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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Entre a democracia e a ociosidade: os imóveis que a política ocupa</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 18:24:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Anselmo Bezerra* Lembra daquele terreno baldio que só cria problemas para a vizinhança? E aquele casarão antigo, na avenida movimentada, que está há anos fechado? E se um dia, ao acordar, fossemos surpreendidos com esses imóveis ociosos ganhando algum uso? Fachadas pintadas com cores vibrantes, iluminação no entorno, gente ocupando e usando de verdade [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Anselmo Bezerra*</strong></p>



<p>Lembra daquele terreno baldio que só cria problemas para a vizinhança? E aquele casarão antigo, na avenida movimentada, que está há anos fechado?</p>



<p>E se um dia, ao acordar, fossemos surpreendidos com esses imóveis ociosos ganhando algum uso? Fachadas pintadas com cores vibrantes, iluminação no entorno, gente ocupando e usando de verdade esses espaços!</p>



<p>Pois bem, a cada ciclo eleitoral, de dois em dois anos, vemos se repetir um movimento que muda a paisagem das cidades brasileiras. As ruas são tomadas por bandeiras, pessoas usando camisetas e adereços de campanha de candidatos e candidatas dos vários partidos políticos. É a chamada “festa da democracia”! Mas já parou para observar que, junto com esse movimento, também ocorre a ocupação, pelos chamados comitês de campanha, de imóveis ociosos e/ou abandonados?</p>



<p>E o que isso tem a ver com o direito à cidade?</p>



<p>Acontece que, durante o período eleitoral, partidos e candidatos, em sua maioria, alugam espaços que não estão sendo utilizados nas cidades para montar verdadeiros “quartéis-generais” de campanha. Os recursos para tal finalidade têm origem no financiamento público de campanhas, ou seja, no dinheiro do contribuinte, que serve para financiar o aluguel temporário desses imóveis. Quanto maior o partido, maior o recurso do fundo partidário e maiores e mais bem localizados são os imóveis. Isso se replica aos postulantes a cargos majoritários e proporcionais.</p>



<p>E qual o problema disso?</p>



<p>Vou usar a “celebração” dos 25 anos da publicação da Lei 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, para refletir sobre isso.</p>



<p>Desde o ano de 2001, com a promulgação do Estatuto da Cidade, os municípios dispõem de uma série de instrumentos de gestão para diminuir os problemas urbanos. Entre esses problemas estão o abandono de imóveis, a ociosidade de construções, os espaços sem uso e a especulação imobiliária.</p>



<p>Dentre os principais instrumentos dessa lei, estão previstos mecanismos que obrigam os detentores de propriedades em áreas urbanas a dar uso aos imóveis, fazendo cumprir sua função social. Imóvel desocupado não cumpre função social da propriedade e da cidade.</p>



<p>Mas, então, por que estamos chamando a atenção para isso, uma vez que os comitês dão uso a esses espaços?</p>



<p>O problema não está no uso, mas na seletividade por períodos curtos de campanhas eleitorais, a cada dois anos. Existem imóveis que ficam ociosos por anos e só são utilizados nesse período, porque, possivelmente, o valor do aluguel pago por partidos e candidatos pode até compensar o período em que o espaço permanece ocioso, bem como existe a tão conhecida especulação imobiliária.</p>



<p>A grande contradição aqui está nos atores que participam desse processo. De um lado, proprietários que só têm em vista o arrendamento temporário dos imóveis. Do outro, atores políticos, atuais e futuros legisladores ou executivos, que são responsáveis por fazer valer a lei promulgada em 2001.</p>



<p>Se aqueles que deveriam zelar pelo cumprimento da legislação, combatendo todo tipo de desigualdade no acesso à propriedade para promover o direito à cidade, têm negligenciado historicamente a efetividade dos instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, a quem podemos confiar as decisões que poderiam reduzir os problemas urbanos e garantir uma maior justiça social?</p>



<p>Afinal, para que servem os instrumentos legais de planejamento e gestão urbana se a aplicabilidade deles parece ser bastante limitada na maior parte das cidades brasileiras?</p>



<p>Será desconhecimento dos tomadores de decisão? Ou será que apenas uma pequena parcela da população se beneficia do não cumprimento daquilo que está previsto em lei?</p>



<p>Passado o período eleitoral, como seria bom que os terrenos, prédios e imóveis utilizados nas campanhas ganhassem usos diversos. Novos locais de moradia, espaços de lazer, comércios, serviços etc. Mas a realidade nos mostra que alguns desses espaços já são conhecidos no imaginário popular como comitês de campanha que só são ocupados por poucas semanas e posteriormente voltam a ficar ociosos à espera do próximo ciclo eleitoral.</p>



<p>Infelizmente, um triste legado para celebrar os 25 anos do Estatuto da Cidade.</p>


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        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Anselmo Bezerra</strong> é geógrafo, gestor ambiental e professor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). Pesquisador no campo das políticas públicas urbanas, ambientais e de saúde.</p>
    </div>
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