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	<title>Arquivos BBC - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 27 Jun 2022 18:49:10 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos BBC - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Ao falar que “A Amazônia é nossa”, Bolsonaro diz que “A Amazônia é do crime”, afirma jornalista britânica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jun 2022 19:47:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A jornalista inglesa Jan Rocha veio ao Brasil pela primeira vez em 1964, após assistir uma palestra em seu país sobre a Amazônia. Tinha 24 anos e voltou pra casa sabendo que voltaria, e que acabaria&#160; morando aqui. Em 1969, retornou, para sempre. Casou com o gaúcho Plauto Rocha e teve três filhos: Camilo, Ali [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A jornalista inglesa Jan Rocha veio ao Brasil pela primeira vez em 1964, após assistir uma palestra em seu país sobre a Amazônia. Tinha 24 anos e voltou pra casa sabendo que voltaria, e que acabaria&nbsp; morando aqui. Em 1969, retornou, para sempre. Casou com o gaúcho Plauto Rocha e teve três filhos: Camilo, Ali e Bruna, que tiveram que dividir a mãe com a sua grande paixão: o jornalismo, e suas intermináveis viagens por todo o território brasileiro, especialmente pela Amazônia.</p>



<p>Desde 1973, quando virou correspondente da BBC de Londres, Jan vem percorrendo o Brasil atrás de personagens e histórias que mostrem o Brasil que muitas vezes não aparece sequer no noticiário brasileiro, muito menos no exterior. Passou vinte anos na BBC, retratados no livro <em>Nossa correspondente informa: Notícias da ditadura brasileira na BBC de Londres: 1973-1985</em>) e depois emendou&nbsp; dez anos escrevendo reportagens de fôlego para o jornal The Guardian.</p>



<p>Escrever sobre a floresta Amazônica, índios, indigenistas, garimpos, violência, viajar em busca de informações que possam mostrar ao mundo a realidade brasileira, faz parte de sua vida até hoje.&nbsp; Pelo seu trabalho, recebeu ligações desaforadas, mas nunca foi ameaçada de morte. Nem&nbsp; mesmo durante a Ditadura.</p>



<p>Nesta entrevista para a Marco Zero, a correspondente inglesa fala sobre seu trabalho jornalístico, o impacto emocional que sentiu ao saber da morte do também jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, no Vale do Javari, a emoção ao assistir à chegada dos restos mortais de ambos em Brasília, a relação do garimpo com a política, e diz que o presidente Jair Bolsonaro, ao dizer que “A Amazônia é nossa&#8221;, está, na verdade, dizendo que “a Amazônia é do crime”.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/jornalista-inglesa-que-venceu-a-censura-dos-militares-mostra-que-pauta-de-bolsonaro-e-a-mesma-da-ditadura/" class="titulo">Jornalista inglesa que venceu a censura dos militares mostra que pauta de Bolsonaro é a mesma da ditadura</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
            
		            </div>
	            </div>
        </div>

		


<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero: <strong>Qual foi o teu sentimento ao saber da morte do Bruno Pereira e do Dom&nbsp; Phillips?</strong></p>



<p><strong>Jan Rocha</strong>: O que eu senti quando vi a Policia Federal trazendo aqueles sacos plásticos pretos, sabendo que dentro deles tinha os restos, os restos de duas pessoas tão legais, tão dedicadas, pessoas vivendo, fazendo as&nbsp; coisas, tão vibrantes, o Bruno com dois filhos pequenos,&nbsp; dois homens tão queridos, e ver eles chegando daquele jeito, dentro de sacos plásticos pretos, nem mais corpos, mas restos… me deu uma revolta muito grande, mas uma enorme tristeza…</p>



<p><strong>Algo que ficou muito evidente, na atuação das forças de segurança, foi uma tentativa de esconder a importância da atuação dos indígenas do Vale do Javari no esclarecimento do crime. Como você viu isso?&nbsp;</strong></p>



<p>Ver aquela coletiva de Imprensa, em Manaus, que tem aquela fila de gente de uniforme,&nbsp; militares, bombeiros, policiais, e nenhum, nenhum representante da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), que na verdade liderou as buscas e foi quem sempre achou as coisas… O fato é que eles simplesmente foram excluídos,&nbsp; como se não tivessem feito nada de importante. Na verdade, era um exemplo do desprezo, da desconsideração&nbsp; e da ignorância das autoridades brasileiras com relação aos indígenas.&nbsp;</p>



<p>Todos os comentários feitos por Bolsonaro, e agora Mourão, mostram sua ignorância deliberada sobre a contribuição dos povos indígenas.</p>



<p>O Bolsonaro continua falando deles como uma espécie de “subespécie”, que vive como selvagens, e que seria muito melhor para eles serem incorporados à sociedade branca,&nbsp; apesar de sabermos, e toda a história mostra, que quando os povos são incorporados, é sempre no nível mais baixo. Para ser empregado, para ser peão, para ser sujeito a todos os vícios da periferia.</p>



<p>Esse é o destino que eles querem para os povos indígenas. Não querem povos independentes, capazes, mostrando que são pessoas humanas normais, muitas vezes superiores aos brancos, certamente muito superiores ao Bolsonaro, em termos de inteligência, capacidade e conhecimento. Porque eles têm este enorme conhecimento da Amazônia, que as autoridades querem simplesmente jogar fora, querem tripudiar em cima.</p>



<p>Então, realmente toda essa história de Dom e Bruno deu muita tristeza e muita revolta &#8211; em qualquer pessoa que conhece eles, que conheceu eles, e que conheça a Amazônia.&nbsp;</p>



<p><strong>Por outro lado, houve uma resposta ríspida do presidente da República ao Dom Phillips, quando ele fez uma pergunta sobre desmatamento na Amazônia,&nbsp; em 2019.</strong></p>



<p>Hoje vejo o que o presidente estava dizendo quando falou que “a Amazônia é nossa”. Nossa sendo o garimpo ilegal, madeira ilegal, grileiros, traficantes, etc. É deles, é “nossa”, não é de vocês.&nbsp;</p>



<p>E quando ele fala “vocês”, são os indigenistas, os próprios indígenas, as pessoas, as ONGs que trabalham para ajudar as comunidades,&nbsp; os ribeirinhos, os quilombolas, as pessoas que realmente vivem na Amazônia. Bolsonaro estava dizendo “A Amazônia não é de vocês. É do crime”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Policiais e militares fingiram ignorar o papel dos índígenas nas buscas. Crédito: Alberto César Araújo/Amazônia Real</p>
	                
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<p><strong>Como você vê a questão política, envolvendo a Amazônia?</strong></p>



<p>Esse é um dos problemas da Amazônia. É que os políticos eleitos, particularmente em Roraima, mas em outros estados também, na verdade são eleitos para defender interesses econômicos. Os interesses deles, muitas vezes ilegais e clandestinos. Clandestinos não, ilegais.</p>



<p>Fui para Roraima várias vezes. O meu interesse realmente era mostrar o terrível impacto nos Yanomamis de milhares de garimpeiros espalhando </p>



<p>doenças, prostituindo as meninas, alterando os costumes alimentícios etc.&nbsp;</p>



<p>Acabei publicando um livro sobre o tema [<em>Haximu: o massacre dos Yanomami e as suas consequências, </em>Editora Casa Amarela, 2007]. Foi um&nbsp; massacre que houve em 1993, cometido por garimpeiros. Foi a primeira vez que um tribunal brasileiro baixou um veredito de genocídio, por causa da matança de 16 indígenas, quase todos velhos, mulheres e crianças.</p>



<p>Antes disso, fui ao Acre para entrevistar Chico Mendes. Isso foi em 1987, um ano antes de ele ser morto. Era muito difícil encontrar com o Chico, porque ele estava vivendo meio clandestino. Mas finalmente, consegui encontrar com ele numa cidadezinha de fronteira, chamada Brasiléia. Eu o entrevistei sentado num banco de praça, eu com um microfone, e percebi que ele nunca olhava pra mim, olhava sempre para os lados. Aí percebi que ele estava esperando que alguém pudesse estar chegando com uma arma, para matá-lo. Aí percebi também que eu estava na linha de fogo… Infelizmente, um ano depois ele foi assassinado em casa.</p>



<p><strong>E o mundo do garimpo ilegal parece tem uma forte conexão com os políticos…</strong></p>



<p>Fui correspondente do The Guardian entre 1984 e 1994, mas continuei escrevendo sempre para a BBC. Fiz várias matérias sobre a Amazônia. Fui várias vezes a Roraima, para cobrir a questão dos garimpeiros, porque no fim dos anos 1980, houve uma invasão muito grande, em 1989 principalmente, estimaram 40 mil garimpeiros. Eu fui pra lá e queria ir para um lugar chamado Papuí, e tentei alugar um avião em Boa Vista, mas todos os pilotos me recusaram, com várias desculpas. Depois fiquei sabendo que o chefão dos garimpeiros, um senhor chamado Altino Machado, tinha proibido que qualquer piloto me levasse pra lá.</p>



<p>Hoje, esse mesmo Altino Machado é candidato a senador ou deputado federal, mas é candidato no Congresso. Ele continua mandando nos garimpeiros e nos garimpos, durante todos esses anos.</p>



<p>(José Altino Machado é pré-candidato a Deputado Federal pelo PL. . É responsável pela instalação de garimpos nas terras Yanomami entre os anos 1970 e 1980. Chegou a ter uma frota de 410 aviões)</p>



<p><strong>O mundo dos garimpos ilegais parece um mundo sem leis… Você acompanhou isso também fazendo documentários para a BBC.</strong></p>



<p>Nos anos 1980, fiz muitos documentários para a televisão. Trabalhei como pesquisadora e produtora também. Então nós filmamos no rio Tapajós, para mostrar as balsas, e como os garimpeiros usavam muito mercúrio, viajando sempre em pequenos aviões. Lembro que uma vez fomos para um lugar chamado Caporizão, e o avião ia sair, e depois pediram para esperar, e chegou um garimpeiro ferido a tiros, numa maca…. Essa era a vida nos garimpos, muita violência, bebida, prostituição. E também nas balsas.</p>



<p>Muita gente morreu nas balsas, porque eles mergulhavam, para achar&nbsp; o ouro, às vezes tinha alguma coisa errada com o equipamento, eles morriam. E muitas vezes não era possível avisar à família, porque eles eram conhecidos apenas pelo apelido: Piauí, Maranhão , ninguém sabia a verdadeira identidade. A verdadeira vida nos garimpos era muito precária, muito violenta, também.</p>



<p><strong>Você chegou a ser ameaçada, pelo seu trabalho?</strong></p>



<p>Fomos ao Mato Grosso do Sul, fazer um documentário sobre trabalho infantil nas carvoarias. Os donos locais não gostaram, porque a gente estava visitando as carvoarias, entrevistando as pessoas miseráveis, que era uma espécie de escravidão, por dívida, muita criança trabalhando.&nbsp;</p>



<p>Um dia, quando saímos do hotel, no final da tarde, o carro, que era um 4&#215;4, de repente derrapou na estrada e quase caiu. A gente descobriu que um dos pneus tinha sido cortado.&nbsp;</p>



<p><strong>Você acha que a repercussão internacional com o assassinato do Bruno e do Dom Phillips, pode provocar mudanças nesta questão indígena?</strong></p>



<p>Eu acho que, Infelizmente, o Brasil é um país onde tudo cai logo no esquecimento, não é? O que foi notícia principal, depois de uns dias, cai no esquecimento. Então eu acho que cabe aos próprios jornalistas, jornais, revistas, sites, manter esse assunto em evidência, mandando repórteres para lá, inclusive fazendo matérias sobre o assunto.</p>



<p>Esse negócio de a Polícia Federal dizer que o crime não tem mandantes, que era só aqueles dois pescadores, é óbvio que não pode ser verdade. Tem que continuar a pressão.</p>



<p>Agora, do lado de fora, do lado internacional, eu acho que sim, a coisa da&nbsp; presença de um jornalista inglês, foi um assunto que causou muita comoção, muito interesse, muito espanto, que vai provocar pressão sobre o governo brasileiro.&nbsp;</p>



<p>Isso não vai ter efeito nenhum sobre o Bolsonaro. Ele vai chorar aquelas lágrimas de crocodilo, vai fazer aquelas promessas falsas, mas a gente sabe que o desmatamento é o pior de todos os tempos nos últimos três meses, e a época dos incêndios nem começou ainda. Então não vai ter nenhum efeito, eu acho, sobre a política governamental.&nbsp;</p>



<p>Mas, se por acaso o Lula for eleito, essa pressão internacional vai ser muito importante, porque ele vai se sentir obrigado a fazer alguma coisa. Ele já prometeu criar o Ministério dos Indígenas. Então tem que ser cobrada, essa promessa dele. E tem que manter a pressão sobre o governo Lula, para realmente reverter esta situação.</p>



<p>Agora… sobre o governo Bolsonaro, que vai até o fim do ano, mais seis meses, eu duvido que ele vá mudar alguma coisa… infelizmente.</p>



<p><strong>Você tinha algum contato com o Dom Phillips?</strong></p>



<p>Conheci ele só um pouquinho, aqui em São Paulo. Na verdade, meus filhos realmente conheciam ele bem melhor, porque ele veio ao Brasil atrás de música, atrás de música eletrônica. Era o grande interesse dele. Escreveu um livro sobre isso. Então meu filho, que escreveu um livro sobre música eletrônica, ficou muito amigo dele, passou trabalhos pra ele, que escreveu trabalhos sobre a cena daqui, acabou conhecendo minha filha, a Ali.&nbsp;</p>



<p>Mas sei que foi um cara muito bem … todo mundo gostava dele. Era um cara muito simpático, acabou casando com uma brasileira, ficou aqui, como vários outros ingleses, inclusive eu.&nbsp;</p>



<p>A gente vem pra cá para ficar um anos, dois, e acaba ficando. E, no meu caso, é pelo resto da vida.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero…</strong></p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É hora de assinar a Marco Zero</a></cite></blockquote>
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		<title>Jornalista inglesa que venceu a censura dos militares mostra que pauta de Bolsonaro é a mesma da ditadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 May 2022 21:11:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Esta é a BBC de Londres”. Esta era a senha para que,&#160;em plena ditadura militar, milhares de brasileiros tivessem acesso a informações que eram proibidas de serem divulgadas pelos militares. Sempre às 19h, em ondas curtas, as notícias chegavam ao Brasil graças ao trabalho incessante de uma discreta jornalista inglesa que morava no bairro de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Esta é a BBC de Londres”.</p>



<p>Esta era a senha para que,&nbsp;em plena ditadura militar, milhares de brasileiros tivessem acesso a informações que eram proibidas de serem divulgadas pelos militares. Sempre às 19h, em ondas curtas, as notícias chegavam ao Brasil graças ao trabalho incessante de uma discreta jornalista inglesa que morava no bairro de Perdizes, em São Paulo.&nbsp;</p>



<p>Ela enviava as notícias por fax ou lendo os textos pelo telefone, muitas vezes utilizando as fichinhas de orelhões. Para escapar da vigilância da Polícia Federal, que só permitia o envio de fitas cassete para o exterior após uma “escuta” do material, Jan Rocha gravava suas reportagens e se mandava para o aeroporto de Guarulhos. Ficava de olho em passageiros que chegavam no check-in para Londres, depois abordava com calma e perguntava se era possível levar aquela fita para Londres.&nbsp;</p>



<p>“Uma pessoa da rádio vai buscar no aeroporto”, explicava.&nbsp;</p>



<p>E sempre deu certo.</p>



<p>As notícias que chegavam à sede da BBC, uma potência mundial da comunicação, eram transformadas em programas de rádio, em português, e transmitidas pontualmente a partir das 19h, quando todas as estações de rádio brasileiras eram obrigadas a retransmitir o programa oficial “A voz do Brasil”, produzido pelo próprio governo.</p>



<p>No mesmo momento em que o programa oficial exaltava obras faraônicas do governo militar, como a rodovia Transamazônica, os textos de Jan mostravam outra realidade. O título do informe de 24 de julho de 1974 era “Na Amazônia, o gado tem preferência”.&nbsp;</p>



<p>“Pelo menos nessa área não há discriminação racial. As terras de tribos indígenas, arrendatários, pequenos proprietários ou posseiros são igualmente disputadas ou simplesmente invadidas pelas grandes empresas de desenvolvimento agrário que querem as áreas para a criação de gado ou exploração mineral lucrativa”.&nbsp;</p>



<p>De 1973 a 1985, Jan Rocha foi incansável na busca do que estava censurado, escondido, mal contado, ou simplesmente fatos mentirosos, hoje batizados de “fake news”. Seus informes destoavam da propaganda oficial do regime, que investia milhões para exaltar as cores da bandeira, do “país que vai pra frente”, e praticar a intolerância a qualquer oposição, com um adesivo fartamente distribuído durante o governo Médici (1969-1973) -”Brasil: ame-o ou deixe-o&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jan Rocha com a filha no colo durante entrevista coletiva na CNBB. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Dez anos depois daquilo que a mídia nacional chamou “milagre econômico”, em 30 de agosto de 1983, o informe de Jan tinha como título “Famintos comem ratos e raízes por causa da seca”.&nbsp; Em setembro do mesmo ano, a BBC informava que mais de três mil policiais estavam em alerta e contingentes da polícia militar foram retirados de outras áreas para proteger supermercados. &#8220;Desde que os saques começaram uma semana atrás, mais de 50 lojas de alimentos foram atacadas, e a polícia agora fica de guarda na porta de muitos deles”. A inflação, naquele momento, era de 150% ao ano.</p>



<p>“Não há seguro-desemprego no Brasil e por isso as grandes cidades agora estão cheias de gente passando fome”, escreveu a jornalista.</p>



<p>Suas notícias eram sobre destruição da floresta amazônica por estradas, hidrelétricas e fazendas de gado, tortura e assassinato de opositores, protestos de estudantes, inflação, fome, saques, revolta de cientistas, invasão de terras indígenas por garimpeiros, escândalos envolvendo os militares e dissidências dentro do próprio regime.&nbsp;</p>



<p>Na reta final da ditadura, ela acompanhou os movimentos de Anistia, a volta dos opositores do exílio, a campanha das “Diretas Já”, e um país com a economia devastada. No penúltimo ano da ditadura, a inflação foi a mais alta da história: 223%. A dívida externa estava em U$$ 100 bilhões.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Dribles na censura e as “semelhanças com o agora”</h2>



<p>Toda essa produção jornalística, guardada em pastas após o final da ditadura, veio à tona com o livro <em><a href="https://www.alamedaeditorial.com.br/ciencia-politica/nossa-correspondente-informa-de-jan-rocha" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nossa correspondente informa &#8211; Notícias da ditadura brasileira: 1973-1985</a></em>, lançado pela editora Alameda. São 466 páginas escritas pela jornalista que venceu a máquina de censura do regime. A ditadura brasileira é desnudada, com fatos, notícias e fontes as mais diversas, usando muitas vezes uma ironia fina, que alcança os mais diversos tipos de leitores, com a marca da oralidade e da observação.</p>



<p>“Tive a ideia de publicar quando ouvi o presidente descrevendo aquele período dos anos de chumbo como um ‘movimento democrático’, negando as torturas e elogiando um torturador”, diz Rocha, referindo-se ao presidente Jair Bolsonaro. “Neste momento de tentativas de negar a história, ou reescrevê-la, creio que as minhas matérias podem ser úteis para mostrar a realidade daquela época, escritas por alguém que estava lá”.</p>



<p>Após a redemocratização do país, ela continua morando na mesma casa, em Perdizes. Dedicou o livro aos filhos Camilo, Ali e Bruna, que “tiveram que dividir a sua mãe com a BBC”, e que ajudaram a fazer o livro, lendo e selecionando textos datilografados e manuscritos.</p>



<p>As pautas do governo militar de 1964 têm profunda conexão com a realidade atual, de um governo declaradamente “de direita”. Em julho de 1974, os cientistas brasileiros estavam alarmados com a decisão do BNDES de cancelar o financiamento de pesquisas puras nas universidades, transformando os mundialmente conhecidos institutos Butantã e Alfredo Lutz em companhias estatais com fins lucrativos.&nbsp;</p>



<p>O discurso anticomunista, presente durante toda a Ditadura, e agora mais vivo que nunca, teve cenas pitorescas. Em junho de 1976, o general João Bina Machado, ao falar em um fórum de segurança nacional , advertiu que oa jovens com inteligência “acima da média” poderiam “ser perigosos”.&nbsp;</p>



<p>A questão indígena recebia o mesmo tipo de tratamento. Rangel Reis, ministro do Interior, avaliava, em dezembro de 1976, que os índios viviam em um “sistema ultrapassado”. Não por acaso, em janeiro de 1977, uma reunião de 140 líderes indígenas em Surumu, Roraima, foi suspensa pela FUNAI, com o apoio da polícia. Eles iriam discutir as constantes invasões de suas terras por pecuaristas.&nbsp;</p>



<p>Em janeiro de 1977, a manchete da BBC resumia tudo:</p>



<p>“A gasolina mais cara do mundo” estava sendo vendida no Brasil.</p>



<p>Em 14 de outubro de 1983, Jan Rocha escreveu sobre um tema que se repete, em maio de 2022:</p>



<p>“Inflação alta traz desemprego e fome”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">“Basta checar duas vezes e boa sorte”</h3>



<p>Jan Rocha chegou ao Brasil em 1969, como voluntária em projetos sociais da United Nations Association (UNA). Morou no Rio de Janeiro, onde se embrenhou em trabalhos sociais nas favelas, leu a tradução de <em>Quarto de despejo</em>, de Carolina de Jesus, e depois foi conhecer a Amazônia. De alguma forma, tinha um sentimento de que viveria no Brasil.</p>



<p>Estava com 33 anos, em 1973, tinha dois filhos com o gaúcho Plauto Rocha, quando recebeu o convite da BBC para assumir o cargo de correspondente da emissora, em São Paulo. Foi a Londres para uma entrevista, explicou que não&nbsp; poderia assumir o cargo porque não era jornalista, mas recebeu como resposta um desafio: “Você só precisa checar tudo duas vezes. Boa sorte”.</p>



<p>“Voltei para São Paulo meio perdida. No Brasil, eram poucos os correspondentes internacionais e havia muita censura nos jornais brasileiros”, conta Jan, que buscou ajuda dos padres e bispos progressistas, como Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, para fazer os primeiros informes. Foi recebida de braços abertos. Dom Paulo, em 1973, era um dos principais representantes da Igreja Católica no enfrentamento à ditadura.</p>



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<p>Aos poucos, foi descobrindo os caminhos das fontes. Passou a frequentar redações dos principais jornais brasileiros, onde recebia informações de matérias que tinham sido censuradas e aproveitava para mandar para Londres.</p>



<p>“Na medida em que fiquei mais conhecida, as pessoas me telefonavam&nbsp; de vários pontos do Brasil, para denunciar coisas que estavam acontecendo”. Jan Rocha foi ampliando os contatos, e passou a ter fontes confiáveis&nbsp; até na sala de imprensa do Congresso Nacional.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Quando recebia algum telefonema informando de julgamentos de presos políticos, na Auditoria Militar, Jan imediatamente seguia para o local. Em março de 1975 acompanhou o julgamento de vários acusados de participarem da guerrilha do Araguaia.&nbsp;</p>



<p>No intervalo para o almoço, juízes&nbsp; e advogados saíram, e os presos ficaram na sala, com guardas armados nas portas. Um dos presos, alto, magro, barbudo, fez um sinal para ela.</p>



<p>“Quando me aproximei, ele, sem falar nada, levantou a barra da calça para me mostrar marcas de tortura em sua perna”. O preso político era José Genoíno Neto, que viria a presidir o PT e seis vezes eleito deputado federal.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Interrogatório</h3>



<p>Apenas uma vez, Jan foi alcançada pelos militares. Numa de suas muitas matérias sobre fome e saques, em 1983, ela foi informada pelo jornalista <a href="https://vladimirherzog.org/um-contador-de-historias/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ricardo Carvalho</a> que havia homens do serviço secreto do Exército infiltrados entre os líderes do movimento. Como a fonte era confiável, ela colocou no informe.&nbsp;</p>



<p>Dias depois, foi intimada a ir à sede da Polícia Federal, para dar informações. “Queriam saber a fonte da informação, mas eu neguei. Eles queriam mais era me intimidar”.</p>



<p>Jan foi liberada, voltou pra casa e seguiu com seu trabalho.</p>



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<p>Como a realidade política do país era outra, o fato foi noticiado pelos jornais <em>Correio Braziliense,</em> <em>O Estado de São Paulo</em> e <em>Folha de São Paulo</em>. Em outro momento da ditadura, as coisas poderiam ter sido muito diferentes.</p>



<p>Em 1975, um jornalista muito conhecido, chamado Vladimir Herzog, não teve a mesma sorte. Também fora do Serviço Brasileiro da BBC, e viveu em Londres, onde teve seus dois filhos.&nbsp; Em 24 de outubro, recebeu em casa uma intimação para prestar depoimento na sede do DOI-CODI, órgão de inteligência e repressão do Exército.&nbsp;</p>



<p>Herzog se apresentou voluntariamente. No dia seguinte, estava morto, após sessões de tortura. A versão oficial era de que teria cometido suicídio.&nbsp;</p>



<p>No livro, Jan Rocha lembra de Vlado, como era chamado pelos colegas. Ambos se conheceram em 1968, em Londres.</p>



<p>“Duas semanas antes de sua morte eu almocei com ele e outros colegas da revista <em>Visão</em>, onde ele trabalhava. Fomos a um restaurante romeno do outro lado da Praça da República. Vlado estava alegre e irônico, como sempre. Não lembro sobre o que falamos, mas nunca imaginei que aquela seria a última vez que o veria vivo”.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Leia a entrevista com Jan Rocha:</strong></li></ul>



<p>Marco Zero: <strong>Por que publicar estes informes agora, passados 37 anos da redemocratização do Brasil?</strong></p>



<p><strong>Jan Rocha:</strong> Tem pessoas que gostam de dizer que era um “movimento”, que não houve tortura, presos políticos, que ninguém morreu dentro das prisões. Mas, além disso, houve também hiperinflação, fome, corrupção. O objetivo de selecionar as matérias e publicar, é mostrar as muitas semelhanças com o que está acontecendo agora. Fica claro a questão indígena, e a luta contra o garimpo. Houve também muita fome, que era mais localizada no Nordeste, por causa das secas. Agora, ela está em todo o país, por causa do desemprego, da pobreza, da inflação. A fome voltou para milhões de brasileiros. É uma coisa que remete ao passado. Não chegamos a ter hiperinflação, como naquela época, mas já temos inflação de dois dígitos. Houve também muita corrupção, só que ficou escondido, por causa da censura. São muitas semelhanças acontecendo</p>



<p><strong>Qual o impacto dos informes da BBC em um país controlado pela censura?</strong></p>



<p>O serviço brasileiro da BBC era muito importante, e já funcionava desde o fim da década de 1940 no Brasil. Era em ondas curtas, e chegava através&nbsp; de transmissores na ilha de Assunción [Ascensão], no Oceano Atlântico. As notícias eram transmitidas em português, e a BBC era muito ouvida, especialmente na Amazônia e no Nordeste, nas redações dos jornais, num período de muita censura.</p>



<p><strong>Como era a rotina de visitar as redações, em busca de notícias censuradas?</strong></p>



<p><strong>JR: </strong>Uma vez fui à redação da TV Globo, no Rio de Janeiro, e li um enorme fax que estava afixado no mural, com todos os assuntos proibidos, não só políticos, mas econômicos, de saúde, de cultura. A lista era enorme, e os censores, muito rigorosos. O jornal O São Paulo<em>, </em>da Arquidiocese de São Paulo, tinha que submeter todas as suas matérias para serem&nbsp; censuradas. Tinham que mandar para Brasília. Cortavam coisas absurdas, como um número do jornal Movimento<em>: </em>uma vez, censuraram um artigo sobre sobre Leonardo da Vinci, porque acreditavam que estavam tirando um sarro com um censor, que se chamava Leonardo.</p>



<p></p>



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<p></p>
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