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	<title>Arquivos direita - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos direita - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Quando a direita se divide, vale tudo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2020 23:00:07 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Afirmar que a esquerda jamais se une e tem dificuldades para superar as mais ínfimas divergências é um lugar comum repetido por analistas políticos e pelos próprios militantes nos momentos que se seguem a uma derrota. A campanha eleitoral de 2020 no Recife indica que o mesmo raciocínio também pode ser aplicado para descrever o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Afirmar que a esquerda jamais se une e tem dificuldades para superar as mais ínfimas divergências é um lugar comum repetido por analistas políticos e pelos próprios militantes nos momentos que se seguem a uma derrota. A campanha eleitoral de 2020 no Recife indica que o mesmo raciocínio também pode ser aplicado para descrever o comportamento da direita e, mais ainda, da extrema-direita.</p>



<p>As trocas de acusações entre candidatos estavam inflamadas antes mesmo do início da campanha, quando os palanques se formavam. Nos grupos de Whatsapp e comunidades de Facebook, o vocabulário utilizado pelos militantes e eleitores é tão ou mais duro quanto os xingamentos direcionados aos petistas, comunistas e a qualquer um que se identifica com as pautas consideradas progressistas.</p>



<p>Entre os principais candidatos de direita, há ataques para todos os lados. O conteúdo porém é um só: tentar desqualificar o oponente questionando sua lealdade ou proximidade com o presidente Jair Bolsonaro, o que parece ser a principal característica a definir quem é merecedor dos votos conservadores. Ou dos 47,5% dos recifenses que votaram nele nas eleições de 2018.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<ul class="wp-block-list"><li>Por ser filiado ao DEM, Mendonça Filho é acusado de ser aliado de Rodrigo Maia e do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>&nbsp;O evangélico Marco Aurélio (PRTB) tem de aguentar seu passado como ex-vice-líder de governo de Geraldo Julio na Câmara Municipal ser trazido à tona.</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>Alberto Feitosa (PSC), que integrou a Frente Popular até 2018, vê suas fotos ao lado de Paulo Câmara, Luciana Santos e Humberto Costa circulando nas redes sociais.</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>O apoio do partido Cidadania, do ex-comunista Roberto Freire, é usado para desqualificar a delegada Patrícia Domingos (Podemos), também associada ao ex-ministro e ex-juiz Sérgio Moro, hoje considerado inimigo pelos bolsonaristas.</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>Até Charbel Maroun (Novo) e Carlos Andrade Lima (PSL), que mal pontuam nas pesquisas, não escapam dos ataques. O primeiro, porque a direção nacional do partido ter punido um candidato em São Paulo que elogiou o presidente da República. O segundo, por ser candidato de Bivar. Daí, ser tido como traidor de Bolsonaro.</li></ul>
</div></div>
</div></div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Direita? Que direita?</strong></h2>



<p>Ao ser questionado sobre o clima de hostilidade e disputa de eleitorado entre os candidatos, o coronel Alberto Feitosa não perdeu tempo: “Quem são os candidatos de direita? A delegada? É de centro, ou até mesmo centro-esquerda. Ela está com o partido que tinha a palavra socialista no nome. Mendoncinha? Centro. Melhor dizendo, centrão. Homem de confiança de Michel Temer. Marco Aurélio eu admito ser de direita, mas é hipócrita”. Segundo Feitosa, o candidato do PRTB seria “hipócrita” por ter sido um dos principais defensores da gestão de Geraldo Julio na Câmara.</p>



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	                                        <p class="m-0">Adversários lembram que, até 2018, Alberto Feitosa vestia camisa vermelha</p>
	                
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<p>A assessoria de Marco Aurélio não respondeu às tentativas de contato, porém nas entrevistas que concede não economiza veneno. Em uma rádio recifense, portou-se como metralhadora giratória.</p>



<p>Primeiro, o alvo foi Mendonça Filho: &#8220;A picaretagem não tem limites. Pode apostar que gente como Mendonça Filho ainda vai ter a cara de pau de aparecer nas eleições de 2020 dizendo estar ao lado de meu pai para ter o voto conservador. O povo não é otário. Quem escreveu foi Eduardo Bolsonaro. Tá lá no Twitter dele é só procurar&#8221;. Depois, Feitosa: “Agradeceu o emprego como presidente da Infraero. Foi nomeado por Lula a pedido de Humberto Costa”.</p>



<p>Candidato de direita mais bem situado nas pesquisas, Mendonça tem chances reais de chegar ao segundo turno e, por isso, evita críticas a possíveis aliados no futuro. Por meio de sua assessoria, avisou que não tinha interesse em participar desta reportagem. A condição de ser um dos favoritos, porém, o transformou em alvo preferencial dos demais direitistas.</p>



<p>Na terça-feira (29), por exemplo, a campanha da delegada Patrícia Domingos distribuiu um meme bem humorado nivelando Mendonça Filho a João Campos e Marília Arraes como políticos que ganharam “mandato da família” e arrumaram “emprego por indicação”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>AntiPT e antiBolson</strong>aro</h3>



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	                                        <p class="m-0">Apoio de Daniel Coelho e Roberto Freire colocou Patrícia na mira dos bolsonaristas (Crédito: Thiago Calazans)</p>
	                
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<p>A delegada Patrícia Domingos tenta se apresentar ao eleitorado de direita se aproximando do figurino da operação Lava Jato e do ex-juiz Sergio Moro. Alcançar os eleitores do bolsonarismo raiz ficou mais difícil depois das declarações do presidente do partido Cidadania, ao qual seu candidato a vice-prefeito, Leo Salazar, e seu coordenador de campanha, Daniel Coelho, são filiados. O ex-deputado federal Roberto Freire afirmou com todas as letras que a delegada “derrotaria o bolsonarismo e os vários lulismos” em Pernambuco.</p>



<p>Em entrevista para a Marco Zero, Patrícia disse que, mesmo após a fala de Freire, não se sente atacada nas redes e parece estar mais preocupada em buscar um eleitorado que vá além da bolha bolsonarista: “Sou candidata para melhorar a vida do povo do Recife. Não penso se o eleitor é A ou B. Não tenho essa preocupação em classificar as pessoas, mas é natural que o nosso eleitor se classifique como mais à direita. Meu projeto é para a cidade do Recife e todos os seus moradores. É para os mais de 70% dos recifenses que querem mudança”.</p>



<p>Mesmo afirmando não sentir os ataques, minimiza a declaração do aliado. “Nosso vice, Leo Salazar, é do Cidadania. O coordenador da nossa campanha é Daniel Coelho, deputado federal do Cidadania, que abriu mão de sua candidatura para nos apoiar. O que observo, sem grande preocupação, é uma necessidade estranha de atrelar a campanha com esse ou aquele, como se a história e o trabalho pessoal de cada um não fosse suficiente para se apresentar aos eleitores. Não me incomoda.”</p>



<h4 class="wp-block-heading">A violência verbal da militância </h4>



<p>Nos grupos de zap e comunidades de Facebook, o tom dos eleitores e militantes é ainda mais áspero. Em grupo, em que dezenas de empresários “conservadores” convivem com candidatos a vereador bolsonaristas, ficou claro que, após a formação das chapas, os integrantes se dividiram entre as candidaturas.&nbsp;</p>



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<p>Entre eles, a fala de Roberto Freire não passou desapercebida. “Com certeza a cara da delegada não enganou, na sabatina já demonstrou que não apoia Bolsonaro. Ela é muito escorregadia, não passa verdade”, afirmou um homem que costuma postar material de campanha de Alberto Feitosa. Sob um link do perfil de Feitosa postado por ele, um simpatizante da campanha de Mendonça rebateu com uma foto do candidato do PSC em campanha junto às cúpulas do PSB, PT e PCdoB, e a provocação: “Eu posso estar enganado, mas vejo Feitosa como um oportunista, do tipo Joice”.</p>



<p>Outro homem nem esperou para rebater, dizendo que “Patrícia é uma liberal política, com a aliança de Daniel que é esquerdista ficou complicado. Agora o PSDB no Recife está com Mendonça, o PSDB não quer derrotar o Bolsonarismo também não?”.</p>



<p>Em relação ao candidato Charbel Maroun, do partido Novo, um dos empresários do grupo arriscou essa definição: “Ele é do time do Soros, FHC, bancando pelo Itaú.” A rejeição ao partido Novo, aliás, tornou-se uma unanimidade nesse grupo, merecendo diariamente comentários de diferentes pessoas, mas com conteúdo semelhante: “Impressionante como esse aí me enganou direitinho viu” ou“Só quem não quer não percebeu ainda que o NOVO é uma farsa. Mais um PSDB e DEM da vida”, além de “O Novo está sendo o reduto dos progressistas. Conservador está sendo direta ou indiretamente expulso”.</p>
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		<title>Na comunidade das frustrações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2015 13:14:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Diego Viana Do Para ler sem olhar Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				Por Diego Viana<br />
Do <a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Para ler sem olhar</a></p>
<div class="entry-content clear">
<p>Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto as medidas destinadas a recolocar a economia nos trilhos parecem ter o efeito contrário. Em que pese tudo isso, a constatação mais interessante de agosto de 2015 é provavelmente o vigor daquilo que poderíamos denominar, sem hesitação, a classe dominante do Brasil – mas com artigo definido: “a” classe dominante.</p>
<p>Sabemos que ela existe; sempre há algo como uma classe dominante, e não é só aqui. Podemos até descrevê-la, apontar quem faz parte dela, citar o latifúndio, as “doze famílias” da mídia – se é que são mesmo doze –, os industriais de São Paulo, o sistema financeiro. Mas não é todo dia que a vemos em ação, mobilizada em um esforço concentrado, com a cara à mostra. No mínimo, é instrutivo. E também sintomático.</p>
<p>Como se sabe, os itens a serem levados ao parlamento sob o título de <a href="http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/08/10/conheca-a-agenda-brasil-tentativa-do-governo-para-debelar-a-crise/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“Agenda Brasil”</a> – note-se como o nome, deliberadamente, não denota coisa alguma (fora o anglicismo) – resultam de uma concertação ágil e veloz. Segundo consta, a iniciativa partiu dos proprietários do maior grupo de comunicação do país, envolveu as entidades de classe do setor produtivo no Sudeste, também abarcou as confederações de indústria e agronegócio, e por fim foi costurado pelo presidente do Senado, em diálogo direto com o ministro da Fazenda. Talvez essa seqüência esteja trocada, mas que importa? O dado relevante é vermos mídia, indústria, agronegócio, dinastias políticas, todos amalgamados e abençoados pelo sistema financeiro.</p>
<p>O que convenceu esse conjunto de poderosos a deixar os bastidores, mesmo que momentaneamente, parece ter sido a bagunça (e essa é realmente a melhor palavra) da conjuntura política. Nada garante que essa bagunça vá se dissipar, já que não temos motivos para achar que a cúpula do Executivo vai aprender a fazer política da noite para o dia – depois de tanto tempo?! E com a saída de Michel Temer da articulação política, essa hipótese parece ainda mais absurda. O que significa que mesmo o acordão de cúpula pode ruir, a depender da sorte de Dilma Rousseff com o TCU e o destino que esteja reservado para Eduardo Cunha – que já deu mostras de que quer sabotar também esse acordão, comprando briga com os poderosos que estão incomodados com ele.</p>
<p>Isso para não falar da economia…</p>
<p>Ainda assim, pode ser amargo, mas também é interessante observar à distância a destreza e a desenvoltura com que nossa classe dominante age e decide o futuro do país, quando julga necessário. Uma desenvoltura que ficou intocada nesses 27 anos de Nova República, sem sofrer um arranhão sequer desde a adoção da Constituição de 1988, nem com os avanços atribuídos aos tucanos, como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem com aqueles atribuídos aos petistas, como a inclusão de renda e a expansão do mercado interno.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Se, por um lado, possuir uma classe dominante que paira impávida acima do sistema político está longe de ser algo aberrante – basta ver o que se passou nos EUA e na Europa desde a crise de 2008 –, por outro também parece que estamos assistindo a um evento com cara e cheiro de Brasil. Da dissolução da primeira constituinte em 1823 à proclamação da República, da reforma urbana de Pereira Passos à revolução de 30, do Estado Novo às cassações de 1964 e ao AI-5, decisões verticais em momentos graves são recorrentes.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>1</sup></a></span></sup></p>
<p>Os itens divulgados da tal agenda, em suas diferentes versões e mesmo ainda na forma de meras intenções, são talhados com toda a clareza para satisfazer a interesses, muitos deles imediatistas, de quem controla o PIB brasileiro. A começar pelo agronegócio e as empreiteiras, com as infames medidas para agilizar a concessão de licenças ambientais, como se estivéssemos com falta de desastres ecológicos nas megaobras e nos latifúndios país afora. Como se a estação de Cabrobó, recém-inaugurada, não fosse feita para transpor água de um rio São Francisco <a href="http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2012/09/25/interna_vidaurbana,398575/pesquisadores-anunciam-a-extincao-inexoravel-do-rio-sao-francisco.shtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">que está secando</a>. E, se há claramente problemas no sistema tributário e na legislação trabalhista, a regularização dos terceirizados, tal como proposta, fará pouco para reduzir a discrepância entre o “empregado sortudo e privilegiado” e o trabalhador precário, “pejotizado”, e muito para garantir que corporações tratem o trabalho ainda pior do que já tratam.</p>
<p>Considerações de maior envergadura, que antecipem tendências globais inclusive já anunciadas, como o imperativo sustentável e o redesenho da estrutura produtiva global, estão inteiramente ausentes, substituídas por um termo polivalente e ambíguo: a “competitividade”. Mas a competitividade de um miserável país de latifúndios e baixo valor agregado é incompatível com a de um país sustentável e pujante, do mesmo modo que o sentido do desenvolvimento na era do aço e do carvão é um e na era do byte e do painel solar é outro. A “agenda Brasil”, por trás de seu silêncio, já carrega uma escolha nesse mar de distinções – infelizmente, a <a href="http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n112/04.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">mesma escolha</a> que o círculo de Dilma já tinha feito.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1593" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448.jpg?w=696" alt="af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448" /></p>
<p>Outro problema, igualmente grave, de uma carta de intenções tão extensa, que se aproveita daquilo mesmo que pretensamente viria resolver – o momento de desarticulação completa tanto na esquerda como no centro (precisamos ter isso em mente!) –, é que ela lança a uma condição secundária todo o processo político, as negociações entre diferentes grupos de interesse e representantes de classe, a busca de soluções intermediárias (chamadas também de soluções “de compromisso”, em mais um anglicismo – não que eu seja necessariamente contra os anglicismos). Todas essas coisas que fazem da democracia parlamentar um regime mais maleável e palatável que qualquer outro já experimentado – como na famosa frase de Churchill.</p>
<p>É verdade que tudo que está proposto ali ainda vai passar pelo Congresso, o que é da natureza da democracia parlamentar, com todos os seus defeitos. Mas o que há de mais despolitizante e no caso da “agenda Brasil” é o próprio acordo de bastidores. Com o pano de fundo de toda a nossa história de soluções verticais para a política e a economia – se não citei acima o mais descarado de todos, cito agora: o <a href="http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CONV%C3%8ANIO%20DE%20TAUBAT%C3%89.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">convênio de Taubaté</a> –, fica difícil evitar a sensação de que a posição secundária reservada à política propriamente dita é como o seu “lugar natural” no Brasil, o que daria razão a Sérgio Buarque de Holanda quando ele escreve que a democracia no Brasil é um <a href="http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v26n76/03.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“lamentável mal-entendido”</a>. Será que continua sendo assim, depois de tantas gerações, tantas lutas – tanto sangue, suor e lágrimas, para citar Churchill mais uma vez?</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pensamentos negativos, esses. Mas o estranho nisso tudo é que não há como dizer que o país esteja na pasmaceira, despolitizado e desinteressado dos assuntos de Brasília. Temos, afinal, manifestações a rodo, múltiplas e desconexas, desde o famoso junho de 2013 até os “Fora Dilma”, passando pelo “Não Vai Ter Copa” do ano passado e as contraposições governistas, mas encabuladas, aos protestos de direita – e os panelaços, claro. As contradições do Brasil estão perfeitamente explícitas nesses episódios todos: da escolha de quem a polícia e a Justiça reprimirá, sob aplausos de todo o espectro político institucional e com instrumentos bem questionáveis do ponto de vista legal (que o diga Rafael Braga Vieira, preso por porte de Pinho Sol) até a estranha mistura de recusa à corrupção com uniformes da CBF, passando pelos aplausos a uma das polícias mais brutais e corruptas do universo. Eu diria que o momento histórico já está merecendo o epíteto “decisivo”.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1588" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/commodi6.jpg?w=550&amp;h=521" alt="Commodi6" width="550" height="521" /></p>
<p>A rigor, o que se pode dizer não é que o país esteja paralisado ou desmobilizado – antes o contrário, isso era o que se dizia antes de 2013 – mas que está amarrado, rodando em falso, tateando às escuras. De um lado, com dificuldade em desapegar-se do PT, ou já desapegados desse partido mas sem ter outro ao qual se referenciar, aqueles com sensibilidade de centro-esquerda sentem que estão no meio de um túnel escuro, com uma luz no fundo se aproximando em alta velocidade, apitando e cheirando a fumaça.</p>
<p>De outro lado, os que têm sensibilidade de centro-direita abrem os jornais e dão com os representantes do partido que poderia acolher seus sentimentos – refiro-me ao PSDB – emitindo declarações cada vez mais tacanhas e retrógradas. E, muitas vezes, nada mais do que tolas. Sem falar na incompetência de um governador que deixa sua capital sem água (e depois mente sem enrubescer, dizendo que isso não aconteceu). Não é sem motivo que se refugiam no mero anti-petismo, sem grande desenvolvimento programático. Em certa medida, é um caso de escapismo.</p>
<p>Assim, na falta das âncoras do que um dia foi o centro, sem ninguém investido de suficiente autoridade moral para, como dizia Fernando Henrique, “administrar o atraso”, o caminho da hegemonia e até, cruz credo, do poder está desimpedido para toda uma malta de fundamentalistas religiosos, saudosos da ditadura, adoradores da truculência policial e qualquer grupelho de desvairados pretensamente politizados, desses cujos cartazes os sensatos – porém órfãos – se comprazem em ironizar, como se esse sarcasmo todo fosse conter a enxurrada do retrocesso.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pois é justamente nesse momento que vemos costurar-se um acordo de cúpula operado pela tal classe dominante, e para ela mesma, por cima das nossas cabeças. Um acordo que (repito) se aproveita da própria situação que supostamente vem resolver: a tibieza nos círculos centrais, normalmente os mais parrudos, do sistema político; o Executivo politicamente incapaz e administrativamente imóvel; a Câmara dos Deputados entregue a interesses pessoais e delírios fundamentalistas; a desconfiança global com a economia brasileira. A contrapartida que nos oferecem, se é que se pode falar assim, é a permanência da mandatária no poder, para alegria de seus parcos correligionários restantes – mas como no máximo um fantoche, uma vez que sua equipe já deu inúmeras mostras de incapacidade para recuperar o poder de iniciativa.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2sym" name="sdfootnote2anc"><sup>2</sup></a></span></sup></p>
<p>Fico me perguntando qual seria o resultado, se o acordo e a “agenda Brasil” forem bem-sucedidos em manter Dilma no posto até o fim do mandato. Afinal, as energias que estão à solta nas ruas do Brasil, a começar pelas do “Fora Dilma” (mas de jeito nenhum se limitando a elas) não vão simplesmente se dissipar. A erosão lenta do PT nesse período não vai contribuir para a elaboração de novas forças de centro-esquerda, assim como a fixação de parte do PSDB com o impeachment – bem como o jogo de caciques do resto do partido – vai manter a centro-direita anestesiada e satisfeita em andar a reboque do extremismo conservador.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3sym" name="sdfootnote3anc"><sup>3</sup></a></span></sup> Em uma palavra, repetida três vezes: frustração, frustração, frustração.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1594" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142c5ac750e3750d142.png?w=550&amp;h=400" alt="screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142C5AC750E3750D142" width="550" height="400" /></p>
<p>Há outros pontos nevrálgicos no Brasil contemporâneo onde a frustração pode já estar construindo comportamentos e narrativas insensatos – a frustração é péssima conselheira. Vendeu-se na última década a idéia do Brasil Grande, Brasil Potência, Brasil quinta maior economia, Brasil desenvolvido, sem miséria e assim por diante. Vendeu-se a idéia de que seríamos um país de classe média e que todos teriam chances na vida. De uns tempos para cá, essa imagem ficou reduzida às viagens de avião e ao consumo de roupas e eletrônicos, como no já longínquo episódio do rolezinho – que no entanto ocorreu há menos de dois anos. Mas há elementos muito mais essenciais.</p>
<p>O caso das faculdades, por exemplo. O jovem da classe C, ou “nova classe média”, como se dizia, via no acesso ao ensino superior a porta de entrada para o respeito. Melhor dizendo, o <a href="http://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/ojs/index.php/civitas/article/view/4319" target="_blank" rel="noopener noreferrer">reconhecimento</a>. A bolsa do Fies, o ProUni e, mais tarde, o Ciência Sem Fronteiras seriam o caminho para uma carreira de sucesso, algo como um “sonho americano” em que o diploma exerceria um papel crucial. E agora, com cortes no CsF e com um quadro recessivo intenso, como vai reagir quem acreditou nesse sonho, se endividou, passou anos dormindo poucas horas por noite para poder conciliar trabalho e estudo? Alguém que se dá conta de que a faculdade que fez é de baixíssima qualidade; que o mercado de trabalho, não bastasse encolher, ainda por cima esnoba o fruto de tanto esforço?<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4sym" name="sdfootnote4anc"><sup>4</sup></a></span></sup></p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Uma das falhas das narrativas polarizadoras, à direita (“petralhas!”) como à esquerda (“coxinhas!”), é fechar os olhos justamente para essa comunidade das frustrações. Pensando bem, chega a ser engraçado se dar conta de que existe um abraço de afogados entre gente que se odeia tanto. Nessa comunidade das frustrações há espaço para todos nós, incluindo aqueles que chegamos a crer, em algum momento, que seria dado um salto quântico na política deste país, e também no dia-a-dia social, quando a miséria extrema fosse erradicada, inviabilizando alguns dos modos pelos quais as oligarquias se perpetuam. Pode até ser (quem sabe?) que esse vácuo, esse impasse, tenha origem numa ainda invisível derrocada das oligarquias… Mas seria invisível mesmo: hoje, tudo que podemos ver é o exato oposto, a oligarquia propondo um acordão de cúpula para superar o impasse da maneira que mais a beneficie. A ela e mais ninguém.</p>
<p>É preciso enxergar melhor essa comunidade da frustração, que transparece, por exemplo, na heterogeneidade das opiniões que uma <a href="http://gpopai.usp.br/pesquisa" target="_blank" rel="noopener noreferrer">pesquisa realizada por universidades paulistas</a> captou nas manifestações “Fora Dilma” do dia 16. Em primeiro lugar: como bem apontaram seus detratores, de fato, verdade verdadeira, a grande maioria das pessoas que ali estavam eram brancas, eleitoras de Aécio Neves em 2014, detentoras de diplomas universitários. São contra cotas (62%) e são punitivistas (60%). O que justificaria, pelo visto, tachá-los de elite, “elite branca”, ou, como eu dizia meses atrás, <a href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/03/21/o-impasse-e-os-impasses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“a elite que não é elite”</a>.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1001" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg" alt="5diego" width="550" height="334" /></a></p>
<p>Mas os tais detratores preferiram ignorar que essa mesma pesquisa aponta nas nossas “manifestações de direita” a concordância “total” com a saúde pública para todos (88%) e gratuita (74%), a educação pública para todos (92%) e gratuita (87%), e com o transporte coletivo (72%) – que poderia ser gratuito, com concordância total ou parcial, para 50,4%. Isso mesmo: metade dos manifestantes “de direita e saudosos da ditadura” vêem algum sentido na idéia de tarifa zero, o que os coloca em linha com os anarquistas do MPL. A mesma multidão supostamente ultra-capitalista rejeita em massa (73%) o financiamento empresarial de campanha.</p>
<p>Acontece que uma multidão como aquela pode parecer um grande bloco quando vista nas fotografias à distância, e mais ainda nos recortes feitos com interesses precisos, ao elencar os cartazes mais esquisitos e os personagens mais pitorescos, como o já batido “por que não mataram todos em 64”. Mas multidões não se deixam apreender assim. Elas costumam se comportar menos como o gado conduzido ao abatedouro e mais como os íons de um campo eletromagnético ainda não polarizado, vinculados por ligações fracas; e no caso dessa multidão de agosto, ligações até mesmo circunstanciais, como a rejeição enfática a um governo em particular.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>O quadro se torna ainda mais heterogêneo se incorporarmos a ele aqueles que rejeitam o governo sem participarem das manifestações – nas periferias, por exemplo. E mais heterogêneo ainda quando lembramos de tantos grupos de esquerda que estiveram nas ruas entre junho de 2013 e o “Não Vai Ter Copa” – sem falar nas manifestações do Movimento Passe Livre também este ano em São Paulo e Belo Horizonte, as greves de professores no Paraná e em São Paulo, a resistência de índios e ribeirinhos em Belo Monte. É muita energia se acumulando, muita raiva, muita hostilidade. E muita repressão, sem dúvida, o que não ajuda em nada. Acima de tudo, muita frustração, o afeto-rei da política brasileira em 2015.</p>
<p>Não consigo deixar de ver uma boa dose dessa frustração no recrudescimento da violência quotidiana, social, que se materializa em massacres como o do Cabula, chacinas como a de Osasco, linchamentos em diversas cidades, estupros recorrentes (fiquei particularmente chocado com um dos casos ocorridos no metrô de São Paulo, felizmente não consumado), ataques a transexuais, atentados contra religiões de matriz africana, a polícia do Rio barrando jovens negros, suburbanos, que queriam ir à praia. Talvez em outra escala, o mesmo valha para a guerra em torno das ciclovias “do Haddad” em São Paulo – na verdade, em torno de qualquer iniciativa do prefeito petista. Com o risco de soar especulativo, anti-científico e o cacete, sinto que tudo isso manifesta uma tensão crescente: as pessoas estão com os nervos à flor da pele e os caminhos mais sensatos para discutir a convivência social estão fechados no Brasil.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-1002 alignright" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg" alt="6diego" width="300" height="401" /></a></p>
<p>Tentando clarear um pouco o quadro, eu poderia tentar vincular tudo isso aí acima às expectativas dos diferentes segmentos sociais, tal como expressas, por exemplo, em 2010, o ano do “crescimento chinês”. Uma nova estrutura social, dizia-se, em forma de losango e não mais pirâmide, traria um novo ciclo de desenvolvimento, ao custo dos privilégios de alguns poucos. Quais privilégios? Talvez a falha trágica esteja em não se ter tocado nessa pergunta, levantando assuntos sensíveis e cruciais como o latifúndio, o patrimonialismo e a carteirada. Falou-se bastante em baixar os juros (parece que isso ficou para as calendas gregas) e no fim do trabalho doméstico. E só.</p>
<p>É claro que este último item já seria uma enorme conquista, mas dificilmente viria sozinho e se estabeleceria de maneira duradoura. De fato, continuaremos a ser uns escravocratas mal disfarçados enquanto qualquer assalariado puder contar com uma doméstica em casa. “Ter uma empregada”, como se diz. Qualquer gerente, qualquer assistente. No Brasil, até algumas empregadas domésticas têm empregadas domésticas! Mas não é só a empregada, claro, embora essa seja uma figura paradigmática. O que dizer de porteiros para abrir a porta do elevador, restaurantes com um garçom para cada duas mesas, postos de gasolina cheios de frentistas?</p>
<p>Mas veio o crescimento. Vieram o ProUni e o Fies. Filhos de trabalhadores precários, domésticos em particular, puderam tentar profissões mais bem pagas e consideradas mais dignas. O custo desse trabalho começou a subir e a gritaria foi tão violenta que camponeses da China ouviram e ficaram se perguntando de onde vinha tanta barulheira. Por causa de um único, mísero privilégio ameaçado. Finalmente, estávamos diante da perspectiva de que alguns não seriam mais obrigados a se humilhar e outros teriam de tomar conta da própria vida. E foi um pandemônio.</p>
<p>Acontece que parou por aí. Para contra-atacar a ofensiva anti-governista, os defensores de Dilma podem perfeitamente invocar a raiva de uma elite que vê seus privilégios ameaçados – um deles, pelo menos. “Agora pobre anda de avião e faz faculdade”, como se diz. E o que mais? Os ruralistas seguem exaurindo as terras e metendo a grana no bolso. Os bancos continuam sendo alimentados como gansos de <i>foie gras</i> pelos juros usados para segurar o câmbio e, com ele, a inflação. A mídia continua absurdamente concentrada. Os elefantes brancos da Copa, a poluição e as remoções na “Cidade Olímpica” e e o ecocídio de Belo Monte estão aí para mostrar que o único temor que um empreiteiro precisa ter hoje no Brasil é o de passar uma breve temporada na cadeia. E depois voltar à rotina.</p>
<p>Paradoxo! Mais um para a interminável coleção brasileira: é perfeitamente verdadeira a raiva por causa de privilégios perdidos… e é perfeitamente verdadeira a manutenção dos privilégios históricos. Isto aqui, ô-ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Momentos como este, que misturam agressividade, imobilismo e frustração, sugerem a aproximação de um clímax catártico. Talvez a ascensão de um líder muito carismático, para o bem ou para o mal, arrastando multidões com a promessa de eliminar a sujeira ou reconquistar a pujança nacional, algo assim. Talvez uma guerra civil, um golpe de Estado, um colapso financeiro. Já passamos por algumas dessas experiências, e até mais: tivemos também um suicídio.</p>
<p>A esta altura, uma possível catarse seria o tão propalado impeachment de Dilma, com suas variantes – impugnação da chapa, renúncia, licença médica. Fico imaginando como seria esse momento (talvez eu descubra logo), dado o nível de tensão em que as pessoas se encontram. Seria certamente uma imagem impactante, o retrato vivo da destruição do PT, que alguns iam vivenciar como epifania e outros tentariam retratar com tintas de tragédia – Dilma, aliás, certamente tem cara de quem se esforçaria para ser um Creonte do planalto central…</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1003" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg" alt="7diego" width="550" height="309" /></a></p>
<p>É mesmo preciso discutir a sério o que seria essa catarse, o que ela implicaria, o que viria depois, a quem interessa – e o que podemos esperar caso ela não ocorra. Esta última hipótese talvez seja a mais fácil de responder: a tensão continuaria crescendo, o PT continuaria sendo carcomido, os tucanos continuariam em suas disputas de caciques. As sensibilidades mais ao centro, esquerda como direita, seguiriam órfãs, e talvez pudéssemos torcer avidamente pela recomposição de outras forças para ocupar esse espaço antes que sobrevenha a próxima reviravolta – ou, para seguir na analogia teatral, a próxima peripécia –, que seria cataclísmica. Caso contrário, vozes no estilo Reinaldo Azevedo vão encontrar cada vez mais ressonância e cada vez mais hidrófobos passariam à ação. Para não falar em personagens terríveis, daqueles que circulam pelo meio político e podem fazer leis, controlar orçamentos públicos, gozar de imunidade parlamentar…</p>
<p>Sobre a catarse de um impeachment ou renúncia, meu medo é que ocorra o exato oposto disso: que as tensões se acalmem de uma vez só – o que seria uma ilusão temporária, sem dúvida. Nesse cenário, Dilma desceria a rampa, em grande medida, com o figurino de um bode expiatório, sacrificado pela pólis (estranha pólis, essa nossa) para expurgar nossas incontáveis transgressões. Não é por acaso que um dos maiores interessados em manter de pé a tese do impeachment (mas talvez não levá-lo a cabo) é justamente Cunha, no esforço de enfraquecer o governo e afastar de si próprio o perigo espectral das investigações de corrupção.</p>
<p>Na imaginação simplória de muita gente, a remoção do PT do poder significaria o sucesso do combate à corrupção, a realização definitiva de um processo acompanhado com avidez; daí por diante, nada mais seria necessário fazer, o problema estaria resolvido, o mal cortado pela raiz. Seria possível voltar ao dia-a-dia, ao “business as usual”, à vida de sempre. Mas a vida de sempre, no Brasil, bem sabemos o quanto envolve a violência, a corrupção, o déficit democrático. Sangra o boi de piranha, a boiada segue firme, pisoteando o território.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1004" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg" alt="8diego" width="550" height="293" /></a></p>
<p>Escoar todas as frustrações pelo buraco negro de um impeachment poderia ter a vantagem de evitar a explosão que se anuncia, mas seria uma solução falsa, que removeria o ímpeto daquela que talvez seja a única boa notícia do momento: a ofensiva contra as relações incestuosas entre grande capital e grande política no Brasil, que são, não custa lembrar, generalizadas e suprapartidárias (prefiro dizer: diapartidárias). Passado o momento catártico, permaneceria o rancor. Novas frustrações se somariam às já existentes quando ficasse claro o quanto as estruturas permanecem intocadas – estruturas que sustentam o incesto mencionado acima.</p>
<p>Muitos da multidão presente no “Fora Dilma” se sentiriam traídos e, mais uma vez, frustrados. Mas é bastante comum que mobilizações multitudinárias acabem resultando em transformações políticas que em nada lembram as reivindicações originais dos protestos; está aí a Primavera Árabe que não me deixa mentir. Acontece que, ao provocar um curto-circuito no exercício quotidiano do poder, essas mobilizações abrem espaço para oa ação de outras forças e outros poderes, em geral mais organizados e com objetivos mais claros que os seus. No nosso caso, ainda não chegamos a esse ponto, já que a tal classe dominante entrou em ação.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Isso tudo é o que caracteriza o impasse, o mato-sem-cachorro, o vai-não-vai. Estamos entre dois pólos. Aqui, uma catarse que nada resolve, mas passa a impressão de resolver, para a alegria dos eventuais sobreviventes – Cunha à testa. Ali, o acordão que tudo resolve, mas seria melhor que não resolvesse, porque só resolve para uns e deixa o abacaxi na mão de todos os demais – você e eu, basicamente. No meio, um governo que já se demonstrou inviável em inúmeras ocasiões desde 2011, incapaz de garantir vitórias parlamentares com segurança mesmo nos momentos de maior apoio popular, e hoje sem quase nenhuma popularidade, nenhum poder de iniciativa e nenhum diálogo com as próprias bases, isto é, com o que um dia foram suas bases.</p>
<p>Seguimos assistindo ao desenrolar da trama em nossa comunidade de frustrações, em nosso abraço de afogados. Seguimos torcendo pelos nossos grupos políticos favoritos e odiando uns aos outros. Seguimos acompanhando as chacinas reiteradas e a dissolução dos códigos de convívio social, acusados de “defender bandido” e outras imbecilidades. Aqui na terra, como diz Chico Buarque, vão jogando futebol; mas cada vez pior, e nem uma goleada em casa por 7 a 1 nos dá forças para derrubar o <i>Ancien Régime</i>. E seguindo com Chico – já que citei o pai, cito o filho também: uns dias chove (cada vez menos), outros dias bate sol (cada vez mais forte), “mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.</p>
<p class="western" lang="pt-BR" style="text-align: center;"><strong>NOTINHAS</strong></p>
<div id="sdfootnote1">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">1</a><span lang="pt-BR">Há também os exemplos que contaram com expressivo apoio popular, como a candidatura de Tancredo (depois de rejeitada a emenda Dante de Oliveira) e a derrubada de Collor.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote2">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2anc" name="sdfootnote2sym">2</a><span lang="pt-BR">É especialmente difícil analisar uma conjuntura em que uma das principais variáveis é a incompetência e o comportamento errático de um pequeno grupo de indivíduos que ocupam uma posição central. Nos últimos meses, até anos, houve várias ocasiões em que portas se abriram para que o governo saísse das cordas, e ele mesmo preferiu continuar levando bordoadas. Não dá para explicar. Tudo seria muito diferente com lideranças mais sagazes.<br />
</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote3">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3anc" name="sdfootnote3sym">3</a><span lang="pt-BR">Que está estranhamente misturado a grupos ultra-liberais em economia, composto por jovens incultos que importaram suas idéias de neo-conservadores americanos, já desqualificados em seu próprio país.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote4">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4anc" name="sdfootnote4sym">4</a><span lang="pt-BR">No que está muitas vezes enganado, diga-se. O diploma de uma péssima faculdade, na mão de um formando esforçado e ambicioso, pode valer bem mais do que o de muitos colegas que tive da USP.</span></p>
<p class="western">
</div>
</div>
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		<title>A disputa política nas periferias</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jul 2015 18:12:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Em entrevista à Agência Pública, o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP, fala sobre como se dá a polarização política nas comunidades periféricas Por Marina Amaral Da Agência Pública O jovem brasileiro da periferia passa cada vez mais longe da polarização esquerda versus direita, explica o professor Gabriel Feltran, do Centro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				<em>Em entrevista à Agência Pública, o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP, fala sobre como se dá a polarização política nas comunidades periféricas</em></p>
<p>Por Marina Amaral<br />
Da <a href="http://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Agência Pública</a></p>
<p><div id="attachment_887" style="width: 270px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/07/gabriel-feltran.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-887" class="size-full wp-image-887" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/07/gabriel-feltran.jpg" alt="Gabriel Feltran, professor do Centro de Estudos da Metrópole da USP" width="260" height="335" /></a><p id="caption-attachment-887" class="wp-caption-text">Gabriel Feltran, professor do Centro de Estudos da Metrópole da USP</p></div></p>
<p>O jovem brasileiro da periferia passa cada vez mais longe da polarização esquerda <em>versus</em> direita, explica o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP. No entanto, para o professor, a agenda da meritocracia, da redução do papel do Estado e da “liberdade individual” é fortemente rechaçada. “O pentecostalismo, a possibilidade de consumir, a polaridade racial ou a ‘vida loka’ são hoje matrizes de elaboração das próprias vidas muito mais importantes do que a ‘esquerda’ institucional. E essas matrizes movem o cenário político para direção ainda desconhecida.” Leia a entrevista, concedida durante a apuração da reportagem “<a href="http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">A Nova Roupa da Direita</a>“.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Como a polarização entre direita e esquerda que se vê principalmente nas redes sociais chega aos meninos da periferia, das favelas?</b></p>
<p>Boa parte dos meninos e meninas das favelas vive a “crítica ao sistema” de modo muito intenso e cotidiano. A polarização entre os “bacanas, playboys, madames” e os “pretos, pobres, periféricos” é cada vez mais clara dos dois lados. Em geral, jovens pobres são muito mais críticos do que as “esquerdas” da Vila Madalena. Mas o registro pelo qual essa crítica social é expressa, nas periferias, passa cada vez mais longe da polarização esquerda <em>versus</em> direita ou de uma elaboração discursiva nos marcos da política tradicional. Passa pelas letras de rap, pela estética do funk, pela racialização, pelo estilo de vida, ou seja, por outros caminhos. Não é o registro da política institucional, dos movimentos de esquerda tradicionais, que abriga as noções críticas que eles carregam. O pentecostalismo, a possibilidade de consumir, a polaridade racial ou a “vida loka” são hoje matrizes de elaboração das próprias vidas muito mais importantes do que a “esquerda” institucional. E essas matrizes movem o cenário político para direção ainda desconhecida. O que se percebe, transitando entre favelas e elites, é que a metáfora da guerra (inimigos a combater) parece fazer mais sentido para pensar a política hoje do que a metáfora da democracia (comunidade de cidadãos).</p>
<p><b>No sentido que se ouve tanto “não me representa” em relação aos políticos, como seria?</b></p>
<p>Tenho trabalhado com a ideia de regimes normativos distintos. Não há só uma lei ou um direito no estado de São Paulo. Há diversas, e se vive operando um repertório de normas, plausibilidades. Se você foi roubado na favela, não deve chamar a polícia, mas os irmãos do PCC. Se tem um problema de saúde, vai ao posto. Se o problema é trabalhista, vai à Justiça do Trabalho. Se é um filho no crack, tem um pastor para ouvi-lo, encaminhá-lo a uma clínica. Cada um desses encaminhamentos, entretanto, opera com valores, códigos de conduta e princípios morais distintos. A política institucional é só um código a mais, na verdade distante, que se aciona quando e como possível.</p>
<p><b>Houve uma grande queda de votos no PT nas periferias nas últimas eleições. A que o senhor atribui essa guinada? É uma virada à direita ou simplesmente descontentamento com o PT?</b></p>
<p>Há bastante tempo o sindicalismo operário, a Igreja Católica e os grupos de esquerda militante, base inicial do PT, abandonaram o trabalho de base nas favelas, periferias, que fizeram intensamente até os anos 80. O PT passou a disputar postos de poder estatal e, principalmente, de mercado. Suas “bases” reais são no empresariado e em partidos de aluguel há tempos. Há outros grupos, entretanto, disputando corações e mentes nas periferias: pastores, MCs, irmãos e disciplinas, grupos de autoajuda, entre vários outros. No momento da eleição, parte significativa desses atores não trabalha pelo PT, mas por outros candidatos.</p>
<p><b>Essa juventude com quem o senhor trabalha participou das manifestações contra o governo? Em caso positivo, por quê?</b></p>
<p>Não participou, não. Talvez haja exceções, mas seguramente não organicamente. Nas favelas, quase todo jovem sabe que essas falas “contra o governo Dilma” são, na verdade, elitismo e racismo mal disfarçados. A pauta da “corrupção” reforça a ideia de que todos são corruptos.</p>
<p><b>A juventude da direita tem em seus principais pontos a “meritocracia”, a redução do papel do Estado – e das políticas públicas –, a defesa da propriedade privada e da “liberdade individual”. De que modo essa agenda poderia atrair a juventude negra, pobre e excluída? A ideia do “individuo contra o Estado” tem algum apelo?</b></p>
<p>Essa agenda é fortemente rechaçada nas periferias, claro. Um “preto” sabe o quanto a meritocracia é perversa, o quanto há bloqueios para que ele chegue às universidades, o quanto o país é desigual. Conhece a hipocrisia das nossas elites, porque trabalha como lixeiro, catador, entregador de panfleto, motoboy, servente, atendente, auxiliar de serviços gerais, garçom. E também como camelô, faxineiro, flanelinha, cambista, sem falar dos mercados criminalizados. São Paulo tem 1 milhão de ex-presidiários, mais de 200 mil presos, dezenas de milhares em unidades de internação, clínicas de reabilitação, albergues. Só a cidade de São Paulo tem mais de 10 mil moradores de rua. As famílias diretas dessas pessoas, submetidas a todo tipo de humilhação cotidiana, somam de 15% a 20% da população do estado. Essas pessoas convivem com os “brancos” de uma posição específica, que permite muita reflexão, muita compreensão. E trocam muitas percepções entre elas, construindo valores e posições bem consistentes. Em suma, eles conhecem “o sistema”; meu trabalho de pesquisa é, basicamente, <i>traduzir</i> esses saberes numa gramática compreensível também para outros setores sociais.</p>
<p><b>O fato de o Lula ser operário, nordestino, muda alguma coisa? </b></p>
<p>Faz toda a diferença, claro. Mas Lula é Lula, Dilma é Dilma, Haddad é Haddad. As experiências pessoais importam, mas não é a lógica de partidos políticos a que mais importa, como eu dizia.</p>
<p>E<b>ssa polarização “playboys” e “pretos”. Tem preto que vira playboy ou quer virar playboy?</b></p>
<p>Tem sim, mas como os Racionais já diziam, há quase 20 anos, aí um “Preto Tipo A” vira um “neguinho”. Querer consumir as mesmas marcas ou desejar as mesmas motos dos “playboys” não se faz para se parecer com eles. Esse consumo é, ao contrário, elaborado como uma afronta a eles. Você não me queria aqui, mas aqui estou. Uma coisa é você ser pobre e andar de ônibus. Outra é ser pobre e andar com uma moto 1100 cilindradas. Ou não é?</p>
<p><strong>A</strong><b> escola, uma profissão, isso é visto como possibilidade de melhoria de vida?</b></p>
<p>Claro que sim, demais. Tomar o metrô às 11h da noite é ver uma multidão de jovens das periferias voltando da faculdade, depois de um dia todo de trabalho. O mercado de trabalho é praticamente bloqueado para quem não teve estudo. Por isso mesmo, para os que não conseguiram estudar, sendo ainda jovens, só restam os mercados mais subalternos: informais e, sobretudo, ilegais. Quem não quer isso para si, tendo o mínimo de condições, vai fazer jornada tripla e tentar se formar. Ainda assim, terá muita dificuldade para competir com os filhos das classes médias e elites no mercado<b>.</b></p>
<p><b>Tem playboy que pode ser mano ou não tem como?</b></p>
<p>A comunidade política que se elabora nas periferias tem como base uma atitude, o “proceder”, fortemente moralizado – paz, justiça, liberdade, igualdade, união são valores muito prezados. E não são universais; sabe-se que os inimigos não agem assim, e inimigos estão tanto dentro quanto fora das periferias. Alguém que “defende o pobre no tribunal”, por exemplo, pode ser visto como parceiro, aliado. Mas alguém que quer parecer malandro, falando “gíria”, não<b>.</b></p>
<p>Há fronteiras muito tensas que permitem passagens controladas, reguladas, entre os lados. Fronteiras que dependem das situações, das reputações, das performances sociais cotidianas. Mas hoje essa polaridade é muito forte. Quando ando com meninos do fundo das favelas pela cidade, reparo no estranhamento absoluto que essas companhias produzem. Quando eu mesmo ando pelas favelas, pelas biqueiras, bares, pela cracolândia, vejo como minha presença também causa estranhamento ali. Mas sem dúvida, as favelas são muito mais inclusivas, menos preconceituosas, e muito menos perigosas para o estrangeiro do que os ambientes de elite.</p>
<p><b>E a religião? É uma ponte de inserção?</b></p>
<p>Na perspectiva com que trabalhamos, em grupo, não há exclusão. Há muita opressão, mas ninguém está fora do social. O dinheiro que se ganha com o tráfico de drogas, por exemplo, é gasto no shopping center, alimentando o mercado formal. Colocar centenas de milhares na cadeia não os isola do mundo social, mas, ao contrário, os inscreve muito fortemente no mundo reflexivo, crítico e criminal ao mesmo tempo.</p>
<p>A enorme maioria dos moradores das periferias são religiosos, de religiões tão díspares quanto o catolicismo, o pentecostalismo e o candomblé. Os evangélicos têm tido cada vez mais presença na disputa de recursos estatais, de comunicação, de mercado, de ações sociais e de construção das concepções de mundo.</p>
<p>&nbsp;		</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-disputa-politica-nas-periferias/">A disputa política nas periferias</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>A roupa nova da direita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2015 00:58:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Rede de think tanks conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com uma nova linguagem Por  Marina Amaral Da Agência Pública “O corpo é a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de nós decidir o que quer fazer com ele”, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				<em>Rede de think tanks conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com uma nova linguagem</em></p>
<p>Por  Marina Amaral<br />
Da <a href="http://apublica.org" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Agência Pública</a></p>
<p>“O corpo é a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de nós decidir o que quer fazer com ele”, brada em espanhol a loirinha de voz firme, enquanto se movimenta com graça no palco do Fórum da Liberdade, ornado com os logotipos dos patrocinadores oficiais – Souza Cruz, Gerdau, Ipiranga e RBS (afiliada da Rede Globo). O auditório de 2 mil lugares da PUC-RS, em Porto Alegre, completamente lotado, explode em risos e aplausos para a guatemalteca Gloria Álvarez, 30 anos, filha de pai cubano e mãe descendente de húngaros.</p>
<p><div id="attachment_703" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-703" class="size-large wp-image-703" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita1-1024x682.jpg" alt="Gloria Alvarez, a estrela da direita jovem latino-americana. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-703" class="wp-caption-text">Gloria Alvarez, a estrela da direita jovem latino-americana. Foto: Fernando Conrado</p></div></p>
<p>Gloria ou @crazyglorita (55 mil seguidores no Twitter e 120 mil em sua <em>fanpage</em> do Facebook) ascendeu ao estrelato entre a juventude de direita latino-americana no final do ano passado, quando um vídeo em que ataca o “populismo” na América Latina durante o Parlamento Iberoamericano da Juventude em Zaragoza (Espanha) viralizou na internet. No principal fórum da direita brasileira, Gloria e o ex-governador republicano da Carolina do Sul David Bensley são os únicos entre os 22 palestrantes, brasileiros e estrangeiros, escalados para os <em>keynote</em> – palestras-chave que norteiam os debates nos três dias do evento, batizado de “Caminhos da Liberdade”.</p>
<p>Radialista há dez anos, hoje com um programa na TV, Gloria é uma show-woman cativante. Conduz com desenvoltura a plateia formada majoritariamente por estudantes da PUC gaúcha, uma das melhores e mais caras universidades do Sul do país. “Quem aqui se declara liberal ou libertarista que levante a mão?”, pede ao público, que responde com mãos erguidas. “Ah, ok”, relaxa. Sua missão é ensinar a seus pares ideológicos como “seduzir e enamorar os públicos de esquerda” e vencer “os barbudos de boina de Che”, explica a jovem líder do Movimiento Cívico Nacional (MCN), uma pequena organização que surgiu em 2009 na Guatemala na esteira dos movimentos que pediam – sem êxito – o impeachment do presidente social-democrata Álvaro Colom.</p>
<p>A primeira lição é utilizar nas redes sociais o <em>hashtag</em> criado por ela, “república x populismo”, para superar “a divisão obsoleta entre direita e esquerda”. “Um esquerdista intelectualmente honesto tem de reconhecer que a única saída é o emprego, e um direitista do século 21, que já se modernizou, tem de reconhecer que a sexualidade, a moral, as drogas são um problema de cada um; ele não é a autoridade moral do universo”, continua, sob uma chuva de aplausos. Nada de culpa, nem moral nem social, ensina. A mensagem é liberdade individual, “empoderamento” da juventude, impostos baixos, Estado mínimo – a plataforma da direita liberal (em termos econômicos) no mundo todo: “A riqueza não se transfere, senhores, a riqueza se cria a partir da cabecinha de cada um de vocês”, diz. Da mesma maneira, Gloria rebate programas sociais de assistência aos mais pobres, política de cotas para mulheres, negros, deficientes e até mesmo a existência de minorias: “Não há minorias, a menor minoria é o indivíduo, e a ele o que melhor serve é a meritocracia”.</p>
<p>“Há uma verdade que todo ser humano deve alcançar para ter paz, se não quiser viver como um hipócrita. Todos nós, 7 bilhões e meio de seres humanos que habitamos este planeta, somos egoístas. É essa a verdade, meus queridos amigos do Brasil, todos somos egoístas. E isso é ruim? É bom? Não, é apenas a realidade”, diz, definitiva. “Há pessoas que não aceitam essa verdade e saem com a maravilhosa ideia: ‘Não! [<em>imita a voz de um homem</em>], eu vou fazer a primeira sociedade não egoísta’. Cuidem-se, brasileiros; cuide-se, América Latina! Esses espertinhos são como Stálin, na União Soviética, como Kim Jong-il, Kim Jong-un, na Coreia do Norte, Fidel Castro, em Cuba, Hugo Chávez, na Venezuela.” E por que “seguimos como carneirinhos” atrás desses “hipócritas”? Porque [<em>faz careta e vozinha de velha</em>] “nos ensinam que é feio ser egoísta e que pensar em nós mesmos é pecado. Quantos de vocês já não viram alguém dizer ‘ah, necessitamos de um homem bom, que não pense só em si”, diz, encurvando-se à medida que fala para em seguida recuperar a postura altiva: “<em>Mira, señores</em>, a menos que seja um marciano, esse homem não existe, nunca existiu, nem existirá jamais”. Aplausos frenéticos.</p>
<p>Mas, explica, os “defensores da liberdade” também tem sua parcela de responsabilidade. Eles não sabem comunicar suas ideias, usar a tecnologia para “empoderar os cidadãos” e “libertar” a América Latina. “Se ficarmos discutindo macroeconomia, PIB etc., vamos perder a batalha. Temos que aprender com os populistas a falar o que as pessoas entendem, fazer com que se identifiquem”, ela diz. “E aqui vou lhes dar outro conselho porque dizem que nós, os liberais, somos malditos exploradores”, ironiza. “Encontrei um maneira muito bonita de definir o conceito de propriedade privada. E com esse conceito de propriedade privada os esquerdistas fazem assim: Ôooooo! [<em>inclina o corpo para trás</em>].” A propriedade privada, diz, é o que acumulamos em toda uma vida, a partir de nossas primeiras propriedades: corpo e mente. O passado, afirma, não é igual para ninguém, esse acúmulo é pessoal. “Isso nos humaniza, dá um coraçãozinho a nós, liberais, tão desgraçados.” Risos. Aplausos.</p>
<p>“Há pessoas que querem o direito à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia. A ONU agora quer até o direito universal à internet”, desdenha, embora tenha acabado de dizer que a tecnologia é a chave para mudar o mundo. “Imaginem que, nesse auditório, alguns queiram o direito à educação, outros o direito à saúde, outros o direito à moradia. Então, se eu dou a vocês a educação, todos aqui vão pagar por isso, e vocês vão ser VIPs, e eles, cidadãos de segunda categoria. Se eu dou a eles a saúde, todos neste auditório vão pagar pela saúde deles, e eles vão ser VIPs. Se eu dou a esses as moradias, vou ter que tirar de todos vocês para dar moradia a eles, e eles vão ser esses VIPs. Isso não é justiça social, é desigualdade perante a lei”, conclui, novamente sob risos e aplausos.</p>
<p>“Se cada um na América Latina tiver direito à vida, liberdade e propriedade privada, então cada um que vá atrás da educação que queira, da saúde que queira, da casa onde quer morar, sem precisar de super-Chávez, super-Morales, super-Correa”. Ovação. Assobios. Antes de encerrar os 40 minutos de exposição, Gloria convida os presentes a contrapor a visão de mundo que “vitimiza os latino-americanos”, “joga a culpa nos ianques”, mina a “autoestima” e a coragem de assumir riscos que exige o espírito empreendedor. A plateia aplaude de pé.</p>
<p><strong><a href="http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Leia mais: <em>A direita abraça a rede</em></a></strong></p>
<h3><strong>Neoliberais e libertaristas</strong></h3>
<p>Gloria Álvarez não representa nada exatamente novo. A grande diferença é a linguagem. O MCN (movimento a que ela pertence) recebe “fundos de algumas das maiores empresas da elite empresarial tradicional, conta o jornalista investigativo Martín Rodríguez Pellecer, diretor do site guatemalteco Nómada, parceiro da <strong>Pública</strong>. “Por fontes próximas, soube que uma das indústrias que os apoiam para campanhas de massa e lobby no Congresso é a Azúcar de Guatemala, um cartel poderosíssimo de treze empresas (a Guatemala é o quarto maior exportador mundial de açúcar) e as usinas guatemaltecas têm, inclusive, investimentos em usinas no Brasil.”</p>
<p>O mesmo pode-se dizer em relação a suas ideias. Apesar do título sedutor, os <em>libertarians </em>– libertaristas em português – “são um segmento minoritário entre as correntes que ganharam influência no pós-guerra em oposição às políticas intervencionistas de inspiração keynesiana”, explica o economista Luiz Carlos Prado, da Universidade Federal no Rio de Janeiro.</p>
<p>A partir da crise do petróleo dos anos 1970, economistas pró-mercado como o austríaco Friedrich Hayek (Prêmio Nobel de 1974), monetaristas da Escola de Chicago de Milton Friedman (Prêmio Nobel de 1976) e os novo-clássicos associados a Robert Lucas (Prêmio Nobel de 1995) passaram a dominar o pensamento econômico global e se tornaram conhecidos do grande público sob um único rótulo: “neoliberal”. Seus conceitos foram trazidos para a América Latina pelo setor mais conservador americano, representado principalmente pelos <em>think tanks</em> ligados a Ronald Reagan, que depois de ter perdido as primárias republicanas em 1968 e 1976, se elegeu presidente em 1980, tendo Friedman como principal conselheiro. Também predominaram no governo de Margaret Thatcher (1979-1991) na Inglaterra. “Os defensores do liberalismo clássico eram também defensores da liberdade política, mas a corrente chamada de ‘neoliberal’ defendia essencialmente a não intervenção do Estado na economia sem uma preocupação particular com a questão da liberdade política, chegando, em alguns casos, a apoiar sem constrangimentos governos ditatoriais como o de Pinochet no Chile”, observa Luiz Carlos Prado.</p>
<p>A Guatemala de Gloria Álvarez é um bom exemplo de como as ideias <em>libertarians</em> se traduziram na América Latina. Em 1971,“uma parte muito representativa da elite econômica guatemalteca assumiu como projeto político o libertarismo de direita, quando fundou a Universidade Francisco Marroquín (UFM)”, conta o jornalista Martín Rodríguez Pellecer. “O fundador da universidade, Manuel Ayau, conhecido como El Muso, em alusão a Mussolini, se uniu ao projeto fascista anticomunista da MLN. Desde então, a UFM vem formando quadros políticos e acadêmicos para desacreditar o Estado e a justiça social e converter a Guatemala no país que arrecada menos impostos na América Latina (11% em relação ao PIB) e o que menos redistribui”, explica. Foi nessa universidade que Gloria estudou e “se converteu em uma libertarista um tanto menos conservadora que seus professores, uma mistura de neoliberais e Opus Dei. Álvarez se declara ateia e a favor do aborto e, embora tenha se tornado uma estrela da direita latino-americana, na Guatemala é uma referência menor para a direita, não tem base política nem vai ser candidata. Eu a vejo mais como uma <em>enfant terrible</em> libertarista”, diz Martín.</p>
<p>Os <em>libertarians </em>ressurgiram com força nos Estados Unidos depois da crise de 2008 – e ao clamor subsequente pela regulamentação do mercado – e em decorrência da ascensão do democrata Barack Obama ao poder. Pregam a predominância do indivíduo sobre o Estado, a liberdade absoluta do mercado, a defesa irrestrita da propriedade privada. Afirmam que a crise econômica que jogou 50 milhões de pessoas na pobreza não se deveu à falta de regulação do mercado financeiro, mas pela proteção do governo a alguns setores da economia. E rejeitam enfaticamente os programas sociais do governo Obama. No entanto, uma parte significativa dos libertaristas tem se distanciado do tradicionalismo da direita no campo do comportamento, defendendo posições associadas à esquerda, como a defesa da liberação das drogas e a tolerância aos homossexuais, em nome da liberdade do individual. O senador republicano Rand Paul, pré-candidato à presidência, é um de seus representantes mais conhecidos.</p>
<p>“Os <em>libertarians </em>que estão com os conservadores no Tea Party (a corrente radical de direita no Partido Republicano americano) estão em <em>think tanks</em> como o Cato Institute e compõem a direita pós-moderna, representada, por exemplo, por Cameron, na Inglaterra, que modernizou a agenda da redução do estado do bem-estar social”, resume o professor. Ele acha graça quando falo em <em>libertarians </em>brasileiros, seguidores da escola austríaca de economia de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. “A escola austríaca é uma corrente muito minoritária mesmo na academia”, diz. “Quem são esses <em>libertarians</em>? O que temos no Brasil são economistas sofisticados que seguem correntes como a dos novo-clássicos do prêmio Nobel Robert Lucas e outras similares, políticos de direita pouco elaborados como o Ronaldo Caiado (senador do DEM-GO) e essa classe média conservadora que lê Rodrigo Constantino na <em>Veja</em>”, resume.</p>
<p><div id="attachment_704" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-704" class="size-full wp-image-704" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita2.jpg" alt="O senador Ronaldo Caiado (GO), um dos mais aplaudidos em Porto Alegre. Foto: Fernando Conrado" width="600" height="400" /></a><p id="caption-attachment-704" class="wp-caption-text">O senador Ronaldo Caiado (GO), um dos mais aplaudidos em Porto Alegre. Foto: Fernando Conrado</p></div></p>
<p>Caiado e Constantino são participantes veteranos do Fórum da Liberdade em Porto Alegre. A novidade é que os <em>libertarians</em> do Tea Party mostraram-se enfim capazes de se apresentar como a face convidativa da direita para a juventude brasileira.</p>
<h3><strong>Vem pra rua, ciudadano</strong></h3>
<p><div id="attachment_705" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-705" class="size-large wp-image-705" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita3-1024x682.jpg" alt="Em palestra no Instituto FHC, Gloria fala para o ex-presidente, sentado à sua frente. Foto: Vinicius Doti/iFHC" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-705" class="wp-caption-text">Em palestra no Instituto FHC, Gloria fala para o ex-presidente, sentado à sua frente. Foto: Vinicius Doti/iFHC</p></div></p>
<p>Na véspera do Fórum, no dia 12 de abril, Gloria Álvarez discursou contra o “populismo maldito” vestida com uma camiseta de lantejoulas formando a bandeira do Brasil para cerca de 100 mil pessoas na avenida Paulista, em São Paulo, na segunda rodada de manifestações “Fora Dilma”. Do alto do caminhão do Vem pra Rua, o líder do movimento, Rogério Chequer, a apresentou à multidão como “uma das maiores representantes da batalha contra o populismo do Foro de São Paulo” e se manteve o tempo todo ao seu lado (<em>veja o vídeo com o discurso de Gloria na Paulista </em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sfvtonYYCbE"><em>aqui</em></a>). Gloria, que havia anunciado antecipadamente sua presença nos protestos em uma entrevista no programa de Danilo Gentili no SBT, tinha dado uma palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso, assistida pelo próprio ex-presidente, três dias antes.</p>
<p>Entre os que lideraram os protestos de março e abril contra o governo, o movimento de Chequer foi um dos últimos a assumir a bandeira do impeachment, o que lhe valeu um pito público do vetusto Olavo de Carvalho, que o acusou de “paumolice tucana”. O Movimento Brasil Livre, conhecido principalmente através da figura de Kim Kataguiri, assumiu desde o início a bandeira do impeachment e rompeu publicamente com Chequer, divulgando fotos dele ao lado do senador José Serra (PSDB-SP) na campanha de Aécio Neves – tachado de “traidor” pela hesitação em pedir o impeachment da presidente eleita. Voltaram às boas depois que a comissão de senadores liderada por Aécio e Ronaldo Caiado (DEM-GO) fez sua controversa expedição a Caracas.</p>
<p>Caiado, aliás, estava no debate de abertura da edição do Fórum deste ano. Sem a graça irreverente de Glorita, o senador ruralista conservador arrancou aplausos da plateia com frases de efeito contra a corrupção do governo (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=cFhyyGXmzto">veja aqui o vídeo com sua apresentação</a>), menções ao “Foro de São Paulo”, pedido de “renúncia” à presidente Dilma e ataques ao BNDES. Curiosamente, as acusações de Caiado foram feitas sob os logotipos da Gerdau e Ipiranga – do grupo Ultra –, que estão entre os maiores tomadores de empréstimos do BNDES segundo os <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2010/08/779517-veja-quanto-receberam-os-grupos-mais-favorecidos-pelo-bndes.shtml" rel="lightbox-video-0">dados levantados pela <em>Folha de S.Paulo</em></a>. Ambos obtiveram individualmente mais de R$ 1 bilhão de recursos do banco apenas entre 2008 e 2010.</p>
<p>O empresário gaúcho Jorge Gerdau é um dos idealizadores do Fórum da Liberdade, que surgiu em 1988 com a intenção de promover o debate entre diversas correntes de pensamento. Em suas primeiras edições, o Fórum incluiu o ex-presidente Lula, o ex-ministro José Dirceu e o falecido ex-governador Leonel Brizola entre os debatedores, sem prejudicar sua identidade como principal fórum conservador do país.</p>
<p><div id="attachment_706" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direira4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-706" class="size-large wp-image-706" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direira4-1024x682.jpg" alt="Rodrigo Constantino autografa livro para fãs durante o Fórum. Foto: Felipe Gaieski" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-706" class="wp-caption-text">Rodrigo Constantino autografa livro para fãs durante o Fórum. Foto: Felipe Gaieski</p></div></p>
<p>Foi ali que, em 2006, foi lançado oficialmente o principal <em>think tank</em> da direita no Brasil, o Instituto Millenium. Armínio Fraga (escolhido para ser ministro da Fazenda de Aécio Neves se ele vencesse as eleições) é sua figura mais conhecida no campo econômico. Seus mantenedores são a Gerdau, a editora Abril e a Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, dono da locadora de veículos Localiza. A Suzano, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo Évora (dos irmãos Ling) também são parceiros. William Ling participou da fundação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) em 1984, que, formado por jovens líderes empresariais, organiza o Fórum desde a primeira edição; seu irmão, Wiston Ling, é fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul; o filho, Anthony Ling, é ligado ao grupo Estudantes pela Liberdade, que criou o MBL. O empresário do grupo Ultra, Hélio Beltrão, também está entre os fundadores do Millenium, embora tenha o próprio instituto, o Mises Brasil.</p>
<p>A rede de <em>think tanks</em> liberais e libertaristas no Brasil se completa com mais duas entidades: o Instituto Ordem Livre – que realiza seminários para a juventude – e o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, do Rio de Janeiro, ligado ao Opus Dei. O jurista Ives Gandra, autor do controverso parecer sobre a existência de base jurídica para o impeachment da presidente Dilma, faz parte de seu conselho.</p>
<p><strong><a href="http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Leia mais: <em>A direita abraça a rede</em></a></strong></p>
<p>A exemplo do Millenium, a grande maioria desses institutos foi criada recentemente. A semente original foi o Instituto Liberal, criado em 1983 pelo engenheiro civil carioca Donald Stewart Jr., falecido em 1999. De acordo com a tese de doutorado do historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), “A ditadura dos empreiteiros (1964-1985)”, a Ecisa (Engenharia Comércio e Indústria S.A.), empresa de Stewart Jr., foi uma das maiores empreiteiras durante a ditadura militar e Stewart Jr. se associou à construtora norte-americana Leo A. Daly para construir escolas no Nordeste para a Sudene. A participação de companhias dos EUA nas obras era exigência dos financiamentos da Usaid – a agência de desenvolvimento americana que funcionava como braço da CIA durante as ditaduras latino-americanas.</p>
<p>Donald Stewart Jr. também era um velho amigo de um personagem crucial nessa história, o argentino radicado nos Estados Unidos Alejandro Chafuen, 61 anos, ambos membros da seleta Mont Pelèrin Society, fundada pelo próprio Hayek em 1947 na Suíça e sediada nos Estados Unidos, que reúne os mais fiéis <em>libertarians</em>. El Muso, o fundador da universidade onde estudou Gloria Álvarez, foi o primeiro latino-americano a presidir a Mont Pelèrin, e seu atual reitor, Gabriel Calzada, participa da diretoria com a brasileira Margaret Tsé, CEO do Instituto da Liberdade, <a href="http://revistavilanova.com/entrevista-winston-ling/">o suporte ideológico do IEE</a>. O atual presidente da Mont Pelèrin Society é o espanhol Pedro Schwartz Girón, semeador de <em>think tanks</em> vinculados à FAES, a fundação do Partido Popular (PP) presidida por José María Aznar, que promoveu o Parlamento Iberoamericano da Juventude, de onde Gloria Álvarez foi catapultada para a fama. Pedro Schwartz, Alejandro Chafuen e o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, coautor do livro <em>Manual do perfeito idiota latino-americano</em>, um <em>hit</em> da juventude de direita, participaram do painel “América Latina”, no Fórum da Liberdade. Chafuen também participou discretamente dos protestos de 12 de abril em Porto Alegre. Não resistiu, porém, a postar em seu Facebook uma foto em que aparece vestido com a camisa da CBF abraçado ao jovem cientista político Fábio Ostermann, da coordenação do Movimento Brasil Livre – nome que assumiu nas ruas o grupo Estudantes pela Liberdade (EPL).</p>
<p><div id="attachment_707" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-707" class="size-full wp-image-707" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita5.jpg" alt="Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann do MBL na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook" width="600" height="600" /></a><p id="caption-attachment-707" class="wp-caption-text">Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann do MBL na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook</p></div></p>
<p>O gaúcho Ostermann, o mineiro Juliano Torres e o gaúcho Anthony Ling são fundadores do EPL, a versão local do Students for Liberty, uma organização-chave na articulação entre os <em>think tanks</em> conservadores americanos – especialmente os que se definem como libertários – e a juventude “antipopulista” da América Latina. Mr. Chafuen, presidente da Atlas Network desde 1991, é o seu mentor.</p>
<p>A Atlas Network (nome fantasia da Atlas Economic Research Foundation desde 2013) é uma espécie de <em>metathink tank</em>, especializada em fomentar a criação de outras organizações libertaristas no mundo, com recursos obtidos com fundações parceiras nos Estados Unidos e/ou canalizados dos <em>think tanks</em> empresariais locais para a formação de jovens líderes, principalmente na América Latina e Europa oriental. De acordo com o formulário 990, que todas as organizações filantrópicas tem de entregar ao IRS (Receita nos EUA), <a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Atlas-Network-2013-21.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">a receita da Atlas em 2013 foi de US$ 11,459 milhões</a>. Os recursos destinados para atividades fora dos Estados Unidos foram de US$ 6,1 milhões: dos quais US$ 2,8 milhões para a América Central e US$ 595 mil para a América do Sul.</p>
<p>Com exceção do Instituto Fernando Henrique Cardoso, todas as organizações citadas até agora compõem a rede da Atlas Network no Brasil, incluindo o MCN de Gloria Álvarez, a Universidade Francisco Marroquín e o Estudantes pela Liberdade, uma organização que nasceu dentro da Atlas em 2012. Como veremos, além dos recursos citados há projetos bem mais vultosos financiados por outras fundações e executados pela Atlas.</p>
<h3><b>O discreto charme de Mr. Chafuen</b></h3>
<p>Sentado na sala VIP do Fórum da Liberdade, Mr. Chafuen se levantou de um salto para cumprimentar Kim Kataguiri, que apareceu “de surpresa” no Fórum da Liberdade. A alegria indisfarçável desse senhor recatado, um <em>libertarian</em> ligado ao Opus Dei, foi a deixa para pedir a entrevista. Os trechos principais estão transcritos aqui.</p>
<p><strong>Como o senhor se aproximou do Brasil?</strong><br />
Comecei a trabalhar com os amigos da Liberdade brasileiros em 1998, com Donald Stewart, e eu sempre me lembro da solidão que ele sentia na batalha pela liberdade. Chegar em Porto Alegre no mesmo dia da manifestação e ver todo esse povo, nem todos <em>libertarians</em>, mas pessoas de diversas camadas da sociedade brasileira, reivindicando coisas que são muito consistentes com a essência da sociedade livre, me fez lembrar esses pioneiros. Porque, sim, era tanta gente na rua, tantas almas, que fiquei agradavelmente surpreso me perguntando o que virá depois, como nós podemos usar esse entusiasmo de tantos jovens para produzir uma mudança mais duradoura no Brasil.</p>
<p><strong>E que mudança seria essa?<br />
</strong>Vindo de fora é difícil dizer, não é fácil dizer o que fazer, isso é específico de cada país. Veja a Espanha hoje, em que os partidos perderam terreno para os novos movimentos como Podemos, de esquerda, ou seu oposto na Catalunha, o Ciudadanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos o Tea Party, um movimento espontâneo que, em vez de fundar um partido, preferiu se tornar uma tendência dentro de um partido, e agora todos, com exceção de um dos principais candidatos presidenciais republicanos, se identificam com o Tea Party e buscam apoio no movimento. Rand Paul, Marco Rubio, Ted Cruz, todos vêm do Tea Party e são quase oposição aos republicanos tradicionais. Então, essa não é uma resposta que um estrangeiro possa dar, ainda mais no Brasil, que é um mundo em si mesmo, com tantas culturas diferentes. Nós damos algumas ideias, mas cabe a eles, os que vi na rua, os jovens e os não tão jovens, captar mais gente da sociedade civil para criar essa institucionalização.</p>
<p><strong>Comento com ele que nos eventos do Fórum se fala muito em falta de liberdade – sem base na realidade – e se compara o país com a Venezuela</strong>.<br />
Sim, aqui a situação é bem diferente da Venezuela, mas vocês têm que se prevenir. Não é assim, de um dia para outro, que a perda da liberdade acontece. A Venezuela era um dos países mais prósperos e veja o que aconteceu. O populismo na América Latina enfraquece as instituições. Eles deixam os empresários se sentirem livres para investir por algum tempo, deixam a liberdade de expressão, até que mais cedo ou mais tarde viram o jogo. As primeiras nacionalizações e expropriações que o Chávez fez foram vários anos depois de ele tomar o poder. Sim, aqui vocês têm uma liberdade considerável. Mas tem uma coisa que perverte a liberdade, que é o não cumprimento da lei, o privilégio, a corrupção, o capitalismo só para os amigos. É uma falsa liberdade. É como pôr a raposa no galinheiro e dizer às galinhas: vocês estão livres agora. Daí começam os problemas [denúncias de propina], os empresários são obrigados a entrar no jogo, e eles que pagam o pato. É preciso dois para dançar um tango, como se diz na Argentina.</p>
<p><strong>E os meninos do Movimento Brasil Livre têm forças para promover uma mudança social?<br />
</strong>Eu desenvolvi um modelo para explicar como as coisas acontecem, e ele tem quatro elementos: primeiro, ideias, já que os seres humanos pensamos antes de agir ou pelo menos deveríamos; segundo, motivação: economia é motivação; o terceiro é ação, porque ideias sem ação são apenas ideias; e o quarto é a Providência ou, dependendo do que você acredita, sorte. Então, você começa a trabalhar com ideias, alguns líderes emergem, as leis mudam e isso afeta a motivação da sociedade… A mudança típica não vem de um dia para outro. Essa pressão vai se acumulando e de repente alguma coisa acontece. E aqui vem um escândalo, outro escândalo, uma revista com coragem, uns jovens de São Paulo [Kim Kataguiri e Renan Haas, do MBL, anunciaram recentemente a decisão de sair da universidade para se dedicar ao movimento] que decidem: “Vou deixar a universidade e lutar contra isso”. E esse movimento está aí nas ruas. É uma combinação de fatores que temos visto em outras épocas na história. O senhor William Waack [jornalista da Rede Globo], que recebeu um prêmio aqui, disse para nós, em um almoço antes da abertura do Fórum, que o único momento que ele viveu que se comparava a isso foi quando cobriu a queda do Muro de Berlim. Exagerou um pouco, mas não se sabe ainda o que vai ser desse movimento.</p>
<p><div id="attachment_708" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita6.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-708" class="size-full wp-image-708" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita6.jpg" alt="William Waack recebe o prêmio “Liberdade de Imprensa”. Foto: Felipe Gaieski" width="600" height="400" /></a><p id="caption-attachment-708" class="wp-caption-text">William Waack recebe o prêmio “Liberdade de Imprensa”. Foto: Felipe Gaieski</p></div></p>
<p><strong>Depois da primeira manifestação, em março deste ano, a Atlas <a href="https://www.atlasnetwork.org/news/article/students-for-liberty-plays-strong-role-in-free-brazil-movement">publicou uma matéria</a> em seu site comemorando o papel decisivo dos Estudantes pela Liberdade, parceiro da Atlas, nos protestos brasileiros contra a presidente Dilma Rousseff e o PT. O senhor se sente responsável por esse movimento?<br />
</strong>Nosso papel [em relação aos Estudantes pela Liberdade] é o do poder da nutrição. Esses seres humanos, nós o chamamos de empreendedores intelectuais, pessoas com novas ideias, que enxergam soluções e decidem investir seu capital nisso. É como nos negócios. Então, damos a eles programas de treinamento, tentamos apoiá-los financeiramente, encorajá-los a ser muito sérios, não muito festeiros. Mas a Atlas não apoia partidos. Nós retiramos nosso apoio se houver intenção partidária. Não aceitamos nenhum recurso do governo, mas podemos oferecer algumas diretrizes, novas ideias sobre a sociedade livre, do liberalismo clássico ao libertarismo, de religiosos a ateus, mas cabe a cada pessoa escolher. Muitos na nossa organização achamos muito negativo ter uma aproximação de cima para baixo. Nós tentamos encorajá-los, facilitar os encontros entre eles. Agora, por exemplo, em todos os lugares do mundo, eles devem estar se perguntando: “Podemos copiar os brasileiros?”. Então comemoramos, mas temos que ser muito cuidadosos para não ficar com os créditos do resultado, do que acontece localmente.</p>
<p><strong>Na Venezuela, o Cedice Libertad, que é uma organização parceira da Atlas, e o Cato Institute, que financia programas da Atlas para estudantes, foram acusados pelo governo Chávez de fomentar a oposição entre os estudantes, associadas a empresários locais.<br />
</strong>Eu sou vice-presidente do Cedice, e a verdade é que não. Em algumas vezes, alguns membros do Cedice podem ter tido alguma participação política. Mas uma coisa é a vida política, a pólis, outra coisa é trabalhar somente com um partido político. Hoje em dia, nós temos trabalhado e recebido no Cedice Leopoldo López [que está preso] com seu partido da Internacional Socialista, [ex-deputada] María Corina Machado, Antonio Ledezma [prefeito de Caracas detido em março por tentativa de golpe de Estado, segundo o governo]. A resposta é: não podemos abandonar a luta pela liberdade, e algumas pessoas vão para a política. Mas a Atlas não se mete em política interna. “<em>The battle is not between left and right but between right and wrong.” </em>E agora a senhora me dê licença porque tenho que me preparar para a minha palestra [e se levanta].</p>
<p><strong>Uma última pergunta, por favor, só para não fomentar boatos. A ligação das fundações Koch com o Students for Liberty através de financiamento direto e através de outras fundações associadas aos irmãos Koch tem despertado suspeita, já que os Koch são donos de indústrias petroleiras que poderiam ter interesses aqui.<br />
</strong>A Atlas recebe 0,5% de financiamento dos Koch, a Students for Liberty, não sei. Até logo.</p>
<h3><strong>Students For Liberty e o Movimento Brasil Livre</strong></h3>
<p>Juliano Torres, o diretor executivo do Estudantes pela Liberdade (EPL), foi mais claro sobre a ligação entre o EPL e o Movimento Brasil Livre (MBL), uma marca criada pelo EPL para participar das manifestações de rua sem comprometer as organizações americanas que são impedidas de doar recursos para ativistas políticos pela legislação da receita americana (IRS). “Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty, por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: ‘Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização para evitar problemas. Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto. E a gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil <em>likes</em> na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança. O Kim, inclusive, vai participar agora de um torneio de pôquer filantrópico que o Students For Liberty organiza em Nova York para arrecadar recursos. Ele vai ser um palestrante. E também na conferência internacional em fevereiro, ele vai ser palestrante”, disse em entrevista por telefone na sexta-feira passada.</p>
<p>Remunerado por seu cargo na EPL, Juliano conta que tem duas reuniões online por semana com a sede americana e que ele e outros brasileiros participam anualmente de uma conferência internacional, com as despesas pagas, e de um encontro de lideranças em Washington. O <em>budget</em> do Estudantes pela Liberdade no Brasil deve alcançar R$ 300 mil este ano. “No primeiro ano, a gente teve mais ou menos R$ 8 mil, o segundo foi para R$ 20 e poucos mil, de 2014 para 2015 cresceu bastante. A gente recebe de outras organizações externas também, como a Atlas. A Atlas, junto com a Students for Liberty, são nossos principais doadores. No Brasil, as principais organizações doadoras são a Friederich Naumann, que é uma organização alemã, que não são autorizados a doar dinheiro, mas pagam despesas para a gente. Então houve um encontro no Sul e no Sudeste, em Porto Alegre e Belo Horizonte. Eles alugaram o hotel, a hospedagem, pagaram a sala do evento, o almoço e o jantar. E tem alguns doadores individuais que fazem doação para a gente.”</p>
<p>A fundação da EPL no Brasil veio depois de Juliano ter participado de um seminário de verão para trinta estudantes patrocinado pela Atlas em Petrópolis, em 2012. “Ali mesmo a gente fez um rascunho, um planejamento e daí, depois, a gente entrou em contato com a Students for Liberty para oficialmente fazer parte da rede”, diz.</p>
<p>Depois disso, ele passou por quase todo tipo de treinamento na Atlas. “Tem um que eles chamam de MBA, tem um treinamento em Nova York também, treinamentos online. A gente recomenda para todas as pessoas que trabalham em posições de mais responsabilidade que passem pelos treinamentos da Atlas também.”</p>
<p>Os resultados obtidos pelos brasileiros têm impressionado a sede nos Estados Unidos. “Em 2004, 2005 tinha uma dez pessoas no Brasil que se identificavam com o movimento libertário. Hoje, dentro da rede global do Students for Liberty, os resultados que a gente tem são muito bons. Uma das maneiras de medir o desempenho das regiões é o número de coordenadores locais. Em todas as regiões, contando a América do Norte, a África, a Europa, a gente tem mais coordenadores que qualquer região separadamente. Nos Estados Unidos, a organização existe há oito anos; na Europa, há quatro; aqui, há três anos. Então, a gente está tendo mais resultado em muito pouco tempo que acaba traduzindo em maior influência na organização.”</p>
<p>Há dois brasileiros no International Board do Students for Liberty (entre dez membros), e o relatório deste ano dedica uma página especialmente às manifestações do MBL no Brasil. A brasileira Elisa Martins, formada em Economia na Universidade de Santa Maria (RS), é a responsável pelos programas internacionais de bolsas de estudo e treinamento de lideranças jovens na Atlas Network.</p>
<p>Os programas são realizados em parceria com outras fundações, principalmente o Cato Institute, a Charles G. Koch Charitable Foundation e o Institute of Human Studies – fundações ligadas à família Koch, uma das mais ricas do mundo. Juntas, as 11 fundações dos Koch despejaram 800 milhões de dólares nas duas últimas décadas na rede americana de fundações conservadoras. Outra parceira importante é a John Templeton Foundation, de outro bilionário americano. Essas fundações têm orçamentos bem maiores do que a Atlas e desenvolvem programas de <em>fellowships</em> em que entram com recursos e a Atlas, com a execução. Um exemplo desses projetos é o financiamento da expansão da Rede Students for Liberty com recursos da John Templeton, fechado em 2014 <a href="https://www.templeton.org/what-we-fund/grants/students-for-liberty-international-expansion">com mais de US$ 1 milhão de orçamento.</a></p>
<p>Por isso, embora apareça em terceiro lugar entre as financiadoras do Students for Liberty, a Atlas levanta um volume bem maior de recursos para a organização através de suas parceiras. Todos os maiores doadores do Students for Liberty também são doadores da Atlas. Nem sempre é possível saber a origem do dinheiro, apesar da obrigação legal de publicar os formulários 990 – entregues ao IRS (Receita). As fundações conservadoras americanas escoam dinheiro por uma grande multiplicidade de canais, o que torna impossível, ao final, saber qual a origem inicial do dinheiro que chega a cada um dos receptores.</p>
<p>Além disso, preocupadas com a vigilância que exercem sobre elas projetos como o <a href="http://conservativetransparency.org/">Transparency Conservative</a> e órgãos de imprensa, que já revelaram uma série de escândalos envolvendo o uso desses recursos <a href="http://www.theguardian.com/world/2013/dec/05/state-conservative-groups-assault-education-health-tax">para lobbies no Congresso e nos governos estaduais</a>, bem como para causas controversas como a <a href="http://www.greenpeace.org/usa/en/campaigns/global-warming-and-energy/polluterwatch/koch-industries/">negação do aquecimento global</a>, em 1999 as fundações criaram dois fundos de investimento filantrópico – Donors Trust e Donors Capital Management – que dispensam os doadores de ter o nome exposto em formulários 990. O Donors Trust é o maior doador do Donors Capital Management (e vice-versa). Como se vê no quadro, o primeiro está entre os maiores doadores da Atlas, e o segundo é o maior doador do Students for Liberty. As fundações Koch <a href="http://www.motherjones.com/politics/2013/02/donors-trust-donor-capital-fund-dark-money-koch-bradley-devos">são as maiores suspeitas de despejar dinheiro</a> nesses fundos.</p>
<p>O relatório <a href="http://studentsforliberty.org/wp-content/uploads/2015/06/sfl-annual-report-2015-web.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">2014-2015 da Students for Liberty</a> mostra uma arrecadação de fundos impressionante: US$ 3,1 milhões comparados a apenas US$ 35,768 mil dólares obtidos em 2008<span style="text-decoration: underline;">,</span> quando a organização foi fundada. Desses, US$ 1,7 milhão veio de fundações, segundo o relatório que não detalha o volume doado por cada instituição. O Charles Koch Institute consta no relatório da Students for Liberty, mas, <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Chas-Koch-Institute-2013-.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">segundo o formulário</a></span>, doa bolsas apenas para estudantes americanos, enquanto a Charles Koch Foundation, que doa bolsas para estudantes em uma série de fundações, não é citada no relatório.  O Institute of Human Studies (IHS) – outra fundação da família Koch – é um dos principais responsáveis pelos programas de Fellowship para estudantes. Só em 2012 foram distribuídos 900 mil dólares em doações <a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Institute-for-Humane-Studies-2012-.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">de acordo com o formulário entregue ao IRS</a>.</p>
<p>A Atlas é uma das principais parceiras do IHS. O currículo de Fábio Ostermann, por exemplo, coordenador do MBL, diz que ele foi Koch Summer Fellow na Atlas Economic Research Foundation. Ostermann é assessor do deputado Marcel van Hattem (PP-RS), apontado por Kim Kataguiri como o único político a abraçar totalmente as convicções do MBL. O jovem deputado, que foi eleito com doações da Gerdau e do grupo Évora – do pai de Anthony Ling, fundador do EPL –, também participou de cursos na Acton Institute University, a mais religiosa das fundações libertaristas que compõem a rede de <em>fellowship</em> da Atlas e da Koch Foundation. Entre os seus princípios consta o “pecado”, por exemplo, <a href="http://www.acton.org/about/acton-institute-core-principles">relacionado de maneira singular com a necessidade de reduzir o Estado</a>.</p>
<h3><strong>A festa do mate</strong></h3>
<p>O Fórum da Liberdade, afinal, se encerrou como as manifestações de rua que o antecederam: aos gritos de “Fora Dilma”, “Fora PT”. O deputado Marcel van Hattem fez uma apresentação exaltada, depois de ter agradecido ao fórum o cargo – “Se eu sou deputado hoje, devo também ao Fórum da Liberdade” – e fez uma interessante distinção entre as manifestações de 2013 – pluripartidária e desorganizada – e as deste ano – “quando tínhamos pauta”.</p>
<p><div id="attachment_710" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita8.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-710" class="size-large wp-image-710" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita8-1024x682.jpg" alt="Marcel Van Hattem, deputado do PP-RS, apresenta sua teoria sobre o governo brasileiro. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-710" class="wp-caption-text">Marcel Van Hattem, deputado do PP-RS, apresenta sua teoria sobre o governo brasileiro. Foto: Fernando Conrado</p></div></p>
<p>O programa foi modificado com a chegada de Kim Kataguiri, que não constava como palestrante. Foi abraçado pelos patrocinadores, como Jorge Gerdau e Hélio Beltrão, posou para fotos com diversos fãs e, com o amigo Bene Barbosa, que lançava um livro pela liberação das armas de fogo para qualquer cidadão, foi para o auditório, novamente lotado de estudantes.</p>
<p>Sentadinho no sofá, Kim esperou Van Hattem desfiar as acusações de praxe – contra o Foro de São Paulo, o poder totalitário do PT e “o maior escândalo de corrupção do universo” –, arrancando aplausos a cada frase de efeito. Também despertou entusiasmo mostrando sua identificação com a plateia: “A vanguarda, hoje, não é esquerdista, é liberal. O jovem bem informado vai para as ruas e pede menos Marx, mais Mises. Curte Hayek, não Lênin. Levanta cartazes <em>hashtag</em> ‘Olavo tem razão’”.</p>
<p>Então, Van Hattem saiu do púlpito e, caminhando pelo palco, foi em direção a Kim. “O próximo passo depende de vocês, mas é difícil. O sistema brasileiro é refratário a novas ideias. Hoje mesmo, Kim, o deputado comunista Juliano Roso te chamou de fascista”, disse. E por fim: “Eu só quero concluir dizendo aquilo que as ruas estão dizendo: ‘Fora PT’. Aplausos, gritos. A plateia canta em coro: “Olê, olê, olê, olê, estamos na rua só pra derrubar o PT”.</p>
<p>Foi a deixa para a entrada de Kim. De tênis, andando pelo palco, Kim conclamou “os institutos liberais “a sair da nossa bolha liberal, da nossa bolha libertária, da nossa bolha conservadora e tomar o país.” E afirmou: “Chegou a hora da gente tirar o monopólio da esquerda da juventude. A gente tem que acabar com essa imagem de que quem defende o livre mercado é aquele tiozão de coturno que defende o regime militar. A oposição é a gente. A gente quer privatizar a Petrobras. A gente quer o Estado mínimo. Brasília não vai pautar o povo. É o povo que vai pautar Brasília”.</p>
<p><div id="attachment_711" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita9.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-711" class="size-large wp-image-711" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita9-1024x682.jpg" alt="O “herói” do Fórum , Kim Kataguiri, encontra o patrocinador da festa, Jorge Gerdau. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-711" class="wp-caption-text">O “herói” do Fórum , Kim Kataguiri, encontra o patrocinador da festa, Jorge Gerdau. Foto: Fernando Conrado</p></div></p>
<p>Três dias depois do Fórum, Kim Kataguiri partia para sua Marcha pela Liberdade em direção a Brasília, com minguada adesão, enquanto Gloria Álvarez  empreendia um périplo que a levaria da Argentina a Venezuela noticiado efusivamente em suas redes sociais. Na Argentina, passou por Buenos Aires e pela cidade de Azul, convidada pela Sociedade Rural de Argentina. Em Tucumán, suas palestras na Universidade Nacional foram organizadas pela Fundación Federalismo y Libertad, que tem em seu conselho internacional a Atlas Foundation, a Heritage Foundation, Cato Institute, o Hispanic American Center for Economic Research, o CEDICE Libertad (Venezuela) e o Instituto Ecuatoriano de Economía Política (Equador).</p>
<p>Todas essas organizações fazem parte da Atlas Network, assim como as outras fundações que encomendaram o passeio de Glorita: Estudiantes pela Libertad (Bolívia e do Equador), o Cedice, na Venezuela, e a Fundación Para El Progresso, no Chile.</p>
<p>O episódio mais interessante de sua viagem, porém, não foi registrado em suas redes sociais, nem mesmo nos jornais do Chile. No dia 23 de abril, ela e a blogueira cubana Yaoni Sanchez, encontraram-se com o ex-presidente conservador Sebastián Piñera depois de terem realizado palestras na Universidade Adolfo Ibañez em Viña del Mar.</p>
<p><div id="attachment_712" style="width: 577px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita10.png"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-712" class="size-full wp-image-712" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita10.png" alt="À esquerda, a blogueira cubana, Yaoni Sanchez; ao centro o ex-presidente do Chile Sebastián Piñera, à direita Gloria Alvarez. Foto: Reprodução/Twitter" width="567" height="510" /></a><p id="caption-attachment-712" class="wp-caption-text">À esquerda, a blogueira cubana, Yaoni Sanchez; ao centro o ex-presidente do Chile Sebastián Piñera, à direita Gloria Alvarez. Foto: Reprodução/Twitter</p></div></p>
<p>O encontro com o ex-presidente – que também é a única foto em que aparecem juntas – foi noticiado pelo twitter do economista Cristián Larroulet, ex-ministro de Piñera com a legenda “O Presidente Piñera com Yoani Sánchez e Gloria Álvarez, dois exemplos de mulheres latino-americanas que lutam pela liberdade”. Larroulet,  é fundador do think tank Libertad y Desarrollo, obviamente parceiro da Atlas Network.</p>
<p>&nbsp;		</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-roupa-nova-da-direira/">A roupa nova da direita</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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