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	<title>Arquivos desertificação - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<link>https://marcozero.org/tag/desertificacao/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 11 Apr 2024 17:28:05 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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	<title>Arquivos desertificação - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>Uma jornada por terras desérticas</title>
		<link>https://marcozero.org/uma-jornada-por-terras-deserticas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2024 14:34:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[caatinga]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[Seridó]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todo o conteúdo da série “Os Desertos do Sertão”, realizada pela Marco Zero Conteúdo com apoio do projeto Report For The World e da Fundação Henrich Böll, está disponível em nosso site. Ao todo, foram publicadas sete reportagens sobre o avanço do processo de desertificação no Nordeste brasileiro e aqui você pode conferir o resumo [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/uma-jornada-por-terras-deserticas/">Uma jornada por terras desérticas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todo o conteúdo da série “Os Desertos do Sertão”, realizada pela Marco Zero Conteúdo com apoio do projeto <a href="https://reportfortheworld.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Report For The World</a> e da <a href="https://br.boell.org/pt-br" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fundação Henrich Böll</a>, está disponível em nosso site. Ao todo, foram publicadas sete reportagens sobre o avanço do processo de desertificação no Nordeste brasileiro e aqui você pode conferir o resumo de cada uma delas.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Os Desertos do Sertão</strong></li>
</ul>



<p>Na reportagem de abertura contamos como um projeto financiado pelo próprio Governo Federal foi responsável por degradar as terras de agricultores do Médio São Francisco, tornando-as improdutivas. Também contextualizamos e atualizamos os dados sobre as áreas áridas e semiáridas no Brasil.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/os-desertos-do-sertao/" class="titulo">Os desertos do sertão</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí</strong></li>
</ul>



<p>Durante a nossa apuração encontramos o que parecia ser um milagre: um deserto produtivo com plantações de milho, feijão, hortaliças e tantos outros alimentos. Nesta reportagem você pode conhecer a singularidade da paisagem do deserto de Gilbués e entender como os agricultores da região conseguiram tornar produtiva uma terra antes sem valor nenhum.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/gilbues-o-deserto-vermelho-e-produtivo-do-piaui/" class="titulo">Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Lagoa seca e rio sem leito: os sinais da desertificação acelerada</strong></li>
</ul>



<p>Na terceira reportagem trazemos uma contextualização de como o processo de desertificação tem se intensificado nas últimas décadas em Pernambuco e na Bahia. Grandes áreas secas e com terras degradadas e lagoas que secaram completamente refletem os efeitos das mudanças climáticas nas regiões.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/lagoa-seca-e-rio-sem-leito-os-sinais-da-desertificacao-acelerada/" class="titulo">Lagoa seca e rio sem leito: os sinais da desertificação acelerada</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Um “caçador de água” nas terras áridas do norte da Bahia</strong></li>
</ul>



<p>Nesta reportagem você pode conhecer a história de Manoel Batista, mais conhecido Seu Né, um verdadeiro “bruxo” do sertão nordestino. Ele teria o dom da radiestesia, a suposta habilidade de perceber o campo eletromagnético dos depósitos subterrâneos de água, e por isso é responsável por indicar o local certo onde escavar os poços e garantir água.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-cacador-de-agua-nas-terras-aridas-do-norte-da-bahia/" class="titulo">Um &#8220;caçador de água&#8221; nas terras áridas do norte da Bahia</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Seridó desmatado</strong></li>
</ul>



<p>No sertão do Rio Grande do Norte, o agricultor Francisco das Chagas, que antes desmatava suas terras para produzir lenha, se reeducou graças ao incentivo de seus filhos e passou a preservar o solo, além de iniciar um projeto de plantio da caatinga. Nesta reportagem, mostramos a importância das ações de preservação do Seridó, como as realizadas por Chagas.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/serido-desmatado/" class="titulo">Seridó desmatado</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Ele tem um sonho: reflorestar a caatinga</strong></li>
</ul>



<p>No Seridó potiguar, o geógrafo e professor Josimar Araújo de Medeiros é responsável por formar voluntários para plantar faveleiras na caatinga. Com a falta de políticas públicas e sem nenhum incentivo financeiro, o professor tem o sonho de realizar o reflorestamento de terras desmatadas e degradadas. Nesta reportagem, você pode conhecer mais sobre o projeto.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/ele-tem-um-sonho-reflorestar-a-caatinga/" class="titulo">Ele tem um sonho: reflorestar a caatinga</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Falta orçamento para conter a desertificação</strong></li>
</ul>



<p>Em entrevista à Marco Zero, o diretor do Departamento de Combate à Desertificação, Alexandre Pires, falou sobre o Plano Nacional de Combate à Desertificação e os desafios encontrados para efetivar as ações previstas pelo setor, sendo a falta de orçamento o maior deles. Na reportagem que finaliza a série, você pode saber mais sobre o plano do Governo Federal.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/falta-orcamento-para-conter-a-desertificacao/" class="titulo">Falta orçamento para conter a desertificação</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Falta orçamento para conter a desertificação</title>
		<link>https://marcozero.org/falta-orcamento-para-conter-a-desertificacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Apr 2024 15:14:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[aridez]]></category>
		<category><![CDATA[COP-30]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[mudança climática]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Até o final de 2022, Alexandre Pires era coordenador da Articulação do Semiárido (ASA), a rede de mais de três mil ONGs, associações e sindicatos que construíram mais de 1 milhão de cisternas em pequenas propriedades da agricultura familiar. Sua experiência na região levou a ministra Marina Silva a convidá-lo para dirigir o departamento de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Até o final de 2022, Alexandre Pires era coordenador da Articulação do Semiárido (ASA), a rede de mais de três mil ONGs, associações e sindicatos que construíram mais de 1 milhão de cisternas em pequenas propriedades da agricultura familiar. Sua experiência na região levou a ministra Marina Silva a convidá-lo para dirigir o departamento de combate à desertificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA).</p>



<p>No final de fevereiro ele concluiu uma das tarefas prioritárias de sua diretoria para o primeiro semestre de 2024: a redação do decreto que recriou a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, que, até o início deste, só existia no papel, baseada em uma <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Dnn/Dnn11701.htm">legislação de 2008</a>, época em que as mudanças climáticas eram vistas como uma possibilidade no futuro.</p>



<p>Segundo Pires, a Comissão só funcionou até 2016, pois no ano anterior foi promulgada a lei que criou a política nacional de combate à desertificação. Após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, os governos seguintes não adequaram a comissão à nova realidade.</p>



<p>“A comissão será paritária entre sociedade civil e governo, com representantes de ministérios, do Instituto Nacional do Semiárido, da Codesvasf, da Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] e de organizações da sociedade civil que atuem nas regiões susceptíveis à desertificação”, explicou Pires. No final de fevereiro, o presidente <a href="https://in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-11.932-de-27-de-fevereiro-de-2024-545333246">Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto</a> com a nova composição Comissão.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Alexandre-Pires.jpg" alt="Foto de Alexandre Pires segurando um microfone e um papel com texto escrito, em frente a um grupo de pessoas sentadas. Ele é um homem branco, de barba bem cuidada e cabelos escuros curtos, usando óculos de aro preto. O ambiente parece ser uma sala de aula ou espaço de reunião com pôsteres nas paredes. As pessoas estão sentadas em cadeiras dispostas em filas, aparentemente ouvindo a fala de Pires. Há uma atmosfera de engajamento político ou educacional." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Alexandre Pires, do MMA, confirmou recriação da Comissão Nacional de Combate à Desertificação.</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>De acordo com o decreto, a comissão continuará sendo presidida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e “terá a participação de outras 11 pastas do governo federal, além de instituições, agências, bancos de desenvolvimento e entidades civis dos estados com áreas susceptíveis à desertificação”. Ao todo, serão 42 membros, com respectivos suplentes.</p>



<p>Além da Comissão recriada, Alexandre Pires espera que até o dia 17 de junho, Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação, o Ministério do Meio Ambiente apresente um novo <a href="https://www.gov.br/sudene/pt-br/assuntos/noticias/combate-a-desertificacao-e-efeitos-da-seca-tera-novo-instrumento-para-tratar-acoes-em-escala-federal">Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação</a>. “Estamos atrasados, admito, mas estou otimista. A última atualização desse plano ocorreu em 2004. Assim, será possível voltar a captar recursos no exterior”, acredita.</p>



<p>O maior desafio da diretoria conduzida por Pires não é, no entanto, de natureza jurídica ou burocrática. O problema é dinheiro.</p>



<p>Ele revela o exíguo orçamento sob sua responsabilidade: R$ 5 milhões (pouco mais de US$ 1 milhão) em 2023, valor que se repetirá para todo o ano de 2024. Para efeitos de comparação, cada deputado federal brasileiro tem direito a, sozinho, apresentar R$ 37,8 milhões (US$ 7,7 milhões) em emendas ao orçamento a ser executado pelo governo.</p>



<p><a></a> Sem orçamento, Pires busca alternativas. Ele contou que o Ministério do Meio Ambiente recebeu do governo Bolsonaro apenas R$ 7 milhões em dois fundos &#8211; o Fundo Nacional de Mudanças Climáticas e o Fundo Nacional de Meio Ambiente. Para otimizar os recursos, os técnicos do MMA lançaram um edital conjunto dos dois fundos. “Nós propusemos a criação de uma linha de atividades sobre desertificação, ou seja, para contemplar recursos para projetos focados na desertificação. Foram aprovados sete projetos, dos quais cinco são com essa temática”, explicou. As atividades desses projetos acontecerão no sertão do Pajeú, em Pernambuco, na região do São Francisco, na Bahia, e no Xingó, em Alagoas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Tribunais de Contas confirmam omissão do poder público</span>

	    <p>Em fevereiro deste ano, os tribunais de contas (TCEs) de cinco estados nordestinos &#8211; <span style="color: #333333;">Ceará, </span><span style="color: #333333;">Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e S</span><span style="color: #333333;">ergipe – </span><span style="color: #333333;">concluíram uma <a href="https://tcepe.tc.br/internet/docs/tce/Auditoria-Operacional-Regional_230728_115940.pdf">auditoria conjunta</a> sobre as políticas de combate à desertificação </span><span style="color: #333333;">desenvolvidas pelo poder público</span><span style="color: #333333;">. </span><span style="color: #333333;">A conclusão dos auditores coincide com a de ambientalistas e agricultores da região: a velocidade da degradação aumentou, mas as ações das prefeituras, governos estaduais e do Governo Federal são insuficientes.</span></p>
<p align="left"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #333333;">Um dos resultados da auditoria foi a apresentação de u</span><span style="color: #000000;">ma série de recomendações aos gestores públicos de cada estado. Entre elas a inclusão </span><span style="color: #000000;">do tema na agenda do Consórcio Nordeste </span><span style="color: #000000;">e a implementação das políticas estaduais urgentes sobre o assunto.</span> </span></span></p>
<p align="left"><span style="color: #333333;"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">O relatório aponta que, à exceção do estado do Ceará, nenhum outro governo estadual faz o monitoramento </span></span></span><span style="color: #333333;"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">do avanço da desertificação em seus territórios. De acordo com o meteorologista Humberto Barb</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">osa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">Lapis</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">), da Universidade Federal de Alagoas, isso acontece em razão da omissão da legislação brasileira.</span></span></span></p>
<p align="left"><span style="color: #000000;">“<span style="font-family: Calibri, sans-serif;"><span style="font-size: medium;">A Constituição de 1988 protege a Amazônia, mas não ampliou essa proteção para outros biomas do país, como a caatinga, o pampa, a mata atlântica, ou o cerrado. A lei não exige que se faça esse monitoramento, a exemplo do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) realiza na floresta amazônica”, explicou Barbosa.</span></span></span></p>
    </div>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/os-desertos-do-sertao/" class="titulo">Os desertos do sertão</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do projeto <a href="https://reportfortheworld.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Report For The World</a> e da <a href="https://br.boell.org/pt-br/fundacao-0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fundação Henrich Böll</a></strong></li>
</ul>
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		<title>Ele tem um sonho: reflorestar a caatinga</title>
		<link>https://marcozero.org/ele-tem-um-sonho-reflorestar-a-caatinga/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Apr 2024 11:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[semiárido brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[Seridó]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Especialista em Bioecologia, mestre em Engenharia Sanitária, doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente, pós-doutor em Geografia. O currículo de Josimar Araújo de Medeiros sugere que se trata de um pesquisador ou acadêmico imerso nos corredores de uma universidade, preocupado com a publicação de seu próximo artigo em alguma revista científica ou preparando uma aula magna. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Especialista em Bioecologia, mestre em Engenharia Sanitária, doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente, pós-doutor em Geografia. O currículo de Josimar Araújo de Medeiros sugere que se trata de um pesquisador ou acadêmico imerso nos corredores de uma universidade, preocupado com a publicação de seu próximo artigo em alguma revista científica ou preparando uma aula magna. Nada mais distante da verdade.</p>



<p>Até que tentaram tirá-lo de São José do Seridó, mas ele nunca quis sair desse município do Seridó potiguar com 4.560 habitantes, de acordo com o Censo de 2022. Lá, ele é professor de Geografia da escola estadual e também da rede municipal de ensino. De vez em quando, atende a alguns convites e dá aulas em módulos em pós-graduações de várias universidades pelo país, mas seus horizontes são outros: “minha vida é aqui, trabalhando educação ambiental com as crianças e adolescentes, formando gente disposta a atuar coletivamente pela caatinga, pelo meio ambiente”.</p>



<p>A convivência com estudantes da sua cidade dá a Josimar a dimensão do problema: “minha geração cresceu achando que açudes não secavam. As crianças de hoje estão crescendo achando que os açudes nunca enchem”</p>



<p>Josimar persegue um objetivo que passa longe do mundo acadêmico. Em 1999, ano em que o Brasil sediou a COP-3 da Desertificação, ele começou a colocar em prática uma ideia ambiciosa: reflorestar a caatinga na região. Ele alimenta a esperança de que é possível evitar que o Seridó se transforme em deserto.</p>



<p>“Não há mais processos ecológicos para que a vida volte a brotar. A cada seca, vemos mais juremas e pereiros mortos. E essas plantas são as últimas a morrer, são as mais resistentes à falta d’água. Essa é a nossa realidade, mas que não aparece nas imagens feitas por satélites, só sabe quem vive o cotidiano do semiárido”, afirma Josimar. Essa foi a razão que o leva a mobilizar alunos, ex-alunos e famílias agricultoras como voluntários no reflorestamento do território.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-25-at-16.14.16.jpeg" alt="Foto de algumas faveleiras, árvores jovens e verdes em um terreno árido. As árvores têm troncos finos e estão cobertas de folhas verdes brilhantes, indicando vida apesar das condições do solo. O céu acima é claro e azul sem nuvens visíveis, sugerindo um dia ensolarado. A paisagem ao redor parece seca e desértica, mas as árvores proporcionam um contraste verde vivo." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O uso da favela no reflorestamento aumenta a biodiversidade, explica Josimar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>A opção pela faveleira</strong></h2>



<p>Depois de testar várias espécies de plantas nativas, o geógrafo decidiu pela espinhosa favelereira, também conhecida como favela. E ele detalha os fatores que justificam a escolha:</p>



<p>“Pra começar, o gado só come as folhas da faveleira quando elas caem no chão, pois os espinhos mantêm os animais longe da planta saudável. Além disso, ela fornece sombra e matéria orgânica, além de ser uma árvore que pode durar séculos”, explica Josimar, que faz parte do comitê municipal de combate à desertificação de São José do Seridó.</p>



<p>Nas áreas reflorestadas, Josimar e os voluntários identificaram que, a cada hectare com plantio de faveleiras, em média, convivem mil plantas de oito espécies diferentes. Onde não há faveleiras replantadas, há apenas 700 plantas por hectare. “Onde tem faveleira parece um jardim”, resume o também geógrafo Inácio Libânio, de 40 anos, educador ambiental da ONG Cáritas e ex-aluno de Josimar no ensino médio.</p>



<p>A partir de sua experiência na Cáritas, Libânio lembra que, quando uma experiência de reflorestamento é executada por alguma empresa privada de gestão ambiental contratada pelo poder público, o planejamento vem pronto de cima pra baixo. “E inclui o uso de espécies inadequadas ou de plantas exóticas”, critica. Um exemplo seria o uso de pés de algaroba, espécie nativa dos Andes que consome toda a água no solo e não permite que outras plantas germinem ao seu redor.</p>



<p>Teobaldo Clemente da Costa, de 79 anos, foi um dos agricultores que aceitaram receber os estudantes e voluntários coordenados por Josimar para o replantio de faveleiras em sua terra. As árvores plantadas pelo grupo às margens de um riacho intermitente permanecem com as folhas verdes desde que foram plantadas há uma década, sinal de que as raízes estão mantendo a água no subsolo.</p>



<p>Curiosamente, Teobaldo encontrou para os pés de favelas uma utilidade para diferente da imaginada por Josimar: “eu uso as sementes dela para plantar onde não tem água, nas clareiras, porque elas secam e os bois comem as folhas caídas no chão pra engordar na estiagem. É como se fosse uma forragem natural”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/teobaldo.jpg" alt="Foto de Teobaldo Clemente Costa, homem idoso, pardo, sentado em uma cadeira branca em um ambiente com paredes amarelas desgastadas. Ele está usando um chapéu de palha, uma camisa preta e calças escuras. A parede amarela ao fundo está desgastada e descascando, mostrando sinais de envelhecimento e desgaste. Há uma porta ou janela aberta à esquerda, permitindo a entrada de luz natural e mostrando parte da vegetação externa. O chão é de concreto não acabado e mostra manchas e marcas de uso." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Teobaldo está usando faveleira como forragem para o gado
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>A ameaça das eólicas</strong></h3>



<p>O professor de Geografia da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) Manoel Cirício Pereira Neto, amigo de Josimar e admirador de sua atuação, acredita que todo o esforço do replantio da caatinga será em vão se uma nova e mais perigosa ameaça não for enfrentada: a produção de energia eólica. Para ele, o desmatamento das serras para a construção dos parques eólicos pode ser o que falta para, definitivamente, transformar a região em um deserto.</p>



<p>“A solução para conter o processo de desertificação passa por políticas públicas para conservar o bioma nas serras da região. Acredito que criar unidades de conservação seria um modo eficiente de manter as nascentes d’água e a biodiversidade existente”, defende. Para Cirício, a estratégia dos governos para combater a desertificação deveria priorizar mais recursos financeiros para a conservação.</p>



<p>Mesmo assim, Josimar acredita que o reflorestamento precisa ser uma prioridade para a sociedade civil: “existem políticas públicas e financiamento para perfurar poços e construir cisternas, mas não há para o reflorestamento”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/drone-serido.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/drone-serido.jpeg" alt="Foto aérea de uma paisagem árida com vegetação esparsa e um caminho de terra que serpenteia pelo terreno plano. Um caminho de terra clara serpenteia pelo cenário, indicando uma rota ou trilha. Ao fundo, há uma visão distante de montanhas ou colinas sob um céu claro com algumas nuvens dispersas. Há um contraste visível entre o terreno árido em primeiro plano e as áreas mais verdes ao fundo. O céu é amplo e claro, dominando a parte superior da imagem." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">No Seridó, as clareiras estão cada vez maiores e se tornando permanentes
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

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		<title>Seridó desmatado</title>
		<link>https://marcozero.org/serido-desmatado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Apr 2024 12:13:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[deserto]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[Seridó]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pouco antes do início da COP-3 da Desertificação realizada no Recife, um jornal pernambucano publicou a fotografia do agricultor Francisco das Chagas Azevedo ao lado de seu filho Flávio, de quatro anos, levando uma carga de lenha recém-cortada em uma pequena carroça puxada por um jumento. A imagem ilustrava o impacto do desmatamento e compunha [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pouco antes do início da COP-3 da Desertificação realizada no Recife, um jornal pernambucano publicou a fotografia do agricultor Francisco das Chagas Azevedo ao lado de seu filho Flávio, de quatro anos, levando uma carga de lenha recém-cortada em uma pequena carroça puxada por um jumento. A imagem ilustrava o impacto do desmatamento e compunha uma série de reportagens, publicadas em julho de 1999, sobre o avanço da desertificação em várias porções do Nordeste brasileiro, assinada por Inácio França, um dos autores desta série especial, e pelo repórter fotográfico Alexandre Gondim.</p>



<p>Aos 71 anos, Francisco ainda guarda a página do jornal em que aparece como exemplo de agricultor que desmatava a caatinga em um dos territórios mais ameaçados pela desertificação. Desde então, muita coisa mudou, a começar por ele mesmo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/MG_3638.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/MG_3638.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/MG_3638.jpg" alt="Recorte de jornal com foto de um homem adulto com boné azul e uma criança de cabelos escuros e escorridos em uma carroça puxada por um burro, carregando madeira. A cena ocorre ao ar livre, com vegetação visível ao fundo e o chão de terra. As faces das pessoas não estão muito visíveis. Parece ser uma cena rural. Sob a foto há uma frase da legenda do jornal onde se lê que Miguelinho só consegue madeira a três quilômetros de sua casa." class="" loading="lazy" width="369">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução Diário de Pernambuco</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Minha cabeça mudou muito. Entendi que, quanto mais cortava os pés de jurema, mais desmatava, e deixava tudo pior. Então, decidi deixar um legado para meus filhos e passei a replantar”, revela. Sua propriedade de 18 hectares na zona rural de São José do Seridó produz sorgo, feijão e milho, mas toda a área não cultivada está coberta por uma densa mata de caatinga plantada por ele e seus filhos, incluindo Flávio, aquele da foto, que hoje é técnico em manutenção de máquinas têxteis.</p>



<p>Conhecido pelos vizinhos e colegas agricultores pelo apelido Miguelinho, ele conta que os filhos e filhas foram decisivos no processo que transformou completamente sua maneira de se relacionar com a natureza. “Os meninos aprendiam na escola na cidade e não queriam que eu estragasse mais nada. Fui aprendendo com eles”, explica.</p>



<p>Quando foi fotografado aos 47 anos, Francisco estava a três quilômetros de casa. “Teve vez que precisei andar seis quilômetros com a carroça pra cortar lenha. Quando isso aconteceu, entendi que nosso sítio estava ficando no meio de um deserto”, recorda.</p>



<p>Enquanto planejava o replantio das espécies nativas, ele e a famílias costumavam juntar material orgânico encontrado nas veredas – folhas secas, galhos, troncos de árvores mortas e até carcaças de bichos – e preenchiam as voçorocas, fendas e crateras formadas pela erosão. Isso ajudava a conter a degradação do solo e a recuperá-lo.</p>



<p>A melhoria das condições de vida no campo, principalmente na primeira década do século XXI, permitiram que a família substituísse a lenha pelo gás de cozinha na preparação dos alimentos: “agora a gente só usa o fogão de lenha pra fazer um feijãozinho diferente e, mesmo assim, só usa galhos que já estão caídos”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/miguelinho-23.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/miguelinho-23.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/miguelinho-23.jpg" alt="Foto de Francisco Azevedo e seu filho Flávio, parados próximos um do outro em meio a árvores despidas de folhagem. Francisco - à esquerda - veste calça cáqui, camisa laranja com listas horizontais marrons e boné verde. Flávio, à direita, é um jovem de cabelos e barba preta, usando camiseta branca e calça jeans. A cena captura um momento de conexão em um ambiente natural e sereno." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Flávio ajudou o pai, Francisco &#8220;Miguelinho&#8221;, a lidar com a caatinga de outra forma
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Às aulas de educação ambiental dos filhos na escola e às políticas dos dois primeiros governos Lula, é preciso acrescentar a própria trajetória de Francisco depois daquele longínquo 1999. “Eu comecei a participar das discussões sobre os direitos dos agricultores à terra. E quando se fala de direito, também se fala nos deveres com a terra”, explica, sem tirar da cabeça o boné da Fetarn, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Agricultores e Agricultoras Familiares do Rio Grande do Norte. Hoje, “Miguelinho” preside a Associação dos Assentados do Seridó.</p>



<p>A transformação pela qual o agricultor e sua família passaram, individualmente, todavia, não é a regra entre os 310 mil habitantes dos 28 municípios que ocupam os 9,3 mil Km<sup>2 </sup>do Seridó potiguar.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Vocação para deserto</strong></h2>



<p>Quando se fala em avanço da desertificação, o doutor em geoprocessamento pela Universidade Politécnica de Madri, Iêdo Bezerra Sá, pesquisador sênior da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), faz uma série de ressalvas. Ele considera que não se pode aplicar esse raciocínio a áreas do semiárido “com solos muito superficiais, sem profundidade, e que estão ali há milhares de anos, incapazes de fixar uma vegetação mais robusta”.</p>



<p>Por isso, Bezerra Sá não costuma usar a expressão “solos degradados” quando se refere a tais áreas. “Essas terras podem até ter outros usos, mas não se prestam para a agricultura, por exemplo”, adverte.</p>



<p>Seria esse o caso do Seridó?</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O Seridó é uma região dos sertões do Rio Grande do Norte e da Paraíba composta por 54 municípios, dos quais 28 são potiguares e 26 paraibanos. De um total de 9.374 Km<sup>2  </sup>do Seridó potiguar, uma área de 2,8 mil Km<sup>2</sup> da região foi considerada pela Unesco como um geoparque por ser um território com características físicas e geológicas de relevância mundial.</p>
        </div>
    </div>



<p>Natural da região, o doutor em Geografia e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Manoel Cirício Pereira Neto estuda os processos de desertificação no Seridó potiguar desde que era estudante da graduação na UFRN. No doutorado, sua tese foi exatamente sobre aquilo que chama de “predisposição para a desertificação” da região. Ele concorda, ao menos em parte, com o pesquisador da Embrapa.</p>



<p>“No Seridó convivem três elementos que caracterizam a predisposição para a desertificação”, explica o professor. Segundo eles, o primeiro aspecto é “a aridez do clima, mais intensa do que no restante do semiárido porque os ventos úmidos que vem do oceano são retidos na Serra da Borborema”. O relevo é outro elemento a ser levado em conta: “a declividade na região, com inúmeras serras, faz com que, quando chove, a força das águas arrastem um maior volume de sedimentos”.</p>



<p>O “carreamento” do solo, ou seja, o arrasto de camadas de solo, torna mais visível o terceiro fator, que é a presença dos solos rasos, pouco desenvolvidos, em que a rocha está exposta ou logo abaixo da superfície. Em solos assim, a vegetação da caatinga sofre com o nanismo, as plantas são diminutas porque não têm como crescer.</p>



<p>A partir daqui, as análises de Cirício começam a se afastar do entendimento do pesquisador do Embrapa. Para o professor, os fatores que tornam a região onde vive tão susceptível à desertificação são potencializados pela ação humana, principalmente pelo desmatamento para uso de madeira nos fornos de lenha das cerâmicas seridoenses e pastoreio.</p>





<h3 class="wp-block-heading"><strong>Cerâmicas e queijeiras consomem a caatinga</strong></h3>



<p>Para dar dimensão do impacto do uso da madeira das árvores da caatinga nos fornos a lenha, o professor Manoel Cirício usa como referência um estudo da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Seridó (<a href="http://www.adese.com.br/">Adese</a>) sobre uso da lenha nas atividades agroindustriais da região, financiado por uma organização não-governamental alemã. Esse levantamento identificou 82 cerâmicas no território, das quais 54 usavam exclusivamente a lenha de desmatamento para produzir telhas e tijolos, e 14 olarias artesanais de pequeno porte dotadas de fornos a lenha. Além disso, havia 314 queijeiras, entre elas 162 que produziam queijo coalho usando apenas lenha para cozinhar o leite.</p>



<p>Em um cálculo conservador, o estudo aponta que uma cerâmica que utiliza exclusivamente a lenha como combustível queima, em média, 75 m<sup>3 </sup>por semana. O que daria, pelo menos, 210 mil m<sup>3 </sup>de madeira &#8211; ou<sup> </sup>112 mil toneladas – queimados anualmente por 54 empresas. Isso sem contar as outras 28 cerâmicas que usam a lenha combinada com outros combustíveis, como o pó de madeira, casca de coco e bagaço de cana. A conta também não incluiu as pequenas olarias manuais e as queijeiras, além de outras atividades como carvoarias.</p>



<p>A destruição atinge, principalmente, árvores nativas da caatinga como jurema-preta, catingueira, pereiro e até frutíferas, a exemplo do cajueiro. A algaroba e o aveloz são as espécies exóticas mais convertidas em lenha no Seridó.</p>



<p>O desmatamento, junto com intervalos cada vez menores entre uma seca e outra, fazem com que as clareiras – antes esparsas e reduzidas &#8211; se tornem maiores e permanentes, onde até o capim deixa de crescer. “A desertificação é um fenômeno silencioso, que vem aos poucos, mas no Seridó se tornou algo visível. Há pouco tempo, o verde dos períodos das chuvas encobria ocultava as clareiras. Hoje, há áreas vastas sem plantas cujas folhas brotam depois de cada chuva”, explica o professor Manoel Cirício.</p>



<p>Francisco das Chagas, o Miguelinho, sabe que para impedir que o Seridó se torne um deserto – como está acontecendo em Gilbués, no Piauí, e na zona árida no norte da Bahia – será preciso mais do que seu esforço e da sua família. “Mas eu posso dar o exemplo. Plantei juremas aqui que já estão com 12 anos de idade. Se um dia eu precisar tirar alguma coisa para plantar uma lavoura nova, já sei como fazer: vou deixar duas faixas de mata com 30 metros em cada lado da plantação”, afirma, convicto que os resultados de sua propriedade podem ser mais convincentes do que as palavras nas reuniões com outros trabalhadores rurais.</p>


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		<item>
		<title>Um &#8220;caçador de água&#8221; nas terras áridas do norte da Bahia</title>
		<link>https://marcozero.org/um-cacador-de-agua-nas-terras-aridas-do-norte-da-bahia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Mar 2024 17:26:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[aridez]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[calor extremo]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[mudança climática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para muitos fazendeiros, agricultores familiares e reassentados pela Chesf, tanto do lado baiano quanto da margem pernambucana do rio São Francisco, a presença de “seu Né” em suas propriedades significa a esperança de matar a sede dos rebanhos e das plantas. Há quem mande carro com motorista até Brejo do Burgo, um povoado de pouco [&#8230;]</p>
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<p>Para muitos fazendeiros, agricultores familiares e reassentados pela Chesf, tanto do lado baiano quanto da margem pernambucana do rio São Francisco, a presença de “seu Né” em suas propriedades significa a esperança de matar a sede dos rebanhos e das plantas. Há quem mande carro com motorista até Brejo do Burgo, um povoado de pouco mais de 100 casas no município de Glória, só para apanhar e deixá-lo em casa, depois que ele faz o serviço: indicar o local certo onde escavar os poços e garantir água.</p>



<p>Seu Né é um “caçador de água”.</p>



<p>Há mais de seis décadas ele percorre os sertões com gravetos em forma de forquilha ou arames de metal torcidos no formato da letra “e” minúscula. Estes instrumentos simples, toscos até, bastam para que ele identifique quais os pontos, sob o solo da caatinga, onde há água suficiente para viabilizar uma lavoura. Ele tem o dom da radiestesia, a suposta habilidade de perceber o campo eletromagnético dos depósitos subterrâneos de água.</p>



<p>Usamos a palavra “suposta” porque <a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-funcionam-as-forquilhas-para-achar-agua/">a ciência não comprova se isso é realmente possível</a>. Mas quem contrata seu Né está mais interessado nos resultados práticos do que nas verdades científicas.</p>



<p>Seu nome completo é Manoel Batista da Silva e está com 89 anos. No entanto, mesmo em Brejo da Burgo, poucos o chamam dessa maneira.</p>



<p>Ele nos recebeu em seu sítio, a seis quilômetros do povoado, em pleno Raso da Catarina, uma planície arenosa no norte da Bahia onde caminhar é tão cansativo como na areia fofa da praia. Sozinho, cuidando de um rebanho de aproximadamente 50 cabeças de gado sob um sol do sertão, demonstra uma disposição para o trabalho braçal incompatível com sua idade. No entanto, ao saber que nossa intenção era entrevistá-lo, ele parou o que estava fazendo. O gosto pela conversa, este sim, é totalmente compatível com a de um idoso com muitas histórias para contar.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/seu-Ne-1-mao.jpg" alt="Nesta foto vê-se uma mão enrugada e suja segurando um bastão. A pessoa está vestindo uma roupa branca, que parece estar um pouco suja. O foco principal está na mão e no bastão, com o fundo desfocado. As unhas da pessoa estão curtas e parecem estar sujas. A textura da pele é visível, indicando trabalho árduo ou idade avançada." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Seu Né diz que seus nervos &#8220;sentem&#8221; a água no subsolo 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">100% de acerto</h2>



<p>“Posso até ter errado algum poço, mas nunca tomei conhecimento disso, não”, garante, sem nenhuma sombra de falsa modéstia.</p>



<p>No final do século passado, seu Né ainda usava gravetos ou arames que se curvavam em direção ao ponto onde há água. Hoje, ele dispensa esses recursos. “Eu sinto a água, meus nervos sentem, não sei porque nem como isso acontece, só sei que nasci com o dom”. Em novembro, alguns dias antes da entrevista, ele conta que foi levado pelos agricultores de Salgado do Melão, um povoado do município de Macururé, e “locou” – termo que usa para dizer que localizou – 14 poços em reassentamentos da Chesf. “Só quiseram cavar três, deixaram os outros de reserva”, explica, detalhando como funciona sua atividade.</p>



<p>Por cada poço ele cobra R$ 500, mas nem sempre foi assim. Durante os anos em que atuou como sindicalista, ele se recusava a cobrar, pois exercia o cargo de diretor de Convivência com o Semiárido do Pólo Sindical do Vale do São Francisco, uma articulação de dezenas de sindicatos de trabalhadores rurais da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Ele considerava que fazia parte de sua missão “locar” poços e treinar outros “caçadores de água” com ajuda das organizações não-governamentais que atuam no semiárido e que, durante a COP-3, criaram a Articulação do Semiárido (ASA).</p>



<p>Ele só perdeu a energia para caçar poços d’água nos anos que se seguiram à morte de sua esposa. “Foi uma tragédia na minha vida, homem sem mulher é uma tristeza. Não tinha vontade pra mais nada”, explica. O que o salvou foram os sucessivos chamados de agricultores para encontrar fontes de água, necessidade que só aumenta por causa da piora das condições climáticas da região e a consequente desertificação.</p>



<p>Segundo ele, a necessidade de locar poços está cada vez maior porque rios, lagoas e açudes que, antes passavam alguns meses do ano com água, agora estão permanentemente secos, como é o caso da Lagoa do Brejo, vizinha a Brejo do Burgo.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/lagoa-seca-e-rio-sem-leito-os-sinais-da-desertificacao-acelerada/" class="titulo">Lagoa seca e rio sem leito: os sinais da desertificação acelerada</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>“Estão desmatando tudo, estão tirando as árvores que seguram a água e chamam a chuva como o pau d’arco e o pereiro. A caatinga tá pelada, sem nada por cima, desprotegida”, lamenta seu Né. Ele não tem dúvidas que é por isso que as coisas estão se tornando mais difíceis no semiárido: “Sei o que digo, eu ainda estou em mim”.</p>



<p>No sítio, seu Né só consegue manter seu rebanho em pé por causa da água de dois poços que encontrou e perfurou, um deles com 94 metros de profundidade e botando água pura há mais de 25 anos. Ele faz as próprias refeições em uma palhoça que abriga também a bomba do poço, pois a pequena casa, construída no alto de uma elevação do terreno só tem estrutura para a dormida.</p>



<p>Esse poço é a minha felicidade. No fim de tarde, eu chamo todo mundo pra beber água”, afirma. Por “todo mundo” ele se refere aos bois, vacas e novilhos. “Cuidar de gado pra mim é um entretenimento. Aliás, cuidar de bicho e conversar, quando quiserem ouvir minhas histórias, podem vir”, convida, oferecendo a água para a equipe de reportagem matar a sede e amenizar os efeitos do calor.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/lagoa-4.jpg" alt="Nesta foto, vemos um terreno árido e rachado com uma paisagem de árvores e céu ao fundo. O solo está coberto por rachaduras profundas formando padrões irregulares. Ao fundo, há uma linha de árvores ou arbustos que marca a transição entre o terreno e o céu. O céu é parcialmente nublado com nuvens esparsas, mas também tem áreas azuis visíveis indicando que não está completamente encoberto. A luz do dia é clara" class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Desmatamento da caatinga está secando mananciais como a Lagoa do Brejo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
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		<title>Lagoa seca e rio sem leito: os sinais da desertificação acelerada</title>
		<link>https://marcozero.org/lagoa-seca-e-rio-sem-leito-os-sinais-da-desertificacao-acelerada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Mar 2024 10:26:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[aridez]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[deserto]]></category>
		<category><![CDATA[semiárido brasileiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As fotografias produzidas por satélites são fundamentais para que os cientistas coletem dados precisos de qualquer ponto do planeta, para reduzir os danos de tragédias naturais e são fundamentais para entender os impactos globais das mudanças climáticas. O que não aparece nas imagens feitas do espaço, contudo, é o cotidiano das pessoas e comunidades que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As fotografias produzidas por satélites são fundamentais para que os cientistas coletem dados precisos de qualquer ponto do planeta, para reduzir os danos de tragédias naturais e são fundamentais para entender os impactos globais das mudanças climáticas. O que não aparece nas imagens feitas do espaço, contudo, é o cotidiano das pessoas e comunidades que vivem nas regiões mais atingidas pelo clima extremo.</p>



<p>Distantes 71 quilômetros uma da outra, uma ponte que se tornou inútil no sertão de Pernambuco e uma lagoa seca transformada em descampado de terra vermelha no norte da Bahia passam batido nas fotos dos satélites. Esses dois locais ilustram como a vida das famílias de agricultores está ficando difícil em uma das regiões mais ameaçadas pela desertificação e pelo avanço da aridez no semiárido brasileiro.</p>



<p>Não que a vida no distrito de Brejo do Burgo, zona rural do município baiano de Glória, tenha sido fácil um dia. No entanto, até meados da década de 2010, a Lagoa do Brejo era um manancial praticamente perene, com água suficiente para o gado. Hoje, as carcaças dos bois e vacas que morrem de sede e fome nas redondezas estão espalhadas no terreno plano, de solo rachado.</p>





<p>Em alguns pontos do terreno plano da lagoa desaparecida, cresce uma erva de folhas de um verde intenso, evidência de que ainda há umidade e que existe água no subsolo. A planta rasteira que nasce ali é chamada pelos moradores como “fumo bravo”. E a presença dela indica que a Lagoa do Brejo é imprestável para a agricultura.</p>



<p>“Esse fumo dá em solo com muita salinidade. Fora isso, não nasce mais nada aí”. Quem dá a explicação é Jorge de Melo, de 65 anos, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Glória, que mora há algumas centenas de metros da lagoa, numa das agrovilas do projeto Jusante, um reassentamento de famílias que tiveram suas terras alagadas pelo lago artificial da Usina Hidroelétrica de Itaparica. Foi ele quem acompanhou a nossa equipe no norte da Bahia.</p>



<p>Melo aponta as manchas brancas pontuam o solo vermelho, quase marrom, denunciando a grande concentração de sal, e conta que, durante o inverno, a Lagoa do Brejo recebia água de dois riachos, também completamente secos há anos. “Antes, tinha os meses da chuva, hoje quando chove é pouca coisa, quase nada. Só quem produz são os agricultores que receberam da Chesf lotes irrigados ou quem tem água dos poços”, explica o sindicalista. Ele conta que, depois de ser removido da terra que seria inundada em 1988, ficou 31 anos a espera do seu lote. Só em 2019 recebeu 20 hectares, mas o projeto de irrigação nunca saiu do papel, então teve de abrir um poço para poder produzir.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Chesf é a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, estatal privada durante o governo Jair Bolsonaro. Responsável pela construção e operação das usinas hidrelétricas da região, a empresa também reassentava e elaborava projetos de irrigação para as famílias que perderam suas terras para os lagos artificiais formados pelas barragens entre as décadas de 1970 e 1990</p>
        </div>
    </div>



<p>O distrito de Brejo do Burgo está na borda da faixa de 5,7 mil Km<sup>2</sup> que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) identificam como a primeira porção do território brasileiro com clima árido. O meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), explica que “os estudos mais recentes constataram que áreas degradadas como essas em torno dos projetos de irrigação já contribuem para reduzir as nuvens de chuva na região”.</p>





<h2 class="wp-block-heading">A ponte da BR-110</h2>



<p>Na sala da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia, o entra e sai de associados é constante. Essa é a rotina na sede da entidade que representa 7 mil agricultores e agricultoras, a maioria reassentados. Enquanto o presidente Natanael Caetano da Silva, de 43 anos, atende o público, seu antecessor José Maurício Filho, de 73, vai explicando o que mudou na região desde 1999, quando Pernambuco sediou a COP-3 da Desertificação. “Só piorou”, resume Maurício.</p>



<p>Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) ocupou os auditórios do Centro de Convenções de Olinda por mais de uma semana, a paisagem do riacho Barreiras, onde a Chesf implantara um projeto de irrigação, já tinha sido transformada pela erosão, com voçorocas e crateras ferindo a terra nua, sem vegetação, de cor alaranjada. Era um <a href="https://marcozero.org/gilbues-o-deserto-vermelho-e-produtivo-do-piaui/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">cenário parecido com Gilbués, no Piauí</a>, só que em menor escala.</p>



<p>As voçorocas desapareceram. E, ao contrário do que parece, esse é um indicador que o processo de desertificação se tornou mais intenso.</p>



<p>“Como o desmatamento aumentou, a terra ficou exposta, sem proteção. Aí, como de uns tempos pra cá só cai chove forte, temporal, a enxurrada vai arrastando a terra e acabou cobrindo os buracos que a erosão abriu no início. O leito do riacho quase não existe mais”, detalhou Maurício, um dos raros agricultores que continuam produzindo em meio a vários outros lotes abandonados pelos reassentados ao longo do século XXI.</p>



<p>É aqui que entra a ponte da BR-110, rodovia que, em Petrolândia, não é asfaltada e é mais conhecida como “Retão”, pois tem o traçado em linha reta que só acaba em Ibimirim, distante 77 quilômetros na direção nordeste.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/ponte-2.jpg" alt="Foto colorida de o agricultor José Maurício ao lado da ponte. Ele é um homem branco, idoso, de fartos bigodes brancos, usando boné verde, camisa social cinza de mangas compridas, calças jeans e sapatos pretos com cadarço. Ele está com os braços cruzados. O ambiente parece ser rural, com vegetação visível ao fundo e um céu nublado acima." class="" loading="lazy" width="293">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">José Maurício na ponte do &#8220;Retão&#8221;.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Logo no início, o “Retão” passa sobre o riacho Barreiras. Quando ele estava cheio, era comum ver crianças e adultos dando mergulhos para tomar banho na água que corria cinco metros abaixo do vão da ponte. De tão assoreado que o riacho está, isso não existe mais. Hoje, a distância do solo para o vão é de, no máximo, 80 centímetros, mas em alguns pontos não passa de um palmo. Fomos até lá para entender melhor.</p>



<p>“A areia está solta, não tem raízes para segurar, então quando chove rio acima, a água das chuvas sai arrastando tudo. O riacho foi assoreando até chegar a essa situação que não tem mais leito, sem o caminho natural para a água passar. Então a água se espalha pelo solo raso, inundando e aterrando”, explica o agricultor. Os poucos agricultores do Riacho Barreiras sabem que há o risco da própria ponte e a estrada serem soterradas em poucos anos.</p>



<p>E isso, tudo, a exemplo do que está acontecendo no reassentamento de Icó-Mandantes, no mesmo município (foco da reportagem que abriu essa série especial), começou em razão do desmatamento e das técnicas inadequadas estabelecidas pela Chesf nos anos 1990.</p>



<p>Sem querer Maurício confirma aquilo que o meteorologista Humberto Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mencionou na segunda reportagem desta série especial, sobre Gilbués, cujo link está alguns parágrafos acima: “Mesmo não conhecendo os termos técnicos, a população tem o conhecimento empírico sobre a desertificação, no interior do Nordeste as pessoas estão adaptadas a conviver com as áreas degradadas”.</p>



<p>O relato de Maurício é também uma síntese da vulnerabilidade da caatinga e do semiárido brasileiro. O mesmo cientista adverte, no entanto, que não se trata de uma fragilidade natural do bioma: “as políticas públicas que são colocadas tornam ela vulnerável. Alguns justificam porque é uma região mais povoada, mas ela poderia ser povoada e não ter nenhuma dessas vulnerabilidades se as políticas públicas tivessem sido dimensionadas para essa população. O que nunca foi prioridade porque sempre houve interesses políticos de mantê-la da forma como ela está”.</p>


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		<title>Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí</title>
		<link>https://marcozero.org/gilbues-o-deserto-vermelho-e-produtivo-do-piaui/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Mar 2024 11:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[COP-30]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Piauí]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Orgulhoso, o agricultor Francisco Washington Rodrigues exibe os alhos cultivados e colhidos em seu terreno. Na área que antes era improdutiva, seca e sem boas perspectivas de investimento, agora é possível encontrar plantações de hortaliças, milho, feijão e banana, além de uma pequena criação de gado. “Essas terras aqui antes não valiam nada, eram áreas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Orgulhoso, o agricultor Francisco Washington Rodrigues exibe os alhos cultivados e colhidos em seu terreno. Na área que antes era improdutiva, seca e sem boas perspectivas de investimento, agora é possível encontrar plantações de hortaliças, milho, feijão e banana, além de uma pequena criação de gado. “Essas terras aqui antes não valiam nada, eram áreas com solo ruim, hoje em dia a gente aproveita muito as terras é uma área dentro da desertificação onde a gente produz tudo”, afirmou o agricultor.</p>



<p>Francisco Washington é morador de Gilbués, no Piauí, a 773 quilômetros da capital Teresina, no coração de uma das quatro regiões brasileiras consideradas oficialmente como núcleo de desertificação pelo Governo Federal.</p>



<p>A região possui características naturais de clima, relevo e solo propícias à degradação, mas pesquisadores afirmam que a ação antrópica, sobretudo associadas ao desmatamento causado por latifundiários e também a extração desordenada de diamante no município, que acontece desde 1940, contribuíram para o agravamento acelerado da desertificação.</p>



<p>Com isso, Gilbués se configura como um grande deserto de terras vermelhas tomado por voçorocas de grande profundidade. Uma grande área com um solo com pouca ou nenhuma capacidade de se regenerar devido a escassez de vegetação capaz de protegê-lo, e que é suscetível a carregamentos de cascalho que acontecem nos períodos de chuvas intensas.</p>



<p>O resultado são 805 Km<sup>2</sup> de terra em tom vermelho, em alguns pontos mais intenso como um carmim em outros mais alaranjado, com grandes depressões, verdadeiras crateras que formam uma paisagem singular, que os visitantes e matérias jornalísticas comparam a um pedaço do planeta Marte na Terra. Quem é de fora estranha, mas os quase 11 mil gilbueenses se encantam com suas terras vermelhas e já não associam o deserto à pobreza.</p>



<p>É nesse cenário em que Francisco Washington celebra suas improváveis colheitas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Gilbues-Francisco-Washington.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Gilbues-Francisco-Washington.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Gilbues-Francisco-Washington.jpg" alt="Foto colorida de Francisco Washington, homem pardo, de cabelos cortados rente ao couro cabeludo, com semblante sério, olhando diretamente para a câmera. Ele está vestindo uma camiseta branca suja com a palavra “Expoagro” e alguns números visíveis. Ela está segurando uma ferramenta com cabo longo de madeira, indicando que pode estar trabalhando no campo. O campo é verde, com várias plantas pequenas crescendo em fileiras ordenadas. Há árvores e arbustos ao fundo, e o céu está nublado, indicando que pode chover em breve ou que já choveu recentemente." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Francisco aprendeu a cultivar no solo degradado nas atividades do Nuperade.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.</span>
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                    </figure>

	


<p><br>Por décadas, parecia que voltar a viver de agricultura em Gilbués seria impossível, Isso mudou em 2006, quando um projeto do Governo Federal trouxe outra perspectiva para as famílias de agricultores.<br><br>Lançado pelo Ministério do Meio Ambiente com o objetivo de realizar medidas de combate à desertificação, o Núcleo de Pesquisa de Recuperação de Áreas Degradadas e Combate à Desertificação (Nuperade) aportou na cidade de Gilbués em 2006 e foi responsável por firmar parcerias entre agricultores, técnicos e pesquisadores.</p>



<p>O município nordestino foi o primeiro e único a receber o programa, que funcionou até 2016, com ações de estudos e testagens de tecnologias para o controle de degradação e recuperação das áreas degradadas. O Núcleo integrava as ações do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN-Brasil). A sede do projeto em Gilbués custou R$ 100 mil para ser construída, mas agora está fechada. No lançamento, a ministra Marina Silva &#8211; em sua primeira passagem pelo Ministério do Meio Ambiente &#8211; afirmou que o projeto tinha como objetivo “curar a terra ferida”.</p>



<p>Um dos beneficiados pelo Nuperade, Francisco Washington relembra como eram as atividades do projeto: “Nós tivemos treinamentos, recebemos adubos pro solo, aprendemos a cuidar melhor da terra, e isso foi muito importante para todos os agricultores da região, mas infelizmente o projeto não continuou e fica difícil pra gente dar conta sozinho de recuperar as terras degradadas”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Esperança interrompida</h2>



<p>Francisco é conhecido entre os colegas como um sujeito que não perde a esperança. Ele nunca deixou de acreditar que as terras de Gilbués podem voltar a produzir alimentos. Por isso que, quando os técnicos da secretaria estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, responsável pela execução do projeto, chegaram em Gilbués apresentando a ideia de mutirões para fazer o manejo adequado da terra, ele foi um dos primeiros a aceitar a oferta. E nunca faltou às atividades.</p>



<p>Inicialmente, o Nuperade se concentrava em viabilizar as lavouras de milho e feijão. Francisco não se contentou com apenas duas possibilidades e insistiu que seria possível apostar em outras culturas. A persistência foi recompensada:<br><br>“Aqui nós produzimos a hortaliça, a banana, o tomate, o milho, o feijão e também criamos um pouco de gado. O que plantar dá, até girassol eu já plantei aqui. As únicas coisas que plantei e não vingaram foram o pé de caju e a mangueira. Mas olha a beleza desses alfaces, desses alhos, tudo colhido aqui no deserto”, orgulha-se Francisco Washington.</p>



<p>Por causa da grande quantidade de voçorocas, conhecidas pelos agricultores da região como grotas, uma das estratégias propostas pelos pesquisadores do projeto Nuperade foi ensinar as famílias agricultoras a fazer curvas de nível nas terras a fim conter o aumento da erosão. Uma técnica curiosa foi aproveitar a profundidade das grotas para a piscicultura. A ideia de criar peixes, bem recebida no início, acabou não dando muito certo, pois as chuvas intensas provocavam enxurradas que acabavam destruindo os tanques.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;A gente saía queimando as terras para dar espaço pro gado, mas a gente não sabia que isso só piorava a situação”.</p>
</div>


<p>A falta de conhecimento sobre o manejo adequado das terras em Gilbués foi um fator importante para agravar o processo de degradação do solo e piorar a desertificação no território, como aponta o agricultor José Rodrigues Santos: “antigamente a gente não sabia como plantar aqui, então aproveitava para criar gado, e para isso saía queimando as terras para dar espaço pro gado, mas a gente não sabia que isso só piorava a situação”.</p>



<p>Conhecido como Zé Capemba, o agricultor vive em uma propriedade rural extensa, com plantações de milho e hortaliças e criação de gado, junto com sua esposa Zilmar Barbosa. Ambos reconhecem os benefícios trazidos pelo Nuperade e lamentam o fim das ações do projeto. “Antes aqui era muito mais deserto, porque a gente tinha que fazer tudo na força bruta, não tinha máquina, não tinha os adubos certos para a terra, era tudo na base da enxada. O projeto foi uma benção para nós”, declarou o agricultor.</p>



<p>“Eu mobilizei os outros agricultores daqui, os vizinhos e fomos atrás dos recursos para essa área, então quando o projeto chegou muita gente se beneficiou, mas depois que ele parou também muita gente desistiu e foi embora”, recorda Zé Capemba. Ele conta que a população da região já viu as autoridades anunciarem vários projetos que sequer saíram do papel. “Já teve até um projeto para criar um sistema de irrigação, mas nunca vai para frente, parece falta de vontade”, reclamou.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>As atividades do Nuperade foram interrompidas em 2016, logo depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff e a ascensão ao poder do seu vice, Michel Temer. Agora, a sede localizada em Gilbués está fechada, sem funcionamento e com a estrutura desgastada.</p>
        </div>
    </div>



<p>De acordo com Aline Araújo, auditora fiscal ambiental da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, no momento, a região de Gilbués não possui nenhuma atividade de mitigação e prevenção para as áreas degradadas e desertificadas:</p>



<p>“Infelizmente não conseguimos manter o projeto por muito tempo. Atualmente todas as atividades de combate à desertificação do Nuperade estão paralisadas, mas nós estamos em um esforço para conseguir fazer uma parceria com as instituições de ensino do estado do Piauí para que elas possam desenvolver pesquisas no local”.</p>



<p>A auditora acrescenta que as autoridades estaduais iniciaram diálogo com a diretoria de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente para conseguir recursos para a região de Gilbués. “Temos boas expectativas porque o ministério se mostra aberto ao diálogo e neste ano nós trabalhamos para levantar os dados que precisamos para colocar em prática ações efetivas”, disse a auditora.</p>





<h3 class="wp-block-heading"><strong>Deserto com chuvas</strong></h3>



<p>Para o meteorologista e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas (Lapis/UFAL), Humberto Barbosa, a formação do chamado deserto de Gilbués resulta de uma situação “ímpar”, associação de diversos fatores.</p>



<p>“Se a gente pega o Brasil como uma região, como um território, a desertificação não é um processo natural. A nossa origem era uma cobertura vegetal vasta, não tinha deserto. O que é deserto? Quando você tem regiões com chuva de menos de 250 milímetros por ano, é uma condição geomorfológica. Gilbués se difere de todas as outras, porque em Gilbués chove e algumas chuvas acontecem acima da média, só que ela está inserida no semiárido e ela tem uma componente crítico de chuvas danificando o solo associada às questões econômicas da região que provocaram a desertificação. O excesso de chuva, e o impacto da energia dessa chuva faz com que ela escorra no solo arrastando os nutrientes provocando assim a perda da qualidade do solo e agravando as erosões, com isso, Gilbués é uma soma de grandes voçorocas”, explicou Barbosa.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O Piauí conta com um extenso território semiárido suscetível à desertificação, abrangendo 185 dos 224 municípios do estado.</p>
        </div>
    </div>



<p>De acordo com os estudos do pesquisador da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e mestre em Agronomia, Fabrício Brito Silva, o Núcleo de Desertificação de Gilbués inclui os territórios de 15 municípios: Gilbués, Barreira do Piauí, Corrente, São Gonçalo do Gurguéia, Riacho Frio, Monte Alegre do Piauí, Bom Jesus, Redenção do Gurguéia, Curimatá, Cristalândia, Parnaguá, Júlio Borges, Avelino Lopes, Morro Cabeça no Tempo e Sebastião Barros.</p>



<p>Ainda de acordo com Brito Silva, os fatores que contribuem para que o estado nordestino seja suscetível à degradação ambiental são os baixos índices de pluviometria, com chuvas concentradas em períodos curtos de tempo e estiagem prolongada, uso inadequado dos recursos naturais, atividade agropecuária desordenada e desmatamento indiscriminado.</p>



<p>O monitoramento do semiárido realizado pelo laboratório coordenado por Humberto Barbosa identifica que a região está em transformação por causa do fenômeno global das mudanças climáticas, com áreas áridas em, pelo menos, quatro estados brasileiros, incluindo Gilbués. O meteorologista explica que essas áreas áridas influenciam na redução das nuvens de chuva na região. Segundo o especialista, “a degradação severa das terras integra um processo que retroalimenta uma tendência de aumento da aridez atmosférica e influencia na expansão das áreas áridas e semiáridas”.</p>



<p>Com isso, o estudo reconfigurou o mapa da desertificação e incluiu a categorização das áreas “áridas”, que são identificadas a partir da análise da aridez atmosférica, da condição da cobertura vegetal e dos solos severamente degradados. A pesquisa foi desenvolvida usando dados de satélites que identificaram um aumento da radiação de onda longa e redução de nuvens em áreas áridas com degradação severa, o que demonstra uma ausência de chuvas vinculada ao aumento das temperaturas, tornando a região central do semiárido mais suscetíveis ao processo de desertificação.</p>



<p> Com isso, asregiões onde chove menos de 800mm/ano, consideradas áridas, aumentaram sua área territorial de 569,4 mil Km<sup>2 </sup>para os atuais 796 mil Km<sup>2</sup>. Já o crescimento do território susceptível à desertificação foi de 710 mil Km<sup>2</sup> para mais de 1,08 milhão de Km<sup>2</sup>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/Gilbues-Ze-Capemba-e-Zilmar.jpg" alt="Foto colorida de um casal de idosos diante de uma casa simples, construídas com tijolos sem reboco nem pintura. À esquerda, o homem negro de cabelos brancos está sentado em uma cadeira amarela. Ele veste uma camisa azul com gola branca e uma bermuda azul escura, com sandálias azuis. A mulher parda, de óculos, de cabelos presos atrás do pescoço, está usando sentada em cadeira laranja e azul, com vestido estampado. Ao fundo, é possível ver árvores e um cercado de tábuas." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">A vida em Gilbués é difícil, mas Zé Capemba e Zilmar nunca saíram da região
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.</span>
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<p>“Eu acho que nessa componente da desertificação tem uma questão muito específica de como os municípios no Brasil, nos últimos anos, saíram dessa transição do que era uma região que não era terra seca, não era semiárida e passou a ser. Mesmo não conhecendo os termos técnicos, a população tem o conhecimento empírico sobre a desertificação, no interior do Nordeste as pessoas estão adaptadas a conviver com as áreas degradadas. Na prática, a população está convivendo com uma escassez de água, com a escassez de alimentos e tentando se adaptar a esse novo ambiente que está em transformação”, afirma Humberto Barbosa.</p>



<p>Zilmar Barbosa, companheira de Zé Capemba e também agricultora, relembra como são os períodos de seca na região, confirmando o que diz o meteorologista da UFAL: “agora as coisas melhoraram porque temos um poço, mas em período de seca é muito difícil. Os animais morrem, as árvores secam, nós não tínhamos água em casa, então eu tinha que ir até o riacho para pegar água, ia carregando as garrafas de água em cima do jumento e às vezes carregava na cabeça mesmo. Nos últimos quatro anos está ficando mais seco de novo, se não fosse esse poço eu não sei o que seria da gente, mas eu tenho fé que vai chover e vai melhorar”.</p>



<p>A agricultora, que mora na área rural de Gilbués há 39 anos, criou seus dez filhos na região desertificada, mas nenhum deles ficou na região para dar continuidade às atividades agrícolas e pecuárias. Agora, ela e Zé Capemba permanecem no local e seguem produzindo alimentos para subsistência graças às técnicas que aprenderam com o Nuperade. “Eu não gosto muito da cidade não, eu gosto é de ficar aqui mesmo”, disse Zilmar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/gilbues-o-deserto-vermelho-e-produtivo-do-piaui/" class="titulo">Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do projeto <a href="https://reportfortheworld.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Report For The World</a> e da <a href="https://br.boell.org/pt-br/fundacao-0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fundação Henrich Böll</a></strong></li>
</ul>



<p></p>
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