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	<title>Arquivos Crise - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Crise - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Apps e sites conectam comércio de bairro aos clientes no meio da crise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Helena Dias]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2020 22:34:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[comércio de bairro]]></category>
		<category><![CDATA[comércio local]]></category>
		<category><![CDATA[Crise]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há oito meses, Anderson Roberto, de 31 anos, foi demitido da empresa onde trabalhava, na cidade de Abreu e Lima, e usou o dinheiro da rescisão contratual para abrir um negócio delivery perto de casa, em São Lourenço da Mata. A decisão foi tomada como medida emergencial para enfrentar o desemprego, mas ironicamente, por por [&#8230;]</p>
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<p>Há oito meses, Anderson Roberto, de 31 anos, foi demitido da empresa onde trabalhava, na cidade de Abreu e Lima, e usou o dinheiro da rescisão contratual para abrir um negócio delivery perto de casa, em São Lourenço da Mata. A decisão foi tomada como medida emergencial para enfrentar o desemprego, mas ironicamente, por por causa das mudanças de hábito forçadas pela pandemia da Covid-19, hoje  ele já tem outras perspectivas.</p>



<p>Em plena crise, o comerciante acredita na possibilidade de sair da quarentena com mais estrutura do que entrou. Tem investido na divulgação do seu negócio, o Alambique do Gordo, pelas redes sociais. Usa com frequência o whatsapp e se cadastrou na plataforma gratuita de pequenos negócios <a href="https://entrega.li/">entrega.li</a>. Com uma semana de cadastro, conseguiu fazer duas entregas pelo site.</p>



<p>Ele conta que sua renda mensal não chega a um salário mínimo e que sua esposa, Maria Eduarda, também está desempregada há um mês e meio. Vende galeto, almoço e sobremesas com ajuda de Maria e da cunhada. </p>



<p>Quando foi constatado oficialmente que o coronavírus tinha chegado ao estado, Anderson cogitou fechar o delivery. Seus fornecedores paralisaram as entregas, mas, como ele tinha estoque, decidiu tentar se manter. Perdeu cerca de 50% das vendas, mas resistiu. “A pandemia gerou medo e as pessoas passaram a consumir o básico e cozinhar a própria comida porque estão em casa. Estou seguindo um jogo de cintura para perder o mínimo possível”.</p>



<p>O que ele não esperava é que, com o passar da quarentena, as coisas fossem melhorar. Os pedidos passaram a crescer novamente e as sobremesas, que antes não eram tão pedidas, quase sempre fazem parte do pacote junto com o almoço.</p>



<p>Anderson explica que São Lourenço é uma “cidade dormitório”, muito até pela sua experiência de quando trabalhava fora. “As pessoas saem para trabalhar e só chegam para dormir. Elas tem a fonte de renda no Recife e não tem o costume de consumir aqui, saem do trabalho, ficam pela capital e só vem para casa mais tarde. Agora, muitos passaram a provar o serviços da cidade. Vamos ver como as coisas ficarão por aqui quando o coronavírus passar.”</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Plataformas</strong></h2>
</div></div>



<p>A pandemia da Covid-19 escancarou desigualdades e outras contradições. Entre elas, está a relação que parte da população mantém com o comércio local. Quantas vezes você deixou de fazer a feira de frutas e verduras na quitanda ao lado de casa para comprar em um supermercado de rede multinacional? Talvez você se perca nessa conta.</p>



<p>Muito tem se questionado sobre os impactos da pandemia na economia, na saúde e também nas relações humanas. O isolamento social é difícil, mas também significa um tempo para olhar para si, para os mais próximos e tentar conectar (não digitalmente) aquilo que sequer conseguia brecha na correria e na rotina. Isso inclui ir à padaria junto de casa, ao mercadinho e ao depósito de água e gás.</p>



<p>Mas, como comprar dos comerciantes locais se muitas vezes as pessoas não têm o conhecimento do que há disponível em seus bairros? </p>



<p>Com uma boa justificativa, a resposta veio em forma de contradição ao discurso de se desconectar totalmente do digital.</p>



<p>Quando o isolamento social passou a ser orientado pelo governo de Pernambuco, há um mês, planilhas com contatos de pequenos comércios de bairro começaram a circular no whatsapp com o intuito de ajudar estes estabelecimentos a sobreviverem durante a crise agravada pela pandemia e também facilitar a vida com restrições de deslocamento.</p>



<p>O desenvolvedor Rafael Gama diz que recebeu a planilha e pensou que talvez aquele formato não fosse o ideal, já que precisaria de atualizações constantes. Ele e mais dois desenvolvedores que já tinham criado juntos outras iniciativas, fizeram a plataforma <a href="https://entrega.li/">entrega.li</a>, um site que reúne dados de comércios locais e o usuário pode buscar os serviços a partir do seu endereço. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0"> Plataforma &#8220;entrega.li &#8221; </p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A planilha acabou por tomar a forma do site, alimentada continuamente. “É muito sobre vivenciar o bairro. Antigamente, tinha entrega de panfletos e toda uma comunicação que hoje não acontece. Nos perguntamos como chegar no pequeno que não está no digital e esse tipo de negócio só vai saber quem for do bairro mesmo. O objetivo é fazer pequeno negócio chegar na casa de todo mundo, fazer ele ser visível.”</p>



<p>A plataforma está no ar desde o dia 4 de abril e foi construída no sistema wordpress. Tem espaços específicos para os usuários e para os comerciantes que buscam serviços ou querem cadastrar seus estabelecimentos. Segundo o próprio site, os estabelecimentos catalogados são do Recife, Jaboatão dos Guararapes, de Olinda e Fortaleza. De acordo com Rafael, a preocupação é garantir que os comércios estejam de fato funcionando durante a quarentena.</p>



<p>Isso, inclusive, acarreta um pouco mais de tempo e cuidado na análise dos cadastros. Ele diz que alguns comerciantes já estão dando um retorno positivo que vai além da questão de “sobreviver à pandemia”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Plataforma &#8220;No bairro tem!&#8221;</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>No mesmo sentido, professores, alunos do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e voluntários criaram a plataforma <a href="http://www.nobairrotem.com.br/">No bairro tem!</a>. Foi lançada no dia 29 de março, mas o processo de construção começou quatro dias antes. Segundo o professor Fábio Mascarenhas, o objetivo também foi criar um banco de dados mais acessível para as informações que estavam chegando nas redes sociais.</p>



<p>Questionado sobre para qual tipo de comerciante a plataforma é direcionada, já que hoje há aplicativos de entrega estabelecidos no mercado e muito conhecidos pelo público. Fábio afirmou que o foco é justamente naquele comércio que “não tem capital de giro” e que corre risco de fechar “caso fique um mês sem funcionar”.</p>



<p>“É para aqueles que estão mais vulneráveis. Tem plataformas de âmbito global e isso tem um custo para os comerciantes. Então, direcionamos para aqueles que não conhecer a realidade do ifood, por exemplo. Estamos procurando rádios comunitárias e movimentos que atuem com comunidades para divulgar o site”, afirma.</p>



<p>De acordo como <a href="http://www.nobairrotem.com.br/">No bairro tem!</a>, são quase 2.600 negócios cadastrados na plataforma até então. Fábio conta que o site vem se adaptando às diversas demandas dos comércios. “Por exemplo, um grupo de mulheres que fazem artesanato nos procurou e nós criamos uma categoria para esse tipo de serviço”, explica.</p>
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		<title>As razões da Moura Dubeux</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Carlos Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Apr 2016 12:20:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[balanco contabil moura dubeux]]></category>
		<category><![CDATA[construtora Moura Dubeux]]></category>
		<category><![CDATA[Crise]]></category>
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		<category><![CDATA[Moura Dubeux]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O estudo do balanço financeiro da Moura Dubeux nos últimos anos explica ao menos em parte, embora não justifique, a agressividade da empresa na campanha por tornar realidade o Projeto Novo Recife, que prevê a construção de 12 torres de até 40 andares em área histórica da cidade. A construtora, principal empresa do consórcio que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O estudo do balanço financeiro da Moura Dubeux nos últimos anos explica ao menos em parte, embora não justifique, a agressividade da empresa na campanha por tornar realidade o Projeto Novo Recife, que prevê a construção de 12 torres de até 40 andares em área histórica da cidade. A construtora, principal empresa do consórcio que pretende edificar o empreendimento no cais José Estelita, passa por uma situação preocupante e delicada em suas contas e na sua operação.</p>
<p>Nessas circunstâncias, não é equivocado considerar que a venda das 12 torres projetadas representam um alívio de caixa para a empresa. O contexto econômico, por outro lado, avisa dificuldade que será negociar a venda do empreendimento.</p>
<p>O quadro geral da contabilidade da empresa permite confirmar a crise geral que se abate sobre o setor da construção civil no país. É que nos últimos dois anos o mercado imobiliário brasileiro vem passando por uma virada com toques dramáticos. Essa mudança se refere basicamente a um processo de desaceleração: queda de vendas, aumento de estoques, redução nos lançamentos, juros mais altos, disparada dos distratos, maior desemprego no setor, etc. “Nesse quadro, muitas empresas do setor de construção e incorporação estão muito endividadas e precisam se desfazer urgentemente dos imóveis que construíram para quitarem débitos”, afirmou o proprietário de uma grande construtora local que pediu sigilo.</p>
<p>Em números: nos últimos 12 meses o preço dos imóveis em 20 cidades brasileiras subiu apenas 0,53% quando se leva em conta o índice FipeZap. Essa é a menor variação desde 2008. Por outro lado, a inflação medida pelo IPCA deve ficar na casa dos 9,5% no mesmo período, segundo o Boletim Focus do Banco do Brasil. Assim, considerando o efeito da inflação, é uma queda média real de 8,1% no preço de imóveis.</p>
<p>O setor registrou, no último trimestre encerrado em janeiro de 2016, uma queda de 14,8% nos lançamentos frente ao mesmo período de 2015. Os indicadores de vendas (-16,6%), e, principalmente, de entregas (-39,2%) também recuaram na mesma base de comparação. Segundo a consultoria ITC, as obras residenciais receberam aportes de US$ 39,42 bilhões em 2015 – o que já representou uma diminuição de 19,6% em relação a 2014.</p>
<p>“Nessas circunstâncias acho difícil o consórcio (Novo Recife) conseguir vender todo o projeto. A economia está mais frágil, o comprador está inseguro e as empresas endividadas”, afirma a mesma fonte.</p>
<p>Por outro lado, os balanços financeiros da Moura Dubeux também explicitam o modelo em que esse setor da economia em especial se apóia para continuar a produzir e circular riqueza.</p>
<p>Resolvemos ir a fundo na análise contábil das contas da Moura Dubeux no período que vai de 2010 a 2015, num conhecido caminho de investigação: saber por onde circula o dinheiro. Ou por onde deveria circular. Esse esforço de análise se justifica: a construtora tornou-se nos últimos anos um personagem importante do cenário de mudanças pelo qual a cidade do Recife passa, sendo acusada de interferir diretamente na formulação de políticas públicas e/ou intercedido nas <a href="http://marcozero.org/o-recife-tem-dono/">atividades de funcionários públicos</a>.</p>
<p>Seguindo essa tese, o interesse público vem sofrendo intervenções guiadas pelo vetor do interesse privado. Então é razoável afirmar que é importante conhecer melhor esse ator do cenário político e econômico. Como a empresa é de capital aberto e tem ações cotadas na bolsa de valores, <a href="http://www.econoinfo.com.br/financas-e-mercados/demonstracoes?codigoCVM=21067">suas contas são disponíveis</a> publicamente justamente para a discussão pública, o que fazemos aqui.</p>
<p>O trabalho foi feito em parceria com um professor pesquisador de uma instituição de ensino Federal da área de economia, especializado em certificações financeiras e formação em Finanças e que atua em outro estado da federação. O profissional prefere não se identificar.</p>
<h1>Liquidez</h1>
<p>A informação que corre a boca miúda na cidade Maurícia é que empresa estaria com sérios problemas financeiros. Até agora não se sabia da veracidade e extensão dessa informação. De fato, a empresa vem passando por dificuldades. Mas cabe detalhar de que tipo e como vem-se tentando resolver essa questão. O estudo do balanço financeiro da empresa também revela que a maior parte do lucro bruto é formado pelo resultado de receitas oriundas de investimentos em empresas <a href="http://www.econoinfo.com.br/governanca-corporativa/grupo-economico?codigoCVM=21067" target="_blank" rel="noopener noreferrer">coligadas</a> e controladas e que se transformaram em receita – e não da venda de imóveis. Veja a lista das empresas controladas e coligadas nesse <a href="http://www.econoinfo.com.br/governanca-corporativa/grupo-economico?codigoCVM=21067" target="_blank" rel="noopener noreferrer">link</a>.</p>
<p>Isso aconteceu em todos os anos da série dos balanços analisados (2010 a 2015). De acordo com o profissional que analisou as contas da empresa, “o fluxo de caixa gerado com o negócio Construtora Moura Dubex é negativo, ou seja, sai mais dinheiro do que entra de suas operações de venda. Este caixa gerado está negativo desde 2011”.</p>
<p>Um dos problemas mais evidentes nos indicadores contábeis é a liquidez, que indica a capacidade de uma determinada empresa quitar suas dívidas. A liquidez imediata representada no gráfico abaixo indica a quantidade de dinheiro que a empresa dispõe imediatamente em caixa para quitar suas dívidas de curto prazo. Na prática, indica quantidade de Reais que a empresa dispõe de imediato para saldar cada R$ 1,00 de suas dívidas. A tendência desejável é que o índice seja ascendente.</p>
<p><script id="infogram_0_liquidez-99094605" title="liquidez" src="//e.infogr.am/js/embed.js?LPX"></script></p>
<div style="padding: 8px 0; font-family: Arial!important; font-size: 13px!important; line-height: 15px!important; text-align: center; border-top: 1px solid #dadada; margin: 0 30px;"><a style="color: #989898!important; text-decoration: none!important;" href="https://infogr.am/liquidez-99094605" target="_blank" rel="noopener noreferrer">liquidez</a></div>
<p>Seguindo esse conceito, em 2010 a empresa tinha R$ 8,32 em Caixa para saldar cada R$ 1,00 em dívida. No registro do balanço de 2015, dispunha de apenas R$ 0,31 para saldar cada R$ 1,00 em dívida. Na maior parte das vezes, a liquidez imediata é menor que 1 mesmo, porque nenhuma empresa é totalmente líquida e deve possuir estoques e contas a receber para &#8216;girar seus ativos&#8217; (ou seja, desencalhar os estoques de imóveis. Vender mais, aumentar a participação de produtos por clientes, etc. Quando uma empresa não &#8216;gira os ativos&#8217; está estagnada). O que chama a atenção é a derrocada desse índice no período mencionado.</p>
<p>Pode-se afirmar que a empresa praticamente ficou sem caixa em 2014, pois tinha apenas R$ 0,05 para quitar cada real de suas dívidas de curto prazo. Em 2015 detinha R$ 0,31 em caixa para fazer o mesmo trabalho. O aperto nos índices de liquidez são provocadas por vendas menores ou ampliação do endividamento, ou as duas coisas atuando conjuntamente.</p>
<p>Outros índices de liquidez (corrente e seca) também apontam o mesmo.</p>
<h1>Pense numa demora</h1>
<p>Neste momento, a empresa está com dificuldades de realizar as vendas necessárias para girar seus ativos, ou seja, vender mais, aumentar a participação de produtos por clientes, etc. Quando uma empresa não gira os ativos está estagnada. É desejável que a rotação dos ativos (a eficiência nas vendas) seja predominantemente decrescente.</p>
<p>Para entender melhor como ler esse índice: suponha que você abriu uma “bodega”, com um investimento de R$ 100 mil para montar a loja (mobiliário, design, estoque, propaganda, etc.). A rotação dos ativos significa quanto tempo você precisaria vender R$ 100 mil. A quantidade de vendas para “empatar” com aquilo que você investiu no negócio. O negócio estará bem se esse retorno for no menor tempo possível.</p>
<p>É o que não está acontecendo com a Moura Dubeux. O resultado do índice, com expressivo aumento de tempo para retorno dos ativos quando comparado com as vendas, indica que está mais difícil para a empresa (sócios) e os investidores (bancos e investidores independentes) recuperarem seu investimento: o giro do ativo era de 21,05 anos em 2010. Ou seja, a empresa precisaria de 21,05 anos de vendas para cobrir seu patrimônio global. O índice passou para 34 anos em 2013, para 25 anos em 2014 e 84,84 anos em 2015, tendo por base os resultado de três exercícios de 2015 com balanços já divulgados.</p>
<p><script id="infogram_0_rotacao-410037892" title="rotacao" src="//e.infogr.am/js/embed.js?NIu"></script></p>
<div style="padding: 8px 0; font-family: Arial!important; font-size: 13px!important; line-height: 15px!important; text-align: center; border-top: 1px solid #dadada; margin: 0 30px;"><a style="color: #989898!important; text-decoration: none!important;" href="https://infogr.am/rotacao-410037892" target="_blank" rel="noopener noreferrer">rotacao</a></div>
<p>O salto desse índice no ano de 2015 se explica porque tanto as dívidas quanto os ativos dobraram como efeito das vendas em declínio. Os ativos e passivos (que contabilmente são iguais) da Moura Dubeux estiveram em crescimento expressivo ao longo do tempo, passando de R$ 1,15 Bilhões em 2010 para R$ 2,982 Bilhões em 2015.<br />
Dinheiro em caixa ou em bancos; bens, direitos e valores a receber no prazo máximo de um ano, ou seja, realizável a curto prazo, (duplicatas, estoques de mercadorias produzidas, etc); aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte. Esse conjunto de coisas (no vocabulário contábil, ativos circulantes) diminuiu nos últimos anos, principalmente por causa da redução das aplicações financeiras.</p>
<p>A empresa passou a privilegiar o investimento nas empresas coligadas. As aplicações financeiras foram reduzidas de R$ 524 milhões para 5,5 milhões em 2014, comprometendo todos os indicadores de liquidez. Ao mesmo tempo, a empresa tem tido dificuldades em vender. Houve aumento dos estoques de apartamento para vendas de 41 para 95 milhões de 2015, o que justifica a piora nos indicadores de giro dos ativos.</p>
<h1>Dívidas</h1>
<p>Já o nível de endividamento total demonstra a relação entra a <a href="http://www.econoinfo.com.br/financas-e-mercados/projecoes-relatorios-endividamento?codigoCVM=21067" target="_blank" rel="noopener noreferrer">dívida total da empresa</a> e seu próprio capital. A empresa apresentou endividamento de longo prazo crescente com coligadas (R$ 824,9 milhões) e endividamento por conta de adiantamento de clientes – o pagamento que os clientes fazem dos imóveis na planta. Nesses casos, o cliente está financiando a empresa por sua total conta e risco. Contabilmente esse adiantamento de dinheiro é dinheiro de terceiros, um passivo da empresa.</p>
<p><script id="infogram_0_edividamento-8303" title="edividamento" src="//e.infogr.am/js/embed.js?z1C"></script></p>
<div style="padding: 8px 0; font-family: Arial!important; font-size: 13px!important; line-height: 15px!important; text-align: center; border-top: 1px solid #dadada; margin: 0 30px;"><a style="color: #989898!important; text-decoration: none!important;" href="https://infogr.am/edividamento-8303" target="_blank" rel="noopener noreferrer">edividamento</a></div>
<p>Por fim, há de se considerar o lucro nas vendas realizadas. Obviamente, o que se espera de uma empresa saudável é que essa relação seja crescente. E, de fato, a margem líquida de vendas foi crescente ao longo do tempo. Mas há um detalhe que precisa ser observado.</p>
<p>Entre 2010 e 2015, a maior parte do lucro bruto foi formado por atividades que nada tem a ver com o negócio da empresa, que é vender imóveis. Essa fonte representava de 2010 a 2014 respectivamente: 77%, 80%, 64%, 60%, 49% do lucro. Esta participação vem caindo, mas foi bastante significativa e chegou a 80%. Ou seja, 80% do caixa para a geração de resultados em 2011 veio dos ganhos de capital contra apenas 20% gerado das vendas realizadas pela empresa.</p>
<p>Como, na prática, uma empresa faz isso? Primeiro, compra ações de uma empresa coligada a R$ 1,00 com investimento de 1 milhão – isso forma um bolo de ações que valem em conjunto R$ 1 milhão. Ao longo do tempo estas ações valorizaram, e hoje valem individualmente R$ 2,00, e aquele investimento inicial agora vale, R$ 2 milhões. Esta diferença entre o que foi investido (R$ 1 milhão) e o que o investimento em coligada vale hoje (R$ 2 milhões) representa um ganho de capital (lucro) do investimento. Esse ganho é computado no balanço da Moura Dubeux como lucro, afetando positivamente o resultado. O que os economistas e contabilistas chamam de lucro não operacional. Ele nada tem a ver com as vendas dos imóveis.</p>
<p>“Em diversos exercícios os lucros serão bem maiores que as vendas, porque a empresa está gerando um caixa negativo de suas operações, vende pouco para o seu tamanho e o resultado está &#8220;marombado&#8221;, &#8216;turbinado&#8221;, &#8220;bombado&#8221;, com receitas que não representam atividades operacionais da empresa”, afirma nosso amigo analista.<br />
Estratégias</p>
<p>Para sanar as dificuldades, a empresa aumentou a sua posse e participação nas empresas coligadas e controladas – de R$ 327 milhões para 1,49 Bilhões em 2015. Sinalizando que, no adverso cenário econômico e político atual, a empresa está apostando a suas fichas no investimento em coligadas.</p>
<p>A empresa também desacelerou investimentos próprios e ampliou em empresas controladas por ela. Nesse processo, o ativo circulante reduziu-se de R$ 657 milhões em 2010 para R$ 316,7 milhões em 2015. As contas a receber caíram também e passaram de R$ 174 milhões em 2014 para R$ 94 milhões em 2015. Também emitiu debêntures no valor de R$ 400 milhões. Debênture é um título de dívida, de médio e longo prazo, que confere a seu detentor um direito de crédito contra a companhia emissora. Quem investe em debêntures se torna credor dessas companhias.</p>
<p>Com isso, a maior parte do lucro bruto tem sido formado pelo resultado dos investimentos em coligadas e controladas e que se transforma em receita do exercício. Isso aconteceu em todos os anos da série, uma estratégia legal, prevista na legislação contábil e fiscal do Brasil. Excluindo essa forma de lucro, verifica-se que desde 2010 a empresa opera no vermelho – exceção ao ano de 2013.</p>
<p>Com esse conjunto de providências, o grupo permanece no azul, informa o consultor que realizou o trabalho de análise.</p>
<h1>Aqui pra nós</h1>
<p>Entramos em contato a com a empresa, através de sua assessoria de imprensa, para que a empresa comentasse seus balanços e também sua expectativa em relação ao Projeto Novo Recife. O empreendimento foi anunciado como efeito de um investimento total de R$ 1,5 bilhão e gerador de 6 mil empregos durante o período de obras e dois mil empregos gerados depois de concluídas as obras.</p>
<p>Procuramos saber se a sua venda tem uma representatividade destacada no esforço que vem sendo feito para manter a Moura Dubeux com saúde. Os dados de seu balanço disponíveis publicamente não permitem avaliar a importância do Projeto Novo Recife na contas presentes e futuras da empresa.</p>
<p>O contato foi realizado no 2 de Abril às 13h35. O e-mail enviado para a assessoria solicitava o seguinte.</p>
<p>&#8211; Em que medida a crise econômica impactou a queda de liquidez da empresa?<br />
&#8211; Que outros elementos podem ter interferido nessa queda?<br />
&#8211; Em que medida a crise econômica impactou a venda de imóveis da empresa?<br />
&#8211; Que outros elementos podem ter interferido nessa queda?<br />
&#8211; Quais as perspectivas da empresa para o ano de 2016 em relação à recuperação de liquidez e vendas?<br />
&#8211; Qual o peso do Projeto Novo Recife nesse processo de recuperação?</p>
<p>A empresa informou que não tem interesse em comentar assuntos relacionado à crise nem a seu balanço financeiro.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/as-razoes-da-moura-dubeux/">As razões da Moura Dubeux</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Fim de ciclo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Carlos Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Mar 2016 23:09:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[Crise]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[judiciário]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho cá pra mim que, agora sim, viramos um capítulo da história que conta a relação da imprensa com a política no Brasil. Infelizmente, nesse capítulo a democracia está mais uma vez sob ataque, e a narrativa que se pode ver é composta de vários elementos. De um lado, a definitiva ruptura entre o jornalismo praticado pelos principais grupos de mídia do Brasil e o interesse público – uma separação que se aprofundou desde a década de 1960 e de alguma maneira encerra somente agora a contribuição dos conglomerados de mídia no Brasil ao longo do século XX.</p>
<p>Se isso for verdade, essa virada de página também consolida uma migração, uma clivagem, uma metamorfose: já não é jornalismo boa parte do que é feito pelas empresas de comunicação dos Frias, Marinho, Civita, Mesquita, justamente pela desconexão com a ideia moderna de que os assuntos de interesse público sejam discutidos em público. A subversão dessa tradição, no contexto dessas empresas, está gestando uma outra coisa, que talvez ainda não tenha nome.</p>
<p>É claro que o jornalismo muda e se ilude quem apostar que não – se a crise interna alcança as bases do que caracteriza tantos outros campos de ação e reflexão, porque não tocaria o jornalismo também? Mas consideremos que jornalismo mantenha essa relação com o ideal de interesse público. Consideremos mais ainda: num contexto progressivamente mais conservador, o impulso de discutir em público o que é de interesse de todos é ainda mais necessário.</p>
<p>Se isso se mantém como um forte diferenciador do jornalismo como prática nascida na modernidade, parece ser justo pensar que o modus operandi da aristocracia midiática brasileira nunca esteve tão fora de moda.</p>
<p>De outro lado, é de se esperar que esse processo ainda em curso impacte as formas de se aprender e de se ensinar sobre produção midiática em geral e sobre o jornalismo em particular. Precisamos aprender mais e nas ruas como a democracia pode pender e se fragilizar em função das narrativas midiáticas e levar esse aprendizado aos processos de ensino-aprendizagem das universidades.</p>
<p>Isso porque o ambiente de formação de jovens profissionais abre brechas de médio prazo para uma reconexão desse campo profissional com o interesse público, na mesma medida em que permite sua desmistificação e a compreensão de que o jornalismo é um terreno político e, portanto, de conflito. A (incômoda) novidade é que esse aprendizado não depende e não pode mais depender exclusivamente dos professores e nem mesmo da forma tradicional de ensino, nem dos espaços disciplinares para isso.</p>
<p>Precisamos todxs – profissionais, professores, universidades, estudantes –, nos forçar a reconhecer que as narrativas enamoradas da democracia não são uma propriedade mercantil. E que essas narrativas passeiem livres entre plataformas, jeitos, sujeitos e linguagens</p>
<p>A virada desse capítulo ainda sinaliza com um mercado pulsante, vivo, virtuoso de produção jornalística para além do feudo comercial que dominou a esfera pública brasileira no século passado. Esse modelou matizou o ensino do jornalismo com uma perspectiva quase que exclusivamente comercial, mas curiosamente congelou nossas expectativas pessoais e possibilidades empreendedoras de modo ainda mais sufocante que no restante do mundo.</p>
<p>Mas o novo vem aí, o tempo todo. A indústria da intermediação da qual o jornalismo comercial faz parte não está mais sozinha na tarefa de interpretar e narrar os acontecimentos, de criar a realidade e de intervir nela. Se é verdade que daqui até a Indochina se procuram novas formas de dar sustentabilidade ao negócio do jornalismo não comercial, talvez seja no lugar onde ele é mais problemático que apareçam, na marra, algumas soluções. Estamos diante de uma nova oportunidade?</p>
<p>As <a href="http://www.grabois.org.br/cdm/colecao-principios/116165-34123/2007-08-01/revisitando-sete-teses-sobre-midia-e-politica-no-brasil" target="_blank" rel="noopener noreferrer">teses do professor Venício Lima</a>, segundo as quais a mídia ocupa uma posição de centralidade nas sociedades contemporâneas, de que não há política nacional sem mídia, de que a mídia exerce funções tradicionais dos partidos políticos, de que a mídia enfim se transformou, ela própria, em importante ator político; essas teses precisam ser ampliadas e atualizadas.</p>
<p><strong>Antirrepublicano</strong></p>
<p>Escrevo sob o correr de acontecimentos que estão longe de se estabilizarem. Mas os últimos meses e dias já permitem afirmar também que toda a articulação entre a comunicação comercial e hegemônica brasileira com setores do mundo jurídico alcançou um padrão novo e profundamente antirrepublicano.</p>
<p>As referências ao último período de exceção ainda estão muito evidentes e claras no Brasil &#8211; na estrutura herdada da Polícia Militar, na opção pelo transporte rodoviário, na entrada canhestra, tutelada e sem soberania nas lógicas do capitalismo monopólico, no maior oligopólio das comunicações do mundo. E também na densa articulação dos personagens que tornaram aqueles 21 anos possível: os maiores grupos de comunicação comercial, uma certa sociedade civil organizada (financistas, comerciantes, industriais) e os setores mais conservadores das forças armadas montaram uma megaestrutura formadora de opinião pública, cara e bem articulada.</p>
<p>Mas eles não contavam com o Judiciário. O Golpe civil, midiático e militar de 1964 não contava com o Judiciário como front nem como elemento de suspensão da ordem democrática e de formação da opinião pública. Esse talvez seja o principal elemento da ação em curso no Brasil de 2015/2016.</p>
<p>As últimas semanas também sinalizam que a articulação desses grupos econômicos de comunicação com o capital estrangeiro e com o projeto de tutela da soberania nacional se renovou desde 1960 – para um entendimento mais completo disso, leia o <a href="http://marcozero.org/editorial-de-que-lado-voce-estava-em-4-de-marco-de-2016/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Editorial da Marco Zero</a> sobre isso (link). E que o pensamento de esquerda no país não foi capaz de anular ou minimizar essa ameaça – em que pesem os avanços sociais dos últimos anos.</p>
<p>Para que o golpe de 1964 fosse possível, foi necessário o trabalho árduo e contínuo de dois <em>think tanks </em>financiados com capital norte-americano e tocados por uma aliança virtuosa e criativa entre certa sociedade civil e militares. Essa história é bem narrada no livro <em>A tomada do Estado</em>, de Armand René Dreyfuss. Na virada de página que estamos testemunhando, esse investimento foi desnecessário pois o mundo é outro. Mas continua em alta a <a href="https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/07/03/chomsky-as-10-estrategias-de-manipulacao-mediatica/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">estratégia geral de manipulação midiática</a> desenhada por Noam Chomsky e que inclui distração da atenção pública, o convencimento gradual de uma medida inaceitável, a conquista da aceitação popular para essa medida por meio afirmação repetitiva de como ela é dolorosa, o incentivo à mediocridade do debate político.</p>
<p>Tenho cá pra mim, entretanto, que mais do nunca é necessário esse trabalho que procura fiscalizar e criticar o Poder, de publicizar o segredo, de procurar conferir as informações e de valorizar o interesse público, de desmistificar essas estratégias de manipulação. Tenho cá pra mim que esse trabalho se chama jornalismo.</p>
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		<title>PC do B quer Dilma mais firme na resistência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2015 17:17:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				<strong>por Vasconcelo Quadros (Brasília)</strong></p>
<p>A crise ofuscou tanto o cenário que pouca gente percebeu uma mudança sensacional nos rumos do comunismo brasileiro. Uma mulher de 49 anos assumiu o comando nacional do mais maduro partido de esquerda, o PC do B, com um desafio de assustar os homens mais tarimbados no exercício do poder: articular uma frente que salve o mandato da presidente Dilma Rousseff, aponte caminhos num país com a economia em frangalhos e vença a crise política que ameaça a democracia.</p>
<p>“Peguei logo em bomba, como se fala no Recife”, diz a deputada pernambucana Luciana Santos, catapultada ao olho do furacão pelos novos ventos que reoxigenaram o partido de 93 anos, que planejou a Intentona de 1935, organizou, foi massacrado na Guerrilha do Araguaia e está umbilicalmente ligado aos conflitos que marcaram a história da República. As armas agora são outras.</p>
<p>Luciana Santos tem uma visão realista do momento político e, se por um lado exorta os partidos da base a se unirem para reagir com propostas e mobilizações populares ao movimento golpista em curso, por outro, tem os pés enraizados na democracia e olha para o futuro com propostas modernas e viáveis. É dela, por exemplo, a iniciativa de chamar para um encontro que inicia esta semana a comunidade científica e quem mais tem a dizer sobre o setor, para colocar a tecnologia e a inovação como alavancas do que seria uma economia socialista.</p>
<p>Também articulou e é signatária do documento “Sugestões à Agenda Brasil”, elaborado na semana passada e subscrito por 15 partidos da base do governo na Câmara &#8211; as exceções foram o PDT e o PMDB -, que lista, em 11 pontos que vão do combate a corrupção às reformas estruturais, saídas para superar a crise. Ela parte de um diagnóstico sobre a doença que ataca a República.</p>
<p><strong>Só falta um Lacerda</strong></p>
<p>“A crise política é mais grave. É ela que alimenta a crise econômica”, disse a deputado em entrevista ao Marco Zero. Para a primeira mulher a comandar o PC do B, resguardadas as proporções, o conturbado momento brasileiro, turbinado pela onda de denúncias de corrupção alimentada pela Operação Lava Jato, tem contornos semelhantes com os últimos momentos da Era Vargas. “Falta um Lacerda”, complementa Luciana, numa referência ao ex-governador Carlos Lacerda cuja campanha, lastreada no “mar de lamas” sob o qual flutuava o Palácio do Catete, só terminou com o suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, em agosto 1954.</p>
<p align="justify">A crise atual, segundo ela, nasceu do inconformismo do PSDB com o resultado das eleições do ano passado e evoluiu para uma ofensiva sem limites para “deslocar” a presidente Dilma Rousseff do poder, ainda que para isso seja necessário pisotear a Constituição e interromper um processo democrático construído na resistência contra uma ditadura que durou 21 anos.</p>
<p align="justify">“A eleição, acirrada e polarizada, gerou contornos de muita intolerância e um pensamento conservador, que já existia, mas que agora mostra a cara. Toda estratégia da oposição foi montada na instabilidade e na imprevisibilidade e ultrapassa todas as etapas da legalidade. Há traços fortes de golpismo quando se tenta um impeachment sem base”, afirma.</p>
<p align="justify">A diferença entre as duas últimas grandes crises políticas &#8211; a que deu no suicídio de Getúlio, em 1954, e o golpe civil-militar de 1964, este reivindicado à época até em editoriais dos grandes veículos de comunicação -, na visão da deputada Luciana Santos é que agora os conspiradores encontram guarida num novo protagonista, o judiciário.</p>
<p align="justify"><strong>Estado policialesco</strong></p>
<p align="justify">“Não existe imparcialidade. No judiciário há uma posição clara no campo político. Os atores têm posições políticas e dão tratamento diferente em casos iguais”, alfineta a comunista. Um dos exemplos, segundo ela, foi a recente denúncia feita pelo doleiro Alberto Yousseff, que em depoimento na CPI da Petrobras acusou o líder da oposição, o senador tucano Aécio Neves, derrotado por Dilma em 2014, de ter recebido propina das empreiteiras da Lava Jato. As informações foram desprezadas tanto pelos órgãos de controle quanto pela mídia.</p>
<p align="justify">Luciana Santos lembra que o combate à corrupção é uma das bandeiras da esquerda, mas defende que seja feito de forma imparcial e com respeito ao estado de direito. Ou seja, que se acuse, se denuncie e se condene com provas, sem o que, conforme observa, não há justiça. A interferência excessiva do judiciário em assuntos de outros poderes, segundo ela, são prenúncios do “estado policialesco” onde, ao contrário de uma democracia com regras, inverte-se o ônus da prova e todos se tornam culpados.</p>
<p align="justify">“A judicialização da política é um risco à democracia. Usam a Lava jato como arma política. A divulgação seletiva dos fatos desvirtuou a operação”, alerta a deputada. Luciana lembra que, embora bombardeada diariamente através de denúncias que saem de órgãos oficiais como o Ministério Público Federal, Dilma acatou o resultado da eleição interna no órgão e reconduziu ao cargo o procurador Geral da República, Rodrigo Janot, o mais votado de uma lista tríplice encaminhada como sugestão ao Palácio do Planalto. “São Paulo e Minas não seguem a lista tríplice apresentada pelo Ministério Público”, cutuca, referindo-se aos redutos tucanos. O atual Procurador de Justiça de Minas foi indicado pelo governo anterior ao atual, do PT.</p>
<p align="justify">Luciana Santos chama a atenção para um fenômeno típico da democracia brasileira, que é a diferença explícita entre governo e poder, este ainda nas mãos das mesmas elites que historicamente ditaram os rumos da politica. Segundo ela, a vitória de Lula e Dilma nos últimos 12 anos, permitiu o acesso da esquerda e das classes populares a um pequeno espaço do Estado. “Nós chegamos ao governo, mas o poder ainda está muito distante”, ressalva.</p>
<p align="justify"><strong>Ninho dividido</strong></p>
<p align="justify">Embora o predomínio da elite seja um forte fator de controle e, ao mesmo tempo, gerador de instabilidade ao governo de esquerda, a presidente do PC do B não vê clima para aventura golpista por duas razões básicas: os grupos econômicos de peso sabem que o deslocamento do eixo do poder seria um desastre de consequências imprevisíveis e a própria oposição que conspira está dividida.</p>
<p>“A oposição tem um único foco, que é interromper o mandato, mas enfrenta contradições internas. O Aécio quer (derrubar Dilma) agora; o Alckmin (Geraldo Alckmin, governador paulista e candidatíssimo em 2018), quer que Dilma sangre até o fim &#8211; como sugeriu o senador Aloísio Nunes, estranhamente, personagem que no passado, vítima da perseguição da ditadura, foi curar as feridas no exílio _ enquanto Serra (senador José Serra) paquera com o PMDB. Eles não têm unidade para fazer o deslocamento”, avalia a comunista. Para aumentar seu labirinto, na hipótese de emplacar o golpe ou a renúncia pregada pelo tucano de plumagem mais visível, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os tucanos ainda convivem com o medo de enfrentar Lula numa nova eleição.</p>
<p><strong>Nova governabilidade</strong></p>
<p>O cenário, como se vê, é preocupante e incerto. A presidente do PC do B acha, no entanto, que a conspiração é uma escalada que só será interrompida com a contraofensiva da esquerda via reestruturação da coalizão governista, um novo pacto de governabilidade &#8211; com agenda a ser construída &#8211; e, especialmente, através de uma ação política mais efetiva de Dilma pela resistência. Isso, antes que seja tarde.</p>
<p>“Estamos no limite da crise institucional”, alerta. O PC do B, aliás, foi um dos poucos partidos que não foram surpreendidos com o golpe de 1964, que germinou e ganhou corpo numa crise cujo início é parecido com o cenário de 2015. Duas diferenças a favor da superação da crise, no entanto, é a existência de movimentos sociais solidamente organizados e a consciência mais clara de que o respeito ao voto é a parte mais saudável da democracia.</p>
<p>“A base que elegeu Dilma é muito ampla, mas espera uma iniciativa do governo. Vamos construir uma frente ampla, com a participação do setor produtivo e de trabalhadores, para um novo pacto de governabilidade. É preciso resistir e estimular a presidenta a estar mais presente”, provoca Luciana Santos.</p>
<p><strong>Contradição doméstica</strong></p>
<p>Enquanto atua como protagonista nos limites da esquerda nacional, Luciana Santos precisa lidar com uma contradição em Pernambuco. No governo do seu estado e na prefeitura da capital, o PC do B é coadjuvante em uma larga aliança em que os principais partidos oposicionistas (DEM, PSDB e PPS inclusive) e lideranças evangélicas de extrema-direita movimentam-se confortavelmente.</p>
<p>Há duas explicações para sua presença na frente comandada pelo PSB. A primeira estaria no campo a “tradição”, em razão das relações históricas do partido com os falecidos Miguel Arraes e Eduardo Campos. A outra é de ordem tática: o PC do B seria o elo de ligação capaz de atrair os “socialistas” e a família Campos de volta ao berço da esquerda, algo que se torna mais difícil com o alinhamento dos herdeiros políticos do ex-governador com a oposição.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0.35cm; line-height: 115%;"> <span style="font-family: Cambria,serif;"><span style="font-size: large;"><b>Araguaia, a guerrilha</b></span></span></p>
<p>“O Araguaia foi resistência. Era necessário proteger os quadros do partido que estavam sendo perseguidos nas cidades pela ditadura”, disse a deputada em entrevista exclusiva ao Marco Zero. Em 1972, quando o conflito eclodiu, Luciana Santos tinha apenas sete anos e, naturalmente, jamais imaginaria que a história lhe pegaria uma boa peça, levando-a ao comando do partido que fez da guerrilha uma das mais intensas páginas da esquerda armada num momento cuja conturbação, resguardadas as proporções, guarda vivas semelhanças com a conspiração que, em 1964, derrubou o governo legitimamente eleito de João Goulart.</p>
<p><a name="_GoBack"></a> Dois anos antes o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, em um artigo tão lapidar quanto profético, antecipara a quartelada: “Quem vai dar o golpe no Brasil”, anunciou logo no título para descrever o clima tenso. Os comunistas, reunidos então no velho partidão, o PCB, também anteviram o golpe e se dividiram por conta das diferenças de opinião sobre as táticas de reação. Luiz Carlos Prestes não queria o conflito e ficou com o PCB. Carlos Marighella fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), a mais aguerrida das organizações que fizeram a luta armada urbana, enquanto João Amazonas e Maurício Grabois optaram pelo campo, levando os quadros mais preparados para o Bico do Papagaio, na confluência entre o Pará, Goiás e Maranhão, às margens do Rio Araguaia.</p>
<p>Os preparativos da guerrilha começaram, na verdade, em 1966, quando o engenheiro de mina, boxeador e ex-militar Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, disfarçado de garimpeiro e caçador de peles (mariscador na linguagem dos camponeses) se instalou na região. A descoberta do foco levou os militares a organizar um aparato envolvendo as três Forças (Exército, Aeronáutica e Marinha) para um conflito que, encoberto pela conspiração do silêncio, duraria entre 1972 e 1975 e se transformaria num dos maiores massacres da história brasileira. Cerca de 80 militantes do PC do B &#8211; entre militantes históricos, acadêmicos, estudantes e, alguns deles, filhos de camponeses &#8211; deixaram lá seus ossos. Embora suas identidades sejam amplamente conhecidas, ainda figuram na lista de desaparecidos políticos. Meio século depois, a Guerrilha do Araguaia ainda é uma ferida aberta na selva amazônica e um trauma para a esquerda armada, especialmente no PC do B.</p>
<p>Sinal dos tempos, a linha do PC do B hoje nada mais tem a ver com o maoísmo que inspirou o Araguaia. A ascensão de Luciana Santos é uma aposta na modernização do socialismo e a adaptação do partido no novo mundo aberto pelas novas tecnologias. “O PC do B não é fechado. Não temos correntes e nem disputas internas. Primamos pela unidade política, apostamos na renovação, na juventude e, permanentemente, na atualização do socialismo ao moderno e ao contemporâneo”, diz a deputada. Sua ascensão, unificando os comunistas, foi uma “construção” de Renato Rabelo, que presidiu o partido por 13 anos, sucedendo um então lendário João Amazonas, que ficou no comando desde que o surgimento da nova sigla, em 1962, até sua morte, em 2002.</p>
<p>Sobrevivente do Araguaia, João Amazonas diria, depois da Anistia, que a região em que os guerrilheiros foram viver, habitada por pequenos agricultores e literalmente abandonada pelo poder público, era tão atrasada que em plena industrialização lá ainda não havia chegada a era da enxada &#8211; o plantio era feito com um facão rudimentar. É curioso observar hoje que na divisão da máquina governamental de Dilma, coube ao partido o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, talvez, uma oportunidade rara na história para levar o país a uma saudável guinada.		</p>
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		<title>Na comunidade das frustrações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2015 13:14:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Diego Viana Do Para ler sem olhar Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>				Por Diego Viana<br />
Do <a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Para ler sem olhar</a></p>
<div class="entry-content clear">
<p>Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto as medidas destinadas a recolocar a economia nos trilhos parecem ter o efeito contrário. Em que pese tudo isso, a constatação mais interessante de agosto de 2015 é provavelmente o vigor daquilo que poderíamos denominar, sem hesitação, a classe dominante do Brasil – mas com artigo definido: “a” classe dominante.</p>
<p>Sabemos que ela existe; sempre há algo como uma classe dominante, e não é só aqui. Podemos até descrevê-la, apontar quem faz parte dela, citar o latifúndio, as “doze famílias” da mídia – se é que são mesmo doze –, os industriais de São Paulo, o sistema financeiro. Mas não é todo dia que a vemos em ação, mobilizada em um esforço concentrado, com a cara à mostra. No mínimo, é instrutivo. E também sintomático.</p>
<p>Como se sabe, os itens a serem levados ao parlamento sob o título de <a href="http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/08/10/conheca-a-agenda-brasil-tentativa-do-governo-para-debelar-a-crise/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“Agenda Brasil”</a> – note-se como o nome, deliberadamente, não denota coisa alguma (fora o anglicismo) – resultam de uma concertação ágil e veloz. Segundo consta, a iniciativa partiu dos proprietários do maior grupo de comunicação do país, envolveu as entidades de classe do setor produtivo no Sudeste, também abarcou as confederações de indústria e agronegócio, e por fim foi costurado pelo presidente do Senado, em diálogo direto com o ministro da Fazenda. Talvez essa seqüência esteja trocada, mas que importa? O dado relevante é vermos mídia, indústria, agronegócio, dinastias políticas, todos amalgamados e abençoados pelo sistema financeiro.</p>
<p>O que convenceu esse conjunto de poderosos a deixar os bastidores, mesmo que momentaneamente, parece ter sido a bagunça (e essa é realmente a melhor palavra) da conjuntura política. Nada garante que essa bagunça vá se dissipar, já que não temos motivos para achar que a cúpula do Executivo vai aprender a fazer política da noite para o dia – depois de tanto tempo?! E com a saída de Michel Temer da articulação política, essa hipótese parece ainda mais absurda. O que significa que mesmo o acordão de cúpula pode ruir, a depender da sorte de Dilma Rousseff com o TCU e o destino que esteja reservado para Eduardo Cunha – que já deu mostras de que quer sabotar também esse acordão, comprando briga com os poderosos que estão incomodados com ele.</p>
<p>Isso para não falar da economia…</p>
<p>Ainda assim, pode ser amargo, mas também é interessante observar à distância a destreza e a desenvoltura com que nossa classe dominante age e decide o futuro do país, quando julga necessário. Uma desenvoltura que ficou intocada nesses 27 anos de Nova República, sem sofrer um arranhão sequer desde a adoção da Constituição de 1988, nem com os avanços atribuídos aos tucanos, como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem com aqueles atribuídos aos petistas, como a inclusão de renda e a expansão do mercado interno.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Se, por um lado, possuir uma classe dominante que paira impávida acima do sistema político está longe de ser algo aberrante – basta ver o que se passou nos EUA e na Europa desde a crise de 2008 –, por outro também parece que estamos assistindo a um evento com cara e cheiro de Brasil. Da dissolução da primeira constituinte em 1823 à proclamação da República, da reforma urbana de Pereira Passos à revolução de 30, do Estado Novo às cassações de 1964 e ao AI-5, decisões verticais em momentos graves são recorrentes.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>1</sup></a></span></sup></p>
<p>Os itens divulgados da tal agenda, em suas diferentes versões e mesmo ainda na forma de meras intenções, são talhados com toda a clareza para satisfazer a interesses, muitos deles imediatistas, de quem controla o PIB brasileiro. A começar pelo agronegócio e as empreiteiras, com as infames medidas para agilizar a concessão de licenças ambientais, como se estivéssemos com falta de desastres ecológicos nas megaobras e nos latifúndios país afora. Como se a estação de Cabrobó, recém-inaugurada, não fosse feita para transpor água de um rio São Francisco <a href="http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2012/09/25/interna_vidaurbana,398575/pesquisadores-anunciam-a-extincao-inexoravel-do-rio-sao-francisco.shtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">que está secando</a>. E, se há claramente problemas no sistema tributário e na legislação trabalhista, a regularização dos terceirizados, tal como proposta, fará pouco para reduzir a discrepância entre o “empregado sortudo e privilegiado” e o trabalhador precário, “pejotizado”, e muito para garantir que corporações tratem o trabalho ainda pior do que já tratam.</p>
<p>Considerações de maior envergadura, que antecipem tendências globais inclusive já anunciadas, como o imperativo sustentável e o redesenho da estrutura produtiva global, estão inteiramente ausentes, substituídas por um termo polivalente e ambíguo: a “competitividade”. Mas a competitividade de um miserável país de latifúndios e baixo valor agregado é incompatível com a de um país sustentável e pujante, do mesmo modo que o sentido do desenvolvimento na era do aço e do carvão é um e na era do byte e do painel solar é outro. A “agenda Brasil”, por trás de seu silêncio, já carrega uma escolha nesse mar de distinções – infelizmente, a <a href="http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n112/04.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">mesma escolha</a> que o círculo de Dilma já tinha feito.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1593" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448.jpg?w=696" alt="af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448" /></p>
<p>Outro problema, igualmente grave, de uma carta de intenções tão extensa, que se aproveita daquilo mesmo que pretensamente viria resolver – o momento de desarticulação completa tanto na esquerda como no centro (precisamos ter isso em mente!) –, é que ela lança a uma condição secundária todo o processo político, as negociações entre diferentes grupos de interesse e representantes de classe, a busca de soluções intermediárias (chamadas também de soluções “de compromisso”, em mais um anglicismo – não que eu seja necessariamente contra os anglicismos). Todas essas coisas que fazem da democracia parlamentar um regime mais maleável e palatável que qualquer outro já experimentado – como na famosa frase de Churchill.</p>
<p>É verdade que tudo que está proposto ali ainda vai passar pelo Congresso, o que é da natureza da democracia parlamentar, com todos os seus defeitos. Mas o que há de mais despolitizante e no caso da “agenda Brasil” é o próprio acordo de bastidores. Com o pano de fundo de toda a nossa história de soluções verticais para a política e a economia – se não citei acima o mais descarado de todos, cito agora: o <a href="http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CONV%C3%8ANIO%20DE%20TAUBAT%C3%89.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">convênio de Taubaté</a> –, fica difícil evitar a sensação de que a posição secundária reservada à política propriamente dita é como o seu “lugar natural” no Brasil, o que daria razão a Sérgio Buarque de Holanda quando ele escreve que a democracia no Brasil é um <a href="http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v26n76/03.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“lamentável mal-entendido”</a>. Será que continua sendo assim, depois de tantas gerações, tantas lutas – tanto sangue, suor e lágrimas, para citar Churchill mais uma vez?</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pensamentos negativos, esses. Mas o estranho nisso tudo é que não há como dizer que o país esteja na pasmaceira, despolitizado e desinteressado dos assuntos de Brasília. Temos, afinal, manifestações a rodo, múltiplas e desconexas, desde o famoso junho de 2013 até os “Fora Dilma”, passando pelo “Não Vai Ter Copa” do ano passado e as contraposições governistas, mas encabuladas, aos protestos de direita – e os panelaços, claro. As contradições do Brasil estão perfeitamente explícitas nesses episódios todos: da escolha de quem a polícia e a Justiça reprimirá, sob aplausos de todo o espectro político institucional e com instrumentos bem questionáveis do ponto de vista legal (que o diga Rafael Braga Vieira, preso por porte de Pinho Sol) até a estranha mistura de recusa à corrupção com uniformes da CBF, passando pelos aplausos a uma das polícias mais brutais e corruptas do universo. Eu diria que o momento histórico já está merecendo o epíteto “decisivo”.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1588" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/commodi6.jpg?w=550&amp;h=521" alt="Commodi6" width="550" height="521" /></p>
<p>A rigor, o que se pode dizer não é que o país esteja paralisado ou desmobilizado – antes o contrário, isso era o que se dizia antes de 2013 – mas que está amarrado, rodando em falso, tateando às escuras. De um lado, com dificuldade em desapegar-se do PT, ou já desapegados desse partido mas sem ter outro ao qual se referenciar, aqueles com sensibilidade de centro-esquerda sentem que estão no meio de um túnel escuro, com uma luz no fundo se aproximando em alta velocidade, apitando e cheirando a fumaça.</p>
<p>De outro lado, os que têm sensibilidade de centro-direita abrem os jornais e dão com os representantes do partido que poderia acolher seus sentimentos – refiro-me ao PSDB – emitindo declarações cada vez mais tacanhas e retrógradas. E, muitas vezes, nada mais do que tolas. Sem falar na incompetência de um governador que deixa sua capital sem água (e depois mente sem enrubescer, dizendo que isso não aconteceu). Não é sem motivo que se refugiam no mero anti-petismo, sem grande desenvolvimento programático. Em certa medida, é um caso de escapismo.</p>
<p>Assim, na falta das âncoras do que um dia foi o centro, sem ninguém investido de suficiente autoridade moral para, como dizia Fernando Henrique, “administrar o atraso”, o caminho da hegemonia e até, cruz credo, do poder está desimpedido para toda uma malta de fundamentalistas religiosos, saudosos da ditadura, adoradores da truculência policial e qualquer grupelho de desvairados pretensamente politizados, desses cujos cartazes os sensatos – porém órfãos – se comprazem em ironizar, como se esse sarcasmo todo fosse conter a enxurrada do retrocesso.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pois é justamente nesse momento que vemos costurar-se um acordo de cúpula operado pela tal classe dominante, e para ela mesma, por cima das nossas cabeças. Um acordo que (repito) se aproveita da própria situação que supostamente vem resolver: a tibieza nos círculos centrais, normalmente os mais parrudos, do sistema político; o Executivo politicamente incapaz e administrativamente imóvel; a Câmara dos Deputados entregue a interesses pessoais e delírios fundamentalistas; a desconfiança global com a economia brasileira. A contrapartida que nos oferecem, se é que se pode falar assim, é a permanência da mandatária no poder, para alegria de seus parcos correligionários restantes – mas como no máximo um fantoche, uma vez que sua equipe já deu inúmeras mostras de incapacidade para recuperar o poder de iniciativa.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2sym" name="sdfootnote2anc"><sup>2</sup></a></span></sup></p>
<p>Fico me perguntando qual seria o resultado, se o acordo e a “agenda Brasil” forem bem-sucedidos em manter Dilma no posto até o fim do mandato. Afinal, as energias que estão à solta nas ruas do Brasil, a começar pelas do “Fora Dilma” (mas de jeito nenhum se limitando a elas) não vão simplesmente se dissipar. A erosão lenta do PT nesse período não vai contribuir para a elaboração de novas forças de centro-esquerda, assim como a fixação de parte do PSDB com o impeachment – bem como o jogo de caciques do resto do partido – vai manter a centro-direita anestesiada e satisfeita em andar a reboque do extremismo conservador.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3sym" name="sdfootnote3anc"><sup>3</sup></a></span></sup> Em uma palavra, repetida três vezes: frustração, frustração, frustração.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1594" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142c5ac750e3750d142.png?w=550&amp;h=400" alt="screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142C5AC750E3750D142" width="550" height="400" /></p>
<p>Há outros pontos nevrálgicos no Brasil contemporâneo onde a frustração pode já estar construindo comportamentos e narrativas insensatos – a frustração é péssima conselheira. Vendeu-se na última década a idéia do Brasil Grande, Brasil Potência, Brasil quinta maior economia, Brasil desenvolvido, sem miséria e assim por diante. Vendeu-se a idéia de que seríamos um país de classe média e que todos teriam chances na vida. De uns tempos para cá, essa imagem ficou reduzida às viagens de avião e ao consumo de roupas e eletrônicos, como no já longínquo episódio do rolezinho – que no entanto ocorreu há menos de dois anos. Mas há elementos muito mais essenciais.</p>
<p>O caso das faculdades, por exemplo. O jovem da classe C, ou “nova classe média”, como se dizia, via no acesso ao ensino superior a porta de entrada para o respeito. Melhor dizendo, o <a href="http://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/ojs/index.php/civitas/article/view/4319" target="_blank" rel="noopener noreferrer">reconhecimento</a>. A bolsa do Fies, o ProUni e, mais tarde, o Ciência Sem Fronteiras seriam o caminho para uma carreira de sucesso, algo como um “sonho americano” em que o diploma exerceria um papel crucial. E agora, com cortes no CsF e com um quadro recessivo intenso, como vai reagir quem acreditou nesse sonho, se endividou, passou anos dormindo poucas horas por noite para poder conciliar trabalho e estudo? Alguém que se dá conta de que a faculdade que fez é de baixíssima qualidade; que o mercado de trabalho, não bastasse encolher, ainda por cima esnoba o fruto de tanto esforço?<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4sym" name="sdfootnote4anc"><sup>4</sup></a></span></sup></p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Uma das falhas das narrativas polarizadoras, à direita (“petralhas!”) como à esquerda (“coxinhas!”), é fechar os olhos justamente para essa comunidade das frustrações. Pensando bem, chega a ser engraçado se dar conta de que existe um abraço de afogados entre gente que se odeia tanto. Nessa comunidade das frustrações há espaço para todos nós, incluindo aqueles que chegamos a crer, em algum momento, que seria dado um salto quântico na política deste país, e também no dia-a-dia social, quando a miséria extrema fosse erradicada, inviabilizando alguns dos modos pelos quais as oligarquias se perpetuam. Pode até ser (quem sabe?) que esse vácuo, esse impasse, tenha origem numa ainda invisível derrocada das oligarquias… Mas seria invisível mesmo: hoje, tudo que podemos ver é o exato oposto, a oligarquia propondo um acordão de cúpula para superar o impasse da maneira que mais a beneficie. A ela e mais ninguém.</p>
<p>É preciso enxergar melhor essa comunidade da frustração, que transparece, por exemplo, na heterogeneidade das opiniões que uma <a href="http://gpopai.usp.br/pesquisa" target="_blank" rel="noopener noreferrer">pesquisa realizada por universidades paulistas</a> captou nas manifestações “Fora Dilma” do dia 16. Em primeiro lugar: como bem apontaram seus detratores, de fato, verdade verdadeira, a grande maioria das pessoas que ali estavam eram brancas, eleitoras de Aécio Neves em 2014, detentoras de diplomas universitários. São contra cotas (62%) e são punitivistas (60%). O que justificaria, pelo visto, tachá-los de elite, “elite branca”, ou, como eu dizia meses atrás, <a href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/03/21/o-impasse-e-os-impasses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“a elite que não é elite”</a>.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1001" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg" alt="5diego" width="550" height="334" /></a></p>
<p>Mas os tais detratores preferiram ignorar que essa mesma pesquisa aponta nas nossas “manifestações de direita” a concordância “total” com a saúde pública para todos (88%) e gratuita (74%), a educação pública para todos (92%) e gratuita (87%), e com o transporte coletivo (72%) – que poderia ser gratuito, com concordância total ou parcial, para 50,4%. Isso mesmo: metade dos manifestantes “de direita e saudosos da ditadura” vêem algum sentido na idéia de tarifa zero, o que os coloca em linha com os anarquistas do MPL. A mesma multidão supostamente ultra-capitalista rejeita em massa (73%) o financiamento empresarial de campanha.</p>
<p>Acontece que uma multidão como aquela pode parecer um grande bloco quando vista nas fotografias à distância, e mais ainda nos recortes feitos com interesses precisos, ao elencar os cartazes mais esquisitos e os personagens mais pitorescos, como o já batido “por que não mataram todos em 64”. Mas multidões não se deixam apreender assim. Elas costumam se comportar menos como o gado conduzido ao abatedouro e mais como os íons de um campo eletromagnético ainda não polarizado, vinculados por ligações fracas; e no caso dessa multidão de agosto, ligações até mesmo circunstanciais, como a rejeição enfática a um governo em particular.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>O quadro se torna ainda mais heterogêneo se incorporarmos a ele aqueles que rejeitam o governo sem participarem das manifestações – nas periferias, por exemplo. E mais heterogêneo ainda quando lembramos de tantos grupos de esquerda que estiveram nas ruas entre junho de 2013 e o “Não Vai Ter Copa” – sem falar nas manifestações do Movimento Passe Livre também este ano em São Paulo e Belo Horizonte, as greves de professores no Paraná e em São Paulo, a resistência de índios e ribeirinhos em Belo Monte. É muita energia se acumulando, muita raiva, muita hostilidade. E muita repressão, sem dúvida, o que não ajuda em nada. Acima de tudo, muita frustração, o afeto-rei da política brasileira em 2015.</p>
<p>Não consigo deixar de ver uma boa dose dessa frustração no recrudescimento da violência quotidiana, social, que se materializa em massacres como o do Cabula, chacinas como a de Osasco, linchamentos em diversas cidades, estupros recorrentes (fiquei particularmente chocado com um dos casos ocorridos no metrô de São Paulo, felizmente não consumado), ataques a transexuais, atentados contra religiões de matriz africana, a polícia do Rio barrando jovens negros, suburbanos, que queriam ir à praia. Talvez em outra escala, o mesmo valha para a guerra em torno das ciclovias “do Haddad” em São Paulo – na verdade, em torno de qualquer iniciativa do prefeito petista. Com o risco de soar especulativo, anti-científico e o cacete, sinto que tudo isso manifesta uma tensão crescente: as pessoas estão com os nervos à flor da pele e os caminhos mais sensatos para discutir a convivência social estão fechados no Brasil.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-1002 alignright" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg" alt="6diego" width="300" height="401" /></a></p>
<p>Tentando clarear um pouco o quadro, eu poderia tentar vincular tudo isso aí acima às expectativas dos diferentes segmentos sociais, tal como expressas, por exemplo, em 2010, o ano do “crescimento chinês”. Uma nova estrutura social, dizia-se, em forma de losango e não mais pirâmide, traria um novo ciclo de desenvolvimento, ao custo dos privilégios de alguns poucos. Quais privilégios? Talvez a falha trágica esteja em não se ter tocado nessa pergunta, levantando assuntos sensíveis e cruciais como o latifúndio, o patrimonialismo e a carteirada. Falou-se bastante em baixar os juros (parece que isso ficou para as calendas gregas) e no fim do trabalho doméstico. E só.</p>
<p>É claro que este último item já seria uma enorme conquista, mas dificilmente viria sozinho e se estabeleceria de maneira duradoura. De fato, continuaremos a ser uns escravocratas mal disfarçados enquanto qualquer assalariado puder contar com uma doméstica em casa. “Ter uma empregada”, como se diz. Qualquer gerente, qualquer assistente. No Brasil, até algumas empregadas domésticas têm empregadas domésticas! Mas não é só a empregada, claro, embora essa seja uma figura paradigmática. O que dizer de porteiros para abrir a porta do elevador, restaurantes com um garçom para cada duas mesas, postos de gasolina cheios de frentistas?</p>
<p>Mas veio o crescimento. Vieram o ProUni e o Fies. Filhos de trabalhadores precários, domésticos em particular, puderam tentar profissões mais bem pagas e consideradas mais dignas. O custo desse trabalho começou a subir e a gritaria foi tão violenta que camponeses da China ouviram e ficaram se perguntando de onde vinha tanta barulheira. Por causa de um único, mísero privilégio ameaçado. Finalmente, estávamos diante da perspectiva de que alguns não seriam mais obrigados a se humilhar e outros teriam de tomar conta da própria vida. E foi um pandemônio.</p>
<p>Acontece que parou por aí. Para contra-atacar a ofensiva anti-governista, os defensores de Dilma podem perfeitamente invocar a raiva de uma elite que vê seus privilégios ameaçados – um deles, pelo menos. “Agora pobre anda de avião e faz faculdade”, como se diz. E o que mais? Os ruralistas seguem exaurindo as terras e metendo a grana no bolso. Os bancos continuam sendo alimentados como gansos de <i>foie gras</i> pelos juros usados para segurar o câmbio e, com ele, a inflação. A mídia continua absurdamente concentrada. Os elefantes brancos da Copa, a poluição e as remoções na “Cidade Olímpica” e e o ecocídio de Belo Monte estão aí para mostrar que o único temor que um empreiteiro precisa ter hoje no Brasil é o de passar uma breve temporada na cadeia. E depois voltar à rotina.</p>
<p>Paradoxo! Mais um para a interminável coleção brasileira: é perfeitamente verdadeira a raiva por causa de privilégios perdidos… e é perfeitamente verdadeira a manutenção dos privilégios históricos. Isto aqui, ô-ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Momentos como este, que misturam agressividade, imobilismo e frustração, sugerem a aproximação de um clímax catártico. Talvez a ascensão de um líder muito carismático, para o bem ou para o mal, arrastando multidões com a promessa de eliminar a sujeira ou reconquistar a pujança nacional, algo assim. Talvez uma guerra civil, um golpe de Estado, um colapso financeiro. Já passamos por algumas dessas experiências, e até mais: tivemos também um suicídio.</p>
<p>A esta altura, uma possível catarse seria o tão propalado impeachment de Dilma, com suas variantes – impugnação da chapa, renúncia, licença médica. Fico imaginando como seria esse momento (talvez eu descubra logo), dado o nível de tensão em que as pessoas se encontram. Seria certamente uma imagem impactante, o retrato vivo da destruição do PT, que alguns iam vivenciar como epifania e outros tentariam retratar com tintas de tragédia – Dilma, aliás, certamente tem cara de quem se esforçaria para ser um Creonte do planalto central…</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1003" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg" alt="7diego" width="550" height="309" /></a></p>
<p>É mesmo preciso discutir a sério o que seria essa catarse, o que ela implicaria, o que viria depois, a quem interessa – e o que podemos esperar caso ela não ocorra. Esta última hipótese talvez seja a mais fácil de responder: a tensão continuaria crescendo, o PT continuaria sendo carcomido, os tucanos continuariam em suas disputas de caciques. As sensibilidades mais ao centro, esquerda como direita, seguiriam órfãs, e talvez pudéssemos torcer avidamente pela recomposição de outras forças para ocupar esse espaço antes que sobrevenha a próxima reviravolta – ou, para seguir na analogia teatral, a próxima peripécia –, que seria cataclísmica. Caso contrário, vozes no estilo Reinaldo Azevedo vão encontrar cada vez mais ressonância e cada vez mais hidrófobos passariam à ação. Para não falar em personagens terríveis, daqueles que circulam pelo meio político e podem fazer leis, controlar orçamentos públicos, gozar de imunidade parlamentar…</p>
<p>Sobre a catarse de um impeachment ou renúncia, meu medo é que ocorra o exato oposto disso: que as tensões se acalmem de uma vez só – o que seria uma ilusão temporária, sem dúvida. Nesse cenário, Dilma desceria a rampa, em grande medida, com o figurino de um bode expiatório, sacrificado pela pólis (estranha pólis, essa nossa) para expurgar nossas incontáveis transgressões. Não é por acaso que um dos maiores interessados em manter de pé a tese do impeachment (mas talvez não levá-lo a cabo) é justamente Cunha, no esforço de enfraquecer o governo e afastar de si próprio o perigo espectral das investigações de corrupção.</p>
<p>Na imaginação simplória de muita gente, a remoção do PT do poder significaria o sucesso do combate à corrupção, a realização definitiva de um processo acompanhado com avidez; daí por diante, nada mais seria necessário fazer, o problema estaria resolvido, o mal cortado pela raiz. Seria possível voltar ao dia-a-dia, ao “business as usual”, à vida de sempre. Mas a vida de sempre, no Brasil, bem sabemos o quanto envolve a violência, a corrupção, o déficit democrático. Sangra o boi de piranha, a boiada segue firme, pisoteando o território.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1004" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg" alt="8diego" width="550" height="293" /></a></p>
<p>Escoar todas as frustrações pelo buraco negro de um impeachment poderia ter a vantagem de evitar a explosão que se anuncia, mas seria uma solução falsa, que removeria o ímpeto daquela que talvez seja a única boa notícia do momento: a ofensiva contra as relações incestuosas entre grande capital e grande política no Brasil, que são, não custa lembrar, generalizadas e suprapartidárias (prefiro dizer: diapartidárias). Passado o momento catártico, permaneceria o rancor. Novas frustrações se somariam às já existentes quando ficasse claro o quanto as estruturas permanecem intocadas – estruturas que sustentam o incesto mencionado acima.</p>
<p>Muitos da multidão presente no “Fora Dilma” se sentiriam traídos e, mais uma vez, frustrados. Mas é bastante comum que mobilizações multitudinárias acabem resultando em transformações políticas que em nada lembram as reivindicações originais dos protestos; está aí a Primavera Árabe que não me deixa mentir. Acontece que, ao provocar um curto-circuito no exercício quotidiano do poder, essas mobilizações abrem espaço para oa ação de outras forças e outros poderes, em geral mais organizados e com objetivos mais claros que os seus. No nosso caso, ainda não chegamos a esse ponto, já que a tal classe dominante entrou em ação.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Isso tudo é o que caracteriza o impasse, o mato-sem-cachorro, o vai-não-vai. Estamos entre dois pólos. Aqui, uma catarse que nada resolve, mas passa a impressão de resolver, para a alegria dos eventuais sobreviventes – Cunha à testa. Ali, o acordão que tudo resolve, mas seria melhor que não resolvesse, porque só resolve para uns e deixa o abacaxi na mão de todos os demais – você e eu, basicamente. No meio, um governo que já se demonstrou inviável em inúmeras ocasiões desde 2011, incapaz de garantir vitórias parlamentares com segurança mesmo nos momentos de maior apoio popular, e hoje sem quase nenhuma popularidade, nenhum poder de iniciativa e nenhum diálogo com as próprias bases, isto é, com o que um dia foram suas bases.</p>
<p>Seguimos assistindo ao desenrolar da trama em nossa comunidade de frustrações, em nosso abraço de afogados. Seguimos torcendo pelos nossos grupos políticos favoritos e odiando uns aos outros. Seguimos acompanhando as chacinas reiteradas e a dissolução dos códigos de convívio social, acusados de “defender bandido” e outras imbecilidades. Aqui na terra, como diz Chico Buarque, vão jogando futebol; mas cada vez pior, e nem uma goleada em casa por 7 a 1 nos dá forças para derrubar o <i>Ancien Régime</i>. E seguindo com Chico – já que citei o pai, cito o filho também: uns dias chove (cada vez menos), outros dias bate sol (cada vez mais forte), “mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.</p>
<p class="western" lang="pt-BR" style="text-align: center;"><strong>NOTINHAS</strong></p>
<div id="sdfootnote1">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">1</a><span lang="pt-BR">Há também os exemplos que contaram com expressivo apoio popular, como a candidatura de Tancredo (depois de rejeitada a emenda Dante de Oliveira) e a derrubada de Collor.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote2">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2anc" name="sdfootnote2sym">2</a><span lang="pt-BR">É especialmente difícil analisar uma conjuntura em que uma das principais variáveis é a incompetência e o comportamento errático de um pequeno grupo de indivíduos que ocupam uma posição central. Nos últimos meses, até anos, houve várias ocasiões em que portas se abriram para que o governo saísse das cordas, e ele mesmo preferiu continuar levando bordoadas. Não dá para explicar. Tudo seria muito diferente com lideranças mais sagazes.<br />
</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote3">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3anc" name="sdfootnote3sym">3</a><span lang="pt-BR">Que está estranhamente misturado a grupos ultra-liberais em economia, composto por jovens incultos que importaram suas idéias de neo-conservadores americanos, já desqualificados em seu próprio país.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote4">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4anc" name="sdfootnote4sym">4</a><span lang="pt-BR">No que está muitas vezes enganado, diga-se. O diploma de uma péssima faculdade, na mão de um formando esforçado e ambicioso, pode valer bem mais do que o de muitos colegas que tive da USP.</span></p>
<p class="western">
</div>
</div>
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		<title>Na Grécia, um golpe de Estado silencioso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Jun 2015 16:30:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Semana após semana, o nó das negociações estrangula progressivamente o governo grego. Altos dirigentes europeus já explicaram que nenhum acordo será possível com o primeiro-ministro Alexis Tsipras enquanto ele não “romper com a ala esquerda de seu governo”. A Europa, que prega solidariedade, só a oferece aos conservadores? por Stelios Kouloglou* Para Le Monde Diplomatique [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Semana após semana, o nó das negociações estrangula progressivamente o governo grego. Altos dirigentes europeus já explicaram que nenhum acordo será possível com o primeiro-ministro Alexis Tsipras enquanto ele não “romper com a ala esquerda de seu governo”. A Europa, que prega solidariedade, só a oferece aos conservadores?</em></p>
<p>por Stelios Kouloglou*<br />
Para <a href="http://diplomatique.org.br" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Le Monde Diplomatique Brasil</a></p>
<p class="diploolho">Em Atenas, “tudo muda e tudo continua do mesmo jeito”, como diz uma canção tradicional grega. Quatro meses depois da vitória eleitoral do Syriza, os dois partidos que governaram o país desde a queda da ditadura – o Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok) e a Nova Democracia (direita) – estão totalmente descreditados. O primeiro governo de esquerda radical da história do país desde o “governo das montanhas”,(1) nos tempos da ocupação alemã, goza de grande popularidade.(2)</p>
<p class="diploolho">No entanto, ainda que ninguém mencione mais o nome da detestada Troika, por ser a responsável pelo desastre econômico atual, as três “instituições” – Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) – continuam sua política. Ameaças, chantagem, ultimatos: uma nova troika impõe ao governo do novo primeiro-ministro, Alexis Tsipras, a austeridade que seus predecessores aplicavam docilmente.</p>
<p class="diploolho">Com uma produção de riqueza amputada em um quarto desde 2010 e uma taxa de desemprego de 27% (mais de 50% para os jovens de até 25 anos), a Grécia conhece uma crise social e humanitária sem precedentes. Mas, a despeito do resultado das eleições de janeiro de 2015, que deram a Tsipras um mandato claro para acabar com a austeridade, a União Europeia continua dando ao país o papel de mau aluno punido pelos professores severos da escola de Bruxelas. O objetivo? Desencorajar os eleitores “sonhadores” da Espanha ou de outros lugares que ainda acreditam na possibilidade de governos opostos ao dogma germânico.</p>
<p class="diploolho">A situação lembra a do Chile no início dos anos 1970, quando o presidente norte-americano Richard Nixon se empenhou em derrubar Salvador Allende para impedir que transbordamentos similares acontecessem em outros pontos do quintal norte-americano. “Façam a economia gritar!”, ordenou. Quando isso aconteceu, os tanques do general Augusto Pinochet ocuparam o posto&#8230;</p>
<p class="diploolho">O golpe de Estado silencioso que está acontecendo na Grécia bebe numa fonte mais moderna – das agências de classificação de risco às mídias, passando pelo BCE. Uma vez que a situação está instalada, só restam duas opções ao governo Tsipras: deixar-se estrangular financeiramente, se ele persistir querendo aplicar seu programa, ou renegar suas promessas e cair, abandonado por seus eleitores.</p>
<p class="diploolho">É justamente para evitar a transmissão do vírus Syriza – a doença da esperança – para o resto do corpo europeu que o presidente do BCE, Mario Draghi, anunciou em 22 de janeiro de 2015, ou seja, três dias antes das eleições gregas, que o programa de intervenção de sua instituição (de acordo com o qual o Banco Central compra todo mês 60 bilhões de euros em títulos da dívida dos Estados da zona do euro) só seria acordado com a Grécia sob certas condições. O elo fraco da zona do euro, o que mais necessita de ajuda, só receberia apoio se se submetesse à tutela de Bruxelas.</p>
<p class="diploolho"><strong>Ameaças e previsões sombrias</strong></p>
<p class="diploolho">Os gregos são cabeça-dura. Eles votaram no Syriza, obrigando o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, a chamá-los à ordem: “Os gregos devem compreender que os problemas mais importantes de sua economia não desapareceram pelo simples fato de que uma eleição aconteceu” (Reuters, 27 jan. 2015). “Não podemos abrir uma exceção para tal ou tal país”, confirmou Christine Lagarde, diretora-geral do FMI (The New York Times, 27 jan. 2015), enquanto Benoît Coeuré, membro do diretório do BCE, acrescentava: “A Grécia deve pagar, essas são as regras do jogo europeu” (The New York Times, 31 jan./1º fev. 2015).</p>
<p class="diploolho">Uma semana depois, Draghi demonstrava que também sabia “fazer a economia gritar” no seio da zona do euro: sem a menor justificativa, ele fechou a principal fonte de financiamento dos bancos gregos, substituída pela Emergency Liquidity Assistance (ELA), um dispositivo mais custoso que devia ser renovado a cada semana. Em suma, ele colocava uma ameaça constante na cabeça do governo. Acompanhando-o, a agência de classificação Moody’s anunciava que a vitória do Syriza “influenciava negativamente as perspectivas de crescimento” da economia grega (Reuters, 27 jan. 2015).</p>
<p class="diploolho">A possibilidade do Grexit (a saída da Grécia da zona do euro) e da falta de pagamento voltava à ordem do dia. Apenas dois dias depois das eleições de janeiro, o presidente do Instituto Alemão para a Pesquisa Econômica, Marcel Fratzscher, ex-economista do BCE, explicava que Tsipras jogava “um jogo perigoso”: “Se as pessoas começam a achar que ele é realmente sério, podemos assistir a uma fuga maciça dos capitais e a uma corrida para os bancos. Estamos no ponto em que uma saída do euro se tornou possível” (Reuters, 27 jan. 2015). Exemplo perfeito de profecia autorrealizadora que levou a agravar ainda mais a situação econômica de Atenas.</p>
<p class="diploolho">O Syriza dispunha de uma margem de manobra limitada. Tsipras tinha sido eleito para renegociar as condições vinculadas à “ajuda” da qual seu país se beneficiava, mas, dentro da zona do euro, a ideia de uma saída não contava com o apoio majoritário junto à população. Esta foi convencida pelas mídias gregas e internacionais que um Grexit constituiria uma catástrofe de amplitude bíblica. Mas a participação na moeda única toca em outras cordas, ultrassensíveis, no caso.</p>
<p class="diploolho">Desde sua independência, em 1821, a Grécia balançou entre seu passado no seio do Império Otomano e a “europeização”, um objetivo que, aos olhos tanto das elites quanto da população, sempre significou a modernização do país e sua saída do subdesenvolvimento. A participação no “núcleo duro” da Europa deveria materializar esse ideal nacional. Durante a campanha eleitoral, os candidatos do Syriza se sentiram, então, obrigados a sustentar que a saída do euro constituía um “tabu”.</p>
<p class="diploolho">No centro da negociação entre o governo Tsipras e as “instituições”, está a questão das condições fixadas pelos credores: os famosos memorandos, que, desde 2010, obrigam Atenas a aplicar políticas de austeridade e de tarifação devastadoras. Mais de 90% dos empréstimos dos credores voltam para eles diretamente – às vezes no dia seguinte! –, já que eles recebem o reembolso da dívida. Como resumiu o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, que reclama um novo acordo com os credores, “a Grécia passou os últimos cinco anos vivendo para o empréstimo seguinte, como o drogado que espera sua próxima dose” (1º fev. 2015).</p>
<p class="diploolho">No entanto, como o não reembolso da dívida equivale a um “evento de crédito”, quer dizer, uma espécie de bancarrota, o desbloqueio da dose é uma arma de chantagem muito poderosa na mão dos credores. Em teoria, já que os credores precisam ser reembolsados, poderíamos imaginar que Atenas dispõe de uma alavanca de negociação importante – salvo que a ativação dessa alavanca teria levado o BCE a interromper o financiamento dos bancos gregos, provocando o retorno à dracma.</p>
<p class="diploolho">Não há nada de espantoso, então, no fato de que, apenas três semanas depois das eleições, os dezoito ministros das Finanças da zona do euro tenham enviado um ultimato ao 19º membro da família europeia: o governo grego devia aplicar o programa transmitido por seus predecessores ou quitar suas obrigações encontrando dinheiro em outro lugar. Nesse caso, concluía o New York Times, “muitos agentes do mercado financeiro pensam que a Grécia não tem outra escolha a não ser deixar o euro” (16 fev. 2015).</p>
<p class="diploolho">Para escapar aos ultimatos sufocantes, o governo grego solicitou uma trégua de quatro meses. Ele não reclamou o depósito de 7,2 bilhões de euros, mas esperava que durante o cessar-fogo as duas partes conseguiriam chegar a um acordo incluindo medidas para desenvolver a economia, depois para resolver o problema da dívida. Seria inábil derrubar tão cedo o governo grego; os credores então aceitaram.</p>
<p class="diploolho">Atenas pensava poder contar – pelo menos provisoriamente – com as somas que entrariam nos caixas. O governo esperava dispor, nas reservas do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, de 1,2 bilhão de euros não utilizados no processo de recapitalização dos bancos gregos, assim como de 1,9 bilhão que o BCE tinha ganho sobre as obrigações gregas e prometido restituir a Atenas. Mas, no meio de março, o BCE anunciava que não restituiria esses ganhos, enquanto os ministros do Eurogrupo decidiam não apenas não depositar a soma, mas ainda transferi-la para Luxemburgo, como se temessem que os gregos se tornassem ladrões de banco! Inexperiente, não esperando manobras desse tipo, a equipe de Tsipras tinha aceitado o acordo sem exigir garantias. “Ao não pedirmos o acordo por escrito, cometemos um erro”, reconheceu o primeiro-ministro em uma entrevista ao canal de televisão Star, em 27 de abril de 2015.</p>
<p class="diploolho">O governo continuava a gozar de uma grande popularidade, a despeito das concessões que fez: não voltar atrás nas privatizações decididas pelo governo precedente, adiar o aumento do salário mínimo e aumentar ainda mais o imposto sobre o consumo, a taxa sobre o valor acrescido (TVA). Berlim então lançou uma operação visando desacreditá-lo. No final de fevereiro, a Der Spiegel publicava um artigo sobre as “relações torturadas entre Varoufakis e Schäuble” (27 fev. 2015). Um dos três autores era Nikolaus Blome, recentemente transferido do Bild para a Der Spiegel e herói da campanha realizada em 2010 pelo jornal contra os “gregos preguiçosos”.(3) O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que – fato raro na história da União Europeia, mas também da diplomacia internacional – ironizava publicamente seu homólogo grego, qualificando-o de “estupidamente ingênuo” (10 mar. 2015), era apresentado pela revista alemã como um sísifo bem-intencionado, desolado pelo fato de que a Grécia se encontrava condenada a fracassar e abandonar a zona do euro. A menos que, insinuava o artigo, Varoufakis fosse demitido de suas funções.</p>
<p class="diploolho">Enquanto vazamentos de informações, previsões obscuras e ameaças se multiplicavam, Dijsselbloem movia um novo peão, declarando no New York Times que o Eurogrupo examinava a eventualidade de aplicar à Grécia o modelo adotado em Chipre, ou seja, uma limitação dos movimentos de capitais e uma redução dos empréstimos (19 mar. 2015)&#8230; Tal anúncio dificilmente pode ser interpretado de outra forma que não uma tentativa – infrutífera – de provocar pânico bancário. Enquanto o BCE e Draghi apertavam ainda mais a corda no pescoço, limitando as possibilidades de os bancos gregos se financiarem, o Bild publicava uma pseudorreportagem sobre uma cena de pânico em Atenas, não hesitando em manipular uma foto banal de aposentados fazendo fila diante de um banco para sacar sua aposentadoria (31 mar. 2015).</p>
<p class="diploolho">No final de abril, a operação de Berlim deu seus primeiros frutos. Varoufakis foi substituído por seu adjunto, Euclide Tsakalotos, para as negociações com os credores. “O governo deve enfrentar um golpe de Estado de um novo tipo”, declarou então. “Nossos agressores não são mais, como em 1967, os tanques, mas os bancos” (21 abr. 2015).</p>
<p class="diploolho">Por enquanto, o golpe de Estado silencioso atingiu apenas um ministro. Mas o tempo trabalha para os credores. Estes exigem a aplicação da receita neoliberal. Cada um com sua obsessão. Os ideólogos do FMI pedem a desregulamentação do mercado de trabalho, assim como a legalização das demissões de massa, que prometeram aos oligarcas gregos, proprietários dos bancos. A Comissão Europeia – em outras palavras, Berlim – reclama a continuidade das privatizações que podem interessar às empresas alemãs, e isso ao menor custo possível. Na lista interminável das vendas escandalosas, destaca-se aquela, efetuada pelo Estado grego em 2013, de 28 prédios que ele continua utilizando. Durante os próximos vinte anos, Atenas deverá pagar 600 milhões de euros de aluguel aos novos proprietários, ou seja, quase o triplo da soma que recebeu pela venda – e que foi revertida diretamente aos credores&#8230;</p>
<p class="diploolho">Em posição de fraqueza, abandonado por aqueles de quem esperava apoio (como a França), o governo grego não pode resolver o principal problema que o país enfrenta: uma dívida insustentável. A proposta de organizar uma conferência internacional similar à de 1953, que dispensou a Alemanha da maior parte das reparações da guerra, abrindo o caminho para o milagre econômico,(4) foi afogada num mar de ameaças e ultimatos. Tsipras se esforça para obter um acordo melhor do que os precedentes, mas este ficará com certeza distante de seus anúncios e do programa votado pelos cidadãos gregos. Jyrki Katainen, vice-presidente da Comissão Europeia, foi muito claro a esse respeito desde o dia seguinte às eleições legislativas: “Não mudamos de política em função de eleições” (28 jan. 2015).</p>
<p>As eleições têm então um sentido se um país que respeita o essencial de seus engajamentos não tem o direito de mudar no que quer que seja sua política? Os neonazistas da Aurora Dourada dispõem de uma resposta pronta. Podemos excluir o fato de que eles se beneficiam mais de um fracasso do governo Tsipras do que os partidários de Schäuble em Atenas.</p>
<p>*Stelios Kouloglou, jornalista e documentarista, é deputado europeu independente, eleito pela lista do Syriza.</p>
<p>Ilustração: Bisso</p>
<p class="diploolho" style="font-size: 11.9999990463257px;">1 Ler Joëlle Fontaine, “Il nous faut tenir et dominer Athènes” [É preciso aguentar e dominar Atenas], Le Monde diplomatique, jul. 2012.</p>
<p class="diploolho" style="font-size: 11.9999990463257px;">2 Segundo uma sondagem de 9 de maio publicada pelo jornal Efimerida ton Syntakton, 53,2% da população julga “positiva” ou “em parte positiva” a política do governo.</p>
<p class="diploolho" style="font-size: 11.9999990463257px;">3 Ler Olivier Cyran, “‘Bild’ contre les cyclonudistes” [Bild contra os ciclonudistas], Le Monde diplomatique, maio 2015.</p>
<p class="diploolho" style="font-size: 11.9999990463257px;">4 Ler Renaud Lambert, “Dette, un siècle de bras de fer” [Dívida, um século de queda de braço], Le Monde diplomatique, mar. 2015.</p>
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