nem aos acessórios, o jeito era improvisar. “Tentava repetir as acrobacias que via na internet no beco da casa da minha mãe, no Vasco da Gama. Eu lembro que a minha primeira bola de ginástica rítmica, era uma bola de futebol. Eu diminuí, murchei a bola, e tentei encaixar nas acrobacias. Onde minha mãe mora inclusive é uma ladeira e aí às vezes, o acessório caía, descia a ladeira, e eu saía correndo pra algum lugar”, conta.</p>



<p>Quando chegava as Olimpíadas, Priscilla parava tudo para ver a ginástica. “Acompanhei muito a Angélica Kvieczynski, sempre fui muito, muito fã dela. E esse ano a gente conseguiu uma vaga olímpica no individual, pela primeira vez, com Bárbara Domingos”, comemora. Nessa Olimpíada, segue acompanhando as competições da ginástica pelo celular, entre um sinal fechado e outro.</p>



<p>Priscilla acredita que se tivesse tido acesso às aulas de ginástica ritmíca na infância, sua vida poderia ter sido bem diferente. “Só pelo fato de eu amar muito esse esporte. Falta um investimento, falta o governo olhar para esse esporte como ele merece ser visto, é uma categoria tão linda. É um esporte tão lindo, tão admirável. As meninas treinam oito horas por dia, dez horas por dia para apresentar um minuto e meio em cada série. Tem que amar muito esporte”, diz.</p>



<p>Além dos sinais, o sonho da ginástica se realiza também nas bandas marciais, onde Priscilla é baliza. É das competições, por exemplo, que ela traz os <em>collants</em> que usa nas apresentações nas ruas. “Tem os meus amigos estilistas, que ajudam muito. Porque eu dependo daqui dos sinais, é o que paga minhas contas. Então às vezes eu só consigo fazer o dinheiro do figurino dois dias antes da competição. E é uma correria, noites acordadas para terminar as roupas”, conta. O dinheiro dos sinais é instável: às vezes trabalha o dia todo e não consegue R$ 20, outras vezes recebe R$ 100, R$ 150 no dia.</p>



<p>Priscilla não recebe dinheiro para participar das competições das bandas marciais, nem quando ganha prêmio como melhor baliza. “Eu acho que não tem troféu maior no mundo que o reconhecimento do público”, pondera ela, que também marca presença nos desfiles de 7 de Setembro, quando sai pela Escola Conde Pereira Carneiro, de São Lourenço da Mata.</p>



<p>De terça-feira a domingo, Priscilla fica nos semáforos das 8h às 17h. “Não consigo sair daqui, porque se eu saio o povo me cobra. Eu acabei criando um vínculo, tanto com as crianças quanto com os idosos que passam e me fazem um bem tão grande”, diz ela.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/ginasta-2.jpg" alt="A foto mostra Priscilla Tawanny, mulher negra e jovem em um ambiente externo durante o dia, segurando duas balizas de banda marcial. A pessoa está vestida com uma fantasia elaborada, adornada com lantejoulas e miçangas que criam padrões intrincados e brilham à luz. A fantasia inclui mangas longas e cobre totalmente o torso, sugerindo que pode fazer parte de uma roupa de carnaval ou festiva. Ao fundo, há carros estacionados e árvores," class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Priscilla sonhou em ser ginasta, mas hoje tira seu sustento do que recebe nos semáforos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Entre uma pergunta e outra da entrevista para essa matéria, Priscilla recebe vários acenos e “bom dia” das pessoas que passam pelas ruas e também das que estão nos carros. Mas também já sofreu preconceito e ameaças. “Mas tento levar sempre só o que é bom”, releva.</p>



<p>As apresentações nos semáforos são seu único meio de vida. Quando sofreu uma lesão em 2022 e ficou um mês e meio sem poder fazer as acrobacias nos sinais, moradores da Torre se juntaram para ajudar com doações. “Vi que ela estava sem poder trabalhar no <a href="https://www.instagram.com/torrenoticias?igsh=cmg3Z2o4ajBjbG5k" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Torre Notícias</a> e fiz minha contribuição. Gosto muito de Priscilla, ela é querida por todos aqui no bairro. O que ela faz é muito bonito”, diz Verônica Belo, uma das moradoras do bairro que apoiam o trabalho da artista.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Nome retificado e campeã invicta da baliza trans</h2>



<p>Priscilla Tawanni foi a primeira campeã da categoria baliza trans da Copa Pernambucana de Bandas e Fanfarras, categoria criada em 2021. Antes, ela tinha que desfilar de macacão e concorria na categoria masculina. “Era um constrangimento. Mas a competição está evoluindo a cada ano. De lá pra cá, graças a Deus, venho sendo a campeã da categoria trans”, comemora a tricampeã que, na última edição do evento, concorreu com outras 12 mulheres trans.</p>



<p>“A final do ano passado do concurso aconteceu agora em junho, porque o governo não liberou a verba para a copa acontecer no ano passado, só liberou esse ano. Aí agora em agosto vai começar outra copa. a de 2024. Atrasou tudo”, reclama.</p>



<p>No começo da pandemia, Priscilla foi abordada no semáforo pela Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans (Natrape). “Através da associação, consegui cestas básicas nos momentos mais difíceis da pandemia”, agradece. Foi também pelas orientações da Natrape que Priscilla conseguiu fazer a retificação do seu nome: Priscilla do Nascimento é como está na carteira de identidade.</p>



<p>Outro ponto de orgulho para Priscilla é estar viva e trabalhando. “Sabemos que muitas mulheres trans e travestis morrem muito cedo, a expectativa de vida é de cerca de 30 anos. Outra ponto é que muitas meninas acabam indo para a prostituição. Estou muito feliz que não estou em nenhuma dessas duas estatísticas”.</p>


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        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Para quem quiser apoiar o trabalho de Priscilla, o pix dela é o CPF 132.426.784-43</p>
    </div>



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		<title>Ainda há tempo no Beco do Poeta Japa Rua</title>
		<link>https://marcozero.org/ainda-ha-tempo-no-beco-do-poeta-japa-rua/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Jan 2022 23:10:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[artista de rua]]></category>
		<category><![CDATA[Japa]]></category>
		<category><![CDATA[poeta]]></category>
		<category><![CDATA[rua Mamede Simões]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência no Recife]]></category>
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<p>“A arte mata a morte”, disse o amigo no microfone como forma de acalanto. “E sustenta a vida”, respondi em pensamento. Nessa sexta-feira, 21 de janeiro, eu tive a difícil e importante missão de acompanhar o sarau que amigos e familiares prepararam em homenagem ao poeta Japa Rua, assassinado há duas semanas. Escolhi ser o menos formal possível porque o que eu vi e ouvi não cabe em um texto jornalístico, objetivo e puramente informativo. É preciso sentir e refletir sobre o que se sente.</p>



<p>Quando um artista morre a gente se apega às suas obras para dar um novo sentido à dor. Há poucos dias sentimos isso com a morte da divina Elza Soares. A partida da artista, aos 91 anos, nos trouxe uma grande sensação de perda, ainda que a sua trajetória tenha sido intensa e seu acervo enorme. Mesmo tendo uma vida dura e sofrida, atravessada por violências machistas e racistas, Elza fez história e foi reconhecida pela sua arte, e sabe por quê? Ela teve tempo! Isso mesmo: tempo. O mesmo tempo que foi roubado de Japa, aos 25 anos.</p>



<p>Se, aos 25 anos de idade, o poeta reuniu dezenas de amigos e admiradores de sua arte, e causou uma mobilização que uniu diversos movimentos culturais e sociais para homenageá-lo, o quão grandioso Japa seria se tivesse mais 10, 20, 30, 40 anos pela frente?</p>



<p>Eis que penso na diferença que existe entre partir e ser partido pela violência. E penso também o que separa aqueles que conseguem sobreviver dos que morrem cedo demais. Sorte? Destino? Divindades? Na grande maioria das vezes a resposta está na cor da pele, no gênero, na sexualidade, no endereço, na condição financeira, na maneira de se vestir ou de falar… Imposições estruturais e estruturantes de um país fundado no colonialismo patriarcal e branco.</p>



<p>Depois de ouvir tantas palavras bonitas dos amigos de Japa e chorar junto com eles a morte de mais um jovem negro que tinha tudo para ser (e foi) uma referência de artista para os seus semelhantes, ficou a dor, a revolta, mas ficou, sobretudo, a certeza de que algumas pessoas são tão representativas que se tornam fundamentais após a morte.</p>



<p>Como uma memória póstuma, Japa deixou poemas inacabados, que graças ao esforço de seus amigos foram encontrados em seu antigo celular. O último poema a ser finalizado pelo artista foi enviado em vídeo para uma amiga. Com sua métrica única, Japa recitou e refletiu justamente sobre o nosso tempo na terra e como ele deveria ser utilizado por algo bem maior e mais importante do que todas as futilidades dos bens materiais: o amor. E como quem carregava sonhos e planos, o poeta defendeu o futuro, mas sem esquecer da importância do presente.</p>



<p>Todos ouvimos atentos as palavras de Japa, que saíam de um celular que estava posicionado em frente ao microfone onde os amigos prestavam suas homenagens. Estava ali mais um fascínio de quem é artista: o poder de se presentificar na arte. Igual a ouvir uma música de Elza e sentir que ela ainda está entre nós.</p>



<p>Para retribuir tanto amor, que continua sendo recebido mesmo depois da morte, os companheiros e companheiras do jovem artista determinaram que a rua Bulhões Marques agora será conhecida como Beco do Poeta Japa Rua.Foi lá que os amigos o homenagearam, e não no local de sua morte, por ser o lugar onde o poeta se sentia confortável.</p>



<p>Assim, todas as pessoas que passarem pela rua e encontrarem a placa que está grudada na parede da esquina saberão que por ali esteve, e se eternizou, um grande poeta e, quem sabe dessa forma, o tempo que lhe foi roubado pela violência possa se tornar menos penoso.</p>



<p></p>





<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do<a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do<a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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</blockquote>
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