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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Com telão inflável na rua e uso de IA, audiovisual pernambucano se mobiliza para reeleger Lula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 15:16:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cinema pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na eleição mais acirrada da história do Brasil, o audiovisual pernambucano tomou as redes e as ruas para conquistar votos pela reeleição do presidente Lula (PT). De telão inflável em praças públicas a produções com Inteligência Artifical (IA), trabalhadores do setor estão engajados nesta reta final de campanha para dialogar com os eleitores através do [&#8230;]</p>
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<p>Na eleição mais acirrada da história do Brasil, o audiovisual pernambucano tomou as redes e as ruas para conquistar votos pela reeleição do presidente Lula (PT). De telão inflável em praças públicas a produções com Inteligência Artifical (IA), trabalhadores do setor estão engajados nesta reta final de campanha para dialogar com os eleitores através do cinema.</p>



<p>O projeto Cinema Sem Teto, uma iniciativa ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), está percorrendo localidades na periferia do Recife com um telão inflável, cadeiras e um panelão de munguzá para exibir produções audiovisuais com mote político num convite para debater o cenário eleitoral do segundo turno.</p>



<p>A ação já passou pelo Morro da Conceição, na zona norte, quando uma sessão bem cheia, feita em articulação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento Mãos Solidárias, exibiu <em>Anatomia do Caos</em>, produção dirigida por Dandara Ferreira, que aborda a condução da pandemia de covid-19 no governo Jair Bolsonaro. Assista <a href="https://www.youtube.com/watch?v=MG3XZYu0_No" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a> ao documentário completo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/cinema-sem-teto-4-1024x768.jpeg" alt="Foto noturna de uma exibição de cinema ao ar livre, com uma grande tela inflável identificada como “Cinema Sem Teto” ocupando a maior parte da cena. Na tela, aparece uma pessoa participando de uma reunião ou audiência, usando máscara e falando ao microfone, enquanto crianças e outras pessoas acompanham a projeção em um espaço público iluminado, cercado por árvores, postes de luz e estruturas urbanas ao fundo." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Cinema Sem Teto leva documentários para bairros periféricos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/MTST</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na sequência, o grupo exibiu <a href="https://www.youtube.com/watch?v=I6rJJLTqx74" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Não Existe Almoço Grátis</em></a>, feito dentro das trincheiras do MTST, que ganhou prêmios em festivais como o de Brasília e aborda a história de três cozinheiras das Cozinhas Solidárias até o momento da posse de Lula em 1º de janeiro de 2023.</p>



<p>“São territórios com alguma relação com o MTST em que os agentes que fazem o convite para a gente estão ligados à defesa da candidatura de Lula, mas as sessões em si são ocupadas por gente que não necessariamente é eleitor e eleitora de Lula. Há muita gente em dúvida, gente que se absteve ou que está pensando em se abster e até bolsonaristas têm sentado nas sessões também. O que gera um clima curioso, porque vimos pessoas que declaravam voto em Flávio Bolsonaro assistir algumas sessões até o fim. E isso cria também uma possibilidade de debate posterior, que é o que a gente busca”, detalha Ingá Patriota, coordenadora do Cinema Sem Teto.</p>





<p>Nesta semana, o projeto percorreu a pracinha do Diário, no centro da cidade, e Água Fria, na zona norte, exibindo a série de vídeo do <a href="https://www.youtube.com/@revelando_br" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Revelando</em></a>, que tem mostrando diversas denúncias envolvendo o senador e candidato Flávio Bolsonaro. Nestas quinta, sexta e sábado, de 22 e 24 de outubro, é a vez das comunidades Pocotó, Fazendinha e Curral, próximas a Boa Viagem, na zona sul, e também do bairro da Várzea, na zona oeste, e do Alto Santa Terezinha, na zona norte.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O &#8220;tesouraço&#8221; traduzido para as redes</h2>



<p>A ideia de fazer um filme de terror em que um personagem foge de um serial killer, “o homem da tesoura”, uma figura inspirada em Flávio Bolsonaro, surgiu de um encontro, logo depois do primeiro turno, entre os membros da ABD-Apeci (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco/Associação Pernambucana de Cineastas). O plano terminou gerando uma série de seis vídeos curtos com uso de IA feitos pelo cineasta Tiago Calmon, para circular nas redes sociais. </p>



<p>Nas produções, ele aborda o corte de verba, o chamado “tesouraço”, proposto pelo candidato da extrema direita, através de um homem que persegue pessoas para tirar seus direitos.</p>





<p>Foi nessa reunião da ABD-Apeci que a categoria do cinema estruturou um <a href="https://www.instagram.com/p/DeKVLIoG7TO/?img_index=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">plano de ação</a> e aproximadamente 30 profissionais mapearam 14 frentes de trabalho autônomas, cineclubes, produção de vídeos, planfletagens digitais, exibições comunitárias e ações de rua. Aproximadamnete 100 pessoas estão envolvidas de forma direta e indireta.</p>



<p>Os vídeos, explica Tiago, procuram mostrar o que essa promessa de cortes dos bolsonaristas pode significar na vida cotidiana, com a perda de medicamentos distribuídos pela Farmácia Popular, do Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro para estudantes da rede pública, e de políticas habitacionais.</p>



<p>“A ideia foi trazer para a experiência concreta das pessoas o que é que significa esse tesouraço e espremer o significado concreto dessas palavras e desses símbolos numa linguagem das redes sociais com IA, coisas que caibam em 10 segundos e funcionem quase como um panfleto, um material de agitação que você olha rápido e consegue assimilar a ideia que está sendo passada ali”, explica.</p>



<p>Também cineasta, Pedro Severien também apostou na produção de uma pequena série para as redes, mas focada no público idoso. “Diante da massa de filmes e produções, eu foquei nessa frente mais pessoal, filmando meus pais e minha tia, Cristina Buarque, primeira secretária da Mulher de Pernambuco. Foram produções bem simples, mas que tinham esse objetivo de oferecer relatos posicionados para comunicar com pessoas com mais de 70 anos. Publiquei no meu Instagram, Facebook e soltamos pelo WhatsApp também”, conta.</p>





<h2 class="wp-block-heading"><strong>Projetor e telão nas praças</strong></h2>



<p>Já o roteirista, diretor e produtor Caio Dornelas se articulou com grupos que já estavam frequentando praças do Recife para conversar sobre política e espalhar o voto em Lula e botou seus equipamentos para jogo para exibir em telão episódios da série <em>Revelando</em>.</p>



<p>No Instagram, ele compartilhou a experiência em San Martin, na zona oeste: “foi massa, as pessoas paravam para assistir, não conheciam o conteúdo. Boa parte já votava em Lula, mas voltaram para casa, após o passeio na praça, com novas ferramentas, novos instrumentos, novos conhecimentos para também passar a palavra adianta do voto no 13”. Nesta quinta (22), ele esteve na Brasilit, na Várzea, também na zona oeste da capital.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Cineasta Caio Dornelas levou seu equipamento para bairros da zona oeste
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Beatriz Mota/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p></p>
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		<title>Kleber Mendonça Filho lidera campanha pela preservação do edifício Ofir, cenário de O Agente Secreto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jan 2026 14:41:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[cinema pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[iep]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por fora, é só um muro alto no bairro do Espinheiro, zona norte do Recife. Mas quando o portão eletrônico se abre, o edifício Ofir se revela: apenas três andares com pequenos jardins na frente e seis apartamentos de cerca de 150 metros quadrados. Atrás, um quintal imenso com uma área livre de terra, mais [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por fora, é só um muro alto no bairro do Espinheiro, zona norte do Recife. Mas quando o portão eletrônico se abre, o edifício Ofir se revela: apenas três andares com pequenos jardins na frente e seis apartamentos de cerca de 150 metros quadrados. Atrás, um quintal imenso com uma área livre de terra, mais de uma dúzia de árvores e uma piscina e parquinho pequenos. É daqueles prédios que figurariam com louvor no perfil <a href="https://www.instagram.com/sovequemvaiape1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@soquemvaiape</a>. Na noite desta segunda-feira (26), o imenso quintal ficou cheio de cadeiras de plástico para uma exibição do filme <em>O Agente Secreto</em>, que concorre a quatro estatuetas do Oscar, o maior prêmio da indústria do cinema.</p>



<p>A exibição foi uma confraternização entre os trabalhadores do filme, mas também uma espécie de ato na campanha em favor de manter o edifício Ofir tal como está. O edifício é cenário d’<em>O Agente Secreto</em>. É para lá que o personagem de Wagner Moura se muda ao chegar ao Recife, é na frente do prédio que ele aparece com a já icônica camisa da Pitombeira e o edifício é apresentado pelo seu próprio nome pela personagem Sebastiana, da carismática Tânia Maria.</p>



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	                                        <p class="m-0">Helena Martins e o cineasta Kleber Menodonça Filho. Foto: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Proprietária de dois apartamentos no edifício, a promotora Helena Martins é amiga de longa data do diretor Kleber Mendonça Filho. <em>Aquarius</em>, filme de 2016, também teve como locação um apartamento dela, no edifício Oceania, no Pina. A produtora dos filmes de KMF, Emilie Lesclaux, foi quem primeiro conheceu o local, durante uma festa. “Na mesma hora eu mandei uma foto para Kleber, que estava viajando, e falei ‘você precisa vir aqui, acho que a gente achou uma locação para o filme’. Conhecendo-o, sabia que ia amar esse lugar&#8221;. O marido dela foi lá depois, em um almoço com Helena, e logo o edifício virou cenário do filme.</p>



<p>A campanha em favor do Ofir existe porque ele está parcialmente ameaçado por um processo judicial. Uma <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/11/imovel-de-o-agente-secreto-e-alvo-de-litigio-no-recife-e-lembra-caso-de-aquarius.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem da Folha de S. Paulo de novembro do ano passado</a> mostrou que a posse da área externa do prédio é reivindicada há 22 anos por herdeiros dos antigos proprietários contra os atuais moradores que utilizam o espaço há décadas. Os herdeiros afirmam que, quando o prédio foi construído na década de 1960, o espaço externo foi cedido aos moradores por meio de um contrato de comodato por prazo indeterminado. Segundo eles, a finalidade era apenas para que a área fosse utilizada como garagem, mas a titularidade nunca teria deixado de ser dos proprietários originais.</p>



<p>O caso já transitou em julgado em favor dos três herdeiros – todos idosos e dois que já morreram durante o curso da ação –, mas a reportagem da Folha de S. Paulo informa que os moradores tentam uma última &#8220;cartada&#8221; jurídica por meio de uma ação rescisória para anular a decisão.</p>



<p>No evento no Ofir, Kleber Mendonça Filho fez um paralelo da situação com o edifício do filme <em>Aquarius</em> – que na ficção é alvo de intensa pressão imobiliária. “A cidade pode ir se transformando, mas você tem que entender o que é parte da história da cidade, o que deve ser salvo. Toda orla de Boa Viagem tem a mesma cara, é uma parede. E ela também tapa o sol: a partir do meio-dia a praia já começa a ficar com sombra. Isso não foi planejado, isso é fruto de uma bagunça. Morei muitos anos em Boa Viagem e lá é uma bagunça. Não há nenhuma ordem, é ‘traga seu prédio e construa aqui’. Isso não é bom para a cidade”, disse KMF aos jornalistas. “As cidades precisam ser cuidadas, porque senão o dinheiro vai destruir tudo. Eu não sou contra novos empreendimentos, mas eles precisam acontecer em lugares que fazem sentido”, afirmou.</p>



<p>Na noite de exibição, Helena Martins não quis falar sobre a disputa judicial da área externa do Ofir. “A minha família chegou para morar aqui no início da década de 1970. Eram só meus tios, minha mãe e minha tia que moravam nesse prédio. E assim foi durante décadas. Esse prédio virou um espaço de convivência, não apenas familiar e afetiva das pessoas que eram da minha família, mas dos amigos e parentes, que são inúmeros, que por aqui passaram”, disse. “O prédio contou um pouco da história do filme. E isso tornou ainda mais emocionante, não só para quem morou aqui, mas para quem sabe da importância desse tipo de habitação resistir à depredação e ao sumiço, como vem acontecendo com tantos outros exemplares a partir da especulação imobiliária”, afirmou Helena para a MZ.</p>



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	                                        <p class="m-0">Edifício Ofir tem apenas seis apartamentos. Foto: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>O Ofir não é um Imóvel de Especial Preservação (IEP), status de construções que, de alguma forma, fazem parte da identidade da cidade ou possuem características arquitetônicas que merecem ser preservadas. Recife tem apenas 277 edificações nesta lista, atualizada recentemente, no fim do ano passado. São, na maioria, edificações que se inserem na paisagem da cidade e carregam alguma memória histórica, afetiva ou arquitetônica – como a sede do clube América, o casario da rua Visconde de Goiana e o edifício Vila Mariana, assinado pelo arquiteto Wandenkolk Tinoco.</p>



<p>O edifício Oceania, cenário de <em>Aquarius</em>, entrou na última atualização da lista. Helena Martins diz que ainda está sendo estudado se vai ser feito um pedido para o Ofir se transformar em IEP.</p>



<p>Fora das telas de cinema, o Ofir é uma visão para pouquíssimos. Com seu muro alto, não há diálogo algum da construção com a cidade que o cerca. “Um amigo meu passou aqui e disse ‘nossa, meu pai mora nessa rua e eu não sabia que esse prédio existia’. É como se fosse um segredo bem guardado”, disse KMF.</p>



<p>Mas a intenção é que essa exclusividade acabe. Antes da exibição, Helena Martins apresentou imagens de projeção de como ficará o prédio após uma reforma que deve devolver à edificação o seu muro original – bem mais baixo e com cobogós, permitindo que o prédio seja vislumbrado por quem passa a pé. Algo semelhante a como o prédio era originalmente, com muro baixinho voltado para a rua, dando oportunidade a todos de olharem o edifício que foi parar no Oscar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">&#8220;Fico um pouco cabreiro com uma empresa privada cuidar de um espaço público&#8221;, diz KMF sobre Distrito Guararapes</h2>



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	                                        <p class="m-0">Paisagem que o personagem de Wagner Moura olha pela janela do prédio do cinema São Luiz será concedida para a iniciativa privada. Imagem: O Agente Secreto/Cinemascópio</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A pressão imobiliária e as mudanças nos modos de morar da classe média recifense perpassam boa parte da filmografia de KMF. O centro do Recife também. Além de <em>O Agente Secreto</em>, outro filme recente dele, o documentário <em>Retratos Fantasmas </em>(2023), também tem o Centro como cenário frequente. É um local que está prestes a passar por grandes mudanças: deve ser a primeira concessão para a iniciativa privada de um bairro no Recife. Batizada pela prefeitura do Recife de Distrito Guararapes, a concessão envolve toda a área daquela vista que Wagner Moura tem ao se debruçar na janela do Cinema São Luiz.</p>



<p>“Eu não conheço o projeto do Distrito Guararapes profundamente, porque esse ano eu estou muito voltado para o filme. Mas eu fico um pouco cabreiro com uma empresa privada cuidar de um espaço público, porque o espaço público é público”, disse, falando também da concessão privada de parques do Recife. “O Parque das Graças, por exemplo, é um espaço público que é muito bem sucedido. Acho que colocar uma praça, um parque (nas mãos de) uma empresa privada, me parece que há, pelo menos em termos de conceito, um choque de interesses. Eu fico sempre desconfiado. E a pior coisa que pode acontecer é colocar uma catraca num parque, por exemplo, ou numa praça”.</p>
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		<title>Mulheres do Maracatu Leão Coroado são protagonistas de documentário</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-do-maracatu-leao-coroado-sao-protagonistas-de-documentario/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Mar 2024 21:42:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[cinema pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[maracatu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para homenagear o protagonismo das mulheres que integram o Maracatu Nação Leão Coroado &#8211; fundado em 1863 e com atividade ininterruptas desde então &#8211; e a memória de sua avó, a primeira regente feminina do maracatu, Karen Aguiar, realizou o filme Leoas: o legado feminino no Maracatu Leão Coroado. Com estreia marcada para esta sexta-feira, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para homenagear o protagonismo das mulheres que integram o Maracatu Nação Leão Coroado &#8211; fundado em 1863 e com atividade ininterruptas desde então &#8211; e a memória de sua avó, a primeira regente feminina do maracatu, Karen Aguiar, realizou o filme<em> Leoas: o legado feminino no Maracatu Leão Coroado</em>. Com estreia marcada para esta sexta-feira, 15 de março, às 19h, no Museu da Abolição, o filme destaca o protagonismo feminino da Nação através de depoimentos das mulheres do grupo.</p>



<p>“Quando eu perdi meu avô, produzi um filme em memória dele, com imagens que eu tinha de arquivo. E a partir daí quis fazer o mesmo com a minha avó, com ela ainda em vida, para honrar a história dela como costureira do maracatu. Foi assim que surgiu a ideia do filme”, declarou Karen Aguiar. Em 2018, com a morte do seu avô, o Mestre Afonso Aguiar, Karen Aguiar assumiu a regência do maracatu e fez história sendo a primeira mulher no cargo, à época, ela tinha apenas 20 anos.</p>



<p>“Ter uma mulher como regente fez com que toda a formação do maracatu fosse reconfigurada, foi uma referência importante para as mulheres da Nação. De maneira geral, na história do maracatu os lugares de destaque sempre são dados aos homens, as mulheres lutam pelo cargo de rainha. O Leão Coroado sempre foi um maracatu onde as mulheres estiveram presentes, e foram protagonistas, mas nunca em cargos de liderança como na presidência ou assumindo o apito”, disse a regente.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;De maneira geral, na história do maracatu os lugares de destaque sempre são dados aos homens, as mulheres lutam pelo cargo de rainha&#8221;. </p>
</div>


<p>O filme <em>Leoas</em> foi a forma que Karen encontrou para dar ainda mais destaque às mulheres que sempre sustentaram as atividades da Nação e garantiram que ele se tornasse um maracatu com tanta longevidade, com 161 anos de atividade.</p>



<p>A ideia inicial do projeto era registrar o legado de dona Janete Aguiar, esposa de Mestre Afonso e também costureira, administradora e Dama do Paço da Nação, mas que nunca teve o mesmo reconhecimento do marido. Dona Janete morreu em 2022, antes que o projeto pudesse ser concretizado. Porém, Karen não desistiu do filme e decidiu criar uma narrativa que contemplasse a memória da avó por meio do registro das histórias de outras mulheres que compõem o maracatu.</p>



<p>“Escolhi as mulheres a partir da relação delas com o maracatu e com a minha avó. E eu também queria trazer um recorte de gerações, então também chamei mulheres mais novas, que entraram no baque depois que assumi o apito&#8221;, revelou Karen ao falar sobre as oito mulheres protagonistas do documentário.</p>



<p>Na produção, as oito personagens falam sobre suas experiências no maracatu e expõem questões importantes sobre negritude, religiosidade e machismo dentro da tradição dos brinquedos populares.</p>



<p>No evento de pré-estreia, que acontece nesta sexta-feira, haverá um debate com Karen Aguiar e as mulheres que participaram do filme. “Muita coisa mudou desde que eu assumi o apito e o filme vem para marcar isso. Por exemplo, todas as minhas primas que dançavam de princesa largaram a corte para ir tocar, e isso é muito impactante. É isso que eu quero que as pessoas vejam também com o filme”, concluiu Karen Aguiar.</p>



<p>O filme, realizado com incentivo do Funcultura, ficará disponível no canal do <a href="https://www.youtube.com/channel/UC9X5oEscxhCumkOFeDhZICQ" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Youtube do Maracatu Leão Coroado</a> a partir das meia-noite deste sábado, 16 de março.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Foto-de-Giovanna-Carneiro-1.jpg" alt="Foto de Karen Aguiar, mulher negra jovem de cabelos pretos cacheados, vestindo camiseta vermelha. Ela está em frente a uma parede vermelha decorada com vários objetos e imagens. A pessoa está com o rosto obscurecido e veste uma camisa laranja. Na parede, há um objeto decorativo grande e dourado com detalhes em azul no centro. À esquerda da pessoa, encontramos um tambor encostado na parede e um vaso de plantas com folhas verdes grandes. À direita, existe um quadro branco contendo imagens de roupas penduradas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Karen Aguiar é neta de mestre Afonso e primeira mulher regente do maracatu</p>
	                
                                            <span>Foto de Karen Aguiar, mulher negra jovem de cabelos pretos cacheados, vestindo camiseta vermelha. Ela está em frente a uma parede vermelha decorada com vários objetos e imagens. A pessoa está com o rosto obscurecido e veste uma camisa laranja. Na parede, há um objeto decorativo grande e dourado com detalhes em azul no centro. À esquerda da pessoa, encontramos um tambor encostado na parede e um vaso de plantas com folhas verdes grandes. À direita, existe um quadro branco contendo imagens de roupas penduradas.</span>
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		<title>Tenso, filme &#8220;Propriedade&#8221; escancara violência social. Leia entrevista com o diretor Daniel Bandeira</title>
		<link>https://marcozero.org/tenso-filme-propriedade-escancara-violencia-social-leia-entrevista-com-o-diretor-daniel-bandeira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Feb 2024 12:25:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cinema pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[daniel bandeira]]></category>
		<category><![CDATA[Propriedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2006, o cineasta pernambucano Daniel Bandeira pensou em uma imagem: uma mulher trancafiada em um carro, enquanto vultos indistinguíveis a amedrontavam do lado de fora. A imagem dessa mulher, em um invólucro impenetrável, foi a gênese do filme Propriedade, lançado no final do ano passado. Tenso do começo ao fim, o filme angariou críticas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2006, o cineasta pernambucano Daniel Bandeira pensou em uma imagem: uma mulher trancafiada em um carro, enquanto vultos indistinguíveis a amedrontavam do lado de fora. A imagem dessa mulher, em um invólucro impenetrável, foi a gênese do filme <em>Propriedade</em>, lançado no final do ano passado. Tenso do começo ao fim, o filme angariou críticas mistas, principalmente por não caber em um esquema que preenche os anseios de um certo tipo de público. E fez uma bela carreira em festivais do mundo, que trabalham principalmente com o cinema de gênero — o termo que engloba filmes de suspense, terror, ficção científica.</p>



<p>“É tudo aquilo que sai um pouco do real, dos limites da nossa convivência diária compartilhada. Então, o cinema de gênero se caracteriza por esse passo além dos limites do cotidiano. E eu acho que esse passo além é muito necessário para que a gente enxergue com outros olhos, outras referências, o mundo que a gente vive. Os limites aos quais a gente está acostumado a seguir no nosso dia a dia. Acho que é um momento oportuno para que a narrativa brasileira saia um pouco do pé do chão, do retrato da realidade. Os sonhos e a extravagância têm muito a oferecer neste momento em que precisamos nos redescobrir enquanto sociedade”, afirma Daniel.</p>



<p>Nesta entrevista, concedida no cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) no Derby, tentamos evitar <em>spoilers </em>sobre o filme, mas recomendamos que o leitor já tenha visto <em>Propriedad</em>e. Por ser um filme em que a tensão é a principal característica, talvez a melhor forma de vê-lo é sem saber muito a respeito da história. Basta dizer que a imagem que Daniel teve em 2006 se ampliou em um filme com elementos de luta de classes, escravidão moderna, claustrofobia e sentimentos ambíguos ora em relação a um grupo, ora em relação a outro. Não é um filme maniqueísta, preto no branco, mas que explora as emoções do espectador. E o incômodo é uma delas.</p>



<p>Por ora, não tem como se assistir <em>Propriedade </em>no Recife, que saiu de cartaz na semana passada. Mas em breve, o filme vai estrear em uma plataforma de streaming, ainda não divulgada. Avisamos aqui. <strong>(Avisando: o filme já está disponível na Netflix)</strong></p>



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	                                        <p class="m-0">No longa &#8220;Propriedade&#8221;, do diretor Daniel Bandeira, a atriz Malu Galli interpreta Tereza. Crédito: reprodução Símio Filmes
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você está vindo da Holanda e do Rio de Janeiro, onde <em>Propriedade</em> participou defestivais. Como foi a recepção do filme no circuito de festivais?</strong><br>Internacionalmente o filme teve uma recepção muito boa. Havia um olhar estrangeiro sobre as questões que o filme aborda que me surpreendeu. Foi muito precisa a visão que o estrangeiro tinha sobre nossas questões locais com escravidão. E principalmente de como o filme abordava isso, sob a perspectiva do cinema de gênero, com um olhar mais inusitado. Havia essa consciência do jogo que o filme estava propondo. Aqui no Brasil, tivemos uma recepção — que acompanhamos por resenhas, <em>Letterbo</em>x…— geralmente positiva, mas percebemos nas críticas negativas uma sensação de afronta talvez muito grande. Não tanto de setores da extrema direita, mas principalmente do pessoal da minha bolha progressista, que se sentiu muito incomodado com o filme. Não é uma maioria, mas me pegou de surpresa essa reação.</p>



<p><strong><em>Propriedade </em>não é um filme com vilões e mocinhos tão determinados, como em <em>Bacurau</em> — que também tem uma comunidade que se junta contra um alvo. <em>Bacurau</em> tem muito bem delineado quem é “bom” e quem é “ruim”, para quem você deve torcer e para quem você não deve torcer. <em>Propriedade</em> não é assim: em muitos momentos, o espectador é levado a torcer pela mulher trancafiada.</strong><br>Eu acho que há uma crise de representatividade no Brasil, que já vem rolando desde 2010, principalmente da transição de Lula para Dilma. Como a gente não se vê representado na política, não se vê representado na academia, não se vê representado na mídia, acho que a sociedade acaba procurando na arte este espelho, onde ela pode se ver e pode direcionar suas inquietações. A crise de representatividade se manifesta nesta expectativa de que o cinema deveria ajudar na minha agenda. Deveria estar à serviço da militância. Mas de uma maneira muito direta. Eu não acho que <em>Propriedade</em> faça um desserviço à militância, porque acredito que há no filme uma visão crítica sobre as camadas populares e sobre o senso de revolta — que, honestamente, para mim, está demorando a se manifestar.</p>



<p><strong>E o filme mostra os motivos da revolta dos trabalhadores de forma muito contundente.</strong><br>Pois é, fico muito frustrado às vezes quando vejo que as classes populares e trabalhadoras estão sofrendo há tanto tempo, sendo exploradas há tanto tempo. A base do Brasil é essa exploração. Quando é que isso vai explodir, finalmente? Às vezes você anseia por uma ruptura, e ela não vem, por questões que estão muito imbricadas na nossa cultura. E toda vez que há uma tentativa de revolta é prontamente abafada, tanto factualmente quanto na própria ideia de revolta. Você pode ver isso em toda greve que se faz, quando o foco da cobertura da greve é o trânsito. É negado até o direito de se revoltar. Mas acredito que ainda existe uma pressão que persiste e aumenta. Talvez com a eleição de Lula tenha se desinflado um pouco. Mas no Brasil, a noção de trabalhadores é a noção de desconfiança dos trabalhadores. E isso é uma herança escravocrata. O trabalhador é visto como alguém que está a meu serviço, mas pode, a qualquer momento, reivindicar mais do que é devido. Há uma questão aberta com a força de trabalho. E acho que tendo a desejar esse paroxismo de que as coisas vão explodir.</p>



<p><strong>Você acha que o fato de <em>Propriedade</em> não ter correspondido a esse anseio por representatividade prejudicou a carreira nacional do filme?</strong><br>Esse incômodo que o filme desperta era querido, era desejado. Uma coisa que percebo muito na minha bolha progressista são as palavras de ordem que tendem cada vez mais à violência. Eu não acredito que, quando se diz “fogo nos racistas” — não acredito ainda —, que seja alguém jogando gasolina e tacando fogo nos racistas. Mas eu entendo de onde vem esse desejo destrutivo. Eu acho que muita gente reclama que <em>Propriedade</em> traz uma visão animalizada dos trabalhadores. Eu acho exatamente o contrário: dar vazão às revoltas, principalmente às revoltas violentas, é uma forma de você entender de onde vem essa revolta. Não se pode oprimir tanta gente, por tanto tempo, sem esperar consequências fora do controle. Dar vazão e forma à essa revolta é uma forma de humanizar também essas pessoas. Agora, isso acaba não correspondendo ao ideal de classe popular, de povo brasileiro, que se tem. Que é um povo que vai à luta, mas sempre dentro de limites civilizatórios. Isso me incomoda. Porque também faz parte de uma bandeira adotada pela minha bolha progressista, que também faz parte de uma classe média que teme essa revolução. É muito legal você querer que os trabalhadores assumam seu BO, que assumam as suas lutas e vão pras ruas… Desde que não me atinja e desde que eu não precise abrir mão dos meus próprios privilégios. No final, eu vejo bandeiras progressistas muito mais voltadas para destruição de um <em>status quo</em> do que para a construção de algo novo. E sem essa construção, sem essa ideia do que a gente pode construir, de que acordos a gente pode refazer, acho que a gente tende realmente a uma rotura violenta. Independente de quem vai ser beneficiado. Apesar de que a história do Brasil não é nada simpática com revoltosos.</p>



<p><strong>É um filme gravado em 2018, né? Estava mais tensionado do que está agora</strong>.<br>Gravamos durante a campanha presidencial. Começou em 11 de setembro e terminou em 8 de outubro, bem no dia do primeiro turno. A gente estava filmando os últimos planos e de olho na apuração. Quando a apuração terminou, a gente sabia que uma virada de Fernando Haddad (PT) seria praticamente impossível e se preparou para o pior. E o pior veio piorado. Não só com a pandemia, mas o ritmo de más notícias era diário, todo dia.</p>



<p><strong>Era um bombardeio.</strong><br>Eu deprimi. Geralmente faço a montagem dos meus filmes. Peguei o primeiro corte de <em>Propriedade</em> e não consegui trabalhar. Eu mal consegui olhar o material em 2019. E também porque havia a responsabilidade de apresentar um equilíbrio entre a personagem de Malu Galli <em>(fantástica no papel principal)</em> e os trabalhadores. Eu queria que houvesse um equilíbrio muito delicado. No final, alguém sempre vai achar que a balança pende para um lado, mas eu queria estar com a consciência tranquila. O filme só se resolveu quando Mateus Farias entrou e fez a montagem.</p>



<p><strong>Levou um tempo das filmagens até a exibição nos cinemas, de cinco anos. O que aconteceu?</strong><br>Em 2019, eu pirei. Por conta de Bolsonaro e da responsabilidade de ter o filme lançado naquela época. Lançar um filme desses durante o governo Bolsonaro? Naquele estado de espírito em que a gente estava? Havia outro problema também, não tínhamos o dinheiro da pós-produção. Não adiantava terminar a montagem e não ter grana para a pós. A verba para <em>Propriedade</em> veio um terço do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura) e dois terços do Ministério da Cultura, que conseguimos no ano anterior à extinção do Minc, em 2016. Depois, em 2020, veio a pandemia. Que até foi positiva para mim, porque desacelerou o mundo e permitiu que eu voltasse, aos poucos. Mas não só não cheguei em um formato adequado ao filme, como ainda estava sem verba. Houve um momento em que eu não via mais o material. Em 2022, terminamos a montagem com Mateus e conseguimos verba do Funcultura para distribuição. São etapas retroativas, com o dinheiro da pós você paga a produção, com o dinheiro da distribuição você paga a pós… O custo geral foi em torno de R$ 1,6 milhão.</p>



<p><strong>Você teve a ideia para <em>Propriedade</em> muito antes das gravações. Como foi que essa ideia surgiu?</strong><br>Surgiu em 2006. Só uma imagem, dessa mulher dentro do carro. Eu gosto de suspense e desse tipo de suspense em um espaço muito confinado. Era só essa mulher dentro do carro e vultos que ela não sabe bem o que é. Em 2010, foi quando comecei a sentir a polarização no Brasil enquanto pauta. E comecei a perceber que a imagem da mulher dentro do carro sintetizava a maneira que eu via o Brasil, de como o abismo social ficava mais claro, de como a classe média se enclausura cada vez mais dentro do seu próprio mundinho e aí senti a necessidade de entender as pessoas do lado de fora do carro. Não eram só mais vultos, sombras, eram pessoas. E pessoas opostas a essa mulher. Me dei conta de que eu também não conhecia muito bem os trabalhadores. Procurei pesquisar e havia muito do drama da escravidão 2.0, que eu já acompanhava. Foi assim que evoluiu: de uma imagem para uma analogia. E acho que o cinema fantástico, o cinema de gênero, é muito bom em captar tensões e sintetizar isso em imagens.</p>



<p><strong>É um filme muito tenso, do começo ao fim. Como foi a construção dessa tensão?</strong><br>Eu já tinha essa noção da construção da linguagem que eu queria usar. É uma linguagem com que eu sou familiarizado desde a minha adolescência. E muito embora boa parte da minha bolha de realizadores associem o cinema de gênero ao cinema americano, do sistema comercial, e haja um certo estigma, eu percebia que era na verdade uma ferramenta muito útil para devolver tensão a uma situação que a gente já normalizou. Então uma situação de tensão social, que já faz parte do nosso dia a dia, o cinema de gênero devolve o horror a essa situação, devolve a repulsa. E tem outra coisa: a narrativa de horror como um todo se caracteriza por mostrar como coisas ruins podem acontecer quando você ultrapassa um limite estabelecido. Mas parece que as coisas ruins que o Brasil vem cultivando não têm limite. Há uma tentativa de devolver esse senso de “olha, se você realmente continuar negando a existência do outro vai chegar num ponto tal”. Obviamente o filme não é realista. A blindagem do carro não sofre nada, praticamente nada no filme.</p>



<p><strong>Qual a história daquele carro, vocês compraram para o filme?</strong> <strong>É um dos personagens principais.</strong><br>É um Dodge Journey, de 2013, blindado de verdade. A gente aprendeu que carros blindados perdem o valor muito rápido. Primeiro porque a blindagem tem validade <strong>—</strong> se não me engano, são dois anos <strong>—</strong> e, a partir daí, o fabricante não dá garantia. E outra é que é muito, muito, muito pesado. O filme comprou o carro por algo entre R$ 45 e R$ 60 mil. Se o filme tem um vilão, eu acho que está tanto no personagem de Tavinho Teixeira quanto no carro em si. O carro representa uma coisa que realmente me desagrada, que é um símbolo de algo que precisa ser pensado. A blindagem impede tanto algo de entrar quanto impede a percepção clara das coisas que estão lá de fora. O carro é blindado, mas, se eu pego uma picareta, com dois golpes estou lá dentro. Mas no filme, há uma questão de continuidade, que não dava para cortar o carro ao meio. E acabei preferindo não lidar com dano ao carro, por logística, mas depois eu percebi como isso funcionava melhor em termos tensão para mostrar o carro como um símbolo, como uma camada na qual o diálogo não pode acontecer. Não há fissuras, não há brechas. Acho que o cinema brasileiro ainda se apega muito a uma noção de retrato da realidade, que tem muito a ver com esse anseio: de esperar que a arte represente uma realidade idealizada. Mas quem sou eu para dizer que isso também não é válido? Mas quero trabalhar com símbolos, com o desconforto. Acho que é tirando o pé do chão que você tem uma perspectiva do que você quer dizer. Metáforas e analogias são mais eficientes de uma sugestão de reflexão do que necessariamente esse retrato de uma realidade.</p>



<p><strong>Quais seus próximos projetos? Vai continuar no cinema de gênero?</strong><br>Eu tenho apostado muito na ressurgência do cinema fantástico, principalmente nordestino. Me parece que ele tem um fator de estranheza e atração, talvez porque não foi ainda tão explorado. Normalmente meus filmes começam com uma imagem, de algo que eu quero muito filmar e que eu acho que vai causar um efeito. Depois se transforma numa frase e se transforma em uma sinopse, depois um argumento. Vai aumentando gradativamente, aí finalmente esse argumento é encaminhado para oficinas e laboratórios de roteiro. Alguns deles eu vou escrevendo sem esperar. Estou desenvolvendo um roteiro que é uma coisa meio <em>Mad Max</em> em uma Petrolina futurista. Vamos ver como vai ser. Estou esperando uma boa notícia.</p>
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		<title>O audiovisual que vem lá do beco da Favela do Canal</title>
		<link>https://marcozero.org/o-audiovisual-que-vem-la-do-beco-da-favela-do-canal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 May 2022 15:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Amanda Dias]]></category>
		<category><![CDATA[cinema pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[Okado do Canal]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
		<category><![CDATA[produção audiovisual]]></category>
		<category><![CDATA[Yane Mendes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Okado ainda era um moleque de 11 anos quando começou a se ligar na edição dos vídeos dos b-boys gringos, principalmente a galera dos Estados Unidos e Coréia. Aquela mistura do break com o audiovisual mexeu com o jovem. Começou ali o desejo que realizaria mais tarde de editar os próprios vídeos de suas danças [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Okado ainda era um moleque de 11 anos quando começou a se ligar na edição dos vídeos dos b-boys gringos, principalmente a galera dos Estados Unidos e Coréia. Aquela mistura do break com o audiovisual mexeu com o jovem. Começou ali o desejo que realizaria mais tarde de editar os próprios vídeos de suas danças e músicas. Aprendeu participando de oficinas e cursos que iam aparecendo.</p>



<p>“Eu fui desenvolvendo esse gosto com o tempo. Sempre que a gente ia fazer algum trabalho da oficina de vídeo, como eu já dançava e fazia as rimas também, a galera meio que me pressionava para atuar, tá ligado? Daí durante um bom tempo eu atuei por livre e espontânea pressão, mas fui perdendo a vergonha e ganhando o gosto de estar de frente pra câmera.”, conta.</p>



<p>Foi de frente para as câmeras que Ellan Barreto, o Okado do Canal, 28 anos, se tornou conhecido para além da sua quebrada, na comunidade do Canal, no Arruda, Zona Norte do Recife. Primeiro com o longa <em>A Princesa do Beco e o Lampião Cromado</em> &#8211; de 2017, dirigido por Kurt Shaw e Rita de Cácia Oenning da Silva &#8211; e, mais recentemente, protagonizando o filme Rio Doce, de Felippe Fernandes, lançado em 2021 e vencedor na categoria Melhor Filme do Festival Internacional de Curitiba. Mas é atrás das câmeras que ele e a companheira Amanda Dias vêm construindo uma outra cena, investindo na criação de uma escola de cinema na periferia onde moram.</p>



<p>“De uns seis anos mais ou menos pra cá, eu comecei a perceber o quanto que a galera ficava impressionada com o meu talento. E eu ficava pensando, caramba, é fogo que a galera fique impressionada comigo, mas eu no final das contas não sou nem um terço do talento que a galera tem lá na minha quebrada, tá ligado? Daí, no meio de uma dessas produções, eu fiquei viajando em como seria se tivesse uma escola de cinema aqui”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Okado do Canal gastou parte dos recursos do cachê do filme Rio Doce para comprar o terreno onde pretende construir a escola de cinema da comunidade. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>O aqui é o espaço cultural Ladobeco, que Okado coordena e que contou inicialmente com o apoio da ONG Usina da Imaginação. Funcionava como uma espécie de biblioteca, tinha ensaios de break, de rap, mas, com a inserção de Okado no mundo do cinema, veio a ideia de investir mais no audiovisual. Com o dinheiro do cachê de <em>Rio Doce</em> (“eu nunca tinha recebido uma grana daquela e nem sabia como gastar”), ele decidiu comprar um terreno para construir a escola de cinema ao lado do espaço cultural.</p>



<p>O audiovisual não mudou apenas a vida de Okado, ele também teve um impacto tremendo na trajetória de Amanda Dias, 24 anos, cogestora do espaço e companheira do rapper. Amanda trabalha com direção de arte, maquiagem, figurino… e também escreve. Além de tocar a direção de arte, alguns dos clipes de Okado foram roteirizados por ela.</p>



<p>“A gente tem crianças aqui que nunca estiveram num cinema e a experiência mais próxima do cinema foi em filmes que viram a partir de cineclubes que a gente fazia aqui no espaço, meio que na tora, com lençol. Qualquer casa que você for aqui tem sempre uma TV ligada e aí a gente ficou nessa lombra de incentivar esses jovens a perceber que a arte do audiovisual é muito mais do que o que passa na televisão. E aqui é um lugar muito rico de artistas que não sabem como se promover”, explica.</p>



<p>Para Amanda, &#8220;uma escola de cinema na quebrada vai abrir o horizonte e plantar mais essa sementinha, de que eu posso ser fotógrafo, trabalhar com marketing, ser músico, advogado, eu posso ser um médico, tem um estádio aqui bem perto e eu posso ser um jogador de futebol, eu posso ir pra lua, posso ser quem eu quiser ser&#8221;.</p>



<p>O espaço cultural praticamente salvou a vida dela, afirma, na medida em que foi aí que passou a entender que podia se inserir no mundo da arte. Antes dali, quando morava com a avó em outra comunidade, ela havia trabalhado em serviços gerais de bar, no bairro de Casa Forte, e em chapa de hamburgueria. Como ela mesmo fala, &#8220;trabalhos que você trampa de quatro da tarde até quatro da madrugada para ganhar 50 reais&#8221;. “Foi só quando eu vim pra cá que entendi que eu posso fazer um bom trabalho e posso receber bem, posso ser reconhecida”, afirma.</p>



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	                                        <p class="m-0">Amanda começou a receber reconhecimento profissional ao trabalhar com arte e defende a importância de trazer os jovens para o universo do audiovisual, ampliando seus horizontes. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Amanda critica a falta de continuidade das iniciativas sociais que aparecem pelas quebradas, fomentam o lugar e, “quando o pessoal tá com gás”, simplesmente vão embora. “Acaba que os meninos voltam e se perdem para um caminho muito mais fácil. Com uma escola de cinema dentro da comunidade, não tem como. A galera vai ter que vir aqui, vai ter que escutar que aqui tem uma escola de cinema, que aqui tem um estúdio, que se você quiser gravar seu clipe de brega funk aqui você vai gravar, se você quiser aprender só sobre áudio, gravar sua música, também. Vir de outra comunidade pra cá&#8230;”.</p>



<p>Foi preciso muito trabalho para limpar o terreno onde Amanda e Okado pretendem construir a escola de cinema. Tiveram que aterrar uma área insalubre, onde alguns moradores criavam porcos. Hoje, com o concreto, já rola batalha de break, de MCs e outras atividades. Os dois pretendem tocar as obras sem pressa, de forma pensada, para garantir uma boa infraestrutura, com salas, copa. “E aí a gente tá indo aos poucos, vendo como é que faz cada parte, mas sonhando que um dia isso aqui vai estar lindo”.</p>



<p>O investimento em audiovisual já é uma realidade. No ano passado, os dois aprovaram projeto pela Lei Aldir Blanc e o espaço realizou uma série de oficinas de roteiro, atuação, cenografia, maquiagem cinematográfica, figurino, captação de áudio e trilha sonora, acessibilidade no audiovisual e design gráfico, entre outras. O objetivo era abranger todas as áreas do cinema para que os alunos e alunas entendessem cada uma das etapas envolvidas na produção de um filme e aprendessem também como divulgar a sua produção.</p>



<p>Este ano, em maio, formaram-se duas turmas para oficinas de fotografia e edição de vídeo. Amanda conta que, quando vem gente de fora da comunidade para ministrar as oficinas, às vezes as pessoas da comunidade ficam mais acanhadas porque não entendem a linguagem. “Quando são oficineiros como Yane, é diferente. Yane é da favela, fala a língua que a gente tá falando aqui”.</p>



<p>Yane Mendes é cineasta periférica e uma das coordenadoras da Rede Tumulto. Por quatro dias, ela ministrou aulas de fotografia para duas turmas do Ladobeco, no Arruda. As aulas de edição de vídeo ficaram a cargo de Quentin Delaroche. Yane se sentiu desafiada e preparou um plano de aula para estimular a troca de experiências entre a turma e trazer vivências suas que vão para além do audiovisual autoral, abordando também o seu dia a dia na assessoria da mandata das codeputadas Juntas e na atuação junto a grupos de coletivas que contratam o seu trabalho.</p>



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	                                        <p class="m-0">Yane Mendes levou para o curso de fotografia um olhar provocador sobre a relação entre os territórios das ruas e das redes sociais para o fortalecimento da comunicação popular. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Ela divide a coordenação da Rede Tumulto com Flora Rodrigues e Elizabeth Fernanda. “A gente acredita que não tem mais como a gente funcionar só, sabe? A cidade, o estado, o país precisa entender que, quando a gente trabalha em rede, a gente consegue enfrentar quem realmente são os nossos inimigos”. O espaço Ladobeco é um dos integrantes da Rede, que conta ainda com outros colaboradores e articuladores no Arruda e em outras regiões da Região Metropolitana do Recife.</p>



<p>No curso, Yane expandiu a perspectiva do audiovisual para a ideia de comunicação popular. No entendimento de que nem sempre vai dar pra fazer um filme, mas pode rolar de colocar um cartaz na rua e sair colando. Ela trouxe essa provocação. Pegar um trecho de um texto que um amigo escreveu e que despertou um novo olhar para um tema, tirar xerox, botar na padaria e distribuir.</p>



<p>“A rede tumulto vem pra dizer que, em várias linguagens e de diversas maneiras, a gente tem que se comunicar, a gente tem que trocar, a gente tem que falar das nossas dores e das nossas potências. Não dá mais para a gente ficar calado enquanto tem rostos e corpos que predominam tomando conta das nossas narrativas. E nem sempre são corpos que, sei lá, tão falando de contra ao que a gente acredita, mas não são os nossos, entende?”.</p>



<p>Yane costuma dizer que ela mesma é fruto de um projeto social, o Oi Kabum!, e desde o início da sua trajetória encara a questão da formação como uma missão de vida. Por isso, nas aulas, ela tratou do audiovisual, da fotografia, da criação de imagem, mas principalmente “do olhar político que só a gente que é da favela, que vivencia tudo, de bom e de ruim, mas tudo muito intensivo, só a gente tem”.</p>



<p>“Estou falando de questão de respeito a gênero, sobre a questão da autoestima do povo preto, sobre o reconhecimento como artista e o autoreconhecimento”. Ela diz que deu altos bisus sobre orçamento e como utilizar as redes sociais, mas também “como a gente pode trabalhar o audiovisual de maneira que ele chegue nos nossos e a gente não só produza para umas pessoas que a gente nunca vai saber o que elas acharam sobre os nossos filmes”.</p>



<p>“Quando eu falo do olhar político, eu falo de um olhar que eles sabem que seu conteúdo tem que servir para o mundo, sabe? O seu conteúdo não é só para si. Ele tem que ter função. Quando eu falo de olhar político, eu falo da pessoa que tá com a câmera e tá valorizando o momento que ela tá com a câmera”.</p>



<p>O olhar político sobre o mundo e a valorização do momento de estar com a câmera nas mãos foi justamente o que atraiu a historiadora Ingrid Santos, 26 anos, para o projeto. Criada em Dois Unidos, Zona Norte do Recife, Ingrid hoje mora em São Lourenço da Mata, de onde se deslocou de segunda a quinta por duas semanas para o curso no Arruda. Ela já havia feito uma oficina com Okado e Amanda promovida pelo Paço do Frevo no Compaz da Caxangá e não teve dúvidas de se inscrever agora quando soube da nova oportunidade no espaço Ladobeco.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ingrid quer fazer seu primeiro documentário e usar as lições sobre fotografia e edição de vídeo para incrementar suas redes sociais. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Ingrid pesquisa arte urbana periférica, arte negra periférica dos centros urbanos, também faz produção artística e cultural. “Tem muita mulher negra fazendo assessoria com outras meninas, então eu tenho feito um trabalho muito nesse sentido e eu acho que falta registro. Acho que a imagem é uma coisa que toca muito, é um processo que, às vezes, qualquer pessoa consegue captar sem você dizer nada. E aí eu tô a fim de fazer um documentário e queria começar a entender um pouquinho, começar a fazer alguma coisa nesse sentido”, explica sobre a opção pelo curso.</p>



<p>A linguagem e a relação com o território foram dois pontos importantes para Ingrid escolher o curso do Ladobeco, reforçando a opinião de Amanda de que a maneira de construir um diálogo de proximidade é fundamental. “Aqui você se identifica muito, então é uma galera muito parecida comigo. Uma galera preta, uma galera periférica, que tá fazendo um corre pra comunidade, tá ligado? Então você se identifica em tudo”, conta Ingrid, falando da dificuldade de se ligar numa aula apenas teórica, “fechada”, abordando “umas coisas que você acha que não consegue fazer”. </p>



<p>“Eu acho que há a possibilidade de continuar projetos futuros, sabe? Depois dessas vivências com a galera eu tenho pensado muito mais nesse formato, porque você aprende o básico, tipo como organizar um roteiro, como botar uma ideia pro papel e depois executar. Então acabei pensando mais na perspectiva do audiovisual do que eu conseguia pensar antes de ter essas vivências”.</p>



<p>Além de produção cultural e pesquisa de arte urbana, Ingrid também trabalha com educação popular, cerâmica … e escolheu o audiovisual para ajudá-la nesse corre do empreendedorismo, especialmente no instagram, aprendendo um pouco sobre fotografia, um pouco sobre edição de vídeo para conseguir engajar as pessoas nas redes sociais.</p>



<p>Por trabalhar profissionalmente há oito anos com fotografia, Marconi Meireles, de 31 anos, morador de Santo Amaro, formado na Focca com bolsa do Pro Uni e hoje cursando uma pós na Unicap, pensou que poderia encontrar mais do mesmo nas aulas de fotografia do curso que ele tomou conhecimento pelas redes, mas mandou o currículo mesmo assim na esperança de ser selecionado porque estava querendo investir no audiovisual, onde tem pouca experiência.</p>



<p>“Eu achava que ia encontrar a mesma coisa relacionada à fotografia que eu já vi, porque já fiz faculdade, tô fazendo pós&#8230; e, na verdade, eu pude ver a fotografia de um estilo novo, sabe? Yane me passou uns olhares da galera do audiovisual mesmo, porque, querendo ou não, quando você vai pro audiovisual, para o movimento, as perspectivas são diferentes, então foi muito enriquecedor”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Assim como Ingrid, Marconi está roteirizando seu primeiro documentário autoral e vai buscar financiamento em editais. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Assim como Ingrid, Marconi pretende produzir um documentário. Uma história sobre os impactos da pandemia em pessoas que perderam seus empregos e tiveram que se virar em outras atividades para viver num período de crise social e econômica, como um produtor de eventos de música que ele conheceu e hoje é motorista de uber, ou mesmo pessoas que perderam tudo, passaram a morar e trabalhar na rua para sobreviver. Marconi vai focar nos trabalhadores que estão em atividade durante a noite. A ideia partiu do desejo de produzir algo mais autoral. “Todos os trabalhos que eu tenho publicado são em parceria, algo que eu gosto muito de fazer. Mas dessa vez é uma concepção minha. Um olhar meu. Meu primeiro documentário”, conta.</p>



<p>Ele se prepara para inscreve o projeto em editais e queria ampliar sua visão política, considerando que vem de uma comunidade que é marginalizada pela própria mídia, que tem uma fama de ser violenta mesmo que essa realidade local tenha mudado. “Muita gente quando a gente fala que é de Santo Amaro, chega e diz &#8216;pei, pei&#8217; (imitando o som de tiros). E a gente diz que não é assim, que você entra e sai e ninguém mexe com você, pelo contrário, a galera diz &#8216;vamos fazer o tour por Santo Amaro&#8217; porque são comunidades que têm coisas enriquecedores e a gente precisa mostrar. Então, entrar em uma outra comunidade que é vista marginalizadamente como a minha e ver o tanto que a galera vem criando e tem vontade de criar, me estimulou ainda mais a continuar com esse projeto que eu estou elaborando”.</p>



<p>A vontade de criar e de se autorreconhecer como criador e criadora de cultura e comunicação é que movimenta as atividades do espaço cultural Ladobeco e de midiativistas como Yane Mendes. “O importante é nunca parar de ousar e de dizer: &#8216;pô será que eu tô falando sobre algo que ninguém olhou ainda? Talvez a galera olhou, mas não enxergou com o olhar que só a gente tem, sabe? Só a gente que eu digo é quando a gente tem o acesso a arte e cultura e quando a gente sabe o que fazer com isso porque somos o resultado disso. Eu não digo que o audiovisual pode dar certo, eu digo que ele já deu certo porque ele mudou a minha trajetória de vida”, conta a cineasta periférica.</p>



<p>Ela tem incentivado que os jovens adolescentes das periferias coloquem seus rostos e corpos nas redes sociais, ocupem esse espaço virtual com novas linguagens em plataformas como o tik tok. Se é para se comunicar por dancinha, que seja, mas pode aproveitar para trazer um tema local pro debate. “Eu estou cada vez mais pesquisando e trabalhando o afrociberativismo, tá ligado? Uma parada de trazer, de colocar a cara na internet, de colocar as minhas opiniões, que não deixam de ser coletivas porque são opiniões que, eu sempre reforço, não deixam de ser coletivas porque são opiniões construídas nas ruas, por essas comunidades, construídas também pelas minhas vivências”.</p>



<p>Essa relação entre redes e ruas está na essência do olhar de Yane sobre a comunicação. “Eu acredito que um dos maiores ganhos da rede tumulto é a gente acreditar na comunicação <em>online</em> e na comunicação <em>offline</em> e dizer que as duas são importantes. A galera agora entendeu isso. O território <em>offline</em> é necessário, inclusive, pra gente levar coisas inovadoras pro território <em>online</em>”. Sobre a convivência com os chamados <em>haters</em>, ela diz que quem faz produção periférica já convive com eles há muito tempo e fora das redes. “Tem uma galera que só vai assistir o filme da gente pra dizer, ´ei, pô, o áudio tá ruim´, mas nem sabe como é que a gente captou aquele áudio, o recurso que a gente tinha”.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Entrevista Okado do Canal</strong></p>



<h3 class="has-text-align-center wp-block-heading">“A ideia é criar nossas próprias referências, ser nossas próprias referências”</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Okado do Canal: &#8220;eu preciso estar vivo para ver esse sonho acontecer.&#8221; Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p><strong>Por que esse desejo de montar uma escola de cinema na sua quebrada?</strong></p>



<p>A gente foi premiado com o filme que a gente fez aqui na quebrada, a gente foi premiado nos Estados Unidos. Muitas pessoas despertaram esse desejo de ser atrizes, de ser atores, ou talvez só colocaram isso pra fora, externaram isso, porque no final das contas, talvez, muitos deles e delas já tinham esse sonho, mas não tinham coragem de falar, né? Porque sempre o sonho da gente da quebrada é reprimido. A gente é sempre programado para seguir o mesmo padrão. E daí é isso.</p>



<p><strong>O cinema feito aqui vai trazer o olhar daqui, diferente de quem olha e projeta a quebrada de fora?</strong></p>



<p>A ideia do espaço aqui é fomentar que a galera mostre a sua cara, conte a sua própria história, a sua própria narrativa. Frequentando alguns festivais de cinema eu percebi que tem muitos filmes que até falam da periferia, mas a periferia não se identifica porque falam de cima pra baixo, de fora pra dentro. Muitas vezes atores e atrizes que interpretam pessoas da periferia nem da periferia são, estão ali só para poder fazer o seu trabalho e pronto. Não tem uma pesquisa profunda ou não é algo que é real, tá ligado? Como seria se tivesse alguém da periferia atuando naquele filme ou se o diretor fosse periférico. A ideia aqui do espaço é isso. Alimentar esse desejo da galera querer ser atrizes e atores, diretores e diretoras, roteiristas. É exportar cinema de dentro pra fora, saca? É o que a gente está fazendo aqui. </p>



<p><strong>A internet muda esse processo?</strong></p>



<p>A gente sabe que hoje, graças a essa ferramenta do audiovisual estar muito mais presente na vida da gente, da periferia, surgem novas referências também, né? Com a internet aí e tal. Porque antigamente a gente não tinha tantas referências assim. Eu tava até comentando esses dias com amigos, que eram poucas as nossas referências. Eu não consigo lembrar pra além de Lázaro Ramos, Taís Araújo, Ronaldinho Gaúcho… Tava até comentando, caramba, a gente via tão pouco as pessoas pretas na TV que em algum momento na minha vida eu achava que Djavan era um cara branco, tá ligado? Quanto eu vi ele, e vi que era um negão assim, pá, pra caralho, é isso… A ideia é essa, mano, criar nossas próprias referências, ser nossas próprias referências e entender qual referência também a gente quer ser, saca?</p>



<p><strong>Se a produção vem da quebrada a narrativa é diferente, não é? Você coloca a tua ambiência ali na história, de onde você veio, teu jeito de olhar o mundo&#8230;</strong></p>



<p>Sim, véi, é uma coisa que os alunos da turma da manhã estavam trocando aqui quando finalizou. Já fizeram vários cursos e a maioria dos cursos que a galera fez eram cursos que eram muito teoria, teoria, teoria e teoria&#8230; Às vezes, umas coisas técnicas assim, coisas que eles já sabiam, mas que não era algo que preparava, às vezes parecia que era tudo muito bonito. Yane já veio quebrando tudo isso, falando sobre as produções dela de guerrilha, as produções sobre como foi até ela conseguir grana pra fazer os trabalhos dela, conseguir ter um equipamento foda. Falando de vivência também, que nem tudo é as mil maravilhas, que a gente vai fazer coisas que a gente ama, mas vai fazer coisas que são necessárias, que a gente precisa fazer para poder ganhar a mixa e pá, toda essa construção né?</p>



<p><strong>Essa vivência é importante para preparar o pessoal que tá fazendo os cursos?</strong></p>



<p>Uma das coisas que a gente mais foca aqui é na questão da vivência, mano, tá ligado? Que a gente aprende fazendo… Tem clipes meus mesmo que a galera fica de cara, que foram produzidos através da minha experiência no cinema. Eu tava ali fazendo a preparação de elenco… tinha uma pessoa que estava me preparando para poder atuar no filme e daí eu já fui aprendendo técnicas que essa pessoa usou comigo e eu já usei com uma galera que nunca tinha atuado para poder preparar essa galera pra atuar no meu clipe, sacou? E é isso, a gente ir pegando a manha de como fazer e transformando isso para o nosso jeito de fazer, para que o nosso povo entenda, na nossa linguagem.</p>



<p><strong>Tem cursos que não se preocupam com isso.</strong></p>



<p>Eu já fiz cursos e já entrei em editais que, caramba, tinha várias palavras que eu pensei assim, caralho, isso aqui é inglês? Isso aqui é de comer? Aí você vai pesquisar no google e não tem uma parada bem explicativa e tal sobre o que é. Porque, afinal de contas, mano, a gente aqui da quebrada tem que escolher. A gente estuda, tá ligado, e fica com fome. Só a mãe da gente se fodendo. Ou a gente vai largar os estudos e trabalhar desde cedo para ajudar nossas mães a sustentar nossos irmãos, sustentar a casa, tá ligado, é isso.</p>



<p><strong>A realidade se impõe</strong>.</p>



<p>No final das contas a gente aprende muitas coisas na prática mesmo, não tem tempo de estudar a teoria e tal, principalmente quem sonha muito né, mano? A gente sonha sempre acordado mesmo, enquanto está no trampo. Diz assim: &#8216;caralho quando chegar em casa hoje, nem vou pra casa, vou direto pro treino ou vou direto pra aula, pro curso, sei lá&#8230; Ou vou pegar o celular e filmar um clipe porque hoje é o dia, tá ligado?&#8217; É tudo muito hoje, agora, a gente precisa fazer… A gente vai se capacitando a cada produção. Eu costumo dizer que cada produção é um treino pra próxima. A gente vai aprendendo e uma coisa que a gente deixou passar nessa agora (&#8216;eita o audio ficou com ruído&#8217;), a gente vai ter que botar essa pra frente agora e, na próxima, a gente presta atenção nisso. Ou porque teve um bagulho aqui que ficou um pouco desfocado, tremeu um pouco e tal, aí na próxima vez a gente vê como estabiliza, mas não vamos deixar de fazer não. Porque, no final das contas, a dificuldade é que força a criatividade e, muitas vezes, a galera fica doidinha com algumas estéticas que surgem da favela, mas que surgiram de acordo com alguma dificuldade que a gente teve e a gente não deixou de fazer, saca?</p>



<p><strong>Você já falou em cinema de guerrilha. Você acha que essa produção da quebrada traz em si um posicionamento político? Tem esse sentido também?</strong></p>



<p>Então, sobre o cinema de guerrilha. É foda assim, tem seu peso, é potente pra caramba, tá ligado? A gente hoje, principalmente com um celular na mão, consegue fazer vários registros e denunciar várias coisas que antigamente eram impossíveis. Antes, era nossa palavra contra a palavra de alguém mais importante. Hoje em dia tem essa ferramenta que, em qualquer lugar, qualquer pessoa pode filmar qualquer coisa que serve como uma prova contra alguém pesado. Pra quem produz o cinema, tem suas produções, é foda assim e tal quando está começando, mas, ao mesmo tempo, eu me pergunto onde estão vários artistas que têm produção foda, tá ligado, de cinema de guerrilha, hoje? E que pararam, mano. Porque não têm acesso. Só fazendo guerrilha e guerrilha, enquanto tem outra galera que faz com tudo, com todo aporte financeiro e tal, que tem a linguagem dos editais, que sabe como captar esse recurso, que faz o cinema confortável e que tá aí há vários anos e isso tem muito a ver com o cinema pernambucano,</p>



<p><strong>Você considera uma cena muito fechada?</strong></p>



<p>Mesmo ele tendo toda essa ascensão, que ele tem agora, atualmente, fora e tal, nos útlimos dez anos e cada vez mais crescendo, é complicado ver que é sempre a mesma galera. É como se fosse uma roda de ciranda ali onde tá todo mundo dançando de mãos dadas, de mãos fechadas, dançando a mesma dança e quando quem tá de fora quer entrar, quem tá dentro não quer sair e a galera também não solta a mão pra quem tá de fora entrar. Tá, eu achava que era uma panelinha só, onde a gente pudesse rachar aquela panela e onde, se entrasse um, pudesse entrar outro. São poucas as pessoas que estão lá dentro e tentam mudar isso, como Pedro Sotero, que já chegou aqui e deu oficina de graça. Fellipe Fernandes, <em>tripa</em>, que já deu oficina de graça aqui e foca muito nisso de mudar essa situação do cinema pernambucano, de ser sempre a mesma galera, há vários anos, sempre o mesmo olhar, mas ainda é pouco. Saca aquela boneca russa? Tá ligado, que você chega aqui, mas aquilo é só uma panela porque tem uma outra panela que é ainda menor, que é ainda mais fechada, e tem ainda outra que é mais fechada, e outra, até chegar no miolo. Mano, é cansativo pra caralho tentar burlar esse sistema que já existe. Continuo a dizer que tem uma galera massa, mas é isso velho, tem ainda seu monopólio, bem fechado, e que a gente da periferia nem sempre é bem-vindo, saca? Porque a gente faz a parada nessa de vivência, de <em>feeling</em>, tá ligado? A gente não saca muito de nomenclaturas, de técnicas, saca? O que se choca também.</p>



<p><strong>A ideia da escola é tensionar esse sistema fechado?</strong></p>



<p>No final das contas o que a gente está pensando em fazer e o que a gente está fazendo aqui no espaço cultural Ladobeco, na escolinha de cinema, quando a gente conseguir construir ela e deixar ela de pé, é justamente uma forma de não precisar bater de frente, não precisar querer entrar lá, mas criar nosso próprio sistema, nossa própria forma de fazer, e fazer nossas próprias produções e a galera lá e a gente cá. Se a gente conseguir chegar a um ponto de todo mundo trabalhar junto, do caralho, mas se a gente não é bem-vindo lá, a gente vai criar o nosso próprio jeito de fazer e vai chegar mais duas outras gerações, porque não vai ser agora, porque a gente não tem ainda tanta abertura pra isso, do ponto de vista financeiro, de conhecimento para concorrer a editais, de equipamentos que a gente não tem. Câmeras que custam sei lá tantos mil e pá, mas daqui a duas ou três gerações nossos netos talvez consigam estar de igual pra igual com essa galera e é isso. Sonha.</p>



<p><strong>Qual o planejamento pra escolinha?</strong></p>



<p>Eu cresci aqui na minha quebrada vendo muita gente, muitos dos meus amigos morrerem ou serem presos. Ou estarem vivendo infelizes hoje, alguns que tiveram contato com a cultura e hoje vivem infelizes nos trabalhos que prestam para outros, para grandes empresas e tal… Eu sempre cresci nessa onda, meu irmão, eu fui salvo pela arte e cultura e vou salvar muito moleque através da arte e da cultura, tá ligado? Não é só contando ou falando, tem que ser na prática. E eu sei que, enquanto a molecada tá aqui dentro, é um dia a mais que os pirraias vão passar vivos. Seja alvo de bala perdia, que não é bala perdia. Seja como alvo fácil pro tráfico e etc. Então é isso. Eu sempre tive esse sonho de construir um espaço onde trouxesse a molecada, desse esse alerta, e que eles fossem futuros eus. Em Rio Doce, a galera tava muito aberta, teve umas 15 pessoas daqui que conseguiram trabalhar com figuração, minha mãe trabalhou com figuração e atuou em dois clipes meus depois, desenvolveu esse gosto. E é isso, eu fiquei pensando, caralho, quanto que a gente poderia mudar ainda mais. Porque já tem o <em>break</em> e o <em>hip hop</em> em si aqui dentro, tem dança afro, percussão e outros projetos, mas cinema em si não tem, tá ligado?</p>



<p><strong>Considerando a força do audiovisual&#8230;</strong></p>



<p>E pensando que tem muito moleque aqui que produz conteúdo para redes sociais, seja de comédia, seja de maquiagem, seja de dança de passinho, seja de MCs que querem produzir videoclipe, então, tipo, mesmo que não sigam na carreira do cinema em si vão conseguir produzir seus conteúdos com melhor qualidade e a ideia é essa. Eu e Amanda fazemos a gestão do espaço e queremos ampliar para a escola de cinema. A gente não sabe qual a melhor maneira de captar recursos, a gente não sabe se é financiamento coletivo, se vai ser alguma forma de, sei lá, incentivo privado e tal… Não sabemos ainda porque a gente não manja dessa onda, mas é um sonho que a gente vê que cada vez mais está próximo e que uma hora vai rolar e, quando isso rolar, eu preciso ainda estar vivo para ver esse bagulho acontecer, porque muitas vezes aqui no Brasil a galera espera alguém morrer para dizer que virou semente e querer apoiar as ideias que tinha enquanto o cara tava vivo, mas se for pra apoiar, pra quem vai ler essa matéria assim, velho, tem que apoiar agora, porque amanhã talvez seja tarde. É isso.</p>



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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-audiovisual-que-vem-la-do-beco-da-favela-do-canal/">O audiovisual que vem lá do beco da Favela do Canal</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Audiovisual em 2020: sob pressão de Bolsonaro e em busca de maior diversidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Feb 2020 15:19:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Mateus Moraes, especial para a Marco Zero Conteúdo Apesar de 2020 estar apenas começando, os produtores de conteúdo audiovisual já têm diversas preocupações relacionadas ao que está por vir. Os ataques contra a sétima arte que aconteceram ao longo de 2019, que variaram entre corte de verbas e de incentivos, censura, extinção do Ministério [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Mateus Moraes, </strong>especial para a Marco Zero Conteúdo </p>



<p>Apesar de 2020 estar apenas começando, os produtores de conteúdo audiovisual já têm diversas preocupações relacionadas ao que está por vir. Os ataques contra a sétima arte que aconteceram ao longo de 2019, que variaram entre corte de verbas e de incentivos, censura, extinção do Ministério da Cultura, mudanças no Conselho Superior do Cinema e desestabilização da Agência Nacional do Cinema (Ancine), impactaram na produção de filmes e séries nacionais fomentadas, principalmente, com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).</p>



<p>
O corte e
congelamento das verbas públicas que financiavam os projetos de
produção audiovisual podem asfixiar o cinema nacional, por se
tratar de uma das artes mais caras, que demanda e mantém uma ampla
cadeia produtiva nas diversas etapas de produção, distribuição e
exibição. A escassez de recursos eleva também as pressões e
tensões entre os produtores. O mercado do audiovisual não está em
consenso.</p>



<p>
Produtores reclamam
da falta de espaço e de uma certa burocracia nos editais, que,
avaliam, acabam beneficiando nomes com mais visibilidade no mercado.
O atraso de 11 meses na liberação do FSA em 2019, a proposta do
governo Bolsonaro de cortar 43% do fundo em 2020 e a não formulação
do Plano Anual de Investimentos (PAI) da Ancine são fatores que
podem elevar ainda mais o tensionamento no mercado audiovisual.</p>



<p> A paralisação das ações da Ancine é grave. A diretoria do órgão é composta por cargos, mas apenas dois estão ocupados &#8211; no dia 15 de janeiro, o presidente Bolsonaro indicou a servidora da Ancine Luana Rufino, uma conservadora católica, para ocupar uma dessas cadeiras que ficou vaga por todo o ano de 2019. O não preenchimento das diretorias comprometeu a liberação dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, cuja previsão para o ano passado era de R$ 724 milhões. Os primeiros desembolsos só aconteceram em novembro. Segundo a Secretaria Especial da Cultura, “o FSA apoiou 591 projetos, com investimento total de R$ 467.106.089,47, dos quais R$ 396.062.199,61 já foram desembolsados”.</p>



<p>
Para o produtor
cultural João Vieira Júnior, o Fundo Setorial (criado em 2006, no
Governo Lula) é um acerto por ser mantido pelo próprio setor e
proporcionar a decentralização da produção audiovisual. Com
distribuição de verbas públicas mais democrática, produtores do
Norte e do Nordeste conseguem acessar o dinheiro e, consequentemente,
fomentam a produção de material audiovisual em sua região. “Antes
disso, 90% era feito no eixo Rio-São Paulo. Acho que o corte nesse
benefício traz um risco muito sério de que pequenas e médias
produtoras desapareçam”.</p>



<p>
Além dos cortes de
incentivo, 2019 também foi marcado pela censura no audiovisual. A
suspensão por decreto presidencial de um edital que previa ajuda de
custo para produções com conteúdo LGBTQI+ repercutiu de forma
negativa. O ato gerou a saída do então secretário especial de
Cultura do Ministério da Cidadania, Henrique Pires. “Eu tenho o
maior respeito pelo presidente da República, mas eu não vou
chancelar a censura”, disse Pires em entrevista ao G1.</p>



<p> “Eu mesmo participei de alguns editais como parecerista da comissão de seleção e vi projetos que foram aprovados serem vetados por Bolsonaro por envolverem questões LGBT e homoafetivas. Isso é inaceitável”, critica o cineasta e diretor Camilo Cavalcante.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Funcultura</h2>



<p>
Em Pernambuco, há
um programa que fomenta o desenvolvimento do cinema local e que deve
ser o principal aporte financeiro para os produtores audiovisuais do
Estado em 2020, considerando os cortes e a lentidão na libertação
dos recursos federais: o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura –
Funcultura.
Recentemente, o fundo lançou dois editais que, somados,
disponibilizam quase R$ 20 milhões para o setor. Marlom Meirelles,
cineasta e membro do Conselho do Audiovisual, entidade da sociedade
civil que dialoga com o Governo do Estado a fim de discutir políticas
públicas relacionadas ao segmento, conta que “o dinheiro
disponibilizado pelo Funcultura
dá uma melhor perspectiva de trabalho”, embora não seja
suficiente para atender a necessidade de todos que querem produzir
filmes em Pernambuco.</p>



<p>	Meirelles
também afirma que a pluralidade de ideias e de perspectivas são
favorecidas por meio de políticas públicas que fomentam a produção
de conteúdo audiovisual. “.
Hoje,
Pernambuco é referência. A gente vê que, por exemplo, mais
mulheres têm acessado o fundo. Isto é política pública e isto faz
com que as produções tenham visões e temas diversos. Quando estas
políticas deixarem de ser de interesse do governo, a gente vai ver
as mesmas pessoas produzindo filmes e filmes com a mesma temática”.</p>



<p> Desde o 10º edital de programa do fomento do audiovisual do Funcultura, é estabelecido como regra que os projetos inscritos na categoria Formação devem destinar “pelo menos 50% das vagas para estudantes de escolas públicas, mulheres, negros(as), indígenas e pessoas deficientes” e que “será aprovado no mínimo 20% de projetos de obras audiovisuais de profissionais negros e indígenas”, além de outros incentivos para grupos historicamente deixados à margem das produções cinematográficas exercerem papéis de destaque dentro das equipes profissionais. </p>



<p>A novidade do edital aberto em 2019-2020 está na produção de longas e de produtos para TV, onde 50% dos recursos irão para realizadoras mulheres e diretores/diretoras negros e negras e/ou indígenas.</p>



<p>
Apesar das
mudanças, ainda há várias críticas em relação à abrangência
da diversidade do Funcultura. Vários grupos e coletivos têm se
organizado para garantir de fato maior participação e protagonismo
na produção audiovisual em Pernambuco. O Mulheres do Audiovisual de
Pernambuco (MAPE) é um exemplo concreto.</p>



<p> “Eu acho que a gente avançou e tem avançado com relação à paridade entre homens e mulheres dentro do Funcultura. No edital passado, em 2018, a gente teve 49%, se não me engano, de projetos aprovados por mulheres em funções “cabeça-de-chave” (roteirista ou diretora) e isso foi massa. Mas, quando a gente fez o levantamento desses projetos, a gente percebeu que eram projetos de desenvolvimento ou com orçamentos menores. Os grandes orçamentos continuavam nas mãos dos homens. Então a gente começou a pautar também essa paridade dentro do orçamento geral”, explica Déa Ferraz, integrante do MAPE.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">A diretora Dea Ferraz vê avanços no recorte de gênero, mas critica o fato de que os maiores recursos vão para obras produzidas por homens. Crédito: Beto Figuerôa</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>
Outro grupo que se
propõe a discutir a real democratização do acesso ao fundo
disponibilizado pelo Estado é o Coletivo Negritude do Audiovisual de
Pernambuco. Segundo Igor Travassos, integrante do coletivo, o
Funcultura chegou a ter 47% de negros e negras dirigindo obras
audiovisuais. O problema, continua Igor, é que “percebemos que se
criou esse dado a partir dessa política, mas, quando a gente ia para
onde estavam localizadas essas pessoas, a gente estava nos
curtas-metragens. Quando a gente ia ver a questão de orçamento, a
gente continuava pegando menos dinheiro no total geral e quando a
gente fala sobre democratização a gente também fala no direito de
repartir a grana, né?”.</p>



<p> O Funcultura é um mecanismo de referência no fomento às artes audiovisuais e também a outras formas de cultura, porém a maior abrangência de diversidade do programa é uma realidade recente. As cotas existentes nos editais atualmente abertos – 12º (retroativo de 2019) e 13º Editais do Funcultura Audiovisual – foram o ponto inicial dessa política pública.  Iniciativas como estas tentam tornar o Funcultura mais acessível e, consequentemente, mais democrático.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Igor Travassos, do coletivo Negritude do Audiovisual de Pernambuco, associa democratização à repartição mais diversa dos recursos públicos. Crédito: Jan Ribeiro &#8211; Fundarpe</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"> <strong>Formação e democratização</strong></h2>



<p> A luta pela democratização do audiovisual em Pernambuco vai além da pressão sobre o poder público para garantir cotas nos editais do Funcultura. Vários coletivos têm se unido para a realização de debates e para a formação específica para a produção de projetos que concorram aos editais públicos. Realizado no bairro do Xambá, em Olinda, o <em>movimentaLAB</em> é uma ação conjunta do MAPE, Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco/Associação Pernambucana de Cineastas (ABD/APECI), Negritude do Audiovisual PE, Frente Brasil Popular, Centro Cultural Grupo Bongar, Federação Pernambucana de Cineclubes (Fepec), Movimenta Cineclubes e Movimentação Popular.</p>



<p>
Esse
movimento serve como um laboratório de elaboração de ideias a
partir de conversas em grupo e da exposição de trabalhos que já
foram aprovados no Funcultura anteriormente. Uilma Queiroz,
integrante do MAPE e uma das pessoas que estão participando do
movimentaLAB como monitora, explica que “a forma como ele (o
edital) é colocado já direciona quem vai ganhar. Semana passada a
gente teve uma fala de alguém aqui que disse ‘a galera da
periferia, muitas vezes, nunca leu um livro. Elaborar uma dissertação
que convença as pessoas da sua ideia, nesse contexto, é quase
impossível’”.</p>



<p>
Dividido
em seis etapas, o movimentaLAB surgiu a partir do Movimenta Cine
Clube, uma ação do MAPE, ABD/APECI e da Frente Brasil Popular, que
foi a criação de cineclubes nas comunidades da Região
Metropolitana do Recife. De espectadores, as pessoas nas periferias
queriam passar a realizadores. Produzir seu próprio cinema, sua
própria experiência audiovisual, com a identidade local. Esse
laboratório de projetos veio depois de vários coletivos discutirem
e chegarem na ideia de facilitar o acesso a editais públicos.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Encontro do movimentaLAB, em Xambá, Olinda. Formação como preparação para disputar o edital de audiovisual do Funcultura. Crédito: Mateus Moraes</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>
Presente
nas três etapas de formação que aconteceram até o momento, Viq
Ayres é uma das pessoas que está aproveitando o movimentaLAB para
lapidar ideias que possam disputar uma verba do Funcultura. Ao
explicar que sempre viu o cinema como algo inalcançável por achar
que os editais de fomento à cultura eram formados por “panelinhas”,
diz que o laboratório é uma oportunidade para aprender e perder
esse medo. “Deixou de ser um bicho de 7 cabeças. Estou tendo mais
disposição pra botar as caras. Aqui a gente fala sobre detalhes
técnicos, fazemos o passo a passo para conseguir tirar o Cadastro de
Produtor Cultural (CPC), analisa o formulário de inscrição e
refina as ideias que temos para os nossos projetos. Tá rolando
real!”, comemora Viq.</p>
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