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	<title>Arquivos depressão - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 10 Mar 2025 23:15:26 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos depressão - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Mar 2025 20:28:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Pernambuco]]></category>
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		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Martihene Oliveira* Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Martihene Oliveira*</strong></p>



<p>Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à saúde mental de forma efetiva e rápida. Enquanto isso, milhares de mulheres, que aguardam na fila de espera, enfrentam o medo, a depressão e a solidão.</p>



<p>“Ela disse a mim que o meu caso era para uma psicóloga me acompanhar, mas no momento ia demorar um pouco, porque a fila de espera estava muito grande, tem gente lá que está esperando há mais ou menos um ano para ser atendido, porque na prefeitura não tem quantidade de psicólogos suficiente para suprir a demanda”, narra Elizabeth Santos, de 40 anos, ao contar a experiência de tentar atendimento psicológico na Prefeitura do Recife.</p>



<p>Segundo Elizabeth, a consulta foi uma sugestão de uma endocrinologista, que a encontrou em um posto de saúde, fora de sua comunidade. A profissional diante do seu relato de insônia e alimentação compulsiva para tratar da obesidade, solicitou agendamento com uma especialista de saúde mental. </p>



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	                                        <p class="m-0">Ilustração: Isadora Clemente/Sargento Perifa</p>
	                
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<p>Antes de nos aprofundarmos sobre a realidade em Recife, é importante informar que a pesquisa <em>Esgotadas</em> com 1.078 mulheres brasileiras pelo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Laboratório da Inovação Think Olga</a> apontou que quase metade das entrevistadas já foi diagnosticada com algum transtorno mental. Desse grupo, 68% faz acompanhamento médico; 55% afirmou não terem recebido nenhum diagnóstico, contudo, entre aquelas que responderam afirmativamente, ansiedade (35%), depressão (17%) e síndrome do pânico (7%) foram os diagnósticos que mais se destacaram.</p>



<p>São mulheres com idades a partir dos 18 anos, de todas as classes e regiões do país, com ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros transtornos. </p>



<p>Voltemos ao Recife, cidade que, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) possuía em 2022 uma população de 1.488.920 habitantes, dos quais 54,9% são mulheres.</p>



<p>Para falar de acesso à saúde mental por mulheres periféricas na cidade é preciso primeiro conhecer qual a estrutura que a cidade dispõe se, em tese, todas as mulheres recifenses, independentemente de cor ou classe, decidissem buscar apoio psicológico no sistema de saúde municipal. </p>



<p>Segundo resposta da prefeitura enviada no dia 12 de janeiro de 2025 à solicitação via Lei de Acesso à Informação (LAI), há 20 psicólogos com carga de 40 horas semanais vinculados às equipes multiprofissionais (eMulti) dos oito distritos sanitários do município. Cada eMulti dá suporte a até nove equipes de Saúde da Família, realizando atendimentos diretos à população. </p>



<p>Para mulheres em situação de violência, o Instituto Clarice Lispector, programa ligado à Secretaria da Mulher de Recife, disponibiliza oito psicólogas. Na mesma resposta via LAI, a secretaria de Saúde informou que há <a href="https://www2.recife.pe.gov.br/servico/servicos-de-saude-mental-caps">18 Centros de Atenção Psicossocial (Caps)</a> em funcionamento que se dividem em serviços voltados para a população infanto-juvenil, pessoas que realizam uso complexo de substâncias psicoativas e pessoas com transtornos em geral. </p>



<p>Fora isso, há psicológos em um Serviço Integrado de Saúde Mental, um Centro de Convivência, três Unidades de Acolhimento e em 50 Serviços Residenciais Terapêuticos, mais comumente conhecidas como residências terapêuticas. Também é possível ter acesso a atendimento psicológico nos serviços de média<br>complexidade &#8211; atendimento ambulatorial nas policlínicas &#8211; e de emergência.</p>



<p>A prefeitura acrescentou que há disponibilidade de equipamentos da Academia da Cidade para auxiliar em processos terapêuticos: &#8220;os Polos de Academia da Cidade, entre outros dispositivos que auxiliam no tratamento de ansiedade e/ou depressão. A unidade a qual o usuário será direcionado, dependerá da análise realizada pela equipe de saúde da família&#8221;, diz a resposta da gestão municipal de saúde.</p>



<p>Essa estrutura, no entanto, não bastou para garantir o acesso a Elizabeth Santos &#8211; e das outras mulheres que entrevistamos nas comunidades periféricas do Recife &#8211; a atendimento psicológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O impacto da pandemia</h2>



<p>Ceça Costa, doutora em psicologia clínica e integrante do Ilê Psi, um consultório formado majoritariamente por psicólogas negras que compreendem o racismo como um fator de sofrimento psíquico enfatiza que o serviço de atendimento psicológico para qualquer cidadão é uma tarefa do poder público e alguém precisa mostrar como fazer: “existe sim a possibilidade de ajudar, isso é uma tarefa do serviço público e alguém precisa dizer a ele como fazer. Eu não acredito em salvação fora do SUS. Nós fazemos uma clínica de atendimento psicológico aqui fora do SUS, porque o SUS não tem”.</p>



<p>A falta de assistência especializada pode agravar a saúde mental de mulheres periféricas. A partir da pandemia de covid-19, por exemplo, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O resumo do relatório da OMS apontou que o impacto da covid-19 na saúde mental atingiu principalmente as mulheres. E, após a pandemia, é perceptível notar um número elevado de mulheres lidando com quadros de depressão e/ou ansiedade.</p>



<p>“A pandemia mostrou isso para gente, mas a pandemia foi só um sinal, foi aquele apito da panela de pressão que botou para fora a pressão, mas as mulheres já adoecem há muito tempo e continuam adoecendo. Quando elas são atendidas, elas são medicalizadas. A medicalização esconde a dor e deixa essas mulheres mais quietas. Então a medicalização não é a saída para saúde mental. É só um apoio quando precisa. E as mulheres? Porque elas estão adoecendo, porque elas estão perdendo os filhos. A grande maioria já não tem marido, porque é mãe solo, é mãe solteira”, relata a psicóloga.</p>



<p>Quando o assunto é mortes por problemas de saúde mental, o Ministério da Saúde, através do <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf/view">Boletim Epidemiológico v.55 nº4</a>, aponta que “experiências de vida estressantes – como a morte de entes queridos, diagnóstico de doenças graves, divórcio, violência doméstica, desemprego, adversidades financeiras ou migração forçada – não apenas aumentam o risco, mas também podem servir como gatilhos para o ato suicida”. </p>



<p>No Brasil, as mortes autoprovocadas, segundo o último levantamento realizado em 2021, ocupam a 27ª posição no número de óbitos do país, sendo a 3ª maior causa das mortes da população jovem, com 1 suicídio a cada 34 minutos. As mulheres ocupam 25% desse grupo e Pernambuco, nesse mesmo relatório, está na 6ª posição quando se trata do aumento dessa taxa entre 2010 e 2021, que foi de 67% no número de mortes por suicídio.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400;">A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que para cada suícidio existe uma média de 20 tentativas e para cada tentativa com sucesso, uma média de 6 pessoas próximas são diagnosticadas com depressão, ansiedade entre outros transtornos. Ainda, para o Ministério da Saúde “até 90% das pessoas que cometeram suicídio apresentavam algum transtorno mental antes do ato, sendo a depressão o transtorno mais frequente. Desse modo, o suicídio também pode ser compreendido como um indicador do bem-estar psicossocial de uma população”.</span></p>
	</div>



<p>Abaixo, você conhecerá algumas mulheres com quem eu tive a oportunidade de dialogar e de conhecer. Confira trechos que exibem uma realidade silenciosa, camuflada no estereótipo de guerreira, silenciada pela falta de atendimento psicológico.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Lindalva: um enorme acúmulo de “tristeza” na rua Chã de Alegria</h3>



<p>Há relacionamentos que adoecem.</p>



<p>— Não, eu não vou comemorar.</p>



<p>— Mas, por que, Dona Lindalva? &#8211; Disse eu, curiosa e inquieta.</p>



<p>Era 1 de fevereiro de 2025 e eu havia acabado de lhe informar que no dia seguinte seria o meu aniversário. Ela vibrou, me deu os parabéns e perguntou se teria festa em minha casa. Eu disse que não, nada com muita purpurina, mas minha família e alguns amigos de infância nunca deixam essa data sem nenhum estardalhaço.</p>



<p>O cheiro na calçada estava relativamente suportável. O dia havia sido ensolarado, o amontoado de tecidos apodrecidos onde ela dorme com Moisés não recebeu contato com a água. Cheguei por volta das 19h, armei o meu banquinho de improviso e sentei de frente para ela, para uma conversa olho no olho.</p>



<p>Mais de 20 dias após essa nossa última conversa, Dona Lindalva continua com a mesma roupa, Moisés, também. A casa, do mesmo jeitinho, com cada coisinha no lugar, as plantas da rua Chã de Alegria também não se arredaram, pelo contrário, criaram raízes e fortaleceram-se. O tempo as deixou mais bonitas, ele faz as flores germinarem a cada estação. É um subúrbio do Recife, um bairro da periferia da zona norte, a Bomba do Hemetério, vizinho ao Morro da Conceição.</p>



<p>A Bomba do Hemetério possui 8.472 habitantes, desse número, 54% da população é composta por mulheres. No quesito negritude, o bairro é 68,56% feito de negras e negros.</p>



<p>Lindalva é uma negra retinta que afirma possuir 56 anos, mas, a profissional do Consultório na Rua me informou que sua idade é 60. Eu poderia tirar essa dúvida pedindo a mesma para ver seus documentos, contudo, o medo de me tornar invasiva e perder a glória da conversa fez desse detalhe, para aquele momento, algo irrelevante. Ainda que Lindalva tenha mais idade, sua dignidade foi esquecida. E ainda que ela tenha menos, seu direito de envelhecer, também.</p>



<p>De todo modo, ao colocar o endereço de sua grande casa no <em>Google Street View</em>, tenho imagens de 2011 até agora. É que, pelo menos de dois em dois anos, o carrinho invasivo da <em>big tech</em>, passa nas ruas das cidades do país, registra fotos inusitadas, borra os rostos das pessoas e disponibiliza para o mundo. Às vezes há brechas para a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), e quem se sente invadido, pode ganhar uma grana.</p>



<p>De dor em dor, um acúmulo de objetos foi tomando o espaço. As cortinas registradas pelo <em>street view</em> se transformaram em farrapos e o enorme casarão foi engolido pelo lixo, pelos trapos, plantas mortas, resto de comidas, ratazanas, geladeira de inox comprada na loja, dinheiro velho, roupas, máquina de costura, garrafas e muita tristeza. Um espaço de menos de um metro entre a grade e a casa sobrou para mãe e filho que quando chega a madrugada, se deitam um de frente para o outro, com as cabeças para lados opostos.</p>



<p>— Tudo na infância é bom, tudo na adolescência é bom, mas quando vai chegando a velhice a gente já vai ficando mais envergonhada, mais quietinha no cantinho, né?</p>



<p>— É mesmo? A senhora se divertia muito na juventude?</p>



<p>— Ah… eu era uma negra muito fogosa. Sambava, ia pro Carnaval, dançava muito e desfilava por aí. Depois casei e a gente se tornou evangélico. Ele sempre quis ser pai, mas eu demorei pra engravidar. Só cedi a vontade dele depois de 6 anos de casada. Quando engravidei já tinha 36, e o menino nasceu com hidrocefalia. Pronto, esse foi o fim do meu casamento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Dona Lindalva mora na Bomba do Hemetério com seu filho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Martihene Oliveira/Sargento Perifa</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Os dados da <em>Esgotadas</em> informam que poucas amizades (25%), solidão (24%), árdua jornada de cuidado ou trabalho doméstico (20%), falta de parceria do companheiro(a) (19%), problemas amorosos e conjugais (17%), responsabilidades com filhos (16%) e falta de rede de apoio (16%) são as maiores causadoras de depressão e ansiedade. Nesse aspecto, Dona Lindalva crava em todas as etapas.</p>



<p>Em novembro de 2024, quando comecei a preparar a reportagem, eu não sabia o nome e nem muito sobre ela. Depois de algumas pistas do Sr. Google e de comentários sobre a mesma na comunidade, o interesse foi ficando mais latente. Dona Lindalva, sem dúvidas, é a mulher da história de bell hooks, a síntese em carne e osso da solidão da mulher negra. Aquela que cuida de todos, que embeleza a rua, que já teve o corpo desejado e que sambava como ninguém. A que foi arrasada pelo amor e foi adoecendo aos poucos, diante dos olhos da sociedade, dos vizinhos que hoje não suportam o seu cheiro, dos pais, professores e alunos que entram e saem da escola Mardônio Coelho e do posto de saúde Dr. Luiz Wilson.</p>



<p>— Eu não gosto de comemorar aniversários, eles me trazem muitas lembranças. Lembram casa cheia, comemorações, gente reunida em volta da mesa… lembram o amor de um casamento.</p>



<p>Um silêncio tomou conta do espaço e seu olhar foi ficando distante.</p>



<p>Quando comentei à psicóloga Ceça Costa sobre esse diálogo, ela respirou fundo e comentou &#8220;a gente pensa: então tem que atender todo mundo, porque o SUS é universal, perfeito. Mas a gente tem a equidade, que é tratar diferente quem tem necessidade diferente. Isso tá na lei, tá no papel, mas não tá na prática. O posto de saúde falha porque ele não entende que dona Lindalva precisa que o posto vá até ela e fale com dona Lindalva como você foi, sente com ela, escute dona Lindalva. Porque a dona Lindalva tem muito para falar. O silêncio dela é denunciador”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Camila: a perda de um filho e o desencanto do viver</h3>



<p>Quando uma mãe perde um filho negro assassinado, ela perde duas ou três vezes. Perde fisicamente, moralmente e emocionalmente também.</p>



<p>“Ela ficou assim após a perda de Richard. Não tinha nada a ver com drogas. Ele morreu assassinado porque se envolveu com uma mulher casada”, afirmou Carolina Félix, 32, irmã de Camila Félix, 34, morta em outubro de 2024.</p>



<p>— Esse miojo, partido no meio é a sopinha que guardei para Camille e Mateus. Daqui a pouco ele vai acordar e vai se alimentar &#8211; Disse Camila.</p>



<p>— E depois?</p>



<p>— Depois a gente vê. Aqui não tem nada, só um pouquinho de feijão que meu pai deu, já para eu inteirar amanhã para ver se dá para arrumar um macarrão para fazer comer dos meus filhos. A geladeira tá assim, eu guardo o meu feijão aqui embaixo, ó! Tem nadinha, ó!</p>



<p>Era 28 de outubro de 2022, havia cinco meses que as chuvas no Recife ceifaram mais de 149 vidas e em uma visita do Coletivo Sargento Perifa à residência de Camila Félix, a conversa se resumiu à falta de comida para ela e os filhos. Mesmo que sua casa estivesse a quase um metro de distância de um precipício, a lona que cobria a barreira estivesse rasgada e o luto pelas perdas na região metropolitana do Recife ainda nos assombrasse.</p>



<p>Claro que isso tudo foi uma tragédia anunciada, e a morte de Camila, 1 ano após esse depoimento, também. Embora não fosse pelas chuvas, a morte dela seria só mais um caso, caso costumeiro na favela. Não só por causa do miojo partido, da insegurança alimentar, nem porque 15% das famílias da comunidade foram afetadas pelo feminicídio e 83% pela violência de gênero e suas mais variadas nuances.</p>



<p>O caso dela, estaria nas estatísticas do Censo do <a href="https://coletivosargentoperifa.com/">Coletivo de Mídia Independente Sargento Perifa</a>, no percentual de 32% que corresponde a 99 famílias do Córrego do Sargento que perderam pessoas para a violência urbana, não que ela fosse a vítima direta, nesse caso, seu filho, Richard, 15 anos, foi o preto assassinado. A morte dela foi ocasionada pela dor da perda, dor esta que lhe deu desânimo para caminhar 6 km e ir até o Córrego da Jaqueira, no mesmo bairro, ser atendida pelo posto de saúde e descobrir o diagnóstico que ceifou sua vida em tempo precoce.</p>



<p>Quando o assunto é fatalidades, <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">mortes de entes queridos são responsáveis por 45% do adoecimento mental de mulheres</a>, mas Camila, além da perda do filho, também foi atravessada pelo racismo e suas mais variadas nuances, que ocasiona a negligência do Estado em fornecer o básico para uma comunidade periférica onde negros, para estatísticas boas ou ruins estão sempre no topo das notícias.</p>



<p>A comunidade do Córrego do Sargento está localizada em Linha do Tiro, bairro de quase 15 mil habitantes situado na zona norte do Recife, composto 70,37% de negras e negros e 52,8% de mulheres. Desse grupo, 372 famílias residem no Córrego do Sargento. Em outubro de 2024, o Censo do Sargento Perifa entrevistou 306 representantes de famílias da comunidade. Perguntados sobre acesso ao posto de saúde, um total de 169 (64,4%) famílias afirmou não ter. Além disso, moradores consideram que a comunidade não possui área de lazer (90,2%), nem cultura (73,5%), nem creche (39,9%). Também não há escola nem parque, apenas uma igreja evangélica, a sede do Coletivo Sargento Perifa e uma praça criada pelos próprios moradores.</p>



<p>Tudo é fora do Córrego do Sargento e se para o atendimento básico de saúde, as pessoas precisam caminhar quase dois quilômetros até o Córrego da Jaqueira, Unidade de Saúde da Família disponibilizada para atender também a essa comunidade no bairro, quando o assunto é atendimento psicológico, a assistência é zero.</p>



<p>“Eu nunca vou entender isso. Ela estava com um caroço enorme no pescoço, mas o caixão veio fechado. A declaração foi de tuberculose. Eu tanto que falava: ‘Camila, vamos ao médico para ver isso?’. E ela não tinha ânimo pra nada. Para mim ela se entregou”, relata Carolina.</p>



<p>Camila faleceu no Hospital Otávio de Freitas, depois que se deitou no chão da emergência e gritava pedindo que lhe dessem ao menos soro, porque não conseguia se alimentar.</p>



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</p>
	                
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                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Madalena: o câncer, a solidão e o medo</h3>



<p>Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Recife, 10 de maio de 2024, 12h33:</p>



<p>— Comecei. [choro]</p>



<p>— Tá chorando?</p>



<p>— Tô</p>



<p>— Oxe, vai dar tudo certo, menina. Deus está no controle. Calma!</p>



<p>— Tá.</p>



<p>— Doi?</p>



<p>— Só uns beliscões na mão, mas a dor é mais pelo medo do que pelo procedimento de agora.</p>



<p>Enquanto escuto os bips da máquina da quimioterapia, Madalena chora. Sozinha, enrolada em sua colcha piel de pato, com meia nos pés para conter o frio e com o braço esquerdo, onde recebe o remédio, totalmente coberto. Estamos separadas por uma parede, mas conectadas via <em>WhatsApp</em>.</p>



<p>A conversa marca sua primeira vez na sala de tratamento e no seu caso, as sessões são infinitas. Algo paliativo, que não vai permitir que lhe caiam os cabelos, mas vai descamar sua pele, lhe gerar enjoos perturbadores, dores intensas nos pés e nas pernas e um desmaio em casa, dois dias após essa conversa, na frente de sua mãe e filha, que posteriormente vão gritar desesperadas pensando que ela terá morrido.</p>



<p>Madalena Oliveira, 36, é moradora do município de Abreu e Lima, cidade da Região Metropolitana do Recife, com 98.462 habitantes, dos quais 51.508 são mulheres. Negra, mãe solo e principal provedora de seu lar, em março de 2024 foi diagnosticada com um câncer no reto, que passou para o intestino, depois para o baço e pulmão e também tomou conta de sua região pélvica. O quadro metastático lhe gera insônia e angústia. A vaidade briga com sua aparência que agora, em março de 2025, depois da cirurgia no intestino, lhe afastou da quimioterapia por dois meses e lhe devolveu alguns quilos a mais. De “brinde”, uma bolsa de colostomia vai lhe acompanhar até seu último dia de vida.</p>



<p>A quimioterapia lhe formiga o braço e lhe dá vontade de morrer, causa isolamento e o desejo de se esconder. De 21 em 21 dias, após cada procedimento, sendo 7 dias sem comer e nem beber água. Durante esse período, abastecida apenas por soro, quando a dor nos pés e pernas ficam insuportáveis, a morfina é sua maior aliada.</p>



<p>Madalena é o retrato de 50,5% das mulheres com câncer no país, conforme a pesquisa realizada em 2023, pela <a href="https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/download/3700/2644/26217">Revista Brasileira de Cancerologia</a>. O câncer de cólon e reto é o segundo mais frequente (9,7%) no grupo, perdendo apenas para o câncer de mama feminina(30,1%).</p>



<p>O diagnóstico de Madalena também ilustra outra realidade no Brasil, de que doenças físicas como o câncer, provocam transtornos mentais aos pacientes, segundo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">o Instituto Think Olga</a>. Apesar disso, o posto de saúde no município de Abreu e Lima, onde Madalena é atendida, desde novembro de 2024, a mantém na fila de espera, para atendimento psicológico, sem nenhuma previsão de agendamento.</p>



<p>“Acredito que minha saúde mental nunca mais foi a mesma e nunca será. É muito difícil encontrar profissionais de saúde na área de psicologia, pois pelo SUS demora meses para você conseguir agendar uma consulta. Só fui atendida uma vez e depois disso, nunca mais. Minha experiência em relação a essa única consulta: no início eu ficava me perguntando sobre o motivo de estar ali e o que isso iria mudar na minha vida. Para mim, nada, pois não mudaria meu diagnóstico e muito menos me traria a cura. Mas depois que conversei me senti muito aliviada, foi como se eu tivesse tirado um peso enorme de cima de mim”, narra Madalena.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><i><span style="font-weight: 400;"><strong>*</strong>Reportagem produzida a partir do edital Vozes de Impacto: Jornalismo investigativo sobre direitos humanos e democracia, promovido pela</span></i><a href="https://fiquemsabendo.com.br/"> <i><span style="font-weight: 400;">Fiquem Sabendo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> em parceria com a</span></i><a href="https://www.gov.uk/world/organisations/british-embassy-brazil.pt"> <i><span style="font-weight: 400;">Embaixada Britânica</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil.</span></i></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Coordenação Editorial: Maria Vitória Ramos</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Análise de dados: Igor Laltuf</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Revisão textual: Taís Seibt</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Mentoria: Marta Alencar</span></em></p>
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		<title>A íntima relação entre o trabalho precarizado e o sofrimento psíquico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Sep 2024 20:28:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filósofo Mark Fisher abre o livro Realismo Capitalista escrevendo sobre como há na sociedade uma sensação de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa ao capitalismo. Fisher faz uma analogia com uma pessoa depressiva, “que acredita [&#8230;]</p>
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<p id="viewer-jm5td308">O filósofo Mark Fisher abre o livro <em>Realismo Capitalista </em>escrevendo sobre como há na sociedade uma sensação de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa ao capitalismo. Fisher faz uma analogia com uma pessoa depressiva, “que acredita que qualquer estado positivo, qualquer esperança, é uma ilusão perigosa”. </p>



<p id="viewer-jm5td308">E depressão e o capitalismo estão intimamente ligados, afirma o sociólogo Gabriel Peters, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). </p>



<p id="viewer-jm5td308">“A depressão, a ansiedade e o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) possuem fontes sistêmicas, coletivas e estruturais. A lógica da sociedade contemporânea – e do capitalismo tardio, em particular – produz montantes muito significativos de sofrimento e essas experiências de sofrimento socialmente determinadas precisam ser explicadas pela sociologia também”, disse em entrevista durante o <em>I Seminário Mundos do Trabalho: da precarização laboral ao adoecimento mental</em>, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e os grupos de pesquisa Labor (UFRPE) e Gesto (UFPE).</p>



<p id="viewer-5efgw321">No seminário, Peters citou o livro <em>Fatigue d&#8217;être soi </em>(<em>A fadiga de ser si mesmo</em>, em tradução livre), do antropólogo francês Alain Ehrenberg, para mostrar como o diagnóstico psiquiátrico da depressão acompanhou as transformações do capitalismo tardio. “Ehrenberg elenca o fato de que hoje um componente fundamental no diagnóstico da depressão tem menos a ver com tristeza e mal-estar e mais a ver com aqueles sintomas relacionados à inação, letargia, incapacidade de funcionar”, afirmou Gabriel Peters.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/66535fd9-7008-41b0-a37c-b84858b5d95f.jpeg" alt="A imagem mostra um ambiente interno com um homem maduro em pé em frente a uma parede. Ele é pardo, com cabelos escuros levemente cacheados, barba e bigode com alguns fios grisalhos. A parede é parcialmente revestida com azulejos brancos até aproximadamente a metade da altura. Acima dos azulejos, há uma linha decorativa cor marrom e bege com grafismos. O homem está vestindo uma camiseta preta simples e parece estar em uma posição casual, rindo para a câmera. Atrás da pessoa, à esquerda da imagem, há uma planta em vaso verde, que adiciona um elemento natural ao ambiente, que é de outra forma simples." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Gabriel Peters estabelece a relação entre a depressão e as formas contemporâneas do trabalho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação MCS</span>
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<p id="viewer-fxhbn328">Para o professor, autor do livro <em>Ordem social como problema psíquico: do existencialismo sociológico à epistemologia insana,</em> não surpreende que a depressão se torne um problema de saúde pública para a Organização Mundial da Saúde (OMS) justamente quando se torna a principal causa de incapacitação para o trabalho. Segundo a OMS, em 2019, quase um bilhão de pessoas viviam com algum transtorno mental.</p>



<p id="viewer-gf16a333">“Também não surpreende que boa parte do tratamento clínico da depressão – tanto psicoterapêutico quanto medicamentoso – seja menos voltado para restituir a felicidade ao indivíduo que se tornou infeliz e mais voltado a refuncionalizar esse indivíduo, torná-lo mais uma vez capaz de trabalhar, de interagir socialmente”, afirmou Peters, completando que “essa geração mais nova de antidepressivos são menos pílulas da felicidade e mais pílulas da atividade, para tornar o indivíduo mais uma vez capaz de operar no mundo”.</p>



<p id="viewer-727h4336">Não é apenas com remédios, já que há uma multiplicidade de dispositivos pelos quais os trabalhadores tentam corresponder às exigências do capitalismo. “Por exemplo, quando eu tomo café para combater a sonolência numa reunião de trabalho, eu estou usando um dispositivo neuroquímico; quando eu uso um aplicativo de meditação para relaxar ou para administrar meu tempo eu estou me valendo de um dispositivo tecnológico”, elencou.</p>



<p id="viewer-9qfs4339">Ao mesmo tempo que exige um indivíduo com foco para trabalhar ou estudar por longas jornadas, o mesmo sistema oferece um ambiente repleto de distrações que foram criadas para viciar. “Existe uma expertise em psicologia do vício que foi deliberadamente utilizada no Spotify, no Instagram, no TikTok e em várias outras plataformas para deixar o indivíduo ligado à máquina. Entram também as soluções medicamentosas, que servem tanto para combater transtornos como para otimização do desempenho. A ritalina pode ser prescrita para uma criança por um psiquiatra a partir de um diagnóstico de TDAH, mas pode ser tomada por uma acadêmica que quer virar à noite escrevendo”, exemplifica.</p>



<div class="wp-block-media-text has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:auto 22%"><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Essa miríade de estímulos do capitalismo rege não só o trabalho, mas também o lazer. Peters cita o livro <em>24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono,</em> do crítico cultural estadunidense Jonathan Cary, para mostrar que o sono é o único período do dia em que nós somos inúteis ao capitalismo, tanto como produtores quanto como consumidores. “Se eu não estou trabalhando, mas estou acessando o Instagram ou assistindo a um seriado na Netflix, continuo sendo útil ao capitalismo.</p>
</div><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="474" height="717" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/livro-1-247.jpeg" alt="" class="wp-image-65904 size-full"/></figure></div>



<p id="viewer-ckpke342"> É só no momento em que durmo, que mergulho na inconsciência, que eu me torno completamente inútil. O capitalismo tenta alvejar esse período de inutilidade do indivíduo por diversas maneiras, inclusive a via neuroquímica”, disse.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="viewer-ma3j0348">Ansiedade e precarização do trabalho</h2>



<p id="viewer-c46pq351">A precarização imposta aos trabalhadores também tem um componente importante quando se fala de sofrimento psíquico: a ansiedade. Para Peters, tem a ver, sobretudo, com as incertezas em relação ao futuro. “A precarização significa instabilidade no trabalho, incerteza em relação à renda que vai ser retirada do trabalho. Isso por si só já é uma maneira de forçar as pessoas à autoexploração”, enfatizou.</p>



<p id="viewer-406o6354">Peters também critica o discurso do empreendedorismo que tenta refrasear perdas de garantias trabalhistas e perdas de proteção social dos trabalhadores como supostas virtudes. “Em vez de falar da falta de direitos, esse discurso vai elogiar a flexibilidade e a suposta autonomia que se tem para construir o seu próprio horário. Até mesmo vai elogiar a aventura e o risco, que são maneiras, digamos, de dar um componente heroico ao que é uma instabilidade, uma precarização. E, mais uma vez, esse discurso pode penetrar na própria subjetividade dos trabalhadores”.</p>



<p id="viewer-whcfv357">Ele explica que no trabalho contemporâneo existem certas coações para que o trabalhador mantenha, pelo menos, a máscara da <em>persona</em> de empreendedor. “Parte desse trabalho contemporâneo precarizado envolve você vender não só suas competências, mas toda uma personalidade para o mercado. Então, o motorista da Uber é avaliado pelo bom humor, pela gentileza, etc. Todo o discurso gerencial sobre recursos humanos envolve essa ideia, por exemplo, de que você tem que vestir a camisa da empresa, de que você não pode reclamar”, disse.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Em vez de falar da falta de direitos, se elogia a flexibilidade e a suposta autonomia que se tem para construir o seu próprio horário&#8221;</p>
</div>


<p id="viewer-l3t3n362">É uma forma também de despolitizar o trabalho. “Muitas vezes o trabalhador sofre, mas não encontra um espaço para veicular esse sofrimento. Uma pessoa que vai escrever no LinkedIn sobre a última experiência que teve numa empresa, vai escrever sobre o chefe que a demitiu, só que, na medida em que ela tem a intenção de ser contratada por uma outra empresa, provavelmente ela vai construir uma narrativa rósea do que viveu, vai dizer que aprendeu muito e vai deixar de lado toda espécie de sofrimento que ela pode ter vivenciado até o ponto da demissão”.</p>



<p id="viewer-a6otk365">Para Peters, o indivíduo em depressão se assemelha a um empreendedor colapsado. “O elemento da atividade foi substituído pela inatividade radical e esse é um ponto claro em que o diagnóstico de depressão se encontra com o <em>burnout.</em> É interessante que quando o filósofo Byung-Chul escreve <em>Sociedade do Cansaço</em>, nesse ‘cansaço’ do título está tanto o <em>burnout </em>quanto a depressão”.</p>



<p id="viewer-edllt374">A epidemia de depressão verificada pela OMS é um “alarme civilizacional”, diz Peters, porque o capitalismo exige demais dos corpos dos indivíduos, até o ponto do colapso. “Assim como o desenvolvimento tecnológico não pode continuar sem destruir o próprio ecossistema da Terra, é como se o capitalismo, e esse modelo de subjetividade capitalista, não pudesse continuar funcionando sem deixar de gerar esse montante de milhões e milhões de indivíduos que colapsam no sofrimento depressivo”, afirma.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-ss9ax377">Um trabalho com propósito</h3>



<p id="viewer-2he2k380">Se o sofrimento psíquico também tem fontes sociais, estruturais e sistêmicas, o combate a esse sofrimento também passa por ações coletivas e políticas. Peters defende a existência de políticas públicas para construir condições de trabalho que protejam a saúde mental dos trabalhadores. “Essa pandemia de depressão não é só um agregado de sofrimentos individuais: o sistema capitalista está exigindo demais dos indivíduos. Não é, obviamente, negar a importância do tratamento individual, da psicologia clínica, até mesmo da psiquiatria, mas é dizer que esse tratamento individualizado é insuficiente”, afirma.</p>



<p>“Se você está numa sociedade adoecedora, a única coisa que um tratamento individual vai poder fazer é tentar garantir sua adaptação maior ou menor a essa sociedade adoecedora sem combater as causas sistêmicas desse adoecimento”, pondera, completando que há múltiplas maneiras de fazer esse combate.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:24% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="707" height="1000" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/livro-2-a-ordem-1.jpg" alt="" class="wp-image-65914 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Uma delas é combinar, por exemplo, o trabalho com a partilha do sofrimento com outros trabalhadores e estudantes. “Na vida acadêmica isso é extremamente comum. Somos meio que coagidos para nos apresentarmos uns aos outros como intelectos puros e não como essas criaturas de carne e vísceras que sofrem de insônia, ansiedade, etc. Simplesmente partilhar essas vulnerabilidades em vez de vestir essa máscara da invulnerabilidade, já é um início importante”, acredita.</p>
</div></div>



<p id="viewer-tibdn386">Para o trabalho não só deixar de ser um fator de adoecimento, mas também ser uma fonte de prazer, Peters afirma que a ideia de um trabalho significativo tem de ser reconstruída. “Alguns considerariam utópica, mas acredito em um sistema social que pudesse desvincular, pelo menos em alguma medida, renda e emprego”, diz.</p>



<p id="viewer-m1ib3394">A ideia de renda básica universal, por exemplo, é uma maneira de fazer isso. “Responde ao desemprego como um problema sistêmico e recupera o trabalho como uma atividade significativa. Nesse mundo, o trabalho fundamental da vida da pessoa não é necessariamente o que dá a ela o ganha-pão, mas é o que dá a ela o senso de propósito, seja engajamento comunitário, seja envolvimento artístico e assim por diante.</p>



<p id="viewer-haltv396">O trabalho nunca é só, ou pelo menos nunca deveria ser, o ganha-pão. Se ele é só o ganha-pão, acaba tendo efeitos psicológicos degradantes para o indivíduo”, conclui.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Texto publicado em parceria com a <a href="https://www.coletiva.org/">Revista Coletiva</a>, plataforma de divulgação científica e cultural da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj)</p>
    </div>
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