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	<title>Arquivos cabo Anselmo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos cabo Anselmo - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Cabo Anselmo, um dos personagens mais sombrios da ditadura militar, é tema de série de TV que estreia hoje</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Apr 2022 13:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cabo Anselmo]]></category>
		<category><![CDATA[chacina da chácara São Bento]]></category>
		<category><![CDATA[crimes da ditadura]]></category>
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		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O cabo Anselmo, na verdade, nunca foi cabo; fez treinamento de guerrilha em Cuba sem acreditar na luta armada; jamais foi o verdadeiro líder dos marinheiros amotinados alguns dias antes do golpe militar de 1964; e sequer era filho do homem e da mulher cujos nomes apareciam em sua verdadeira certidão de nascimento. Por fim, [&#8230;]</p>
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<p>O cabo Anselmo, na verdade, nunca foi cabo; fez treinamento de guerrilha em Cuba sem acreditar na luta armada; jamais foi o verdadeiro líder dos marinheiros amotinados alguns dias antes do golpe militar de 1964; e sequer era filho do homem e da mulher cujos nomes apareciam em sua verdadeira certidão de nascimento. Por fim, ao morrer no dia 15 de março deste ano, foi enterrado com o nome falso de Alexandre da Silva Montenegro.</p>



<p>É difícil encontrar um fio de verdade na trajetória e nas palavras de José Anselmo dos Santos, um dos mais sombrios personagens da ditadura militar brasileira, iniciada em 31 de março de 1964 e encerrada em 21 de abril de 1985. Os registros e a memória de quem viveu aquele período informam que, de liderança dos marinheiros que formaram uma inédita Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais e “estrela” dos guerrilheiros treinando em Cuba, ele passou a ser conhecido como dedo-duro que entregou amigos e a namorada grávida para serem torturados e fuzilados.</p>



<p>Odiado pela militância de esquerda e desprezado pelos militares, Anselmo (ou Alexandre, ou Jonâtan, ou Daniel, ou Américo Balduíno, ou companheiro Renato, ou Mário Soria) é tema e protagonista da série documental <em>Em busca de Anselmo, </em>com direção e roteiro do jornalista Carlos Alberto Jr.. O primeiro dos cinco episódios irá ao ar hoje, 12 de abril, no <a href="https://www.hbobrasil.com/today">canal HBO</a> e a partir de amanhã, quarta-feira, dia 13, na plataforma de <em>streaming</em> HBO Max.</p>



<p>A série conta com depoimentos de 50 pessoas ligadas direta ou indiretamente a organizações de esquerda ou que conviveram com o “cabo”, além de imagens de arquivo tão raras quanto históricas que, ao menos nos dois primeiros capítulos disponibilizados pela HBO, se encaixam muito bem à narrativa. Um dos pontos altos dos primeiros episódios ocorre quando ele é confrontado não por um ex-militante, mas por um parente, no interior de Sergipe.</p>



<p>No entanto, o maior mérito da produção é ter conseguido convencer Anselmo a participar. “Não havia sentido em narrar sua história e suas traições sem ouvi-lo. Assim que ele concordou, decidimos que seus depoimentos seriam a base sobre a qual a série seria assentada”, explica Carlos Alberto. O diretor tem esperanças que a produção &#8220;estimule a retomada das discussões sobre o papel da tortura, a revisão da lei de anista e a Justiça de transição no Brasil&#8221;.</p>



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<h2 class="wp-block-heading">Amoral e mentiroso</h2>



<p>Carlos Alberto conviveu por semanas com Anselmo para gravar em São Paulo, Rio de Janeiro, Sergipe e Pernambuco. As impressões do diretor e roteiristas confirmam o que se vê na tela: “Ele era um mitômano [quando uma pessoa mente compulsivamente, entrando num ciclo em que as falsas histórias acabam se tornando um estilo de vida], não dava para acreditar numa só palavra do que ele dizia, porém quando se referia a alguma pessoa viva, que podia desmenti-lo, ele mencionava fatos que poderiam ser comprovados. Quando se referia a pessoas que tinham morrido, aí mentia sem pudor”.</p>



<p>Para Carlos Alberto, havia método nessa aparente loucura, pois a desinformação e a confusão interessam aos torturadores e agentes da repressão.</p>



<p>E o “cabo” Anselmo tinha muito a esconder, tanto que passou a usar a identidade falsa de Alexandre Montenegro fornecida pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Tudo indica que sua última tarefa como informante da repressão tenha sido a que resultou no episódio conhecido como “O Massacre da Chácara São Bento”, em Paulista, território do atual município de Abreu e Lima.</p>



<p>Durante meses, ele atraiu militantes para formar uma suposta nova célula guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) na periferia do Recife. Apesar da sequência de mortes que levou a organização ao colapso, aos poucos Anselmo, formou o novo grupo. As desconfianças de que ele era traidor já existiam, mas demoraram meses para se espalhar no ambiente de clandestinidade.</p>



<p>Anselmo aglutinou seis jovens apenas para entregá-los aos policiais, que os prenderam ilegalmente, torturaram e mataram. E aqui há um detalhe cruel: uma das jovens assassinadas era a paraguaia Soledad Barret Viedma, sua própria namorada, grávida de um filho seu.</p>



<p>Nos dois primeiros episódios da série, provavelmente o mais completo retrato já produzido sobre esse personagem, o “cabo” se revela amoral, tratando com frivolidade o destino trágico das pessoas que cruzaram seu caminho nos anos 1960 e 1970. Em vez de um militante convicto, Anselmo se mostra um homem que aproveitou o momento e “satisfez o ego”, como ele mesmo admite, junto a líderes autênticos como Carlos Marighella ou Leonel Brizola, porém sem vínculos ou apego às pessoas e àquilo que, ao menos aparentemente, fazia parte. </p>



<p>Em vários momentos, o dedo-duro comete atos falhos, cai em contradições e parece estar próximo de confessar seus crimes, um dos objetivos da série. </p>



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		<title>A onda de revisionismo histórico sobre a ditadura militar não resiste aos fatos, muito menos aos sobreviventes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Mar 2019 19:13:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
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		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Felipe Campos]]></category>
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<div id=":ll" class="a3s aXjCH ">
<div dir="ltr">
<p dir="ltr"><strong>Por Luiz Felipe Campos*, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p>Ao chegar à cena do crime, nas primeiras horas da manhã, depois abrir caminho no mato fechado, o médico legista Pedro de França assustou-se com a quantidade de corpos. No primeiro, encontrado ainda do lado de fora da casinha, o legista contou sete perfurações de bala no tórax. Um documento encontrado em seus bolsos o identificava como José Manoel da Silva, 32 anos. Havia mais quatro corpos no interior da casa – dois homens e duas mulheres. Elas – viria-se a saber – eram Soledad Barrett, 28 anos, e Pauline Reichstul, 25 anos. A primeira recebeu quatro tiros na cabeça e dois no pescoço. A segunda, quatro tiros na cabeça e quatro no tronco. Os outros dois homens eram Jarbas Marques, 24 anos, em cujo corpo o legista contou dois tiros na cabeça e dois no tronco, e Eudaldo Gomes, 25 anos, que recebeu quatro tiros na cabeça e três no tronco. No dia seguinte, o médico legista foi enviado a periciar um sexto corpo, em uma região próxima, no qual contou três tiros na cabeça, dois no braço esquerdo, e seis nas pernas. Tratava-se de Evaldo Luiz Ferreira, 30 anos.</p>
<p dir="ltr">Apenas três dias depois, em 11 de janeiro de 1973, a notícia chegou às redações. A operação policial foi revestida de heroísmo e o caso, que ficou conhecido como o “massacre da granja São Bento”, foi levado à opinião pública como um troféu do “combate ao terrorismo”. Veículos de imprensa de todo o país, e até do exterior, noticiaram as mortes, em um sítio no Grande Recife, de “seis perigosos terroristas, pertencentes à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a serviço de Fidel Castro e do comunismo internacional”.</p>
<p dir="ltr">De acordo com a versão oficial, os seis estavam reunidos em um “congresso” no momento em que foram surpreendidos pela polícia. À ordem de prisão dada pelos agentes de segurança, os “terroristas” responderam abrindo fogo com um armamento que incluía, além de revólveres, uma espingarda calibre 12. Dessa troca de tiros – histórias de heroísmo policial dificilmente terminam com os suspeitos algemados – resultaram as mortes dos quatro homens e duas mulheres. Se examinados com atenção, no entanto, os próprios documentos oficiais revelam um estranho tiroteio. As armas supostamente encontradas em posse das vítimas teriam sido disparadas 21 vezes (sem que qualquer policial tenha registrado lesão). Por outro lado, os policiais acertaram os suspeitos 43 vezes, 17 das quais nas cabeças.</p>
<p><div id="attachment_14694" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Soledad-Barrett-ao-lado-do-compositor-uruguaio-Daniel-Viglietti.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14694" class="wp-image-14694 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Soledad-Barrett-ao-lado-do-compositor-uruguaio-Daniel-Viglietti-300x228.jpg" alt="Soledad Barrett ao lado do compositor uruguaio Daniel Viglietti" width="300" height="228"></a><p id="caption-attachment-14694" class="wp-caption-text">Soledad Barrett ao lado do compositor uruguaio Daniel Viglietti</p></div></p>
<p dir="ltr">Apesar dos evidentes sinais de execução, a versão só começou a ser contestada mais de 20 anos depois. Em dezembro de 1995, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a lei 9.140, que criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), responsável por indenizar as famílias de vítimas da ditadura. Foi quando as testemunhas começaram a falar. Uma comerciante disse ter visto quando cinco homens saíram de um veículo oficial com emblema do Incra e avançaram sobre duas mulheres que estavam em sua loja, em Boa Viagem, buscando o dinheiro da venda de roupas em consignação. Essas mulheres eram Soledad Barrett e Pauline Reichstul. Um dos homens acertou Pauline com uma coronhada na cabeça, matando-a na hora. Mesmo assim, de acordo com o depoimento da comerciante, seu corpo foi arrasado aos pontapés para dentro do carro. O balconista da livraria onde Jarbas Marques trabalhava, no centro do Recife, revelou que seu colega foi retirado à força, durante o expediente, por dois homens à paisana. Várias pessoas viram quando José Manoel foi preso por homens que desceram armados de uma camionete do Incra, em um posto de gasolina às margens da BR-104, em Toritama, no agreste pernambucano. José Manoel colocava óleo no freio do seu carro antes de pegar a estrada para assistir a um jogo do Ipiranga, clube do qual era dirigente, em uma cidade vizinha. Não houve testemunhas das prisões de Evaldo Luiz e Eudaldo Gomes, mas a essa altura já estava mais do que claro que todas as seis vítimas foram presas em locais diferentes e executadas no tal sítio, sem que qualquer tiroteio tivesse jamais ocorrido.</p>
<p dir="ltr">Todos os relatos de familiares, amigos e testemunhas, não só sobre as prisões, como também sobre os dias que as antecederam, terminaram por revelar a pessoa por trás do crime: o ex-marinheiro José Anselmo dos Santos, mais conhecido como cabo Anselmo, famoso líder da revolta dos marujos que precipitou o golpe militar em 1964, e convertido, nos anos seguintes, em agente-duplo a serviço da ditadura. Mas isso só se descobriu quando já era tarde demais – pacientemente, entre fevereiro e dezembro de 1972, Anselmo pavimentou o caminho para uma das mais violentas emboscadas de toda a ditadura militar. Cada um dos encontros que tinha com militantes de oposição à ditadura era descrito, mais tarde, ao delegado Sérgio Fleury, do Dops-SP, a quem devia obediência; e sua própria casa, em dado momento, passou a funcionar como uma espécie de central de informações da polícia, com escutas instaladas atrás de móveis e quadros. No final, quando seu disfarce ameaçou cair, Anselmo autorizou a operação policial que levaria às mortes da granja São Bento.</p>
<p><div id="attachment_14697" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/55731020_2321262254772478_7154754687172870144_o.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14697" class="size-medium wp-image-14697" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/55731020_2321262254772478_7154754687172870144_o-300x196.jpg" alt="Foto do cabo Anselmo na orla de Olinda com recado para a sogra no verso" width="300" height="196"></a><p id="caption-attachment-14697" class="wp-caption-text">Foto do cabo Anselmo na orla de Olinda com recado para a mãe de Soledad no verso</p></div></p>
<p dir="ltr">Das seis pessoas que delatou nesse episódio, dois – José Manoel e Evaldo Luiz – também eram ex-marinheiros, e o conheciam há pelo menos dez anos. E uma delas, a paraguaia Soledad Barrett, era sua companheira há pelo menos um ano. Anselmo e Soledad moravam juntos em uma casa próxima à Praça do Jacaré, em Olinda. Nos fundos dessa casa, o casal chegou a montar uma lojinha chamada Butique Mafalda, onde vendiam peças de artesanato e enciclopédias Barsa. A única foto sua que restou desse período está, hoje, em posse da família Barrett. Na imagem, vê-se Anselmo de bigode e cabelo longos posando na orla de Olinda. No verso, está escrito: “A la madre, para que conozca un hijo más”. Assinou como Jadiel <span style="color: #000000;">– um dos codinomes que usava. </span><span style="color: #000000;">Essa fotografia foi enviada, em abril de 1972, a Deolinda Viedma, mãe de Soledad, que na época morava em Montevidéu. Foi sua apresentação como genro. </span></p>
<p dir="ltr">Enquanto os seis militantes eram executados, Anselmo embarcava em um avião da FAB com destino a São Paulo com a missão – que terminaria sendo sua última como um infiltrado – cumprida. Décadas mais tarde, em 2009, Anselmo concedeu à TV Bandeirantes aquela que seria a sua primeira entrevista em rede nacional. Aos entrevistadores, ele garantiu não sentir remorso pelo que fez: “eu não levei ninguém para a morte. Eles escolheram, eles moveram-se com as próprias pernas”. Ele afirmou ter ajudado o Brasil a evitar uma guerra civil. Em outras entrevistas concedidas desde então, ele estimou ter delatado mais de 100 pessoas, sem saber precisar quantas terminaram mortas.</p>
<p dir="ltr">O tal grupo de perigosos guerrilheiros a serviço do comunismo internacional nunca chegou a disparar um só tiro. Todos os seis foram inicialmente enterrados no Cemitério da Várzea como indigentes, embora José Manoel e Soledad portassem consigo documentos oficiais em seus nomes, e Jarbas Marques tenha sido identificado pela própria mãe. Nos dias seguintes, a pedido dos familiares, foram exumados os corpos de José Manoel, Jarbas e Pauline Reichstul. Jarbas foi sepultado no jazigo da família na Igreja Rita de Cássia, no centro do Recife. Pauline foi enterrada no Cemitério dos Israelitas, na zona oeste da cidade, onde ainda hoje o seu irmão, Henri Philippe Reichstul, a visita. Mas nenhuma história de sepultamento se compara com a de José Manoel da Silva.</p>
<p><div id="attachment_14693" style="width: 236px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Geni-matéria-JC.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-14693" class="wp-image-14693 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/03/Geni-matéria-JC-226x300.jpg" alt="Geni matéria JC" width="226" height="300"></a><p id="caption-attachment-14693" class="wp-caption-text">Matéria sobre os restos mortais de José Manuel da Silva</p></div></p>
<p dir="ltr">O seu corpo ficou enterrado no Cemitério da Várzea até o ano de 1975. Depois, sem ter como pagar pela manutenção do jazigo, e temendo que os restos mortais fossem incinerados, a viúva Genivalda desenterrou os ossos do marido com as próprias mãos, enfiou-os em um saco plástico e os enterrou em segredo sob as raízes de um pé de fruta-pão na entrada do cemitério. Pelos 20 anos seguintes, os ossos de José Manoel ficaram enterrados sob a sombra da árvore pela qual centenas de pessoas passavam, todos os dias, chorando os seus mortos. Apenas em 1995, encorajada por Amparo Araújo, fundadora da seção estadual do Movimento Tortura Nunca Mais, Geni retornou ao Cemitério da Várzea para desenterrar pela última vez os ossos do marido e levá-lo de volta a Toritama, cidade onde nasceu. Desta vez nada foi feito em segredo: havia fotógrafos para registrar o momento em que, com as mãos ainda sujas de terra, Geni posou ao lado dos osso de José Manoel – a quem o tempo inteiro ela se referia por Zezinho. Um carro do Corpo de Bombeiros levou a urna funerária a Toritama, onde seus restos mortais foram enterrados em definitivo, no dia 17 de março de 1995 – data que virou feriado municipal.</p>
<p dir="ltr">E isso não é tudo. Alguns anos depois da morte do marido, já morando em Natal, Geni foi sequestrada e estuprada por homens que se diziam da polícia e que perguntavam pelos “amigos comunistas do seu marido”. Estava vendada e tudo o que se lembra é de ter subido um lance de escadas. Ela engravidou do estupro e, embora o padre de sua paróquia a tivesse aconselhado a ter o filho, Geni foi ao Recife e fez um aborto. Nas décadas seguintes, tentou o suicídio várias vezes – em uma delas, jogou álcool em todo o seu o corpo, a ponto de molhar o próprio fósforo que tentava, sem sucesso, acender.</p>
<p dir="ltr">Hoje, aos 75 anos, Geni é um monumento à dignidade humana. É nela, principalmente, que eu penso quando vejo a onda de revisionismo histórico promovida por um sujeito sem quaisquer virtudes, alçado ao cargo mais alto da República por uma mistura de delírio coletivo, mentiras e desinformação. Ao lado dela – se por azar algum dia os seus caminhos se cruzarem – Jair Bolsonaro ficará reduzido ao que realmente é: um sujeito minúsculo, invisível a olho nu, e Geni terá de tomar cuidado se não quiser pisoteá-lo.</p>
<p dir="ltr"><strong>*Jornalista, autor de “O massacre da granja São Bento” (Cepe Editora, 2017)</strong></p>
</div>
<div class="adL"></div>
</div>
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