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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Eu aposentada, o Careca do INSS e o cinema do absurdo brasileiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2026 14:04:24 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Careca do INSS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jane Santos* Hoje, peço licença às telas para falar de um roteiro que a realidade brasileira resolveu escrever sozinha — e que, convenhamos, está difícil até para o cinema superar. Antes que alguém perca tempo tentando descobrir de que lado escrevo, facilito o serviço: tenho lado. Sou eleitora de Lula, militante, aposentada e perfeitamente [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jane Santos*</strong></p>



<p>Hoje, peço licença às telas para falar de um roteiro que a realidade brasileira resolveu escrever sozinha — e que, convenhamos, está difícil até para o cinema superar.</p>



<p>Antes que alguém perca tempo tentando descobrir de que lado escrevo, facilito o serviço: tenho lado. Sou eleitora de Lula, militante, aposentada e perfeitamente capaz de separar preferência política do devido processo legal. Uma coisa não revoga a outra. Respeitar o devido processo legal não exige que eu banalize coincidências espantosas nem feche os olhos diante dos fatos.</p>



<p>Também não exige que eu abandone minhas convicções para cobrar investigação rigorosa — inclusive quando ela alcança gente do meu próprio campo. Se houver malfeito de qualquer filho, pai, irmão, primo, político, correligionário ou criatura politicamente aparentada, investigue-se. Minha régua é simples: o sobrenome não pode decidir o tamanho da lupa.</p>



<p>E talvez seja exatamente por isso que a história da sala 2601 do edifício Connect Towers tenha me deixado tão acordada. Hollywood não daria conta.</p>



<p>Imagine a reunião de roteiro:</p>



<p>— Temos um personagem chamado Careca do INSS.</p>



<p>— Já começou exagerado.</p>



<p>— Espere. Ele é personagem central de uma investigação sobre dinheiro retirado de aposentados.</p>



<p>— Pesado.</p>



<p>— Agora coloque, no mesmo endereço comercial, uma empresa da família de um candidato à Presidência.</p>



<p>— Não força.</p>



<p>— E mais dezesseis empresas ligadas ao Careca.</p>



<p>— Corta. Ninguém acredita.</p>



<p>— Calma que falta o contador.</p>



<p>— Tem contador?</p>



<p>— Tem.</p>



<p>— É o mesmo?</p>



<p>— Há conexão contábil, sim.</p>



<p>— Pelo amor de Deus.</p>



<p>— E a administradora do escritório do candidato é irmã do contador ligado ao investigado.</p>



<p>Nesse momento, imagino o produtor americano levantando-se, fechando o notebook e dizendo:</p>



<p>— Vocês brasileiros não sabem escrever ficção. Tem que parecer verdade.</p>



<p>Pois é.</p>



<p>O problema é que não estou escrevendo ficção.</p>



<p>A Bravo Grafeno, empresa que tem Flávio Bolsonaro entre os sócios, está registrada na sala 2601 do Connect Towers, em Brasília, endereço cadastral também associado a pelo menos 16 empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. O escritório de advocacia de Flávio utiliza os serviços da Voga Serviços Contábeis, de Alexandre Caetano dos Reis, que também prestou serviços a empresas ligadas a Antunes. Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de Flávio, é irmã de Alexandre.</p>



<p>Sei que coincidência não é prova. Vale repetir. Endereço comum não é sentença. Conexão contábil não estabelece, por si só, participação criminal. Parentesco também não. Flávio Bolsonaro nega envolvimento no esquema. Perfeitamente.</p>



<p>Então façamos aquilo que se espera numa democracia:</p>



<p>investigar com isenção. Perguntar. Explicar. Dar publicidade. Garantir o contraditório. E deixar o devido processo legal fazer seu trabalho. Só não me peçam para olhar uma sequência dessas e reagir: “Ah, tá.” Não consigo. Sou aposentada, não anestesiada. Nem alienada.</p>



<p>E agora quero conversar especialmente sobre nós, aposentados.</p>



<p>Não para dizer a ninguém como deve votar. A esta altura da vida, aposentado brasileiro já acumulou idade, experiência, boleto e susto suficientes para pensar por conta própria. Mas há assuntos sobre os quais precisamos manter os olhos muito abertos. Quando a política começa a falar em Previdência, INSS, gasto público, saúde, proteção social, ajuste fiscal ou corte de despesas, não está discutindo conceitos abstratos. Está discutindo a nossa vida.</p>



<p>O dinheiro que chega — ou não chega — no fim do mês. O remédio. O plano de saúde. A ajuda ao filho ou ao neto. A pequena margem de autonomia que uma aposentadoria ainda permite. Por isso aposentado desenvolve uma espécie de radar para algumas palavras. Uma delas é: tesoura.</p>



<p>Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, propõe um “tesouraço” no Estado. Seu programa fala em corte profundo de despesas, redução da máquina pública e novo teto de gastos; o próprio site da campanha afirma, ao mesmo tempo, que pretende “proteger” a aposentadoria e melhorar as condições de vida da terceira idade. Anotei. Aposentados anotam essas coisas.</p>



<p>E faço questão de esclarecer: estas perguntas são dirigidas ao candidato Flávio Bolsonaro. Ao candidato. Não ao presidente Flávio Bolsonaro. Não quero antecipar uma hipótese que, pessoalmente, espero sinceramente não ver concretizada. Continuo confiante na vitória de Lula. Porque, se além de escrever este causo, eu tivesse de começar uma série chamada “Manual de sobrevivência do aposentado ao tesouraço”, minha preocupação aumentaria consideravelmente.</p>



<p>Então, candidato: como pretende fechar essa conta? Se haverá um grande ajuste fiscal e os aposentados estarão preservados, onde exatamente estarão os cortes? Previdência fica fora? Reajustes ficam fora? Saúde fica fora? Assistência social fica fora? Benefícios ficam fora? Quem estará protegido? Quem absorverá o ajuste? Qual será a economia pretendida? De onde sairão os bilhões? Porque dizer “vou cortar desperdícios” é maravilhoso. Todos os governos do planeta querem cortar desperdícios. O problema começa quando precisamos descobrir o que cada governo chama de desperdício. E aposentado tem excelentes motivos para fazer essa pergunta.</p>



<p>A América Latina oferece um laboratório logo ao lado. Javier Milei fez da motosserra um símbolo político. E qual é a fotografia da hora sobre a vida dos hermanos?</p>



<p>Aposentados argentinos perderam poder de compra e passaram a ocupar semanalmente as ruas de Buenos Aires. Em “companhia” da polícia de choque, gás lacrimogêneo e repressão nas ruas. Por aí.” Segundo reportagem da Reuters, o poder de compra dos aposentados havia caído cerca de 23% desde a posse de Milei; os protestos semanais diante do Congresso tornaram-se uma expressão recorrente da insatisfação com a política previdenciária.</p>



<p>O Congresso aprovou aumento para aposentadorias. Milei vetou, alegando responsabilidade fiscal. E Milei não é uma associação que estou inventando para este causo. É referência política assumida pelo próprio campo de Flávio Bolsonaro. Milei foi à convenção que oficializou sua candidatura e, no discurso, disse que estava na hora de “afiar a tesoura”. O programa de Flávio adotou justamente o “tesouraço” como imagem para sua agenda de cortes.</p>



<p>A referência, portanto, não está escondida. Está em cartaz.</p>



<p>E, se a experiência argentina serve de inspiração para cortar, é absolutamente legítimo perguntar se também servirá de advertência sobre quem pode acabar pagando a conta. Então, estou perguntando a Flávio Bolsonaro: como ele garante que não fará o mesmo?</p>



<p>E confesso: tenho razões recentes para não aceitar garantias políticas apenas pelo valor de face. No caso Banco Master, Flávio negou firmemente manter contato com Daniel Vorcaro. Dias depois, veio a público um áudio no qual negociava diretamente com Vorcaro recursos para o filme <em>Dark Horse</em>, sobre Jair Bolsonaro.</p>



<p>Então, diante de promessa, eu confiro. Não é implicância. É memória recente. E aposentado, convém lembrar, tem memória. Porque conta fiscal é número. Pessoa envelhece. Pessoa adoece. Pessoa precisa comer. Pessoa precisa viver. E esta é uma pergunta perfeitamente legítima para qualquer candidato que anuncie uma grande tesoura: quem estará do lado do cabo e quem estará do lado da lâmina? Candidato, me mostre a conta.</p>



<p>Enquanto penso no futuro, olho também para aquilo que já aconteceu. Milhões de aposentados e pensionistas tiveram descontos indevidos em seus benefícios. Para quem olha de fora, pode parecer apenas mais um escândalo de cifras bilionárias. Para quem vive de aposentadoria, cada cifra tem tradução. Cinquenta reais são muita coisa. Cem reais são muita coisa. Quinhentos reais fazem uma falta danada.</p>



<p>É remédio. É mercado. É luz. É transporte. É plano de saúde. É vida concreta.</p>



<p>Depois que a fraude veio à tona, a investigação avançou, os descontos foram interrompidos e o governo Lula instituiu um mecanismo de ressarcimento. Até fevereiro deste ano, aproximadamente R$ 2,9 bilhões haviam sido devolvidos a 4,2 milhões de aposentados e pensionistas, segundo balanço oficial do INSS. Uma nova legislação também passou a proibir descontos de mensalidades associativas diretamente dos benefícios e reforçou mecanismos de proteção e ressarcimento.</p>



<p>Isso aconteceu no governo Lula. Tenho lado. E não vou praticar comigo mesma aquela falsa equivalência que tanto critico.</p>



<p>Se meu governo erra, quero investigação. Se alguém do meu lado comete crime, quero responsabilização. Mas, se o governo acerta, também não tenho obrigação de fingir que não vi. Investigar fraude, interromper desconto, devolver dinheiro e mudar regras para dificultar a repetição do problema são fatos. Que sejam avaliados como fatos. Sem desconto. Sem maquiagem. Sem equivalência artificial.</p>



<p>E então chegamos a outra coisa que me incomoda profundamente nesta eleição.</p>



<p>Há acusações. Há fatos. Há indícios. Há suspeitas. Há investigações. Há ilações. Essas palavras não significam a mesma coisa. Às vezes, porém, parecem receber tratamento bastante diferente conforme o sobrenome envolvido. Quando surge uma ilação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, naturalmente deve ser investigada. Sem problema algum.</p>



<p>O que não consigo aceitar é uma espécie de escala móvel de indignação. Por isso acrescento outras perguntas:</p>



<p>Por que determinadas ilações ganham imediatamente manchetes nacionais?</p>



<p>Por que determinadas conexões documentais parecem precisar gritar para conquistar o mesmo espaço?</p>



<p>Qual foi o espaço dedicado às suspeitas envolvendo Fábio Luís?</p>



<p>Qual foi o espaço dedicado à sala 2601?</p>



<p>Houve proporcionalidade?</p>



<p>Houve o mesmo cuidado em separar suspeita de prova?</p>



<p>Houve o mesmo zelo com o contraditório?</p>



<p>Houve a mesma disposição para seguir empresas, endereços, conexões e personagens?</p>



<p>Houve a mesma curiosidade?</p>



<p>O mesmo tempo de televisão?</p>



<p>A mesma permanência nas manchetes?</p>



<p>A mesma fome investigativa?</p>



<p>Eu não quero silêncio sobre Fábio Luís — e me recuso a aderir ao “Lulinha”, apelido que considero carregado de intenção política. Quero barulho sobre todos. Esse é o ponto.</p>



<p>Não quero uma imprensa simpática ao meu candidato. Quero uma imprensa igualmente justa com todos eles.</p>



<p>Imprensa boa incomoda governo. Incomoda oposição. Incomoda amigo. Incomoda adversário. E, principalmente, não escolhe o volume do megafone pelo sobrenome de quem aparece na história.</p>



<p>Volto, então, aos aposentados. A nós. Talvez esta seja a parte mais séria desta conversa inteira.</p>



<p>Passamos uma vida trabalhando, contribuindo, pagando impostos, criando filhos, sustentando famílias e atravessando planos econômicos, moedas que desapareceram, inflações, crises, governos e promessas que ficaram pelo caminho.</p>



<p>Chegar à aposentadoria não deveria significar transformar-se em personagem secundário da política. Muito menos em alvo fácil. Talvez por isso devamos perguntar muito.</p>



<p>Perguntar quem protege o INSS. Perguntar quem fiscaliza. Perguntar quem roubou. Perguntar quem permitiu. Perguntar quem descobriu. Perguntar quem interrompeu. Perguntar quem devolveu. Perguntar quem promete cortar.</p>



<p>Perguntar exatamente o quê. Perguntar exatamente de quem. Perguntar quem paga a conta. E continuar perguntando mesmo quando a resposta favorece o nosso próprio lado.</p>



<p>Isso não é neutralidade. É cidadania.</p>



<p>Tenho 69 anos. Daqui a pouco faço 70. Cheguei a uma idade em que a pessoa aprende algumas coisas importantes. Uma delas é não acreditar em tudo o que lê. Outra é não deixar de ler aquilo que preferiria não saber.</p>



<p>Talvez por isso esta eleição esteja me produzindo um fenômeno novo de insônia. A vontade é nem dormir. Não por ansiedade. Também é. (Rs.) Mas por medo de acordar e descobrir que perdi três escândalos, quatro operações da Polícia Federal, dois vazamentos seletivos, uma delação, meia dúzia de coincidências e algum parente de alguém aparecendo numa planilha.</p>



<p>O Brasil de 2026 está assim. Netflix perde. Hollywood pede arrego. Roteirista brasileiro já desistiu de competir com a realidade. E eu, aposentada, continuo aqui. Com meu lado. Com meu voto precioso. Com minhas perguntas. Com minha aposentadoria.</p>



<p>E com os olhos muito abertos para qualquer candidato que apareça em campanha carregando uma tesoura. Porque, nesta idade, aprendi também outra coisa: quando alguém promete cortar muito, antes de discutir se a tesoura é moderna, liberal, eficiente, revolucionária ou importada da Argentina, convém fazer uma pergunta bem mais simples:</p>



<p>onde exatamente pretende passar a lâmina?</p>



<p>Vamos pra cima, aposentados e 70 anos e mais&#8230;&#8230;.</p>



<p><strong>25 de setembro de 2026. Desde o sofá, longa jornada noite adentro, como se inspirou Eugene O`Neal&#8230;.</strong></p>


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	    <p>*<strong>Jane Santos</strong> é médica sanitarista e psiquiatra, atuou como gestora pública e integrou o staff do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), onde se aposentou como especialista em políticas públicas do escritório regional para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.</p>
    </div>
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