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	<title>Arquivos catolicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 27 Feb 2024 14:20:14 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos catolicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>&#8220;A eleição será muito mais suja, cristãos conservadores recebem muito dinheiro de fora&#8221;, afirma Lívia Reis</title>
		<link>https://marcozero.org/a-eleicao-sera-mais-suja-cristaos-conservadores-recebem-muito-dinheiro-de-fora-afirma-livia-reis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jun 2022 13:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[#eleições2022]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Olhar para as eleições passadas pode ser como espiar pela brecha o quem vem em outubro. E uma das certezas que se antevê é de que a pauta moral, com lastro na religiosidade, vai continuar forte. Em 2020, as candidaturas com identidade religiosa foram mapeadas em oito capitais do Brasil em uma pesquisa do Instituto [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-left">Olhar para as eleições passadas pode ser como espiar pela brecha o quem vem em outubro. E uma das certezas que se antevê é de que a pauta moral, com lastro na religiosidade, vai continuar forte. Em 2020, as candidaturas com identidade religiosa foram mapeadas em oito capitais do Brasil em uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser). O Recife foi uma dessas capitais &#8211; e a cidade onde a carta da religiosidade foi mais usada pelos candidatos.<br><br>Coordenadora nacional do estudo &#8220;<a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/iser-divulga-resultados-da-pesquisa-sobre-candidaturas-com-identidade-religiosa-nas-eleicoes-municipais-de-2020/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020</a>&#8220;, a pesquisadora Lívia Reis, doutora em ciências sociais, diz que a expectativa é de que o conservadorismo esteja ainda mais presente nas estratégias dos políticos. “Os religiosos conservadores vão adotar a narrativa dos ataques à religião cristã e à família tanto pelos governos que consideram “comunistas” quanto pelo STF. E esse tipo de ataque também é uma corrosão da democracia. É um poder atacando o outro e não permitindo o diálogo, mas pedindo o aniquilamento. Esse tipo de narrativa, com cristofobia e cerceamento de liberdades, vem com força nas eleições de 2022”, diz.</p>



<p>Na entrevista abaixo, Lívia Reis destrincha como as pautas morais, ligadas ao cotidiano, são usadas pelas candidaturas conservadoras com identidade religiosa. E como essas narrativas estão corrompendo a democracia brasileira.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero Conteúdo &#8211; <strong>A pesquisa mostra que, apesar de representar 10% na eleição passada, candidaturas com identidade religiosa ocupam, em média, 51% das cadeiras nas câmaras municipais das oito capitais analisadas. É uma boa estratégia para ser eleito no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Lívia Reis &#8211; </strong>Política e religião nunca foram uma coisa separada, sobretudo no Brasil. Temos a influência da Igreja Católica aqui, que acompanha a história da formação do Estado brasileiro. De novidade, não tem nada. O que está acontecendo é uma maior ênfase em pautas morais para a mobilização de candidaturas que, de alguma forma, apresentam certa identidade religiosa. Nessa pesquisa, tivemos o cuidado de avaliar mais especificamente como a religião é mobilizada pelas candidaturas. Não apenas no campo do que podemos chamar de conservador. A religião é mobilizada por progressistas também. Nesse campo, o mais comum é na religiosidade de matriz africana, com a pauta do fim da intolerância religiosa. Mas também pelos cristãos. Vimos nesta eleição da pesquisa, a de 2020, movimentos como <em>Cristãos contra o fascismo</em> e <em>Bancada Evangélica Popular,</em> que estavam ali também disputando o cristianismo durante a campanha eleitoral, dizendo &#8220;o cristianismo que a gente quer não é o do Bolsonaro, há outros tipos de cristianismo&#8221;. O que está acontecendo é que a pauta moral de base religiosa está ganhando mais espaço nas discussões eleitorais. Religião é uma variável importante na sociabilidade dos brasileiros, nunca esteve ausente da vida pública. Quando falo de pauta moral, não estou falando só de pautas como ideologia de gênero, como eles chamam, ou de aborto. Mas coisas mais cotidianas, como educação, violência contra a mulher, empreendedorismo, que são coisas que estão tematizadas dentro das igrejas. Então quando isso é trazido para o debate público durante as campanhas eleitorais, encontram uma certa equivalência de quem vai para as igrejas. Quando um candidato conservador está ali falando sobre cuidado, ele sabe que está falando para um público específico, que vai saber do que está sendo falado. Não precisa abertamente falar de religião para falar de religiosidade. Esse é um ponto. Por um lado, e nossa pesquisa mostra, isso é eficiente. Esse é um achado importante. Mas é importante pontuar que há diversas formas da mobilização da identidade religiosa. Então aquilo que chamamos de candidatura religiosa são aquelas pessoas que fizeram da religiosidade uma pauta central da campanha. Mas tem quem não usa como pauta central ou apenas é religioso. Tivemos o cuidado em separar essas candidaturas na pesquisa.</p>



<p><strong>A candidatura com identidade religiosa acontece mais na direita? Por que?</strong></p>



<p>A mobilização é diferente. Não é sobre a religião do candidato, é sobre quais pautas ele mobiliza durante o debate eleitoral. Isso, para quem está dentro das igrejas, comunica muito. Então você não precisa ficar batendo no seu peito e falando &#8220;olha, eu sou dessa tal igreja. Você fala assim: &#8220;Eu sou a favor do combate à intolerância religiosa porque os cristãos estão sendo perseguidos no mundo. Eu não quero que isso se torne uma realidade no Brasil&#8221;. Ou &#8220;eu defendo empreendedorismo, porque eu quero que as pessoas tenham liberdade e sejam incentivadas através de seus próprios méritos e seu esforço individual a alcançar a prosperidade&#8221;. Isso tem relevância dentro das igrejas. Ou quando o candidato fala que &#8220;eu não quero que educação sexual seja um tema dentro das escolas, porque eu acho que isso é um dever da família&#8221;. Então, quando o candidato levanta essas pautas no debate público durante as campanhas, ele está comunicando ao eleitor o tipo de cristianismo que ele pratica. Ele não precisa falar diretamente. Obviamente, alguns falam. As campanhas são feitas dentro das igrejas. O candidato da igreja Universal circula mais dentro dessas igrejas.  A questão do cuidado, por exemplo. Isso foi o slogan de campanha do Crivella, o &#8220;vou cuidar das pessoas&#8221;. Aí você transfere essa coisa do cuidado, que tem uma equivalência muito importante nas igrejas, que estão ali fazendo ações de assistência social o tempo inteiro, incentivando que seus membros façam assistência social. As pessoas que estão vendo ali dentro das igrejas, aquelas práticas de cuidado, podem pensar &#8220;tira isso da mão do Estado e passa para a mão da igreja&#8221;. As pessoas fazem suas associações sem que seja necessariamente importante você falar sobre o seu pertencimento religioso. As candidaturas que têm essas pautas no centro da sua candidatura são consideradas pela nossa pesquisa como candidaturas religiosas e no, caso do Recife, as candidaturas que mobilizaram a religião diretamente correspondem a 65,71% do total de candidaturas com a identidade religiosa.</p>



<p><strong>Foi a mais alta entre as oito capitais?</strong></p>



<p>Sim, dentro tipo de candidatura que mobiliza diretamente. O que gente tira disso é que quem mobiliza diretamente as pautas morais ligadas à religião são mais eleitas. A pesquisa demonstra que esse tipo de abordagem atraiu o eleitorado.</p>



<p><strong>Por que algumas candidaturas evangélicas usam o discurso de que são perseguidas?</strong> </p>



<p>Nos chamamos de retórica persecutória. A narrativa dos cristãos evangélicos para ingressarem na política &#8211; e estamos falando de 30, 40 anos atrás &#8211; é uma narrativa de perseguição. E que de fato existia. A narrativa de que os evangélicos não tinham espaço no debate público porque eles eram considerados uma minoria &#8220;burra&#8221; ou despolitizada foi um gancho muito utilizado para justificar a entrada dos evangélicos na política. Mas esse quadro mudou. Hoje, o que a gente vê é uma narrativa de cristofobia, que é diferente. Apesar dos evangélicos estarem cada vez mais presentes no espaço público, a narrativa que está em voga &#8211; e que está sendo disputada hoje &#8211; é a de que com as políticas progressistas do PT, como as ações afirmativas, eles foram perseguidos. Há um debate de raça muito intrínseco. A categoria raça virou uma disputa. Quando se diluiu aquele mito da igualdade racial, das três raças que convivem pacificamente, e se falou &#8220;não, as pessoas negras são discriminadas, por isso precisam de ações afirmativas&#8221;, essas políticas de integração para corrigir desigualdades não foram vistas com bons olhos. <br><br>Outra coisa foi o kit gay. Era, na verdade, um projeto de educação sexual nas escolas, muito diferente de um kit gay. Mas isso foi apropriado pela direita como sendo o kit gay. Diante dessa tentativa de redução de desigualdades e de ampliação do direito de minorias perseguidas — e estamos falando de combate à intolerância afro religiosa, de pessoas LGBTQIA+ — ,diante desses progressos na pauta dos direitos das minorias, veio colada uma narrativa de que existe uma perseguição aos cristãos. &#8220;Olha, se esse povo tá querendo falar de de ideologia de gênero nas escolas, isso é uma obra do demônio que precisa ser combatida&#8221; ou &#8220;eles vão transformar todos os nossos filhos em homossexuais&#8221;. Nisso, se propaga a ideia de que o avanço nos direitos das minorias é uma perseguição às moralidades cristãs. Outra coisa forte foi a equiparação da homofobia ao crime de racismo pelo STF. Isso tem uma ligação muito direta com a pauta da despatologização da homossexualidade, que já foi considerada doença, passível de cura. Então houve toda uma disputa, no Conselho Federal de Psicologia, para proibir os tratamentos de reversão sexual que eram praticados dentro das igrejas, por psicólogos. A partir do momento que o STF reconhece a homofobia como um crime, você não pode ficar dentro das igrejas falando que homossexualidade é uma doença. E isso também é considerado uma perseguição ao cristão. Essa narrativa de perseguição muda de configuração, mas ela vem de uma mesma linha. Quando o segmento religioso que hoje chamamos de evangélicos começa a crescer, lá na década de 1970, ele tem uma narrativa de perseguição: &#8220;A gente não tem o direito de professar nossa fé&#8221;. E isso vira a chave para entrada na política, porque também querem espaço e os direitos respeitados. Só que depois eles foram crescendo, cada vez mais, embora hoje tenhamos um cenário que indica uma estabilização, tanto da queda do catolicismo, quantos do crescimento do segmento evangélico. Essa narrativa de perseguição mudou de configuração e isso vai ser muito explorado nas próximas eleições. O Bolsonaro, quando leva isso para <a href="https://news.un.org/pt/story/2020/09/1727002" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a abertura da assembleia geral da ONU</a>, quando ele pede o combate à cristofobia, ele está falando disso, das pautas morais. O Brasil conseguiu avançar minimamente no que diz respeito à proteção dos direitos de minorias políticas e esse avanço foi usado para criar uma narrativa de perseguição às moralidades cristãs. Cristãs conservadoras, no caso, porque não é de todo o cristianismo que estamos falando.</p>





<p><strong>Então podemos esperar que, mesmo com temas tão fortes no Brasil atual, a pauta moral também virá com força?</strong></p>



<p>Com muita força. E vão muito além de aborto, ideologia de gênero e cristofobia. Agora em 2020, durante o auge da pandemia, isso foi muito explorado nas campanhas. Porque, entre as medidas sanitárias estava o fechamento das igrejas, que foi encarada como perseguição aos cristãos. Isso vira um argumento que corrobora o posicionamento do Governo Federal e dos seus atores. E qual que vai ser o argumento? Se o PT voltar, isso vai continuar acontecendo. E para isso deixar de acontecer, para as nossas liberdades individuais e de crença continuem sendo respeitadas, a gente não pode votar no PT. E quem é visto como o aliado dos &#8220;esquerdistas&#8221; nessa perseguição aos direitos dos cristãos? o Supremo Tribunal Federal (STF). Isso vai aparecer nas campanhas de uma forma muito articulada. A pauta moral é uma das chaves importantes da campanha das próximas eleições. Eu acho que essa pesquisa que fizemos já mostra muito como a pauta moral já está sendo articulada. O <em>homeschooling</em>, por exemplo, que já estava ali nas eleições de 2020 e vimos agora ser aprovado no Congresso.</p>



<p><strong>Isso vai ser um dos trunfos dos conservadores nas próximas eleições?</strong></p>



<p>Sim, porque tem a ver com ideologia de gênero, tem a ver com o cristofobia: &#8220;Eu quero que o meu filho não aprenda essa coisas&#8221;. A escola é associada não como um espaço seguro, mas como um espaço de perigo. E aí, quando você convence as pessoas que a escola não é um espaço seguro, a educação em casa é uma forma de assegurar a integridade das crianças. Então a proteção à criança e o cuidado com a família apresentam essas sutilezas. E estamos falando de família num sentido mais amplo, de responsabilidade de vínculos, não só de crianças, mas dos idosos também. Nas últimas eleições de 2020 tinha muito, muito político conservador com essa pauta de proteção dos idosos. O Governo Federal tem uma Secretaria Nacional de Idosos, então essas coisas são muito articuladas. Tem essas pequenas sutilezas de cuidados com a família, que são muito bem exploradas por esses políticos conservadores e que ligam a vida cotidiana à religiosidade. E aí que mora o perigo para a democracia. Passa-se uma falsa impressão de que se o Bolsonaro não ganhar, essas coisas vão estar em perigo.</p>



<p><strong>A pesquisa do Iser levantou 15 temas que são mais debatidos pelas candidaturas de identidade religiosa. E nessa lista tem o da segurança pública. Essa dupla arma e bíblia é algo historicamente ligado às candidaturas de identidade religiosa ou é algo que cresceu agora com Bolsonaro?</strong></p>



<p>Eu acho que ganhou novos contornos. Vemos um aumento progressivo dessa associação de identidade religiosa com militar. Até em nomes de urnas. Salvador, por exemplo, tem um Pastor Sargento Isidório. Houve um aumento nas últimas eleições, foi mais acionado, e isso tem a ver com essas articulações feitas. Quem nem são feitas pelo Bolsonaro, mas por um movimento mais amplo que podemos chamar de bolsonarismo ou neoconservadorismo, que fala da proteção às liberdades individuais. E a lógica é que se o Estado não me protege, eu não vou mais cobrar do Estado essa proteção: eu quero ter o direito de proteger a minha família. Entra na chave da defesa da família.</p>



<p><strong>Assim como o <em>homeschooling</em>, que também se pauta na defesa de uma &#8220;liberdade&#8221; individual. Processos que não passam pelo Estado, mas pelo núcleo familiar?</strong></p>



<p>Sim, e a consequência mais direta é uma corrosão do Estado de bem-estar. Vai minando. O que esse tipo de política propõe é que o Estado não é capaz de gerir a vida das pessoas, então você vai individualizando cada vez mais. Isso é uma característica de sociedades neoliberais. Vai minando tudo o que for para para promover o bem social, os direitos sociais e coletivos, que vão sendo colocados de lado em nome dos direitos individuais, das liberdades individuais. E falando de liberdade em um sentido muito amplo. O nosso sistema é de contrapesos, em que nenhum poder deve se sobrepor ao outro (individuais e coletivos). O ideal é que esses direitos estejam balanceados. E o que a gente está vendo é um desbalanceamento, no sentido de uma de uma superposição das liberdades individuais. É o discurso de &#8220;dane-se que minorias estão sendo prejudicadas por esse discurso de ódio, é a sua liberdade&#8221;.</p>



<p><strong>A pesquisa mostra que há poucos candidaturas religiosas de não cristãos e ainda menos eleitos. Em Recife, foram duas candidaturas, nenhuma eleita.  É comum essa subrepresentação?</strong></p>



<p>Sim, infelizmente. Apesar de que agora estamos vendo uma mudança nesse quadro. Candidaturas que se auto definem como afro religiosas e têm a pauta da intolerância e da defesa da cultura dos povos das culturas negros estão vendo que a representação na política institucional se tornou o requisito para a sobrevivência das religiosidades, que foi justamente o que fizeram os evangélicos 30, 40 anos atrás. Não estamos falando de equivalência de poder, é uma religiosidade que ainda não compõe nem 5% da população brasileira. Católicos e cristãos compõem mais de 80% da população, então essa subrepresentação se dá também na sociedade. As afro religiões nunca fizeram política institucional, é outra dinâmica de ocupação e relação com o espaço público e com a natureza. Historicamente, há essa ocupação como cultura. Tem toda uma história no PDT, pro exemplo, que tem um histórico de candidaturas negras com uma pauta mais ligada à cultura. O PT concentra mais candidaturas de católicos por conta da ligação histórica do PT com as comunidades eclesiais de base, com as pastorais da juventude. Agora estamos vendo mais candidaturas afros ligadas à religião, porque a representação política está sendo entendida como importante para a manutenção e garantia dos seus direitos. Infelizmente, porque, teoricamente, a religião da pessoa não não deveria influenciar no tipo de direito que é reivindicado. Se você tem pessoas comprometidas com a democracia e com os direitos humanos, não precisa de um representante da sua religião para ter seus direitos garantidos.<br><br><strong>O debate público, principalmente das esquerdas, ainda é muito voltado para o conservadorismo evangélico. Mas também existe um forte conservadorismo católico. Aqui no Recife, em 2020, teve um movimento das comunidades católicas que foi até a porta de um hospital público para tentar impedir o aborto legal em uma criança de dez anos. Como é esse conservadorismo católico nas eleições?</strong></p>



<p>Não é à toa que o Recife elegeu sete candidatos católicos, com diferentes graus de envolvimento com a igreja. Como coordenadora dessa pesquisa, fiquei um pouco impressionada também com a relação da igreja católica em Recife e esse setor de conservadores da igreja católica. Existe um conservadorismo católico que passa pela renovação carismática, mas que já começa a ir além dela. Existem muitos setores conservadores católicos que estão se mobilizando junto também com evangélicos conservadores e cristãos conservadores. Tem muitos conservadores que se denominam cristãos e são católicos. Quando precisam, eles se juntam. Das 39 cadeiras da Câmara de Vereadores do Recife, 20 candidatos com identidade religiosas foram eleitos. Desses 20, nove eram ligados ao PSB. Outra coisa importante também é que os católicos eleitos são majoritariamente brancos. São dados importantes a se trabalhar. Como o catolicismo é muito naturalizado, porque ele tende a ser visto como a religião dos brasileiros, começa a passar batido com a emergência do debate público dos evangélicos. Mas não é que eles deixam de existir: eles só ficam apagados. Eles ainda têm muito poder, ainda são muito conservadores e ainda têm um papel muito importante na manutenção dessas estruturas autoritárias de poder. É importante mostrar essa dimensão porque no Recife ficou muito evidente. É uma maioria branca, ligada a partidos conservadores &#8211; não no caso do PSB, que é um partido mais de centro-direita. Recife também foi a capital com mais candidaturas com identidade religiosa identificada em relação às candidaturas totais. A média nacional foi 10%. Recife foi 12,56 %: de 836 candidatos, foram 105 com identidade religiosa.</p>



<p><strong>O que podemos esperar das candidaturas com identidade religiosa para as eleições de 2022?</strong></p>



<p>Está sendo muito importante ver um crescimento da disputa pelo cristianismo também por setores de esquerda. Eu acho que isso é uma tendência que vai aumentar. É importante pontuar isso, de que existem muitos tipos de cristianismo e não só o conservadorismo cristão, uma direita cristã. O que está mandando no país atualmente não é o único tipo de cristianismo e isso está sendo disputado no espaço público. Estamos vendo também uma organização maior de afro religiosos, em torno da ocupação desse espaço, que eu não acho é necessariamente um indicativo da nossa qualidade democrática. Acho que é o contrário, indica que a nossa democracia está tão fraca que essas pessoas estão precisando recorrer a esses espaços para ter seus direitos garantidos. Enquanto minorias que são, a não representação delas nesses espaços têm significado um ataque cada vez maior a essas religiosidades. A maioria não está protegendo a minoria, o que mostra uma piora da nossa democracia.<br><br>Os ataques de um poder sobre o outro também são outro importante fator de risco para a nossa democracia nessas eleições. E isso vai ser feito muito por meio dessa pauta da cristofobia. O discurso, por exemplo, de que os valores cristãos e a família cristã estarão sob ameaça se o PT voltar. Os religiosos conservadores vão adotar a narrativa dos ataques à religião cristã e à família tanto pelos governos que consideram “comunistas” quanto pelo STF. E esse tipo de ataque também é uma corrosão da democracia. Não comporta o diferente. Esse tipo de narrativa, com cristofobia e cerceamento de liberdades, vem com força nas eleições de 2022. Vai ser uma eleição muito mais suja. Cristãos conservadores, sobretudo católicos, têm uma rede internacional de articulações, então recebem muito dinheiro de fora para investir nas narrativas. É tudo muito bem articulado.</p>



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		<item>
		<title>As comunidades católicas por trás do protesto contra aborto no Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/as-comunidades-catolicas-por-tras-do-protesto-contra-aborto-no-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2020 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[catolicos]]></category>
		<category><![CDATA[evangélicos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Escravo da virgem Maria” É como se apresentam nas redes sociais muitos dos que estiveram no protesto no domingo (16), no Recife, contra o aborto legal em uma criança de 10 anos. Ao lado de políticos evangélicos pentecostais, o protesto jogou luz sobre a atuação das comunidades católicas que disputam as mentes, corações e contas [&#8230;]</p>
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<p>“Escravo da virgem Maria”</p>



<p>É como se apresentam nas redes sociais muitos dos que estiveram no protesto no domingo (16), no Recife, contra o aborto legal em uma criança de 10 anos. Ao lado de políticos evangélicos pentecostais, o protesto jogou luz sobre a atuação das comunidades católicas que disputam as mentes, corações e contas bancárias de fieis na internet. Engana-se quem pensa que a militância contra o aborto é a única pauta que une os dois grupos religiosos. Há mais semelhanças que divergências.</p>



<p>Antes  da extremista Sara Giromini fazer uma <em>live</em> no YouTube clamando para que seus seguidores fossem até a porta do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), perfis católicos no Instagram exibiam <em>stories</em> com o mesmo intuito. Alguns inclusive já estavam no local, antes mesmo da chegada da criança.</p>



<p>Integrantes das comunidades Porta Fidei, Diante do Altar, Bento XVI – Maanaim e Deus Conosco foram protestar na porta do Cisam. Há quem diga que os católicos foram mais numerosos que os evangélicos. Entre os gritos de guerra ouvidos no protesto, estavam o de “assassino”, dirigido ao médico Olímpio Moraes, diretor do Cisam.</p>



<p>Até padres e freis participaram dos grotescos ataques. Em um canal de extrema direita, o padre Cícero Ferreira afirmou que “Pernambuco é um estado que abre as portas para matar crianças inocentes”. A posição contrária ao aborto é uma das pautas inegociáveis da Igreja Católica. </p>



<p>No começo da noite de domingo, Dom Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, divulgou um vídeo de repúdio ao aborto. &#8220;Quero contestar inteiramente essa decisão. A igreja defende a vida em qualquer circunstância. Essa criança tem, sim, condições de sobreviver. Precisamos salvar a vida da mãe e do filho”, disse, fazendo uma comparação entre os profissionais que trabalharam na pandemia e os médicos do Cisam que, nas palavras de Saburido, estavam na “prática da morte”.</p>



<p>Há 11 anos, seu antecessor, Dom José Cardoso Sobrinho, foi mais incisivo. Por conta de um caso semelhante – aborto em uma criança de nove anos, estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos – excomungou a mãe da menina e os médicos que participaram do procedimento, inclusive Olímpio Moraes. Foi apenas um anúncio: pelo Direito Canônico a excomunhão é automática para quem faz ou participa de um aborto.</p>



<p>Na algazarra deste domingo, a comunidade Porta Fidei se destacou. Liderada pelo médico Rodrigo Cavalcanti Dias, conhecido como Rodriguinho, a comunidade fez várias postagens sobre o protesto. Muitos dos integrantes são ex-alunos do colégio Damas, assim como Rodriguinho, chamado de Fundador (assim mesmo, com maiúscula) ou até de “founder” (assim mesmo, em inglês). Nos perfis das redes sociais, foram vários os ataques ao grupo. As críticas à atitude do Porta Fidei foram tantas que a comunidade desativou os perfis no Instagram e no Facebook.</p>



<p>A comunidade católica Porta Fidei é formada majoritariamente por jovens brancos de classe média da zona norte recifense. Foi fundada em 2012 e desde 2016 tem como sede uma casa no bairro de Parnamirim. Defendem o celibato até o casamento e a submissão da mulher ao homem. Mas passam uma imagem <em>pra frentex</em>: a esposa de Rodriguinho, a também médica Bianca Victorino, já postou fotos indo para o Galo da Madrugada, por exemplo. O principal evento da comunidade é o Happy Day, quando fazem um dia com serviços e brincadeiras para crianças e idosos carentes.</p>



<p>Além do Recife, a comunidade marca presença em Petrolina e Arcoverde, no sertão pernambucano, e em Sumé, na Paraíba. No instagram, integrantes publicaram fotos juntos em passeatas pró-Bolsonaro. Em 2018, a Assembleia Legislativa de Pernambuco fez uma reunião solene em homenagem ao Movimento Pró-Vida, solicitada pelo deputado da bancada evangélica Joel da Harpa (PP), ex-policial militar que estava também ontem no protesto. Rodriguinho foi um dos homenageados. Na ocasião, ele e integrantes da comunidade posaram juntos com Dom Fernando Saburido.</p>



<p>Juridicamente, a Porte Fidei é uma associação católica com CNPJ desde 2016 para atividades de associações de defesa de direitos sociais, incluindo cultura e arte, educação profissional de nível técnico, ensino de esportes, entre outros.</p>



<p>Um <a href="https://www.change.org/p/processo-contra-porta-fidei-e-sara-winter-por-divulgarem-dados-de-crian%C3%A7a-gr%C3%A1vida-aos-10?recruiter=356201800&amp;utm_source=share_petition&amp;utm_medium=facebook&amp;utm_campaign=psf_combo_share_initial&amp;utm_term=psf_combo_share_abi&amp;recruited_by_id=86910040-3b8f-11e5-a353-53ff2be9140e&amp;utm_content=fht-24140792-pt-br%3A3" target="_blank" rel="noreferrer noopener">abaixo-assinado</a> pede que o grupo seja processado pelo protesto do domingo. Mais de 50 mil assinaturas foram coletadas. A Marco Zero ligou e enviou mensagens para vários integrantes da comunidade, mas ninguém quis se manifestar. Uma nota oficial da Porta Fidei deve ser emitida em breve.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Lavagem cerebral</h2>



<p>Os bastidores da comunidade contrastam com os sorrisos alvos nas redes sociais. Durante a quaresma, integrantes têm que fazer longos jejuns, dormir no chão e alguns usam até pedras nos sapatos. Ex-membros falam de homofobia e racismo. </p>



<p>Um dos relatos foi publicado no Twitter pela publicitária e ex-aluna do Colégio Damas Brenda Albuquerque com base no testemunho de uma amiga que pediu anonimato. “Presenciei uma menina sendo duramente criticada pelo Fundador por estar passando por uma transição capilar. Lembro-me que, na época, ainda tão nova não consegui identificar aquilo como o que realmente era: racismo. Racismo por uma menina que tinha o cabelo crespo e queria assumi-lo”, lembrou a ex-integrante em um longo depoimento compartilhado com amigos.</p>



<p>Ela também afirmou que o Porta Fidei exigia que os integrantes – muitos adolescentes e morando com os pais &#8211; jogassem fora objetos de casa que remetessem a qualquer outra religião. “A comunidade é sim machista (muito!) e propõe que, para ser uma esposa verdadeiramente católica, a mulher deve saber cozinhar, lavar, passar e ser uma boa dona de casa”, conta. É o mesmo pensamento compartilhado abertamente nas redes de figuras pentecostais – incluindo a deputada Clarissa Tércio, casada com um pastor.</p>



<p>Ela diz que há padrões de vestimenta e exigência do pagamento de dízimo. “Membros com capacidade aquisitiva menor costumam ser menos acolhidos e muitas vezes trocam os pés pelas mãos para atender os padrões”, diz. Com quem tem mais dinheiro, a relação é diferente. “Costumam ser mais acolhidos e recebem muitas regalias. O Fundador logo os traz para seu ciclo íntimo”.</p>



<p>Brenda Albuquerque não chegou a ser integrante, mas frequentou algumas adorações da comunidade, onde tinha vários amigos e amigas. “Já tive que ouvir que eu era uma pessoa perdida por estar namorando a minha namorada. Durante a adoração, eles têm uma &#8216;mania&#8217; de sentir o apelo de Deus para falar com outras pessoas (sim, essas palavras) e falam abertamente o que Deus quer falar para ela. No meu caso, Rodriguinho levantou a voz e falou &#8216;sinto que Deus me pede para falar com uma irmã que está perdida, se entregou aos desejos carnais, e está vivendo em pecado&#8217;. Como eu sempre soube da índole do grupo, só levantei e fui embora”, diz Brenda.<br><br>“Depois da thread que fiz uma galera veio me falar como se sente mal em ter feito parte do grupo, como sofreu opressão, como foi rebaixado. Uma amiga muito próxima sofre de ansiedade e crise de pânico por isso, sabe? É doloroso&#8230; Quando você para de prover dinheiro à comunidade, você se torna um zero à esquerda. Não consigo não ver como uma lavagem cerebral”, finaliza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>O que são as comunidades católicas?<br></strong>As comunidades católicas não são novidade. Pesquisadores as consideram como um desdobramento da Renovação Carismática Católica, surgida no final dos anos 1960, mas é ampla a variedade de regras de comportamento e discurso religioso. Para a pesquisadora Cecília Mariz, “a igreja Católica possui dispositivos organizacionais que permitem o crescimento de movimentos e comunidades com tal autonomia que se constituem em quase-igrejas dentro da Igreja”.</p><p>As “novas comunidades” nascem de um conceito de “carisma”: um indivíduo escolhido por Deus, chamado de fundador, se junta a um pequeno grupo, o grupo fundacional, e estabelecem princípios e regras para o grupo. Depois, passam a evangelizar pessoas de fora, que posteriormente entram na comunidade. As comunidades costumam ter uma hierarquia rígida, com o fundador no controle.</p></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading">Campo conservador unido</h2>



<p>Para o cientista político da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Joanildo Burity, que trabalha com foco em religião e política, há uma união de cristãos conservadores, independentemente da denominação religiosa. “É algo que já acontece há alguns anos no Congresso, com as bancadas católica e evangélica votando juntas”, diz. “Quem espalhou a notícia foi a extremista Sara Winter e quem foi para a porta do hospital foram os católicos conservadores. Há uma conexão política também”, afirma.<br><br>Não há surpresa alguma que o protesto do domingo em frente ao Cisam tenha sido majoritariamente católico, diz ele. “Aborto é uma pauta muito forte do conservadorismo católico. Há muito tempo. É algo para o qual a Igreja Católica se mantém irredutível. Já temas ligados a questões LGBT estão mais na seara dos evangélicos”, diz.<br><br>O pesquisador vê, porém, uma tendência de radicalização na forma com que esses movimentos atuam. “Em países como os Estados Unidos é comum esse tipo de protesto nas portas de clínicas de aborto. Não que haja uma conexão direta entre os grupos daqui e os de lá, mas há um aprendizado. Nos últimos anos, com a eleição de Bolsonaro, esses grupos católicos também sentem a necessidade de se posicionar ideológica e politicamente. Há também o perigo da infiltração de figuras da extrema direita para radicalizar ainda mais e amplificar conflitos”, acrescenta. “É preciso que o campo progressista aprenda a debater com essas pessoas. É uma tarefa árdua, mas aprendemos na época da redemocratização que é um caminho possível”.<br><br>Sobre a fala de Dom Fernando Saburido, Burity considera que ela foi institucional. “Ele fez o que tinha que fazer. Ser contra o aborto é uma posição institucional da Igreja Católica”, diz. “Agora, é um contexto em que uma criança de 10 anos foi sistematicamente estuprada por quatro anos. Em contraponto à Igreja Católica, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito fez um posicionamento forte contra o protesto e em solidariedade à criança”, comentou.</p>
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