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	<title>Arquivos deserto - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 03 Apr 2024 14:53:03 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos deserto - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>Seridó desmatado</title>
		<link>https://marcozero.org/serido-desmatado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Apr 2024 12:13:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[deserto]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[Seridó]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pouco antes do início da COP-3 da Desertificação realizada no Recife, um jornal pernambucano publicou a fotografia do agricultor Francisco das Chagas Azevedo ao lado de seu filho Flávio, de quatro anos, levando uma carga de lenha recém-cortada em uma pequena carroça puxada por um jumento. A imagem ilustrava o impacto do desmatamento e compunha [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pouco antes do início da COP-3 da Desertificação realizada no Recife, um jornal pernambucano publicou a fotografia do agricultor Francisco das Chagas Azevedo ao lado de seu filho Flávio, de quatro anos, levando uma carga de lenha recém-cortada em uma pequena carroça puxada por um jumento. A imagem ilustrava o impacto do desmatamento e compunha uma série de reportagens, publicadas em julho de 1999, sobre o avanço da desertificação em várias porções do Nordeste brasileiro, assinada por Inácio França, um dos autores desta série especial, e pelo repórter fotográfico Alexandre Gondim.</p>



<p>Aos 71 anos, Francisco ainda guarda a página do jornal em que aparece como exemplo de agricultor que desmatava a caatinga em um dos territórios mais ameaçados pela desertificação. Desde então, muita coisa mudou, a começar por ele mesmo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/MG_3638.jpg" alt="Recorte de jornal com foto de um homem adulto com boné azul e uma criança de cabelos escuros e escorridos em uma carroça puxada por um burro, carregando madeira. A cena ocorre ao ar livre, com vegetação visível ao fundo e o chão de terra. As faces das pessoas não estão muito visíveis. Parece ser uma cena rural. Sob a foto há uma frase da legenda do jornal onde se lê que Miguelinho só consegue madeira a três quilômetros de sua casa." class="" loading="lazy" width="369">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução Diário de Pernambuco</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Minha cabeça mudou muito. Entendi que, quanto mais cortava os pés de jurema, mais desmatava, e deixava tudo pior. Então, decidi deixar um legado para meus filhos e passei a replantar”, revela. Sua propriedade de 18 hectares na zona rural de São José do Seridó produz sorgo, feijão e milho, mas toda a área não cultivada está coberta por uma densa mata de caatinga plantada por ele e seus filhos, incluindo Flávio, aquele da foto, que hoje é técnico em manutenção de máquinas têxteis.</p>



<p>Conhecido pelos vizinhos e colegas agricultores pelo apelido Miguelinho, ele conta que os filhos e filhas foram decisivos no processo que transformou completamente sua maneira de se relacionar com a natureza. “Os meninos aprendiam na escola na cidade e não queriam que eu estragasse mais nada. Fui aprendendo com eles”, explica.</p>



<p>Quando foi fotografado aos 47 anos, Francisco estava a três quilômetros de casa. “Teve vez que precisei andar seis quilômetros com a carroça pra cortar lenha. Quando isso aconteceu, entendi que nosso sítio estava ficando no meio de um deserto”, recorda.</p>



<p>Enquanto planejava o replantio das espécies nativas, ele e a famílias costumavam juntar material orgânico encontrado nas veredas – folhas secas, galhos, troncos de árvores mortas e até carcaças de bichos – e preenchiam as voçorocas, fendas e crateras formadas pela erosão. Isso ajudava a conter a degradação do solo e a recuperá-lo.</p>



<p>A melhoria das condições de vida no campo, principalmente na primeira década do século XXI, permitiram que a família substituísse a lenha pelo gás de cozinha na preparação dos alimentos: “agora a gente só usa o fogão de lenha pra fazer um feijãozinho diferente e, mesmo assim, só usa galhos que já estão caídos”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/miguelinho-23.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/miguelinho-23.jpg" alt="Foto de Francisco Azevedo e seu filho Flávio, parados próximos um do outro em meio a árvores despidas de folhagem. Francisco - à esquerda - veste calça cáqui, camisa laranja com listas horizontais marrons e boné verde. Flávio, à direita, é um jovem de cabelos e barba preta, usando camiseta branca e calça jeans. A cena captura um momento de conexão em um ambiente natural e sereno." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Flávio ajudou o pai, Francisco &#8220;Miguelinho&#8221;, a lidar com a caatinga de outra forma
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Às aulas de educação ambiental dos filhos na escola e às políticas dos dois primeiros governos Lula, é preciso acrescentar a própria trajetória de Francisco depois daquele longínquo 1999. “Eu comecei a participar das discussões sobre os direitos dos agricultores à terra. E quando se fala de direito, também se fala nos deveres com a terra”, explica, sem tirar da cabeça o boné da Fetarn, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Agricultores e Agricultoras Familiares do Rio Grande do Norte. Hoje, “Miguelinho” preside a Associação dos Assentados do Seridó.</p>



<p>A transformação pela qual o agricultor e sua família passaram, individualmente, todavia, não é a regra entre os 310 mil habitantes dos 28 municípios que ocupam os 9,3 mil Km<sup>2 </sup>do Seridó potiguar.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Vocação para deserto</strong></h2>



<p>Quando se fala em avanço da desertificação, o doutor em geoprocessamento pela Universidade Politécnica de Madri, Iêdo Bezerra Sá, pesquisador sênior da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), faz uma série de ressalvas. Ele considera que não se pode aplicar esse raciocínio a áreas do semiárido “com solos muito superficiais, sem profundidade, e que estão ali há milhares de anos, incapazes de fixar uma vegetação mais robusta”.</p>



<p>Por isso, Bezerra Sá não costuma usar a expressão “solos degradados” quando se refere a tais áreas. “Essas terras podem até ter outros usos, mas não se prestam para a agricultura, por exemplo”, adverte.</p>



<p>Seria esse o caso do Seridó?</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O Seridó é uma região dos sertões do Rio Grande do Norte e da Paraíba composta por 54 municípios, dos quais 28 são potiguares e 26 paraibanos. De um total de 9.374 Km<sup>2  </sup>do Seridó potiguar, uma área de 2,8 mil Km<sup>2</sup> da região foi considerada pela Unesco como um geoparque por ser um território com características físicas e geológicas de relevância mundial.</p>
        </div>
    </div>



<p>Natural da região, o doutor em Geografia e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Manoel Cirício Pereira Neto estuda os processos de desertificação no Seridó potiguar desde que era estudante da graduação na UFRN. No doutorado, sua tese foi exatamente sobre aquilo que chama de “predisposição para a desertificação” da região. Ele concorda, ao menos em parte, com o pesquisador da Embrapa.</p>



<p>“No Seridó convivem três elementos que caracterizam a predisposição para a desertificação”, explica o professor. Segundo eles, o primeiro aspecto é “a aridez do clima, mais intensa do que no restante do semiárido porque os ventos úmidos que vem do oceano são retidos na Serra da Borborema”. O relevo é outro elemento a ser levado em conta: “a declividade na região, com inúmeras serras, faz com que, quando chove, a força das águas arrastem um maior volume de sedimentos”.</p>



<p>O “carreamento” do solo, ou seja, o arrasto de camadas de solo, torna mais visível o terceiro fator, que é a presença dos solos rasos, pouco desenvolvidos, em que a rocha está exposta ou logo abaixo da superfície. Em solos assim, a vegetação da caatinga sofre com o nanismo, as plantas são diminutas porque não têm como crescer.</p>



<p>A partir daqui, as análises de Cirício começam a se afastar do entendimento do pesquisador do Embrapa. Para o professor, os fatores que tornam a região onde vive tão susceptível à desertificação são potencializados pela ação humana, principalmente pelo desmatamento para uso de madeira nos fornos de lenha das cerâmicas seridoenses e pastoreio.</p>





<h3 class="wp-block-heading"><strong>Cerâmicas e queijeiras consomem a caatinga</strong></h3>



<p>Para dar dimensão do impacto do uso da madeira das árvores da caatinga nos fornos a lenha, o professor Manoel Cirício usa como referência um estudo da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Seridó (<a href="http://www.adese.com.br/">Adese</a>) sobre uso da lenha nas atividades agroindustriais da região, financiado por uma organização não-governamental alemã. Esse levantamento identificou 82 cerâmicas no território, das quais 54 usavam exclusivamente a lenha de desmatamento para produzir telhas e tijolos, e 14 olarias artesanais de pequeno porte dotadas de fornos a lenha. Além disso, havia 314 queijeiras, entre elas 162 que produziam queijo coalho usando apenas lenha para cozinhar o leite.</p>



<p>Em um cálculo conservador, o estudo aponta que uma cerâmica que utiliza exclusivamente a lenha como combustível queima, em média, 75 m<sup>3 </sup>por semana. O que daria, pelo menos, 210 mil m<sup>3 </sup>de madeira &#8211; ou<sup> </sup>112 mil toneladas – queimados anualmente por 54 empresas. Isso sem contar as outras 28 cerâmicas que usam a lenha combinada com outros combustíveis, como o pó de madeira, casca de coco e bagaço de cana. A conta também não incluiu as pequenas olarias manuais e as queijeiras, além de outras atividades como carvoarias.</p>



<p>A destruição atinge, principalmente, árvores nativas da caatinga como jurema-preta, catingueira, pereiro e até frutíferas, a exemplo do cajueiro. A algaroba e o aveloz são as espécies exóticas mais convertidas em lenha no Seridó.</p>



<p>O desmatamento, junto com intervalos cada vez menores entre uma seca e outra, fazem com que as clareiras – antes esparsas e reduzidas &#8211; se tornem maiores e permanentes, onde até o capim deixa de crescer. “A desertificação é um fenômeno silencioso, que vem aos poucos, mas no Seridó se tornou algo visível. Há pouco tempo, o verde dos períodos das chuvas encobria ocultava as clareiras. Hoje, há áreas vastas sem plantas cujas folhas brotam depois de cada chuva”, explica o professor Manoel Cirício.</p>



<p>Francisco das Chagas, o Miguelinho, sabe que para impedir que o Seridó se torne um deserto – como está acontecendo em Gilbués, no Piauí, e na zona árida no norte da Bahia – será preciso mais do que seu esforço e da sua família. “Mas eu posso dar o exemplo. Plantei juremas aqui que já estão com 12 anos de idade. Se um dia eu precisar tirar alguma coisa para plantar uma lavoura nova, já sei como fazer: vou deixar duas faixas de mata com 30 metros em cada lado da plantação”, afirma, convicto que os resultados de sua propriedade podem ser mais convincentes do que as palavras nas reuniões com outros trabalhadores rurais.</p>


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			</item>
		<item>
		<title>Lagoa seca e rio sem leito: os sinais da desertificação acelerada</title>
		<link>https://marcozero.org/lagoa-seca-e-rio-sem-leito-os-sinais-da-desertificacao-acelerada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Mar 2024 10:26:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[aridez]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[deserto]]></category>
		<category><![CDATA[semiárido brasileiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As fotografias produzidas por satélites são fundamentais para que os cientistas coletem dados precisos de qualquer ponto do planeta, para reduzir os danos de tragédias naturais e são fundamentais para entender os impactos globais das mudanças climáticas. O que não aparece nas imagens feitas do espaço, contudo, é o cotidiano das pessoas e comunidades que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As fotografias produzidas por satélites são fundamentais para que os cientistas coletem dados precisos de qualquer ponto do planeta, para reduzir os danos de tragédias naturais e são fundamentais para entender os impactos globais das mudanças climáticas. O que não aparece nas imagens feitas do espaço, contudo, é o cotidiano das pessoas e comunidades que vivem nas regiões mais atingidas pelo clima extremo.</p>



<p>Distantes 71 quilômetros uma da outra, uma ponte que se tornou inútil no sertão de Pernambuco e uma lagoa seca transformada em descampado de terra vermelha no norte da Bahia passam batido nas fotos dos satélites. Esses dois locais ilustram como a vida das famílias de agricultores está ficando difícil em uma das regiões mais ameaçadas pela desertificação e pelo avanço da aridez no semiárido brasileiro.</p>



<p>Não que a vida no distrito de Brejo do Burgo, zona rural do município baiano de Glória, tenha sido fácil um dia. No entanto, até meados da década de 2010, a Lagoa do Brejo era um manancial praticamente perene, com água suficiente para o gado. Hoje, as carcaças dos bois e vacas que morrem de sede e fome nas redondezas estão espalhadas no terreno plano, de solo rachado.</p>





<p>Em alguns pontos do terreno plano da lagoa desaparecida, cresce uma erva de folhas de um verde intenso, evidência de que ainda há umidade e que existe água no subsolo. A planta rasteira que nasce ali é chamada pelos moradores como “fumo bravo”. E a presença dela indica que a Lagoa do Brejo é imprestável para a agricultura.</p>



<p>“Esse fumo dá em solo com muita salinidade. Fora isso, não nasce mais nada aí”. Quem dá a explicação é Jorge de Melo, de 65 anos, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Glória, que mora há algumas centenas de metros da lagoa, numa das agrovilas do projeto Jusante, um reassentamento de famílias que tiveram suas terras alagadas pelo lago artificial da Usina Hidroelétrica de Itaparica. Foi ele quem acompanhou a nossa equipe no norte da Bahia.</p>



<p>Melo aponta as manchas brancas pontuam o solo vermelho, quase marrom, denunciando a grande concentração de sal, e conta que, durante o inverno, a Lagoa do Brejo recebia água de dois riachos, também completamente secos há anos. “Antes, tinha os meses da chuva, hoje quando chove é pouca coisa, quase nada. Só quem produz são os agricultores que receberam da Chesf lotes irrigados ou quem tem água dos poços”, explica o sindicalista. Ele conta que, depois de ser removido da terra que seria inundada em 1988, ficou 31 anos a espera do seu lote. Só em 2019 recebeu 20 hectares, mas o projeto de irrigação nunca saiu do papel, então teve de abrir um poço para poder produzir.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Chesf é a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, estatal privada durante o governo Jair Bolsonaro. Responsável pela construção e operação das usinas hidrelétricas da região, a empresa também reassentava e elaborava projetos de irrigação para as famílias que perderam suas terras para os lagos artificiais formados pelas barragens entre as décadas de 1970 e 1990</p>
        </div>
    </div>



<p>O distrito de Brejo do Burgo está na borda da faixa de 5,7 mil Km<sup>2</sup> que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) identificam como a primeira porção do território brasileiro com clima árido. O meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), explica que “os estudos mais recentes constataram que áreas degradadas como essas em torno dos projetos de irrigação já contribuem para reduzir as nuvens de chuva na região”.</p>





<h2 class="wp-block-heading">A ponte da BR-110</h2>



<p>Na sala da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia, o entra e sai de associados é constante. Essa é a rotina na sede da entidade que representa 7 mil agricultores e agricultoras, a maioria reassentados. Enquanto o presidente Natanael Caetano da Silva, de 43 anos, atende o público, seu antecessor José Maurício Filho, de 73, vai explicando o que mudou na região desde 1999, quando Pernambuco sediou a COP-3 da Desertificação. “Só piorou”, resume Maurício.</p>



<p>Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) ocupou os auditórios do Centro de Convenções de Olinda por mais de uma semana, a paisagem do riacho Barreiras, onde a Chesf implantara um projeto de irrigação, já tinha sido transformada pela erosão, com voçorocas e crateras ferindo a terra nua, sem vegetação, de cor alaranjada. Era um <a href="https://marcozero.org/gilbues-o-deserto-vermelho-e-produtivo-do-piaui/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">cenário parecido com Gilbués, no Piauí</a>, só que em menor escala.</p>



<p>As voçorocas desapareceram. E, ao contrário do que parece, esse é um indicador que o processo de desertificação se tornou mais intenso.</p>



<p>“Como o desmatamento aumentou, a terra ficou exposta, sem proteção. Aí, como de uns tempos pra cá só cai chove forte, temporal, a enxurrada vai arrastando a terra e acabou cobrindo os buracos que a erosão abriu no início. O leito do riacho quase não existe mais”, detalhou Maurício, um dos raros agricultores que continuam produzindo em meio a vários outros lotes abandonados pelos reassentados ao longo do século XXI.</p>



<p>É aqui que entra a ponte da BR-110, rodovia que, em Petrolândia, não é asfaltada e é mais conhecida como “Retão”, pois tem o traçado em linha reta que só acaba em Ibimirim, distante 77 quilômetros na direção nordeste.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/ponte-2.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/ponte-2.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/ponte-2.jpg" alt="Foto colorida de o agricultor José Maurício ao lado da ponte. Ele é um homem branco, idoso, de fartos bigodes brancos, usando boné verde, camisa social cinza de mangas compridas, calças jeans e sapatos pretos com cadarço. Ele está com os braços cruzados. O ambiente parece ser rural, com vegetação visível ao fundo e um céu nublado acima." class="" loading="lazy" width="293">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">José Maurício na ponte do &#8220;Retão&#8221;.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Logo no início, o “Retão” passa sobre o riacho Barreiras. Quando ele estava cheio, era comum ver crianças e adultos dando mergulhos para tomar banho na água que corria cinco metros abaixo do vão da ponte. De tão assoreado que o riacho está, isso não existe mais. Hoje, a distância do solo para o vão é de, no máximo, 80 centímetros, mas em alguns pontos não passa de um palmo. Fomos até lá para entender melhor.</p>



<p>“A areia está solta, não tem raízes para segurar, então quando chove rio acima, a água das chuvas sai arrastando tudo. O riacho foi assoreando até chegar a essa situação que não tem mais leito, sem o caminho natural para a água passar. Então a água se espalha pelo solo raso, inundando e aterrando”, explica o agricultor. Os poucos agricultores do Riacho Barreiras sabem que há o risco da própria ponte e a estrada serem soterradas em poucos anos.</p>



<p>E isso, tudo, a exemplo do que está acontecendo no reassentamento de Icó-Mandantes, no mesmo município (foco da reportagem que abriu essa série especial), começou em razão do desmatamento e das técnicas inadequadas estabelecidas pela Chesf nos anos 1990.</p>



<p>Sem querer Maurício confirma aquilo que o meteorologista Humberto Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mencionou na segunda reportagem desta série especial, sobre Gilbués, cujo link está alguns parágrafos acima: “Mesmo não conhecendo os termos técnicos, a população tem o conhecimento empírico sobre a desertificação, no interior do Nordeste as pessoas estão adaptadas a conviver com as áreas degradadas”.</p>



<p>O relato de Maurício é também uma síntese da vulnerabilidade da caatinga e do semiárido brasileiro. O mesmo cientista adverte, no entanto, que não se trata de uma fragilidade natural do bioma: “as políticas públicas que são colocadas tornam ela vulnerável. Alguns justificam porque é uma região mais povoada, mas ela poderia ser povoada e não ter nenhuma dessas vulnerabilidades se as políticas públicas tivessem sido dimensionadas para essa população. O que nunca foi prioridade porque sempre houve interesses políticos de mantê-la da forma como ela está”.</p>


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